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Belchior 70: “apenas” aquele nosso rapaz latino-americano

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Por Fabian Chacur

Desde ontem (26/10), Belchior é oficialmente um rapaz latino-americano com 70 anos de idade. Infelizmente, sumido da mídia, sem lançar novos discos há mais de 15 anos, e só emergindo a partir de 2009 nas manchetes devido a questões constrangedores relativas a sua vida particular. Se ele nunca mais gravar e fizer shows, no entanto, já cumpriu sua missão com brilhantismo.

Como boa parte dos brasileiros, conheci a obra deste cantor e compositor cearense nascido em Sobral em 26 de outubro de 1946 nas ondas do rádio, ouvindo a maravilhosa Apenas Um Rapaz Latino-Americano. Embora com apenas 15 anos na época, senti no trabalho dele uma certa semelhança com Raul Seixas, especificamente nesta canção. Depois, veria que sua obra tinha muito a ver com Bob Dylan e outros ótimos trovadores urbanos pelo mundo afora.

Alucinação, seu segundo álbum e aquele que o alçou ao estrelado há exatos 40 anos, equivale a uma obra-prima incontestável, repleto de grandes canções que aliam letras líricas e corrosivas a belas melodias e a uma interpretação vocal própria, uma assinatura inconfundível que só pertence a grandes artistas do seu porte. Na minha opinião, um dos dez melhores trabalhos da história da MPB, do rock brasileiro, do folk brasileiro, ou de qualquer outro rótulo musical.

Os versos desse cara são simplesmente porradas na cara do conformismo, tipo “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, ou “estava mais angustiado que o goleiro na hora do gol”, “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quando mais eu multiplico diminui o meu amor”. Coisa de quem vivenciou muita coisa, observou muita coisa, leu muito e assimilou muitas informações bacanas, que passou a partilhar com os seus fãs.

Tive a honra de entrevistar Belchior umas diversas vezes entre 1987 e 1999. Era sempre um prazer. Um cara educado, erudito sem ser chato, simpático sem forçar a barra, que sempre lembrava o seu nome e que sempre tinha coisas relevantes para falar. Uma pena esse seu sumiço. No entanto, temos sua importante obra para reverenciar, suas belas canções para curtir, e seus versos intensos para apreciar. Apenas um rapaz latino-americano? Só porque ele quer!

Ouça Alucinação, de Belchior, em streaming:

2 Comments

  1. “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
    que hoje eu trago e tenho;
    Quando adoçava meu pranto e meu sono,
    no bagaço de cana do engenho;
    Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
    fazendo eu mesmo o meu caminho,
    por entre as fileiras do milho verde
    que ondeia, com saudade do verde marinho:

    Eu era alegre como um rio,
    um bicho, um bando de pardais;
    Como um galo, quando havia…
    quando havia galos, noites e quintais.
    Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
    o mal que a força sempre faz.
    Não sou feliz, mas não sou mudo:
    hoje eu canto muito mais”

    Minha preferida, viva o poeta BELCHIOR, onde quer que ele esteja..kkk

    Abraço , CHACUR….

  2. Fabian Chacur

    October 28, 2016 at 1:18 pm

    Boa escolha, meu caro, realmente é um dos diversos clássicos desse brilhante Belchior. Grande abraço e muito obrigado pela visita!

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