Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Discos indiscutíveis (page 3 of 11)

Tio Caetano vira sobrinho ágil em Abraçaço

Por Fabian Chacur

Aos 70 anos de idade, Caetano Veloso parece qualquer coisa, menos um septuagenário como imaginávamos antigamente alguém com essa idade. O sujeito está mais inquieto e criativo do que nunca. Abraçaço, seu novo CD, está mais para trabalho de sobrinho do que de tio. Ótimo, um dos melhores de 2012.

Desde o início de sua carreira, nos já distantes anos 60 do século passado, Caetano nunca se limitou a uma única sonoridade/abordagem/estilo em seus trabalhos. Abrangente no limite do impensável, ele é um artista sempre inquieto, e que, por isso, nem sempre consegue agradar a todos. Provavelmente nem pretende tal feito, por maior que seja o seu ego de leonino.

A fase atual, iniciada com o estupendo (2006) e que o une aos excelentes Pedro Sá (guitarra e vocais), Ricardo Dias Gomes (baixo, teclados e vocais) e Marcelo Callado (bateria, percussão e vocais), é uma das mais interessantes dessa trajetória toda.

O Caê das melodias delicadas e bossa-novistas e dos ritmos afrobaianos se encaixa feito luva no universo rock and roll do jovem trio de músicos. O melhor: o autor de Sampa mergulha no rock, mas a Banda Cê também não tem medo de enfiar a cara na brasilidade inerente ao som do astro baiano. Resultado: mistura da boa.

O rockão com direito a eventual quebradeira bossa de A Bossa Nova É Foda é o grande single do disco, com sua letra repleta de palavras sonoras e difícil decodificação. Seria algo no estilo “O mundo se curvou ao Brasil”, tendo a bossa nova como base? Essa é a minha interpretação. Descole a sua! Devem existir pelo menos uma outras mil possíveis.

Abraçaço traz solos endiabrados de guitarra de Pedro Sá, enquanto Estou Triste é um daqueles momentos introspectivos roqueiros a la Radiohead, embora sem soar como cópia barata. Quero Ser Justo é uma variação mais próxima da MPB da mesma tendência de Estou Triste, mas com clima mais Sampa.

O Império da Lei soma uma levada sambaiana animada a uma letra curta e de forte teor político. E a política é também tema de Um Comunista, homenagem a Carlos Marighella que soa ambígua, defendendo e não defendendo ao mesmo tempo, o que é bem próximo do pensamento acerca desse tema do tipo campo minado.

Em Funk Melódico e O Galo Cantou, Caetano experimenta inserir em sua musicalidade elementos respectivamente do funk carioca e do pagode romântico, felizmente sem cair nos chavões/clichês mais medíocres e repetitivos dos dois estilos.

Vinco equivale ao ponto jazzy do disco, com levada lenta, guitarra e violões limpos e bateria com vassourinha. Um quase blues, com tempero bossa e repleto de delicadeza, ideal para quem gosta do Caetano mais tradicional.

Os apreciadores do lado mais sacudido e leve do eterno tropicalista certamente curtirão Parabéns, que equivale a um novo fruto do veio que gerou A Luz de Tieta e Não Enche, entre outras. Não por acaso, de longe a pior do CD.

E se Abraçaço abriu com a ousada e virulenta A Bossa Nova É Foda, teve como encerramento a única faixa assinada por outro autor, uma inédita do tropicalista Rogério Duarte.

Trata-se de Gayana, que entra naquele elenco de canções escancaradamente românticas tipo Lua e Estrela, Você é Linda, Sozinho e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer. Um bom exemplar dessa tendência.

No geral, Abraçaço equivale a um trabalho diversificado, repleto de nuances e sutilezas que surgem a cada nova audição, e que deixa claro o porque o caetanismo continua firme e forte, quase 50 anos depois de seu surgimento.

Ouça A Bossa Nova é Foda, com Caetano Veloso:

Ouça Um Comunista, com Caetano Veloso:

DVD/CD mostram Amy Winehouse à vontade

Por Fabian Chacur

Dizem que mesmo um fato horrível como a morte tem algo de bom. No caso de Amy Winehouse, que nos deixou prematuramente aos 27 anos de idade no dia 23 de julho de 2011, é o fato de que, nos últimos meses, seu nome só tem vindo à tona quando o assunto é música, deixando seu lado polêmico e triste de lado.

Após o ótimo Lioness: Hidden Treasures (2011), a Universal Music lança um novo trabalho póstumo da saudosa cantora e compositora britânica. Trata-se de Amy Winehouse At The BBC, que traz um CD de áudio com 14 faixas e um DVD com o registro de um show intimista e histórico.

O CD conta com gravações feitas ao vivo por Amy com exclusividade para a BBC de Londres entre 2004 e 2009, nas quais a cantora esbanja carisma, pique e aquela voz mezzo jazzista, mezzo roqueira, mezzo pop e mezzo soul que cativou milhóes de fãs no mundo todo.

Se o lado áudio do pacote é muito legal, é no DVD que se encontra o ponto alto deste lançamento. Trata-se do documentário The Day She Came To Dingle, que mostra a participação da cantora em dezembro de 2006 no projeto Other Voices, realizada na pequena cidade litorânea de Dingle, na Irlanda. Ela estava às vésperas de estourar em termos mundiais.

Amy cantou em uma pequena igreja, com capacidade para 85 pessoas, acompanhada apenas pelo baixista Dale Davis e pelo guitarrista Robin Banerjee. A bela acústica do prédio e o teor intimista da apresentação deixaram a intérprete totalmente à vontade, e o resultado foi um show simplesmente arrasador, basicamente com o repertório do CD Back To Black.

Ela interpreta as canções Tears Dry On Their Own, You Know I’m No Good, Love Is a Losing Game, Back To Black, Rehab e Me & Mr. Jones. Os felizardos presentes na plateia se mostram totalmente cativados pelo furacão Winehouse.

A entrevista concedida pela cantora no evento é também sensacional, pois nela Amy fala com desenvoltura e simplicidade sobre seus ídolos na música, com direito a cenas desses mestres da música, entre os quais Ray Charles, Mahalia Jackson, Thelonius Monk, The Shangri-las, Carleen Anderson e Soweto Omar Kinch.

Amy Winehouse At The BBC também inclui um belo livreto repleto de fotos bacanas e informações sobre as gravações de áudio e de vídeo. Trata-se de um lançamento que não tem o menor teor de caça-níqueis, sendo recomendado não só aos fãs mais fanáticos, como para qualquer pessoa que queira desfrutar desse imenso talento que nos deixou tão cedo.

Veja trechos do vídeo The Day She Came To Dingle:

Tears Dry On Their Own, com Amy Winehouse, ao vivo em Dingle:

A Barca dos Amantes- Milton Nascimento (1986/Polygram)

Por Fabian Chacur

A excelente Coleção Milton Nascimento, lançada de forma primorosa pela Editora Abril, chegou a seu final recentemente com um título não muito conhecido do grande público, o álbum ao vivo A Barca Dos Amantes (1986). Vale a pena dar um destaque a esse CD, cuja qualidade é das melhores.

Trata-se logo de cara de um trabalho histórico, pois registra o primeiro encontro nos palcos de Milton e o saxofonista americano Wayne Shorter, com quem o Bituca havia gravado dois belos discos de estúdio nos EUA na década de 70, Native Dancer (1975) e Milton (1976), este último também parte desta coleção da Abril.

O espetáculo ocorreu na primeira versão do Projeto SP, montado debaixo de uma lona de circo na rua Caio Prado, quase na esquina com a Rua Augusta, no centro de São Paulo, local que abrigou shows históricos de gente como Stanley Clarke, Titãs, Marina Lima, Paralamas do Sucesso, Lobão e muitos outros naquele 1986.

Milton teve a seu lado uma banda de craques da MPB integrada por Robertinho Silva (bateria e percusão), Ricardo Silveira (guitarra), Nico Assumpção (baixo) e Luiz Avellar (teclados). Das nove faixas, Shorter marca presença em quatro: as então inéditas Pensamento (Milton/Fernando Brant) e Nós Dois (Milton/Luiz Avellar) e nos clássicos Tarde (Milton/Márcio Borges) e Maria Maria (Milton/Fernando Brant).

O entrosamento entre os dois se mostrou impecável, com direito a solos de sax iluminados do ex-integrante do célebre grupo de jazz Weather Report se encaixando feito luva na sonoridade de Milton e sua banda. Um desbunde total.

A participação do jazzista americano é a cereja do bolo, que traz outros momentos marcantes em termos puramente musicais. O álbum abre com uma empolgada releitura de Nuvem Cigana (Milton/Lô Borges), do mitológico Clube da Esquina (1972).

A Barca dos Amantes, inédita, é uma parceria de Milton Nascimento com o compositor, cantor e músico português Sérgio Godinho. Lançada no álbum Missa dos Quilombos (1982), Louvação a Mariama cativa pelo swing, enquanto Lágrimas do Sul (Milton/Marco Antonio Guimarães) saiu originalmente em Encontros e Despedidas (1985) e homenageia divinamente Winnie Mandela em um libelo anti-racismo.

Se o disco como um todo é maravilhoso, deixei para o fim seu momento mais belo. Trata-se da releitura de Amor de Índio (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), com arranjo mais lento do que o da versão original de Beto Guedes, e no qual Milton dialoga de forma inspiradíssima com o tecladista Luiz Avelar, dando ainda mais força aos versos doces de Ronaldo Bastos.

A Barca dos Amantes encerrou na época o contrato de Milton com a Polygram, ele que havia se transferido para a antiga CBS (hoje Sony Music) por uma fortuna. Um pecado esse trabalho não ter feito o sucesso que merecia. Um dos melhores discos ao vivo da história da MPB e merecedor de uma reavaliação por parte de críticos e do público.

Amor de Índio, ao vivo, com Milton Nascimento:

Caixa reúne CDs clássicos de Fafá de Belém

Por Fabian Chacur

Poucas intérpretes da história da MPB começaram suas trajetórias com tanta força como Fafá de Belém. Em 1975, com apenas 19 anos, ela estourou nacionalmente com a música Filho da Bahia, trilha da novela global Gabriela. No ano seguinte, lançou seu primeiro álbum, Tamba Tajá, com boa repercussão.

Até o fim dos anos 70, a cantora paraense conseguiu consolidar sua carreira no cenário nacional graças a três álbuns excelentes: Água (1977), Banho de Cheiro (1978) e Estrela Radiante (1979).

A Universal Music está resgatando esses três álbuns em versões remasterizadas e luxuosas na caixa Três Tons de Fafá de Belém, com direito a embalagem luxuosa, encartes repletos de informações e com textos e organização a cargo do produtor Thiago Marques Luiz.

Água traz como marca a presença de sonoridades de várias regiões do Brasil, especialmente do Norte, e canções marcantes como Pauapixuna, Ontem Ao Luar, Raça, Sedução e Foi Assim. A nova versão conta com quatro faixas bônus: Emoriô, Naturalmente, Não Há Dinheiro Que Pague e uma versão em espanhol de Foi Assim.

Banho de Cheiro segue o mesmo espírito do trabalho anterior, e emplacou hits como Dentro de Mim Mora Um Anjo, Maria Solidária, Moça do Mar e Tanto.

O romantismo mais refinado é a marca de Estrela Radiante, como provam baladas belíssimas como Sob Medida, Memória e Que Me Venha Esse Homem, provando ser possível falar de amor sem cair em lugares comuns já frequentados por outros artistas.

Vale ressaltar a qualidade dos músicos que participam desses discos, que inclui entre outros gente do naipe de Wagner Tiso, Antonio Adolfo, Chico Batera, João Donato, Luis Alves, Francis Hime, Artur Verocai, Raul Mascarenhas e Cristóvão Bastos.

Três Tons de Fafá de Belém é uma boa oportunidade para reavaliarmos o lugar de Fafá de Belém na MPB, praticamente esquecida por boa parte dos críticos, embora tenha em seu repertório discos com a excelência dos três trabalhos incluídos nesta bela caixa.

Foi Assim, com Fafá de Belém:

Sedução, com Fafá de Belém:

Expresso 2222 volta em reedição luxuosa

Por Fabian Chacur

Álbum que marcou a volta de Gilberto Gil ao Brasil em 1972 após um exílio involuntário de quase três anos, Expresso 2222 volta às lojas em luxuosa edição comemorativa remasterizada e com reprodução da embalagem original do álbum, incluindo encarte com letras e ficha técnica completa. Estão à venda versões em CD e LP de vinil. O comentário de Mondo Pop a seguir leva em conta a edição em CD.

A qualidade de áudio ficou muito boa, ressaltando os elementos acústicos imprimidos à obra, enquanto a parte visual mereceu um apuro técnico elogiável. O único ponto fraco fica por conta da exclusão das faixas bônus da reedição anterior, mantendo apenas as nove faixas do disco original. Ficaram de fora, portanto, Cada Macado No Seu Galho (Cho Chuá), Vamos Passear no Astral e Está na Cara Está na Cura.

O álbum abre com a interpretação instrumental rústica e cativante de Pipoca Moderna (Caetano Veloso e Sebastiano Biano), com a Banda de Pífaros de Caruaru, como que apresentando as raízes da música nordestina em sua forma mais crua e em seu habitat natural.

Logo a seguir, temos Back In Bahia (Gil), um rockão com a cara de 1972 e cuja letra fala sobre esse retorno do tropicalista a seu país. A seu lado, uma banda composta por Lanny Gordin (guitarra), Bruce Henry (baixo), Antonio Perna (teclados) e Tutty Moreno (bateria).

O Canto da Ema (Ayres Viana, Alventino Cavalcante e João do Vale) surge como uma espécie de síntese entre a crueza de Pipoca Moderna e eletricidade de Back In Bahia, propondo uma mistura da tradição do forró com a modernidade do rock. O resultado é empolgante, com direito a um forró sacudido sem a presença de seu instrumento primordial, a sanfona.

Clássico do repertório de Jackson do Pandeiro, Chiclete Com Banana já propunha há mais de uma década o que Gil pôs em prática nesse disco, a mistura do chiclete americano com a banana tupiniquim, e ganha aqui uma versão beirando o lado mais rítmico e interessante da bossa nova. Metalinguagem de primeiríssima linha. Ele e Eu é outro momento rock and roller de Gil e seus músicos, com direito a tempero brasileiro e blueseiro.

Sai do Sereno (Onildo Almeida) é outra bela tentativa bem-sucedida de fundir forró e rock, com direito aos vocais de uma endiabrada Gal Costa duelando com Gil e dando uma vitaminada geral na mistura, com direito a uns surpreendentes acordes e convenções jazzísticas aqui e ali, fruto do imenso talento de Lanny Gordin.

A parte final do álbum nos oferece três faixas nas quais a incrível habilidade de Gilberto Gil como violonista e cantor ficam exacerbadas. A incrivelmente rítmica faixa título equivale a um roteiro da viagem feita durante todo o álbum, um mergulho futurista em uma nova dimensão na qual a miscigenação sonora inteligente e criativa não tem fim.

Se em Expresso 2222 o genial astro baiana ainda se vale de alguma percussão, em O Sonho Acabou e Oriente é só ele, no melhor esquema voz e violão. E aí, a viagem se torna simplesmente irresistível. A primeira se vale da célebre frase de John Lennon e de certa forma ironiza o fim de um sonho que, na verdade, estava mais do que vivo naquele momento.

E já que toquei no tema metalinguagem, Oriente utiliza esse recurso com habilidade impressionante, brincando com as possibilidades da palavra em termos geográficos (influências orientais permeiam os acordes tocados por Gil no violão) e existenciais (se oriente, rapaz). Viajante, a faixa fecha o álbum com um quê de psicodelismo.

Expresso 2222 consegue abrigar minimalismo, modernidade, fusão de várias tendências músicais, genialidade dos músicos e um Gilberto Gil em estado de graça como compositor, violonista, cantor e intérprete de material alheio. Um álbum simplesmente maravilhoso, indispensável para os fãs de música sem fronteiras e sem amarras.

Expresso 2222, com Gilberto Gil, ao vivo em programa na Globo em 1972:

No Doubt volta com álbum pop exemplar

Por Fabian Chacur

Foram longos 11 anos fora de cena, período durante o qual só tivemos uma canção nova incluída na coletânea The Singles 1992-2003, a releitura de It’s My Life, sucesso oitentista do Talk Talk. Mas o vazio acabou, e finalmente temos um novo álbum do No Doubt para curtir, Push And Shove, que a Universal Music acaba de lançar no Brasil. Felizmente, valeu a espera.

A expectativa criada em torno do novo álbum do grupo integrado por Gwen Stefani (vocal), Tony Kanal (baixo), Tom Dumont (guitarra) e Adriam Young (bateria e percussão) aumentou ainda mais quando o matador single Settle Down começou a tocar nas rádios e nas MTVs da vida, com sua levada ultra-dançante na linha raggamuffin eletrônica.

Do início como banda de ska há longos 26 anos, o grupo californiano evoluiu e estourou em 1996 com Tragic Kingdom, álbum no qual passou a apostar em uma sonoridade mais abrangente, com direito a ska, mas também a raggamuffin, pop eletrônico, rock, dance music e black music, além de baladas aqui e ali.

O novo álbum mantém essa pegada, desta vez sem se valer de vários produtores da moda e concentrando o trabalho na mão de Mark “Spike” Stent, que já habia trabalhado antes com o quarteto, mas não com esse espaço todo. E valeu a pena a aposta no “prata da casa”, pois o álbum soa diversificado e sem ficar repetindo fórmulas o tempo todo.

A sonoridade de Push And Shove tem um forte sabor do pop dos anos 80 filtrado para a musicalidade de agora, com ecos de New Order, Madonna, Kylie Minogue e UB 40, sem no entanto cair numa repetição de clichês. Pelo contrário. As 11 canções se pautam por boas melodias, batidas bacanas e timbres instrumentais bem escolhidos.

A ala mais afeita ao raggamuffin eletrônico do CD inclui, além de Settle Down, a energética Looking Hot, a quase reggae Sparkle e a faixa título, essa com um tempero meio Black Eyed Peas. Com timbragem que lembra o New Order, especialmente nas guitarras, Heaven é simplesmente um eletro-rock delicioso.

Para quem virou fã do grupo da loirinha Gwen Stefani graças a Don’t Speak, temos aqui duas baladas diferentes entre si, mas mortais, daquelas de cortar os pulsos. Easy, apaixonamente e com aquele timbre de guitarra do hit It Must Have Been Love, do Roxette, deixará qualquer apaixonado longe do ser amado à beira das lágrimas.

E para se emocionar no melhor clima de rock balada daqueles de fazer todos em um estádio acenderem os celulares (antes eram os isqueiros…) temos Undone, aquele tipo de balada romântica que, se entrar em uma trilha de novela, vira mania nos quatro cantos do país e entra nas paradas de sucesso a mil por hora.

One More Summer e um roquinho bacana que equivale ao que seria o New Order com Madonna anos 80 nos vocais, enquanto Gravity é pop rock eletrônico puro, Kyle Minogue style. Undercover, com mais teclados, vai pelo mesmo caminho, e bem, também.

Dreaming The Same Dream encerra a festa a festa como se estivesse saindo do True Love (1986), da Madonna, ou coisa assim. Mas justiça se faça: as influências são essas, mas o No Doubt soa como No Doubt, sem xerocopiar na cara dura.

Se vivêssemos outros tempos, Push And Shove seria daqueles discos que se manteriam durante meses entre os mais vendidos e emplacando single atrás de single. Como hoje tudo mudou, o álbum estreou na terceira posição da Billboard e já despencou para abaixo do número 70. Tomara que esse álbum consiga uma reviravolta, pois é um belo exemplo de música pop bem feita, diversificada e que não apela para tentar conquistar os fãs.

Ouça Easy, com o No Doubt:

Ouça Heaven, com o No Doubt:

Ouça Undone, com o No Doubt:

Greatest Hits- Seals & Crofts (1975-Warner)

Por Fabian Chacur

Ah, o ano de 1972! Trata-se de uma época mágica para mim, quando tinha dez anos de idade (completei onze em setembro) e comecei a comprar discos, especialmente compactos singles, aqueles com uma música de cada lado. Um deles incluia as músicas Summer Breeze de um lado e East Of Ginger Trees do outro.

Summer Breeze colocou pela primeira vez nas paradas de sucesso do mundo a dupla Seals & Crofts. Seus integrantes, no entanto, já haviam rodado muito até então. James Seals (vocais, violão, guitarra, violino, sax) nasceu em 1941, enquanto Dash Crofts é um ano mais velho. Eles se conheceram crianças, e começaram a tocar em 1958.

Até os idos de 1965, integraram a banda The Champs, que estourou meses antes de eles entrarem a bordo, com a célebre instrumental Tequila.. Em 1966, após muitas idas e vindas, criaram o grupo Dawnbreakers ao lado do guitarrista Louie Shelton. A banda, no entanto, acabou em 1970. Seals e Crofts resolveram continuar, agora como duo.

Shelton se tornou produtor e assumiu essa função nos discos do duo. Dois discos foram lançados por um selo independente e pouco venderam, mas a consistência de seu trabalho atraiu as atenções da gravadora Warner, que os contratou. No início de 1972, o álbum Year Of Sunday chegou às lojas, mas também patinou nas vendas.

Felizmente os executivos da Warner continuaram acreditando em seus contratados, e naquele mesmo 1972, Summer Breeze quebrou a zica dos músicos oriundos do estado do Texas. Com sua melodia marcante, letra evocativa e romântica e arranjo com forte teor acústico, a canção os inseriu no cenário do bittersweet rock de James Taylor.

Com vocalizações marcantes e um coquetel sonoro composto por folk, country,rock e pop muito bem arquitetado, Seals & Crofts continuariam emplacando outros sucessos bacanas, entre os quais Diamond Girl, We May Never Pass This Way (Again), When I Meet Them, Ruby Jean And Billie Lee. Em 1975, chegou às lojas a coletânea Greatest Hits, com 10 faixas e um bom resumo de sua era de ouro.

Greatest Hits é daqueles álbuns que você pode ouvir de ponta a ponta sem susto, e serve como bom resumo do bittersweet rock melódico e repleto de mensagens positivas, algumas oriundas da filosofia oriental Baha’i seguida pelos amigos e de cuja “bíblia” foram extraídas algumas das inspirações de suas letras. Hipongas, sim, mas com consistência.

Até o fim dos anos 70, o duo emplacou outros hits, como Get Closer, e até flertou com a disco music. A partir de 1980, quando lançaram The Longest Road (com participações especiais de Stanley Clarke e Chick Corea), James Seal se tornou compositor e artista country, enquanto Dash Crofts deu uma sumida. Nos anos 90, eles fizeram shows com a banda australiana de soft-folk-country rock Little River Band. Mas suas músicas continuam emocionando.

Summer Breeze, com Seals & Crofts:

We May Never Pass This Way (Again), com Seals & Crofts:

Diamond Girl (Live), com Seals & Crofts:

When I Meet Them Diamond Girl Ruby Jean And Billie Lee – Seals & Crofts:

Toulouse Street-The Doobie Brothers (1972-Warner)

Por Fabian Chacur

Em 1972, a sacudida e contagiante Listen To The Music abriu as portas do sucesso em termos mundiais para os Doobie Brothers. Esse single, assim como o álbum que a contém, Toulouse Street, venderam milhões de cópias e apresentaram a muita gente o trabalho dessa banda oriunda da cidade de San Jose, no estado americano da California.

O início de tudo ocorreu no fim dos anos 60, quando o cantor, compositor e músico Skip Spence, ex-Jefferson Airplane e Moby Grape, conheceu o cantor, compositor e guitarrista Tom Johnston. Logo a seguir, ele apresentou ao novo amigo o baterista e percussionista John Hartman. A ideia inicial era montar uma nova versão do Moby Grape, mas logo Spence saiu de cena.

Após alguns meses, Johnston e Hartman conheceram o cantor, compositor e guitarrista Patrick Simmons, que se juntou ao time, assim como o baixista Dave Shogren. Com essa escalação, após tocarem em bares na chamada Bay Area, eles atraíram as atenções da Warner Brothers, e gravaram em 1971 um auto-intitulado álbum de estreia.

Embora contivesse uma música espetacular que ironicamente só fez sucesso aqui no Brasil, a contundente Nobody, o álbum não conseguiu obter a repercussão que merecia. Mesmo assim, a gravadora continuou acreditando na banda, e deu a eles a oportunidade de gravar um novo trabalho, em meio a mudanças em sua formação.

Dave Shogren participou de duas músicas do novo álbum, mas acabou saindo fora. Ele foi substituído por um antigo conhecido de Patrick Simmons, o baixista e vocalista Tiran Porter. De quebra, o time ganhou um segundo baterista, Michael Hossack, o que deu à banda uma de suas marcas registradas e aumentou o seu poder de fogo.

Graças ao estouro de Listen To The Music, Toulouse Street invadiu as paradas de sucesso e mostrou as armas da banda: um vocalista e guitarrista-solo carismático (Tom Johnston), vocalizações personalizadas, uma segura e criativa mistura de rock and roll, soul, country, folk e pop e um guitarrista, cantor e compositor que funcionava como ótimo contraponto à excelência de Johnston, o também ótimo Patrick Simmons.

O segundo álbum dos Doobies quase foi produzido por um amigo ilustre, Pete Townshend, mas o líder do The Who estava particularmente enrolado na época, e a tarefa acabou ficando nas mãos de Ted Templeman, que se incumbiu com extrema categoria da função, que exerceu posteriormente em vários outros trabalhos da banda.

O lado rock and roll do álbum aparece em petardos como Rockin’ Down The Highway e Disciple, enquanto o gospel rock é a marca de Jesus Is Just Alright, que já havia sido gravada anteriormente pelos Byrds no álbum Ballad Of Easy Rider (1969), mas que aqui encontra a sua versão definitiva.

A faceta folk da banda surge na animada Mamaloi e na introspectiva e belíssima Toulouse Street, enquanto o blues dá o tom nas releituras de Cotton Mouth, do duo Seals & Crofts, e Don’t Start Me To Talkin, de Sonny Boy Williamson.

Bom como um todo, Toulouse Street tem uma curiosidade: na parte interna do CD e da capa dupla da versão original em vinil, temos uma foto dos integrantes da banda pelados e envolvidos por um interessante elenco de legítimas “garotas da vida nada fácil”. Cada um esconde o “mr. dick” do seu jeito, com Johnston colocando um chapéu em cima do mesmo.

Listen To The Music, ao vivo nos anos 2.000, com os Doobie Brothers:

Toulouse Street, com os Doobie Brothers:

Rockin’ Down The Highway, com os Doobie Brothers:

Jesus Is Just Alright, ao vivo nos anos 2.000, com os Doobie Brothers:

Kiss oferece rock básico e vibrante em Monster

Por Fabian Chacur

O rock tomou tantos caminhos nesses seus quase 60 anos de existência que às vezes a gente se esquece de que, em sua origem, esse gênero musical tinha como alicerces a energia, a descontração e o compromisso total com a irreverência e o efeito contagiante capaz de lavar a alma de seus ouvintes para todo o sempre.

Felizmente, grupos como o Kiss não se esquecem disso. Em seu novo álbum, o excelente Monster, lançado no Brasil pela Universal Music, é exatamente isso que o quarteto americano nos oferece. Sem frescuras, sem complicações e com uma eficiência simplesmente impressionante. Rock na veia, como diziam os roqueiros setentistas.

Gene Simmons (vocal e baixo) e Paul Stanley (guitarra e vocal), os líderes do time, estão extremamente bem acompanhados de Tommy Thayer (guitarra e vocal, na banda há 10 anos) e Eric Singer (bateria e vocal, na banda, entre idas e vindas, há 20 anos). São esses dois caras que injetaram toda essa energia nos veteranos fundadores do Kiss.

Monster é hard/heavy rock básico do começo, com a alucinante Hell Or Hallelujah, ao fim, com a vibrante Last Chance, sem espaço para uma única balada. Riffs contagiantes de guitarra, refrãos matadores no estilo do hard rock oitentista e letras simples falando de temas simples. Solos econômicos, arranjos concisos e vocais repletos de personalidade são outras marcas.

As 12 músicas são bacanas, mas as minhas favoritas são, além das duas que já citei, a sensacional Wall Of Sound, a contundente Shout Mercy e a detonante Eat Your Heart Out. O melhor cantor do time é Paul Stanley, mas os outros três não ficam atrás quando assumem o vocal principal. Um time entrosado e que joga para ganhar na base da união.

O Kiss se vale de tanta parafernália visual em seus shows que muitos se esquecem de analisar o seu conteúdo musical. E não dá para negar que, em seus melhores momentos (e eles são muitos), o grupo do Linguarudo nos oferece um rock and roll simples, poderoso e que os aproxima do que o gênero tem de melhor, que é a irreverência e a energia.

Monster é um álbum que não irá revolucionar o mundo do rock, nem será badalado pela crítica especializada, nem mesmo será cultuado pelos fãs mais elitistas desse estilo musical. Mas que delícia ouvi-lo no talo e botar os ya-yas para fora!.

Isso é o verdadeiro rock and roll, e não é fácil de se fazer, embora aparentemente simples. O Kiss prova mais uma vez que sabe o caminho das pedras. E olha que eu não sou fanático por essa consagrada banda ianque. Mas não dá para negar que os caras são from hell mesmo!

Veja o Kiss ao vivo em Nova York em 2012:

Hell Or Hallellujah ao vivo com o Kiss no David Letterman:

Harvest – Neil Young (1972, Reprise)

Por Fabian Chacur

Em 1972, Neil Young era um jovem veterano. Aos 27 anos, não só tinha lançado vários álbuns como integrante dos grupos Buffalo Springfield e Crosby,Stills, Nash & Young como também já possuia três ótimos trabalhos solo no currículo. A expectativa em torno do que viria a ser seu quarto álbum individual era das maiores, e não por acaso, afinal de contas.

Além do sucesso de púbico e crítica que estava obtendo como integrante do supergrupo montado ao lado de David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash, Young havia se dado muito bem com o álbum solo After The Goldrush (1970), que ocupou o oitavo lugar na parada americana e rendeu clássicos como Tell Me Why, Only Love Can Break Your Heart, Don’t Let It Bring You Down e a faixa título.

Um sério problema com a coluna o impediu de tocar guitarra elétrica nas doses habituais e ajudou a direcionar o álbum rumo a uma sonoridade mais introspectiva e calcada em folk, country e rock, bem na linha do bittersweet rock que havia elevado James Taylor e Carole King ao estrelato no ano anterior. O violão tomava o centro do seu som.

Com o apoio de uma banda concisa e competente batizada Stray Gators, da qual faziam parte o experiente e talentoso produtor e arranjador Jack Nitzche (teclados e slide guitar), Ben Keith (steel guitar), Tim Drummond (baixo) e Kenny Buttrey (bateria), além da participação de alguns amigos famosos nos vocais de apoio, nascia Harvest, seu álbum mais bem-sucedido em termos comerciais e considerado uma de suas obras-primas.

Lançado em fevereiro de 1972, Harvest traz como faixas mais conhecidas dois singles matadores. Heart Of Gold e Old Man, dois country rocks melódicos, bem tocados, com letras evocativas e vocais de apoio iluminados feitos por James Taylor e Linda Ronstadt. Não tinha como dar errado. Eram as canções certas na hora certa. E deu super-certo!

Crosby & Nash marcam presença na ardida (e deliciosas) Are You Ready For The Country?; Crosby e Stills vocalizam na vigorosa e agressiva Alabama (que seria contestada pelo grupo Lynyrd Skynyrd na clássica Sweet Home Alabama), enquanto Nash e Stills estão na forte Words (Between The Lines Of Age), a mais longa canção do álbum, com seus quase sete minutos de duração.

As delicadas e melódicas A Man Needs A Maid e There’s a World destoam das outras canções pelo fato de mostrarem Young acompanhado pela London Symphony Orchestra, e se constituem em uma experiência das mais interessantes para um artista normalmente associado a um contexto mais agressivo e elétrico em termos musicais.

Out On The Weekend abre o álbum de forma simples e não rebuscada, enquanto Harvest, a faixa título, prima pela discrição. The Needle And The Damage Done, no melhor estilo voz e violão, foi gravada ao vivo, e cativa pela bela melodia e pela polêmica letra enfocando o uso de drogas e as suas consequências nefastas.

Harvest atingiu o primeiro lugar na parada americana, enquanto Heart Of Gold também liderou a parada dos singles por lá. A ironia fica por conta de quem destronou esses dois discos do topo dos charts ianques logo em seguida, naquele mesmo 1972.

Sabem quem? Isso mesmo, o grupo America, respectivamente com seu álbum homônimo de estreia e o single matador A Horse With No Name. Uma versão diluída, embora competente e muito inspirada, do som que Neil Young ajudou a tornar popular com o Crosby, Stills, Nash & Young. Os alunos superando os mestres? Por pouco tempo, como saberíamos depois…

Ouça o álbum Harvest, de Neil Young, na íntegra:

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