Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: as tais memórias (page 1 of 5)

Marie Fredriksson, do Roxette, a cantora que não gostava de tédio

Por Fabian Chacur

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Don’t Bore Us- Get To The Chorus! (não nos entedie, vá direto ao refrão!, em tradução livre) é o título da primeira coletânea de hits do grupo sueco Roxette, lançada em 1995, e serve como uma boa definição da música que este bem-sucedido e talentoso duo fez durante sua carreira. Infelizmente, essa trajetória está encerrada, pois sua vocalista, Marie Fredriksson, nos deixou nesta segunda-feira (9), aos 61 anos, após ter lutado de forma corajosa durante quase 20 anos contra um câncer.

Nascida em 30 de maio de 1958, Marie se formou em música e se envolveu na cena pop musical sueca. Após integrar grupos sem grande repercussão, ela resolveu iniciar uma carreira-solo e teve o apoio de um amigo, o cantor, compositor e guitarrista Per Gessle, integrante da bem-sucedida banda de rock Gyllene Tider. Eles gravavam seus discos em sueco e cresciam em termos locais.

No entanto, o talento dos dois indicava possibilidades de uma carreira internacional, e o primeiro passo foi pegar uma música do guitarrista, vertê-la para o inglês e gravá-la em duo com Marie. O resultado, Neverending Love, foi a semente que gerou o surgimento do duo, batizado de Roxette, cujo primeiro álbum, Pearls Of Passion, saiu em 1986, sem atingir os objetivos desejados.

Sem desanimar, eles prosseguiram investindo no projeto. Nesse meio-tempo, Marie fez uma mudança radical no visual, cortando os longos cabelos e adotando um estiloso corte curtinho que virou sua marca registrada. Em 1988, veio o segundo álbum, Look Sharp!, que parecia se encaminhar para o mesmo destino do anterior. Só que não! O single The Look estourou de forma inesperada nos EUA em 1989, atingindo o número 1 na parada de lá.

Era o início de uma invasão no principal mercado musical mundial, que se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Do mesmo álbum, Listen To Your Heart repetiu a performance de The Look, enquanto Dangerous atingiu o segundo posto. Em 1990, como parte da trilha sonora do filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher), estrelado por Julia Roberts e Richard Gere, It Must Have Been Love também virou nº 1 nos EUA.

A fórmula azeitada era simples, mas muito bem executada: um misto de rocks com pegada dançante e power ballads compostas por Per e interpretadas com muita personalidade e categoria por Marie. De quebra, os clipes sempre bem elaborados e os shows calorosos e de um profissionalismo impecável, além da simpatia dos dois, tornou o Roxette um fenômeno de vendas e popularidade.

Joyride (1991) manteve os amigos nos charts, com sua festiva faixa-título sendo seu 4º número um no formato single e a balada Fading Like a Flower (Every Time You Leave) chegando ao 2º lugar. Era o auge do Roxette no mercado americano.

A partir daí, o sucesso do duo na terra de Barack Obama teria uma grande redução, mas isso não ocorreria no resto do mundo, onde os dois amigos permaneceram populares e requisitados.

Em 1995, sai a primeira coletânea de hits do grupo, Don’t Bore Us- Get To The Chorus!- Roxette’s Greatest Hits, incluindo 12 hits e quatro inéditas, entre as quais uma que estourou por aqui, a deliciosamente sessentista June Afternoon, com direito a um icônico clipe revivalista.

As coisas começaram a se complicar para o Roxette a partir do lançamento do álbum Room Service (2001). Pouco tempo depois, Marie foi diagnosticada com um tumor cerebral. Mesmo com essa séria dificuldade a ser enfrentada, a cantora não se entregou, lançando em 2004 seu primeiro disco solo em inglês, The Change, e voltando a se dedicar ao Roxette a partir do lançamento do álbum Charm School (2011).

O último álbum do Roxette, Good Karma, saiu em 2016, e nesse mesmo período a cantora anunciou que não faria mais turnês. Ela ainda lançou três singles solo entre 2017 e 2018. Foram oito discos solo (sete deles em sueco) e dez álbuns de estúdio com o Roxette.

Com grande sucesso no Brasil, Marie Fredriksson e Per Gessle fizeram sua primeira turnê por aqui em 1992, e tive a honra de participar da coletiva de imprensa concedida por eles em São Paulo, quando consegui o autógrafo do duo na capa da minha edição em vinil do álbum Joyride e ainda troquei umas palavras adicionais com o Per após a coletiva, na qual ele me falou sobre sua paixão pela marca Rickenbacker de guitarras e pelo som de Tom Petty e Jackson Browne.

O show em São Paulo, realizado no estacionamento do Parque Anhembi, foi simplesmente impecável, com gente pelo ladrão. Em 1995, eles voltaram, e estive de novo na entrevista coletiva. O duo voltou a tocar por aqui em 1999 e 2011, sempre atraindo um público significativo.

A simpática e talentosa guerreira Marie nos deixou de forma prematura, mas fica a certeza de que soube aproveitar bem essa sua passagem por essa coisa chamada vida. C’mon join the joyride!

June Afternoon (clipe)- Roxette:

Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

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Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

Fuad Chacur, comerciante, fã de Carlos Gardel, meu amado pai!

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Por Fabian Chacur

Se estivesse vivo (e está, no meu coração), meu pai faria 110 anos nesta quarta (24). Fuad Chacur nasceu no dia 24 de julho de 1909 e se foi em um triste 21 de setembro de 1998, um dos dias mais tristes de minha vida.

Ele foi comerciante, dono de uma das lojas de calçados mais badaladas de São Paulo dos anos 40 aos 60, as Casas Paraíso, cuja sede ficava na esquina da rua Vergueiro com a rua do Paraíso, em frente ao Centro de Operações do Metrô, sendo que no seu auge tinha várias filiais. Uma delas, situada na Praça Oswaldo Cruz, no comecinho da avenida Paulista, é ainda hoje uma loja de calçados.

Hoje tem um bar no lugar da antiga sede, vaga sombra de um tempo de glória. O prédio ficou por muitos anos desocupado, como se vivesse uma maldição causada pelo fato de o novo dono de lá ter despejado de forma cruel o meu pai (que havia sido proprietário daquele local) de lá por volta de 1977-78.

Fuad Chacur era um fã entusiástico de tango. Chegou a patrocinar em São Paulo, nos idos dos anos 40, um programa de rádio dedicado ao estilo. Ele até me disse que patrocinou a vinda de um cantor argentino do gênero ao Brasil, nos tempos em que meu saudoso velhinho morava no edifício Martinelli, algo comparável, hoje em dia, a morar em um Mofarrej Sheraton da vida. O cara era poderoso.

Ele amava Carlos Gardel, e até tínhamos em casa um disco de 78 rotações com a música Arrabal Amargo, clássico do Bob Marley do tango, ou seja, ícone máximo de um gênero ainda relevante nos dias de hoje.

Seo Fuad não era muito fã de música moderna. Mas, lá pelos idos de 1973, apaixonou-se por uma canção chamada Do You Love Me, interpretada por um certo Shariff Dean. A ponto de eu ter comprado o compacto simples para ele, que várias vezes pediu para que eu o colocasse em nosso toca discos.

Só para constar, Shariff Dean cantava essa música em dueto com a cantora Eveline D’Haese. Ele teve mais dois sucessos nas paradas, No More Troubles e uma releitura simpática de Stand By Me, hit de Ben E. King e também gravada com categoria por John Lennon no álbum Rock And Roll (1975).

Só em outra ocasião ele me pediu um disco novamente. Foi Clair de Lune, de Debussy, tema da novela global Chega Mais por volta de 1980. Era tema da personagem Gelly Maia, vivido por Sonia Braga. Curiosamente, a melodia de Do You Love Me tem uma certa semelhança com essa obra-prima de Debussy.

Ah! Também comprei nos anos 80 um LP de vinil com os maiores sucessos de Carlos Gardel para ele, disco que hoje está comigo.

Quando eu nasci, meu pai estava com 52 anos. Não deve ter sido fácil para ele conviver com um filho tão mais novo. Minha mãe certa vez me contou que, na maternidade, uma enfermeira viu meu pai por lá e o parabenizou pelo “netinho”. Ele ficou quieto e aceitou o cumprimento. Nem precisa dizer que a enfermeira, ao saber o fora que tinha dado, não sabia onde enfiar a cara…

Mas seo Fuad encarou o desafio da melhor forma possível. Todo dia ele levava chocolate para o caçulinha dele. A partir de um determinado momento, passou a me dar uma pequena mesada, com a qual eu comprava revistas em quadrinhos, a Placar e também discos, pois minha paixão por música começou muito cedo.

O mais legal era quando ele acordava bem disposto, em um domingo, e me levava para ver um jogo de futebol no campo, Pacaembu ou Palestra Itália. Íamos de ônibus, e por lá, sempre rolava aquele picolé. Dias inesquecíveis. Ele nem se importou com o fato de eu não torcer para o mesmo time dele, de eu ser “palmeirista”, como ele dizia.

Era democrata, seguidor fiel do antigo PSD, e especialmente de Ulysses Guimarães, seu político favorito e no qual ele votada sempre, invariavelmente. Na época das eleições, eu sempre brincava, perguntando em quem ele iria votar para deputado federal, e a resposta era sempre “no mesmo!”

Meu pai era meio fechado, e só conversava com quem conhecia ou gostava. Pelo menos, ele era assim, quando convivi com ele. Adorava ouvir suas histórias, sobre futebol, a sua loja de calçados (que infelizmente fechou no finalzinho dos anos 70), seus tempos de Síria (ele era filho de um nativo daquele país)…

Sua vida não foi nada fácil. Vivenciou os dois extremos, da riqueza no auge da carreira de comerciante ao sofrimento dos tempos de criança, especialmente nos anos em que viveu na Síria, em meio à Primeira Guerra Mundial, após a morte prematura de sua mãe, período no qual, ele me contou certa vez, ganhava um torrão de açúcar e o consumia pedacinho a pedacinho por muitos e muitos dias, pois era o doce possível, naqueles dias tão difíceis.

Com a morte também prematura do pai, virou arrimo de família ainda adolescente, e deu conta do recado como poucos seriam capazes. Ele nunca foi de ficar reclamando, embora tivesse temperamento forte, típico de leonino.

Nas Casas Paraíso, ele liderava o time, mas também vendia. E foi em uma dessas vendas que ele conheceu uma morena que, embora muito mais nova do que ele, cativou seu coração. Essa garota, Victoria Irene, com seus 20 e poucos anos, resistiu bravamente a aquele filho de árabes, mas sucumbiu ao charme dele. Deu casório, com direito aos filhos Victor e Fabian (este que vos tecla).

Com o tombo que levou no comércio, viveu seus últimos 20 anos de forma muito mais modesta, mas manteve a espinha ereta. Foi digno até o seu último momento. Cometeu erros, obviamente. Afinal, não somos todos seres humanos? Mas foi um sujeito que fez a diferença de forma positiva para seus parentes e amigos. Amigos que, em sua grande parte, sumiram quando a bonança se foi….

Vai fazer falta assim ali adiante. Beijão no seu coração, Seo Fuad!

Do You Love Me– Shariff Dean e Eveline D’Haese:

De The Motor Song até Rise, uma viagem funk com Randy Badazz

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Por Fabian Chacur

Há alguns anos, uma querida amiga minha, a Camila Proença, pediu minha ajuda para descobrir o nome e quem interpretava uma determinada música. Foi um pouco difícil, mas consegui atendê-la, e recebi como agradecimento ser definido como um “C.S.I. da música”, definição ao mesmo tempo divertida e com um certo sentido. Não sou nem de perto o melhor nessa tarefa de descobrir nomes de músicas e algo sobre seus intérpretes, mas é algo que me diverte, e muito.

Uma boa história para ilustrar essa minha vocação de “Gil Grissom da música” remete ao ano de 1983. Na programação da antiga emissora de FM Jovem Pan 2, rolava um funk raiz dos bons, apresentado como The Motor Song, sendo que o nome do intérprete sempre era dito de forma ininteligível. Era uma das músicas favoritas tanto minhas como do meu irmão Victor. Como sempre fui um ávido consumidor de discos, corri atrás de mais informações sobre essa faixa.

Dei uma geral em várias lojas procurando, mas nenhuma me passava qualquer informação. Depois de muito esforço, consegui algo em uma loja especializada em black music. “Sim, conheço, mas não tenho por aqui, só saiu importado, é de um grupo de new wave”, falou o vendedor. Pedi para ele me escrever o nome do tal grupo, e ele me escreveu algo como The Rand Heend, ou coisa que o valha.

Sem maiores progressos, passei anos correndo atrás da tal música. Quando trabalhei no extinto jornal Diario Popular (de 1988 a 1995), como crítico musical e repórter especializado em música, fiz muita amizade com os nossos office boys, todos fãs de música. Um deles em especial, o Rietson, era fissurado em black music, e sempre trocávamos belas figurinhas sobre o tema.

Um dia, lá por 1993, lembrei-me de The Motor Song e perguntei se ele conhecia alguma música funk com esse título. Rietson procurou um amigo fera nessa praia, e o cara não só conhecia, como também me indicou onde eu poderia comprar um disco com a mesma. Tratava-se de uma coletânea em vinil intitulada Fina Nostalgia (1993), com uma capa como se fosse de um compacto simples, com furo no meio, sem foto, sem nada. Piratíssima, montada aqui no Brasil mesmo.

A compilação, vendida a preço mais caro do que o de um LP comum, trazia oito raridades de bailes black, entre elas a minha amada The Motor Song. Foi o próprio Rietson que a comprou para mim, e lá, o nome do grupo era não The Rand Heend, mas Randy Andy. Como essas coletâneas “Capitão Gancho” volta e meia traziam os nomes de músicas e artistas com erros, pensei que fosse o caso. Mas o legal era ter, enfim, esse petardo funk em disco, para tocar quando quisesse.

Na época, já estava casado. Meu irmão também, mas ele morava na casa dos meus pais com sua esposa. Todo feliz, liguei para ele e informei sobre minha aquisição, e olhem só a surpresa: “cara, que coincidência, eu também comprei uma coletânea em uma loja aqui na Vila Mariana (bairro em que ele morava e no qual fui criado) com essa música, só que em CD!” Nem é preciso dizer que também fui àquela loja e comprei um exemplar para mim.

Outra compilação brazuca piratíssima, intitulada Old School Funk- The Best- Vol.1, com 12 petardos, incluindo The Motor Song, novamente creditada a Randy Andy. Na maior cara de pau, o CD era creditado a uma suposta New York Records, com Made in U.S.A. na contracapa e tudo. As músicas foram evidentemente extraídas de vinis, com uns estalinhos aqui e ali, mas com qualidade de som mais do que satisfatória. Encerrado o jogo, então? Até parece…

Mas quem ou o que era o tal de Randy Andy?

O disco, eu já tinha, mas isso não me bastava. Precisava saber o que ou quem era Randy Andy. E mais anos e anos vieram sem que qualquer nova pista surgisse. Só que, a partir do ano 2000, com o crescimento da internet, as perspectivas de encontrar informações sobre tudo cresceram de forma exponencial. Pelo menos, era o que parecia. Mas não foi tão fácil…

Durante um bom tempo, digitava no google e no youtube com esperanças de saber mais sobre The Motor Song e Randy Andy. E foi um longo período tendo como resposta aquele trecho de Você Não Soube Me Amar, da Blitz, o famoso “nada, nada, nada!”. Mas quem é que disse que um C.S.I. da música desiste?

Nesta década, enfim The Motor Song apareceu no youtube, inicialmente sem quaisquer dicas sobre seus intérpretes. Até que um dia, enfim uma pista. Randy Andy (assim, mesmo, o nome registrado nos discos piratas era o correto) era na verdade uma dupla formada por Randy Badazz e Andy Armer. O primeiro nome não me era estranho, e resolvi pesquisar especificamente sobre ele. E aí veio uma grande surpresa, que me permitiu desvendar todo o mistério.

Um parente famoso e um hit mundial que todos conhecem

Sabem de onde eu me lembrava de ter visto esse nome, Randy Badazz? Foi em um disco de Herb Alpert. Sim, o grande saxofonista, líder da banda Tijuana Brass, que vendeu milhões de discos na década de 1960, e também o fundador em 1962, ao lado do sócio Jerry Moss, da gravadora A&M Records, que lançou não só os discos dele e do seu grupo como também os artistas do altíssimo calibre de Sérgio Mendes, Carpenters, The Police, Joe Cocker, Peter Frampton, Supertramp, Carole King e dezenas de outros.

Esse disco era o álbum Rise, lançado em 1979 e cuja faixa-título chegou ao primeiro lugar na parada americana, um hit instrumental com swing funk simplesmente espetacular. Badazz era creditado como coprodutor do álbum e também autor de duas faixas, a própria Rise e Rotation, ambas escritas e parceria com aquele tal de Andy Armer.

A maior surpresa era que o real sobrenome de Randy era, na verdade….Alpert! Sim, meus amigos, ele é sobrinho de Herb! E não pensem que sua ligação com o trabalho do titio famoso rolou de forma simples e rápida. Foram alguns anos até que os dois fizessem algo juntos, até pelo fato de que Randy queria provar que era capaz de vencer por sua própria conta. Senta, que lá vem história!

A trajetória de Randy Badazz Alpert

Randy Alpert nasceu nos EUA em 1955. Aos 11 anos de idade, fascinado por música, não só aprendia a tocar como também trabalhava no estoque da gravadora A&M, do tio Herb, embalando discos. No entanto, ele não queria se valer do sobrenome famoso do seu tio para a carreira musical, para não ser acusado de oportunista ou aproveitador.

Nos tempos de colégio, ele recebeu o apelido de bad ass (algo como “o fodão”, em tradução livre) dos amigos por sempre se safar dos problemas, e adaptou para Badazz como sobrenome artístico, deixando o Alpert para lá. Ainda adolescente, ficou amigo de Andy Armer, com o qual criou uma sólida parceria musical. Seu primeiro trabalho mais sério foi gravar fitas demo para a banda de soul-funk Con Funk Shun, conhecida por hits como Got To Be Enough.

Como essas demos eram muito boas, o diretor artístico (A&R) da A&M, Chip Cohen, sugeriu a Andy que fizesse novas versões de sucessos da banda de Herb Alpert, a Tijuana Brass, desta vez em ritmo de disco music, a febre daquele momento. O tio gostou da ideia, mas logo na primeira tentativa, com a música The Lonely Bull, ele percebeu que aquilo não levaria a nada.

No entanto, havia muito tempo de estúdio reservado para a tarefa, e Alpert sugeriu ao sobrinho e ao parceiro Andy Armer que lhe mostrassem alguma composição deles. Eles tinham uma em mãos, inicialmente em 125 rotações por minuto, mas perceberam que poderia ficar melhor em uma levada mais lenta, até chegarem a 100 bpm, ainda funk e swingada, mas bem mais sensual.

Herb Alpert não só amou como logo criou suas passagens de trumpete. Ao ouvir o resultado final, previu que aquela faixa, Rise, era um hit em potencial. E estava certo, pois esse petardo atingiu o primeiro posto na parada americana em outubro de 1979, permanecendo nesse posto por duas semanas e invadindo as paradas de sucesso de todo o mundo.

Enfim o tal de Randy Andy!

Em 1983, Armer e Badazz resolveram tentar a sorte como artistas, e criaram uma dupla, que batizaram de, adivinhe? Randy Andy. Naquele mesmo ano, lançaram um álbum pela A&M, autointitulado. A primeira música a ser divulgada foi a tecnopop The People (Livin’ in the USA), uma sátira ao modo acelerado de vida dos americanos com direito a um videoclipe bem divertido que chegou a entrar na programação da MTV em horários alternativos.

A outra faixa de destaque foi o incrível funk The Motor Song, que pegou no breu principalmente nos clubes de dance e black music dos EUA, Europa e Brasil. Como a agenda de Armer e Badazz era muito apertada, eles não tiveram como se dedicar com mais afinco à divulgação de seu álbum, e nem mesmo shows fizeram, o que certamente explica o porque de sua repercussão ter sido abaixo do que merecia. E o duo ficou por aí, mesmo, com os amigos seguindo outros caminhos.

Andy Armer trabalhou posteriormente com Roberta Flack, Lenny Kravitz e Carl Wilson (dos Beach Boys), e se deu bem com a sonorização de games para empresas como Sega, Sony, Atary e Microsoft, entre outras.

Por sua vez, Randy Badazz lançou músicas solo como Captain Badazz e montou um estúdio, o Scream Studios, usado por nomes como Nirvana, U2, Madonna e muitos outros. Em torno de 43 de hits que atingiram o topo da parada americana foram gravados ou mixados no Scream.

Rise teve um de seus trechos sampleado pelo rapper Notorious B.I.G. em seu megahit Hypnotize, que chegou ao primeiro lugar da parada americana em 1997, e foi regravada pelo brasileiro Leo Gandelman em 1999 no álbum Brazilian Soul.

Esta longa história teve suas informações pesquisadas em pequenas e inúmeras fontes, incluindo a minha memória, gerando um verdadeiro quebra-cabeças que finalmente acabo de montar. Vale citar a entrevista concedida por Badazz ao jornalista Andrew Unterberger para a Billboard americana em 3 de janeiro de 2017. E aí, fãs de Gil Grissom e de música, valeu esse trabalho todo?

obs.: a foto que ilustra este post traz Randy Badazz e Herb Alpert, da esquerda para a direita.

Ouça The Motor Song aqui .

Ouça Rise aqui :

Eis a relação de músicas do álbum Randy Andy (1983):

A1
The Motor Song (Stick in Your Dipstick) 5:26
A2
It’s Always You 5:17
A3
The Oddball 4:09
A4
The Girl is Driving Me Crazy 5:10
B1
The People in the U.S.A. (Poor Man – Rich Man Suite) 7:25
B2
Fallout 1:01
B3
It’s Such a Funny business 3:54
B4
Teacher, Teacher 5:59
B5
The Optimist 0:31

Veja o clipe de The People (Livin’ In The USA):

André Midani, do Dia D na França ao maravilhoso mundo da música

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Por Fabian Chacur

A vida é mesmo imprevisível. Pode um cara oriundo da longínqua Síria e criado na França ter sido decisivo para a história da música popular brasileira durante inúmeras décadas? Uma trajetória improvável, porém plenamente real. Esse cara, André Midani, teve uma bela missão, e a cumpriu de forma plena e apaixonada. Mas toda história, infelizmente, tem um fim, e ele nos deixou nesta quinta-feira (13) aos 86 anos de idade, vítima de um câncer que o atormentava há alguns meses, segundo informou seu filho, Phillipe.

Nascido na Síria em 25 de setembro de 1932 (mesma data e mês que eu, que honra!), André veio para o Brasil em 1955, e por aqui, firmou-se na indústria fonográfica, ramo no qual ele havia começado a atuar na França. Sempre com os ouvidos abertos e dono de uma sensibilidade musical enorme, além de ousadia ilimitada, atuou em gravadoras como a EMI-Odeon, Phillips e Warner. Foi decisivo no desenvolvimento das carreiras de gente como João Gilberto, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Titãs, Lulu Santos e dezenas, senão centenas de outros nomes importantes para a nossa música.

Mesmo com todo esse currículo e todas as suas realizações, Midani sempre se mostrou simpático, acessível e disposto a aprender novas lições. Sua vida incrível foi contada de forma deliciosa no livro Música, Ídolos e Poder- Do Vinil Ao Download (leia a resenha aqui) e na ótima série televisiva André Midani- Do Vinil Ao Download, de 2015 (leia mais aqui).

Não por acaso, executivos do calibre dele começaram a ter menos espaço nas grandes gravadoras transnacionais sediadas no Brasil a partir do final dos anos 1980, quando essas empresas aos poucos entraram em uma decadência cujos frutos podres colhemos atualmente. Para Midani, a música enquanto arte vinha sempre em primeiro lugar. Bom seu legado ter sido devidamente cultuado enquanto ele ainda estava entre nós. Sua passagem se dá em um momento difícil do Brasil, mas que ele fique como exemplo para uma futura volta por cima, em todos os setores, especialmente o da cultura.

Veja entrevista com os diretores da série de TV sobre André Midani:

Andre Matos, o garoto que realizou um sonho impossível

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Por Fabian Chacur

Andre Matos era uma garoto que tinha um sonho impossível: tornar-se um astro do heavy metal. Isso, cantando em inglês e sendo brasileiro, em plenos anos 1980. Não tinha como dar certo. Mas deu! O cantor, compositor e músico paulistano viu seu trabalho ultrapassar fronteiras, conquistar fãs no mundo todo e virar uma referência no gênero musical ao qual se dedicou. Ele infelizmente nos deixou de forma precoce neste sábado (6), aos 47 anos de idade, mas teve uma vida incrível. E tornou real o tal do sonho impossível.

Andre nasceu em São Paulo em 14 de setembro de 1971, nativo de Virgem. E suas características tinham tudo a ver com este signo do zodíaco. Era um cara perfeccionista, articulado, que lutava intensamente pela realização de seus objetivos. Ainda moleque, juntou-se aos irmãos Yves e Pit Passarel para criar um grupo de heavy metal. O Viper surgiu em 1985, incentivado pela primeira edição do Rock in Rio e também pelo crescimento de uma cena headbanger paulistana.

Naquela São Paulo de 1985, projetos como o SP Metal e a revista Rock Brigade ajudavam a incentivar o surgimento de bandas de rock pesado na cidade. A publicação criada por Toninho Pirani resolveu criar um selo para lançar algumas daquelas bandas. E os literalmente moleques do Viper foram agraciados com um contrato com a Rock Brigade Records, pela qual lançaram em 1987 seu álbum de estreia, Soldiers Of Sunrise (1987), seguido por Theatre Of Fate (1989).

Com esses dois discos, o Viper mostrou competência ao digerir influências de Iron Maiden, Helloween e outras bandas importantes daquele período. Com uma voz potente, Andre aos poucos ganhou protagonismo no heavy metal brasileiro. Ao iniciar os estudos musicais, sentiu que era hora de partir para novos rumos, e deixou a sua primeira banda. Em 1991, criou um novo time, o Angra, com exímios músicos, especialmente os guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro.

Angels Cry (1993), o álbum de estreia do quinteto, mostrou um som ainda mais elaborado e consistente, com direito até mesmo a um ousado cover de Wuthering Heights, primeiro sucesso da cantora britânica Kate Bush. Mas o melhor, mesmo, viria com Holy Land (1996), ambicioso álbum que misturou de forma criativa e elaborada heavy rock, música erudita e elementos oriundos da música brasileira, com resultado que os levou ainda mais longe.

Se com o Viper Andre já havia iniciado uma boa repercussão fora do Brasil, especialmnente na Ásia, com o Angra essa peregrinação roqueira foi ainda além, com o disco conquistando elogios também na Europa e EUA. Nesse período, ele quase chega a um posto inacreditável: ser vocalista do Iron Maiden. Com a saída de Bruce Dickinson, a vaga ficou em aberto, e ele esteve na boca de conquistá-la. O “cargo” ficou, no fim das contas, com o britânico Blaze Bayley, mas nosso cantor saiu vitorioso, pois dessa forma teve a chance de dar prosseguimento em uma carreira autoral que vinha muito bem.

Problemas de relacionamento tiraram Andre e também Ricardo Confessori e Luis Mariutti do Angra em 2000. No ano seguinte, eles, aliados ao irmão de Luis, Hugo, criaram um novo time. Surgia o Shaman, que em 2002 lançou seu álbum de estreia, Ritual, pela Universal Music. A música Fairy Tale os levou à trilha sonora da novela global O Beijo do Vampiro, algo impensável para uma banda de heavy brazuca. Outra façanha na conta de Matos.

Com a separação da formação original do Shaman em 2006, Andre investiu em uma carreira solo que rendeu os álbuns Time To Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn Of The Light (2012). E foi na época em que ele lançou este último que tivemos o reencontro entre ele e os antigos amigos do Viper. A nova parceria teve como ápice a participação deles no Rock in Rio em 2013, justo o festival que, naquele agora longínquo 1985, os incentivou a ir à luta.

Além dessas três bandas icônicas, Andre Matos marcou presença em diversos outros projetos, entre os quais o Virgo, com o produtor alemão Sascha Paeth, o Avantasia do também alemão Tobias Sammet. E foi em uma participação em um show deste último no domingo (2) no Espaço das Américas que ele subiu em um palco pela última vez. Ele vinha se dedicando a uma turnê de reunião do Shaman cujo início havia ocorrido em 2018. Ainda tinha muita coisa para rolar na vida dele. Uma pena. Mas quantos sonhos o cara concretizou, heim?

Nesses anos todos, tive a oportunidade de entrevistar Andre Matos em diversas ocasiões. Em todas elas, presenciei um cara extremamente educado, simpático e articulado, que demonstrava segurança em relação a seus objetivos. O último contato ocorreu em 2013, em entrevista ao lado dos amigos do Viper, um delicioso encontro entre garotos que sonharam juntos e viram esses objetivos se tornarem realidade, um a um. Sentirei muita falta dele, podem ter certeza. E me sinto honrado de ter meu nome nos agradecimentos incluídos no encarte do álbum Holy Land. Ainda mais em um álbum com aquele porte. Gratidão eterna!

Ouça Holy Land, do Angra, na íntegra:

Beth Carvalho, uma embaixatriz do samba que fará muita falta

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Por Fabian Chacur

Em um distante dia de 1998, estava este repórter na sala da casa de Beth Carvalho, situada em um bairro bacana do Rio de Janeiro, um local alto com bela vista. Com a desenvoltura que lhe era habitual, ela me disse que nunca deixou a seleção das músicas de seus discos para quem quer que fosse. Na hora de bater o martelo, quem fazia isso era ela. “Você pode me perguntar a música que quiser, de qualquer dos meus discos, e eu te direi como e porque gravei”, afirmou, com autoridade. Essa embaixatriz do samba nos deixou nesta terça-feira (30), aos 72 anos, após sofrer durante quase dez anos.

Nessa dura década, esta cantora e musicista carioca chegou a ficar internada em hospitais por longos períodos. Mesmo assim, fez alguns shows e gravou. Ficou marcada sua performance em uma espécie de sofá instalado no palco para que pudesse entrar em cena e dar conta do recado. Até brincou, dizendo que, se houve “Na Cama Com Madonna” (o célebre filme da estrela americana), por que não poderia haver “Na Cama Com Beth Carvalho”? E assim se fez.

Beth nos deixa na antevéspera de seu aniversário de 73 anos, que seria completado no próximo dia 5 de maio (nasceu em 1946, no Rio). Sua ligação com a música teve início logo cedo, e mesmo oriunda de uma família de classe média, a moça logo se engraçou com a música, integrando um grupo influenciado pela bossa nova e depois partindo para a carreira solo. O primeiro sucesso veio em 1968, ao interpretar em um festival a canção Andança, ao lado dos Golden Boys.

O mergulho no samba, como intérprete, consolidou-se na década de 1970, especialmente a partir do esplêndido álbum Pra Seu Governo (1974), no qual consegue captar o som do samba mais próximo das rodas de partideiros, com direito a faixas matadoras como Miragem, A Pedida é Essa e outras. Em pouco tempo, com sua voz potente e charmosa e uma presença de palco marcante, tornou-se uma diva do gênero, ao lado de Clara Nunes e Alcione.

Inquieta, sempre buscava novos compositores e espaços dedicados ao samba, e nessas garimpagens, deu espaços importantes nos anos 1970 e 1980 para que artistas então desconhecidos, como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e o Grupo Fundo de Quintal (de quem se autonomeou madrinha) ganhassem os holofotes que mereciam. E vale lembrar que é dela a gravação original, e de maior sucesso, de um clássico perene do grande Cartola, As Rosas Não Falam, que foi até trilha de novela global.

Em sua fase áurea, entre as décadas de 1970 e 1980, a cantora carioca empilhou clássicos nas paradas de sucesso, como Vou Festejar, Saco de Feijão, Coisinha do Pai, 1.800 Colinas e tantos outros. Em um show dela que tive a chance de ver, lá pelos idos de 1986, no 150 Night Club do Maksoud Plaza, em São Paulo, vi a intérprete ser obrigada a repetir por três ou quatro vezes Andança, tal o entusiasmo do público presente.

Em 1987, Beth Carvalho lançou um álbum histórico, Ao Vivo em Montreux, gravado durante um show no histórico festival de jazz na Suíça, um marco na história do samba. Várias vezes ela mostrou os seus sucessos em shows no exterior, sempre com grande repercussão por parte do público.

Um de seus discos mais marcantes foi Saudades da Guanabara (1989), com pelo menos duas faixas marcantes: a que lhe deu título, de autoria de Paulo Cesar Pinheiro, Moacyr Luz e Aldyr Blanc (ouça aqui) e que lembrava de tempos melhores na história carioca, e a música Botafogo Campeão (Esse é O Botafogo Que Eu Gosto) (ouça aqui), na qual celebrava o título carioca que seu time de coração ganhou naquele 1989, após 21 anos sem gritar é campeão. Discaço mesmo!

Ao contrário de outros artistas, que preferem guardar para si suas preferências políticas, Beth sempre se mostrou defensora de ideias progressistas, sendo uma brizolista fanática, especialmente por causa da implantação dos CIEPS. Certamente não devia estar muito feliz com os atuais rumos da política brasileira. Seja como for, deixa uma marca fortíssima na história da nossa música, como divulgadora de um de nossos gêneros musicais mais populares e significativos. A frase é um baita de um clichê, mas não há como fugir dela: o brasileiro está de luto com a sua partida prematura.

Ouça o álbum Pra Seu Governo, de Beth Carvalho, em streaming (obs.:a versão da faixa Maior é Deus é de outro disco, não a original desse álbum clássico, mas está valendo, assim mesmo):

Nat King Cole, doçura e talento que conquistaram o mundo

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Por Fabian Chacur

Minha saudosa mãe Victoria amava a música, e tinha um gosto bem diversificado. Entre os artistas que mais curtia, figurava o saudoso compositor e músico americano Nat King Cole. Não foram poucas as vezes em que o LP Cole Español (1958) virava a trilha sonora daquela casa situada na Vila Mariana, nos anos 1960 e 1970. Uma das músicas, particularmente, conquistou-me para a vida, a deliciosa Cachito. Com o decorrer dos anos, vi que aquilo era apenas a ponta de um iceberg musical daquele artista, que se estivesse entre nós estaria completando 100 anos de idade neste domingo (17). Um sujeito realmente unforgettable.

Como forma de celebrar essa data, peguei na minha videoteca e revi o excelente documentário The World Of Nat King Cole, lançado em DVD em 2005 e altamente recomendável. Nathaniel Adams Coles nasceu em Montgomery, Alabama, no dia 17 de março de 1919. Quando o garoto completou quatro anos, sua família resolveu se mudar para Chicago, com a esperança de buscar dias melhores, além de fugir do forte racismo daquele estado americano. Uma atitude que se mostrou certeira para o futuro dele.

Com apenas 16 anos, Nat já era um elogiado pianista, em no fim dos anos 1930 já liderar seu grupo. Aliás, a formação de seu King Cole Trio se mostrou revolucionária, pois trazia ele no piano e voz, um baixista e um guitarrista. Ou seja, sem bateria. Quando a música americana vivia o auge das big bands, em plena Segunda Guerra Mundial, ele teve seu primeiro hit, Straighten Up And Fly Right, mesma época em que iniciou sua parceria com a Capitol Records.

O repertório de Cole no início investia no jazz, com bons espaços para a parte instrumental. Com o tempo, no entanto, sua bela voz e o estouro de baladas românticas como Nature Boy (1947), Monalisa (1950), Unforgettable (1951) e Too Young (1951) o levaram a priorizar o canto, o que levou ao fim do trio. Ele vendeu tantos discos que a gravadora Capitol construiu um novo prédio, imenso, em Los Angeles, para abrigar sua nova sede. O prédio recebeu o apelido de “The House That Nat Build” (a casa que Nat construiu). E não há exageros aqui, foi exatamente isso o que ocorreu.

Com seus ternos elegantes e estilosos, sua simpatia e uma voz de timbre doce e envolvente, acompanhada por caprichados arranjos orquestrais, Nat King Cole atravessou a década de 1950 como um dos maiores astros da música. Isso, mesmo tendo de enfrentar o racismo no seu país natal em várias ocasiões, como a rejeição que sofreu dos seus vizinhos endinheirados e racistas em um bairro nobre nos arredores de Los Angeles, ou quando foi atacado no palco durante um show em Birmingham, Alabama, em 1956.

Entre 1956 e 1957, tornou-se o primeiro apresentador negro de um programa na TV americana. Apesar dos ótimos índices de audiência e dos convidados bacanas que recebia, não conseguiu ficar no ar por mais de um ano. A razão: falta de patrocinadores que tivessem a coragem de superar as reações racistas que a atração atraiu em alguns estados americanos, especialmente os do sul, que não admitiam um negro em posto tão nobre. Algo absolutamente lamentável. Mas ele, mesmo magoado, levantou a cabeça e seguiu adiante.

Com suas canções começando a perder a disputa nas paradas de sucesso para o então emergente rock and roll, Nat diversificou sua área de atuação, e começou a fazer shows no exterior, além de gravar em outras línguas. Tal estratégia deu super certo, e lhe valeu muitos discos vendidos e turnês pela Europa, América Latina e Central, Ásia etc. Fumante inveterado (fumava em torno de três maços por dia), Cole foi vítima de câncer e nos deixou em 15 de fevereiro de 1965, com apenas 45 anos. Mas deixou uma obra deliciosa, que permanece cativando ouvidos e corações de diversas gerações e inspirando novos músicos e cantores.

Nat King Cole em curiosidades diversas

*** Os discos que Nat gravou em outras línguas, especialmente espanhol, não são provas de um sujeito multilíngue. Na verdade, ele fazia uma leitura fonética para gravar as músicas, o que gerava um sotaque particularmente curioso. Sua voz, no entanto, era tão boa que mesmo dessa forma levemente caricata ele conseguiu cativar os fãs, especialmente pelo fato de dar uma demonstração de carinho para seus admiradores de fora dos EUA ao cantar em seus idiomas, incluindo japonês!

*** Embora amável, educado e polido, Nat era tido como mulherengo. Foi casado por 12 anos com Nadine Robinson, e ainda estava legalmente comprometido com ela quando começou a sair com Maria Hawkins (que cantou nas orquestras de Duke Ellington e Count Basie), em 1948, mesmo ano em que contraíram matrimônio. Maria resistiu a algumas “puladas de cerca” do marido, incluindo algumas com a cantora e atriz Eartha Kitt, mas foi em seus braços que Nat passou suas última semanas. Eles tiveram cinco filhos.

*** Natalie Cole (1950-2015) seguiu os passos do pai e fez muito sucesso em sua carreira como cantora a partir dos anos 1970, vendendo milhões de discos e faturando um total de nove troféus Grammy, incluindo o de artista revelação. Em 1991, ela trouxe a obra de Nat de volta às paradas de sucesso com força total, graças ao álbum Unforgettable…With Love, que vendeu milhões de cópias e trouxe como destaque um dueto entre pai e filha viabilizado pela tecnologia. Nem é preciso dizer que minha mãe AMOU esse disco, que gravei para ela em fita cassete.

*** Nat esteve no Brasil em abril de 1959, quando fez um total de oito shows, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, além de participar de programas de TV, entrevistas e até de um almoço com o presidente Juscelino Kubitscheck. Ele também aproveitou a viagem para gravar por aqui faixas que entrariam no álbum A Mis Amigos, lançado naquele mesmo ano e incluindo gravações em espanhol e português, entre as quais Não Tenho Lágrimas e Suas Mãos.

*** Mais duas curiosidades envolvendo Cole e o Brasil. Em seu último álbum, L-O-V-E (1965), lançado pouco antes de sua morte, ele releu The Girl From Ipanema, de Tom Jobim, em versão bem elegante. Não seria de se estranhar um álbum totalmente de bossa nova, se ele continuasse entre nós. E no documentário The World Of Nat King Cole, temos cenas de sua chegada ao Brasil, provavelmente no Rio, quando podem ser vistos diversos cartazes com os dizeres “Biscoitos Aymoré (uma marca bem popular por aqui na época e uma das patrocinadores da turnê) welcomes Nat King Cole”.

*** O intérprete de When I Fall In Love nunca se mostrou um fã muito grande de rock and roll, de certa forma o ritmo que ajudou a tirá-lo do topo das paradas de sucesso. Mas algumas de suas gravações dos anos 1940 com o King Cole Trio são consideradas inspiração para o rock, especialmente (Get Your Kicks On) Route 66, composição de Bobby Troup lançada pelo trio em 1946. Muita gente a regravou posteriormente, incluindo uma releitura fantástica dos Rolling Stones em seu álbum de estreia (ouça aqui).

*** Alguns jazzistas mais puristas repudiam as gravações mais românticas de Nat King Cole, preferindo suas performances com o trio nos anos 1940. O mesmo ocorreria com George Benson, fã incondicional de Cole que iniciou sua carreira no jazz e depois também investiria fortemente em canções com vocais e pegada pop. A primeira conexão entre eles ocorreu quando Benson regravou em 1977 um grande sucesso de Cole, Nature Boy, e se cristalizaria em 2013 com o álbum Inspiration- A Tribute To Nat King Cole.

Cachito– Nat King Cole:

Paulo Cavalcanti, o jornalista que sabia tudo sobre o rock and roll

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Por Fabian Chacur

A foto que ilustra este post, gentilmente cedida por André Luiz Fiori Teixeira, sintetiza de forma perfeita um certo Paulo Alderaban Cavalcanti. Com dois CDs de uma das suas bandas favoritas, os eternos The Beach Boys, dentro de uma loja de discos, e certamente perto de amigos queridos. Neste cenário, você certamente poderia ver este jornalista, pesquisador e crítico musical em seu habitat favorito. Ele nos deixou nesta terça (26) com apenas 56 anos, mas seu trabalho ficará na memória de quem teve a honra de conviver com ele em algum momento (ou em vários) de sua extensa trajetória profissional.

Conheci o Paulo por volta de 1984 na casa de um amigo comum, o lendário Ayrton Mugnaini Jr., quando Mug morava na alameda Santos, próximo da avenida Brigadeiro Luis Antonio. Na época, ele sempre andava com dois outros amigos, Marcelo Orozco e o Jeferson (acho que era Pereira o seu sobrenome). Eles chegaram a assinar matérias como trio, incluindo uma, excelente, sobre os Monkees. Quando me tornei coordenador de redação da editora Imprima, que lançava revistas como Rock Stars, Zorra etc, em 1987, ele era um dos meus colaboradores, e a partir dali a nossa amizade começou a se consolidar.

Uma das grandes matérias feitas pelo Paulo naquele período foi uma sobre os filmes de Elvis Presley, um texto primoroso, bem-humorado e repleto de reflexões e informações que só um cara muito do ramo teria como fazer. Eu brincava com ele que deveríamos, nós dois e o Marcelo, montar um trio com o nome Harum Scarum, e nos especializarmos em tocar apenas temas obscuros das películas estreladas pelo Rei do Rock. Lógico que a ideia ficou só no papel.

Não demorou para que Cavalcanti partisse para os seus próprios voos. Filho de um jornalista que trabalhou durante anos no Notícias Populares, foi muito natural quando ele seguiu os passos do pai naquela mitológica publicação, onde ficou até meados dos anos 1990. Com o tempo, ampliou os horizontes, como colaborador das revistas Bizz-Showbizz e Shopping Music, nas quais esbanjou seu alto conhecimento musical. Suas praias prediletas eram o rock dos anos 1950 e 1960, mas na verdade o cara tinha um gosto musical abrangente, e mergulhava fundo na pesquisa de tudo, dos musicais clássicos até o punk rock.

Nos anos 2000, Paulo foi convidado a trabalhar na ediçáo nacional da Rolling Stone, onde reinou por anos e anos. Generoso, abriu espaços na publicação para vários amigos, entre eles este que voz tecla. Como disse, ele era capaz de escrever sobre qualquer tema na área musical, sempre se preparando para cada desafio e com um texto eficiente e bom de se ler.

Nossa amizade se manteve por todos esses anos. Não vou ser hipócrita e dizer que nossa relação sempre foi um mar de rosas. Paulo era um cara tímido, eventualmente fechado, eu também tenho um milhão de defeitos, e em alguns momentos a gente andou se estranhando por aí. Mas também vale registrar que sempre conseguimos nos entender e seguir adiante. Tanto que em várias ocasiões nos reunimos para pensar em projetos que nos unissem, como o de fazer rough guides em português de grandes nomes da música, por exemplo.

Tínhamos muitas afinidades, especialmente essa obsessão por conhecer os detalhes dos trabalhos e das carreiras dos nossos artistas favoritos. Acho que uma expressão que ele usou para definir um amigo comum nosso, o genial Hamilton Rosa Jr, poderia definir ele próprio: scholar (estudioso). O cara manjava, e muito. E seus amigos mais próximos sabem como era divertido curtir suas tiradas inteligentes e sarcásticas, suas imitações, e seus comentários a sério.

Paulo fará muita, mas muita falta mesmo para todos os envolvidos no meio musical. Em resumo, um fã que virou profundo conhecedor do tema. Ou um cara que virou profundo conhecedor do tema exatamente por ser fã. Sem você por aqui, vai quebrar, meu caro, vai quebrar (essa, só ele entenderia…)

So Close Yet So Far– Elvis Presley:

Zeca Pagodinho e a entrevista que rendeu admiração eterna

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Por Fabian Chacur

Essa história rolou em 1988. Vivia os meus primeiros tempos no hoje extinto jornal Diario Popular (SP), e fui designado pelo meu editor Oswaldo Faustino para entrevistar Zeca Pagodinho, então estreando na gravadora BMG com o LP Jeito Moleque, após dois discos de muito sucesso pela RGE. A assessora de imprensa, Miriam Martinez, avisou-me antes do meu bate-papo com o sambista carioca começar: “tome cuidado que ele está bravo, andaram fazendo perguntas de que ele não gostou…” Ou seja, entrei em cena com o placar desfavorável, e não por minha culpa. Mas cabia a mim virar o jogo.

A ideia do meu editor era que eu fizesse uma entrevista solta, coloquial, na qual o leitor pudesse ter uma ideia de como era aquele artista apadrinhado por Beth Carvalho que veio do subúrbio carioca e se tornou um fenômeno de vendas. Embora ainda inexperiente, eu percebi que precisava ser cauteloso ao menos no início do papo, e foi assim que comecei a conversa. Na minha, respeitoso, prestando atenção no que ele me falava. E, para minha felicidade, a troca de ideias se mostrou ótima e bem fluente.

Aos poucos, Zeca demostrou confiar em mim, e os assuntos se ampliaram, indo da música até mesmo ao jogo do bicho. As declarações eram sempre deliciosas, do tipo “sei falar com bacana e sei falar com malandro”, ou “o jogo do bicho é uma das coisas mais confiáveis desse país, pois você ganha hoje e os caras te pagam na hora, sem conversa mole”. Quando essa nossa primeira conversa profissional se encerrou, recebi um elogio que guardo para a vida: “gostei de você, você é malandro”. Imagina ouvir uma dessas vindo de um cara que é malandragem pura, obviamente do lado positivo desse termo.

A entrevista fez sucesso, e a partir dali tive várias oportunidades de conversar com esse cara, que tornou-se ainda mais simpático, franco e sem frescuras. Sua generosidade se mostra em respostas aparentemente banais, como quando lhe perguntei o porque de, com o passar dos anos, ele gravar cada vez menos músicas de sua autoria, ele que ficou conhecido inicialmente como autor de sambas, e só posteriormente como intérprete: “Cara, tem muita gente boa compondo, e gente que precisa mais do que eu dos direitos autorais”.

Em uma entrevista coletiva realizada em 1999, a pergunta que ele levou mais a sério veio de mim, sobre a fusão entre a Brahma e a Antarctica que gerou a AmBev. Ele sempre se declarou um entusiasta da Brahma. “Olha, quando surgiu essa notícia, eu fiquei preocupado e até liguei para saber se eles iriam manter a Brahma do mesmo jeito, e eles me garantiram que sim”, respondeu, para delírio dos repórteres presentes. Com o tempo, ele acabou fazendo propaganda dessa marca, não sem uma polêmica no meio que não cabe ser analisada aqui.

Grande compositor, sambista de estilo inconfundível e craque em escolher músicas alheias para gravar, Zeca sempre foi um seguidor da tradição do samba, como me confessou logo naquela primeira entrevista: “desde moleque eu sempre ficava colado na Velha Guarda. Eu ia buscar as cervejas, abria para eles e ficava ouvindo ele cantarem e tocarem, aprendendo”. E como aprendeu, heim?

Nesta segunda (4), Jessé Gomes da Silva Filho, o nosso querido Zeca Pagodinho, completa 60 anos de idade. Um cara que mesmo em situação financeira excelente nunca abandonou suas origens, sendo famoso pela generosidade. Xerém, que adotou como ponto de encontro com amigos de todas as idades e faixas sociais, deve estar em festa. Que essa data se repita por muitos e muitos anos, e que eu possa entrevistar novamente no futuro esse representante do Brasil que importa, o Brasil do swing, do jogo de cintura, do talento, da simpatia e da integração entre as pessoas.

Camarão que Dorme a Onda Leva (ao vivo)- Zeca Pagodinho e amigos:

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