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CD bônus salva reedição de McCartney II

Por Fabian Chacur

Se há um forte candidato a pior álbum lançado por Paul McCartney em toda a sua carreira, ele atende pelo título McCartney II.

Lançado em 1980, o trabalho tinha como objetivo reeditar o espírito de McCartney (1970), primeiro disco solo do ex-beatle, no qual ele tocava todos os instrumentos.

Se a primeira tentativa gerou um álbum irregular, porém bastante agradável, a segunda deu ao mundo um troço equivalente ao comprovante de que, sim, o autor de Yesterday também é um ser humano passível de erros.

Experiências com teclados e efeitos eletrônicos dão a base à sonoridade do disco, que a rigor só traz duas músicas dignas de nota. Uma é a excepcional Coming Up, com batida irresistível e refrão matador, e a outra, a melancólica e emocionante balada Waterfalls.

De resto, as outras nove faixas são uma bola fora atrás da outra. Temporary Secretary é candidata forte a pior música da carreira do Macca, e merecia uma versão em português interpretada por Serginho Mallandro. Fica a (péssima) ideia.

On The Way é daqueles blues que qualquer um compõe em cinco minutos, de tão sem alma, enquanto Nobody Knows é aquele tipo de rock sem-vergonha que dá até dó.

One Of These Days nem chega a ser tão ruim, mas é uma balada folk que parece ter sido gravada em um freezer, de tão fria que ficou a versão registrada neste álbum.

Quanto às bem eletrônicas Front Parlour, Summer’s Day Song, Frozen Jap, Dark Room e a assustadoramente ruim Bogey Music, é melhor nem falar nada.

Pois McCartney II acaba de ser relançado no Brasil pela Universal Music em luxuosa edição dupla, com direito a encarte com letras e fotos (algumas inéditas) e dois CDs, um com versão remasterizada do álbum original e outro com raridades e faixas inéditas.

Já vejo você perguntando a si próprio: “se o álbum original é tão ruim, deve dar medo ouvir músicas que acabaram sendo rejeitadas e não entraram no mesmo”. Pois é aí que surge a surpresa.

Esse álbum bônus é muito melhor do que o original. Lógico que não se compara aos maiores clássicos de Paul, mas traz momentos muito mais instigantes do que o McCartney II.

Blue Sway, por exemplo, com batida hipnótica e belíssimo arranjo de cordas assinado por Richard Niles, foi gravada em 1979 e abandonada, sabe-se Deus porque. Essa mesma música aparece (em outra versão) em pot-pourry com All You Horse Riders.

Coming Up (Live At Glasgow) saiu em single junto com a versão de estúdio da mesma canção, mas atingiu o primeiro lugar nessa leitura live na parada americana.

Check My Machine foi lado B do single de Waterfalls, e acabou virando um grande hit nos bailes black brasileiros nos anos 80, fato que o astro britânico nem sonharia que poderia ocorrer.

Secret Friend, outra que só saiu em single, é uma instrumental eletrônica de batida simplesmente irresistível, e merecia ser descoberta por algum rapper ou astro dance por aí.

No geral, as oito faixas (algunas com mais de 10 minutos de duração) dão um panorama muito mais ousado e instigante dessa experiência eletrônica. Bastaria somar a elas Coming Up e Waterfalls e pronto, teríamos um McCartney II muito melhor.

Como queixa, só senti a falta de outra usada como lado B de Coming Up, a excelente instrumental Lunch Box/Odd Sox. E para os mais riquinhos, existe uma edição ainda mais luxuosa desse McCartney II, disponível nas importadoras a preço de ouro.

Veja o recém-lançado clipe de Blue Sway:

5 Comments

  1. Salve Flávio! Saudações Palestrinas!

    Comprei essas últimas reedições do Macca, respectivamente o I e II… em relação à esse último, posso dizer que vi nele ecos de Kraftwerk nas ditas eletrônicas. Parece-me que foi feito logo após a prisão no Japão.. e é realmente desencontrado. Pelo menos foi um deslize temporário [assim como foi Press to Play] pq logo a seguir viria Tug of War.

    Abraços

  2. O Paul tentou fazer um álbum da mesma forma “largada” que fez McCartney (cuja reedição comentarei por aqui nos próximos dias), mas não teve a mesma felicidade. Ou, ao menos, foi muito infeliz na seleção das faixas. Quanto ao Press To Play, permita-me discordar de você, pois na minha opinião ele aproveitou o “som da moda” de então, que era o do produtor Hugh Pagdham, e fez um disco pop muito legal, com músicas ótimas tipo Press, Angry, Pretty Little Head e Only Love Remains, entre outras. Mas essa é uma opinião polêmica, tem muita gente que concorda contigo. Grande abraço e volte sempre!!!

  3. Vou contrário à corrente. Sempre achei McCartney II um dos melhores discos do cara. Totalmente descompromissado com o sucesso. A não ser pela lenta Waterfalls, que tem seus momentos. O álbum “acidental” ganhou mais peso ainda com o relançamento. Acho McII superior a London Town, Speed Of Sound, Pipes Of Peace, Driving Rain e outros.

  4. admin

    April 2, 2013 at 6:33 pm

    Cláudio, não concordo com sua opinião, mas a respeito profundamente, ainda mais pelo fato de você ter escrito um belíssimo livro dedicado à carreira solo do autor de Yesterday. Uma honra receber sua visita por aqui. Grande abraço, tuuuudo de bom, e com uma coisa certamente concordadmos: a carreira solo de Sir James Paul McCartney é repleta de grandes momentos! Volte sempre, será um prazer!

  5. admin

    April 2, 2013 at 6:34 pm

    “Concordamos”, obviamente….rsrsrsrrs

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