Por Fabian Chacur

Minha paixão por discos já passou dos 40 anos de idade, e se iniciou, como vocês já estão ficando cansados de saber, de tanto fuçar a coleção de meu irmão Victor. Mas a história de como comprei o meu primeiro disco é bem engraçada e levemente constrangedora. Vou contá-la assim mesmo.

Estava às vésperas do meu primeiro aniversário, no préhistórico ano de 1971. Mais ou menos nessa época, comecei a ganhar uma pequena mesada, que para quem não sabe é aquele dinheirinho bem básico que os pais davam aos filhos naqueles tempos para comprar lanches, revistinha etc.

Eu já cobiçava e muito os discos do mano mais velho, e quando entraram alguns trocados no meu bolso, lógico que pensei em comprar eu mesmo um disquinho para mim. E fui a uma loja que existia perto de casa, a Josmar Discos, que ficava na rua Domingos de Moraes, Vila Mariana e cuja freguesa mais ilustre era Rita Lee Jones.

Todo nervoso, e junto com uma empregada bem jovem que trabalhava na minha casa (e que, infelizmente, seria logo dispensada por roubar jóias da minha mãe, que pena…), fui lá dar uma fuçada.

O estoque do Josmar não era tão legal como o de uma outra loja que abriria pouco depois, a Barlcão Discos (escrevia-se assim mesmo) na antiga galeria San Remo e que, acreditem, com outros donos e já no bico do corvo, existe até hoje por lá, na mesma Domingos e próxima ao metrô Ana Rosa.

Depois de olhar o que havia por lá e com vergonha de não comprar alguma coisa (pois eu estava doidinho para ter o meu primeiro compacto), olhei para um duplo (com quatro músicas; o simples tinha duas). A capa que ilustra esse post é da mesma época, mas não é a daquele raro disco.

A vantagem dos cds (abreviatura que usávamos, assim como cs era para compactos simples) era que, ao contrário da maioria dos disquinhos de duas músicas, eles sempre tinham capa.

A desse disco mostrava um cara cabeludo, barbudo e de roupa descolada cujo nome era Johnny Rivers. Lembrem-se de que estou falando do início dos anos 70, quando usar cabelo comprido e barba era um dos maiores sinais de liberdade e modernidade para um jovem.

Curti tanto o visu do cara que acabei comprando esse disco, mesmo sem ouví-lo. Queria eu ter um cabelão e uma barba daquelas, moleque suburbano que usava o visual padronizado de todos os da minha idade.

Que fique claro, antes que alguns leitores comecem a gritar “viadinho, viadinho!”, que não tive nenhuma atração sexual pelo cara. Mesmo! Nada contra, mas no meu caso específico, rigorosamente nada a favor.

Na época, nem sabia quem era aquele cantor. O selo do disco era preto, com o símbolo da gravadora Liberty. Para ser sincero, não me lembro do nome de uma das músicas, pois esse disco se perdeu. As outras três: Sea Cruise, Rainy Night In Georgia e I’m In Love Again.

Vou ser sincero: adorei as canções, especialmente o delicioso rock Sea Cruise, gravado originalmente (soube bem depois) por um tal Huey “Piano” Smith. Rivers sempre foi craque em reler sucessos alheios.

Só fui ter discos desse cantor, compositor eventual e guitarrista americano bem depois. Em 1977, sua maravilhosa balada Slow Dancing (Swain’ To The Music) estourou por aqui, integrando a trilha da novela Sem Lenço Sem Documento (se não me engano). Meu irmão comprou o cs, com Outside Help no lado B, que era a faixa-título do álbum dele que inclui a canção.

Dá para encarar? Um cara que hoje sabe umas duas ou três coisas sobre música (bem, acho que só umas duas, mesmo!) comprou seu primeiro compacto duplo por causa da capa. Mané!

Antes que você me pergunte, meu primeiro LP de vinil foi a trilha da novela O Homem Que Deve Morrer, com músicas da fantástica dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, que nos anos 2000 foi relançada em CD.