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Pet Sounds e seu redemoinho de boas emoções e sensações

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Por Fabian Chacur

Pet Sounds completa 50 anos de lançamento neste mês de maio. O trabalho mais mitificado dos Beach Boys e presença inevitável na lista de melhores álbuns de rock de todos os tempos, trata-se de um disco que, tanto tempo depois de chegar ao conhecimento do público, permanece capaz de causar incrível prazer auditivo e mental a quem mergulha em seu conteúdo. Um clássico que merece essa badalação toda.

A semente que gerou a criação deste clássico CD foi a insatisfação de Brian Wilson, cantor, compositor e líder dos Beach Boys, ao ouvir Rubber Soul, dos Beatles, e se sentir muito atrás da banda britânica em termos criativos. Ele já estava cheio de falar sobre praias, sol, mulheres e diversão, sempre com uma base sonora leve e contagiante. A fórmula rendeu coisas muito boas, mas ele queria seguir adiante e não se repetir.

Como forma de tentar viabilizar esse objetivo ambicioso, resolveu deixar de participar dos shows da banda, passando a partir do final de 1965 a se dedicar exclusivamente ao trabalho de composições e de gravações do grupo. Convocou o letrista Tony Asher para ajuda-lo a traduzir em palavras seus sentimentos sobre amor, vida, sonhos, decepções etc. De quebra, resolveu transpor as fronteiras habituais e buscar outros instrumentos musicais e influências sonoras.

Foi dessa forma que nasceu Pet Sounds. Arranjos grandiosos, com direito a sonoridades até então não comuns no rock, incluindo instrumentos típicos da musica erudita e experimental, mudanças no andamento das canções, vocalizações elaboradas e tudo o que pudesse significar um novo rumo na vida musical dos Beach Boys. O grupo olhou esse desejo de Brian com certo temor, mas preferiu seguir os passos do líder, acreditando em sua intuição e talento. Fizeram bem.

Ouvir Pet Sounds equivale a uma bela viagem emocional, repleta de nuances sonoras e poéticas. Tudo começa com Wouldn’t It Be Nice, que coloca no condicional uma possibilidade aparente de felicidade, tipo “não seria legal se ficássemos juntos?”. As letras do álbum enveredam pela busca do amor, do seu eu interior, e da inadequação das pessoas mais sensíveis a um mundo costumeiramente violento, seco e sem espaços para o lirismo e o idealismo.

God Only Knows, sua música mais conhecida, é uma das declarações de amor mais belas jamais feitas (“só Deus sabe o que seria da minha vida sem você”). Here Today enfoca a fugacidade habitual do amor, enquanto Caroline No lamenta as mudanças ocorridas no comportamento da pessoa amada com o decorrer do tempo e o fim da paixão. I Know There’s An Answer vai fundo na ferida, com seus versos “eu sei que existe uma resposta, mas eu vou ter de achar por conta própria”.

O momento chave do álbum, e quem sabe para o que Brian Wilson sentia naquele momento de sua vida, aos 23 anos, é I Wasn’t Made For These Times, quando diz “aposto que não fui feito para esse tempo”. Não é de se estranhar que, nos anos que se seguiriam, o genial artista americano entraria em parafuso emocional, e teria muita dificuldade de lidar com a vida real, ficando muito próximo de enlouquecer ou mesmo morrer precocemente. Felizmente ele sobreviveu.

O resultado comercial de Pet Sounds nos EUA na época foi decepcionante, não passando do 10º lugar na parada da Billboard. Na Inglaterra, o trabalho se deu melhor. Mas os críticos gostaram, e mesmo vários colegas, entre eles Paul McCartney, que desde então sempre cita God Only Knows como sua música favorita de todos os tempos. Reza a lenda que Brian pirou após ouvir Sgt. Peppers, pois não se sentia à altura de tentar superar tal álbum.

Depois desse disco incrível, a genialidade de Brian Wilson permaneceu ativa. Smile, o clássico que ele desejava ser sua obra-prima, ficou pelo caminho e só se concretizou no longínquo 2004, quase 40 anos após o início de sua concepção. Valeu a espera, pois é um belo álbum, creditado a Brian Wilson como artista solo. Nada mais justo, pois Pet Sounds pode ser considerado, na prática, seu primeiro trabalho individual.

Brian Wilson fez coisas incríveis antes de Pet Sounds, e também faria, sozinho ou com os Beach Boys, outras maravilhas depois, como os ótimos álbuns Sunflower (1970), Surf’s Up (1971) e Holland (1973). Ficou bem, casou, teve vários filhos, voltou a fazer shows, esteve no Brasil e tudo. Tive a honra de apertar sua mão e ter meu Smile autografado por ele. Só Deus sabe a emoção que eu senti…

Obs.: uma última notinha: ouça Here Today e, na sequência, Alvorada Voraz, do RPM, e sinta como o riff da música da banda brasileira deve muito a uma parte da canção dos Beach Boys…

Pet Sounds– The Beach Boys (em streaming):

I Wasn’t Made For These Times– The Beach Boys:

Here Today– The Beach Boys:

Alvorada Voraz– RPM:

2 Comments

  1. vladimir rizzetto

    May 20, 2016 at 7:33 pm

    Salve Fabian!

    Entre tantos méritos que você citou, talvez o maior seja o de falar de sentimentos concernentes ao ser humano sem ser piegas, amplamente escorado por uma musicalidade rica, permitindo que o luxo e o improviso convivesse pacificamente ao longo de suas 13 faixas.
    Pet Sounds é definitivamente um disco arrebatador. E, sobre Smile, considero-o igualmente uma obra-prima dos Beach Boys (ou de Brian Wilson, enfim…).

    ==========================
    Você apertou a mão do Brian Wilson?????? Bateu uma invejinha básica (risos…)

    Abração

  2. admin

    May 23, 2016 at 11:24 pm

    Vladimir, foi um momento emocionante mesmo. Muito obrigado pela visita e também pela opinião consistente e bem escrita, só pra variar. Grande abraço e viva o nosso Alviverde Imponente!!!

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