Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: as tais memórias (page 1 of 3)

As incríveis aventuras do meu saudoso filhinho canino Jack

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Por Fabian Chacur

“Você tem dono”. Com essa frase, dita em um dia de fevereiro de 2003, cumprimentei um cachorrinho preto com detalhes em branco que estava em frente ao portão da minha casa. Eu na época tinha o Yuri, um poodle grandão, e estava a caminho de uma reunião que poderia me render um trabalho mais do que necessário. A frase fazia sentido: ele usava uma coleirinha vermelha, sem indicação de dono, nome ou endereço. Mal sabia eu que aquele era um início…

Sim, o início de uma intensa e bela relação afetiva, que durou daquele mês até o dia 23 de agosto de 2016. Voltando ao ponto inicial, retornei à noite à minha casa, e aquele carinha pretinho continuava por ali. O curioso é que ele defendia a nossa porta de estranhos. Era uma quinta-feira. Aos poucos, ele foi ficando, ficando… Não aparecia ninguém a procura-lo. E na segunda-feira seguinte, a decisão: vamos ver se ele se dá com o Yuri. Cruzamos os dedos.

Vale lembrar que aquele poodle grandão havia passado por poucas e boas no finalzinho do ano anterior, e não parecia levar jeito de que viveria por muito mais tempo, ele que na época estava com uns 11 anos e pouco. “Quem sabe se uma companhia não o deixará melhor?”, argumentou a minha esposa. E, quando cheguei em casa naquela segunda-feira, não mais um, mas dois cachorros pulavam no portão, uma espécie de Chitãozinho & Xororó caninos, me esperando.

Os dois cãezinhos se entenderam muito bem, e isso pode explicar a sobrevida que Yuri teve, ficando conosco até julho de 2004, ou seja, pelo menos um ano e meio a mais do que imaginávamos inicialmente. Só por isso, já seria abençoada a chegada daquele carinha que escolheu a minha família para fazer parte dela. Quem o batizou foi a Virgínia, que por alguma razão achou que ele deveria se chamar Jack. E Jack aquele carinha passou a ser chamado.

Após a morte de seu parceiro, ficou uns seis meses como nosso único cãozinho, mas parecia triste, e aí fomos atrás de uma parceira, que chegou no dia 8 de janeiro de 2005, a Kelly, uma serelepe cachorrinha castrada de cor cinza, com pelinho duro e alguns detalhes com cor de palha. Pronto: viraram parceirinhos. E o nome dela derivou do dele: Jack, Kelly…The Osbournes!!! Uns bons anos depois, em 2010, ainda viria o Ozzy (leia sobre ele aqui).

Jack se mostrou um ser adorável. Bem-humorado, inteligente, carinhoso na medida e um ótimo guarda. Sempre dizia a ele, “você aprendeu com o melhor professor, o Yuri, lembra do seu amigo grandão?”, e aquela lindeza pretinha, o meu bebê pretinho, sempre me olhava com cara de quem sabia de quem eu estava falando. Seu latido forte sempre chamava a atenção para quaisquer movimentos na região de casa. Mas ele era bonzinho, não mordia ninguém.

Com o decorrer dos anos, ganhou pelinhos brancos, perdeu a visão dos dois olhos e ficou um pouco mais abatido, especialmente em seus últimos dois anos. Mas reagiu como um guerreiro, especialmente após ser tratado pelo adorável veterinário Eduardo, do Rio Pequeno, um cara que realmente está na profissão certa, pois trata dos bichinhos com uma atenção e carinho de como se fossem dele. Meu Jack ganhou sobrevida, e de forma emocionante aprendeu a se movimentar mesmo sem a visão. Era muito esperto o cara!

Aí, ele passou a não ser mais o meu bebê pretinho, tornando-se então meu bebê sênior. E isso porque eu ainda não sabia da história anterior dele. Pois acreditem se quiser: tipo em 2015, uma garota de uns 24 anos parou em frente de casa e perguntou para a minha esposa se aquele cachorrinho preto não tinha aparecido em casa com uma coleira vermelha. Sim, depois de 12 anos, enfim a dona de Jack (cujo nome inicial era algo como Fluke ou coisa que o valha) aparecia.

Ela nos contou que tinha vários cãezinhos, sendo que aquele pretinho era o mais levado. Que ele tinha emprenhado outras cachorrinhas e era pai de vários cachorrinhos. Que sumiu quando ela era criança, e que nunca mais foi encontrado. Ela, anos depois, até o viu na minha casa anterior (morei em duas casas na mesma rua, uma em frente à outra, em um período de 13 anos), mas a mãe achava que não poderia ser ele. Mas era. Segunda a garota, “Fluke” (na verdade, o meu Jack) tinha uns três anos quando fugiu.

Se ele ficou 13 anos comigo e já tinha três anos quando apareceu, ele então estava com uns 16 anos de idade. Um verdadeiro Highlander canino! Só que, infelizmente, esse ser adorável acordou mal naquele fatídico 23 de agosto, e antes que fosse possível leva-lo a um veterinário, ele nos deixou. A dor foi tão grande, e continua tão grande, que só agora fui capaz de escrever esse texto para ele. Demorou, querido, mas está aqui. E nunca mais irei me esquecer de Jack, o cãozinho que me escolheu como dono. Como me sinto honrado por causa disso!

obs.: a foto que ilustra esse post não é dele. Infelizmente não tenho à mão nenhuma foto desse anjinho canino. Mas esse cachorro paranaense parece demais com ele. Vá com Deus, meu amor, e não se iluda: nunca irei me esquecer de você. E 13 anos foram pouco tempo para a gente se relacionar. Muita, muita, mas muita saudade mesmo!

The Jack– AC/DC:

Jack’s Lament Song– The Nightmare Before Christmas:

Jumpin’ Jack Flash– The Rolling Stones:

João Bosco celebra 70 anos e o presente é de todos os fãs

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Por Fabian Chacur

Hoje é o Dia Internacional do Rock, e é também o Dia Internacional do João Bosco. O incrível cantor, compositor e violonista mineiro completa 70 anos nesta quarta-feira (13). E que ninguém venha dizer que são opostas essas celebrações simultâneas. Afinal de contas, quem conhece o autor de O Mestre Salas dos Mares sabe que o cara curte o velho e bom rock and roll, especialmente um certo Little Richard, que ele até imitava nos tempos de moleque. Parabéns, fera!

Nascido na cidade mineira de Ponte Nova em 13 de julho de 1946, João chegou a cursar engenharia civil, mas não demoraria para ficar claro que sua atuação seria em outra área, a de engenharia musical. Em 1967, conheceu Vinicius de Moraes, e compôs várias canções com o saudoso Poetinha. Mas foi em 1970 que ele travou seu primeiro contato com o parceiro de uma vida, o genial poeta e letrista carioca Aldyr Blanc. Nascia uma dupla iluminada.

Meu primeiro contato com a obra desse mestre da MPB foi logo com a primeira gravação feita por ele e comercializada. O jornal O Pasquim, em parceria com o músico Sérgio Ricardo, criou o projeto Disco de Bolso, que consistia em uma revista com belo conteúdo e um compacto simples, incluindo de um lado um artista já consagrado cantando uma música inédita em seu repertório e do outro um nome emergente do nosso cenário musical brasileiro.

O primeiro exemplar, lançado em 1972, tinha no lado A Tom Jobim cantando a primeira versão de Águas de Março, bem mais rapidinha do que a que depois ficaria conhecida com o Maestro Soberano e com Elis Regina. No lado B, um certo João Bosco, cantando Agnus Sei. Eu tinha só 10 anos, mas meu irmão Victor, de 17, era fã do Pasquim, e comprou esse número inicial do O Som do Pasquim. E esse disco me marcaria profundamente para o resto da vida.

Adorei a música do Tom, mas a que me cativou mesmo foi a do João. Só voz e violão. Só? Devo estar doido. Com uma performance iluminada, tocando um arranjo fortemente influenciado pela música flamenca, João nos oferecia uma melodia meio medieval, tensa, com letra que podia ser associada tanto aos tristes tempos da inquisição como daquela ditadura militar que nos assolava. “O meu senhor não sabe que eu sei da arma oculta na sua mão” e “o tempo vence toda ilusão” são alguns dos versos de Aldyr. Um clássico, e minha versão favorita dessa música, que depois seria regravada pelo autor e por outros artistas.

O segundo contato veio em 1975, e foi fulminante. O álbum Caça à Raposa (1975) emplacou diversos sucessos na programação das rádios, que na época tocavam música boa em proporção bem maior do que hoje. Entre eles, as sublimes O Mestre Salas dos Mares e De Frente Pro Crime. Não comprei, na época, o LP, pois era uma criança sem muito dinheiro, mas sim um compacto duplo com quatro músicas. Pronto. João Bosco ganhou um fã pro resto da vida.

Dali pra frente, foi só alegria. As trilhas de novela ajudaram a expandir os horizontes para a música do artista mineiro. Bijuterias, que rendeu até nome de grupo (Pedra Letícia, que era como alguns entendiam os versos “Minha Pedra é Ametista”), Latin Lover e sua crônica agridoce de uma relação amorosa de anos, Linha de Passe e seu pique sacudido… Ah, a coisa vai longe, e vai muito, mas muito bem mesmo.

Como definir a música feita por João Bosco? Eis uma humilde tentativa: ele parte do samba como base, e acrescenta a ele, sem medo de ser feliz, bossa nova, bolero, latinidades diversas, africanidades mil, jazz e até o nosso amado rock and roll, aqui e ali. Com o tempo, desenvolveu sua voz de forma cirúrgica, interpretando como poucos as letras ora sarcásticas, ora românticas, ora agressivas do poeta Aldyr Blanc.

Em 1983, vi pela primeira vez o meu ídolo ao vivo, em show realizado no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, 1.000, quase em frente de onde meu pai, Fuad, teve sua loja de calçados denominada Paraíso. E paraíso foi o que eu senti vendo aquele cara, voz e violão, literalmente esmerilhando o instrumento com classe, garra e uma habilidade digna de jato. Ah, meu Deus, eu, que já era fã, virei seguidor de vez.

Se eu parecia já devidamente convertido à fé João Bosquiana, não imaginava como seria conhece-lo pessoalmente. Melhor: entrevista-lo. E isso ocorreu pela primeira vez em 1989, quando ele lançava o excelente álbum Bosco e eu trabalhava no jornal Diário Popular. Dizem que nem sempre é bom conhecer um ídolo, pois às vezes eles podem nos decepcionar, mas no meu caso, só posso dizer que minha admiração pelo autor de O Bêbado e a Equilibrista só aumentou.

A partir daquela data, teria várias oportunidades de entrevistar João Bosco, e todas, sem exceção, foram extremamente prazerosas. Um cara tranquilo, bem-resolvido, articulado, capaz de falar sobre seu trabalho e suas concepções artísticas e de vida com a mesma categoria com que o faz. Um mestre zen! Que posso eu desejar para quem me trouxe tanta energia positiva com a sua música? Só muita saúde e paz para continuar seguindo em frente por muitos e muitos anos. Pois ele é o aniversariante, mas quem ganhou o presente fomos nós!

Confira, a seguir, uma seleção de sete músicas do extenso repertório do genial João Bosco. Escolhi algumas músicas não tão conhecidas e outras famosas, mas todas maravilhosas. Prestem atenção no humor corrosivo de A Nível de…, uma das minhas favoritas!

Água Mãe Água– João Bosco:

Agnus Sei (versão original, 1972)- João Bosco:

A Nível de..– João Bosco:

De Frente Pro Crime– João Bosco:

Bijuterias– João Bosco:

Latin Lover– João Bosco:

Quilombo- Tiro de misericórdia- Escadas da Penha (ao vivo)- João Bosco:

Um tributo para meu grande e saudoso amigo e anjo Ozzy

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Por Fabian Chacur

Em uma sexta-feira do mês de março de 2010, cheguei em minha casa após um dia duro de trabalho, abri a porta e me deparei com uma cena inesperada. Minha esposa, Virgínia, estava com um cãozinho novo no colo, cercada pelos nossos dois outros pets, Jack e Kelly, provavelmente tão surpresos como eu. “Mais um cachorro?”, foi a minha expressão, naquele momento. Afinal, cuidar de dois era prazeroso, mas difícil. Imagine de três…

A ideia era ficar com ele só no final de semana, e depois tentar encontrar alguém para adotá-lo. A minha ideia, pelo menos. Só que, naquelas 48 horas, aquela bolinha de pelos pretos, com adoráveis patinhas brancas, tomou conta do meu coração. “Quer saber? Vamos adotá-lo, seja o que Deus quiser”. Surgia um novo integrante na família Almeida Prado Chacur. Que em pouco tempo conquistou seu espaço no coração de seus donos, quer dizer, pais.

Virgínia se recusava a chama-lo de cachorro. “Ele não é um cachorro, é uma pessoinha”, disse, pela primeira vez, poucos dias após o novo morador daquela casa na Vila Gomes, em São Paulo, ter literalmente tomado conta do pedaço. Dormia na nossa cama, esbanjava carinho, era amoroso de uma forma simplesmente deliciosa. Capaz de perceber quando seus papais adotivos estavam tristes e precisando de um afago mais caprichado, uma lambida, um carinho.

Foram seis anos e alguns meses, repletos de boas lembranças. Da comida de envelopinho que ele comia com gosto, mas que eu precisava dar fazendo toda uma encenação para que, enfim, ele se dignasse a mastigar. Com as salsichas do jantar era muito mais fácil, obviamente… Ozzy, o nome, foi sugerido por alguém do trabalho da Virgínia, por associação aos nomes Jack e Kelly, e também pelo fato de ela ser fã incondicional do vocalista do Black Sabbath.

Pois a única certeza existente na vida é o seu fim. E o encerramento dessa parceria maravilhosa entre eu, Virgínia e Ozzy se encerrou nesse desde já lamentável 6 de julho de 2016. E de forma trágica. Nós, que tanto cuidávamos e tanto ficávamos atentos a ele, não conseguimos impedir que ele fosse atropelado por um carro, na noite desta quarta (6). E um ser que só nos trouxe alegria enfim nos fez chorar. Choro que está prosseguindo nessas últimas horas, e que não irá parar tão cedo.

Sou calejado nessa história de perdas, pois minha mãe, meu pai e meu irmão me deixaram em um espaço de menos de três anos, entre 1996 e 1999, sendo que entre meu pai e meu irmão, foram só três meses. A lista vai longe, algo natural para quem tem 54 anos de idade, como eu. Mas essa perda agora dói demais, especialmente pelo fato de não ter sido por causas naturais. A gente fica se culpando o tempo todo, sendo que, como diriam os árabes em sua bela filosofia, “maktub” (estava escrito).

Essa dor imensa que nesse momento me toma nunca irá passar, como não passou a da perda dos meus entes queridos e mesmo do meu amado cão Yuri (1991-2004), outro anjo de patas que passou pela minha vida. A gente apenas aprende a lidar com ela. Só isso. Pois a vida segue em frente, quer a gente queira, quer não. Ozzy, obrigado por tudo, meu parceirinho, meu lobinho, meu amor. Que Deus tenha reservado projetos lindos para você. E obrigado por ter existido. Você foi um sonho lindo, do qual acordei nesse triste 6 de julho….

obs.: escrevi vários textos como esse aqui com ele no meu colo. O do A Cor do Som publicado neste blog foi o último deles…

Tears In Heaven– Eric Clapton:


In My Life– Ozzy Osbourne:

Canção da América– Milton Nascimento:

Um jornal paulistano ignorou os shows dos Stones em 1995

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Por Fabian Chacur

Nesta quarta-feira (24) e no próximo sábado (27), os Rolling Stones voltam a São Paulo. Infelizmente, não estarei lá para conferir, mas não posso reclamar, pois vi os três shows que a banda de Mick Jagger e Keith Richards realizou por aqui em 1995. E tenho boas lembranças deles. Mas uma delas é no mínimo bizarra: vocês acreditam que um grande jornal paulistano não publicou uma única linha sobre essas performances? E por razões bizarras…

Ficou curioso? Pois vamos lá revelar esse momento triste do jornalismo paulistano. Em 1995, eu era repórter e crítico musical do Diário Popular, na época o jornal que mais vendia em bancas em São Paulo. Quando a vinda dos Rolling Stones para tocar por aqui pela primeira vez foi anunciada, fiquei muito ansioso, pois teria a chance de enfim vê-los ao vivo e escrever sobre isso em uma publicação grandona.

Só que as coisas não correram como eu imaginava. O departamento comercial da publicação, incomodada pelo fato de a produtora do evento não anunciar em suas páginas, resolveu pura e simplesmente vetar a cobertura dos shows. Ao invés de propor uma bela cobertura, para depois conseguir anúncios de outros eventos daquela empresa, os caras simplesmente resolveram tapar o sol com papel celofane. E a direção de redação concordou com tal idiotice.

Enquanto a imprensa como um todo oferecia uma cobertura generosa para seus leitores, o Diário Popular fingiu que não havia pedras britânicas do mais alto quilate rolando em nossas terras. Fui credenciado para ir aos shows, mas a minha orientação era só escrever matérias se ocorresse algo muito errado, tipo morrer alguém, os shows não acontecerem ou algo assim. Como tudo correu relativamente bem, nada saiu. Um total desrespeito aos leitores.

Se infelizmente não pude registrar o que vi nas páginas do Diário, ao menos tive a chance de ver um dos melhores grupos de rock de todos os tempos em excelente forma. Divulgando na época o ótimo álbum Voodoo Lounge (1994), eles tocaram algumas músicas daquele CD, como a espetacular You Got Me Rocking, e um caminhão de hits, como (I Can’t Get No) Satisfaction, Gimme Shelter, Sympathy For The Devil etc.

Dois momentos particularmente me marcaram. Ouvir Happy no segundo show foi um deles. O rockão interpretado por Keith Richards foi o primeiro compacto dos Rolling Stones a entrar na minha coleção, um belo presente que pedi e ganhei do meu padrinho Eduardo. O outro foi ver Mick Jagger comandando a coreografia da multidão de fãs durante Brown Sugar, na parte final, do yeah yeah yeah uh que marca essa canção.

A chuva durante os dois primeiros shows, realizados nos dias 27 e 28 de janeiro de 1995, foi responsável por eu ter preferido conferir as performances no espaço dedicado à imprensa, no local do Pacaembu destinado às emissoras de rádio e TV para transmissão de jogos de futebol. Como uso óculos, não conseguiria ver nada se estivesse no meio do povão, com aquela chuva toda. O último show, no dia 30, foi a seco.

A abertura dos shows ficou a cargo de Barão Vermelho, Rita Lee e da injustamente subestimada banda americana Spin Doctors. Com seu rock swingado e energético, os caras lançaram em 1991 Pocket Full Of Kryptonite, na minha opinião um dos dez melhores discos de rock dos anos 1990. Fizeram boas apresentações, e tive a oportunidade de conversar com eles. O único ponto a se lamentar foi o fato de o guitarrista original da banda, Erik Schenkman, ter saído fora, substituído naqueles shows pelo competente Anthony Crizam. Ele voltaria ao grupo nos anos 2000, mas isso é outra história.

You Got Me Rocking– The Rolling Stones:

Happy– The Rolling Stones:

Brown Sugar– The Rolling Stones:

As boas memórias que tenho desse incrível Gonzaguinha

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Por Fabian Chacur

Se ainda estivesse entre nós em termos físicos (porque no aspecto espiritual nunca saiu daqui), Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, completaria 70 anos nesta terça-feira (22). Tenho ótimas recordações desse cara, que ainda hoje é um dos meus grandes ídolos no cenário musical. Logo de cara, vale lembrar que foi dele o primeiro show que vi, ao vivo, na minha vida. E não poderia ter começado melhor.

O espetáculo ocorreu em um domingo de 1979 no Teatro Procópio Ferreira, situado na rua Augusta, nº 2.823 em São Paulo e sempre associado ao fato de ter sido palco, durante anos, das gravações do programa humorístico global Sai de Baixo. Comprei meu ingresso algumas horas antes do show, para me garantir.

A casa estava cheia. Fui sozinho, e fiquei na parte de trás da plateia. O show foi simplesmente maravilhoso. Adorei mesmo. Gonzaguinha e sua banda mandaram bala, tocando músicas de seus discos anteriores e, especialmente, de Gonzaguinha da Vida, que ele estava divulgando naquela turnê. E rolou um incidente que serve como prova do temperamento incisivo do artista.

Em determinado momento, ele citou o nome de um artista veterano (Angela Maria, Nelson Gonçalves ou alguém dessa mesma geração- n.da.r>: na verdade, foi o Agnaldo Timóteo, segundo o leitor de Mondo Pop Peninha-Wagner, que também estava lá. Valeu, amigo!), e ficou surpreso ao ouvir vaias. Pouco depois, falou o nome do pai ilustre, o eterno Gonzagão, e aí as palmas vieram, fáceis. Ele não perdoou, e no fim do show, chamou a atenção do público, exigindo respeito para com esses nomes “das antigas”. Um puxão de orelhas feito com classe.

Em 1983, fui a um show ao ar livre no Parque do Ibirapuera, e lá estava ele, Gonzaguinha da Vida, dividindo o palco com Blitz, Dalto, Lauro Corona (???) e outros. Naquele momento, nem podia imaginar que, quatro anos depois, teria a oportunidade de entrevista-lo. Mas isso ocorreu, quando o artista divulgava seu álbum ao vivo Geral (1987).

A entrevista ocorreu no extinto hotel Bristol, que ficava no início da rua Augusta. Era para ser uma coletiva, mas no fim estavam presentes apenas dois jornalistas: eu e o repórter Dílson Osuji, que trabalhou em grandes órgãos de imprensa, como o Jornal da Tarde. E ali, tive a chance de conferir in loco o temperamento apimentado do artista.

Durante boa parte da entrevista, rolou uma troca de farpas entre Gonzaguinha e Dílson, no melhor estilo “tapas com luva de pelica”. E eu com a bandeirinha da paz, no meio do tiroteio, apenas querendo fazer perguntas para aquele cara que eu idolatrava há tanto tempo. No fim da entrevista, pedi um autógrafo no LP Geral. “Um autógrafo?”, perguntou ele. Eu gelei, mas ganhei o mimo, que guardo até hoje, com orgulho. Só fui saber muitos anos depois que Gonzaguinha não era muito fã de dar autógrafos…Escapei de boa!

Em 1988, já como repórter do Diário Popular, fui cobrir uma entrevista coletiva do autor de Explode Coração no hotel Maksoud Plaza. Lá, tive meu segundo contato com Gonzaguinha, e desta vez, o papo fluiu de forma gostosa e produtiva. No fim, não resisti e perguntei se ele lembrava de mim e da entrevista anterior. Ah, ele lembrava, sim!

“Lembro muito bem daquela entrevista. Aquele cara era muito arrogante, e fiz questão de responder à altura, não tinha nada a ver com você”. Menos mal! E por volta de 1990, tive a terceira e última oportunidade de conversar com o meu ídolo. Desta vez foi uma exclusiva em um apart hotel nos Jardins, e mais uma vez foi ótimo. Ele me disse que curtia ficar ali pois tinha a alternativa de cozinhar ele próprio, se lhe desse na telha. Figuraça!

Um artista bastante peculiar, talentoso e único

Gonzaguinha pode ser considerado um dos artistas mais polêmicos e de personalidade mais forte na história da música popular brasileira. Ninguém é apelidado “cantor rancor” por acaso. Mas também ninguém foi tão perseguido por censores e críticos durante suas quase três décadas de carreira como esse artista, nascido no Rio em 22 de setembro de 1945.

O curioso é pensar que Gonzaguinha era quase o oposto do pai famoso. Gonzagão sempre teve como marca a simpatia e a capacidade de se dar bem com todos. Luiz Gonzaga Júnior não era assim. Pé na porta em algumas ocasiões, sempre falava o que pensava de forma direta e sem meias palavras. Sua música Recado é bem representativa dessa forma de ser: “se é para ir, vamos juntos, se não é já não tô nem aqui”.

Em termos musicais, Gonzaguinha fazia uma bela mistura de samba, bossa nova, ritmos nordestinos, ritmos latinos (especialmente o bolero) e até mesmo um pouco de rock e pop no meio. Com sua voz marcante e de timbre inconfundível, sabia ir de um extremo ao outro, do amor mais generoso à denúncia social mais dura e agressiva. Sem rodeios.

A poesia desse grande cantor, compositor e músico era digna do seu temperamento. Nada de muito rebuscado, mas sempre levada pela emoção e pelo compromisso com o povo que tanto amava. Um bom exemplo é a irada e quase heavy metal E Por Falar no Rei Pelé, que fez após ter ficado puto com a declaração do Rei do Futebol dizendo que “o povo não sabe votar”.

Encarou a Ditadura Militar de frente, com músicas fortes como Comportamento Geral, mas enterneceu os corações mais românticos com Espere Por Mim Morena, Começaria Tudo Outra Vez, O Lindo Lago do Amor e Explode Coração. E era o profeta da esperança, do eterno recomeço, eternizado nas vibrantes É e O Que É O Que É.

Uma de suas marcas como compositor era ser bastante autorreferente, citando trechos de suas próprias canções em obras posteriores, dando continuidade e reforçando ideias defendidas anteriormente e fazendo algumas músicas que podem ser consideradas claras continuações de outras, como Diga Lá Coração, por exemplo, espécie de inspirada sequência de Espere Por Mim Morena.

Tem também o espírito desbravador e estradeiro dele, o de “minha vida é andar por esse país pra ver se um dia descanso feliz”, canção do repertório do pai que regravou com ele e que falava muito sobre sua forma de viver. Gostava de fazer shows pelo Brasil afora, e é uma trágica ironia pensar que ele morreu em uma dessa viagens, em acidente próximo à cidade de, olha só o nome, Renascença, no Paraná.

Poucos artistas conseguiram agradar simultaneamente o povão e o público mais sofisticado como Gonzaguinha, e a prova é ver a ampla e abrangente lista de artistas que o gravaram, indo de Maria Bethânia a Joanna, de Elis Regina a Ângela Maria, de Erasmo Carlos a Daniel. Como diria Zeca Pagodinho, ele sabia falar a linguagem do povão e sabia falar a linguagem do bacana.

O legado desse grande artista é uma obra rica e perene que merecia ser mais reverenciada, tal a sua consistência. Romântico, engajado, sonhador, agressivo, ele soube como poucos transformar em canções as emoções, os sonhos e as ambições positivas desse verdadeiro continente que é o Brasil. Um brilhante artista brasileiro com bê maiúsculo, ontem, hoje e sempre!

E Por Falar No Rei Pelé– Gonzaguinha:

Espere Por Mim Morena– Gonzaguinha:

Com a Perna No Mundo– Gonzaguinha:

Recado– Gonzaguinha:

Lindo Lago do Amor– Gonzaguinha:

Duas ou três coisas sobre a música em 2013

Por Fabian Chacur

Muita gente odeia essa história de retrospectivas dos “anos velhos” que acabam de se mandar. Também tem quem goste. Se bem feitas, acho que essa passada de olhos no que ocorreu nos doze meses anteriores ao novo janeiro são até úteis, como um balanço e uma avaliação de fatos. Seja como for, não estou com saco de ser detalhista, mês a mês. Então, vamos com uma viagem aleatória a alguns fatos ocorridos no mundo da música em 2013.

The Voice Brasil, The Choice Brasil, Que Joça, Brasil!

Se há uma verdadeira praga que veio para infernizar a vida de quem realmente gosta de música são os tais reality shows musicais. Há mais de uma década nas programações das mais diversas redes de TV do mundo, e disponíveis em várias versões, esse tipo de programa tenta formatar de jeito rígido o que deveria ocorrer de forma mais espontânea: a revelação de novos talentos.

Se em alguns países essa fórmula até ajudou a destacar alguns nomes bacanas, no Brasil tornou-se mais um tipo de “loteria musical”. No fim das contas, são sempre dois os fatores que levam alguém a vencer uma atração assim por aqui. Basicamente, quem grita mais ou quem é mais pobre e pode sair da zona do rebaixamento da vida se embolsar a grana disputada.

The Voice Brasil é apenas mais um capítulo desse universo dos “not so reality” shows. Exibicionismo de jurados e candidatos, vozeirões ocos, disputa por dinheiro e vencedores que, posteriormente, voltam ao anonimato. Ellen Oléria, a vencedora de 2012, já está caminhando para ficar ao lado das Vanessas Jacksons da vida, sumindo de cena. Uma pena, em um formato no qual o que menos importa é a música. Mas não se iludam. Mais programas assim virão e virão e virão. Procure talentos em outros cantos…

Dominguinhos agora está ao lado de Gonzagão no Céu do Forró

Recentemente, reli uma entrevista de 1999 do músico paulista Miltinho Edilberto no qual ele comentava sobre Dominguinhos, definindo-o como uma espécie de Gonzagão que merecia ser mais cultuado pelas pessoas, e ser homenageado enquanto estava vivo e com saúde.

Pois Dominguinhos infelizmente nos deixou em 2013. Grande músico, cantor, compositor e ser humano, ele nos deixou uma obra impecável dedicada ao melhor da cultura popular. Tive a honra de cobrir seu último grande show em São Paulo na Virada Cultural 2011, e vi esse mestre, mesmo com limitações físicas evidentes, dar um banho de garra e musicalidade.

Se merecia ter sido mais reverenciado, até que Dominguinhos foi bastante “acarinhado” pelo povo em suas mais de quatro décadas de carreira, na qual nos proporcionou tantos sucessos próprios e também colocou suas cerejas em bolos confeccionados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho e tantos outros. Simples, simpático, genial. Descanse em paz!

Reginaldo Rossi e a fórmula para agradar gregos e troianos musicais

Não é para qualquer um se manter durante quase cinquenta anos no cenário musical, ainda mais se o artista em questão nunca se dobrou aos modismos da vida para fazer sucesso. Outra grande perda brasileira em 2013, Reginaldo Rossi começou na onda da Jovem Guarda, mas logo entortou suas influências musicais e criou um estilo próprio, bem-humorado, romântico e pé na porta, sem preocupações com sutileza ou politicamente correto.

Se só virou uma espécie de unanimidade em 1998, quando seu CD Ao Vivo turbinou o antigo sucesso Garçom e o fez ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas, “The King” sempre teve público fiel no Norte e Nordeste. Felizmente, Rossi teve as flores em vida, e nos deixou sabendo ser amado por milhões de fãs. Um estilista da canção popular. Uma figuraça!!!

Paul McCartney, David Bowie e Elton John mais gênios do que nunca

Três nomes que há décadas fazem parte da história do rock and roll provaram em 2013 que continuam com fome de bola, dispostos a nos oferecer novos trabalhos repletos de boas canções. David Bowie nos ofereceu The Next Day, uma espécie de álbum síntese com ecos de várias fases de sua carreira e uma surpresa para quem não lançava um trabalhos só de inéditas há dez anos. Aposentado uma ova!

Macca e Elton, por sua vez, continuam na estrada e ativos nos últimos anos, mas lançaram em 2013 CDs comparáveis a seus grandes momentos. Se o único ponto negativo de Elton John em The Diving Board é a voz já não tão impactante, no caso de McCartney não dá para reclamar de nada em seu New, repleto de boas canções, vocais excelentes e a fome de bola do eterno beatle.

Ringo Starr, Matchbox Twenty, Black Sabbath, Joyce Moreno, Springsteen…

Em um ano repleto de shows nacionais e internacionais em nossos palcos, alguns merecem destaques especiais. Bruce Springsteen, que não tocava por aqui há 25 longos anos, conquistou os fãs no Rio e em São Paulo com um show vigoroso, repleto de hits e com Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, como surpreendente e detonante música de abertura. Quem nasceu para The Boss sempre será The Boss, pelo visto.

Ringo Starr voltou a São Paulo e conquistou os beatlemaníacos e afins com uma performance impecável, cantando, tocando e cativando a plateia com muita energia para um setentão. A seu lado, mestres como Todd Rundgren, Steve Lukhater, Richard Paige e Gregg Rollie, que tornaram o que já seria bom um momento absolutamente inesquecível.

Embora ignorada pelos críticos brasileiros, o grupo americano Matchbox Twenty deu aos brasileiros a prova de que não estão nas paradas de sucesso há quase 20 anos por acaso. Seu rock and roll com tempero pop e influências de Bruce Springsteen, John Mellencamp, Beatles e outros é apresentado ao vivo com muita vibração, refinamento e carisma. Belos shows, que os fãs adoraram e que me tornou ainda mais fã deles.

Fecho com um destaque especial para o maravilhoso show que a genial Joyce Moreno fez no Sesc Bom Retiro mostrando o repertório de seu excelente novo álbum, Tudo. A se lamentar, o fato de menos de cem pessoas terem comparecido para ver essa verdadeira aula de música brasileira melódica, poética e rítmica. Uma performance de lavar a alma de quem teve a honra de presenciá-la. Dica: não perca o próximo, role onde rolar.

A emoção de ver o Black Sabbath com sua quase formação clássica

Eu não estive lá, mas quem esteve classifica o show feito pelo Black Sabbath em São Paulo, no Campo de Marte, em outubro de 2013, como um dos mais emocionantes de todos os tempos. E não é para menos. Ver no mesmo palco três dos quatro integrantes originais de uma das mais influentes e poderosas bandas de rock de todos os tempos não é coisa banal.

Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler arrancaram lágrimas e alegria de um verdadeiro mar de gente que nem se importou tanto ao não ver desta vez o baterista original da banda, Bill Ward, que tocou com o Black Sabbath no Brasil nos anos 90, em show que não teve o vocalista comedor de morcegos. Se o show foi como o do ótimo DVD lançado há pouco por aqui, invejo quem esteve lá. Histórico, simples assim.

Daft Punk, ou como tornar fazer 2013 soar como 1978 sem cair em caricatura

Ver Nile Rodgers, o genial capitão da Chic Organization, de volta às paradas de sucesso após muitos e muitos anos já tornaria Random Access Memories um álbum histórico. Mas o trabalho do duo Daft Punk (o primeiro de inéditas em 8 anos) vai muito além de incluir dois dos melhores e maiores hits de 2013, Get Lucky e Move Yourself To Dance.

Gastando uma grana lascada, a dupla radicada na França investiu em músicos de verdade para tocar uma mistura de disco music com música eletrônica, pop e rock, gerando um álbum que consegue a façanha de soar como se tivesse sido lançado em 1978 e ainda assim parecer totalmente sintonizado com o espírito musical de 2013. Discoteca básica total e eterna!

Lou Reed sai da Wild Side e vai para a Eternal Side…

Um dos artistas mais influentes e talentosos da história do rock nos deixou em 2013. Lou Reed morreu setentão, faixa etária que muitos não acreditavam que ele atingiria, levando-se em conta o tipo de vida que teve durante as décadas de 60 e 70. Belo exemplo de que o destino a Deus pertence, e que a gente morre quando chega a hora, nem antes, nem depois.

Lou Reed conseguiu fundir rock básico a elementos eruditos, especialmente de ordem poética, com suas letras evocando a barra pesada, os personagens sombrios dos grandes centros urbanos e os poderosos riffs de guitarra. O brasileiro teve a chance de vê-lo nos anos 90 em show de rock and roll básico e em 2010 no formato experimental Metal Machine Music. Que bela obra ele nos deixou!

E que venha muita coisa boa em 2014. Feliz ano novo, queridos leitores!!!

Perfect Day, com Lou Reed:

I Can’t Stand It – Lou Reed:

Morre Reginaldo Rossi, um gentleman genial

Por Fabian Chacur

Em 2000, tive a honra de entrevistar Reginaldo Rossi. Ele estava lançando um novo disco pela Sony Music, e eu era o último repórter que ele iria atender naquele dia, por volta das 18h30, após uma agenda que havia se iniciado por volta das 10h. Após nos apresentarmos, ele, de forma simpática, me fez um pedido: “Fabian, será que eu poderia esticar as minhas pernas?” Com minha autorização, ele apoiou os pés na mesa à sua frente, sem os sapatos, e ficou mais à vontade.

Na sequência, concedeu-me uma entrevista adorável, sem papas na língua e sem frescuras, mas também sem grosserias. Um baita de um sujeito. Lógico que fumou durante o papo, um dos incontáveis cigarros que consumiu durante sua vida, vício que provavelmente o ajudou a se mandar tão cedo desse mundo, nesta triste sexta-feira (20), aos 70 anos. Uma perda daquelas.

Rossi foi vítima de um câncer no pulmão que o obrigou a ser internado no dia 27 de novembro em sua cidade natal, Recife. Ele chegou a ter uma melhora, mas infelizmente precisou voltar à UTI e por volta das 9h25 da manhã desta sexta nos deixou. Rossi nasceu na capital pernambucana no dia 14 de fevereiro de 1943 (ou 1944, fica a dúvida no ar).

Inicialmente um estudante universitário que quase se graduou em engenharia e que chegou a dar aulas de física e matemática para os colegas, Rossi mergulhou no mundo da música a partir de 1964, apaixonado pelos Beatles e pouco depois por Roberto Carlos. Não demorou a assimilar as influências do Rei e da Jovem Guarda, virando quase um Robertão do Nordeste.

Com o decorrer dos anos, incorporou à sua musicalidade elementos de bolero, música latina em geral e romantismo, com boa dose de irreverência e bom humor. Essa somatória gerou um estilo impactante e popular que o levou no decorrer dos anos a ser considerado um dos inventores e reis do que se convencionou chamar de música brega, ao lado de Odair José, Wando, Amado Batista e tantos outros.

Os sucessos foram se sucedendo, pérolas do naipe de A Raposa e as Uvas, Deixa de Banca, Mon Amour Meu Bem Ma Femme e a impagável Tô Doidão. A maior de todas, no entanto, foi Garçom, lançada inicialmente em um disco pela EMI-Odeon nos anos 80 com aceitação mediana. Mas as coisas mudariam e muito uns bons anos depois, quando a mídia dava Rossi como ultrapassado e totalmente fora de cena.

Graças a um certeiro álbum gravado ao vivo pela independente Polydisc em 1998, Reginaldo Rossi Ao Vivo, Garçom voltou com força total às paradas de sucesso e deu ao astro pernambucano a marca de mais de um milhão de cópias vendidas e a maior popularidade que jamais teve. A partir daí, não saiu mais da mídia, com hits e entrevistas impagáveis, sempre.

Seu provável único erro grave foi ter se candidatado duas vezes, não conseguindo votos suficientes para se tornar vereador ou deputado. Melhor para nós, pois o Rossi cantor era muito mais importante para todos. As mortes dele e de Wando em 2012 desfalcaram e muito esse universo de artistas realmente populares e inteligentes, que hoje se tornam cada vez mais raros. Descanse em paz, bicho!

Ouça Tô Doidão, com Reginaldo Rossi:

Esse Keith Richards que me faz tão “Happy”

Por Fabian Chacur

Em 1972, pedi de presente de aniversário ao meu padrinho um compacto simples dos Rolling Stones que trazia como destaque uma faixa que estava na época tocando nas rádios brasileiras abertas ao rock and roll, tipo Excelsior e Difusora. E ganhei. A tal música era Happy, um dos destaques do seminal álbum Exile On Main St. (saiba mais sobre esse álbum maravilhoso aqui), e pode-se dizer que teve início ali minha relação com os Rolling Stones.

Demorou um pouco para eu saber que o cantor naquela faixa não era Mick Jagger, e sim o guitarrista da banda, Keith Richards. Esse mesmo, que nesta ensolarada quarta-feira (18) completa 70 anos de idade. Uma efeméride no mínimo curiosa, pois durante muito tempo, o músico e coautor dos grandes clássicos dos Stones com Mick Jagger liderou as listas sobre quem seria o novo astro do rock a morrer ainda jovem, seguindo Janis Joplin, Jim Morrison e o ex-colega de banda Brian Jones.

Aliás, chega a ser curioso pensar que, se fosse perguntado a alguém naquele mesmo 1972 sobre quem morreria primeiro, Keith ou outro guitarrista lendário também nascido em 1943, George Harrison, todos apostariam no primeiro. Pois o saudável ex-beatle nos deixou há 12 anos, enquanto “Keef” completa sete décadas sem dar mostras de que sairá de cena tão cedo. Um típico sobrevivente do rock.

Keith Richards é um dos maiores ícones do rock and roll em todos os aspectos, desde o visual de pirata, os instrumentos sempre marcantes, a atitude cool (contraponto irreverente ao mais midiático Jagger) e um estilo musical que conseguiu extrair elementos do blues e do rhythm and blues original para criar alguns dos mais fantásticos riffs de guitarra de todos os tempos.

Tive a honra de ver os Rolling Stones ao vivo no Brasil em sua primeira passagem por aqui, como atração máxima do Hollywood Rock em janeiro de 1995. Três dias de chuva, mas compensados por performances simplesmente endiabradas das Pedras Rolantes, com direito a ouvir Keith interpretando ali na minha frente com muita garra a minha amada Happy.

Sem se caracterizar como um solista dos mais refinados, Richards sempre nos proporcionou riffs poderosos como os de Jumpin’ Jack Flash, (I Can’t Get No) Satisfaction, Start Me Up e tantos outros copiados e reciclados por legiões de guitar players nos quatro cantos do Planeta. E sua voz rouca sempre foi benvinda entre uma penca e outra de interpretações certeiras de Mick Jagger, um dos cantores mais carismáticos da história da música.

Fora da banda, lançou ao menos um disco solo antológico, Talk Is Cheap, que completou 25 anos de seu lançamento em 2013 e inclui maravilhas como Take It So Hard. Outro marco foi ter produzido e sido o band leader no show que homenageou seu grande ídolo, Chuck Berry, nos anos 80, espetáculo que gerou um dos filmes mais legais de rock and roll, o documentário Hail! Hail! Rock N’Roll (1987).

Ainda bastante ativo, Keith Richards viveu um pirata na franquia Piratas do Caribe ao lado de Johnny Depp, e atualmente sua a camisa nos shows comemorativos dos 50 anos de carreira dos Rolling Stones. Só nos resta desejar ao Homem Caveira muita saúde, muitos anos de vida e ainda muitos riffs certeiros para que nós, fãs, possamos nos deleitar com eles. Valeu, fera, por make me happy all these years!!!

Ouça Happy, com os Rolling Stones:

Ouça Take It So Hard, com Keith Richards:

Joni Mitchell, a autora das canções atemporais

Por Fabian Chacur

Nesta quinta-feira (7/11), uma certa Joni Mitchell atinge a marca de 70 primaveras completadas. E quem é ela para ser tão reverenciada, tão relembrada, tão citada, sempre por gente com estatura suficiente para ter suas opiniões respeitadas? Quem é essa loira de feições duras, embora com um quê de doçura, mas que certamente intimida muitas pessoas? Eis algumas pistas.

Não sei se gostaria de conhece-la pessoalmente. Às vezes, é melhor manter distância dos ídolos. E quem já leu sobre essa cantora, compositora e musicista canadense sabe que a mulher tem um temperamento bastante peculiar. Ou pelo menos aparenta isso. Mas o que de fato importa é que Miss Mitchell merece todos os elogios que pudermos fazer a ela na área da música popular. E vamos a alguns deles.

Joni Mitchell é uma das pioneiras nessa história de mulher merecer o respeito no meio do rock, folk e música pop e trincar o até então eterno Clube do Bolinha. Ao lado de Laura Nyro e Carole King, forma a santíssima trindade do pioneirismo e da força feminina nos anos 60/70. Lógico que temos Janis Joplin, Grace Slick e outras, mas aqui nessa trinca temos um caso de autossuficiência total e de influência total sobre quem veio depois.

No caso específico da nossa agora setentona, a moça começou na cena folk, proporcionando a nós canções incríveis como Both Sides Now, The Circle Game e Woodstock. Nos anos 70, foi aos poucos ampliando seus horizontes e incorporando doses de rock, jazz e experimentalismo na sua receita, sem nunca deixar de lado o bom gosto, a ousadia e a paixão pelas canções.

Em 1974, lançou um álbum simplesmente espetacular, Court And Spark, que inclui diamantes do mais alto quilate como Help Me (a música que me fez virar fã dela), Free Man In Paris e tantas outras. Aqui, o jazz, os ritmos quebrados e os arranjos elaborados já haviam tomado a ponta da coisa, mas sem deixar a sensibilidade pop ser engolida.

A partir daí, a vida da moça só nos proporcionou coisas boas. Aliás, como já vinha proporcionando desde aquele impressionante começo nos anos 60, com direito a disco de estreia produzido pelo seletivo David Crosby, namoro e parceria com Graham Nash etc. Sempre com uma voz de timbre lírico e agridoce e um violão simplesmente cativante para acompanhar suas canções. Gravou até com Charles Mingus, um dos grandes mestres do jazz.

Nos anos 80, alguns fãs de mente menos aberta torceram o nariz para seu mergulho na sonoridade eletrônica de então, que gerou o espetacular Dog Eat Dog (1985), que inclui uma das faixas mais belas de todo o seu brilhante repertório, Impossible Dreamer. E nos anos 90, a obra da moça teve o retorno às paradas de sucesso e aos Grammys da vida que merecia com o estupendo Turbulent Indigo (1994).

E tem também as letras, sempre profundas e investindo em temas relevantes e universais como as inúmeras curvas e retas dos relacionamentos afetivos, o medo do futuro, a insegurança quanto aos caminhos que seguimos, as paixões, os maravilhosos gatos… Acho que eu tremeria feito vara verde na frente dessa mulher, pelo tamanho de sua obra e a emoção que algumas de suas canções me proporcionam.

Curta cinco canções inesquecíveis desse maravilhoso acervo que é a obra de Joni Mitchell. Que ela possa viver com saúde por muitos e muitos anos mais. Uma coisa, no entanto é fato: estamos por aí, vivendo e dando voltas e voltas nesse “circle game”.

Impossible Dreamer – Joni Mitchell

Help Me- Joni Mitchell

Big Yellow Taxi- Joni Mitchell

Both Sides Now – Joni Mitchell

The Circle Game – Joni Mitchell

Minhas memórias do genial Lou Reed

Por Fabian Chacur

Neste domingo (28), nosso amado rock and roll perdeu um de seus nomes mais emblemáticos, talentosos e influentes. Lou Reed nos deixou graças a problemas decorrentes do transplante de fígado que sofreu em abril deste ano. Ou algo do gênero, não saberemos precisar neste momento. Mas a verdade é que Laurie Anderson e todos nós estamos viúvos, órfãos, deixados para trás. Mas nem tanto.

Afinal de contas, o ser humano Lou Reed não se encontra mais nesse alucinado planeta do sistema solar. Sua obra, no entanto, jamais sairá de cena. E já que todo mundo já escreveu tudo sobre a carreira dele, resolvi registrar, de forma aleatória e sem querer fazer uma retrospectiva ou algo do gênero, algumas coisas de sua produção que me impressionaram bastante.

De temperamento difícil e nenhuma disposição em ceder às pressões da indústria musical, Mr. Reed nos surpreendeu em diversas ocasiões de sua carreira. Duas delas são bem marcantes. O álbum que gravou em parceria com o Metallica, o controverso Lulu (2011), é recente a ponto de todos se lembrarem. A outra parceria é bem mais surpreendente, e praticamente esquecida de todos: uma dobradinha com o Kiss de Gene Simmons e Paul Stanley.

O álbum Music From The Elder (1981), o mais polêmico da carreira do quarteto mascarado americano, traz três faixas que inclui Lou Reed como letrista: Dark Light, Mr. Blackwell e A World Without Heroes, sendo que esta última foi a que conseguiu melhor repercussão em termos de divulgação. Mesmo assim, foi provavelmente o trabalho do Kiss que menos vendeu.

Artistas de todos os tipos regravaram canções de Lou Reed. Duas das gravações mais curiosas ocorreram em 1995, quando o Duran Duran resolveu ler à sua moda a ótima Perfect Day em seu álbum de covers Thank You, e em 1994, com Marisa Monte interpretando de forma suave e inspirada a bela Pale Blue Eyes em seu melhor trabalho, Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão. Ah, e tem a inominável Vi Shows (Vicious), raro tropeço de Arnaldo Brandão.

Em 1983, Lou Reed deu provas de seu sarcástico bom humor ao participar do divertido e descompromissado filme Get Crazy! Na Zorra do Rock. Na atração, ele vive o papel de um excêntrico roqueiro que está há anos fora de cena e que é convidado por um velho amigo promotor de shows a participar de um evento de ano novo para salvar uma badalada casa noturna. Ele aceita o desafio, no fim das contas.

No entanto, como não tinha nenhuma música nova pronta para tocar no tal show, ele passa o filme inteiro andando de taxi e finalizando a canção. Nem é preciso dizer que, quando chega no teatro, o espetáculo já havia acabado, só restando por lá uma jovem e fiel fã que queria vê-lo a qualquer custo. Aí, quando os créditos do filme surgem, ele canta a bela balada rock Little Sister, perante essa única admiradora. Delicioso!

Em 1996, tive a oportunidade de ver seu show em São Paulo, no finado Palace, parte de sua primeira passagem por nosso pais. Naquela turnê, ele divulgava o ótimo e hoje bem esquecido CD Set The Twilight Reeling, que inclui belos rocks como NYC Man e Hooky Wooky. Alguns clássicos ficaram bem diferentes das versões originais, mas como diria a amiga Claudia Bia, “ele sempre foi assim”. E sempre foi mesmo!

Gosto muito da obra do Velvet Underground, banda que vendeu poucos discos mas influenciou bandas que posteriormente venderam muito mais do que eles. Curiosamente, meu trabalho favorito da banda capitaneada em sua fase áurea por Lou Reed e John Cale é o póstumo VU (1985), que nem parece um álbum com sobras de outros álbuns, tal a sua qualidade. Excepcional, com pérolas como I Can’t Stand It (depois regravada em sua carreira solo), Lisa Says e Foggy Notion.

A obra de Lou Reed é repleta de momentos sublimes, e quem não a conhece certamente perde bastante em seu conhecimento musical. Letras ácidas e irônicas, melodias básicas, riffs de guitarra envolventes, momentos folk de rara beleza, ousadia em álbuns quase absurdos como Metal Machine Music (1975) e nenhum compromisso com a mesmice e o mediano. A Wild Side nunca mais será a mesma sem ele.

Can’t Stand It, com Lou Reed (versão da carreira solo):

Little Sister, com Lou Reed:

Veja o filme Get Crazy! Na Zorra do Rock:

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