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Category: Discos indiscutíveis (page 1 of 12)

Novo Tempo (1980): Ivan Lins consolida e cria outros caminhos

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Por Fabian Chacur

Em 1980, Ivan Lins encerrou a sua passagem pela EMI-Odeon, período iniciado em 1977. De todas as fases de sua brilhante carreira como cantor, compositor e músico, esta pode ser considerada a de maior brilhantismo e criatividade. O astro carioca lançou por aquela gravadora quatro excelentes álbuns. O que pôs ponto final a esse período, Novo Tempo, traz peculiaridades muito interessantes que dão a este trabalho uma grande importância em sua discografia.

Pra começo de conversa, a fase EMI-Odeon de Ivan serviu para consolidar a parceria entre ele, Vitor Martins e Gilson Peranzzetta. Com o poeta, cujo marco inicial é a maravilhosa Abre Alas (de 1974), firmou-se uma dobradinha de entendimento impecável, com versos inspirados sobre relacionamentos, a condição humana e a situação política daquele momento de trevas no Brasil sempre musicados com melodias deliciosas e originais.

Em termos musicais, Gilson Peranzzetta, que iniciou seu trabalho com Ivan Lins no LP Chama Acesa (1975, lançado pela gravadora RCA), mostrou-se o lugar-tenente perfeito, em uma combinação de dois tecladistas que se completam de forma precisa, cirúrgica mesmo. De quebra, seus arranjos e orquestrações ajudaram a dar a cada canção a moldura adequada, sem amarras ou limitações estilísticas. Valia tudo, desde que fosse bem feito e coerente.

Essa trinca incrível deu seus passos iniciais rumo à perfeição em Somos Todos Iguais Nessa Noite (1977), estreia na EMI, e atingiria seu auge criativo nos sublimes Nos Dias de Hoje (1978, leia a resenha aqui) e A Noite (1979, leia a resenha aqui). Como igualar tanta qualidade e sucesso logo a seguir?

Esse foi provavelmente o principal desafio de Novo Tempo. E Ivan o encarou com garra, e incorporando as características daquele momento. No Brasil, vivíamos o início de uma abertura política, que tinha como marco principal a Lei da Anistia, que permitiu o retorno ao país de diversos exilados políticos. Havia esperança no ar, mesmo que a ditadura militar continuasse, com o General Figueiredo na presidência. Eis a inspiração que gerou a maravilhosa canção que deu nome a este álbum. Esperança permeada por temores.

Novo Tempo, a canção, é quase que um contraponto a Aos Nossos Filhos (1978), uma torcida intensa para que dias melhores estivessem mais perto do que se imaginava há apenas dois anos. “No novo tempo, apesar dos perigos, a gente se encontra, cantando na praça, fazendo pirraça, pra sobreviver”. Bem, seriam mais cinco longos anos de ditadura, mas é melhor seguir no tema música.

Nesse mesmo espírito, surgiu Coragem, Mulher, inspirada no triste Caso Marli, ocorrido em 1979, quando PMs invadiram um barraco em Belford Roxo (RJ) e sequestraram e mataram um rapaz, Paulo Pereira Soares, de 18 anos, que acabou sendo morto com 12 tiros por três policiais militares.

Sua irmã, Marli Pereira Soares, uma empregada doméstica, encarou o desafio de reconhecer os assassinos de Paulo, oriundos do 20º Batalhão de Polícia Militar de Belford Roxo. A moça tinha 25 anos, e virou um símbolo da resistência contra a violência policial afligindo os pobres.

“Como te atreves a mostrar tanta decência, de onde vem tanta ternura e paciência, qual teu segredo, seu mistério, seu bruxedo, pra te manter em pé até o fim”. Uma bela homenagem a uma personagem de nossa história recente que, infelizmente, ainda sofreria muito nos anos seguintes, com direito a ter sua casa saqueada e incendiada, além de perder um filho e um afilhado também vítimas da violência, já nos anos 1990.

Duas das canções do disco poderiam ter feito parte do trabalho anterior em termos temáticos, A Noite, pois são centradas em complicadas relações afetivas. Curiosamente, elas mostram dois caminhos possíveis para um casal em fase complicada. Uma, Bilhete, encerra a partida de vez, com direito a mala na porta, pedido de chave de volta e um adeus sem muita vontade de um novo contato.

Enquanto isso, Virá reflete o ponto de vista de quem não se conformou com o final, e aguarda, paciente, o retorno do parceiro-parceira: “virá, de qualquer jeito virá, virá a contragosto, virá por amizade, virá por desespero, virá por cama e comida, por boa bebida, por dinheiro”.

Também retomando caminhos anteriores, a rural Sertaneja nos traz ecos de Ituverava (1977), bela homenagem de Vitor Martins a sua cidade natal, enquanto Barco Fantasma vem da mesma lavra inspirada na música portuguesa que gerou a inspirada Um Fado (1977).

A única canção de fora do núcleo Ivan-Vitor-Gilson é a inspirada releitura de Coração Vagabundo (1967), de Caetano Veloso, que de certa forma dialoga em termos poéticos com Novo Tempo, com versos como “meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”.

Desde o início de sua carreira, Ivan Lins sempre se mostrou aberto à mistura da música brasileira com elementos do jazz, soul e r&b. Na fase EMI, pode-se dizer que um novo formato dessa vertente surge em Dinorah Dinorah (1977), com uma levada mais moderna e próxima da sonoridade internacional. Não por acaso, essa música foi regravada por George Benson no álbum Give Me The Night, lançado naquele mesmo 1980 e que também inclui Love Dance (Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Paul Williams).

Há pelo menos duas representantes dessa sonoridade híbrida e genial neste álbum: a faixa-título, que alguns afirmam ter sido cogitada para entrar em um álbum de Michael Jackson (Thriller, para ser mais preciso), e a fantástica Arlequim Desconhecido, que abre o álbum. Ambas seriam regravadas por artistas internacionais posteriormente, e não por acaso, pois se encaixam feito luva na sonoridade jazz-pop então prevalente nas rádios americanas.

Uma faixa é totalmente à parte do resto do material. Trata-se de Setembro, assinada por Ivan e Gilson e dividida em duas partes, Antonio e Fernanda e Caminho de Ituverava. Sem letra, ela traz vocalizações arranjadas pelo genial Tavito, cordas e um clima que em alguns trechos pode nos levar surpreendentemente à fase mais experimental dos Beach Boys.

Outro momento muito significativo é a encantadora Feiticeira, canção leve, romântica e delicada com direito a um arranjo ousado que incorpora elementos de baião. Pode-se considerá-la uma espécie de pioneira de uma veia da obra de Ivan que posteriormente nos renderia sucessos maravilhosos do porte de Vitoriosa (1986) e Iluminados (1987).

Entre os músicos participantes do álbum, todos ótimos, um merece destaque especial. Trata-se de Alex Malheiros, baixista do grupo Azymuth que marca presença em 9 das 10 faixas. Sua forma moderna e swingada de tocar ajudou a dar uma roupagem mais próxima do jazz-funk americano ao som do disco, com direito a alguns momentos absurdamente inspirados. Ouça suas linhas de baixo em Arlequim Desconhecido, Setembro e Novo Tempo e tente não concordar comigo.

Curiosamente, nos créditos do álbum, Malheiros é identificado apenas como “Alexandre”, o que me levou a fazer uma extensa pesquisa para descobrir quem era esse cara, até que consegui a resposta ao ouvir uma entrevista feita por Nelson Faria com o saudoso baixista Arthur Maia, no qual ele relembra que entrou na banda de Ivan Lins para substituir precisamente Alex Malheiros, que gravou Novo Tempo mas não participou da turnê.

A embalagem de Novo Tempo também merece ser elogiada. Na capa, Ivan aparece com a camisa aberta, com jeitão de quem está pronto pra qualquer parada. Na parte interna e na contracapa (a capa é dupla), Ivan está ao lado dos parceiros Martins e Peranzzetta, sendo que em uma foto eles compartilham um jornal com manchetes típicas de um país pressionado por momentos difíceis.

Se não fez tanto sucesso como os trabalhos anteriores pela EMI, Novo Tempo conseguiu manter Ivan Lins nas paradas de sucesso e lotando os seus shows. Típico disco de transição, encerrou com classe uma fase brilhante de sua carreira e, por tabela, deu o pontapé inicial em outra, também das mais ricas. Mas essa é uma outra história, que a gente conta futuramente.

Ouça músicas de Novo Tempo em streaming:

Elton John (1970), quando Reg Dwight começa a virar um astro

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Por Fabian Chacur

Escolher um entre os aproximadamente 40 álbuns de estúdio que Elton John gravou e nomeá-lo o mais importante de todos é uma tarefa um tanto complicada. Mas pode ser mais simples se levarmos em conta um critério determinante: aquele trabalho que significou a ascensão de um até então completo desconhecido cantor, compositor e músico britânico para o primeiro time da música pop. Se esse for o parâmetro, aí fica fácil. O álbum a ser selecionado, ironicamente, é o único que ele lançou que só leva seu nome artístico, Elton John, como título.

Como grande atrativo inicial, o disco traz Your Song, primeira canção do astro britânico a atingir o top 10 nos EUA e no Reino Unido, chegando mais especificamente ao oitavo posto na terra de Elvis Presley e ao sétimo em seu próprio rincão. Essa doce, emotiva e claramente ingênua balada tornou-se o seu cartão de visitas, aquela canção que Elton não consegue excluir de seu set list sem desagradar e muito seu imenso público.

Esse encantador álbum não conseguiu tal feito por acaso. Uma série de fatores possibilitou que tal disco permitisse ao seu autor ombrear com os grandes nomes da música pop. Até chegar a ele, esse artista genial teve de pagar seus tributos, digamos assim, e não foram poucos. Não faria sentido contar a história deste trabalho sem oferecer ao leitor um resumo do que ocorreu antes de seu surgimento, e é isso que começaremos logo a seguir.

Formação erudita, bares, hoteis e Bluesology

Reginald Kenneth Dwight nasceu em 25 de março de 1947. Com apenas quatro anos de idade, surpreendeu os pais e a avó ao mostrar habilidades precoces no piano. Com o tempo, ficou claro que o rapazinho levava jeito para a música, e ele aos 11 anos de idade começou a estudar aos sábados na prestigiada Royal Academy Of Music, onde permaneceu por cinco anos. No entanto, logo ficou claro para ele que ser um concertista erudito não era o seu sonho.

Aos 15 anos, preferiu tocar em hotéis e bares, inicialmente como pianista solo, e logo a seguir integrando um grupo que fundou com seus amigos, o Bluesology, em 1962. Com o tempo, a banda ganhou musculatura, e além dos shows próprios, também acompanhou artistas americanos de soul music que passavam pela Inglaterra, entre eles Major Lance e Patti Labelle And The Blue Belles.

Com Elton como seu vocalista e pianista, o Bluesology lançou em 1965 o seu primeiro single, Come Back Baby. Outros dois singles viriam até 1966, mas sem grande repercussão. Disposto a ficar o mais próximo possível do cenário da música, Reg (seu apelido) chegou a servir chá na editora musical Mills Music, e nessa época conheceu um jovem brincalhão chamado Caleb Quaye, que adorava fazer bullying com ele por causa de seus quilinhos a mais.

Em setembro de 1966, o cantor Long John Baldry convidou a Bluesology para ser a sua banda de apoio, convite que eles aceitaram. Isso fez com que Dwight se tornasse apenas pianista e eventual compositor do grupo, o que de certa forma o frustrou. Em busca de algum outro rumo, ele viu um anúncio nas páginas do jornal especializado em música New Music Express, publicado em 17 de junho de 1967. Mal sabia que sua vida mudaria a partir dali.

Bernie Taupin, contrato com Dick James e muito trabalho

Após se separar do conglomerado EMI na Inglaterra, o selo Liberty resolveu montar o seu próprio cast, e colocou o anúncio no NME buscando cantores, músicos e similares. Reg Dwight ficou animado e mandou uma carta. Para sua surpresa, foi chamado para uma audição, na qual se mostrou nervoso, cantando músicas do astro country americano Jim Reeves. Aparentemente, não era o cara mais adequado para o novo selo, e não foi selecionado.

No entanto, o responsável por seu teste e um dos homens do A&R (artistas e repertório) da Liberty, Ray Williams, sentiu que havia potencial naquele baixinho gordinho. Antes de se despedir de Reg, ele deu ao jovem um pacote com poemas enviados por um certo Bernard Taupin, e sugeriu como exercício que o pianista tentasse musicar alguns deles.

Nascido em 22 de maio de 1950, apaixonado por cultura pop americana e radicado em um pequeno vilarejo interiorano em Lincolnshire, Bernie também estava em busca de um rumo na vida, e se embrenhou em escrever poemas bem afeitos ao ambiente paz e amor daqueles tempos. Mesmo sem cantar ou tocar um instrumento musical, também respondeu o anúncio do NME, e recebeu como resposta um convite para visitar o escritório da Liberty em Londres.

Umas boas semanas se passaram até que Bernie e Reg se conhecessem. Quando isso enfim ocorreu, o músico contou ao novo amigo que já havia musicado uns 20 daqueles textos. A empatia entre eles foi imediata. Feliz ao ver que conseguiu reunir dois jovens talentos promissores, Ray Williams resolveu indicá-los à editora musical Gralto, criada pelos integrantes da consagrada banda The Hollies e ligada à Dick James Music (DJM).

No início, Reg e Bernie compunham suas músicas e o músico e cantor da dupla as registrava de madrugada, no estúdio da DJM, sem o conhecimento do dono. No entanto, o filho desse dono, Steve James, ouviu as demos, ficou bem impressionado e incentivou seu pai famoso a dar uma chance a eles.

Vale o registro: Dick James foi quem apostou em uma desconhecida banda oriunda de Liverpool e os contratou para editarem suas músicas com ele, na editora criada especialmente para tal fim, a Northern Songs. Sim, eles mesmos, os hoje eternizados Fab Four. Ou seja, era um dos caras mais bem-sucedidos da área. Ele confiou no palpite do filho, ouviu as demos, gostou e convidou aqueles dois jovens para uma reunião.

Contrato com a DJM, os primeiros discos e muito trabalho

Reg Dwight e Bernie Taupin foram para a reunião convocada por Dick James meio ressabiados. Eles pensavam que seriam repreendidos por usarem o estúdio. Aliás, sabe quem tomava conta daquele estúdio? Ninguém menos do que Caleb Quaye, que começava também a investir em uma carreira como guitarrista.

No entanto, os amigos saíram felizes daquele encontro, pois Dick os contratou, no dia 17 de novembro de 1967, para serem compositores residentes da DJM, escrevendo canções e gravando demos (agora em horários mais civilizados…) para serem oferecidas a outros intérpretes, ganhando um salário semanal.

Pouco tempo depois, aquele jovem pianista percebeu que seria duro ir adiante como Reg Dwight, e resolveu criar um nome artístico. Dessa forma, pegou “emprestado” o nome do saxofonista do Bluesology, Elton Dean (que depois tocaria com o grupo progressivo Soft Machine), e o do cantor Long John Baldry, que de certa forma o impulsionou rumo à carreira-solo, e voilá, surgia Elton John.

No início, as coisas não correram muito bem. Apesar de trabalharem muito, os dois amigos não conseguiam agradar a ninguém com suas criações musicais. Steve Brown, um dos funcionários da DJM, percebeu onde estava o problema, e deu um conselho ousado aos garotos: “parem de tentar compor canções pré-fabricadas para os cantores da moda, e façam aquilo que tiverem vontade”.

Foi o pontapé inicial para o surgimento de um trabalho original. O primeiro grande fruto dessa nova estratégia foi Lady Samantha, lançada em compacto simples em janeiro de 1969. Brown foi recompensado virando a partir dali o produtor dos discos de Elton John. A canção teve ótima execução nas rádios britânicas, mas o single não vendeu absolutamente nada, para tristeza geral.

A trajetória de Elton poderia ter tomado outros rumos no início daquele mesmo 1969, quando fez testes para ser o cantor de duas bandas novas com grande potencial, King Crimson e Gentle Giant, mas foi reprovado em ambas. Quem será que perdeu mais, ele ou as respectivas bandas? Nunca saberemos, mas é fato que os três conseguiram desenvolver carreiras de muito respeito. Elton, no entanto, vendeu muito mais discos, sem sombra de dúvidas.

Empty Sky, músico de estúdio e covers

Em 6 de junho de 1969, Elton John lançou o seu primeiro álbum pela DJM, Empty Sky. O disco dava pistas do que viria futuramente, mas ainda apresentava um artista em busca de seu estilo próprio. Mesmo tendo músicas boas como a faixa-título e Skyline Pigeon (que ele regravaria em 1973, em versão que estourou no Brasil), não só passou batido nos charts britânicos como nem sequer chegou a ser lançado no mercado americano naquela época.

Vale o registro detalhista: Empty Sky só saiu nos EUA anos depois de seu lançamento original, e chegou ao 6ª lugar na parada americana. Todas as fontes garantem que esse LP só chegou às lojas americanas em 1975. Curiosamente, a edição americana em vinil que eu tenho, que traz na capa (diferente da que saiu na Inglaterra) um desenho que lembra uma pirâmide, temos 1975 na contra-capa e 1973 no selo do disco. Vacilo dos bons…

Como forma de se manter, o artista não só continuou gravando suas demos e oferecendo músicas a outros artistas como também virou músico de estúdio, marcando presença em diversas gravações. A mais famosa é certamente He Ain’t Heavy He’s My Brother, um dos maiores sucessos dos Hollies e lançada em 1969, na qual ele se incumbiu do marcante acompanhamento de piano.

De quebra, ainda participava como cantor e pianista de gravações de álbuns de covers de sucessos do momento, lançados por selos pequenos que usavam o estratagema de juntar alguns dos maiores hit singles em um único LP, pois as grandes gravadoras na época ainda não faziam isso com as gravações originais. Esses discos não traziam os créditos aos músicos participantes, entre eles o cantor David Byron, que depois integraria a banda Uriah Heep.

Outra curiosidade: Elton e Bernie, toda semana, compravam os mais recentes lançamentos da música pop em LPs e compactos simples, e os dissecavam música a música, letra por letra, em uma espécie de curso intensivo de música pop. A paixão era tanta que o cantor chegou a ser balconista da loja de discos Music Land, no Soho, quando já havia lançado o seu primeiro álbum. Nem é preciso dizer que o dinheiro que ganhava lá virava discos e mais discos…

Novos craques entram no time de Reg Dwight

Ninguém vai adiante na vida se não tiver a ajuda decisiva de algumas pessoas. Elton John não foi diferente. Nesse momento crucial de sua carreira, ele ainda contou com a humildade de Steve Brown. Ao ouvir a demo de algumas das canções que o artista preparava para o que viria a ser o seu segundo álbum, Brown se sentiu pouco qualificado para continuar a produzi-lo, e tomou uma atitude de grande generosidade.

Dessa forma, propôs a Dick James algumas coisas básicas: que ele, Brown, passasse a ser coordenador de produção do novo LP de Elton, contratando um produtor mais experiente e também um arranjador, e que uma pequena orquestra fosse arregimentada para participar das gravações. Dick topou, e Steve Brown foi à luta para achar os nomes ideais.

O primeiro a entrar no projeto foi o arranjador Paul Buckmaster, que se incumbiu do brilhante arranjo para Space Oddity, primeiro hit de David Bowie em 1969. Ao tomar contato com as demos das novas canções de Elton e também ao conhecer o artista, sentiu que o convite era irrecusável.

E quem se incumbiria da produção? Brown sonhou alto: ninguém menos do que George Martin, para muitos o quinto beatle. Ao ser contatado, ele topou, possivelmente por sua relação com Dick James, mas com uma condição: também se incumbiria dos arranjos. Colocado na alternativa de ou ficar com o produtor dos Beatles ou manter Paul Buckmaster no jogo, Steve Brown se mostrou ousado ao preferir a segunda opção.

De quebra, para mostrar que punha fé em Buckmaster, Brown pediu a sugestão de um nome para capitanear aquele projeto. E a dica, que hoje pode parecer óbvia mas na época não soou assim, foi chamar exatamente o produtor que trabalhou com Buckmaster em Space Oddity, Gus Dudgeon. Este, ao ouvir as demos, percebeu que aquela era a chance de sua vida, e bateu o martelo.

Time escalado, mãos à obra

Com Steve Brown, Gus Dudgeon e Paul Buckmaster em suas devidas funções, seguiu-se a escalação dos músicos, e apenas o amigo Caleb Quaye, um dos mais promissores guitarristas britânicos na época, foi mantido do 1º LP, somando-se a Barry Morgan e Terry Cox (bateria), Dave Richmond, Les Hurdie e Alan Weighll (baixo), Colin Green, Clive Hicks, Roland Harker, Frank Clark e Alan Parker (guitarra e violão acústico), Skaila Kanga (harpa), Dennis Lopez e Tex Navarra (percussão), Diana Lewis (sintetizador moog) e Brian Dee (órgão).

Nos backing vocals (comandados por Barbara Moore), Madeline Bell, Leslie Duncan, Kay Garner, Tony Burrows, Tony Hazzard e Roger Cook. Este último merece destaque por ter sido um dos primeiros artistas a gravar composições de Elton John e Bernie Taupin, Skyline Pigeon, e ser o autor (em parceria com Roger Greenaway) de hits como You’ve Got Your Troubles (The Fortunes, em 1965) e I’d Like To Teach The World To Sing (The New Seekers, em 1972).

Além dos músicos de orquestra, outro acréscimo bacana ao projeto foi registrá-lo no Trident Studios, em Londres, aparelhado com muito mais recursos técnicos do que o da DJM e que presenciou gravações dos Beatles, David Bowie e muitos outros artistas desse gabarito. Segundo Paul Buckmaster, o álbum levou exatos 12 dias para ser concretizado, das primeiras gravações à mixagem final, com início no dia 19 de janeiro de 1970.

Além das 10 músicas que entraram na versão original do álbum, outras três foram registradas, e saíram em compactos simples nos meses seguintes. A capa hoje pode ser considerada bem simbólica, pois mostra, em um fundo totalmente escuro, apenas uma parte do rosto daquele jovem gordinho, descabelado e usando óculos com lentes grossas, cujo nome, Elton John, aparecia logo acima, em caracteres pomposos. Clima de mistério…

Elton John, o álbum, faixa a faixa

Your Song– Uma encantadora balada de um romantismo ingênuo e idealista, com um arranjo muito feliz que traz como bela sacada o fato de a seção rítmica só entrar após a primeira execução do refrão, o que ajuda a cativar o ouvinte. O primeiro e inesquecível hit desse grande astro.

I Need You To Turn To– A primeira canção com forte influência erudita do LP, com um jeitão meio medieval gerado pela utilização de um teclado do tipo harpsichord (cravo), e versos que retratam uma relação afetiva de dependência entre os integrantes de um casal.

Take Me To The Pilot– Primeiro momento mais swingado do álbum, uma espécie de funky gospel que se tornou um dos pontos altos dos shows dessa fase inicial de sucesso do astro. Tanto Elton quanto Taupin brincam com o teor vago da letra, dizendo que “se alguém descobrir o significado desses versos, por favor, nos avisem, que nós não temos a mínima ideia”.

No Shoe Strings On Louise– Esta canção meio soul, meio country, mostra forte influência dos Rolling Stones quando abordam essa sonoridade, especialmente em termos vocais. Dá para imaginar Mick Jagger cantando esta deliciosa faixa.

First Episode At Hienton– Cativante balada introspectiva com influência clássica na qual temos uma espécie de nostalgia melancólica referente a alguém que conheceu uma garota ainda jovem, mas que agora a vê já como uma mulher adulta. Belas imagens poéticas.

Sixty Years On– A faixa mais introspectiva e intensa do álbum, com direito a um arranjo absolutamente genial de Paul Buckmaster no qual a orquestra dialoga com a melodia e o vocal de Elton John. Outra letra melancólica divagando sobre uma velhice que curiosamente ainda estava muito distante de Elton e Taupin.

Border Song– Balada gospel com direito a um coral encantador e letra pregando a união e a tolerância sem cair no óbvio. Aretha Franklin a regravaria com muita propriedade naquele mesmo 1970.

The Greatest Discovery– Outra canção na qual o arranjo de Buckmaster se sobressai, em letra que investe na relação entre pais e filhos, no sentido da descoberta da paternidade e seus momentos iniciais.

The Cage– Provavelmente o momento mais roqueiro do álbum, com direito a algumas surpreendentes passagens de teclados eletrônicos.

The King Must Die– O álbum original se encerra com uma balada típica do artista, com uma letra libertária e realista ao mesmo tempo.

A versão em CD lançada em 1995 na série The Classic Years traz três faixas adicionais, oriundas das mesmas sessões de gravações do álbum original:

Rock And Roll Madonna e Grey Seal– lançadas em compacto simples em junho de 1970. A primeira é um rock básico com uso de gravações prévias que tentam dar a falsa impressão de que se trata de um registro feito ao vivo. A segunda é uma balada com belas passagens roqueiras, que seria regravada em 1973 para inclusão no álbum Goodbye Yellow Brick Road (1973).

Bad Side Of The Moon– Saiu como lado B do single Border Song, lançado em março de 1970. Muito boa, costumava fazer parte do set list dos shows de Elton naquela época com uma certa frequência.

Um álbum que demorou, mas enfim teve o sucesso que merecia

Como nada na vida de Elton John veio de bandeja, o sucesso de seu 2º LP seguiu a regra. Saiu na Inglaterra em 10 de abril de 1970, com resposta indiferente de público e crítica inicialmente. Como forma de divulgá-lo, o artista resolveu montar uma nova banda de apoio bem compacta, integrada por ele próprio nos vocais e piano, o baixista Dee Murray e o baterista Nigel Olsson (que havia participado da faixa Lady What’s Tomorrow, do álbum Empty Sky).

O primeiro destaque do trio ocorreu em agosto de 1970 após sua participação no tumultuado festival de Krumlin, em Yorkshire, ganhando novos fãs inclusive na imprensa especializada britânica. Dick James, então, percebeu que precisava pensar em alternativas para divulgar seu artista no mercado mais importante do mundo para a música, o americano, e iniciou negociações com a MCA Records.

Depois de muitas conversas, e com o apoio decisivo do amigo Roger Greenway, o executivo Russ Regan resolveu apostar naquele artista britânico, apesar de inicialmente considerá-lo um pouco “exotérico”. Como forma de apresentá-lo de fato ao público americano, planejou uma série de seis shows em Los Angeles, mais precisamente no Troubadour, badalado local de shows que impulsionou as carreiras de nomes como James Taylor, Carole King e inúmeros outros.

No dia 25 de agosto daquele histórico 1970, uma terça-feira, Elton entrou no palco devidamente anunciado por outro astro do elenco da MCA Records, Neil Diamond. Na platéia, nomes do porte de Quincy Jones, David Crosby, Graham Nash, Henry Mancini e Mike Love (dos Beach Boys). Se previamente se mostrava nervoso, deixou isso pra lá ao começar a tocar e cantar, esbanjando desenvoltura, garra e um talento absurdo.

Foram seis noites naquele mesmo local, com direito a outros nomes famosos para vê-lo, incluindo um de seus ídolos, o cantor, compositor e pianista Leon Russell, integrantes do grupo Bread e vários jornalistas. Um deles, o renomado Robert Hilburn, escreveu uma crítica arrebatadora no Los Angeles Times, classificando-o como o “novo astro do rock”, entre outros elogios.

A seguir, Elton fez mais alguns shows em outras cidades, e deixou no público americano um gostinho de quero mais. O cara estava tão aceso que, em sua volta à Inglaterra, finalizou as gravações de dois novos trabalhos, o álbum Tumbleweed Connection (lançado em outubro no Reino Unido e só em 1971 nos EUA) e a trilha do filme Friends. Ele voltou aos EUA em novembro, quando enfim o LP Elton John havia chegado às lojas de lá, e aumentou ainda mais seu impacto naquelas plagas. A América vai caindo de joelhos perante um novo astro.

A coisa ficou tão quente que ele fez um show no dia 17 de novembro no estúdio do produtor Phil Ramone, perante uma platéia de umas cem pessoas, com transmissão ao vivo via rádio no território americano. O sucesso foi tão grande que no ano seguinte as gravações gerariam um LP, 11.17.70 (na Inglaterra, lançado com o título 17.11.70 e, no Brasil, como Honky Tonk Women, canção clássica dos Rolling Stones que Elton releu com categoria neste show).

Para completar a operação “Elton Estrela”, só faltava uma coisa: lançar Your Song em compacto simples, o que ocorreu no início de 1971. A canção não só vendeu bem nesse formato como deu o impulso final para que Elton John, o álbum, enfim concretizasse o potencial de êxito que sempre demonstrou ter, atingindo o quarto lugar na parada americana e o quinto no Reino Unido. Era só o início de um verdadeiro tsunami de sucessos do hoje Sir Elton John.

Ouça Elton John (1970) em streaming:

Veja o clipe de Your Song, de 1970:

Sweet Sensation (1980), um clássico de Stephanie Mills

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Por Fabian Chacur

Em 1980, Stephanie Mills completou 23 anos de idade. Ainda nova, já podia ser considerada uma veterana no show business, com 14 anos de estrada no teatro e na música. Naquele ano, essa incrível cantora e atriz viveu um dos momentos mais importantes de sua trajetória com o lançamento do álbum Sweet Sensation (20th Century Fox, saiu no Brasil via RCA). Com este trabalho, ampliou seu alcance no público black e de quebra emplacou seu maior hit no cenário mainstream, a deliciosa canção Never Knew Love Like This Before.

Nascida em Bed-Stuy-Brooklin-Nova York em 22 de março de 1957, Stephanie Dorthea Mills teve sua iniciação musical semelhante à da maior parte das cantoras negras americanas, cantando em uma igreja ainda pequena. Aos 9 anos, estreou profissionalmente no musical Maggie Flynn. Aos 11, conseguiu vencer uma acirrada competição na Amateur Night no mitológico Apollo Theater, no Harlem, e foi convidada a abrir shows dos lendários Isley Brothers.

Ainda adolescente, lançou dois álbuns-solo, Movin’ In The Right Direction (1974) e For The First Time (1975). Este último, lançado pela gravadora Motown, contou com a produção e composições da dupla Burt Bacharach e Hal David, sendo 8 das 10 faixas inéditas. Infelizmente, ambos passaram batidos.

No teatro, o início do estrelato

No entanto, a carreira no teatro musical lhe proporcionou um primeiro grande momento. Ela foi convidada para viver Dorothy, um dos personagens principais de The Wiz, versão com artistas negros para o teatro do filme O Mágico de Oz.

Ficou em cartaz de 1975 e 1977 com muito sucesso na Broadway, mas sentiu-se frustrada ao não ser convidada para repetir o papel em uma nova versão cinematográfica da história lançada em 1978 e dirigida por Sidney Lummet. Ela perdeu a vaga para Diana Ross.

Sem baixar a cabeça, seguiu em frente, e em 1979 foi contratada pela gravadora 20th Century Fox para um novo álbum. O selo escolheu para produzi-la James Mtume e Reggie Lucas, uma dupla de jovens músicos que haviam tocado com Miles Davis e Roberta Flack, tendo composto para esta última os belíssimos hits The Closer I Get To You e Back Together Again.

A parceria não poderia ter dado mais certo, e já se mostrou certeira logo no primeiro álbum que os reuniu, Wat Cha Gonna Do With My Love (1979), que atingiu o 22º posto na parada pop e o 12º no chart de rhythm and blues (r&b).

A fórmula de mesclar canções disco do tipo uptempo, canções dançantes midtempo (batida intermediária entre as mais agitadas e as mais lentas) e baladas românticas se mostrou matadora, com direito a hits como a faixa-título, a empolgante Put Your Body In It e You And I.

Sucesso e a conquista do público mainstream

Obviamente incentivados pelo sucesso do disco anterior, Mtume e Lucas iniciaram os trabalhos que resultariam em Sweet Sensation com muita garra. De cara, selecionaram um time de músicos e vocalistas de apoio conciso e impecável, no qual se destacavam as cantoras Gwen Guthrie e Tawatha Agee, o tecladista Hubert Eaves III, o guitarrista Edward Moore e o baterista Howard King.

Com essa escalação, e mais os arranjos de cordas e metais a cargo de Wade Marcus, eles investiram nas oito faixas incluídas no disco, sendo cinco assinadas pela dupla de produtores e outras três compostas por integrantes da banda. Como quatro delas duram mais de cinco minutos, algo habitual em trabalhos de funk, r&b e disco music, não havia como ir além desse número, como forma de garantir a qualidade técnica do áudio do LP.

O resultado não poderia ser melhor. Trata-se de um trabalho diversificado, conciso e envolvente, no qual Stephanie teve a chance de exibir a qualidade de sua voz sensual e doce, capaz de encarar com categoria os três tipos básicos de canção incluídas aqui- funk-disco, r&b midtempo e baladas encantadoras.

As faixas que mais se destacaram foram a que deu título ao LP, que atingiu o nº 52 na parada pop e nº 12 na de r&b, e especialmente Never Knew Love Like This Before, que alcançou o 6º lugar na parada pop (única vez que ela conquistou tal feito) e 12º no chart r&b. A música, no Brasil, foi incluída na trilha sonora da novela global Plumas e Paetês, que foi exibida entre 1980 e 1981.

Uma parceria marcante

Sweet Sensation foi o mais bem-sucedido dos quatro álbuns que Mtume e Lucas produziram para Stephanie Mills entre 1979 e 1982, e marcou a carreira de todos os envolvidos. Depois, ela trabalharia com outros grandes produtores e com muito sucesso, como a dupla Ashford & Simpson e Angela Winbush, mas essa parceria ficou como um dos grandes destaques do currículo deles.

Se não conseguiu nada tão expressivo na parada pop após Sweet Sensation, Stephanie Mills se manteve muito bem na cena r&b durante toda a década de 1980, emplacando cinco canções e um álbum no topo da parada de r&b americana entre 1986 e 1989. A partir dos anos 1990, infelizmente gravou quatro discos sem grande repercussão, mas continua fazendo bons shows.

Para os “fofoqueiros” de plantão, vale lembrar que ela teve um rápido namoro com Michael Jackson, e foi casada entre 1980 e 1983 com outro astro do r&b, o cantor Jeffrey Daniels, do grupo Shalamar.

As faixas de Sweet Sensation:

Sweet Sensation (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
O álbum abre com uma faixa-título envolvente, em ritmo midtempo, no qual uma das marcas deste trabalho já se apresenta logo de cara: os diálogos musicais entre Stephanie e as vocalistas de apoio, além da coesão entre os instrumentos de sopros, cordas e teclas. Um clássico do r&b.

Try My Love (Tawatha Agee-Hubert Eanes III)- Ouça aqui.
O pique dançante prossegue com uma faixa irresistível na mesma levada da anterior, mas com mais espaços para a voz de Stephanie mergulhar fundo, gerando uma interação com suas vocalistas que é de arrepiar. E que refrão! E que arranjo de metais! A audição dessas duas músicas já valeria a sua aquisição. Mas vem mais coisa boa por aí!

I Just Wanna Say (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Temos aqui a primeira canção lenta do disco, com destaque para os teclados e no melhor estilo slow jam, ou seja, aquelas faixas românticas sensuais com duração mais longa típicas da black music dos anos 1970-80.

Wish That You Were Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Um momento mais disco music para fechar o lado A do vinil com alto astral total, com direito a uma guitarra-rítmica irresistível e um apelo pop certeiro.

D-A-N-C-I-N’ (Edward Moore-Howard King)- Ouça aqui .
O lado B do vinil abre com força total, nesta canção midtempo com refrão forte que aparece logo de cara chamando as pessoas para a pista de dança, com Stephanie endiabrada e soltando a voz. Para bater palmas junto! Outro show das vocalistas de apoio no refrão e nos diálogos com a sua “chefe”. E que groove!

Still Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Aqui, o momento de uma balada soul romântica por excelência, aquela lentinha que levava os casais para a pista de dança durante os bailinhos dos anos 1970-início dos 1980. A performance de Stephanie é espetacular.

Never Knew Love Like This Before (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Não é difícil entender o porque esta é a canção que mais se destacou na parada mainstream, ou seja, a “dos brancos”. Embora sem perder a alma, é o momento mais pop do disco, no qual Stephanie canta com tanta doçura e ingenuidade sincera a celebração da descoberta do “amor da sua vida” descrito na letra que pode arrancar lágrimas de alguém mais emotivo, alguém tipo eu, por exemplo… Esta música rendeu o Grammy de melhor performance de r&b para Stephanie, e de melhor canção de r&b para Mtume e Lucas.

Mixture Of Love (Joe Mills-John Simmons)- Ouça aqui.
Uma assumida fã de canções românticas, Stephanie nos mostra aqui, mais uma vez, como usar uma voz potente, doce e versátil de forma absolutamente sensual e impecável em termos técnicos. E os diálogos com o coral de apoio mais uma vez são encantadores. Final feliz para um disco maravilhoso!

Saiba mais sobre o time que gravou Sweet Sensation

James Mtume– Este produtor, percussionista, tecladista e compositor tocou com Miles Davis entre 1971 e 1975, e logo a seguir, na banda de Roberta Flack. Paralelamente, ele tinha a sua própria banda, a Mtume, com Tawatha Agee nos vocais, e com ela emplacou pelo menos um clássico perene dos anos 1980, Juicy Fruit (ouça aqui), que chegou ao topo da parada de r&b. Ele teve músicas gravadas por Stephanie, Roberta Flack e também por Donny Hathaway, Phyllis Hyman, Mary J. Blige, Teddy Pendergrass, Inner City e R. Kelly.

Reggie Lucas-Guitarrista e compositor, tocou junto com Mtume nas bandas de Miles Davis e Roberta Flack. Além do trabalho ao lado do parceiro, ele tem um belo item solo em seu currículo: produziu seis das oito faixas do autointitulado álbum de estreia de Madonna em 1983, e é o autor de duas dessas músicas, os hits Borderline e Physical Attraction. Ele também foi guitarrista da banda de Billy Paul antes de conhecer Mtume.

Gwen Guthrie (1950-1999)- A saudosa cantora e compositora é a coautora de hits deliciosos de r&b como This Time I’ll Be Sweeter (sucesso no Brasil na versão de Linda Lewis), Supernatural Thing (hit com Ben E. King) e Love Don’t You Go Through No Changes On Me (hit com o grupo Sister Sledge). Além de participar de discos de inúmeros outros artistas (entre os quais Madonna, Aretha Franklin, Billy Joel, Stevie Wonder e Peter Tosh) também gravou seis álbuns solo entre 1982 e 1990, com direito a ao menos um grande hit na cena black americana, a irresistível Ain’t Nothing Goin’ On But The Rent (ouça aqui), que atingiu o topo da parada de r&b americana em 1986.

Tawatha Agee– Além de coautora de canções como o hit Two Hearts, que estourou em 1981 em marcante dueto de Stephanie Mills com o seminal Teddy Pendergrass, ela também foi a vocalista principal do grupo Mtume, aquela voz deliciosa que conduz o hit Juicy Fruit.

Hubert Eaves III– O tecladista que assinou Try My Love ao lado de Tawatha Agee também se destacou como integrantes das banda Mtume e D Train, esta última na verdade um duo integrado por ele e o cantor e compositor D-Train Willians e conhecido pelo hit Something’s On Your Mind (regravada depois por Miles Davis em seu álbum You’re Under Arrest, de 1985).

Howard King– Foi baterista da banda Mtume.

Veja Stephanie Mills ao vivo em 1998:

Sweet Baby James (1970) tirou James Taylor do anonimato

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Por Fabian Chacur

Entre os 20 álbuns de estúdio gravados por James Taylor, Sweet Baby James, lançado em fevereiro de 1970, possui uma importância imensa. Trata-se do trabalho que o tirou do anonimato e o impulsionou rumo ao estrelato em termos mundiais, graças especialmente à faixa Fire And Rain, seu primeiro grande hit. De quebra, ainda abriu as portas para o sucesso comercial de uma vertente importante da musica, o bittersweet rock, pontuado por melodias doces e envolventes abrigando letras sobre duras e amargas experiências da vida real de seus autores.

Este álbum atingiu o 3º lugar na parada de sucessos americana, onde se manteve por dois longos anos, e vendeu até hoje naquelas plagas em torno de três milhões de cópias. Também foi bem no Reino Unido, onde ocupou o 6º posto, e no resto do mundo, Brasil incluso. O single Fire And Rain obteve o mesmo nº 3 nos EUA. São números expressivos, que o artista repetiria nos anos seguintes.

O legal é saber que, se levarmos em conta toda a estrada percorrida por Taylor até lançar esse disco, chega a ser um milagre não só esse resultado incrível ter sido obtido em termos comerciais e artísticos, mas o simples fato de o seu autor ter conseguido se manter vivo para gravá-lo.

Aí vai um relato no melhor estilo textão de como foi essa incrível trajetória, repleta de idas e vindas e, felizmente, com um final mais do que feliz.

Um cowboy suave e solitário

James Vernon Taylor nasceu em 12 de março de 1948 em Boston, mas passou boa parte da infância e adolescência no estado da Carolina do Norte, curtindo as férias de verão na Martha’s Vineyard, uma ilha na costa nordeste dos EUA. E foi ali que conheceu um garoto dois anos mais velho do que ele, Danny Kortchmar, morador de Nova York e que se mostraria decisivo em sua vida profissional.

Desde cedo, o interesse pela música levou o segundo de uma família de cinco irmãos a aprender a tocar instrumentos musicais, sendo que o violão se tornou o seu favorito. Ouvindo Woody Guthrie, rock and roll, country, rhythm and blues e folk, aos poucos moldou uma sonoridade própria no violão, marcada por seu dedilhado característico e fluente.

Em 1965, no entanto, obstáculos surgem à sua frente. Logo de cara, uma forte depressão o leva a optar por um tratamento psiquiátrico que durou longos nove meses. Quando esse difícil processo teve fim, ele foi encorajado por Danny Kortchmar a não só se mudar para a efervescente Nova York, como a criarem uma banda. Isso se concretizou em 1966, com o nome The Flying Machine.

O novo grupo, que também incluía Joel O’Brien (bateria) e Zachary Wiesner (baixo), gravou um single para o selo Jubillee com as músicas Night Owl e Brighten Your Night With My Day. Eles registraram outras faixas, mas o insucesso comercial do single levou a gravadora a abdicar de lançá-las, o que precipitou o fim do grupo, algo acelerado por novos problemas de Taylor, agora ligados ao vício em heroína, contraído naquela megalópole.

Como sempre costuma ocorrer nesses casos, as faixas arquivadas pela Jubilee acabaram sendo lançadas em 1971, quando Taylor havia se tornando uma estrela pop, no álbum James Taylor And The Original Flying Machine, que o artista não só repudia como fez questão de escrever “bootleg” (pirata) no autógrafo que me deu em 1994 em sua versão em vinil. Ele não autorizou esse lançamento.

Curiosamente, uma banda britânica também chamada The Flying Machine fez bastante sucesso em 1969, inclusive no Brasil, com a deliciosa balada Smile a Little Smile For Me, o que ainda hoje leva algumas pessoas a pensarem se tratar do mesmo grupo, o que não é verdade.

Nova internação, operação na garganta e Londres

A passagem de James Taylor por Nova York rendeu ao artista não só o vício em heroína como também danos em suas cordas vocais devido à forma inadequada como as usava em shows e gravações. Além do tratamento para tentar se livrar das drogas, ele de quebra teve de operar a garganta para resolver esse problema.

No final de 1967, sentindo-se pronto para continuar a investir na carreira musical, resolveu tentar a sorte em Londres, naquele momento a verdadeira meca do novo rock, graças especialmente aos Beatles. Com um contato feito através do amigo Danny Kortchmar, ele teve a oportunidade de conhecer Peter Asher, que surgiu no meio artístico como integrante da dupla Peter & Gordon, conhecida pelo sucesso com canções compostas por Lennon & McCartney como A World Without Love e Nobody I Know.

Com o fim da dupla, Asher iniciava na época a carreira como produtor, e foi um dos escolhidos para trabalhar na gravadora que os Beatles criaram em 1968, a Apple. Ao ouvir as canções de Taylor, ele se apaixonou de imediato e conseguiu convencer seus patrões a contratá-lo.

Gravado de julho a outubro de 1968, James Taylor (o álbum) recebeu elogios por parte da crítica e possui boas canções e alguns momentos bem interessantes, mas padece dos pomposos arranjos de cordas a cargo de Richard Hewson, com direito a pequenos interlúdios entre uma canção e outra. Os arranjos também não ajudaram, assim como os vocais do artista ainda pareciam buscar seu melhor caminho. Nem a participação de Paul McCartney tocando baixo em Carolina In My Mind deu força significativa ao álbum.

Para piorar ainda mais as coisas, dois fatores adicionais foram decisivos para que o disco de estreia do artista americano fosse um fracasso comercial: a falta de organização da Apple, que só conseguia divulgar bem os trabalhos dos próprios Beatles, pecando em relação a seus contratados, e a novos problemas de saúde de Taylor.

Sim, acredite se quiser. Outra vez as drogas entraram no caminho do cantor e compositor, desta vez aparentemente para tirá-lo de cena de uma vez por todas. Como teve de voltar para os EUA, ele estava internado quando o álbum foi lançado, e isso obviamente também prejudicou e muito seu lançamento, sem shows ou divulgação em rádios e TVs. Pelo visto, era mais um caso perdido na cena musical.

Volta aos EUA, Warner e enfim o sucesso

Se muita gente jogou a toalha para aquele jovem então com 21 anos de idade, dois caras se mostraram decisivos para que a vaca não atolasse de vez no brejo. Um foi Peter Gordon. Mesmo diante de tanta encrenca, ele continuou acreditando no potencial artístico de Taylor, a ponto de pedir as contas na Apple e se mudar para os EUA junto com o artista, tornando-se seu produtor e empresário.

O outro, como você provavelmente já deve ter deduzido, foi Danny Kortchmar, que não só o auxiliou nesse momento tão difícil como de quebra se tornou o guitarrista de sua banda de apoio. Após alguns meses de internação, Taylor volta com o objetivo de dar de vez a volta por cima. E ele consegue uma temporada de seis shows em julho de 1969 no Troubadour, badalada casa de shows em Los Angeles e verdadeiro celeiro da nova geração do rock americano.

Lá, ele conheceu Carole King, uma consagrada compositora que naquele momento iniciava sua trajetória como artista solo, cantando e se acompanhando ao piano. A amizade entre os dois a levou a também ingressar em sua banda de apoio como pianista. A ótima repercussão dos shows no Troubador e também no festival folk de Newport naquele mesmo julho criaram a expectativa de que, enfim, as coisas iriam adiante.

Só que mais um último obstáculo surgiria à frente desse destemido cowboy musical. Um acidente de moto lhe rendeu fraturas nos braços e nas pernas, mais uma vez o tirando de cena. Felizmente, ele não demorou tanto assim para se recuperar, e Asher conseguiu para ele um contrato com a gravadora Warner, que o colocou em estúdio em dezembro de 1969 com o intuito de gravar um novo álbum. Nascia, então, Sweet Baby James.

O disco certo na hora certa

1970 foi um ano de muitas mudanças no cenário musical. De um lado, os Beatles e Simon & Garfunkel chocavam o mundo ao anunciaram suas separações. Jimi Hendrix e James Joplin nos deixaram de forma trágica, ambos com apenas 27 anos de idade. Do outro, novos nomes apareciam com propostas diferenciadas e muitas vezes opostas, como o som pesadíssimo do Black Sabbath, o progressivo de Yes, Genesis, King Crimson e Pink Floyd e um certo David Bowie, intrigando a todos com sua versatilidade.

Em meio a tudo isso, também tínhamos alguns cantores e cantoras que, influenciados por folk, country e rock, propunham uma sonoridade mais introspectiva, centrada nos violões e nas vocalizações, quase um contraponto à psicodelia e ao que viria a se transformar no hard-heavy rock. E coube justamente a James Taylor ser aquele artista a abrir as portas para que os outros seguidores dessa vertente tivessem espaços na mídia e nas gravadoras.

Desta vez, Peter Asher soube dirigir de forma mais eficaz a produção, centrando esforços para que os pontos de maior destaque fossem as canções, devidamente conduzidas pela agora impecável voz de Taylor e por seu violão robusto e até simples, mas de uma assinatura forte e cativante.

Para acompanhá-lo, além de Kortchmar e Carole, um time de músicos talentosos, tarimbados e capazes de seguir as diretrizes daquela sonoridade, entre os quais o baterista Russell Kunkel, que tocaria com Taylor durante muitos anos. Randy Meisner, que em 1971 integraria a formação original dos Eagles, marca presença tocando baixo nas faixas Country Road e Blossom. Outros nomes bacanas são John London (baixo) e Red Rhodes (steel guitar).

Com o repertório bem ensaiado, as gravações não demoraram muito, tendo sido realizadas entre os dias 8 e 17 de dezembro de 1969 no estúdio Sunset Sound, em Los Angeles.

Fire and Rain, um desabafo repleto de dor e emoção

Fire And Rain, a canção mais conhecida deste álbum, equivale a um retrato doído do momento difícil pelo qual James passava naquele 1968. Começa com a notícia tardia do suicídio de uma amiga de infância, Suzanne Schnerr. A morte ocorreu durante as gravações de James Taylor (o álbum), mas a notícia só foi revelada a ele após os trabalhos terem sido encerrados, o que o desagradou bastante.

“Just yesterday morning they let me know you were gone, Susan the plans they made put an end to you” (apenas na manhã de ontem eles me deixaram saber que você se foi, Susan, os planos que eles fizeram puseram um fim em você).

A seguir, ele deixa clara sua intenção, e também suas próprias aflições: “I walked out this morning and I wrote down this song, I just can’t remember who to send it to” (eu levantei essa manhã e escrevi esta canção, eu só não consigo me lembrar de para quem eu a irei enviar).

O relato fica ainda mais forte quando ele relembra simbolicamente que viu fogo e viu chuva, dias de sol que nunca passavam. Ou seja, muita dor. E completa: “I’ve Seen Lonely Times When I Could Not Find a Friend” (vi tempos solitários, quando não pude encontrar um amigo).

Outro trecho marcante é “Sweet dreams and flying machines in pieces on the ground” (sonhos suaves e flying machines em pedaços no chão), sendo que aí a citação ao fim precoce de seu grupo The Flying Machine é direta.

Acompanhados por uma melodia impecável e um acompanhamento instrumental na medida certa, Fire And Rain é até hoje uma das canções mais pedidas nos shows de James Taylor. Ele até brincou com isso na letra de uma canção que lançou em 1985, That’s Why I’m Here: “fortune and fame’s such a curious game, perfect strangers can call you by name, pay good money to hear Fire And Rain, again and again and again” (fortuna e fama é um jogo curioso, pessoas que você certamente não conhece podem te chamar pelo nome, pagar um bom dinheiro para ouvir Fire And Rain mais uma vez, e outra, e outra)

As outras canções de Sweet Baby James

As onze canções incluídas Sweet Baby James trazem como temas gerais a solidão, o sofrimento, a esperança, o amor, a estrada percorrida e os diversos caminhos da vida, como ilustra bem a já analisada Fire And Rain. Apenas uma não é de autoria de James Taylor. Trata-se de Oh! Susanna, composição de Stephen Foster lançada no longínquo 1847 e provavelmente a mais conhecida e popular canção folclórica americana de todos os tempos, aqui em uma releitura descontraída e personalizada.

A faixa que dá nome ao disco, constante nos set lists de Taylor desde então, é uma valsa country na qual ele se descreve como uma espécie de cowboy solitário, que sonha com garotas e copos e mais copos de cerveja e vive na estrada, nas montanhas e sem rumo. Bem um retrato dele naquela época, pois se revesava em casas de amigos, sem ter um lar fixo.

Lo And Behold é um blues a la James Taylor que questiona de forma bem-humorada os dogmas da religião. Singela, Sunny Skies divaga em torno de montanhas ensolaradas e alguma garota com esse nome-apelido.

Steamroller (também conhecida como Steamroller Blues) também frequenta os shows de Mr. Taylor até hoje, e é um blues mais ardido e também mais próximo dos parâmetros tradicionais deste gênero musical.

Outro momento mais conhecido do álbum, Country Road é um soft rock estradeiro, outra com Jesus no meio (ele é citado em várias das canções, por sinal, prova do aparente conflito do artista naquela fase de sua vida com as religiões). Blossom investe em delicadeza e louva uma garota, enquanto Anywhere Like Heaven também nos coloca de frente a divagações existenciais de um estradeiro.

Oh, Baby, Don’t You Loose Your Lip On Me é outro blues, bem curto e de teor bem sacana, por sinal.

A faixa que encerra o álbum, Suite For 20 G, tem uma origem bem divertida. Taylor estava na fase final do álbum, e ficou acordado com a gravadora que ele receberia 20 mil dólares (hoje equivalente a algo em torno de 140 mil dólares) logo que completasse o disco.

Como forma de acelerar o processo e por rapidamente a mão nessa grana toda, ele reuniu três canções inacabadas que tinha em mãos e fez essa suite, que no fim das contas ficou bem legal, com direito a citação de títulos de clássicos do rock and roll como Bonnie Moronie, Peggy Sue e Rockin’ Pneumonia And The Boogie Woogie Flu.

Um modelo para os próximos álbuns

Pode-se dizer sem susto que Sweet Baby James criou os parâmetros a partir dos quais os próximos álbuns de James Taylor seriam concebidos. Não só os dele, por sinal, mas os de muitos outros seguidores do bittersweet rock. Ele achou seu timbre de voz e o som ideal do seu violão neste álbum.

Em 16 de março de 1971, James Taylor concorreu na 13ª edição do Grammy nas categorias Record Of The Year (com Fire And Rain) e Album Of The Year (com Sweet Baby James), mas perdeu em ambas para Simon & Garfunkel com seu icônico Bridge Over Troubled Water (single e álbum).

No futuro, ele ganharia cinco desses troféus, venderia milhões de cópias de seus discos, tocaria para plateias lotadas nos quatro cantos de mundo, emocionaria as plateias de um certo festival realizado em janeiro de 1985 e muito mais, mas isso a gente conta em outra ocasião. Nada mal para alguém que ficou tão perto da morte ainda muito cedo, e que viu tanto fogo e tanta chuva. Um sobrevivente dos bons!

Ouça Sweet Baby James em streaming:

Freedom (1989), o álbum que trouxe Neil Young de volta ao lar

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Por Fabian Chacur

Neil Young sempre teve como marca registrada a imprevisibilidade. Em seus mais de 50 anos de trajetória artística, este cantor, compositor e músico canadense nunca teve medo de arriscar mudanças repentinas nos rumos de sua música. Muito produtivo e com uma quantidade enorme de itens em sua discografia, ele tem alguns trabalhos que se sobressaem por sua importância artística e estilística, e um deles, Freedom, está celebrando 30 anos de seu lançamento.

A década de 1980 foi certamente o período mais conturbado e menos popular da carreira do astro canadense. Ele iniciou essa era com um álbum bastante irregular, Re-Ac-Tor (1981). Logo após, saiu da gravadora Reprise para entrar na Geffen Records, onde ficou até 1987. Logo na estreia, assustou a todos ao apresentar Trans (1982), um mergulho inusitado na música eletrônica que não atraiu a atenção do público e não entusiasmou a crítica.

A partir daí, Young atirou para diferentes direções musicais. Rockabilly em Everybody’s Rockin’ (1983), country tradicional em Old Ways (1985) e rock básico com sonoridade modernosa em Landing On Water (1986) e Life (1987). O resultado comercial piorou de disco pra disco, o que gerou uma reação absolutamente absurda por parte da gravadora criada e dirigida pelo polêmico e bem-sucedido empresário David Geffen.

Ele simplesmente resolveu processar Neil Young, alegando que o artista estaria lançando discos totalmente fora de sua sonoridade habitual simplesmente para prejudicar a Geffen Records. O executivo perdeu a disputa, mas ficou nítido que não havia mais clima para que o criador de Harvest (1972) ficasse por lá.

Em 1987, de volta à Reprise (parte do conglomerado Warner), Neil reestreia na gravadora com outro disco improvável, This Note’s For You, no qual é acompanhado por uma banda de sonoridade blues/rhythm and blues com direito a sessão de metais e tudo. A faixa-título, ironizando o mundo da música e da relação com seus patrocinadores, consegue alguma repercussão, mas mantém o artista na parte mais baixa das paradas de sucesso.

Volta às raízes e bom resultado comercial

É neste cenário que Neil Young começa a trabalhar em um novo álbum. Em entrevistas dadas na época de lançamento, ele explicou suas intenções com esse lançamento: “Eu quis fazer um álbum Neil Young per se, sem assumir nenhum outro personagem que não eu mesmo; o produto final é quase como ouvir o rádio, que se mantém mudando e indo de uma coisa para outra”.

E foi exatamente isso o que ele fez. Trata-se do primeiro álbum de Neil Young evidentemente concebido especialmente para o formato CD, pois ultrapassa os 60 minutos de duração em suas 12 faixas. Nele, nada de incursões em sonoridades nunca antes experimentadas pelo artista.

No entanto, a diversidade de sons e de climas prevalece, assim como a inspiração das composições, prova de que valeu a pena ficar um tempão longe de sua “casa musical”, pois quando enfim voltou, o cara sentia saudades…

Fórmulas são reutilizadas em todo o álbum, sendo a mais evidente usar a mesma música na abertura e no encerramento, em versões acústica e elétrica, tal qual havia feito em Rust Never Sleeps (1979). Só que, desta vez, Rockin’ In The Free World se mostra mais maleável para a tarefa do que Hey Hey My My/My My Hey Hey, ficando ótima tanto na leitura voz e violão (gravada ao vivo em show em Long Island, EUA) quanto na elétrica e visceral que fecha o disco.

Rockin’ in The Free World tem uma letra que flagra o horror do mundo moderno em cenas como a de uma jovem mãe, que odeia o que fez com sua própria vida, abandonando o filho recém-nascido em uma lata de lixo, “mais uma criança que nunca irá à escola, nunca se apaixonará, nunca será cool”.

Rapidamente, tornou-se um verdadeiro hino do rock, e provavelmente a canção mais popular da carreira de Neil Young, sendo tocada ao vivo por artistas tão distintos como Pearl Jam, Bon Jovi, Suzy Quatro e G3.

Do folk romântico ao rock ardido

Duas das faixas incluídas em Freedom haviam sido gravadas para This Note’s For You, mas ficaram de fora. A hipnótica e longa Crime In The City (Sixty To Zero Part I) equivale a outra polaroide urbana, com direito a uma visão irônica de um produtor de discos que pede a seu assistente que lhe arrume um compositor “que tenha fome e seja solitário, e também me traga um cheeseburger e a nova edição da revista Rolling Stone”.

A outra dessa origem é a maravilhosa Someday, uma balada com tempero r&b cuja letra explora as várias possibilidades de finalizar uma situação que seu título (algum dia, em tradução livre) sugere, sendo o mais belo o da estrofe final: “abrace-me, querida, ponha seus braços em volta de mim, dê-me todo o amor que você tiver para me dar, amanhã poderá ser tarde, nós não temos de esperar por algum dia, não temos que esperar por algum dia”.

Vale registrar que mesmo em uma faixa tão bela e lírica, Young guarda lugar para pequenas passagens irônicas, como em uma estrofe sobre pregadores religiosos de TV e outra refente a trabalhadores em gasodutos, ambas com direito a corais, um reproduzindo a alucinada pregação dos pastores e outro o canto dos trabalhadores. O efeito é delicioso. A rádio Eldorado FM, em São Paulo, tocava Someday em sua programação, naquela época.

Ecos de Harvest e Comes a Time

Freedom oferece aos fãs de Neil Young algumas canções com ecos do trabalho mais melódico do artista em álbuns clássicos como Harvest (1972) e Comes a Time (1978). A estrela Linda Ronstadt, que participou dos megahits Heart Of Gold e Old Man, marca presença em duas maravilhas deste álbum.

No melhor esquema vozes e violão, Young e Ronstadt nos oferecem harmonizações vocais deliciosas e muita delicadeza na puramente folk Hangin’ on a Limb. Com outros músicos no acompanhamento, The Ways Of Love tem uma pegada mais country e traz como marca genial o arranjo baseado no Bolero de Ravel para o refrão, além da pedal steel guitar do iluminado Ben Keith.

Músicos que fizeram toda a diferença

Para acompanhá-lo neste álbum seminal, Neil Young convocou gente do mais alto gabarito. A cozinha rítmica é integrada por Chad Cronwell (bateria) e o saudoso Rick The Bass Player Rosas (baixo-1949-2014), que se mostram uma parceria sólida, consistente e versátil, encarando com categoria as diferenças rítmicas existentes durante todo o álbum.

Quando precisou de um segundo guitarrista, Young se valeu do talentoso Frank Poncho Sampedro, do grupo Crazy Horse, que também se incumbiu dos teclados. E temos também outro cara saudoso, Ben Keith (1937-2010), que além de sua marca registrada, a pedal steel guitar, também se incumbe do sax alto.

Completa o time o produtor e técnico de som Niko Bolas, que ao lado de Neil Young forma uma dobradinha batizada por eles como The Volume Dealers, com direito a logotipo próprio e tudo, parceria que rendeu muita coisa boa.

Faixas longas, homenagem a Jimi Hendrix…

Uma das grandes virtudes de Freedom é não entediar o ouvinte em momento algum. Na pesadíssima Don’t Cry, por exemplo, temos uma intencional ou não homenagem a Jimi Hendrix, pelo fato de o andamento e o arranjo lembrarem o de Voodoo Chile (Slight Return), do genial guitarrista. Uma porrada!

Longa e elaborada, Eldorado demonstra influência flamenca e traz ecos de faixas do artista dos anos 1970 como Cortez The Killer. Aliás, Eldorado saiu inicialmente em um EP que leva seu nome lançado apenas no Japão e na Austrália em abril de 1989, que trazia as faixas Don’t Cry, On Broadway e Eldorado e duas que não entraram em Freedom, Heavy Love e Cocaine Eyes.

No More também possui longa duração, por volta de seis minutos, e uma sonoridade intrigante, algo como um rock levemente ardido com um delicioso e cristalino riff de guitarra. A letra envolve a questão das drogas e da dificuldade não só de abandoná-las como também de substituir o lado bom de seu efeito por algo mais saudável e melhor.

Um belo cover e o momento mais rural

A única faixa que não leva a assinatura de Neil Young é a clássica On Broadway, obra dos lendários compositores Jerry Leiber, Mike Stoller, Barry Man e Cynthia Weil, lançada com sucesso pelo grupo vocal The Drifters em 1963 e cuja melhor gravação foi feita por George Benson no ao vivo Weekend In L.A. (1978).

A versão de Young é pesadíssima, com o apoio preciso de Rosas e Sampedro na cozinha e ele soltando o verbo na guitarra, em uma das melhores performances dele nesse instrumento durante todo o álbum.

A delicada Wrecking Ball, em tom menor, equivale a um momento no qual o astro canadense de certa forma investe em uma levada próxima da bossa nova, com um resultado incrível. E o lado mais caipira do álbum fica por conta de Too Far Gone, com todo aquele jeitão de country de Nashville dos tempos mais antigos.

Um disco de ouro após dez longos anos

Em termos de posição na parada de sucessos Freedom não voou tão alto, atingindo apenas o 35º lugar na lista apurada pela revista Billboard. Mas sua vendagem foi sólida, proporcionando ao roqueiro o seu primeiro disco de ouro em dez anos. O último havia sido em 1979, com o álbum ao vivo Live Rust.

Um grande e influente retorno à forma

Se as experiências que fez com outros ritmos e sons no período entre 1981 e 1988 foram extremamente válidas e com alguns momentos interessantes, elas também lhe renderam um certo descaso por parte de crítica e público. Com Freedom, ele ganhou novamente o coração desses dois setores, e iniciou uma nova fase dourada em sua carreira.

Não é de se estranhar que ele logo a seguir tenha sido considerado uma espécie de precursor do grunge, e novamente reverenciado em shows e na compra de discos por uma nova geração. Um reconhecimento merecido.

Nada melhor do que quando o artista consegue ser fiel a seus princípios artísticos e ao mesmo tempo obter um bom resultado comercial, e este é o grande mérito de Freedom, um dos melhores trabalhos da carreira desse nome indiscutível da história do rock and roll.

Faixas de Freedom:

Rockin’ In The Free World
Crime In The City (Sixty To Zero Part 1)
Don’t Cry
Hangin’ On a Limb
Eldorado
The Ways Of Love
Someday
On Broadway
Wrecking Ball
No More
Too Far Gone
Rockin’ In The Free World

Ouça Freedom na íntegra em streaming:

The Long Run (1979), o retorno que virou uma bela despedida

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Por Fabian Chacur

Há 40 anos, chegava às lojas de todo o mundo um disco com uma capa no mínimo estranha. Preta, em formato que mais parecia o de uma lápide, sombria e carrancuda, trazendo apenas os dizeres “Eagles The Long Run”. Era provavelmente o álbum de rock mais esperado pelos fãs do gênero naquele momento, e a prova disso é o resultado comercial proporcionado pelo mesmo. Nove semanas consecutivas no primeiro lugar da parada americana, três hit singles emplacados nos charts, milhões de cópias vendidas. Parecia um recomeço brilhante. Apenas parecia…

Muita coisa aconteceu no universo da banda americana durante a criação do seu 6º álbum de estúdio. O anterior, Hotel California, lançado em dezembro de 1976, rapidamente impulsionou o quinteto rumo ao primeiro time do rock mundial, com sua faixa-título tornando-se um clássico instantâneo.

A massiva turnê de divulgação os levou a estádios e mostrou-se opressiva demais para seu baixista, Randy Meisner, que deu sinais de que não estava mais aguentando o tranco ao se recusar a cantar Take It To The Minute, seu momento de holofotes nos shows, por medo de não dar conta do recado.

Don Henley (vocal e bateria) e Glenn Frey (vocal e guitarra), os líderes da banda, puseram o colega na parede por causa disso, e este pediu as contas, saindo do time em setembro de 1977. Em seu lugar, foi escalado Timothy B. Schmidt, que curiosamente também substituiu Meisner quando este saiu da banda de country rock Poco para integrar os Eagles, em 1972.

Pouco antes da confirmação do nome do novo integrante, o empresário da banda, Irving Azoff, questionou Frey, afirmando ter visto Schmidt bêbado, nos bastidores de um show recente do Poco. “Se você estivesse há muitos anos tocando em uma banda e ganhando exatamente a mesma coisa, também estaria bêbado”, respondeu Frey, confirmando o convite, que foi aceito de imediato.

Temas instrumentais, single natalino e pressão

Com o novo integrante, tão talentoso quanto o antecessor e muito mais afável e seguro, a banda se manteve na estrada e iniciou a seguir, no dia 1º de março de 1978, as gravações de um novo LP, novamente produzido por Bill Szymczyk, que trabalhava com eles desde o álbum On The Border (1974). Seria o início de um verdadeiro parto de dinossauro.

No início, Henley, Frey, Schmidt, Joe Walsh (guitarra e vocal) e Don Felder (guitarra e vocais) gravavam apenas passagens instrumentais, sem letras definidas. O quebra-cabeças foi montado aos poucos, entre uma briga e outra, um show e outro, um bloqueio de ideias e outro.

Nesse meio-tempo, lançaram um single natalino, com Please Come Home For Christmas (Charles Brown & Gene Redd) de um lado e Funky New Year (Henley/Frey) do outro. O disco atingiu o 18º posto na parada de singles no fim de 1978, algo raríssimo para um lançamento sazonal, o que dá a medida da ansiedade do público por novos produtos dos Eagles.

A explicação é simples. Naquela época, era habitual um artista-grupo de sucesso lançar ao menos um álbum de inéditas por ano. As gravadoras contavam com essas vendagens para equilibrar seus balanços fiscais. Logo, a Elektra/Asylum (parte do conglomerado Warner Music) queria para ontem um novo álbum dos Eagles. E a banda tinha de administrar tal pressão e suas crises internas.

O guitarrista Don Felder, por exemplo, queria incluir mais composições suas no repertório da banda. Pior: queria ser vocalista de algumas canções, algo que os colegas não aceitavam por o considerarem inferior aos outros nesse quesito. Joe Walsh estava cada vez mais embrenhado em drogas e bebidas, e mesmo Henley e Frey, os fundadores do grupo, já não se entendiam tão bem como antigamente.

Composições de Don Henley e Glenn Frey prevalecem

É nesse clima pesado do sucesso massivo cobrando o seu preço que The Long Run foi gestado. Nas contas do produtor, o disco foi gravado em 206 dias, durante um período de 18 meses. Para que vocês possam ter uma ideia, o elaborado Hotel California, até então o trabalho mais demorado do quinteto, tinha sido criado durante 87 dias em um período de sete meses!

No peito e na raça, como se dizia antigamente, o álbum foi concluído em 1º de setembro de 1979. Como se tornou norma a partir de um determinado momento de sua história, apenas uma das dez faixas do álbum não trouxe a assinatura de Don Henley e Glenn Frey, In The City (Joe Walsh e Barry De Vorzon). Aliás, esta é a única faixa não inédita do LP, pois Joe Walsh já a havia gravado para a trilha sonora do filme The Warriors (no Brasil, Os Selvagens da Noite), dirigido por Walter Hill, lançado em 1979 e hoje considerado cult.

The Long Run, King Of Hollywood e The Greeks Don’t Want No Freaks são assinadas apenas por Henley e Frey. Don Felder é o parceiro deles em The Disco Strangler e Those Shoes. O estreante Timothy assina com eles I Can’t Tell You Why. Alguns amigos famosos também marcam presença em outras parcerias.

Dois nomes importantes na trajetória de Glenn Frey estão nos créditos de The Long Run. O consagrado roqueiro Bob Seger, com quem Frey participou de sua primeira gravação em 1969 (o single Ramblin’ Gamblin Man), é um dos autores de Heartache Tonight. Também está na parceria deste hit certeiro J.D. Souther, companheiro de Frey na banda Longbranch Pennywhistle, que lançou um álbum em 1969 e logo se dissolveu, embora a amizade entre os dois tenha se mantido.

Souther também participou da composição de Teenage Jail e The Sad Cafe, esta última incluindo Joe Walsh como um dos parceiros. Além de uma cultuada carreira-solo, J.D. Souther teve músicas gravadas por Linda Ronstadt e canta em dueto com James Taylor o maravilhoso hit Her Town Too (de 1981, do álbum Dad Love His Work, de Taylor)

Um mergulho na Los Angeles de 1979

As dez músicas que integram The Long Run equivalem a um mergulho no espírito da Los Angeles de 1979. É um som bastante urbano, por vezes ardido, outras melancólico, e marcado por uma diversidade de levadas rítmicas e arranjos.

O início fica por conta da faixa-título, um country-rock bem no estilo deles com direito a uma slide guitar preciosa de Joe Walsh e uma letra irônica em relação aos críticos da banda, que diz algo do tipo “vamos ver quem vai conseguir realizar os seus objetivos, no final das contas, nessa longa estrada”. E eles venceram essa batalha com louvor, pois continuam relevantes e populares até hoje. No formato single, essa faixa atingiu o 8º lugar nos EUA.

A delicada e introspectiva balada soul I Can’t Tell You Why mostra a beleza e a doçura da voz de Timothy B. Schmidt. O clima da letra é o de um cara de madrugada, deitado ao lado da mulher amada (que dorme), pensando em não discutir a relação para manter um relacionamento que o faz feliz. Chegou ao 8º posto entre os singles, nos EUA.

In The City é um hard rock matador, com Joe Walsh brilhando tanto no vocal como na slide guitar, em uma canção na qual a barra pesada do dia-a-dia nas grandes cidades é o tema, bem no clima de The Warriors.

The Disco Strangler equivale a um fantástico e irônico flerte da banda com a então efervescente disco music, e cuja letra traz como personagem uma garota que sai pras noitadas nas boates e que pode acabar caindo nos braços de um serial killer, no caso o tal do “estrangulador da disco”. Como ninguém pensou em uma versão estendida ou mesmo um remix dessa verdadeira orgia rítmica?

O lado A do vinil é encerrado com a soturna e bluesy King Of Hollywood, relato de um solitário produtor de cinema pensando em pedir um “acompanhante de vida fácil” oriundo de sua agenda, e refletindo sobre os artistas que ele já ajudou a se tornarem astros e estrelas com o seu poder influenciador. O clima decadente do personagem é evidente, e de certa forma comovente.

O início do lado B do vinil vem com aquela música lapidada com capricho e inspiração para se tornar o primeiro single de sucesso do álbum, a contagiante Heartache Tonight, com sua batida marcada e uma letra do tipo “tá todo mundo indo pra noite, pode ter certeza de que vai ter gente se magoando nesta noite”. Com dois refrãos e muito bem construída, atingiu o topo da parada de singles nos EUA, abrindo a porteira para o estouro do álbum.

A hard-funkeada Those Shoes traz como personagem uma garota daquelas de fechar o comércio, e cuja marca registrada é uma daquelas sandálias lindas, com detalhes luxuosos e tudo o mais. Walsh e Felder usam efeito talk box em suas guitarras, aquele que marca o grande hit Show Me The Way, de Peter Frampton.

Dá para imaginar uma faixa dos Eagles com influência de Black Sabbath, a música que deu nome à banda de Ozzy Osbourne? Pois ouça Teenage Jail, com sua levada lenta, na melhor linha “trilha de filme de terror”, com letra que pode ser uma ironia em meio ao mundos dos adolescentes querendo ir para o mundo, mas restritos a seus quartinhos de solteiros.

Como forma de homenagear o frat rock, subgênero do rock de tom festeiro, dançante e desencanado exemplificado por músicas como Louie Louie, Mony Mony, 96 Tears e Wooly Bully, Henley e Frey compuseram The Greks Don’t Want No Freaks, que conta em seus backing vocals com o astro do country-pop Jimmy Buffett, conhecido pelo hit Margaritaville.

Encerra o álbum a belíssima balada jazzística The Sad Cafe, com direito a um delicioso solo de sax do brilhante musico de jazz David Sanborn e cuja letra evoca com ar melancólico e saudosista lembranças dos tempos iniciais da banda, com todos os seus sonhos e dificuldades.

São evocados nas entrelinhas dois locais em especial, o bar Troubadour, onde os Eagles praticamente surgiram, quando Henley e Frey acompanhavam a cantora Linda Ronstadt, e o bar de Dan Tana, ali pertinho, onde eles iam após os shows, nesses anos iniciais. Hoje, percebe-se que era um belo indicativo de que os dias da banda estavam chegando ao fim. Uma canção de despedida.

* O Troubadour é aquele mesmo clube no qual Elton John fez o seu primeiro show nos EUA, e que aparece no recente filme Rocket Man. James Taylor, Carole King e Linda Ronstadt, entre outros, viram suas carreiras serem alavancadas após terem tocado por lá.

Um álbum que merece ser reavaliado

Bill Szymczyk considera The Long Run o melhor dos trabalhos que produziu para os Eagles. Os integrantes da banda não costumam se referir a este álbum de forma muito entusiástica, mas provavelmente isso ocorre pela forma dolorosa e demorada com que este disco foi realizado. As dores do parto…

Analisado dentro da discografia dos Eagles, trata-se de seu LP com mais nuances, mais experimentações e tentativas, e praticamente todas deram certo. O projeto inicial deles era fazer um álbum duplo, e duas amostras das sobras foram incluídas na caixa retrospectiva Selected Works 1972-1999 (2000).

Uma é Born to Boogie, um blues elétrico, agitado e bastante cru. Outra, intitulada Long Run Leftovers, é uma colagem de trechos dessas tentativas de novas faixas. Vale lembrar que várias das músicas dos Eagles surgiam assim, especialmente as parcerias de Henley e Frey com Felder, sendo que este último normalmente enviava aos colegas fitas com diversas passagens instrumentais gravadas por ele que os caras desenvolviam posteriormente.

Hotel California surgiu assim, por exemplo, desenvolvida a partir daquela sequência harmônica inicial criada e dedilhada por Felder em sua guitarra.

O álbum mostra Don Henley assumindo de vez o vocal principal, com Glenn Frey, Timothy B. Schmidt e Joe Walsh aparecendo com solos eventuais e principalmente nas vocalizações, uma das marcas registradas da banda. Isso, além da alta qualidade dos músicos, que em um contexto tão abrangente como o de The Long Run, mostram sua categoria.

Ficam como legado alguns dos belos versos de The Sad Cafe: “we though we could chance the world with words like’love’ and ‘freedom’, some of your dreams came true, some just passed away” (“pensávamos que poderíamos mudar o mundo com palavras como amor e liberdade, alguns de seus sonhos se realizaram, outros se foram”, em tradução livre).

Teria sido uma bela despedida, pois a banda saiu de cena em 1980. E foi por durante 14 longos anos. Mas aí, veio a reunião e o CD Hell Freezes Over (1994), e o resto é história. Outra história, que a gente conta por aqui em outra ocasião.

I Can’t Tell You Why (clipe)- Eagles:

Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

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Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

Risqué (1979), o álbum que marca o auge do Chic de Nile Rodgers

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Por Fabian Chacur

Em 1979, a disco music era a galinha dos ovos de ouro da indústria fonográfica. O gênero musical que surgiu e se desenvolveu durante a década de 1970 atingiu o auge de sua popularidade após o estouro de Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever-1977). O filme estrelado por John Travolta e com trilha sonora encabeçada pelos Bee Gees rapidamente se tornou um fenômeno cultural e comercial. Todos queriam faturar em cima daquele modismo contagiante e inovador.

O resultado foi uma verdadeira overdose de lançamentos dedicados ao gênero a partir daquele momento, com uma significativa aparição de oportunistas tentando surfar naquela onda que gerava milhões de dólares.

Isso acabou levando muita gente a confundir esses picaretas aproveitadores com os artistas de verdade que estavam desenvolvendo trabalhos incríveis dentro desse conceito de música criado para proporcionar diversão, alegria e te fazer dançar até não poder mais. Abra suas asas, solte suas feras…

Se por um lado essa saturação atingiu o seu auge naquele ano, do outro tínhamos uma legião de ressentidos, boa parte deles roqueiros brancos que não conseguiam aceitar que aquele amontoado de negros, gays e pobres tomasse conta dos holofotes, afastando das paradas de sucessos os seus ídolos.

Roqueiros ressentidos reagem da pior forma possível

Era preciso dar um basta naquilo, pensavam (?) esses acéfalos. E, como costumeiramente ocorre nesse tipo de situação, alguém surge com uma ideia que, posta em prática, vira o estopim de uma reação ignorante e violenta.

O DJ, roqueiro e humorista americano Steve Dahl foi demitido da rádio na qual trabalhava, em Chicago, pela mudança de direcionamento musical da emissora, que largou o rock para mergulhar na disco music. A partir dali, Dahl se tornou uma espécie de “inimigo nº 1” do gênero.

E foi dessa cabeça oca que surgiu a “brilhante” ideia de promover a destruição pública de LPs e compactos dos artistas disco. O auge desse projeto do mal teve como palco o estádio Comiskey Park, em Chicago, no intervalo de uma partida de baseball entre o Chicago White Socks e o Detroit Tigers.

Um marco de ignorância e intolerância

O evento, intitulado Disco Demolition Day, ocorreu no dia 12 de julho de 1979, que merece constar nos calendários como um dos acontecimentos mais vergonhosos da história da cultura pop de todos os tempos.

Em determinado momento da “festa”, um engradado lotado de discos foi explodido, gerando um grande tumulto e ganhando manchetes em toda a imprensa. “Disco Sucks” (disco music é uma merda, em tradução livre) era o slogan que esses imbecis usavam, em camisetas e bottoms.

O objetivo dessa horda de homofóbicos e racistas não foi atingido logo de imediato, mas a Disco Demolition Day conseguiu alastrar nos meses seguintes um sentimento de medo entre as pessoas, e em especial nas gravadoras.

Em sua excelente autobiografia Le Freak (2011), Nile Rodgers, o líder da banda Chic relembra uma festa da qual participou promovida pela revista Cash Box, algum tempo após aquela cerimônia de ódio, na qual um espaço com pista de dança dedicado à disco music permaneceu vazio durante toda a noite.

Aos poucos, ninguém queria ser associado à disco music. Ser considerado um artista disco era quase uma maldição. E todos os artistas ligados ao gênero passaram a ser postos de lado. Entre eles, Nile e sua seminal banda.

Sucesso que nem o preconceito conseguiu derrubar

Foi nesse contexto tumultuado, no dia 30 de julho de 1979, 18 dias após o show de horrores promovido por Dahl e seus idiotas, que Risqué, o terceiro álbum do Chic, chegou às lojas de discos.

Esse trabalho tinha a dura missão de suceder o esplêndido C’Est Chic (1978), que emplacou os megahits Le Freak e I Want Your Love e tornou a banda americana um grandioso sucesso nos quatro cantos do planeta, Brasil incluso (eles fizeram shows por aqui, na época).

A primeira faixa a ser extraída do disco (no formato single) não poderia ter sido melhor escolhida. Good Times reeditou a performance de Le Freak, atingindo o primeiro lugar na parada de singles americanas no dia 18 de agosto daquele ano.

Com uma levada hipnótica e um refrão matador, Good Times traz como marca registrada no seu “miolo” uma extensa parte instrumental na qual a linha de baixo comanda, com espaços para elegantes solos de teclados e guitarra.

A letra se baseia em hits dos tempos da Depressão Americana (anos 1920-1930) e busca estimular um astral positivo em um momento no qual a economia americana passava novamente por sérios problemas.

Em circunstâncias normais, Good Times deveria ter se mantido mais do que apenas uma semana no topo da parada americana, mas a mudança de orientação das rádios, que aos poucos foram tocando cada vez menos músicas associadas à disco music em suas programações, impediu que esse clássico fosse ainda mais longe. Ainda assim, virou um hit explosivo.

Disco music, sim, mas do seu jeito

O embrião do Chic surgiu quando o guitarrista Nile Rodgers tornou-se parceiro musical do baixista Bernard Edwards. Com a entrada no time do baterista Tony Thompson, eles ganharam entrosamento acompanhando outros artistas, até que, na metade dos anos 1970, resolveram investir em material próprio.

Influenciados pela disco music, eles no entanto criaram uma sonoridade própria, com forte tempero de rhythm and blues, funk, jazz e até rock que os colocam à parte dos grupos disco mais emblemáticos, do tipo Village People, Silver Convention e Boney M.

O Chic tinha um DNA mais próximo de bandas funk como Con Funk Shun, Commodores e Kool & The Gang, mas foi inserido no universo disco, o que lhes valeu muito de 1977 (quando lançaram o álbum de estreia, Chic) a 1979, e depois se tornou um fardo duro de carregar devido ao fator preconceito.

Capa com visual anos 1920-30

Risqué marca o momento em que o Chic atingiu o seu auge em termos criativos. A coisa começa bem logo na capa, contracapa e encarte, que traz fotos com os cinco integrantes do grupo vestindo elegantes trajes típicos dos anos 1920-1930. O clima é de filme de mistério, com direito a Bernard Edwards caído nas teclas do piano, com uma faca nas costas.

Tony Thompson posa de mordomo (seria ele o culpado do crime?), com Nile dando uma de cafetão e as vocalistas Luci Martin e Alfa Anderson no melhor estilo garotas de programa. A locação é uma sala estilosa com móveis idem, tendo como centro um piano de cauda.

O jeitão da apresentação visual do LP lembra o de In Throught The Out Door, do Led Zeppelin, que curiosamente foi lançado pela mesma Atlantic Records no dia 15 de agosto, ou seja, duas semanas após Risqué. Baita coincidência, mas cada uma dessas capas tem seus aspectos peculiares, não denotando um plágio.

Um álbum bom de ponta a ponta

Como normalmente as faixas de disco music e funk costumavam ser mais longas, era comum um número menor de canções do que em discos de rock e pop. No caso de Risqué, temos sete músicas. Mas é o típico caso de conteúdo na medida, nem a mais, nem a menos. E a duração estendida mostra a criatividade dos músicos no intuito de criarem uma sonoridade repleta de grooves, hipnótica e de uma sofisticação sintética e repleta de bom gosto.

Após a abertura matadora com Good Times, temos a seguir A Warm Summer Night, uma espécie de balada sensual que pode ser considerada a Je T’Aime Moi Non Plus do Chic. Para quem não lembra, essa música gravada em 1969 por seu autor, Serge Gainsbourg, em parceria com a cantora Jane Birkin, tornou-se um marco do som erótico-sensual.

No caso da canção de Edwards-Rodgers, a letra concisa, com os versos “te quiero papi” praticamente gemidos pelas cantoras, leva ao clima ideal para transar.

Homenagem aos dançarinos profissionais com solo inusitado

My Feet Keep Dancing tem como marca o arranjo de cordas com stacatto, o que dá uma ênfase rítmica bem peculiar e envolvente. A letra da canção fala sobre alguém que resolve mergulhar no mundo da dança mesmo sem o apoio dos parentes, que o ironizavam dizendo que “seu cérebro está em seus pés”.

A grande sacada, genial mesmo, do arranjo de My Feet Keep Dancing fica por conta de termos nela um solo não de guitarra, teclados ou outro instrumento musical, mas de sapateado! Sim, e feito por três craques dessa área, Mr. Fayard Nicholas (do grupo The Nicholas Bros.), Mr. Eugene Jackson (do grupo Our Gang) e Mr. Sammy Warren.

As idas e vindas do amor

A eterna questão do amor proibido dá o tom a My Forbidden Lover, inspirada naquelas paixões que a gente sabe serem inadequadas, mas das quais não conseguimos nos livrar, com versos bem definidores como “minha paixão proibida, eu não quero outra”. Em um mundo perfeito, esta faixa e My Feet Keep Dancing teriam sido hit singles de muito sucesso.

As dificuldades de um relacionamento afetivo, no qual a sinceridade nem sempre se faz presente, é o tema de Can’t Stand To Love You, provavelmente o momento mais jazzístico de Risqué.

Nada mais duro do que ser dispensado pela pessoa que você ama, e este é o tema da balada do álbum, Will You Cry (When You Hear This Song), na qual a cantora Alfa Anderson dá uma comovente aula de interpretação.

O disco é encerrado por What About Me, na qual a garota questiona o namorado, que conseguiu o que queria, mas e ela? Como é que fica? “Eu te dei o meu amor, você não vê?” Isso, tendo como fundo sonoro uma canção swingada na qual a guitarra base se destaca. Final perfeito para um álbum perfeito.

A ótica feminina nas letras

Existe um aspecto muito interessante nas composições do Chic, que fica por conta da qualidade das letras. Neste álbum em questão, temos uma quantidade significativa de incursões em temas vinculados aos relacionamentos.

Ao contrário do que se poderia esperar, o fato de as faixas serem assinadas por dois homens não deu um viés machista ou muito masculinizado ao tema. Pelo contrário, o ponto de vista das mulheres é defendido e mostra a crueldade masculina em diversos momentos.

Difícil algum homem ou mulher de bom senso não concordar ou não se identificar com alguns dos personagens das sete composições contidas em Risqué, cujo título tem muito a ver com os riscos que corremos sempre que nos envolvemos afetivamente com alguém.

The Chic Organization Ltd

Para todos os efeitos, a formação clássica e oficial do Chic trazia Nile Rodgers (guitarra e composições), Bernard Edwards (baixo e vocais), Tony Thompson (bateria) e as cantoras Alfa Anderson e Luci Martin. Nos discos, no entanto, o time aumentava, justificando plenamente o nome The Chic Organization com que Nile e Bernard assinavam as suas produções para a banda ou outros artistas.

Neste Risqué, temos nos teclados Raymond Jones, Robert Sabino e Andy Schwartz. Na percussão, Sammy Figueroa. Nos vocais, Alfa e Luci tem o auxílio luxuoso de Fonzi Thornton, Michelle Cobbs e Ullanda McCullough. E, de quebra uma sessão de instrumentos de cordas, a The Chic Strings, regida por Gene Orloff e incluindo Karen Milne, Cheryl Hong, Karen Karlsrud e Valerie Haywood.

Todos esses músicos foram utilizados estritamente em função das necessidades de cada canção, sem espaço para virtuosismos tolos ou exageros arrogantes. Mesmo as incríveis linhas de baixo criadas por Bernard Edwards nunca atropelam as faixas nas quais estão inseridas, reforçando o groove e envolvendo os ouvintes. Tudo muito chique mesmo!

Good Times, influente e inspiradora

Se não bastasse o sucesso que conseguiu no formato single e como principal faixa de Risqué, Good Times ainda se transformou em uma das músicas mais influentes e inspiradoras de todos os tempos.

O primeiro grande hit da história do rap, por exemplo, Rapper’s Delight, da Sugarhill Gang, valeu-se da passagem instrumental e da linha de baixo de Good Times. A partir de um determinado momento de sua carreira, o Chic passou a inserir no meio de Good Times um extenso trecho de Rapper’s Delight, que você pode encontrar em DVDs ao vivo da banda.

No mesmo 1980, Bounce Rock Skate Roll, de Vaughan Mason And Crew, e Another One Bites The Dust, do Queen, esbanjavam influências de Good Times, assim como Rapture, do Blondie, esta última uma clara homenagem ao Chic. Não por acaso, Debbie Harry gravou um disco solo, Koo-Koo (1981), com produção e composições de Nile Rodgers.

The Adventures of Grandmaster Flash on the Wheels of Steel, hit em 1981 com outro grupo pioneiro e importante do rap americano, Grandmaster Flash And The Furious Five, foi ainda além, acrescentando nessa sua composição trechos de Good Times, Another One Bites The Dust, Rapture e Rapper’s Delight.

E a lista vai muito mais longe. Só para citar mais três músicas influenciadas por Good Times, temos Try It Out (1981), de Gino Soccio, Hot! Hot! Hot! (1987), do The Cure, e 2345meia78, do brasileiro Gabriel o Pensador.

Alguma dúvida de que se trata de um álbum clássico?

No fim das contas, apesar de todo o contexto negativo no qual foi lançado, Risqué conseguiu atingir o 5º posto na parada americana, vendendo mais de um milhão de cópias por lá e estourando mundialmente. Missão cumprida!

Chega a ser uma vergonha este álbum não ter sido incluído na série de documentários da série Classic Albums, que contam a história de discos importantes da história do rock, soul e música pop. Ainda dá tempo…

Risqué- Chic (ouça na íntegra em streaming):

I Am (1979) marca o auge da incrível banda Earth, Wind & Fire

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Por Fabian Chacur

Muito difícil escolher o melhor álbum lançado pelo Earth, Wind & Fire. Durante sua trajetória, a banda criada pelo genial cantor, compositor, músico e produtor americano Maurice White nos proporcionou diversos trabalhos de primeiríssima linha, especialmente durante a década de 1970, seu auge em termos criativos e comerciais. Mas dá para selecionar, sem sustos, o LP que marca o auge deles, aquele momento em que viraram praticamente uma unanimidade perante os mais diversos públicos. Estou falando de I Am, lançado em 1979, quando os caras tomaram a cena pop de assalto, de uma vez por todas.

Até aquele momento de sua carreira, o grupo já havia conseguido grandes feitos, como atingir o topo das paradas americanas de álbuns e singles, lotar ginásios pelos EUA e outros países com seu show repleto de efeitos especiais e produção sofisticada e também conquistar fãs fora do universo da black music.

O mais importante, obviamente, é a qualidade artística da música que lhes possibilitou tais conquistas, uma brilhante fusão de soul, funk, rock, jazz e músicas africana e latina. Faltava apenas a cereja do bolo, ou seja, ganhar o público mainstream, entrando no primeiro escalão da popularidade mundial.

Inquieto e inteligente, Maurice White sempre buscou parcerias com gente de fora da banda, como forma de somar forças e também levar adiante sua intenção de criar um som universal e ao mesmo tempo criativo e popular.

Em I Am, essa busca o impulsionou a iniciar um trabalho ao lado do compositor, músico e produtor canadense David Foster, que até aquele momento já havia gravado com e produzido artistas do porte de George Harrison, Daryl Hall & John Oates e outros. Fã da banda, ele conheceu Maurice através de uma amiga em comum, e logo de cara mostrou a ele uma balada que havia composto ao lado dos amigos músicos Jay Graydon e Bill Champlin.

Maurice não só adorou a tal balada, nada menos do que After The Love Has Gone, como perguntou a Foster se ele não estava interessado em tentar compor alguma coisa a seu lado. Foster aceitou, e as jam sessions entre eles geraram seis das nove faixas incluídas em I Am. Com boas influências da black music, Foster trouxe para o grupo elementos da música pop que ajudaram a banda a se aproximar do mainstream radiofônico.

Aliás, as duas faixas que conseguiram concretizar esse feito são de certa forma opostas, e ambas agradaram em cheio importantes setores do grande público da época. Uma é a já citada After The Love Has Gone, que chegou ao número 2 da parada de singles da Billboard e pegou em cheio os fissurados por canções românticas, nostálgicas e de apelo fortemente melódico.

A outra mirou os fãs da então extremamente popular disco music. Trata-se de Boogie Wonderland, única música do disco não assinada por White (composição de Joe Lind e Allee Willis) e a única faixa escancaradamente do gênero gravada pela banda, e que estourou com força total nas discotecas de todo o mundo e de quebra atingiu o nº 6 entre os singles da Billboard.

Não é de se estranhar, portanto, que I Am tenha sido o álbum mais popular do E,W&F no Reino Unido, atingindo por lá a posição de nº 5, e também nos principais mercados discográficos do mundo. Mas vale ressaltar uma coisa: se essas duas faixas são apelos a públicos que o grupo nunca havia atingido em cheio, não caem em fórmulas pré-estabelecidas ou diluições picaretas, sendo excelentes e também sem fugir demais ao espírito musical desenvolvido por Maurice White e seus discípulos.

E o disco nos oferece muito mais. O LP tem início de forma apoteótica com In The Stone entrando em cena com uma abertura digna dos melhores musicais da Broadway, para mostrar logo de cara o vasto acervo de armas musicais desse timaço musical: o entrosamento da voz máscula de Maurice com o sedutor falsete de Philip Bailey, os metais sempre pontuando tudo, percussão salerosa e afro para contagiar e o time de guitarras, baixo (do estupendo Verdine White, irmão de Maurice) e teclados dando o arremate final.

Uma das marcas registradas do E,W&F é a criação de interlúdios musicais, pequenos trechos que ou introduzem uma canção ou a ligam à outra que vem a seguir. E é um deles que abre o caminho para que surja a galopante Can’t Let Go, delicioso “balanço” (termo que se usava no Brasil nos anos 1970 para definir canções dançantes) que tocou em nossas rádios. Chega o momento da primeira balada, After The Love Has Gone, cujo solo de sax no final é a deixa para a entrada da sacudida Let Your Feelings Show, encerrando o lado A do LP de vinil original.

Boogie Wonderland abre o lado B para chacoalhar o esqueleto de todos, clima que a incrível Star se incumbe de manter, mesmo não sendo propriamente disco e com vocais simplesmente encantadores. O romantismo na melhor tradição da soul music marca a belíssima Wait, de andamento mais lento e com aquelas paradinhas deliciosas. O momento instrumental do álbum vem a seguir, a roqueira Rock That!, com ótima performance dos músicos. You And I, que fecha o disco, tem um clima ao mesmo tempo romântico, swingado e sensual que certamente influenciou o charm dos anos 1980.

Verdine White define I Am como “o nosso Abbey Road“, o disco mais bem-sucedido em termos comerciais da carreira dos Beatles, enquanto Maurice White o considera não só um dos melhores da banda como um dos mais influentes. “Alguns artistas fizeram suas carreiras baseados em faixas deste álbum”, afirmou ele em texto incluído na box set The Eternal Dance (1992).

Curiosidades envolvendo personagens e fatos sobre I Am:

***** David Foster ganhou seu primeiro Grammy, o Oscar da música, com After The Love Has Gone. Sua participação em I Am foi um divisor de águas na carreira dele, que posteriormente faria trabalhos de imenso sucesso comercial com artistas como Chicago, Whitney Houston, Céline Dion, Josh Groban, Michael Bublé e Andrea Bocelli, entre muitos outros. Ele compôs mais algumas músicas com Maurice White, entre as quais os hits And Love Goes On e Could It Be Right.

***** Em sua ótima autobiografia Hit Man (2008- Pocket Books, não foi lançado no Brasil), David Foster relembra que ele e Maurice White se entendiam muito bem em quase tudo, menos em duas questões: alimentação e cigarros. Enquanto o líder do E,W& F era adepto de alimentação natural e hábitos saudáveis, Foster se dizia um voraz consumidor de hambúrgueres e fast food em geral, além de fumar em torno de três maços de cigarro por dia.

***** Os parceiros de David Foster em After The Love Has Gone tem um belo pedigree musical. O guitarrista americano Jay Graydon, por exemplo, gravou com inúmeros astros da música e é autor de vários hits de Al Jarreau, entre eles a deliciosa Mornin’. Além do Grammy com essa bela balada, ele faturou outro, desta vez com a swingada Turn Your Love Around, hit na voz de George Benson e que inclui na parceria novamente Bill Champlin e Steve Lukather (do grupo Toto).

****** Também com belo currículo como músico de estúdio e autor, Bill Champlin de quebra integrou entre 1981 e 2009 o grupo Chicago, tendo gravado o vocal principal em grandes hits como Hard Habit To Break, Look Away e I Don’t Wanna Live Without Your Love. Vale lembrar que, como músico de estúdio, Jay Graydon gravou o solo de Peg, do grupo Steely Dan, citado por muitos como um dos melhores de todos os tempos. Ouça e tente não concordar aqui.

***** Na edição original em vinil de I Am e mesmo na caixa The Eternal Dance, o título da mais famosa balada do disco é After The Love IS Gone. Na edição em CD, no entanto, a grafia é After The Love HAS Gone , a mesma na qual voce encontra informações sobre ela na internet. A segunda versão, ressalte-se, é a correta em termos gramaticais, pois coloca a palavra no tempo certo, ou seja, no passado.

****** Além de David Foster, Maurice White contou com outra parceria nas canções incluídas em I Am. Trata-se da compositora Alee Willis, que é coautora de sete das nove faixas do álbum, atuando neste caso principalmente no quesito letras. Ela é conhecido como coautora de outros hits importantes, entre os quais Neutron Dance (Pointer Sisters), What Have I Done To Deserve This (Pet Shop Boys e Dusty Springfield) e I’ll Be There For You (The Rembrandts, tema principal da série de TV Friends). Ela também é uma das autoras de September, do E,W&F.

***** Única faixa do álbum não assinada por Maurice White, Boogie Wonderland é uma parceria de Alee Willis com Jon Lind. Este compositor também escreveu com White Sun Godess, gravada originalmente por um dos mentores de Maurice White, Ramsey Lewis e depois pela banda no ao vivo Gratitude. Entre seus hits para outros artistas, vale destacar Crazy For You (Madonna) e Save The Best For Last (Vanessa Williams), sendo que ambas atingiram o topo da parada americana.

****** Duas canções adicionais foram gravadas para integrar o álbum I Am, mas acabaram ficando de fora de sua versão original. São elas Dirty, da qual participa o saudoso gaitista Junior Wells (conhecido por sua dupla com Buddy Guy) e Diana, esta última outra parceria entre Maurice White e David Foster. Essas gravações foram adicionadas como faixas-bônus da versão remasterizada de I Am, lançada em 1999 pela Sony Music.

***** A capa de I Am, com ilustração a cargo de Shusei Nagaoka e design assinado por Roger Carpenter, são inspiradas no Egito antigo, uma das fascinações de Maurice White, um fã de assuntos místicos e espiritualistas. Ele conseguiu levar a banda para lá em uma ocasião, sendo que, segundo ele, “metade deles amou e metade odiou”. A contracapa traz um pot-pourry de vários fatos históricos e discos voadores voando ao fundo, em ilustração bela e apoteótica de Shusei.

*****Eis a escalação do E,W&F, considerada a sua clássica: Maurice White (vocal, percussão e bateria), Verdine White (baixo), Philip Bailey (vocal e percussão), Larry Dunn (teclados), Al McKay (guitarra), Fred White (bateria, irmão de Maurice e Verdine), Johnny Graham (guitarra), Andrew Woolfolk (sax tenor) e Ralph Johnson (percussão). A sessão de metais trazia Don Myrick (sax tenor e barítono), Louis Satterfield (trombone) e Rahmlee Michael Davis (trompete).

Ouça I Am em streaming:

Manifesto (1979), o álbum que iniciou nova fase do Roxy Music

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Por Fabian Chacur

Em 1979, o Roxy Music completava três anos longe de cena. Seu último álbum de estúdio até então, Siren (1975), foi divulgado por uma turnê que rendeu o esplêndido álbum ao vivo Viva! (1976). Depois, o silêncio. Portanto, não faltou alegria aos inúmeros fãs da banda britânica quando Manifesto chegou às lojas em março daquele ano. Um retorno à altura de um grupo que já havia feito muita coisa boa em seu produtivo primeiro período na ativa.

Concebido pelo estudante de artes Bryan Ferry, seu cantor e principal compositor, o Roxy Music trouxe em seu DNA o espírito da experimentação pop. Ou seja, a criação de um som aberto a fusões e misturas com várias tendências do rock, como o básico, o progressivo, o psicodélico, o hard etc e também o rhythm and blues, o soul, o funk, a música eletrônica, o jazz e os standards americanos. Tudo com uma classe e um refinamento extremo, mas sem fugir exageradamente do perfil pop. O famoso conceito dos “biscoitos finos para as massas” do brasileiro Oswald de Andrade se encaixa feito luva para definir o resultado dessa simbiose roqueira.

O núcleo básico do grupo traz, além de Ferry, Andy Mackay (sax e oboé) e Phil Manzanera (guitarra), com Paul Thompson (bateria) completando o time fixo. Brian Eno (teclados e efeitos sonoros) participou dos dois primeiros álbuns, mas acabou trombando com o líder da banda, e saiu fora rumo a uma carreira solo incrível e também para se tornar um consagrado produtores musical.

Com o então jovem tecladista Eddie Jobson no posto de Eno, o Roxy Music gravou mais três álbuns de estúdio e um ao vivo entre 1973 e 1976, firmando-se no cenário rocker, especialmente o britânico e o europeu. Além de uma musicalidade própria inovadora e cativante, o Roxy trazia como marcas o visual fashion de seus integrantes e a classe de Bryan Ferry como cantor, influenciado pelos crooners de jazz e pelos intérpretes da ala mais soft do soul.

Durante os três anos que o Roxy ficou fora de cena, Bryan Ferry lançou mais três álbuns solo (ele já tinha gravado outros dois paralelamente ao trabalho com a banda). Quando ele resolveu se reunir novamente com Manzanera, Mackay e Thompson, trouxe como ponto de partida a sonoridade de duas músicas de Siren (1975), as sacudidas Love Is The Drug e Both Ends Burning. Vivíamos o auge da era da disco music, e o grupo inglês soube se valer de sua influência sem cair em oportunismo ou mero pastiche. Deu super certo.

Nessa linha pra cima, Angel Eyes e Dance Away foram as faixas que impulsionaram o álbum rumo às primeiras posições das paradas de sucesso internacionais. Também dançante, mas com uma batida mais sensual, Ain’t That Soul ajuda a manter o baile animado, assim como os pop-rocks Cry Cry Cry e My Little Girl.

Com uma introdução instrumental hipnótica de influência oriental de 2,5 minutos, Manifesto é uma faixa título absurda de boa em seus mais de 5 minutos de duração total, uma espécie de carta de intenções do que seria o álbum, uma escolha perfeita para abrir um disco tão icônico.

Trash, um rock nervoso com leve pegada punk, mostra a capacidade da banda de pegar um som que estava em voga naquele momento e transformá-lo em algo totalmente diferente. Com belos riffs de guitarra, a rock-soul Still Falls The Rain tem um clima que lembra o do álbum Siren. O clima introspectivo e levemente progressivo marca Stronger Through The Years , com direito a belos solos dos músicos. E o LP é encerrado por uma balada delicada e viajante, Spin Me Round. O início perfeito de um período mágico na carreira dessa banda.

Mais curiosidades e considerações sobre Manifesto:

*** Manifesto foi o álbum do Roxy Music a atingir o posto mais alto na parada americana, o número 23, mas não o mais bem vendido. Avalon (1982), embora só tenha chegado ao número 53, com o decorrer dos anos acabou ultrapassando a marca de um milhão de cópias vendidas por lá, recebendo o prêmio de disco de platina por isso.

*** A versão inicial de Angel Eyes tinha uma levada de power pop. Na hora de lançar o single, o grupo e a gravadora optaram por investir em uma regravação com levada disco, que ganhou rapidamente o público. Dessa forma, apenas a tiragem inicial de Manifesto traz Angel Eyes no estilo rocker, sendo substituída nas tiragens posteriores pela disco version. Isso também ocorreu com Dance Away, embora neste caso as diferenças entre as gravações sejam mais sutis.

*** Vocês devem ter notado que não citei o nome de baixistas nesta matéria até o presente instante. É que o Roxy Music teve como marca, em sua carreira, o fato de ter tido inúmeros músicos entrando e saindo, nesse posto. Em Manifesto, cuidaram dessa função Gary Tibbs e Alan Spenner. Outros baixistas que tocaram com o Roxy, durante sua carreira: Rick Willis, John Wetton (depois, famoso com o grupo Asia), Sal Maida, John Gustafson, John Porter, Rick Kenton e Graham Simpson (ufa!).

*** Manifesto foi gravado em estúdios ingleses e americanos. A parte ianque do álbum conta com a participação de músicos bem legais, entre os quais Rick Marotta (bateria), Steve Ferrone (bateria), Richard Tee (piano), Melissa Manchester (vocais) e Luther Vandross (vocais). A participação dos dois outros bateristas não foi por acaso: Paul Thompson não curtia a parte mais dançante dessa fase do Roxy, e saiu do grupo após a turnê de divulgação deste álbum.

*** Quem marca presença no álbum, tocando teclados, é o cantor, compositor e multi-instrumentista britânico Paul Carrack. Então ainda desconhecido, ele faria muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990 integrando como vocalista os grupos Squeeze e Mike+The Mechanics. É dele a voz principal de hits incríveis desses grupos como Tempted e Over My Shoulders, só para citar dois deles.

*** As capas dos discos do Roxy sempre foram comparáveis às de revistas de moda, por serem muito sofisticadas e incluírem modelos famosas. A de Siren, por exemplo, trouxe no papel de uma sereia ninguém menos do que Jerry Hall, que depois seria durante anos a esposa de Mick Jagger. Quem ajudava na criação era um amigo de Ferry, o fashion designer Antony Price. No caso de Manifesto, temos uma festa com direito a muitos modelos, serpentina e confetes.

*** Saiu em 2008, inclusive no Brasil (pela extinta ST2) Live In America, CD gravado ao vivo durante a turnê de lançamento de Manifesto. O registro ocorreu em um show realizado no dia 12 de abril de 1979 no Rainbow Music Hall, em Denver, Colorado (EUA). São 13 faixas, sendo 6 delas do álbum que estavam divulgando. Muito, mas muito bom mesmo, com os quatro (Ferry, Manzanera, Mackay e Thompson) apoiados por Gary Tibbs (baixo) e David Skinner (teclados).

Ouça Manifesto na integra, em streaming:

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