Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: as tais memórias (page 4 of 4)

Lembranças de Dom Maia, o eterno Síndico

Por Fabian Chacur

Nos próximos dias vou postar aqui um comentário sobre a sublime caixa Universal Tim Maia, que reúne oito CDs e um DVD de Tim Maia (1942-1998), um dos criadores e o rei absoluto da soul music brasileira.

Antes disso, no entanto, vou relembrar de algumas passagens que tive com essa figura durante minha carreira jornalística.

O primeiro encontro com o mestre deveria ter ocorrido em 1985, quando ele estava lançando o álbum Tim Maia, que inclui os sucessos Leva e Pede a Ela.

Lembro que cheguei no escritório da gravadora RCA (cujo acervo hoje pertence à Sony Music), que ficava na rua Dona Veridiana, no bairro paulistano de Santa Cecília, ansioso.

Afinal, ouço as músicas desse cidadão desde que eu era apenas um moleque.

Ao chegar na gravadora, a má notícia: o cara cancelou o papo que teria com a imprensa.

As boas notícias: ganhei o LP do cara, o primeiro disco que recebi de uma gravadora, e conheci a então assessora de imprensa da RCA, Miriam Martinez, que com o decorrer dos anos se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida profissional, além de grande amiga.

A chance de conhecer pessoalmente Dom Maia ocorreu no final dos anos 80, após uma apresentação dele no então Palace (hoje, Citibank Hall).

O show foi bacana, mas recheado daqueles “precisa afinar o baixo” que marcavam sua forma de interagir com a sua Banda Vitória Régia, uma das melhores da história da soul music brazuca.

Após a apresentação, Miriam me convidou para ir aos camarins. E lá, apertei a mão do mestre.

Ele parecia em outra dimensão. E não era para menos.

Em uma das mãos, segurava uma daquelas garrafinhas de uísque para se levar em bolsas e miguelar a consumação em bares e casas noturnas de preços mais caros.

Na outra, um baseado do tamanho de uma semana. Aliás, a nuvem nos camarins era digna da poluição paulistana…

O terceiro encontro ocorreu lá pelos idos de 1990, quando o Síndico estava lançando seus trabalhos por seu próprio selo.

A entrevista coletiva foi realizada em um hotel das antigas situado no centro de São Paulo.

Coincidência ou não, boa parte dos presentes estava acima do peso, incluindo eu, que se hoje sou gordinho, na época era um digno seguidor de Jotalhão e outros elefantes célebres.

Ao entrar na sala onde nos concederia a entrevista, o intérprete de sucessos como Você e Canário do Reino olhou para os presentes e soltou a frase clássica:

– Nossa, só tem gordo em São Paulo!

Nem é preciso dizer que abri a minha matéria, feita para o extinto Diário Popular, exatamente descrevendo essa “entrada triunfal” do cara.

Na época, ele estava divulgando o disco com releituras da bossa nova, e no final da coletiva, deu discos autografados para todos os presentes.

Minha última historinha com Tim ocorreu por volta de 1993, quando a música Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) voltou às paradas e ele tinha um show agendado para São Paulo.

A apresentação rolaria em um final de semana, e entrei em contato com o fone que tinha em minha agenda. O próprio atendeu. Não perdi tempo.

– E aí, Tim, tudo bem? Seguinte: você vai fazer show aqui em São Paulo no final de semana e eu gostaria de fazer uma entrevista por telefone com você. Será que rola?

Resposta do figura:

– E aí, Fabian, tudo bem? Olha, liga para a minha assessora de imprensa, a (n. da r.: esqueci o nome da figura…) no fone x, que ela marca.

Lógico que eu não iria deixar a coisa assim, pois todos sabíamos que Tim vivia um momento no qual suas entrevistas se tornavam raras.

– Mas Tim, será que não daria para ser agora? Sabe como é, não vou demorar, e você tem negado entrevistas nos últimos tempos…

A resposta dela foi imediata:

– Como não vou dar entrevista? Vou dar, sim! Pode ligar para a minha assessora. Tá pensando que eu sou o Michael Jackson? Liga para ela, que ela marca. Como não vou dar entrevista?

E lá foi esta besta, digo, eu, ligar para a tal assessora.

– Oi, tudo bem? Eu sou o Fabian, do Diário Popular, e foi o próprio Tim quem me deu o seu número. Eu quero marcar uma entrevista com ele para falar sobre o show que ele fará aqui em São Paulo.

Aí, a resposta surrealista:

– Olha, Fabian, infelizmente o Tim Maia não irá dar entrevistas para divulgar esse show, viu? Vou ficar te devendo.

E não deu mesmo! Aliás, ele foi aparecer no programa do Jô Soares no início da semana seguinte após o show. Dá para encarar?

Paul McCartney no Brasil em 1993

Por Fabian Chacur

3 de dezembro de 1993. Neste dia histórico para mim, tive a oportunidade não só de ver Paul McCartney ao vivo pela terceira vez, desta vez na minha amada São Paulo, no estádio do Pacaembu, como de participar de outra coletiva com o astro.

Se você teve saco de ler os posts anteriores, já sabe que eu estive no Rio em abril de 1990, vi os dois shows e estive presente na entrevista coletiva. Pois em Sampa City, a coisa foi ainda melhor.

Antes do show, exatamente como rolou no Rio, tivemos uma entrevista coletiva com Paul McCartney, realizada no Ginásio do Pacaembu, que fica ao lado do estádio.

O esquema era o seguinte: Paul estava no lugar onde fica a quadra. O assessor de imprensa dele escolhia entre os jornalistas, que estavam na plateia, quem faria as perguntas. E assim foi.

Lógico que eu levantei a mão várias vezes, e não fui atendido. Até que, na última pergunta, o tal assessor me apontou. Sim, eu, este que vos tecla.

Sabe Deus como, contive a emoção e fiz a pergunta: como foi trabalhar com diversos parceiros musicais, como John Lennon, Elvis Costello, Eric Stewart, Denny Layne, Michael Jackson etc?

Educado como ele só, Paul respondia olhando diretamente para quem lhe havia feito a pergunta. Tentem imaginar como me senti vendo o cara que eu admiro desde que era uma criança olhando para mim e falando comigo…

Ele respondeu que tinha sido muito bom trabalhar com todos eles, mas que realmente quem marcou sua vida foi mesmo John Lennon.

Tive o jogo de cintura de retrucar, mesmo emocionado como estava: “mas afora John, você não apontaria um favorito?”.

A resposta foi direta: “não, basta um favorito, John Lennon”.

Diante de tal emoção, o show seria lucro. E que lucro foi, meus caros!

Durante esses 49 anos de vida, tive a graça de ver centenas de shows, muitos deles inesquecíveis e marcantes. Mesmo assim, elejo sem pestanejar esse espetáculo do dia 3 de dezembro de 1993 como o meu favorito.

Parte da The New World Tour, realizada por ele e que dava a todos os que viam os shows uma belíssima revista colorida de graça cuja capa ilustra este post, o show repetia o esquema de ter um vídeo introdutório, tão bacana como o de 1990, mas com uma forte mensagem ecológica.

Logo depois, o início, desta vez com adrenalina pura: Drive My Car, clássico dos Beatles. Depois de alguns minutos, deixei uns bons amigos (que estavam, no entanto, sendo “malas” naquele momento) longe e fui curtir o show sozinho, o mais perto que consegui chegar do palco.

Duas músicas particularmente me arrancaram lágrimas, por fazerem parte da minha lista de favoritas e por não terem sido tocadas em 1990: a matadora balada soul My Love e o blues rock Let Me Roll It.

A voz de Macca estava perfeita, a banda idem, e o repertório, alucinante. Lógico que Hey Jude, minha música favorita de todos os tempos, novamente me arrancou arrepios.

Saí do estádio da municipalidade paulistana com a alma lavada. Melhor show da minha vida.

Pelo menos, até o dia 21 de novembro, se Deus me der a graça de ver meu ídolo de novo. Seja como for, as recordações desses três shows incríveis ninguém me tira…

Paul McCartney no Brasil em 1990 – memória 2

Por Fabian Chacur

Toda a expectativa e o que rolou antes dos shows de Paul McCartney no Brasil você já leu no post passado. Agora, vamos ao que rolou durante os dois shows, obviamente na minha humilde visão.

O primeiro show foi o melhor dos dois. A explicação é simples: quem estava lá eram basicamente os beatlemaníacos mais fanáticos, aqueles que realmente tinham feito tudo para ver o show de seu grande ídolo.

A segunda apresentação foi legal, também, mas no público tinha muita gente que estava ali pelo fato de ser “o lugar para se ir no Rio naquele sábado”, para badalar, e não necessariamente para curtir as músicas.

Um bom exemplo disso fica por conta da comparação do comportamento da plateia nos dois dias em relação à música Put It There, do disco Flowers In The Dirt, uma balada delicada, para se ouvir abraçado com a namorada, com o isqueiro aceso (não tinha celular na época, lembrem-se) etc.

Na sexta, foi assim que o público reagiu – curtindo essa balada maravilhosa. No sábado, neguinho começou a bater palmas para acompanhar a música, como se tratasse de um rock mais agitado. Ficou feio…

O show tinha, antes do seu início, a exibição de um vídeo que dava uma geral na carreira de Paul McCartney, indo desde os tempos dos Beatles até sua carreira solo e o álbum Flowers In The Dirt. Era emocionante.

Aí, surgia uma palavra imensa: NOW! E o show começava, com a música Figure Of Eight, outra do disco lançado em 1989.

Era um certo balde da água fria, pois não se trata de um clássico de seu repertório, nem uma música que tenha ficado, tanto que ele não mais a tocou em turnês subsequentes.

Mas logo o arsenal de torpedos alucinantes começava: Jet, Band On The Run, Live And Let Die, Let It Be, Hey Jude e por aí vai…

Foi um banho de carisma e pique do mestre, mesmo com a voz um pouco mais rouca do que o habitual. Maldita chuva!

Durante o segundo show, nas arquibancadas, vivi um dos momentos mais bizarros da minha carreira de repórter.

Vale lembrar que o Plano Collor tinha ocorrido há poucas semanas, e quase inviabilizou a realização do show, que só rolou pelo empenho do empresário Luiz Oscar Niemeyer, por sinal o mesmo que também o trouxe em 1993 e agora de novo.

Na época, a poderosa ministra da Economia era a hoje mais sumida do que dinheiro Zélia Cardoso de Mello.

Pois bem. Ela estava lá, na arquibancada. Lógico que tive de conversar com a figura, perguntando sobre Beatles, música etc.

Até aí, tudo bem. O duro foi ter de aguentar as pessoas em volta pegarem autógrafos dela, alguns inclusive em CÉDULAS DE DINHEIRO! Dá para acreditar nisso? Também tenho foto disso…

Ao final da minha maratona carioca, na qual tive a oportunidade de trabalhar muito, conhecer pessoas especiais e ver ao vivo o maior pop star de todos os tempos, cheguei em Sampa City exausto, mas feliz. Valeeeeeu!!!!!

Paul McCartney no Brasil em 1990 – memórias 1

Por Fabian Chacur

Nem acreditei quando, no início de 1990, foi confirmada a vinda de Paul McCartney ao Brasil. A única má notícia era o fato de que os dois únicos shows deles por aqui seriam no Rio, no estádio do Maracanã.

Na época, recebi o convite para escrever o texto para um jornal tabloide especial sobre esse presente que os brasileiros receberiam enfim, após décadas de expectativas não concretizadas.

Foi bem divertido fazer esse trabalho, com edição a cargo do amigo Sérgio Boscolô Lopes, que anos depois pisaria feio, mas feio mesmo comigo.

Mas isso não é assunto para este post. E o jornalzinho ficou um tesão, tendo sido vendido antes do show.

Na época, eu trabalhava no Caderno Revista do Diário Popular, que não cogitava enviar alguém para o Rio para cobrir os shows.

Então, eu, na juventude idealista de meus 28 anos, resolvi fazer uma proposta aos meus editores, para poder unir o útil ao agradável: ver o show, fazer matérias sobre o mesmo e não pagar ingresso.

A proposta foi simples e imediatamente aceita.

O jornal não me pagou rigorosamente nada (passagem, estadia, alimentação etc), mas me permitiu ser credenciado em seu nome, o que me permitiria não só ver o show como também cobrir a entrevista coletiva. Beleza! Valia o sacrifício.

Aí, consegui fazer uma parceria com o fotógrafo Fernando Calzani (por onde anda?), de Ribeirão Preto e na época fazendo frilas para o Diário.

Foi graças a ele que consegui lugar para ficar no Rio, no bairro das Laranjeiras, no apartamento de uma namorada dele. Como diria Calzani, ficamos num “hotel cinco estrelas”.

Chegamos no Rio em uma quarta-feira de abril. O primeiro show deveria ser em uma quinta, o segundo, em um sábado. No final daquele dia inicial na Cidade Maravilhosa, pegamos um verdadeiro dilúvio.

Eu, o Calzani e dois amigos dele demoramos por volta de quatro horas para conseguir ir do centro do Rio até o bairro das Laranjeiras, com direito a congestionamentos, inundação, ver a água subindo ao lado, carro morrendo e tudo mais. Tenho foto disso, um dia postarei por aqui…

A chuva permaneceu firme por lá, a ponto de levar a organização do evento a adiar a apresentação inicial para a sexta feira.

A equipe de produção até tirou um sarro. Um cartaz afixado por lá tinha reprodução da capa do álbum que McCartney divulgava na época, Flowers In The Dirt (flores na sujeira), com a palavra dirt riscada e um enorme Rain (chuva) escrito em seu lugar. Também tenho foto disso…

Eu e Calzani ficamos o máximo de tempo que pudemos no lobby do hotel Intercontinental, onde McCartney e sua mulher Linda ficaram hospedados, mas não conseguimos trombar com eles por lá.

O máximo que obtivemos foi contato com os músicos da banda que o acompanhava, mais especificamente o tecladista Wix Wickens e o guitarrista Robbie McIntosh.

Na sexta feira em que o primeiro show enfim seria realizado, também iria ocorrer a entrevista coletiva com Paul McCartney, em uma sala no próprio Maracanã, horas antes do espetáculo.

Cheguei ao estádio com uma chuva daquelas, e tive de dar a volta no estádio para conseguir entrar. Foi um sufoco. Mas tive um prêmio, e daqueles.

Em feliz coincidência, estava no portão na exata hora em que o ônibus com Paul, Linda e os músicos entrava no estádio. Gentil, o casal estava na porta do busão e acenou para nós. Juro: foi um dos momentos mais emocionantes dos meus 48 anos de vida.

Mais emocionante até do que a coletiva, que rolaria minutos mais tardes. Fácil de explicar: era a primeira vez que eu tinha a chance de ver de perto o meu grande ídolo, cujas canções amo desde que tinha meros sete anos de idade.

A coletiva foi bem legal, embora eu não tenha conseguido fazer perguntas. A primeira foi feita por um jornalista carioca chamado Heitor Pitombo, que tirou gargalhadas de todos ao dizer, antes de fazer sua pergunta: “como estou nervoso!”.

E tivemos obviamente os shows, cujas recordações ficam para o próximo post.

Annie Lennox me deixou com o queixo caído

Por Fabian Chacur

Cobri todas as edições do extinto festival Hollywood Rock pelo também extinto jornal Diário Popular, com exceção da última, realizada em janeiro de 1996. Tenho belas lembranças de shows e entrevistas coletivas desse evento.

Uma delas ocorreu em janeiro de 1990. Tive a oportunidade de participar, em um hotel em São Paulo, da entrevista coletiva com Annie Lennox e Dave Stewart, respectivamente vocalista e guitarrista do Eurythmics.

O duo britânico fez muito sucesso nos anos 80 graças a hits como Sweet Dreams (Are Made Of This), Revival, The Miracle Of Love e dezenas de outros. Eles estiveram por aqui durante uma turnê que seria a última por quase dez anos.

Curiosamente, considero Peace (1999), o disco que marcou a volta provisória do duo à ativa, como o melhor de sua carreira.

Além da produção apurada e dos ótimos dotes de Dave Stewart como músico, o Eurythmics tinha como arma a voz poderosa e negroide de Annie Lennox, uma das melhores da história do pop. Sua carreira solo, iniciada nos anos 90, é também excelente, como discos como Diva (1992) e Medusa (1995) comprovam.

Além disso, tinha o visual da moça, com seus marcantes cabelos curtíssimos e loiros (vez por outra, vermelhos, também) e um rosto belíssimo. Uma mulher cativante, estonteante e única. Essa beleza se mostrou ainda mais evidente na coletiva.

Simpáticos, Stewart e Lennox falaram sobre carreira, show e tudo com muita simpatia e atenção. Mas o melhor ficou mesmo para o final. Eles explicaram que, sempre após encerrar suas coletivas de imprensa, tocavam uma música para os jornalistas.

Com Dave no violão e Annie nos vocais, eles mandaram ver um arranjo estilo blues mais lento do sensacional rock Missionary Man. Em pouco tempos os jornalistas entraram em êxtase, a ponto de não se assustarem quando o músico quebrou um copo, que usava para fazer efeitos de slide guitar, em mesa próxima a ele. Pelo contrário, todos vibraram, adrenalina a mil!

Ao final, aplaudíamos entusiasmados. Nunca vou esquecer dessa performance exclusiva a que apenas eu e mais alguns repórteres tivemos a oportunidade e a honra de conferir.

Por mim, eles teriam ficado ali tocando por no mínimo umas duas horas…. O show? Foi legal, mas nada comparável a esse aperitivo acústico. E exclusivo.

Como eu descobri o Roxy Music

Por Fabian Chacur

O ano de 1976 não foi exatamente uma brastemp nas programações de rádio do Brasil. Especialmente em termos de hits internacionais. O que tocou de abacaxi naqueles 12 meses foi uma grandeza. Acompanhar as paradas daqui era jogo duro.

Mas me lembro bem de que, nas paradas se não me engano da rádio Excelsior, sempre tocava naquele período, entre as primeiras colocadas, uma tal de Both Ends Burning, de um certo grupo Roxy Music, do qual eu não tinha a menor referência.

Essa canção ficou na minha memória por pelo menos uns  sete anos. Baixem o pano. Sete anos se passaram. Agora, estou em 1983, em uma loja de discos chamada Golden Hits, que ficava na rua Matias Aires, perto da Augusta.

Olhando os diversos discos existente, vi um intitulado Viva!, lançado nos idos de 1976 e que tinha a tal música. Como estava baratinho, resolvi comprar para experimentar. Mal imaginei que aquilo viraria um vício.

Embora tenha adorado a versão ao vivo, queria Both Ends Burning em sua gravação de estúdio, a mesma que ouvi na rádio, e dessa forma, cheguei a Siren, de 1976, comprado na mesma loja.

Nem é preciso dizer que, em pouco tempo, fui comprando tudo o que vi dessa banda na minha frente. Confesso que cheguei a passar três deles para a frente, mas resolvi readquiri-los, dando uma nova chance, e me dei muito bem. Hoje, acho Manifesto (79), Flesh + Blood (80) e Avalon (82) maravilhosos. E tenho tudo deles, tudo mesmo.

Em 1995 e 2003 tive a honra de entrevistar o vocalista dessa banda, o genial Bryan Ferry, com direito a autógrafo e tudo. Os dois shows solo que ele fez aqui naqueles anos, respectivamente no Olympia e no Credicard Hall foram presenciados por mim. Sensacionais, só para não me alongar. Sim, também tenho tudo da carreira solo dele.

O Roxy Music, e Bryan Ferry em sua carreira solo, ajudaram a criar os parâmetros para um som pop que consegue misturar ousadia, experimentalismo e belas melodias e canções.

Além disso, Ferry é um cantor iluminado, que empresta sua voz de crooner à antiga a rock, soul, pop e muito mais com uma categoria que poucos conseguem igualar. Um gênio, que no grupo teve a seu lado mestres como o guitarrista Phil Manzanera, o saxofonista Andy Mackay e o baterista Paul Thompson, além do brilhante Brian Eno.

Tudo isso eu conheci graças a uma música que conseguiu furar o bloqueio de músicas internacionais malas que tocavam nas rádios brasileiras daquele ano de 1976. Caso clássico de colher uma pérola na lama…

obs.: essa beldade que está aí na capa de Siren que ilustra esse post é a mesma que foi casada com Mick Jagger, e que chegou a ser namorada de Brian Ferry antes de optar pelo rolling stone.

Fuad Chacur, eterno fã de Carlos Gardel

Por Fabian Chacur

Se estivesse vivo (e está, no meu coração), meu pai faria 101 anos neste sábado. Fuad Chacur nasceu no dia 24 de julho de 1909 e morreu em um triste 21 de setembro de 1998. Obviamente um dos dias mais tristes de minha vida.

Ele foi comerciante, dono de uma das lojas de calçados mais badaladas de São Paulo dos anos 40 aos 60, as Casas Paraíso, cuja sede ficava na esquina da rua Vergueiro com a rua do Paraíso, em frente ao Centro de Operações do Metrô. Hoje tem um bar em seu lugar.

Meu pai era um fã entusiástico de tango. Chegou a patrocinar, nos idos dos anos 40, um programa de rádio dedicado ao estilo. Ele até me disse que patrocinou a vinda de um cantor argentino do gênero ao Brasil, nos tempos em que meu saudoso velhinho morava no edifício Martinelli, algo comparável, hoje em dia, a morar em um Mofarrej Sheraton da vida. O cara era poderoso.

Ele amava Carlos Gardel, e até tínhamos em casa um disco de 78 rotações com a música Arrabal Amargo, clássico do Bob Marley do tango, ou seja, ícone máximo de um gênero ainda relevante nos dias de hoje.

Seo Fuad não era muito fã de música moderna. Mas, lá pelos idos de 1973, apaixonou-se por uma canção chamada Do You Love Me, interpretada por um certo Shariff Dean. A ponto de eu ter comprado o compacto simples para ele, que várias vezes pediu para que eu o colocasse em nosso toca discos.

Só para constar, Shariff Dean cantava essa música em dueto com uma cantora a qual desconheço. Ele teve mais dois sucessos nas paradas, No More Troubles e uma releitura simpática de Stand By Me, hit de Ben E. King e também gravada com categoria por John Lennon. E sampleada recentemente pelo mala júnior Sean Kingston em seu hit Beautiful Girl.

Só em outra ocasião ele me pediu um disco novamente. Foi Clair de Lune, de Debussy, tema de uma novela global por volta de 1979. Era tema da personagem Geli (ou coisa que o valha, tô com preguiça de procurar o compacto, que hoje está comigo), vivido por Sonia Braga.

Meu pai era meio fechado, e só conversava com quem conhecia ou gostava. Adorava ouvir suas histórias, sobre futebol, a sua loja de calçados (que infelizmente fechou no finalzinho dos anos 70), seus tempos de Síria (ele era filho de um nativo daquele país)… Vai fazer falta assim ali adiante. Beijão no seu coração, Seo Fuad!

Ah! Também comprei nos anos 80 um LP de vinil com os maiores sucessos de Carlos Gardel para ele, disco que hoje está comigo.

Eu e Dorival Caymmi em um começo absurdo

Por Fabian Chacur

O volume 12 da Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira é dedicado a Dorival Caymmi (1914-2008), um dos nomes mais importantes da história da nossa MPB. Como bem o definiu Gilberto Gil em uma de suas músicas, era um verdadeiro Buda Nagô, um mestre tranquilo, um gênio.

Só que não foi exatamente essa a minha primeira impressão acerca da obra desse cantor, compositor e violonista baiano. Em um desses micos que só mesmo os neófitos conseguem pagar, na verdade minha iniciação no mundo de Caymmi foi, na verdade, um vexame. Não para ele, obviamente, mas para mim. Sorte que tive colegas nessa vacilada histórica.

Eu tinha uns 13 anos de idade, o que significa ou 1974 ou 1975. Estudava em um colégio na Vila Mariana que existe até hoje, o Maestro Fabiano Lozano. Embora, por alguma razão que prefiro ignorar, na época esse nome fosse reservado ao curso primário, sendo o ginasial denominado Governador Paulo Sarasate. Era tudo na mesma bomba de prédio. Para quê dois nomes?

Deixem pra lá. Você já se situou. Estava eu lá, tendo como colega o glorioso Edgard Scandurra Pereira, muito mais famoso do que eu graças a sua atuação no grupo Ira!, mas na época tão mané quanto este que vos escreve.

Nossa professora de português era bem legal. Em uma de suas aulas, ela levou uma vitrolinha portátil dessas tipo Sonata, e nos avisou que iria nos mostrar a música de alguém que ela dizia ser um grande cantor brasileiro.

Dona Sei Lá (esqueci o nome dela) colocou a agulha no disco, e a voz do tal artista saiu de lá. “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito”…. Nunca vou me esquecer da altura da gargalhada que todos nós demos, poucos segundos após ouvir aquela voz para nós estranha, improvável, chata, mesmo.

A reação era comparável a de quem via, na época, os programas de Renato Aragão e sua turma. Éramos uns 20 ou 30 gargalhadores histéricos.

Não prestou. A “fessôra” nos deu uma dura daquelas. Não sobrou pedra sobre pedra. “Mas como vocês podem rir de um gênio como Dorival Caymmi? Que absurdo, vocês são um bando de ignorantes! ” E por aí foi. Ficamos levemente envergonhados, mas achávamos que a razão estava do nosso lado.

Levei muitos anos para perceber que, sim, ela tinha toda razão. Mas, de certa forma, nós também tínhamos um fiapinho, também. Para moleques acostumados a ouvir Elton John, Paul McCartney, John Lennon, Antonio Carlos & Jocafi etc, aquela era uma voz que não fazia sentido, ainda mais a ouvindo de sopetão, sem uma explicação mais apurada sobre ele.

Mas um dia Fabian Chacur resolveu ouvir o cara com calma. E a besta histórica chegou à óbvia conclusão de que a merda fede. Ou melhor, de que aquilo não só não era merda e não fedia nada,como na verdade se tratava de uma preciosidade. Uma jóia musical. O Mar. Que música!

Hoje, me arrepio ao ouvir aquela voz encorpada, grave, doce, repleta de sabedoria, oriunda de um compositor que sabia como poucos escrever coisas profundas com palavras simples.

E que tocava um violão fluido e cristalino. Um gênio da raça, muito maior do que um certo João Gilberto que tanto insistem em venerar por aí, e que na verdade fez muito menos do que Caymmi.

Hoje eu digo isso. Mas que caí na gargalhada ao ouvir O Mar pela primeira vez, lá isso eu cai. Que vergonha…

O meu 1º disco comprado foi de Johnny Rivers

Por Fabian Chacur

Minha paixão por discos já passou dos 40 anos de idade, e se iniciou, como vocês já estão ficando cansados de saber, de tanto fuçar a coleção de meu irmão Victor. Mas a história de como comprei o meu primeiro disco é bem engraçada e levemente constrangedora. Vou contá-la assim mesmo.

Estava às vésperas do meu primeiro aniversário, no préhistórico ano de 1971. Mais ou menos nessa época, comecei a ganhar uma pequena mesada, que para quem não sabe é aquele dinheirinho bem básico que os pais davam aos filhos naqueles tempos para comprar lanches, revistinha etc.

Eu já cobiçava e muito os discos do mano mais velho, e quando entraram alguns trocados no meu bolso, lógico que pensei em comprar eu mesmo um disquinho para mim. E fui a uma loja que existia perto de casa, a Josmar Discos, que ficava na rua Domingos de Moraes, Vila Mariana e cuja freguesa mais ilustre era Rita Lee Jones.

Todo nervoso, e junto com uma empregada bem jovem que trabalhava na minha casa (e que, infelizmente, seria logo dispensada por roubar jóias da minha mãe, que pena…), fui lá dar uma fuçada.

O estoque do Josmar não era tão legal como o de uma outra loja que abriria pouco depois, a Barlcão Discos (escrevia-se assim mesmo) na antiga galeria San Remo e que, acreditem, com outros donos e já no bico do corvo, existe até hoje por lá, na mesma Domingos e próxima ao metrô Ana Rosa.

Depois de olhar o que havia por lá e com vergonha de não comprar alguma coisa (pois eu estava doidinho para ter o meu primeiro compacto), olhei para um duplo (com quatro músicas; o simples tinha duas). A capa que ilustra esse post é da mesma época, mas não é a daquele raro disco.

A vantagem dos cds (abreviatura que usávamos, assim como cs era para compactos simples) era que, ao contrário da maioria dos disquinhos de duas músicas, eles sempre tinham capa.

A desse disco mostrava um cara cabeludo, barbudo e de roupa descolada cujo nome era Johnny Rivers. Lembrem-se de que estou falando do início dos anos 70, quando usar cabelo comprido e barba era um dos maiores sinais de liberdade e modernidade para um jovem.

Curti tanto o visu do cara que acabei comprando esse disco, mesmo sem ouví-lo. Queria eu ter um cabelão e uma barba daquelas, moleque suburbano que usava o visual padronizado de todos os da minha idade.

Que fique claro, antes que alguns leitores comecem a gritar “viadinho, viadinho!”, que não tive nenhuma atração sexual pelo cara. Mesmo! Nada contra, mas no meu caso específico, rigorosamente nada a favor.

Na época, nem sabia quem era aquele cantor. O selo do disco era preto, com o símbolo da gravadora Liberty. Para ser sincero, não me lembro do nome de uma das músicas, pois esse disco se perdeu. As outras três: Sea Cruise, Rainy Night In Georgia e I’m In Love Again.

Vou ser sincero: adorei as canções, especialmente o delicioso rock Sea Cruise, gravado originalmente (soube bem depois) por um tal Huey “Piano” Smith. Rivers sempre foi craque em reler sucessos alheios.

Só fui ter discos desse cantor, compositor eventual e guitarrista americano bem depois. Em 1977, sua maravilhosa balada Slow Dancing (Swain’ To The Music) estourou por aqui, integrando a trilha da novela Sem Lenço Sem Documento (se não me engano). Meu irmão comprou o cs, com Outside Help no lado B, que era a faixa-título do álbum dele que inclui a canção.

Dá para encarar? Um cara que hoje sabe umas duas ou três coisas sobre música (bem, acho que só umas duas, mesmo!) comprou seu primeiro compacto duplo por causa da capa. Mané!

Antes que você me pergunte, meu primeiro LP de vinil foi a trilha da novela O Homem Que Deve Morrer, com músicas da fantástica dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, que nos anos 2000 foi relançada em CD.

A preciosa discoteca de Victor Riskallah Chacur

Por Fabian Chacur

Tem horas em que penso ser a música a razão da minha vida. A cura para os meus males, ou pelo menos uma forma de minimizá-los. E tudo começou lá atrás, quando era muito moleque, fuçando os discos que existiam em casa.

Tinha os da minha mãe, entre os quais dois se sobressaiam: uma coletânea de Orlando Silva e o estupendo Abismo de Rosas, do violonista Dilermando Reis, lançado exatamente no ano em que nasci, 1961. Este último é um despretensioso (e delicioso) álbum de violão instrumental. Existe em CD.

Mas quem tinha discos mesmo na rua Sud Menucci, 374- Vila Mariana era o meu irmão Victor. Sete anos mais velho, também gostava muito de música. Beatles, por exemplo, eu conheci através dele.

Quase furei aquele compacto com Hey Jude de um lado e Revolution do outro. Mas curiosamente, sabe-se lá porque, ele não tinha LPs da banda. Fui eu quem, em 1973, ainda com meus 12 aninhos, juntei as moedinhas de minha mesada para comprar a coletânea The Beatles 1962-1966, a famosa de capa vermelha, que havia acabado de sair.

O primeiro álbum duplo da minha coleção, e um autopresente de Natal preciosíssimo. Nem é preciso dizer que não deu para comprar, também, o The Beatles 1967-1970, o que só fiz já na era do CD, nos anos 90.

Mas ele tinha um LP de um dos ex-integrantes da banda. Era Ram, creditado a Paul & Linda McCartney e lançado em 1971, mas cujo artista eu pensava que era o tal de Ram… Mas tu é burro, rapaz!

Capa dupla, com uns desenhos malucos para cá e para lá. Mas a música era muito mais legal do que a embalagem. Até hoje me arrepio ao ouvir a faixa de abertura, Too Many People.

O disco teve como faixa de maior sucesso Uncle Albert/Admiral Halsey, que tocava muito nas rádios daqui e do exterior. Pop até a medula, uma delícia, com seu refrão lá no fim.

O legal era ouvir, nas rádios, os disc jockeys vacilarem, pelo fato de o fim dessa música no LP ser colada ao da música seguinte, o rockão Smile Away. Era diversão garantida ouvir aqueles acordes iniciais de guitarra tocarem de graça e a música ser tirada rapidinho do ar…

Heart Of The Country é uma daquelas canções que só McCartney sabe fazer, uma simples canção country em cujo refrão ele repete as notas que toca no violão com a voz, em efeito dobrado arrepiante.

O rockão negroide Monkberry Moon Delight foi trilha de uma novela da TV Tupi com um tal de Exuma, mas a versão bala é a do Macca, que solta a voz, ora de forma grave, ora em falsete potente. E quem disse que ele só gravava baladas? Cambada de tontos!

Dear Boy é um doce, delicada até a medula. Ram On, com sabor folk britânico e mandolin, é evocativa de uma infância que nunca voltará para mim, a não ser nas recordações que essa canção me traz.

Ela aparece em duas partes, sendo que a segunda acaba com um trechinho que seria ampliada e equivaleria à parte inicial de Big Barn Bed, do álbum Red Rose Speedway, de 1973, aquele que tem My Love.

E a balada arrebatadora The Back Seat Of My Car é outro ponto alto desse álbum, com sua mistura de delicadeza e ecos dos anos ingênuos, em que se namorava inocentemente no banco de trás do carro.

Um crítico internacional, na época, definiu o álbum como de “rock suburbano”. Que conversa mole… Esse foi apenas um dos discos que conheci graças ao mano, que teria feito 56 anos no dia 20 de maio.

Pena que num triste 6 de janeiro de 1999 ele se foi. Mas sua memória, e as músicas que descobri graças a ele, ficarão para sempre.

Newer posts

© 2019 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑