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Manifesto (1979), o álbum que iniciou nova fase do Roxy Music

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Por Fabian Chacur

Em 1979, o Roxy Music completava três anos longe de cena. Seu último álbum de estúdio até então, Siren (1975), foi divulgado por uma turnê que rendeu o esplêndido álbum ao vivo Viva! (1976). Depois, o silêncio. Portanto, não faltou alegria aos inúmeros fãs da banda britânica quando Manifesto chegou às lojas em março daquele ano. Um retorno à altura de um grupo que já havia feito muita coisa boa em seu produtivo primeiro período na ativa.

Concebido pelo estudante de artes Bryan Ferry, seu cantor e principal compositor, o Roxy Music trouxe em seu DNA o espírito da experimentação pop. Ou seja, a criação de um som aberto a fusões e misturas com várias tendências do rock, como o básico, o progressivo, o psicodélico, o hard etc e também o rhythm and blues, o soul, o funk, a música eletrônica, o jazz e os standards americanos. Tudo com uma classe e um refinamento extremo, mas sem fugir exageradamente do perfil pop. O famoso conceito dos “biscoitos finos para as massas” do brasileiro Oswald de Andrade se encaixa feito luva para definir o resultado dessa simbiose roqueira.

O núcleo básico do grupo traz, além de Ferry, Andy Mackay (sax e oboé) e Phil Manzanera (guitarra), com Paul Thompson (bateria) completando o time fixo. Brian Eno (teclados e efeitos sonoros) participou dos dois primeiros álbuns, mas acabou trombando com o líder da banda, e saiu fora rumo a uma carreira solo incrível e também para se tornar um consagrado produtores musical.

Com o então jovem tecladista Eddie Jobson no posto de Eno, o Roxy Music gravou mais três álbuns de estúdio e um ao vivo entre 1973 e 1976, firmando-se no cenário rocker, especialmente o britânico e o europeu. Além de uma musicalidade própria inovadora e cativante, o Roxy trazia como marcas o visual fashion de seus integrantes e a classe de Bryan Ferry como cantor, influenciado pelos crooners de jazz e pelos intérpretes da ala mais soft do soul.

Durante os três anos que o Roxy ficou fora de cena, Bryan Ferry lançou mais três álbuns solo (ele já tinha gravado outros dois paralelamente ao trabalho com a banda). Quando ele resolveu se reunir novamente com Manzanera, Mackay e Thompson, trouxe como ponto de partida a sonoridade de duas músicas de Siren (1975), as sacudidas Love Is The Drug e Both Ends Burning. Vivíamos o auge da era da disco music, e o grupo inglês soube se valer de sua influência sem cair em oportunismo ou mero pastiche. Deu super certo.

Nessa linha pra cima, Angel Eyes e Dance Away foram as faixas que impulsionaram o álbum rumo às primeiras posições das paradas de sucesso internacionais. Também dançante, mas com uma batida mais sensual, Ain’t That Soul ajuda a manter o baile animado, assim como os pop-rocks Cry Cry Cry e My Little Girl.

Com uma introdução instrumental hipnótica de influência oriental de 2,5 minutos, Manifesto é uma faixa título absurda de boa em seus mais de 5 minutos de duração total, uma espécie de carta de intenções do que seria o álbum, uma escolha perfeita para abrir um disco tão icônico.

Trash, um rock nervoso com leve pegada punk, mostra a capacidade da banda de pegar um som que estava em voga naquele momento e transformá-lo em algo totalmente diferente. Com belos riffs de guitarra, a rock-soul Still Falls The Rain tem um clima que lembra o do álbum Siren. O clima introspectivo e levemente progressivo marca Stronger Through The Years , com direito a belos solos dos músicos. E o LP é encerrado por uma balada delicada e viajante, Spin Me Round. O início perfeito de um período mágico na carreira dessa banda.

Mais curiosidades e considerações sobre Manifesto:

*** Manifesto foi o álbum do Roxy Music a atingir o posto mais alto na parada americana, o número 23, mas não o mais bem vendido. Avalon (1982), embora só tenha chegado ao número 53, com o decorrer dos anos acabou ultrapassando a marca de um milhão de cópias vendidas por lá, recebendo o prêmio de disco de platina por isso.

*** A versão inicial de Angel Eyes tinha uma levada de power pop. Na hora de lançar o single, o grupo e a gravadora optaram por investir em uma regravação com levada disco, que ganhou rapidamente o público. Dessa forma, apenas a tiragem inicial de Manifesto traz Angel Eyes no estilo rocker, sendo substituída nas tiragens posteriores pela disco version. Isso também ocorreu com Dance Away, embora neste caso as diferenças entre as gravações sejam mais sutis.

*** Vocês devem ter notado que não citei o nome de baixistas nesta matéria até o presente instante. É que o Roxy Music teve como marca, em sua carreira, o fato de ter tido inúmeros músicos entrando e saindo, nesse posto. Em Manifesto, cuidaram dessa função Gary Tibbs e Alan Spenner. Outros baixistas que tocaram com o Roxy, durante sua carreira: Rick Willis, John Wetton (depois, famoso com o grupo Asia), Sal Maida, John Gustafson, John Porter, Rick Kenton e Graham Simpson (ufa!).

*** Manifesto foi gravado em estúdios ingleses e americanos. A parte ianque do álbum conta com a participação de músicos bem legais, entre os quais Rick Marotta (bateria), Steve Ferrone (bateria), Richard Tee (piano), Melissa Manchester (vocais) e Luther Vandross (vocais). A participação dos dois outros bateristas não foi por acaso: Paul Thompson não curtia a parte mais dançante dessa fase do Roxy, e saiu do grupo após a turnê de divulgação deste álbum.

*** Quem marca presença no álbum, tocando teclados, é o cantor, compositor e multi-instrumentista britânico Paul Carrack. Então ainda desconhecido, ele faria muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990 integrando como vocalista os grupos Squeeze e Mike+The Mechanics. É dele a voz principal de hits incríveis desses grupos como Tempted e Over My Shoulders, só para citar dois deles.

*** As capas dos discos do Roxy sempre foram comparáveis às de revistas de moda, por serem muito sofisticadas e incluírem modelos famosas. A de Siren, por exemplo, trouxe no papel de uma sereia ninguém menos do que Jerry Hall, que depois seria durante anos a esposa de Mick Jagger. Quem ajudava na criação era um amigo de Ferry, o fashion designer Antony Price. No caso de Manifesto, temos uma festa com direito a muitos modelos, serpentina e confetes.

*** Saiu em 2008, inclusive no Brasil (pela extinta ST2) Live In America, CD gravado ao vivo durante a turnê de lançamento de Manifesto. O registro ocorreu em um show realizado no dia 12 de abril de 1979 no Rainbow Music Hall, em Denver, Colorado (EUA). São 13 faixas, sendo 6 delas do álbum que estavam divulgando. Muito, mas muito bom mesmo, com os quatro (Ferry, Manzanera, Mackay e Thompson) apoiados por Gary Tibbs (baixo) e David Skinner (teclados).

Ouça Manifesto na integra, em streaming:

3 Comments

  1. Quarenta anos depois, “Manifesto” ainda me deixa BOQUIABERTO quando o escuto. Na época, a crítica achou o álbum passável, mas fraquinho em comparação com a obra anterior do Roxy Music e decepcionante depois de tanto tempo sem gravar. Acho que eles não entenderam nada. Na época, todo mundo só tocava e ouvia “disco”, e a mentalidade prevalente era de competir para ver quem brilhava mais nas pistas de dança (tanto literal quanto figurativamente). Em vez de reclamarem desse monopólio opressivo da “disco music”, Ferry & Co. disseram: “OK, há coisas interessantes nisso também, vamos pegar o que presta e fazer do nosso jeito, e se o lance da ‘disco’ é glamour, essa é justamente nossa especialidade!”

    A capa fabulosa já diz tudo, capta perfeitamente o espírito daqueles tempos, mas em vez de fazerem um som puramente ‘disco’, eles fizeram a música deles de sempre, com influências recicladas da ‘disco’ (nem “Angel Eyes” é ‘disco’ pura, é Roxy Music sendo Roxy Music até quando bota uma batida ‘disco’). Tudo com o equilíbrio contido e chique que é a marca registrada deles. E há um subtexto de ironia em cima da ‘disco’ em todo o álbum, de modo que discordo quando você diz que não há pastiche — há, sim, mas sutil (quando foi que o Roxy Music não foi sutil?) e esse é justamente um dos pontos mais geniais deste álbum.

    Agora, Deus do céu, o que é aquela faixa-título??? Ninguém mais seria capaz de fazer uma música como “Manifesto”, só eles! Aquela longa introdução que não cansa, com várias frases musicais clichês da ‘disco music’ (olhe o pastiche aí), depois várias mudanças surpreendentes de tom e andamento (que funcionam!) na parte principal da música, e uma letra que de fato tem o tom de um manifesto, mas é deliberadamente obscura (mais pastiche). Sutil demais para a cabeça dos críticos da época. Eles realmente não entenderam NADA!

  2. Fabian Chacur

    November 18, 2019 at 5:49 pm

    Nossa,Goytá, bela análise! Quanto me refiro a não terem se valido de elementos disco em modo de pastiche, levei em conta a conotação negativa com que essa palavra normalmente é utilizada em termos de música. Seria algo como “avacalhar”. E não sinto isso nessa abordagem do Roxy, mas seu ponto de vista é bem interessante e muito bem explicado. E, de fato, sutileza e bom gosto são marcas dessa banda maravilhosa. Um crime Manifesto não ter sido venerado à altura de sua qualidade artística. Grande abraço, muito obrigado pela visita e pelo texto, e volte sempre que puder ou quiser. Viva Roxy Music!

  3. Fabian Chacur

    November 19, 2019 at 3:50 pm

    Outro detalhe interessante a ressaltar, meu caro Goytá: Bryan Ferry é um assumido fã de dance music, e sempre utilizou elementos dançantes não só nos discos do Roxy, como especialmente em seu trabalho solo. Acredito que ele seja fã de disco music, inclusive.

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