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Gerry Marsden, 78 anos, o cantor que nunca nos deixou sozinhos

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Por Fabian Chacur

Os Beatles foram a banda mais bem-sucedida a sair da cidade britânica de Liverpool. Quanto a isso, não há a menor dúvida. No entanto, em um item, eles perderam para outra banda local e contemporânea, Gerry And The Pacemakers: os rivais conseguiram emplacar seus primeiros três singles no topo da parada britânica. Uma façanha até então inédita por lá, e que só seria igualada 20 anos depois. Seu cantor, guitarrista e líder, Gerry Marsden, nos deixou neste domingo (3) aos 78 anos, e deixa um legado que vai além da música.

Nascido em Liverpool em 24 de setembro de 1942, Gerry iniciou uma banda ao lado do irmão mais velho, Freddie Marsden (1940-2006). A formação clássica de Gerry And The Pacemakers também trazia Les Chadwick (baixo, 1943-2019) e Les Maguire (piano, 1941). Eles disputavam os fãs de rock em Liverpool com os Beatles, inclusive tocando nos mesmos locais, entre eles o célebre Cavern Club, onde se apresentaram por quase 200 vezes.

O quarteto foi o segundo a ser contratado por Brian Epstein (1934-1967), o lojista que resolveu se tornar empresário de artistas e iniciou seu projeto com os Beatles. Se os Fab Four foram contratados pela Parlophone, Gerry And The Pacemakers entraram em um outro selo da EMI, o Columbia, mas ambos tiveram como produtor o genial George Martin (1926-2016). Aliás, há uma história bem interessante envolvendo os dois grupos e Martin.

O primeiro single dos Beatles, Love Me Do, lançado no final de 1962, atingiu o 17º posto na parada britânica, um bom desempenho para uma banda iniciante. Mas George Martin achava que os seus garotos podiam ir ainda mais longe se gravassem uma canção alheia, e sugeriu a eles que tentassem How Do You Do It?, escrita por um jovem e emergente compositor chamado Mitch Murray.

Mesmo a contragosto, John, Paul, George e Ringo gravaram a tal música. O resultado não ficou nada mal, mas eles queriam de qualquer jeito que seu segundo single fosse Please Please Me, de Lennon e McCartney, e a vontade deles prevaleceu. No fim das contas, foi aquele caso em que os dois lados tinham razão, pois Please Please Me atingiu o segundo posto na parada britânica e se tornou o primeiro grande hit da banda.

Martin cismou que How Do You Do It? tinha cara de sucesso, e resolveu experimentá-la com Gerry And The Pacemakers, que não vacilaram e a gravaram de forma bem semelhante ao registro dos conterrâneos (que só seria lançado oficialmente em 1995 no primeiro volume de Anthology). Bingo! O grupo estreou com um single que atingiu o topo da parada britânica.

Vale o registro: os Beatles só chegariam ao topo da parada de singles britânica com seu terceiro single, From Me To You, o primeiro do que seriam, no total, 17 compactos simples dos Fab Four a atingir tal posto na parada de sucessos do Reino Unido. Mas voltemos aos Pacemakers.

Sem perder o embalo, Gerry e seus asseclas escolheram outra composição de Mitch Murray para seu segundo compacto simples, I Like It, e mais uma vez capitanearam a parada do Reino Unido. No caso do terceiro single, no entanto, a coisa rolou de uma forma um pouco diferente.

Fã de Laurel And Hardy (O Gordo e o Magro), Gerry resolveu ver um filme deles que estava sendo reprisado no cinema Odeon, em Londres. O plano era ver esse e se mandar. Só que uma bela chuva resolveu dar o ar de sua graça na capital inglesa, e o cantor e guitarrista resolveu ficar para ver o outro filme do programa, um tal de Carousel (1956), filme musical americano com músicas escritas pela célebre dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.

Quando ouviu a principal canção da trilha, You’ll Never Walk Alone, apresentada com destaque em dois momentos importantes do filme, Gerry pôs na cabeça que aquela musica tinha de entrar no repertório de sua banda. E foi exatamente com ela que os Pacemakers emplacaram seu terceiro nº 1 consecutivo nos charts britânicos. Pouco depois, essa gravação viraria uma espécie de hino alternativo do Liverpool, sempre cantando por sua fanática torcida em suas partidas de futebol. As torcidas de Celtic (Escócia) e Borussia Dortmund (Alemanha) também adotaram essa mesma canção.

Por muito pouco Gerry And The Pacemakers não emplacaram um 4º single consecutivo no topo, pois I’m The One conseguiu chegar ao 2º lugar. E se não teve a performance dos singles anteriores, a doce balada Don’t Let The Sun Catch You Crying (assinada pelos quatro integrantes do grupo) se tornou um hit perene dos anos 1960, atingindo o 6º posto no Reino Unido e o 4º lugar nos EUA, o maior êxito do quarteto na terra do Tio Sam.

No finalzinho de 1964, Gerry Marsden registrou seu amor por Liverpool na canção de sua autoria Ferry Cross The Mersey, música que também daria nome ao filme estrelado pela banda lançado em 1965. O compacto com essa canção vendeu bem, sendo 8º colocado no Reino Unido e 6º nos EUA. A trilha do filme, o álbum mais bem-sucedido da banda nos EUA, também trazia a ágil It’s Gonna Be Alright, que fez sucesso no Brasil com o grupo Renato e Seus Blue Caps na versão em português intitulada Você Não Soube Amar.

No entanto, ao contrário dos Beatles, que se tornaram um fenômeno de proporções mundiais, Gerry e sua turma não conseguiram esse mesmo embalo. Walk Hand In Hand, lançado no final de 1965, foi seu último single a entrar nas paradas de sucessos britânicas, e ainda assim em um modesto 29º lugar. Após lançar a sarcástica The Big Bright Green Pleasure Machine (de Paul Simon) em outubro de 1966, o grupo anunciou sua separação.

A partir daí, Gerry Marsden investiu em uma carreira-solo sem grande repercussão, além de atuar em programas de TV e em um musical no teatro. Nos anos 1970, tentou reativar o grupo com uma nova formação que fez shows e lançou em 1974 o single Remember (The Days Of Rock And Roll), que passou batido em termos de sucesso.

Gerry, mesmo assim, manteve-se fazendo shows no circuito nostálgico, sempre se mostrando sensível e disponível para apoiar causas beneficentes. Com esse objetivo, regravou em 1985 You’ll Never Walk Alone, e o single voltou ao primeiro lugar por lá, a primeira vez em que um mesmo intérprete participava de duas versões número 1 de uma mesma canção. E o fato se repetiu em 1989, quando ele, ao lado de Paul McCartney, The Christians, Holly Johnson (do grupo Frankie Goes To Hollywood) e o trio de produtores e compositores Stock Aitken e Waterman, releu Ferry Cross The Mersey, que mais uma vez virou um hi nº1.

Aliás, a relação entre Frankie Goes To Hollywood e Gerry And The Pacemakers vai além de ambas as bandas serem oriundas de Liverpool. O grupo do cantor Holly Johnson foi exatamente aquele que, em 1983 e 1984, repetiu a façanha de seus conterrâneos, emplacando seus três primeiros singles- Relax, Two Tribes e The Power Of Love– no posto mais alto da parada britânica.

Aliás, mais duas coincidências ocorreriam entre eles. Welcome To The Pleasuredome, o 4º single do FGTH, bateu na trave, atingindo o 2º posto nos charts britânicos e os impedindo de conquistar seu 4º número 1 consecutivo. E o sucesso de Holly e seus colegas também se mostrou efêmero, com o grupo saindo de cena em 1987.

Gerry Marsden lançou em 1993 sua autobiografia I’ll Never Walk Alone em parceria com Ray Coleman, ex-editor do jornal britânico especializado em música Melody Maker. Ele foi condecorado com o MBE em 2003 pela sua atuação em causas humanitárias, e sofreu duas operações cardíacas, em 2003 e 2016. Ele anunciou sua aposentadoria em 2018, mas ainda apareceria publicamente celebrando a vitória de seu amado Liverpool na Champions League em 2019 e regravando You’ll Never Walk Alone em 2020 em homenagem aos profissionais da saúde do Reino Unido.

It’s Gonna Be Alright- Gerry And The Pacemakers:

3 Comments

  1. Valdimir D"Angelo

    January 4, 2021 at 7:31 pm

    Maravilha de texto! Até me lembrei quando eu, você e o Mugnaini trocávamos It’s Gonna Be Alright no apartamento da mãe dele… rsrsrsrs!

  2. Valdimir D"Angelo

    January 4, 2021 at 7:32 pm

    Tocavamos!

  3. Fabian Chacur

    January 4, 2021 at 11:29 pm

    Grande Padrinho, uma honra ter esse seu comentário! Uma correção e um acréscimo: na verdade, eu fui só plateia, tendo a honra de ver você, o Bonitão Ademir e o Ayrton tocando It’s Gonna Be Alright, que eu conheci graças a vocês! Grande abraço e muita saudade de você!

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