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Sylvester, um dos grandes da disco music, e os seus 70 anos

sylvester james cantor-400x

Por Fabian Chacur

No último dia 6(quarta-feira), um certo Sylvester James teria completado 70 anos de idade. Infelizmente, ele só viveu 41 anos, tendo nos deixado no dia 16 de dezembro de 1988. Mas o seu legado musical certamente sobreviverá a mim, a você e a todos nós. Sylvester nos deixou as incríveis You Make Me Feel (Mighty Real), Dance (Disco Heat) e outros petardos que até hoje eletrizam as melhores pistas de dança do planeta. Esse cara deixou a sua marca. Ele faz falta…

O som da minha adolescência foi a disco music, e quando esse ritmo mágico estava no auge, lá pelos idos de 1978, o álbum Step II, do Sylvester, era um dos mais ouvidos. Meu irmão Victor o comprou logo que saiu no Brasil. Esse vinil traz os dois maiores hits de Sylvester, as incríveis Dance (Disco Heat) e You Make Me Feel (Mighty Real), que conseguiram ir além das paradas disco, invadindo até trilhas de novela e tocando em rádios mais afeitas a sonoridades tradicionais ou caretas.

Step II marca o momento em que este cantor, compositor e músico americano nascido na região de Los Angeles em 6 de setembro de 1947 encontrou um caminho musical ao mesmo tempo original e com forte potencial comercial. Ele acoplou sua influência gospel e soul music à sonoridade eletrônica que começava a emergir no cenário dance, graças a pioneiros como Giorgio Moroder e o grupo alemão Kraftwerk. Na mistura, criou uma espécie de discoeletrogospelsoul.

O lado 1 do vinil de Step II traz os dois megahits, e é encerrado por uma belíssima versão gospel e lenta de You Make Me Feel (Mighty Real). O lado B do álbum é dedicado a uma sonoridade soul mais convencional e também muito boa, com direito até a música de Burt Bacharach e com destaque para a comovente balada Just You And Me Forever.

Vale ressaltar alguns nomes essenciais para que este álbum se tornasse um clássico não só da disco music, mas como da música pop em geral. Um é o produtor, Harvey Fuqua, líder do grupo vocal The Moonglows e descobridor de ninguém menos do que Marvin Gaye, que ele levou para o que viria a ser a Motown Records, onde atuou como produtor e compositor. Coube a Fuqua trazer Sylvester para a gravadora Honey Records, distribuída pela Fantasy Records.

sylvester step II-400x

O lado eletrônico de sua sonoridade teve como um dos caras fundamentais o multi-instrumentista Patrick Cowley (1950-1982), que a seguir passou a ser figura constante nas bandas de apoio e discos de Sylvester. Quando gravou disco solo, Cowley teve como grande sucesso Do Ya Wanna Funk?, com participação especial do patrão famoso.

A parte vocal dos álbuns da fase áurea do astro disco se firmou graças à incorporação ao seu time das cantoras Martha Wash e Izora Rhodes, que junto com ele criaram um modernizado coral gospel/soul contagiante. Elas receberam o codinome Two Tons O’Soul, e nos anos 1980, em carreira própria, passaram a ser conhecidas como The Weather Girls, do megahit It’s Raining Man. Comandando este time, Sylvester se tornou um dos astros máximos da disco.

A vida de Sylvester Stewart não foi das mais fáceis. Descobriu ser homossexual ainda criança, para horror dos pais. Aos 13 anos, teve de deixar o coral da igreja em que atuava desde criança por causa disso, e aos 15 anos, foi a vez de ir para a estrada, longe da família. Depois de integrar um grupo de trangêneros e cross dressers, mudou-se para a cidade de San Francisco em 1970, integrando-se naquela cidade ao grupo de drag queens The Cockettes.

Em 1972, após participar de diversos espetáculos com aquele grupo de drags, geralmente imitando Billie Holiday e Josephine Baker, resolveu partir para um projeto próprio. Em 1973, essa nova fase de sua carreira desembocou na Sylvester And His Hot Band, uma banda de rock com a qual gravou dois álbuns em 1973 pelo selo Blue Thumb, sem sucesso comercial. Como melhor momento, abriram um show de David Bowie, que elogiou Sylvester e sua turma.

Já sob a tutela de Harvey Fuqua e com as Two Tons O’ Soul, gravou o seu primeiro álbum solo, Sylvester (1977), que tinha uma sonoridade ainda convencional e emplacou um semihit, Down Down Down. A coisa engrenou mesmo foi com Step II. Logo a seguir, em 1979, lançou Stars, álbum totalmente disco com apenas quatro faixas. Mas com a qualidade delas, para que mais? Todas bem extensas.

O destaque é uma releitura simplesmente brilhante de I (Who Have Nothing), que transformou a dramática canção de Ben E. King (conhecido por Stand By Me e diversos outros hits) em uma faixa disco percussiva simplesmente irresistível. Body Strong, a faixa-título e I Need Somebody To Love Tonight trazem uma sonoridade que influenciaria e muito o pop eletrônico dos anos 80.

Ainda em 1979, chegou às lojas o álbum duplo Living Proof (saiu no Brasil), que traz nos lados 1, 2 e 3 um incrível show beneficente de Sylvester e sua banda gravado em 11 de março daquele mesmo ano e trazendo não só hits do artista como também releituras bacanas, entre elas uma de Blackbird, dos Beatles, que arrepia. O lado 4 trazia inéditas de estúdio, entre elas o semihit Can’t Stop Dancing. obs.: segundo o músico e jornalista Fernando Savaglia, um especialista em black music, este álbum saiu, sim, no Brasil, tanto que ele tem um exemplar dessa raridade. Sortudo demais! Valeu pelo toque, fera!

A partir de 1980, tal qual todos os nomes mais importantes e populares da disco music, Sylvester sofreu uma forte queda em sua popularidade, prejudicado por um odioso movimento intitulado Disco Sucks que em 1979 levou imbecis preconceituosos a quebrar e queimar álbuns e singles de disco em locais públicos. Uma das manifestações mais lamentáveis de preconceito, uma espécie de holocausto fonográfico que arrebentou a carreira de muita gente boa.

Vale um pequeno parêntesis aqui. A disco music teve como berço a comunidade gay dos EUA e de outros países. Quando estourou e cativou todos os tipos de público com sua sonoridade alegre, pra cima e criativa, horrorizou os conservadores, e, ironia das ironias, muitos roqueiros, que haviam sido vítimas de preconceitos em décadas anteriores, mas que naquele momento se sentiam ameaçados pelos artistas disco. E Sylvester nunca negou a sua homossexualidade.

Mesmo tendo se recusado a usar o rótulo disco como sua principal intenção musical, Sylvester acabou marcado por ela. Nos anos 80, viu sua popularidade ir despencando aos poucos. Ainda se daria bem em colaborações com o músico de jazz Herbie Hancock no ótimo single funk-disco Magic Number (1981). Em 1982, saiu da gravadora Fantasy e a processou, mas o ex-mentor Harvey Fuqua não teve como pagar o valor total do processo. Uma separação triste.

Se seus álbuns passaram a vender cada vez menos, Sylvester teve a oportunidade de realizar um sonho. Em 1985, ele participou, fazendo backing vocals, do álbum Who’s Zooming Who?, de Aretha Franklin, uma de suas heroínas. Ele deu sorte a ela, pois o disco foi um dos mais vendidos de sua carreira, com Sylvester atuando em dois singles de sucesso, a faixa título e Freeway Of Love. Em 1986, lança Mutual Attraction, o último que lançaria em vida.

Desde o fim dos anos 1970, uma doença até então desconhecida vitimou diversos integrantes da comunidade gay. Patrick Cowley, o amigo de Sylvester, foi uma de suas primeiras vítimas. Desde o início, o autor de You Make Me Feel (Mighty Real) mostrou-se solidário às vítimas do posteriormente revelado vírus HIV e da Aids. Para sua tristeza, viu um namorado morrer, vítima da doença. Pouco depois, descobriu também ser portador daquela terrível enfermidade.

Consta que Sylvester James foi o primeiro astro negro gay a assumir ser portador do vírus HIV. Ele se manteve ativo até onde pode, mas a partir do início de 1988, não conseguiu mais. E em 16 de dezembro de 1988, saiu do plano físico rumo à eternidade, não sem antes ser homenageado pela comunidade gay de San Francisco. Ele deixou instruções para que toda a renda com os royalties de seus trabalhos fossem doados a entidades ligadas à assistência aos portadores da Aids.

Não é nada fácil encontrar discos de Sylvester atualmente. O mais acessível costuma ser a coletânea The Original Hits, que traz onze faixas lançadas entre 1977 e 1981, entre elas seus megahits. Pena que não inclua I (Who Have Nothing). O incrível Step II só saiu em uma rara edição internacional em CD que também incluía Sylvester (de 1977) no pacote. Mas vale ir atrás. O som alegre e contagiante deste gênio do falsete disco vale a procura. E dá pra ouvir no Youtube, na faixa, para quem não se importa em não ter os itens físicos.

Step II- Sylvester (ouça em streaming):

5 Comments

  1. Como sempre, uma análise bem cuidadosa desse astro, parabéns pelo belo texto!

  2. Fabian Chacur

    September 14, 2017 at 7:09 pm

    Muito obrigado pelo elogio, Jorge, e também por sua visita a Mondo Pop. Grande abraço e tudo de bom! E viva o Sylvester!

  3. Super cantor eterno Sylvester James

  4. Encontrei num sebo um Lp do Sylvester, estava sem capa sob um bolo de discos que são vendidos baratinho para decorações diversas. Era uma coletânea com músicas dançantes. Caprichei na limpeza, lavando-o muito bem. Som Incrível.
    Quando eu era pré adolescente, frequentava a casa dos meus tios, que traziam de vários lugares do mundo fitas k7, uma delas me chamava a atenção: Sylvester, mas nunca ouvi. Décadas depois tenho um vinil dele.

  5. Fabian Chacur

    March 27, 2019 at 5:22 pm

    Sylvester foi um grande artista, com um trabalho repleto de energia positiva e qualidade artística. Legal você ter essa relação com o trabalho dele, que é ótimo. Grande abraço e muito obrigado pela visita a Mondo Pop, volte sempre!

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