Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Discos indiscutíveis (page 4 of 12)

Expresso 2222 volta em reedição luxuosa

Por Fabian Chacur

Álbum que marcou a volta de Gilberto Gil ao Brasil em 1972 após um exílio involuntário de quase três anos, Expresso 2222 volta às lojas em luxuosa edição comemorativa remasterizada e com reprodução da embalagem original do álbum, incluindo encarte com letras e ficha técnica completa. Estão à venda versões em CD e LP de vinil. O comentário de Mondo Pop a seguir leva em conta a edição em CD.

A qualidade de áudio ficou muito boa, ressaltando os elementos acústicos imprimidos à obra, enquanto a parte visual mereceu um apuro técnico elogiável. O único ponto fraco fica por conta da exclusão das faixas bônus da reedição anterior, mantendo apenas as nove faixas do disco original. Ficaram de fora, portanto, Cada Macado No Seu Galho (Cho Chuá), Vamos Passear no Astral e Está na Cara Está na Cura.

O álbum abre com a interpretação instrumental rústica e cativante de Pipoca Moderna (Caetano Veloso e Sebastiano Biano), com a Banda de Pífaros de Caruaru, como que apresentando as raízes da música nordestina em sua forma mais crua e em seu habitat natural.

Logo a seguir, temos Back In Bahia (Gil), um rockão com a cara de 1972 e cuja letra fala sobre esse retorno do tropicalista a seu país. A seu lado, uma banda composta por Lanny Gordin (guitarra), Bruce Henry (baixo), Antonio Perna (teclados) e Tutty Moreno (bateria).

O Canto da Ema (Ayres Viana, Alventino Cavalcante e João do Vale) surge como uma espécie de síntese entre a crueza de Pipoca Moderna e eletricidade de Back In Bahia, propondo uma mistura da tradição do forró com a modernidade do rock. O resultado é empolgante, com direito a um forró sacudido sem a presença de seu instrumento primordial, a sanfona.

Clássico do repertório de Jackson do Pandeiro, Chiclete Com Banana já propunha há mais de uma década o que Gil pôs em prática nesse disco, a mistura do chiclete americano com a banana tupiniquim, e ganha aqui uma versão beirando o lado mais rítmico e interessante da bossa nova. Metalinguagem de primeiríssima linha. Ele e Eu é outro momento rock and roller de Gil e seus músicos, com direito a tempero brasileiro e blueseiro.

Sai do Sereno (Onildo Almeida) é outra bela tentativa bem-sucedida de fundir forró e rock, com direito aos vocais de uma endiabrada Gal Costa duelando com Gil e dando uma vitaminada geral na mistura, com direito a uns surpreendentes acordes e convenções jazzísticas aqui e ali, fruto do imenso talento de Lanny Gordin.

A parte final do álbum nos oferece três faixas nas quais a incrível habilidade de Gilberto Gil como violonista e cantor ficam exacerbadas. A incrivelmente rítmica faixa título equivale a um roteiro da viagem feita durante todo o álbum, um mergulho futurista em uma nova dimensão na qual a miscigenação sonora inteligente e criativa não tem fim.

Se em Expresso 2222 o genial astro baiana ainda se vale de alguma percussão, em O Sonho Acabou e Oriente é só ele, no melhor esquema voz e violão. E aí, a viagem se torna simplesmente irresistível. A primeira se vale da célebre frase de John Lennon e de certa forma ironiza o fim de um sonho que, na verdade, estava mais do que vivo naquele momento.

E já que toquei no tema metalinguagem, Oriente utiliza esse recurso com habilidade impressionante, brincando com as possibilidades da palavra em termos geográficos (influências orientais permeiam os acordes tocados por Gil no violão) e existenciais (se oriente, rapaz). Viajante, a faixa fecha o álbum com um quê de psicodelismo.

Expresso 2222 consegue abrigar minimalismo, modernidade, fusão de várias tendências músicais, genialidade dos músicos e um Gilberto Gil em estado de graça como compositor, violonista, cantor e intérprete de material alheio. Um álbum simplesmente maravilhoso, indispensável para os fãs de música sem fronteiras e sem amarras.

Expresso 2222, com Gilberto Gil, ao vivo em programa na Globo em 1972:

No Doubt volta com álbum pop exemplar

Por Fabian Chacur

Foram longos 11 anos fora de cena, período durante o qual só tivemos uma canção nova incluída na coletânea The Singles 1992-2003, a releitura de It’s My Life, sucesso oitentista do Talk Talk. Mas o vazio acabou, e finalmente temos um novo álbum do No Doubt para curtir, Push And Shove, que a Universal Music acaba de lançar no Brasil. Felizmente, valeu a espera.

A expectativa criada em torno do novo álbum do grupo integrado por Gwen Stefani (vocal), Tony Kanal (baixo), Tom Dumont (guitarra) e Adriam Young (bateria e percussão) aumentou ainda mais quando o matador single Settle Down começou a tocar nas rádios e nas MTVs da vida, com sua levada ultra-dançante na linha raggamuffin eletrônica.

Do início como banda de ska há longos 26 anos, o grupo californiano evoluiu e estourou em 1996 com Tragic Kingdom, álbum no qual passou a apostar em uma sonoridade mais abrangente, com direito a ska, mas também a raggamuffin, pop eletrônico, rock, dance music e black music, além de baladas aqui e ali.

O novo álbum mantém essa pegada, desta vez sem se valer de vários produtores da moda e concentrando o trabalho na mão de Mark “Spike” Stent, que já habia trabalhado antes com o quarteto, mas não com esse espaço todo. E valeu a pena a aposta no “prata da casa”, pois o álbum soa diversificado e sem ficar repetindo fórmulas o tempo todo.

A sonoridade de Push And Shove tem um forte sabor do pop dos anos 80 filtrado para a musicalidade de agora, com ecos de New Order, Madonna, Kylie Minogue e UB 40, sem no entanto cair numa repetição de clichês. Pelo contrário. As 11 canções se pautam por boas melodias, batidas bacanas e timbres instrumentais bem escolhidos.

A ala mais afeita ao raggamuffin eletrônico do CD inclui, além de Settle Down, a energética Looking Hot, a quase reggae Sparkle e a faixa título, essa com um tempero meio Black Eyed Peas. Com timbragem que lembra o New Order, especialmente nas guitarras, Heaven é simplesmente um eletro-rock delicioso.

Para quem virou fã do grupo da loirinha Gwen Stefani graças a Don’t Speak, temos aqui duas baladas diferentes entre si, mas mortais, daquelas de cortar os pulsos. Easy, apaixonamente e com aquele timbre de guitarra do hit It Must Have Been Love, do Roxette, deixará qualquer apaixonado longe do ser amado à beira das lágrimas.

E para se emocionar no melhor clima de rock balada daqueles de fazer todos em um estádio acenderem os celulares (antes eram os isqueiros…) temos Undone, aquele tipo de balada romântica que, se entrar em uma trilha de novela, vira mania nos quatro cantos do país e entra nas paradas de sucesso a mil por hora.

One More Summer e um roquinho bacana que equivale ao que seria o New Order com Madonna anos 80 nos vocais, enquanto Gravity é pop rock eletrônico puro, Kyle Minogue style. Undercover, com mais teclados, vai pelo mesmo caminho, e bem, também.

Dreaming The Same Dream encerra a festa a festa como se estivesse saindo do True Love (1986), da Madonna, ou coisa assim. Mas justiça se faça: as influências são essas, mas o No Doubt soa como No Doubt, sem xerocopiar na cara dura.

Se vivêssemos outros tempos, Push And Shove seria daqueles discos que se manteriam durante meses entre os mais vendidos e emplacando single atrás de single. Como hoje tudo mudou, o álbum estreou na terceira posição da Billboard e já despencou para abaixo do número 70. Tomara que esse álbum consiga uma reviravolta, pois é um belo exemplo de música pop bem feita, diversificada e que não apela para tentar conquistar os fãs.

Ouça Easy, com o No Doubt:

Ouça Heaven, com o No Doubt:

Ouça Undone, com o No Doubt:

Greatest Hits- Seals & Crofts (1975-Warner)

Por Fabian Chacur

Ah, o ano de 1972! Trata-se de uma época mágica para mim, quando tinha dez anos de idade (completei onze em setembro) e comecei a comprar discos, especialmente compactos singles, aqueles com uma música de cada lado. Um deles incluia as músicas Summer Breeze de um lado e East Of Ginger Trees do outro.

Summer Breeze colocou pela primeira vez nas paradas de sucesso do mundo a dupla Seals & Crofts. Seus integrantes, no entanto, já haviam rodado muito até então. James Seals (vocais, violão, guitarra, violino, sax) nasceu em 1941, enquanto Dash Crofts é um ano mais velho. Eles se conheceram crianças, e começaram a tocar em 1958.

Até os idos de 1965, integraram a banda The Champs, que estourou meses antes de eles entrarem a bordo, com a célebre instrumental Tequila.. Em 1966, após muitas idas e vindas, criaram o grupo Dawnbreakers ao lado do guitarrista Louie Shelton. A banda, no entanto, acabou em 1970. Seals e Crofts resolveram continuar, agora como duo.

Shelton se tornou produtor e assumiu essa função nos discos do duo. Dois discos foram lançados por um selo independente e pouco venderam, mas a consistência de seu trabalho atraiu as atenções da gravadora Warner, que os contratou. No início de 1972, o álbum Year Of Sunday chegou às lojas, mas também patinou nas vendas.

Felizmente os executivos da Warner continuaram acreditando em seus contratados, e naquele mesmo 1972, Summer Breeze quebrou a zica dos músicos oriundos do estado do Texas. Com sua melodia marcante, letra evocativa e romântica e arranjo com forte teor acústico, a canção os inseriu no cenário do bittersweet rock de James Taylor.

Com vocalizações marcantes e um coquetel sonoro composto por folk, country,rock e pop muito bem arquitetado, Seals & Crofts continuariam emplacando outros sucessos bacanas, entre os quais Diamond Girl, We May Never Pass This Way (Again), When I Meet Them, Ruby Jean And Billie Lee. Em 1975, chegou às lojas a coletânea Greatest Hits, com 10 faixas e um bom resumo de sua era de ouro.

Greatest Hits é daqueles álbuns que você pode ouvir de ponta a ponta sem susto, e serve como bom resumo do bittersweet rock melódico e repleto de mensagens positivas, algumas oriundas da filosofia oriental Baha’i seguida pelos amigos e de cuja “bíblia” foram extraídas algumas das inspirações de suas letras. Hipongas, sim, mas com consistência.

Até o fim dos anos 70, o duo emplacou outros hits, como Get Closer, e até flertou com a disco music. A partir de 1980, quando lançaram The Longest Road (com participações especiais de Stanley Clarke e Chick Corea), James Seal se tornou compositor e artista country, enquanto Dash Crofts deu uma sumida. Nos anos 90, eles fizeram shows com a banda australiana de soft-folk-country rock Little River Band. Mas suas músicas continuam emocionando.

Summer Breeze, com Seals & Crofts:

We May Never Pass This Way (Again), com Seals & Crofts:

Diamond Girl (Live), com Seals & Crofts:

When I Meet Them Diamond Girl Ruby Jean And Billie Lee – Seals & Crofts:

Toulouse Street-The Doobie Brothers (1972-Warner)

Por Fabian Chacur

Em 1972, a sacudida e contagiante Listen To The Music abriu as portas do sucesso em termos mundiais para os Doobie Brothers. Esse single, assim como o álbum que a contém, Toulouse Street, venderam milhões de cópias e apresentaram a muita gente o trabalho dessa banda oriunda da cidade de San Jose, no estado americano da California.

O início de tudo ocorreu no fim dos anos 60, quando o cantor, compositor e músico Skip Spence, ex-Jefferson Airplane e Moby Grape, conheceu o cantor, compositor e guitarrista Tom Johnston. Logo a seguir, ele apresentou ao novo amigo o baterista e percussionista John Hartman. A ideia inicial era montar uma nova versão do Moby Grape, mas logo Spence saiu de cena.

Após alguns meses, Johnston e Hartman conheceram o cantor, compositor e guitarrista Patrick Simmons, que se juntou ao time, assim como o baixista Dave Shogren. Com essa escalação, após tocarem em bares na chamada Bay Area, eles atraíram as atenções da Warner Brothers, e gravaram em 1971 um auto-intitulado álbum de estreia.

Embora contivesse uma música espetacular que ironicamente só fez sucesso aqui no Brasil, a contundente Nobody, o álbum não conseguiu obter a repercussão que merecia. Mesmo assim, a gravadora continuou acreditando na banda, e deu a eles a oportunidade de gravar um novo trabalho, em meio a mudanças em sua formação.

Dave Shogren participou de duas músicas do novo álbum, mas acabou saindo fora. Ele foi substituído por um antigo conhecido de Patrick Simmons, o baixista e vocalista Tiran Porter. De quebra, o time ganhou um segundo baterista, Michael Hossack, o que deu à banda uma de suas marcas registradas e aumentou o seu poder de fogo.

Graças ao estouro de Listen To The Music, Toulouse Street invadiu as paradas de sucesso e mostrou as armas da banda: um vocalista e guitarrista-solo carismático (Tom Johnston), vocalizações personalizadas, uma segura e criativa mistura de rock and roll, soul, country, folk e pop e um guitarrista, cantor e compositor que funcionava como ótimo contraponto à excelência de Johnston, o também ótimo Patrick Simmons.

O segundo álbum dos Doobies quase foi produzido por um amigo ilustre, Pete Townshend, mas o líder do The Who estava particularmente enrolado na época, e a tarefa acabou ficando nas mãos de Ted Templeman, que se incumbiu com extrema categoria da função, que exerceu posteriormente em vários outros trabalhos da banda.

O lado rock and roll do álbum aparece em petardos como Rockin’ Down The Highway e Disciple, enquanto o gospel rock é a marca de Jesus Is Just Alright, que já havia sido gravada anteriormente pelos Byrds no álbum Ballad Of Easy Rider (1969), mas que aqui encontra a sua versão definitiva.

A faceta folk da banda surge na animada Mamaloi e na introspectiva e belíssima Toulouse Street, enquanto o blues dá o tom nas releituras de Cotton Mouth, do duo Seals & Crofts, e Don’t Start Me To Talkin, de Sonny Boy Williamson.

Bom como um todo, Toulouse Street tem uma curiosidade: na parte interna do CD e da capa dupla da versão original em vinil, temos uma foto dos integrantes da banda pelados e envolvidos por um interessante elenco de legítimas “garotas da vida nada fácil”. Cada um esconde o “mr. dick” do seu jeito, com Johnston colocando um chapéu em cima do mesmo.

Listen To The Music, ao vivo nos anos 2.000, com os Doobie Brothers:

Toulouse Street, com os Doobie Brothers:

Rockin’ Down The Highway, com os Doobie Brothers:

Jesus Is Just Alright, ao vivo nos anos 2.000, com os Doobie Brothers:

Kiss oferece rock básico e vibrante em Monster

Por Fabian Chacur

O rock tomou tantos caminhos nesses seus quase 60 anos de existência que às vezes a gente se esquece de que, em sua origem, esse gênero musical tinha como alicerces a energia, a descontração e o compromisso total com a irreverência e o efeito contagiante capaz de lavar a alma de seus ouvintes para todo o sempre.

Felizmente, grupos como o Kiss não se esquecem disso. Em seu novo álbum, o excelente Monster, lançado no Brasil pela Universal Music, é exatamente isso que o quarteto americano nos oferece. Sem frescuras, sem complicações e com uma eficiência simplesmente impressionante. Rock na veia, como diziam os roqueiros setentistas.

Gene Simmons (vocal e baixo) e Paul Stanley (guitarra e vocal), os líderes do time, estão extremamente bem acompanhados de Tommy Thayer (guitarra e vocal, na banda há 10 anos) e Eric Singer (bateria e vocal, na banda, entre idas e vindas, há 20 anos). São esses dois caras que injetaram toda essa energia nos veteranos fundadores do Kiss.

Monster é hard/heavy rock básico do começo, com a alucinante Hell Or Hallelujah, ao fim, com a vibrante Last Chance, sem espaço para uma única balada. Riffs contagiantes de guitarra, refrãos matadores no estilo do hard rock oitentista e letras simples falando de temas simples. Solos econômicos, arranjos concisos e vocais repletos de personalidade são outras marcas.

As 12 músicas são bacanas, mas as minhas favoritas são, além das duas que já citei, a sensacional Wall Of Sound, a contundente Shout Mercy e a detonante Eat Your Heart Out. O melhor cantor do time é Paul Stanley, mas os outros três não ficam atrás quando assumem o vocal principal. Um time entrosado e que joga para ganhar na base da união.

O Kiss se vale de tanta parafernália visual em seus shows que muitos se esquecem de analisar o seu conteúdo musical. E não dá para negar que, em seus melhores momentos (e eles são muitos), o grupo do Linguarudo nos oferece um rock and roll simples, poderoso e que os aproxima do que o gênero tem de melhor, que é a irreverência e a energia.

Monster é um álbum que não irá revolucionar o mundo do rock, nem será badalado pela crítica especializada, nem mesmo será cultuado pelos fãs mais elitistas desse estilo musical. Mas que delícia ouvi-lo no talo e botar os ya-yas para fora!.

Isso é o verdadeiro rock and roll, e não é fácil de se fazer, embora aparentemente simples. O Kiss prova mais uma vez que sabe o caminho das pedras. E olha que eu não sou fanático por essa consagrada banda ianque. Mas não dá para negar que os caras são from hell mesmo!

Veja o Kiss ao vivo em Nova York em 2012:

Hell Or Hallellujah ao vivo com o Kiss no David Letterman:

Harvest – Neil Young (1972, Reprise)

Por Fabian Chacur

Em 1972, Neil Young era um jovem veterano. Aos 27 anos, não só tinha lançado vários álbuns como integrante dos grupos Buffalo Springfield e Crosby,Stills, Nash & Young como também já possuia três ótimos trabalhos solo no currículo. A expectativa em torno do que viria a ser seu quarto álbum individual era das maiores, e não por acaso, afinal de contas.

Além do sucesso de púbico e crítica que estava obtendo como integrante do supergrupo montado ao lado de David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash, Young havia se dado muito bem com o álbum solo After The Goldrush (1970), que ocupou o oitavo lugar na parada americana e rendeu clássicos como Tell Me Why, Only Love Can Break Your Heart, Don’t Let It Bring You Down e a faixa título.

Um sério problema com a coluna o impediu de tocar guitarra elétrica nas doses habituais e ajudou a direcionar o álbum rumo a uma sonoridade mais introspectiva e calcada em folk, country e rock, bem na linha do bittersweet rock que havia elevado James Taylor e Carole King ao estrelato no ano anterior. O violão tomava o centro do seu som.

Com o apoio de uma banda concisa e competente batizada Stray Gators, da qual faziam parte o experiente e talentoso produtor e arranjador Jack Nitzche (teclados e slide guitar), Ben Keith (steel guitar), Tim Drummond (baixo) e Kenny Buttrey (bateria), além da participação de alguns amigos famosos nos vocais de apoio, nascia Harvest, seu álbum mais bem-sucedido em termos comerciais e considerado uma de suas obras-primas.

Lançado em fevereiro de 1972, Harvest traz como faixas mais conhecidas dois singles matadores. Heart Of Gold e Old Man, dois country rocks melódicos, bem tocados, com letras evocativas e vocais de apoio iluminados feitos por James Taylor e Linda Ronstadt. Não tinha como dar errado. Eram as canções certas na hora certa. E deu super-certo!

Crosby & Nash marcam presença na ardida (e deliciosas) Are You Ready For The Country?; Crosby e Stills vocalizam na vigorosa e agressiva Alabama (que seria contestada pelo grupo Lynyrd Skynyrd na clássica Sweet Home Alabama), enquanto Nash e Stills estão na forte Words (Between The Lines Of Age), a mais longa canção do álbum, com seus quase sete minutos de duração.

As delicadas e melódicas A Man Needs A Maid e There’s a World destoam das outras canções pelo fato de mostrarem Young acompanhado pela London Symphony Orchestra, e se constituem em uma experiência das mais interessantes para um artista normalmente associado a um contexto mais agressivo e elétrico em termos musicais.

Out On The Weekend abre o álbum de forma simples e não rebuscada, enquanto Harvest, a faixa título, prima pela discrição. The Needle And The Damage Done, no melhor estilo voz e violão, foi gravada ao vivo, e cativa pela bela melodia e pela polêmica letra enfocando o uso de drogas e as suas consequências nefastas.

Harvest atingiu o primeiro lugar na parada americana, enquanto Heart Of Gold também liderou a parada dos singles por lá. A ironia fica por conta de quem destronou esses dois discos do topo dos charts ianques logo em seguida, naquele mesmo 1972.

Sabem quem? Isso mesmo, o grupo America, respectivamente com seu álbum homônimo de estreia e o single matador A Horse With No Name. Uma versão diluída, embora competente e muito inspirada, do som que Neil Young ajudou a tornar popular com o Crosby, Stills, Nash & Young. Os alunos superando os mestres? Por pouco tempo, como saberíamos depois…

Ouça o álbum Harvest, de Neil Young, na íntegra:

Can’t Buy a Thrill – Steely Dan (ABC/1972)

Por Fabian Chacur

Ah, seo Victor Riskallah Chacur, quanto eu te devo em termos de conhecimento musical! Uma dessas dívidas, dentre inúmeras outras, foi ter conhecido no início de 1973 uma música espetacular chamada Do It Again, interpretada por um tal de Steely Dan, com Fire In The Hole no lado B. Mal sabia eu que estava descobrindo uma banda clássica e genial, uma das minhas favoritas.

Esse grupo seminal teve sua semente no encontro em 1967 entre os então garotos Donald Fagen e Walter Becker no Bard College, em Nova York. Não demoraram a perceber afinidades musicais infindáveis, e começaram a tocar juntos e a compor músicas. O músico Kenny Vance, do Jay And The Americans, gostou do que ouviu e os convidou para acompanhar esse grupo pop ao vivo e escrever músicas para serem oferecidas a outros artistas.

Fagen e Becker até que tentaram, mas pouca gente se interessou por seu som pop já bastante sofisticado, com letras irônicas e esbanjando personalidade. Não demorou a ficar claro o óbvio: eles mesmo teriam de gravar suas obras, e isso acabou se concretizando em 1972, mesmo ano em que largaram Vance e se mudaram para Los Angeles.

O lado intelectual e bem-humorado da banda surge logo no seu nome de batismo. Steely Dan saiu das páginas do livro The Naked Lunch, no qual seu autor, William Burroughs, cita em uma de suas páginas um “consolo”, “vibrador” ou como você preferir em português (em inglês, chama-se dildo) movido a vapor e com esse nome peculiar.

Além de Fagen nos vocais e teclados e Becker no baixo e vocais (no futuro, ele tocaria guitarra), a formação da banda neste álbum de estreia incluía Jeff Skunk Baxter (guitarra, pedal steel e violão), Denny Dias (guitarra e cítara elétrica), Jim Hodder (bateria e percussão) e David Palmer, cantor que entrou de última hora.

A escalação de Palmer se deveu ao fato de que Fagen, até então o principal cantor da banda, não se sentia à vontade na função. Com o tempo, isso seria superado por ele, e não por coincidência, as duas músicas de maior sucesso do primeiro LP do Steely Dan tem ele como lead singer: Do It Again e Reeling In The Years.

Can’t Buy a Thrill, título do álbum de estreia do projeto de Fagen e Becker, também tem origem nobre: os primeiros versos de It Takes A Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry, de Bob Dylan, um dos pontos altos do célebre (e já resenhado em Mondo Pop) Highway 61 Revisited (1965), o mesmo que também inclui Like a Rolling Stone.

Lançado no final de 1972, o álbum mostra um Steely Dan um pouco diferente do que ele se tornaria mais para a frente. Trata-se de um disco mais roqueiro, energético e pop, embora os elementos de funk, soul e jazz que depois tomariam conta da sonoridade do grupo já estivessem por ali, especialmente na estupenda Do It Again, com seu tempero latino e belíssimas passagens de teclados. Um hit hipnotico, com um quê de Santana no meio.

Interpretada por David Palmer, Dirty Work é um raro caso de balada rock na obra do grupo e arrepia, assim como Midnight Cruiser, que traz o baterista Jim Hodder no vocal principal. O lado jazzy comparece com a deliciosa Only A Fool Would Say That, que traz um tempero de bossa nova e latinidade que a tornam um verdadeiro achado.

O rock and roll mais rasgado é o mote de Reelin’ In The Years, com direito a melodia sofisticada, levada de piano simplesmente envolvente e solos de guitarra vigorosos e em alguns momentos no melhor estilo twin guitars, quando dois ou mais guitarristas tocam as mesmas notas ao mesmo tempo, com um efeito arrasa-quarteirão.

Em termos comerciais, o CD teve ótima repercussão, atingindo o 17º posto na parada americana e emplacando dois singles no top 20: Do It Again (nº6) e Reelin’ In The Years (nº11). No quesito artístico, trata-se sem sombra de dúvidas de uma das melhores estreias de uma banda do primeiro time do rock, repleto de grandes canções, energia e a impressão de que se tratava de um time que viria para ficar. E ficou mesmo, embora mantendo só seu núcleo básico (Fagen e Becker).

Ouça Can’t Buy A Thrill, do Steely Dan, na íntegra:

Clássico punk volta em reedição luxuosa

Por Fabian Chacur

Há 35 anos, chegava às lojas o mais emblemático álbum da história do punk rock: Never Mind The Bollocks Here’s The Sex Pistols. Como forma de comemorar essa importante efeméride no mundo do rock, a Universal Music acaba de lançar uma reedição luxuosa do único ábum só de inéditas da carreira da banda de Johnny Rotten.

Trata-se de um daqueles relançamentos feitos no capricho e indispensáveis para quem deseja entender o porquê os Sex Pistols continuam sendo uma das bandas mais importantes e influentes do rock, mesmo com suas canções de três acordes, habilidades restritas como músicos e pouco sucesso comercial na época.

O primeiro CD inclui uma versão remasterizada das 12 músicas contidas no álbum original, mais quatro faixas lançadas originalmente como lados B de compactos de vinil. O outro CD traz 11 faixas gravadas em um show realizado em Estocolmo, Suécia, em 28 de julho de 1977, e três músicas extraídas de show realizado no Reino Unido em 1º de setembro de 1977.

Com fortes influências de bandas como New York Dolls, The Stooges, MC 5 e os grupos americanos de garagem dos anos 60, os Pistols esbanjam pique, energia e atitude em suas canções. Músicas como God Save The Queen, Anarchy In The UK, Pretty Vacant e Holidays In The Sun refletem a fúria dos jovens britânicos em relação à gravíssima situação vivida pela classe operária de lá naqueles anos de chumbo.

De quebra, o grupo também punha para fora a insatisfação em relação ao momento vivido pelo rock de então, com músicos milionários, ingressos de shows caríssimos e sonoridades intrincadas como as propostas pelo rock progressivo afastando o rock and roll de suas origens operárias e básicas. Era uma volta às raízes, feita de forma virulenta e impactante.

O álbum, a rigor, foi gravado com a participação apenas do vocalista Johhny Rotten (que depois voltaria ao nome de batismo, John Lydon, quando saiu da banda), Steve Jones (guitarra e baixo) e Paul Cook (bateria). Glenn Matlock, o baixista original e coautor de boa parte das músicas, foi demitido do time no primeiro semestre de 1977 (ele está em três faixas do CD 1), e seu substituto, Sid Vicious, fazia tudo, menos tocar baixo, funcionando mais como personagem midiático do que como músico.

O CD ao vivo ressalta essa total inexistência de Vicious como músico, pois, apesar de ele participar dos dois shows, é praticamente impossível ouvir um único acorde sequer de baixo nas gravações. Registrado de forma precária, temos no CD a voz vigorosa e ardida de Rotten, a guitarra básica e tosca de Jones e a garra de Cook na bateria. A reação da plateia é entusiástica e favorável a eles, ao contrário de outros shows tumultuados do quarteto.

Dá arrepios ouvir a vibração dos Pistols ao vivo, que chutam para longe a firula e praticamente vomitam as letras desesperadas e os acordes enérgicas de suas canções. Uma delas (também incluída em versão de estúdio no CD 1) é a avassaladora releitura de No Fun, dos Stooges, com mais de cinco minutos de pura explosão rocker.

Os CDs vem acomodados em belíssima embalagem digipack que se abre em quatro divisões, com direito a um caprichado encarte colorido repleto de fotos e informações. Só faltaram as letras, omissão praticamente imperdoável, se levarmos em conta as fortes mensagens contidas nelas. Mas dá para passar, levando-se em conta a excelência do material apresentado.

A ironia fica por conta de um trecho de God Save The Queen, que diz “no future for you” (não há futuro para você). Bem, com exceção de Sid Vicious, que morreu em 1979 vítima de sua própria inconsequência, os outros integrantes da banda estão aí até hoje, e se deram muito bem para quem veio tão de baixo. Ou seja, tiveram um belo futuro, no fim das contas…

Ouçam Never Mind The Bollocks Here’s The Sex Pistols na íntegra:

Milton- Milton Nascimento (A&M-1976)

Por Fabian Chacur

No dia 26 deste mês, Milton Nascimento completará 70 anos de idade. Até lá, Mondo Pop pretende homenageá-lo com vários posts. Iniciaremos a série com o comentário sobre o álbum Milton (1976), terceiro trabalho gravado por ele destinado ao mercado internacional e um dos mais recentes lançamentos da excelente coleção da Abril dedicada ao Bituca de Três Pontas vendida em bancas, sobre a qual já falamos aqui no blog.

Milton foi gravado em 1976 nos EUA, respectivamente nos estúdios Shangri-La Studios (Malibu) e The Village Recorder (Los Angeles). O repertório traz releituras de sete músicas que já haviam sido lançadas anteriormente em álbuns do astro brasileiro e duas inéditas, Raça e a instrumental Francisco.

As releituras foram vertidas para o inglês, como Cadê (Fairy Tale Song), Nada Será Como Antes (Nothing Will Be As It Was) e Tostão (One Coin). Em alguns casos, como Saídas e Bandeiras (Exits And Flags) e Cravo e Canela (Clove And Cinnamon), só o título surge nessa língua, com os versos em português sendo os interpretados pelo cantor. As traduções em inglês, no entanto, aparecem no encarte do CD.

O grande barato deste álbum é o fato de mesclar músicos brasileiros tarimbados na missão de tocar com o genial autor de Travessia, como Novelli (baixo), Toninho Horta (guitarra) e Robertinho Silva (bateria) com alguns brazucas radicados nos EUA (os percussionistas Airto Moreira e Laudyr de Oliveira e o trombonista Raul de Souza), o tecladista uruguaio Hugo Fattoruso e os jazzistas americanos Wayne Shorter (sax) e Herbie Hancock (teclados).

Tocando de forma ao mesmo tempo disciplinada e solta, esses craques conseguiram a façanha de respeitar os arranjos originais das músicas já gravadas anteriormente, acrescentando a eles um tempero de improvisos tipicamente de jazz rock, proporcionando ao ouvinte um prazer auditivo de grandes proporções e muitas descobertas.

Não que as releituras sejam melhores do que os registros originais feitos no Brasil por Milton. Elas, na verdade, funcionam de uma maneira complementar, como que provando a incrível riqueza das canções do Bituca e as inúmeras possibilidades musicais e harmônicas que elas oferecem aos músicos que por ventura resolvam trabalhar com elas.

As minhas favoritas são a sacolejante Raça, a divina Fairy Tale Song e a deslumbrante One Coin, feita para o documentário Tostão A Fera de Ouro (1970) e descoberta por mim (em sua versão original) quando era ainda uma criança. Sinto arrepios sempre que a ouço, e essa releitura é particularmente inspirada.

O clima de diversão e prazer entre Milton Nascimento e os músicos que estão com ele nesta empreitada é transposto para cada nota musical tocada por eles no álbum, algo que ele conseguiu repetir por diversas vezes em sua carreira, pelo menos em seus anos de ouro, do fim dos anos 60 até 1985. Tipo do disco delicioso, e que tem ainda o mérito de ter lançado Raça, uma de suas canções mais emblemáticas.

Ouça One Coin, com Milton Nascimento:

Ouça Fairy Tale Song, com Milton Nascimento:

Hot Rats, de Frank Zappa, volta às lojas

Por Fabian Chacur

A família de Frank Zappa (1940-1993), através de seu selo Zappa Records, está iniciando uma série de relançamentos oriundos da extensa discografia desse genial e polêmico cantor, compositor e guitarrista americano. Com distribuição a cargo da Universal Music, os títulos também sairão no Brasil. O primeiro a cair nas mãos de Mondo Pop é Hot Rats.

Lançado originalmente em 1969, este álbum é o primeiro trabalho lançado por Zappa como artista solo após o fim da primeira formação dos Mothers Of Invention, grupo que o tornou conhecido especialmente no cenário underground do rock americano.

Além dele na guitarra, baixo octavado e percussão, temos o ex-colega de Mothers of Invention Ian Underwood nos teclados e sopros. O álbum inclui participações especiais de Captain Beefheart (vocais na única faixa não totalmente instrumental do álbum, Willie The Pimp), Jean-Luc Ponty (violino), Sugar Cane Harris (violino) e John Guerin (bateria).

Hot Rats pode ser considerado um dos primeiros (se não for o primeiro mesmo!) trabalhos do gênero musical posteriormente rotulado como jazz-rock, que neste caso específico significa uma mistura do vigor e da eletricidade do rock (beirando o hard rock e o blues rock em vários momentos) com a liberdade de improvisação do jazz.

Os seis temas incluídos no álbum cativam o ouvinte logo em seus instantes iniciais, e servem como belíssimo cartão de apresentação para o virtuosismo de Frank Zappa como guitarrista, especialmente nas fantásticas Peaches En Regalia (a faixa mais famosa deste CD), Son Of Mr. Green Genes e The Gumbo Variations, essa última uma espécie de heavy metal sofisticado.

Duas faixas possuem menos de quatro minutos, outra pouco mais do que cinco e três vão além dos oito minutos, mas não temos aqui aquela praga que por vezes assola a música instrumental e o jazz, que é o músico tocando para si e se lixando para os ouvintes e até seus colegas de banda, aquilo que pode ser determinado como masturbation music.

Em Hot Rats, Zappa e seus asseclas improvisam em cima de temas instrumentais bem construídos e atrativos, e certamente cativam os ouvintes pela fluência e musicalidade de seus solos, repleta de passagens criativas e mesclando elementos musicais oriundos das mais variadas fontes, como música latina, erudita e folk/country, por exemplo.

Não vou dar uma de espertinho: só tive a oportunidade de ouvir esse álbum agora, 43 anos após o seu lançamento. Mas isso me possibilitou perceber o quanto se trata de um trabalho que soa coeso, instigante e moderno, mesmo tantas décadas após chegar às lojas.

É como se tivesse sido lançado agora, e certamente influenciou (e influenciará) muita gente boa por aí. Mais indiscutível do que isso, está difícil!

Ouça The Gumbo Variations, com Frank Zappa:

Ouça Peaches En Regalia, com Frank Zappa:

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