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New Radicals acabou há 20 anos e deixou um belo CD de herança

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Por Fabian Chacur

Em 12 de julho de 1999, um frio e impessoal comunicado oficial anunciou que o grupo New Radicals estava saindo de cena. Seu líder, o cantor, compositor e músico americano Gregg Alexander, alegou cansaço com os shows e a necessidade de divulgar seu trabalho em rádios, TVs e imprensa, e informou que, a partir dali, iria se dedicar em tempo integral a compor e produzir para outros artistas. Era o ponto final de uma curta, porém produtiva trajetória do grupo, criado em 1997. Como herança, ficou o álbum Maybe You’ve Been Brainwashed Too, lançado em outubro de 1998. Vale relembrar essa história e seus detalhes.

Se a banda era de fato novinha, seu criador já tinha alguma estrada. Gregg Alexander nasceu em 4 de maio de 1970, e se mostrou um talento precoce, pois foi contratado pela gravadora A&M com apenas 16 anos. O produtor Rick Nowels se impressionou com o potencial do garoto, e não teve pressa. A prova é o fato de que o trabalho de estreia de Alexandre, Michigan Rain, saiu apenas em 1989, e passou batido, mesmo tendo recebido alguns elogios.

Nowel não desistiu do amigo, e em 1992 a Sony Music, com seu selo Epic, apostou na indicação do produtor. Naquele mesmo ano, saiu Intoxifornication, com três faixas do trabalho anterior, duas releituras de canções daquele disco e outras inéditas. O resultado em termos comerciais foi o mesmo: fracasso.

Sem baixar a cabeça, Alexander resolveu criar em 1997 um novo projeto, o New Radicals, totalmente liderado por ele e valendo-se de músicos de apoio e de uma amiga que conheceu quando gravou o álbum anterior, a cantora, compositora e ex-atriz mirim Danielle Brisebois.

Em 1998, conseguiu um contrato com a MCA Records, seguido pela gravação e lançamento, naquele mesmo ano, do álbum de estreia, com o curioso título Maybe You’ve Been Brainwashed Too (talvez você tenha sofrido lavagem cerebral também, em tradução livre).

Chutando os fundilhos de Marilyn Manson, Beck, Hanson e Courtney Love

O primeiro single a ser extraído do álbum de estreia do New Radicals foi sua música mais bem-sucedida em termos comerciais. You Get What You Give, um rock energético com tempero pop e bem pra cima, teve uma repercussão respeitável, chegando ao 5º lugar na parada britânica e 36º na americana, além de se dar bem em vários outros países.

Com um clipe divertido ambientado em um shopping, esta canção trazia uma mensagem de autoajuda, com direito a críticas a diversas corporações e uma mais ácida, dirigida a colegas de profissão: “Fashion mag shoots with 8 Dust Brothers, Beck and Hanson, Courtney Love and Marilyn Manson, you’re all fakes, run to your mansions, come around we’ll kick your ass in”.

A reação a terem sido chamado de falsos e de levarem um bico nos fundilhos gerou uma pequena polêmica, com respostas distintas dos “homenageados”. Manson, por exemplo, disse ter se ofendido pelo fato de ser citado em um mesmo parágrafo com Courtney Love. Beck revelou que Alexander o encontrou em público e lhe pediu desculpas, como se tivesse medo (“e o cara é grandão”, brincou o autor do hit Loser). Com os boa-praças do Hanson a coisa foi melhor.

Os três irmãos não só encararam de forma bem-humorada a citação, definindo-a como algo comum na música pop, como em 2004 escreveram uma canção em parceria com o líder do New Radicals, Lost Without Each Other, gravada pelo Hanson em seu CD Underneath.

Someday We’ll Know, o single que nasceu morto

Os sinais de que as coisas não iam bem para os New Radicals estavam à vista, especialmente quando cancelaram uma turnê européia que se iniciaria em maio de 1999. Eles também deveriam gravar um clipe para divulgar o segundo single a ser extraído de seu álbum de estreia, a envolvente balada Someday We’ll Know. No entanto, tal ação promocional foi cancelada.

Resultado: a canção, uma das mais fortes do disco e em cuja letra Alexander relata a espera por, um dia, descobrir a razão pela qual um romance não deu certo, chegou natimorta ao mercado discográfico. Ninguém a tocou em rádio, o single pouco vendeu e, pronto, uma música maravilhosa sumiu de cena rapidinho.

Bem, nem tanto. Em 2003, a dupla Daryl Hall & John Oates regravou-a com muita categoria, com participação mais do que especial de outro mito da música, o cantor, compositor e multi-instrumentista americano Todd Rundgren. A cantora pop Mandy Moore também a registrou, em 2002, em releitura feita para a trilha sonora do filme A Walk To Remember, estrelado por ela própria.

Um álbum repleto de bons momentos

Maybe You’ve Been Brainwashed Too é daqueles álbuns que te envolvem de cabo a rabo. O conteúdo nos oferece uma mistura de rock, pop, soul e dance music muito bem equilibrada. A voz de Gregg Alexander é bem agradável, com direito a falsetes e influências bem digeridas de Mick Jagger, Karl Wallinger (do World Party). Outras influências visíveis são Todd Rundgren, Daryl Hall & John Oates e Elton John. Não era o som da moda, na época. Não mesmo.

Além das duas canções já citadas, várias outras poderiam ter se sobressaído no formato single, se tivessem sido bem divulgadas. Mother We Just Can’t Get Enough, que abre o álbum, traz elementos de Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones, e Movin’ On Up, do Primal Scream, com um clima tribal e dançante.

I Don’t Wanna Die Anymore, que chegou a ser cotada como possível single, é uma power ballad arrasadora, daquelas que a gente quase corta os pulsos ao ouvir, mesmo com a temática da letra indo na direção oposta, incentivando a seguir em frente, apesar dos pesares. Linda demais!

Technicolor Lover possui uma levada dançante deliciosa, e é a única na qual Alexander incorpora o espírito da banda do eu sozinho, tocando todos os instrumentos e fazendo todos os vocais também. Uma delícia.

E o rockão Jehovah Made This Whole Joint For You então? O cara nos mostra como fazer uma canção de melodia e harmonia caprichadas sem perder a energia roqueira. Power pop total!

A delicadeza pop de Crying Like a Church On Monday e o embalo da ótima faixa título (cuja gravação de bateria foi sampleada da canção All of a Sudden, do grupo britânico XTC) são outros destaques. Mas, repito, o álbum todo é bom.

Colaborações de músicos do primeiro time

Se Gregg Alexander se incumbiu da produção e tocou guitarra, também soube trazer para o seu lado músicos realmente capazes de concretizar a sonoridade que ele imaginou. Em Mother We Just Can’t Get Enough, por exemplo, temos no piano ninguém menos do que Greg Phillinganes,cria de Quincy Jones que tocou e gravou com Michael Jackson, Eric Clapton e toda a sala vip do pop.

O guitarrista em nove das 12 faixas é o brilhante Rusty Anderson, que em 2001 tornou-se integrante fixo da banda de Paul McCartney, tocando com ele desde então em gravações de álbuns e DVDs e nas turnês. Um grande músico, que também tem no currículo gravações e shows com Elton John, Willie Nelson, Michael Bublé, Santana e Ricky Martin. Por sinal, é dele aquele riff de guitarra a la surf music que marca o megahit Livin’ La Vida Loca, do astro de Porto Rico.

Rick Nowels não poderia ficar de fora, e ele marca presença tocando piano em You Get What You Give (da qual ele é o coautor) e I Hope I Didn’t Just Give Away The Ending. Para quem não sabe, Nowels é outro com forte pedigree musical, um produtor, multi-instrumentista e compositor com belíssimos serviços prestados a Marty Balin, Stevie Nicks, Belinda Carlisle., Céline Dion, Madonna, NSync, Rod Stewart, Dua Lipa e Lana Del Rey.

Enquanto isso, Danielle Brisebois marca presença em cinco faixas nos vocais de apoio e em uma ao piano. Com dois discos-solo no currículo, a moça é coautora de Someday We’ll Know ao lado de Alexander e de Debra Holland. Esta última ficou conhecida como cantora do grupo Animal Logic, que quando ainda se chamava Rush Hour tocou no Brasil em 1987 e tinha como integrantes os mestres Stewart Copeland (The Police) e Stanley Clarke. Rusty chegou a tocar com a banda, e pode ser essa a conexão entre Debra e os New Radicals.

Um disco viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido?

A novela global Roque Santeiro tinha como um de seus personagens principais a viúva Porcina, sempre lembrada pela frase “a que foi, sem nunca ter sido”, pelo fato de, depois de muitos anos, ela ter descoberto que o marido não havia de fato morrido. Aproveitando o tema, dá para se dizer que o único álbum dos New Radicals é uma espécie de Porcina do rock, o trabalho que foi um campeão de vendas, sem na verdade ter sido?

Bem, afirmar que Maybe You’ve Been Brainwashed Too foi um completo fracasso é no mínimo um exagero. O álbum atingiu o 10º lugar na parada britânica, e vendeu por lá mais de 100 mil cópias, o que lhe valeu um disco de ouro. Nos EUA, sua posição mais alta foi a de nº 41, atingida em fevereiro de 1999, e ultrapassou a marca de um milhão de cópias comercializadas, proporcionando um disco de platina pelos padrões numéricos então em vigor.

Logo, o resultado não pode ser qualificado como ruim, e o CD também atingiu bons números no resto do mundo. O problema é que este álbum tinha potencial para ter emplacado pelo menos mais uns quatro singles de sucesso, se manter por pelo menos uns dois anos nas paradas e vender ao menos o dobro. Por que isso não ocorreu? São várias as explicações.

A primeira, e mais óbvia, fica por conta do fim da banda antes da gravação do clipe de Someday We’ll Know. O álbum e suas faixas ficaram órfãos, deixados de lado por seu criador, e atropelados pela concorrência voraz.

Mas existe um outro aspecto que ninguém abordou até hoje. A MCA, gravadora que lançou o único álbum da banda de Gregg Alexander, passava por um momento muito confuso, em meio a negociações que exatamente naquela época a tornaram parte do acervo do conglomerado da Universal Music. Ou seja, era uma empresa que vivia momentos de incerteza e de troca de direção.

Uma das coisas mais habituais em gravadoras consiste em um artista ser contratado por um determinado executivo e, na hora de lançar seu trabalho, passar a ser comandado por outro. E, infelizmente também de forma constante, esses novos dirigentes costumam deixar de lados projetos iniciados por seus antecessores, para não “dar moral” a eles. O New Radicals pode ter sido vítima desse processo. A natureza humana é mesmo um horror.

Seja como for, para os anais da história, a banda de Alexander entrou para o hall das one hit wonders (maravilhas de um sucesso só, em tradução livre), artistas que só tiveram um único sucesso em suas carreiras. No caso deles, You Get What You Give. Correto em termos numéricos, mas não em termos qualitativos.

A vida pós-New Radicals de Gregg Alexander

Após o fim do New Radicals, Gregg Alexander cumpriu o que prometeu, dedicando-se inteiramente a trabalhar como produtor e compositor para outros artistas. Em 2001, por exemplo, teve sua canção I Can’t Deny It gravada por Rod Stewart no álbum Human.

Pouco depois,em 2002, deu-se super bem ao ter sua deliciosa e dançante música The Game Of Love gravada por Carlos Santana em parceria com a cantora Michelle Branch,hit certeiro que atingiu o 5º posto na parada americana. Em 2007, Santana lançou em uma coletânea uma outra gravação desta mesma canção, desta vez em dueto com Tina Turner.

Alexander teve músicas gravadas e trabalhou com outros artistas de peso, entre os quais Boyzone, Ronan Keating, Sophie Ellis-Bextor, Texas e Geri Halliwell (das Spice Girls). No cenário rock, é o coautor da música The Only Ones, lançada este ano pelo grupo britânico Kaiser Chiefs, e teve duas músicas gravadas pelos também britânicos The Struts em 2014, no CD Everybody Wants.

O momento mais nobre ocorreu em 2013, com a trilha sonora do filme Begin Again, estrelado por Keira Knightley e Mark Ruffalo, que traz 14 faixas compostas por ele. Uma delas, Lost Stars, gravada por Adam Levine (vocalista do Maroon 5), concorreu ao Oscar de melhor canção original.

Em novembro de 2014, ele pela primeira vez em 15 anos se apresentou ao vivo, interpretando Lost Stars ao lado da amiga Danielle Brisebois. E fica a torcida para um retorno de Gregg, com o nome New Radicals ou não. Enquanto isso, ouçamos Maybe You’ve Been Brainwashed Too novamente.

Ouça Maybe You’ve Been Brainwashed Too na íntegra:

4 Comments

  1. Giovanni Dell'Isola Neto

    July 30, 2019 at 7:01 pm

    Que belíssimo texto, Fabian, repleto de informação que é como tem que ser.
    Só uma coisa eu acabei ficando desapontado. Achei que o Gregg tivesse sido mais auto-suficiente na gravação deste disco, porém de qualquer forma, o carinha juntou um timaço que faz o “Maybe, … ” soar fresco até hoje para mim.

  2. Fabian Chacur

    July 31, 2019 at 2:53 pm

    Caramba, muito obrigado pelo elogio, meu caro amigo de tantos anos! Quanto ao fato de o Gregg ter agregado (quase um trocadilho ehehehe) tantos músicos bons ao seu redor para gravar esse álbum, acho que é algo positivo, pois ele sacou que precisava de ajuda, e soube procurar os craques para isso. Esse álbum é simplesmente delicioso, e concordo, soa atemporal mesmo. Grande abraço e obrigado pela visita!!!!

  3. Thiago Blumenthal

    July 31, 2019 at 7:25 pm

    Belo texto, informativo, com dose de emoção na medida. Eu adorei esse cd na época e também vou ouvi-lo novamente, depois de tantos anos.

  4. Fabian Chacur

    August 1, 2019 at 3:15 pm

    Nossa, Thiago, quanto tempo! Que honra não só ter você por aqui, como ainda receber elogios da sua parte. Valeu mesmo! Espero que tudo esteja ótimo com você, e minha ideia com esse tipo de texto é essa mesma, incentivar as pessoas a reavaliar um álbum realmente ótimo. Grande abraço e tudo de bom!!!

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