Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Discos indiscutíveis (page 1 of 10)

Rumours, aquele limão azedo que virou a limonada perfeita

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Por Fabian Chacur

Diz um daqueles ditados antigos que se a vida te dá um limão, o melhor é tentar transformá-lo em uma limonada. Pois foi exatamente isso o que a banda anglo-americana Fleetwood Mac nos proporcionou em 1977. O quinteto transformou uma série de relacionamentos afetivos esfacelados, alto consumo de drogas e a enorme pressão para tentar repetir o sucesso de seu álbum anterior, Fleetwood Mac (1975), em um trabalho clássico, campeão de vendas e de qualidade artística, Rumours.

Para ficar mais claro o contexto em torno do qual Rumours foi gerado, vale um pequeno recuo no tempo. Criado em 1967 na Inglaterra por Mick Fleetwood (bateria) e John McVie (baixo), o Fleetwood Mac surgiu como um combo de blues rock, dos melhores, por sinal. Com o tempo, foi trocando de integrantes e passou por uma fase de transição, incorporando elementos de folk, country e pop ao seu som. Esse período levou o duo fundador e também a mulher de John, a cantora, compositora e tecladista Christine Perfect McVie (que havia entrado na banda em 1970), a se mudar para os EUA.

Lá, iniciaram uma fase positiva, especialmente com a entrada do cantor, compositor e guitarrista Bob Welch. No entanto, não muito tempo após lançarem o álbum ironicamente intitulado Heroes Are Hard To Find (1974), que obteve o seu melhor desempenho na parada americana até então, a posição de nº 34, a péssima notícia. Welch resolveu sair fora do FM, rumo a uma carreira-solo, ele que dividia com Christine o posto de vocalista e compositor principal do grupo.

E aí, como sair dessa enrascada? A solução veio por acaso. Mick Fleetwood procurava um estúdio para gravar o próximo álbum do FM quando o engenheiro de som Keith Olsen mostrou a ele faixas do álbum que havia gravado no estúdio Sound City em 1973 com uma dupla então obscura formada por Lindsey Buckingham (guitarra, vocal e composições) e Stevie Nicks (vocal e composições). O baterista amou o que ouviu, especialmente as passagens de guitarra.

Dias depois, quando a saída de Bob Welch se materializou, Fleetwood ligou para Buckingham e o convidou a ser o novo guitarrista da banda. Ele disse que só aceitaria se pudesse levar com ele para a banda a namorada. A condição foi aceita, e nascia a formação clássica dessa incrível banda, agora anglo-americana. E a estreia do time não poderia ter sido melhor, com um álbum autointitulado que vendeu dez vezes mais do que a média de seus trabalhos anteriores.

Melhor: atingiu, em setembro de 1976, o primeiro posto na parada americana, onde ficou por uma semana. A turnê que estavam fazendo, com shows sempre vibrantes, certamente ajudou na realização dessa façanha. Só que, a essa altura, os problemas começaram a surgir em pencas para a banda. Logo de cara, a pressão do sucesso e da estrada os levou a aumentar em muito o consumo de drogas, tornando-os bastante dependentes desse tipo de aditivo para trabalhar.

De quebra, Christine se encheu das eventuais grosserias do marido e resolveu dar a ele o cartão vermelho, passando a namorar o iluminador dos shows do grupo. Por sua vez, Lindsey e Stevie, que se conheciam desde adolescentes, também começaram a brigar muito, e perceberam que o casamento deles também deveria acabar. Como desgraça pouca é bobagem, Mick Fleetwood viu seu melhor amigo na época levar sua esposa, Jenny Boyd (irmã de Patty, mulher de George Harrison e depois de Eric Clapton, inspiração da música Layla).

O que esperar de um roteiro tenebroso como esse, piorado ainda mais em função da pressão da gravadora Warner por um novo álbum que conseguisse ir além do trabalho de estreia dessa nova escalação do FM? A separação do quinteto, ou ao menos a saída de alguns de seus integrantes, seria o rumo mais lógico. Mas não foi isso o que aconteceu.

Do jeito que dava, eles procuraram deixar as desavenças afetivas de lado e centrar fogo na criação artística. E, surpreendendo a muitos, puseram nas letras das músicas do novo álbum o enredo daquela confusão toda. Não é de se estranhar, portanto, que por sugestão de John McVie o álbum tenha sido intitulado Rumours (boatos, fofocas, em tradução livre). Eram acusações, desabafos, lamentos, sonhos, planos e esperanças para tudo quanto é lado.

O mais legal é que esse bafafá todo gerou canções de rock simplesmente perfeitas, repletas de boas melodias, vocalizações impecáveis, arranjos instrumentais precisos e uma perfeição presente apenas no melhor pop. Nunca o termo agridoce se aplicou de forma tão perfeita a um produto artístico como aqui. Era a dor exposta de forma delicada, vibrante e positiva, como se isso fosse possível. Bem, para este quinteto, foi, sim.

A colaboração entre Stevie e Lindsey, o ex-casal mais briguento do time, chega a ser inacreditável, pois fica difícil acreditar que dois caras que praticamente se odiavam naquele momento pudessem, juntos, gravar músicas de forma tão entrosada e artisticamente impecável. Ouça, por exemplo, Go Your Own Way, I Don’t Want To Know, Dreams e Second Hand News com esse background em sua mente. Definitivamente não dá para acreditar. Mas é real!

Enquanto isso, Christine escrevia e interpretava You Make Loving Fun em homenagem ao novo namorado, contando com uma performance maravilhosa de baixo do seu ex, que a infernizava fora das gravações. Além disso, ela ainda compôs a belíssima balada Oh Daddy inspirada no sofrimento de Mick Fleetwood, que ficou afastado durante um bom tempo de suas duas filhas por causa do litígio com Jenny Boyd. Vale lembrar que, nesse período, as duas garotas do FM passaram a morar em apartamentos vizinhos, tomando conta uma da outra.

O vício de cocaína é o mote de Gold Dust Woman, de Stevie, enquanto Never Going Back Again, tocada por Lindsey acompanhado por violão com maestria, registra uma espécie de certeza de que os bons tempos de seu relacionamento com a colega de banda nunca mais voltariam. Ela reclamou do tom mais ácido dele em relação à separação, mas ele garante que nunca disse que “queria sua liberdade”, como Nicks postou na letra de Dreams. Eita! Ah, e a musa pop teve um caso com Mick Fleetwood durante as gravações. Ok, ok!

A vibrante e positiva Don’t Stop, de Christine e na qual ela divide os vocais com Lindsey, é outro ponto alto do álbum, que por sinal só tem pontos altos. Songbird traz Miss McVie sozinha, voz e piano, em uma performance de fazer chorar até um freezer. E em The Chain, temos uma composição coletiva assinada pelos cinco, que fala exatamente sobre essa “corrente” que todos haviam prometido nunca quebrar.

Bem, em termos profissionais, eles de fato não quebraram, pois o Fleetwood Mac prosseguiria décadas afora, com alguns hiatos, mas sempre voltando com força. Rumours ficou incríveis 31 semanas não consecutivas no topo da parada ianque, gerou quatro singles que atingiram o top 10 (incluindo um número 1, Dreams) e vendeu mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo, sendo mais de 20 milhões delas nos EUA. Isso é o que eu chamo de um limão bem aproveitado!

Rumours-Fleetwood Mac (ouça em streaming):

Surrealistic Pillow faz 50 anos como um marco psicodélico

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Por Fabian Chacur

Um bom disco de estreia que vendeu muito pouco, duas alterações importantes na formação e certamente o olhar atento da gravadora RCA Records (hoje, Sony Music), não muito afim de encarar outro fracasso comercial. Eis o clima envolvendo o lançamento de Surrealistic Pillow, o segundo álbum do grupo americano Jefferson Airplane, que chegou às lojas americanas em fevereiro de 1967.

A banda criada em 1965 pelo cantor e compositor Marty Balin na cidade de San Francisco vivia um momento de transição. Paul Kantner (vocal, guitarra e composições), Jack Casady (baixo) e Jorma Kaukonen(guitarra) procuravam substitutos para duas posições importantes. A boa vocalista Signe Toly Anderson preferiu largar o mundo do rock para criar o seu primeiro filho ao lado de um ativista político, afastando-se dos shows e da estrada para isso.

A saída de Skip Spence era previsível. Afinal de contas, não se tratava de um baterista de fato, e sim de cantor e compositor. Balin cismou que o cara seria o seu baterista, e durante um tempo, isso se materializou. Só que Spence era muito talentoso, e decidiu partir para montar a sua própria banda, a Moby Grape, que se tornaria cultuada no cenário do psicodelismo, e depois investiria em uma carreira-solo.

Jefferson Airplane Takes Off equivale a uma boa estreia, mostrando uma banda bem entrosada com uma sonoridade na linha do folk-country-rock e elementos do então emergente psicodelismo. Em alguns momentos, soavam muito próximos ao som do The Mamas & The Papas, um dos grandes sucessos do rock naquele momento. Mas as duas baixas ajudariam sua sonoridade a tomar rumos próprios e mais originais.

Como baterista, entrou no time Spencer Dryden, mais velho do que os outros integrantes e com forte formação jazzística. Nos vocais, uma surpresa: Grace Slick, que era a cantora de uma banda que tentava rivalizar com o Airplane na cena de San Francisco, a Great Society. Quando recebeu o convite para trocar de time, a cantora, compositora e pianista não pensou duas vezes. Ela sabia que teria muito mais chances de atingir o estrelato com o outro time.

Se Dryden se encaixou feito luva com Jorma e Casady, dois músicos com grandes recursos técnicos, Grace se mostrou ideal para impulsionar a banda rumo ao primeiro time do rock americano. Carismática, vozeirão e de uma beleza agressiva, ela de quebra ainda trouxe duas músicas do repertório do Great Society, a de sua autoria White Rabbit e Somebody To Love, de seu ex-cunhado Darby Slick. Bingo!

Foram exatamente essas duas canções que abriram as portas das paradas de sucesso para o JA. Lançada em single em abril de 1967, Somebody To Love atingiu o 5º posto na parada ianque e se tornou um dos hinos do chamado Verão do Amor. Por sua vez, White Rabbit virou um marco do psicodelismo, com seu andamento inspirado no Bolero de Ravel e letra baseada em Alice no País das Maravilhas. Saiu como single em junho daquele ano e chegou ao 8º lugar nos charts.

Embora excelentes, essas canções são apenas a ponta do iceberg aqui analisado. Surrealistic Pillow é uma das obras primas do rock psicodélico, e um dos campeões de vendagem nesse segmento roqueiro. Traz como característica canções mais concisas do que a média do estilo, mas com muita invenção e diversidade, além de uma performance vocal e instrumental dignas de uma banda do seu porte.

Além do incrível entendimento entre Dryden, Casady e Kaukonen, o Airplane trazia como armas o fato de ter três grandes vocalistas (com Jorma como uma espécie de D’Artagnan, cantando vez por outra). A voz potente de Grace se encaixou feito luva com a interpretação apaixonada e intensa de Marty Balin, e com o vocal de alcance médio, mas muito bem colocado, de Paul Kantner. Um trio de forte calibre.

O álbum possui várias colorações sonoras. She Has Funny Cars e 3/5 Of a Mile in 10 Seconds são dois rocks incisivos. My Best Friend (de Skip Spence) e How Do You Feel (do obscuro Tom Mastin) são as que mais se assemelham ao estilo do álbum de estreia, e são boas. O lirismo de Balin se manifesta na intensa Today e na introspectiva e dolorida Comin’ Back To Me. Jorma esbanja técnica e categoria na instrumental Embryonic Journey, que é só ele no violão e nada mais.

D.C.B.A-25 mostra Paul Kantner e Grace Slick terçando vozes, eles que acabaram se tornando um casal durante os anos de ouro do Airplane. O álbum se encerra com a vibrante Plastic Fantastic Lover, conduzida por uma levada compassada de bateria e uma linha de baixo genial, sendo que o vocal meio falado de Balin pode ser considerado como uma espécie de pré-rap. Não sei como nenhum artista dessa área pensou em regravá-la, tão óbvio é se associar seu pioneirismo nessa direção.

Surrealistic Pillow tornou o Jefferson Airplane popular, atingindo o 3º lugar na parada americana e abrindo os caminhos para que a banda se tornasse uma das mais cultuadas naqueles anos de ouro do rock, com direito a participações marcantes nos festivais de Monterey (1967), Woodstock e Altamont (ambos em 1969). Abriria as portas para discos ainda melhores, mas isso fica para uma futura resenha.

Surrealistic Pillow- Jefferson Airplane (em streaming):

50 anos do melhor álbum pré-fabricado da história do rock

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Por Fabian Chacur

Nos anos 80, meu grande amigo e mestre Ayrton Mugnaini Jr. me disse uma frase bastante significativa: o mundo da música pop não aceita o vácuo. Trocando em miúdos: quando um determinado artista deixa de fazer um tipo de música que lhe atraía muitos fãs e segue rumo a outras sonoridades, normalmente alguém irá se dar bem ao retomar esse estilo sonoro. Eis um dos segredos dos Monkees, cujo primeiro álbum saiu em 10 de outubro de 1966.

Em 1966, os Beatles viviam um momento de mutação sonora total. Com o lançamento do álbum Revolver e do single Paperback Writer/Rain, os Fab Four davam uma forte guinada rumo ao psicodelismo. Eles ampliavam seus horizontes musicais, e deixavam para trás os incríveis anos de A Hard Day’s Night (1964) e Help! (1965). Além disso, começaram a lançar novos trabalhos em doses homeopáticas, em relação ao que ocorreu entre 1963 e 1965. Isso deixava uma forte demanda reprimida no mercado musical.

É neste cenário que os produtores de TV Bob Rafelson (1933) e Bert Schneider (1933-2011) enfim conseguem emplacar um projeto que havia surgido de forma tímida em 1962: fazer uma série de TV baseada na carreira de uma banda fictícia de rock. Reza a lenda que até o grupo The Lovin’ Spoonful chegou a ser cotado para estrelar essa atração, mas foram postos de lado ao assinar com uma gravadora e entrarem no mercado musical de verdade.

Com o estouro dos Beatles e logo em seguida do seu primeiro filme, A Hard Day’s Night (Os Reis do Iê-iê-Iê),em 1964, Rafelson e Schneider viram que estavam no caminho certo, fato que o estouro de outra atração cinematográfica beatle, Help!, só tornou mais óbvio. E o contrato com a Screem Gems viabilizou o projeto. Agora, era só escolher os quatro caras para estrelar a atração. Um deles foi definido a priori.

O inglês Davy Jones (1945-2012) era famoso por atuar em atrações teatrais, além de também cantar. Curiosamente, ele se apresentou com o elenco de uma dessas peças no programa de Ed Sullivan no mesmo dia 9 de fevereiro de 1964 em que os Beatles apareceram pela primeira vez na TV americana, causando um verdadeiro pandemônio. A vez de Jones chegaria não muito tempo depois.

Como forma de atrair pessoas para uma seleção, os produtores colocaram anúncios nas publicações Daily Variety e The Hollywood Reporter procurando músicos/atores. Foram 437 os interessados. Curiosamente, apenas um deles entrou no time tendo atendido ao chamado, Michael Nesmith. Micky Dolenz já tinha um currículo como ator infantil e cantor e furou a fila, e Peter Tork veio indicado pelo amigo Stephen Stills, reprovado por causa de seus dentes.

Como forma de dar força ao programa, o produtor musical televisivo Don Kirshner ficou com a missão de buscar canções adequadas. Ele apostou em uma jovem dupla de músicos e compositores, Tommy Boyce (1939-1994) e Bobby Hart (1939), que acabou se incumbindo de boa parte das canções e também da produção do álbum. Também contribuíram o então desconhecido David Gates (que depois estouraria como líder da banda Bread), Carole King e Gerry Goffin.

No dia 16 de agosto de 1966, chega às lojas o single Last Train To Clarksville/Take a Giant Step, primeira gravação atribuída aos Monkees. Vale o registro: o programa de TV só estreou no dia 12 de setembro daquele ano, e quando isso ocorreu, esse compacto simples já estava ponteando as paradas de sucesso. E no dia 10 de outubro, chegava às lojas o primeiro álbum daquele verdadeiro fenômeno instantâneo.

Como os quatro integrantes dos Monkees não eram propriamente músicos treinados para tocar em grupo, ao menos não naquele momento, Kirshner preferiu apostar no talento de Boyce & Hart e de músicos de estúdio para as gravações. Nesmith conseguiu ficar com a produção das duas faixas de sua autoria, e encaixou nas duas a guitarra de Peter Tork, naquele momento o músico mais competente entre os quatro. E foi o único deles a tocar no disco.

Na verdade, nenhuma das 12 faixas de The Monkees conta com a participação dos quatro monkees juntos. Aliás, 8 delas só trazem um dos caras por vez. Micky Dolenz, o melhor cantor, ficou com o vocal principal de seis faixas, e em uma divide o microfone com Davy Jones, que por sua vez se incumbe dos lead vocals em três canções. As outras duas foram interpretadas por Mike Nesmith.

Por causa disso, e também pelo fato de a contracapa do álbum não listar o nome dos músicos de estúdio que participaram do trabalho, ficava no ar um clima de farsa, como se fossem eles os responsáveis por todos os sons incluídos no disco. Rapidamente, todos ficaram sabendo de como as coisas ocorreram de fato, e não demorou para que os Monkees recebessem o apelido de Prefab Four (os quatro pré-fabricados), um contraponto avacalhado aos Fab Four originais.

O público não ligou para isso, pois a série de TV era simplesmente hilariante, desenvolvendo com muita inteligência os rumos apresentados nos filmes dos Beatles, e a qualidade das músicas apresentadas em cada episódio ajudaram a solidificar esse estouro. Resultado: grandes índices de audiência televisiva, e a chegada no dia 12 de novembro de 1966 do LP The Monkees ao primeiro lugar na parada americana, onde permaneceu durante 13 longas semanas.

O que dizer de um disco que traz clássicos maravilhosos do porte de Last Train To Clarksville, Take a Giant Step, Tomorrow’s Gonna Be Another Day, I Wanna Be Free e (Theme From) The Monkees? As canções conseguiram de forma brilhante emular o estilão beatle 1964/65 sem cair na mera cópia ou paródia. E o melhor de tudo, para eles: naquele período, John, Paul, George e Ringo estavam imersos no estúdio, longe dos palcos e preparando novo LP. O caminho estava livre para os Monkees reinarem.

Logo a seguir, os Prefab Four realizaram a façanha de substituir seu primeiro álbum no topo pelo segundo, More Of The Monkees, que a partir de fevereiro de 1967 se manteve liderando os charts ianques durante longas 18 semanas. Era a Monkee mania total! Aí, em maio de 1967, Headquarters, o terceiro álbum do grupo, marcou o início do maior envolvimento de seus integrantes, compondo, tocando e cantando, sem o apoio de Don Kirshner.

Headquarters ficou durante apenas uma semana na liderança dos charts americanos. Na semana seguinte, a ironia das ironias ocorreu. Eles foram apeados da ponta pelo Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o tão esperado novo álbum dos Beatles, que permaneceu por lá por 15 longas semanas. Os Monkees ainda conseguiriam grande sucesso com seu quarto álbum Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltda, que ficou cinco semanas no número 1, mas coube ao Magical Mystery Tour acabar com a festa de uma vez por todas.

Muitas outras coisas ocorreriam na história dos Monkees, que se tornaram uma espécie de boneco Pinnochio do sr. Gepetto ou do monstro do doutor Victor Frankestein, ganhando vida própria e virando uma banda de verdade. Mas nada supera o impacto desse seu disco de estreia, e de seus maravilhosos singles. Até mesmo um grupo pré-fabricado dos anos 60 merece estatura de mito… Anos incríveis mesmo!

The Monkees- The Monkees (ouça em streaming):

Pet Sounds e seu redemoinho de boas emoções e sensações

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Por Fabian Chacur

Pet Sounds completa 50 anos de lançamento neste mês de maio. O trabalho mais mitificado dos Beach Boys e presença inevitável na lista de melhores álbuns de rock de todos os tempos, trata-se de um disco que, tanto tempo depois de chegar ao conhecimento do público, permanece capaz de causar incrível prazer auditivo e mental a quem mergulha em seu conteúdo. Um clássico que merece essa badalação toda.

A semente que gerou a criação deste clássico CD foi a insatisfação de Brian Wilson, cantor, compositor e líder dos Beach Boys, ao ouvir Rubber Soul, dos Beatles, e se sentir muito atrás da banda britânica em termos criativos. Ele já estava cheio de falar sobre praias, sol, mulheres e diversão, sempre com uma base sonora leve e contagiante. A fórmula rendeu coisas muito boas, mas ele queria seguir adiante e não se repetir.

Como forma de tentar viabilizar esse objetivo ambicioso, resolveu deixar de participar dos shows da banda, passando a partir do final de 1965 a se dedicar exclusivamente ao trabalho de composições e de gravações do grupo. Convocou o letrista Tony Asher para ajuda-lo a traduzir em palavras seus sentimentos sobre amor, vida, sonhos, decepções etc. De quebra, resolveu transpor as fronteiras habituais e buscar outros instrumentos musicais e influências sonoras.

Foi dessa forma que nasceu Pet Sounds. Arranjos grandiosos, com direito a sonoridades até então não comuns no rock, incluindo instrumentos típicos da musica erudita e experimental, mudanças no andamento das canções, vocalizações elaboradas e tudo o que pudesse significar um novo rumo na vida musical dos Beach Boys. O grupo olhou esse desejo de Brian com certo temor, mas preferiu seguir os passos do líder, acreditando em sua intuição e talento. Fizeram bem.

Ouvir Pet Sounds equivale a uma bela viagem emocional, repleta de nuances sonoras e poéticas. Tudo começa com Wouldn’t It Be Nice, que coloca no condicional uma possibilidade aparente de felicidade, tipo “não seria legal se ficássemos juntos?”. As letras do álbum enveredam pela busca do amor, do seu eu interior, e da inadequação das pessoas mais sensíveis a um mundo costumeiramente violento, seco e sem espaços para o lirismo e o idealismo.

God Only Knows, sua música mais conhecida, é uma das declarações de amor mais belas jamais feitas (“só Deus sabe o que seria da minha vida sem você”). Here Today enfoca a fugacidade habitual do amor, enquanto Caroline No lamenta as mudanças ocorridas no comportamento da pessoa amada com o decorrer do tempo e o fim da paixão. I Know There’s An Answer vai fundo na ferida, com seus versos “eu sei que existe uma resposta, mas eu vou ter de achar por conta própria”.

O momento chave do álbum, e quem sabe para o que Brian Wilson sentia naquele momento de sua vida, aos 23 anos, é I Wasn’t Made For These Times, quando diz “aposto que não fui feito para esse tempo”. Não é de se estranhar que, nos anos que se seguiriam, o genial artista americano entraria em parafuso emocional, e teria muita dificuldade de lidar com a vida real, ficando muito próximo de enlouquecer ou mesmo morrer precocemente. Felizmente ele sobreviveu.

O resultado comercial de Pet Sounds nos EUA na época foi decepcionante, não passando do 10º lugar na parada da Billboard. Na Inglaterra, o trabalho se deu melhor. Mas os críticos gostaram, e mesmo vários colegas, entre eles Paul McCartney, que desde então sempre cita God Only Knows como sua música favorita de todos os tempos. Reza a lenda que Brian pirou após ouvir Sgt. Peppers, pois não se sentia à altura de tentar superar tal álbum.

Depois desse disco incrível, a genialidade de Brian Wilson permaneceu ativa. Smile, o clássico que ele desejava ser sua obra-prima, ficou pelo caminho e só se concretizou no longínquo 2004, quase 40 anos após o início de sua concepção. Valeu a espera, pois é um belo álbum, creditado a Brian Wilson como artista solo. Nada mais justo, pois Pet Sounds pode ser considerado, na prática, seu primeiro trabalho individual.

Brian Wilson fez coisas incríveis antes de Pet Sounds, e também faria, sozinho ou com os Beach Boys, outras maravilhas depois, como os ótimos álbuns Sunflower (1970), Surf’s Up (1971) e Holland (1973). Ficou bem, casou, teve vários filhos, voltou a fazer shows, esteve no Brasil e tudo. Tive a honra de apertar sua mão e ter meu Smile autografado por ele. Só Deus sabe a emoção que eu senti…

Obs.: uma última notinha: ouça Here Today e, na sequência, Alvorada Voraz, do RPM, e sinta como o riff da música da banda brasileira deve muito a uma parte da canção dos Beach Boys…

Pet Sounds– The Beach Boys (em streaming):

I Wasn’t Made For These Times– The Beach Boys:

Here Today– The Beach Boys:

Alvorada Voraz– RPM:

Live Music-Europe 2010- Joe Jackson Trio (2011- Razor & Tie)

Por Fabian Chacur

Joe Jackson é um dos grandes nomes surgidos no que se convencionou chamar de New Wave, no fim dos anos 70. Há quem o conheça apenas pelo hit Steppin’ Out, de 1982, ou quem sabe por Is She Really Going Out With Him, de 1979, o que é uma pena, pois esse cantor, compositor e tecladista britânico tem uma obra caudalosa e repleta de grandes momentos, como esse Live Music Europe 2010.

Com formação erudita e jazzística, Joe Jackson é no entanto um roqueiro por excelência. Na verdade, um fã de música que não tem pudores em misturar todas as suas influências e gerar uma sonoridade com apelo pop, mas repleta de sutilezas e com direito a canções simplesmente arrebatadoras. De quebra, ele também é um ótimo cantor, o que dá a seu trabalho uma consistência musical incrível.

Se é excelente nos estúdios de gravação, ao vivo ele simplesmente arrasa, improvisando com rigor jazzístico mas nunca deixando o virtuosismo atrapalhar a fluência das músicas que interpreta. Todos os seus discos ao vivo são muito legais, e este aqui, gravado durante vários shows em sua turnê europeia de 2010 não foge à regra, sendo mesmo um de seus melhores nesse formato, flagrando-o bem à vontade e solto.

Ao seu lado, compondo o Joe Jackson Trio, dois músicos que o acompanhavam no início de sua carreira: o baixista e vocalista de apoio Graham Maby, espécie de braço direito que está com ele em boa parte de sua trajetória solo, e o baterista e vocalista de apoio Dave Houghton, que o reencontrou há dez anos e vem se mantendo por perto nessa última década. Um trio simplesmente estupendo e entrosado até a medula.

Valendo-se apenas de alguns loops e recursos eletrônicos pré-gravados aqui e ali, o trio se mostra afiadíssimo. O repertório investe em canções de várias fases da carreira de Jackson, desde Got The Time e Sunday Papers, dos tempos da new wave, passando por Cancer, Chinatown, Slow Song e Another World, de sua obra-prima Night & Day (1982) e chegando à recente Still Alive, de 2004.

Os arranjos seguem os originais, mas abrem caminhos para novos elementos musicais e solos inspiradíssimos de Joe Jackson nos teclados. A trinca de covers que ele faz na sequência, no meio do show, é matadora: Girl, dos Beatles (no melhor esquema voz e piano), Inbetweenies (do saudoso Ian Dury) e Scary Monsters (de David Bowie), esta última nervosa e rocker.

Ao fim das 12 faixas que compõem o repertório de Live Music Europe 2010, será inevitável você ouvir de novo e de novo, pois além do repertório ser ótimo, a sequência de músicas e a performance da banda arrebatam o ouvinte. Duvido que alguém de bom gosto ouça esse álbum (que infelizmente não saiu no Brasil) e não se sinta tentado a descobrir mais músicas desse verdadeiro gênio pop. Faça isso, você não irá se arrepender…

Scary Monsters, com o Joe Jackson Trio:

Girl, com Joe Jackson:

Kaya, de Bob Marley, ganha bela reedição

Por Fabian Chacur

Depois de ser vítima de um atentado na Jamaica que quase custou sua vida e a de sua mulher, Rita, Bob Marley se mudou em 1977 para Londres, na Inglaterra. Lá, gravou uma série de canções que foram distribuídas em dois álbuns. Um, Exodus, saiu naquele mesmo ano e é considerado um de seus trabalhos mais bem-sucedidos.

O outro, Kaya, chegou às lojas em 1978, e não teve tanta repercussão, embora inclua um hit de proporções monstruosas, Is This Love. Como forma de celebrar os 35 anos de lançamento deste disco, a Universal Music acaba de lançar no Brasil uma reedição luxuosa que nos dá a oportunidade de reavaliar este belo trabalho do eterno rei do reggae.

Kaya é um álbum menos centrado na parte política da obra de Marley, concentrando-se mais em canções de amor e espiritualidade. Sua sonoridade é mais doce, pop e delicada do que a de Exodus, equivalendo a uma espécie de irmão mais tranquilo daquele álbum marcante. Mas ambos são ótimos, cada qual com suas peculiaridades.

Além do megahit, o disco inclui maravilhas como a cativante Easy Skanking, a envolvente Time Will Tell e as deliciosas Sun Is Shining e Satisfy My Soul. As sutilezas de seus arranjos aparecem com mais intensidade a cada nova audição, permitindo diferenciar melhor uma canção da outra e sentir suas riquezas melódicas e líricas.

A nova edição de Kaya inclui capa digipack tripla, um belíssimo encarte com 28 páginas repletas de fotos, texto impecável sobre o álbum, letras de todas as canções e ficha técnica completa das gravações, que foram feitas nos estúdios da Island Records, em Londres.

Se isso tudo não bastasse, temos ainda um segundo CD, que inclui gravação feita ao vivo em 7 de julho de 1978 de um show realizado por Bob Marley e sua banda The Wailers na cidade holandesa de Rotterdam. Em performance inspirada, ele interpreta duas canções de Kaya, três de Exodus e clássicos de seu repertório como No Woman No Cry, Get Up Stand Up e I Shot The Sheriff. São 13 músicas, em versões soltas e estendidas em relação às gravações de estúdio.

Essa impecável reedição de Kaya é mais uma prova de que nenhum dos discos de carreira lançados por Bob Marley na Island Records pode ser subestimado. Todos são bons, cada qual do seu jeito, e merecem ser apreciados por quem gosta não só de reggae, mas de música de qualidade em geral. Bob Marley (1945-1981) nos deixou um legado musical espetacular que será cultuado para sempre.

Ouça Is This Love, com Bob Marley & The Wailers:

Sunken Condos: som maneiro de Donald Fagen

Por Fabian Chacur

O mundo não anda dando moleza a nós, pobres seres humanos honestos que não aguentam mais essa profusão de picaretagem que domina todas as instâncias da vida atual. Sem recarregar as energias, torna-se quase impossível seguir em frente. E a música é uma boa forma de conseguir isso. Quer uma dica de um CD que pode te ajudar e muito nessa reposição de forças?

Fácil. O álbum em questão atende pelo título Sunken Condos, e chegou ao mercado musical nos formatos físicos e digitais em outubro de 2012. O autor do mesmo é um sujeito de altíssimo bom gosto chamado Donald Fagen, que muita gente conhece como mentor da seminal banda Steely Dan ao lado do também brilhante Walter Becker. Eita disquinho bom de se ouvir!

Nascido em 10 de janeiro de 1948 (tem 65 anos de idade), o norte-americano Donald Fagen é cantor, compositor e músico, especialista em teclados que vão desde o piano acústico até os mais diversos tipos de instrumentos dessa área. Com o Steely Dan, ajudou a criar uma sonoridade influente que mistura jazz, black music, rock e pop com uma sofisticação passível de ser assimilada pelos fãs de música popular.

Em 1983, quando o Steely Dan saiu de cena rumo a um hiato que duraria uma década, Fagen lançou seu primeiro álbum individual, o excepcional The Nightfly, com direito a hits como I.G.Y. (What a Beautiful World) e New Frontier. O requinte e a obcessão pela busca da perfeição levou ele a gravar o álbum de forma totalmente digital, um dos primeiros discos feitos com essa orientação técnica.

Sem nenhuma pressa, ele só foi lançar um novo trabalho solo em 1993, o inspirado Kamakiriad, produzido por Walter Becker. Com o retorno pouco depois do Steely Dan, Mr. Fagen só nos ofereceu seu terceiro trabalho individual em 2006, o (adivinhe?) excelente Morph The Cat. E agora, apenas seis anos depois (rapidinho para o seu padrão), chega esse envolvente novo petardo.

Sunken Condos é mais do mesmo, sim, mas um mais do mesmo repleto de tesão, energia, bom gosto e requinte. Um trabalho tão sofisticado que cada nova audição revela elementos novos, inseridos de forma inteligente em cada segundo, cada acorde, cada sequência rítmica, cada riff. É muito difícil não deixar o perfeccionismo exagerado levar consigo a paixão que a música precisa ter, mas Donald Fagen sempre se dá bem nesse desafio.

São nove faixas, sendo oito de autoria do criador do Steely Dan e uma, Out of The Ghetto, assinada pelo saudoso e genial Isaac Hayes e lançada pelo autor em 1978. Com bela melodia, ritmo delicioso e letra irônica (“você pode sair do gueto, mas o gueto sempre estará dentro de você”), parece ter sido escrita pelo próprio Fagen, especialista em versos irônicos e inteligentes.

Em Slinky Thing, por exemplo, ele filosofa sobre a relação de um homem com uma mulher bem mais nova, chegando ao ponto de admitir se não seria melhor para ela largá-lo para ficar com alguém de sua idade. Mas não deixa esse pensamento estragar o prazer daquela relação.

Na sacudida I’m Not The Same Without You, ele surpreende quem se leva pelo titulo (eu não sou o mesmo sem você, em tradução livre) e imagina mais um muro de lamentações pop. Pelo contrário. Fagen coloca seu personagem como alguém que está feliz por, sem o antigo amor, conseguir descobrir um monte de coisas boas e novos rumos para buscar sua felicidade. Ou seja, “estou melhor sem você”.

Miss Marlene, uma verdadeira aula de música pop balançada, tem ecos de I.G.Y (What a Beautiful World) e poderia virar hit se vivêssemos em um mundo mais preocupado com música pop de qualidade. Mas dane-se. Aqui em casa, já virou hit.

E o resto do álbum é uma delícia, prova de que dá para ser ao mesmo tempo sofisticado e acessível. Vá por mim. Ouça Sunken Condos e deixe que suas nove faixas injetem em você os fluidos necessários para aguentar mais encrencas na sua vida cotidiana. Valeu, Mr. Fagen!
*obs.: e que capa linda! Uau! Com direito a embalagem digipack e encarte supimpa!

Ouça Sunken Condos, de Donald Fagen, na íntegra:

The Next Day é David Bowie inspiradíssimo

Por Fabian Chacur

Demorei bastante para resenhar The Next Day, primeiro trabalho de inéditas de David Bowie após 10 longos anos nos quais se imaginava termos perdido de vez o Thin White Duke. O álbum está há mais de um mês nas lojas brasileiras, em bela edição de luxo com direito a 17 faixas, três a mais do que a versão comum.

E qual a razão de tanta demora? É que eu fiz questão de ouvir muito e muito o álbum antes de escrever sobre ele. E quer saber? Valeu a pena. Dessa forma, posso cravar, sem medo de errar, que The Next Day é não só um dos melhores trabalhos do genial cantor, compositor e músico britânico, como tem tudo para ser eleito o melhor lançamento de 2013. E quem diz isso é alguém que tem todos os álbuns do cara, os ouviu muito e não baba ovo para todos. Opinião de fã, sim, mas fã consciente dos altos e baixos de seu ídolo.

No Reino Unido, o álbum entrou direto no primeiro lugar. No disputado mercado americano, vendeu 85 mil cópias na semana de lançamento no fim de março e atingiu o segundo lugar, melhor posto já obtido por um álbum de David Bowie no mercado americano. Station To Station (1976- nº3) e Let’s Dance (1983- nº4) haviam sido os melhores resultados anteriores do roqueiro britânico. Os fãs estavam ávidos por novas músicas do autor de Heroes.

A boa expectativa criada pelos dois singles lançados previamente, a melancólica e tocante balada Where Are We Now? e o rockão The Stars (Are Out Tonight) se confirmou por completo. The Next Day é, acima de tudo, um álbum recheado de grandes canções.

O clima musical traz boas referências de sua produção do fim dos anos 70, especialmente do álbum Scary Monsters (1980), com uma poderosa fusão de climas misteriosos, guitarras nervosas, boas melodias e uma diversidade musical que foge da mesmice com grandes resultados. E a voz do astro continua incisiva e com aquele timbre inconfundível.

Os fãs da faceta mais pop de Bowie irão vibrar com as deliciosas Valentine’s Day e Dancing Out In Space, por exemplo. Os mais roqueiros se deliciarão com as vibrantes The Next Day, (You Will) Set The World On Fire e I’d Rather Be High, enquanto quem curte o lado soul do mestre irão se arrepiar com a belíssima You Feel So Lonely You Could Die.

A competência dos músicos participantes (entre os quais a baixista Gail Ann Dorsey, os guitarristas Earl Slick e Gerry Leonard e o baixista Tony Levin) e a produção do velho parceiro Tony Visconti dão ao álbum uma sonoridade ao mesmo tempo vintage e atualizada. Não, Bowie não está se repetindo, e sim aproveitando de forma inteligente elementos já usados por ele antes para criar novas canções relevantes.

A capa, que reaproveita de forma surpreendente a arte do clássico LP Heroes, aparece em belíssima embalagem digipack. Minha única restrição fica em relação ao encarte, com os créditos e letras em letras pequenas e diagramação que dificulta e muito a leitura. Afora isso, The Next Day é um clássico instantâneo que cresce a cada nova audição.

Ouça The Next Day, de David Bowie, na íntegra:

Love Me Do – The Beatles (Parlophone- 1963)

Por Fabian Chacur

Please Please Me, primeiro álbum dos Beatles, chega aos 50 anos de seu lançamento soando ainda urgente, juvenil e bom de se ouvir. Muito bom, por sinal. Era o pontapé inicial de uma discografia no formato LP que se tornaria a melhor e mais significativa da história do rock e da música popular em geral.

O álbum inclui 14 faixas, sendo que quatro delas – Love Me Do, P.S. I Love You, Please Please Me e Ask Me Why, todas de autoria de John Lennon e Paul McCartney, haviam sido lançadas nos meses anteriores. Outras quatro da dupla e seis covers escolhidos a dedo complementam o set list.

Pode ser dito, sem medo de errar, que Please Please Me é um dos primeiros álbuns de rock da história a não ser apenas uma reunião de singles lançados anteriormente e faixas gravadas às pressas para tapar buracos. Usando uma frase em inglês que sintetiza bem essa minha opinião, “all killer no filler” (“só faixas matadoras”, sem nada para encher buraco, em tradução livre). E com 10 músicas gravadas em menos de um dia!

Ao contrário de outros grupos que surgiram no mundo do rock se opondo ao que havia sido feito anteriormente, o som dos Beatles sempre conseguiu o raro equilíbrio de reverenciar com carinho coisas boas feitas pelas gerações anteriores e apresentar seu som próprio e recheado de novidades e marcas de estilo até hoje copiadas no cenário pop.

O rock and roll cinquentista é homenageado em releituras matadoras de Twist And Shout (que embora seja dos anos 60 tem toda cara dos anos 50) e Boys. O romantismo mais tradicional aparece em A Taste Of Honey, enquanto o rhythm and blues surge em Anna (Go To Him). Pop até a medula, Chains é da dupla Carole King-Jerry Goffin, dois gênios do setor.

I Saw Her Standing There (de Lennon e McCartney)abre o álbum com uma levada totalmente original, uma nova interpretação do rock and roll original com direito a uma das linhas de baixo mais matadoras de todos os tempos, prova de que Paul McCartney já esbanjava criatividade como músico logo no início da carreira.

Please Please Me, faixa que dá nome ao álbum, é para mim um dos primeiros exemplos do que depois seria rotulado como “power pop”, ou seja, aquele tipo de rock com refrão contundente, riffs de guitarra ágeis e formato condensado, raramente ultrapassando três minutos de duração. Aqui, são só dois, e arredondando!

Outro momento pop rock autoral bem bacana é Misery, esbanjando ingenuidade, frescor quase adolescente e um refrão encantador, marca de grandes momentos dos Beatles. Outra que se vale de menos de dois minutos para dar seu recado.

Love Me Do, o célebre primeiro single, traz na gaita de John Lennon sua marca registrada, que também está em outra canção da griffe Lennon/McCartney incluída neste álbum, There’s a Place. E outro momento balada, Baby It’s You, traz outro autor seminal na história da música pop, o genial maestro Burt Bacharach, outro estilista nessa praia.

P.S. I Love You, lançada originalmente como lado B do single Love Me Do, investe em simplicidade, delicadeza, enquanto o lado B do compacto Please Please Me, Ask Me Why, tem um leve tempero latino no meio, esbanjando despretensão e romantismo em seus acordes.

Do You Want To Know a Secret, embora seja de autoria de Lennon e McCartney, foi interpretada (e muito bem) por George Harrison. A desenvoltura da banda em termos vocais já nesse primeiro álbum é impressionante, pois além de Paul e John, que dominam a cena, George e Ringo (esplêndido em Boys) também eram craques na frente dos microfones. Quatro ótimos cantores em uma mesma banda!

Em termos instrumentais, os Beatles já se mostravam afiadíssimos nessa estreia, e melhorariam a cada novo lançamento. Please Please Me dava mostras de uma banda coesa, criativa e repleta de energia com um futuro aparentemente promissor, o que se concretizaria de forma impressionante nos anos que se seguiram.

Ouça o álbum Please Please Me, dos Beatles, na íntegra:

CD de 1969 de Gilberto Gil volta remasterizado

Por Fabian Chacur

A Universal Music acaba de selecionar mais um título importante da nobre discografia de Gilberto Gil e dar nele um banho de loja em termos visuais e tecnológicos. Desta vez, trata-se de Gilberto Gil, lançado originalmente em 1969 e gravado em um período particularmente terrível na vida do cantor, compositor e músico baiano.

As gravações foram realizadas nos meses de abril e maio daquele ano, período no qual Gil estava confinado na Bahia, após ter sido preso ao lado do Mano Caetano em dezembro de 1968 e ficado no Rio longe de seus familiares, amigos e dos inúmeros fãs Brasil afora. A Ditadura Militar os encarcerou de forma arbitrária. Felizmente eles saíram vivos para contar a história.

Sem poder sair de Salvador depois de ser solto e antes do exílio posterior em Londres, Gil gravou voz e violão por lá, nos estúdios J.S., com o acompanhamento instrumental sendo registrado nos estúdios Scatena, em São Paulo, e Phillips, no Rio. Os arranjos e orquestrações ficaram a cargo do genial maestro Rogério Duprat. Felizmente, essa separação geográfica não transmitiu frieza aos registros. Pelo contrário.

O time que participou do CD é conciso e excepcional. No baixo elétrico, o ótimo Sérgio Barroso. Na guitarra, Lanny Gordin, que deu um tempero hendrixiano ao álbum. O também maestro Chiquinho de Moraes arrasou nos teclados, enquanto o lendário Wilson das Neves, hoje conhecido como o “baterista do Chico Buarque”, deu um banho de swing com as baquetas.

No geral, o álbum traz letras que falam muito de futuro, de ficção científica e da relação homem-máquina, com direito a uma sonoridade pontuada pelo rock and roll a la Jimi Hendrix, mas também com muito forró, samba, jazz, experimentalismo e o que pintasse.

O momento máximo é a contagiante Aquele Abraço, samba exaltação no qual Gil bota pra fora, com muita garra e um pouco de raiva, a energia negativa acumulada durante a prisão, com direito aos versos “o meu caminho eu mesmo traço”. Um dos melhores sambas de todos os tempos, possivelmente o maior sucesso da brilhante trajetória de Gil Black Gil.

Mas o CD tem muito mais, como a empolgante Cérebro Eletrônico, a deliciosa Volks-Volksvagen Blue, a releitura roqueira do baião 17 Légua e Meia (de Humberto Teixeira e Carlos Barroso), a gostosa 2011 (de Tom Zé e Rita Lee), a misteriosa Futurível, a irônica A Voz do Vivo (de Caetano) e a filosófica Vitrines.

Gil reservou para o final Objeto Semi-identificado, feita em parceria com Rogério Duarte e Rogério Duprat e, guardadas as devidas proporções, sua faixa equivalente a Revolution Nº9, dos Beatles, com direito a jeitão de música concreta, trechos musicais de várias origens e a leitura de textos filosóficos e intrincados.

O encarte traz as letras, ficha técnica e reprodução do material incluído na edição original em vinil. A capa não inclui foto do artista, cuja cabeleira afro havia sido raspada pelos militares que o aprisionaram. O desenho e os textos que estão nessa capa tornam a aura do álbum ainda mais enigmática e experimental.

O conteúdo musical criativo e original, no entanto, não perde nada em fluência e capacidade de ser compreendido pelo ouvinte médio. Gilberto Gil (1969) é seguramente um dos melhores discos do autor de Expresso 2222, e soa tão instigante nesse sofrido 2013 como soava naquele também sofrido (por outras razões, obviamente) 1969.

Aquele Abraço, Gilberto Gil:

Cérebro Eletrônico, Gilberto Gil:

17 Légua e Meia, Giberto Gil:

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