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Marku Ribas em entrevista histórica feita em 2009

marku ribas

Por Fabian Chacur.

Há entrevistas que marcam a vida de quem a realizou. E esta, feita por mim em 2009 para o site do projeto Conexão Vivo, certamente foi uma delas. Entrevista que tinha tudo para ter dado errado. Para começo de conversa, eu conhecia quase nada sobre o artista em questão, o grande Marku Ribas. Lógico que, antes da conversa que tive com ele, ocorrida onde ele morava na época, no bairro de Pinheiros, eu havia feito minha lição de casa e tinha a precisa noção do tamanho artístico do cara. Mas, ainda assim, não foi fácil.

Ele me recebeu com gentileza, mas mantendo uma certa distância, digamos assim. Como habitualmente faço nessas circunstâncias, fui cauteloso, tentando aos poucos conquistar a confiança do meu entrevistado. Ele acendeu um cigarro da erva preferida de Bob Marley (eu declinei, mas aceitei democraticamente que ele o consumisse) e foi aos poucos falando. E falando. E falando. Resultado: fiquei horas ao lado desse mestre. E aprendi muita coisa.

Como pesquisei e não encontrei esse texto na internet, resolvi republicá-lo aqui em Mondo Pop, até como homenagem a esse grande cantor, compositor e multi-instrumentista mineiro. E vale o registro: fiquei muito feliz ao perceber que, no fim desse longo papo, eu o havia conquistado. Que ele esteja em um lugar bem melhor do que esse aqui!

Entrevista Marku Ribas (1947-2013)

Um barranqueiro da gota

Conexão Vivo, por Fabian Chacur

Marku Ribas lança novo DVD e continua inquieto e criativo, aos 61 anos de idade e 47 de carreira, como você poderá conferir em entrevista exclusiva.

Após mais de três horas passadas em seu apartamento em São Paulo, período no qual tive a oportunidade de fazer uma entrevista e também de conferir momentos importantes e raros de sua obra em DVD, fiz uma última pergunta ao cantor, compositor, músico e ator Marku Ribas: o que é música, para você? A resposta veio de bate pronto, com uma única palavra: “vida!” E viver é algo que esse artista mineiro sabe fazer como poucos.

Nascido em 19 de maio de 1947 na cidade de Pirapora (MG), próximo às barrancas do rio São Francisco, ele se desdobrou em uma carreira das mais prolíficas. Em termos musicais, gravou o primeiro disco ainda em 1967, e desde então, tornou-se referência e influência para artistas do naipe de João Bosco, Tunai, Ed Motta e inúmeros outros. Suas composições foram gravadas por Alcione, Paula Lima, João Donato, Elza Soares, Jair Rodrigues etc. Morou em Paris e no Caribe, e tem sempre grande público em seus shows pelo Brasil e exterior.

No cinema, estreou em 1970 logo em um filme do influente cineasta francês Robert Bresson, Quatre Nuits D’um Reveur, e encarnou papéis como os de Luis Carlos Prestes e Carlos Marighella. Recentemente, fez sucesso como crooner da banda que toca no delicioso filme Chega de Saudade, de Laís Bodanski, ao lado de Elza Soares. Ele acaba de lançar o DVD Toca Brasil, gravado ao vivo em São Paulo, e se desdobra para realizar diversos outros projetos. Em extensa e reveladora entrevista exclusiva a Conexão Vivo, Marku fala do DVD, da carreira, dos planos, projetos……

CONEXÃO VIVO- Para começar, fale um pouco sobre o DVD Toca Brasil, como esse trabalho foi concebido, e a importância dele em sua trajetória artística. O mesmo está saindo pela via independente, não é isso? O que te fez buscar esse caminho?
MARKU RIBAS
– Quando percebi, no tempo em que gravei na Philips (hoje, Universal Music), que de 100% gerado pelo disco ficavam apenas 14% no país para gerenciar tudo que eles queriam fazer aqui, ganhavam um dinheirão, desperdiçavam até um certo ponto e o resto ia para as matrizes, vi que não poderia continuar nessa. O que ocorre? É preciso equacionar bem, como se faz na música, na arte, onde você escolhe acordes, divide os tempos, tira verso, põe verso. Teu companheiro dá palpites, troca um acorde e outro, até gravar. É uma elaboração, como se faz uma correção de texto. E na parte financeira para uma produção de disco, cinema ou teatro, é a mesma coisa que se tem de levar em conta, para se fazer isso de forma mais justa. Com esse evento do Itaú Cultural, que tem na sua iniciativa social e artística fenomenalmente uma posição de cidadã, porque usa recursos do sistema financeiro que não são poucos, objetivando a evolução da arte, eles propiciam realizar um evento que vale dinheiro, porque quando você coloca cinco câmeras, uma grua com câmera elevada que capta imagens especiais, cenografia, pessoal do som muito competente, isso tudo engrandece o espetáculo. E num ambiente calmo, gentil, tranqüilo. Tinham até um adesivo fluorescente verde colocado no chão do palco para me guiar quando eu precisava entrar em cena no escuro para colocar um instrumento. O som saiu muito bom, dividimos muito as opiniões de timbre e volumes.

CONEXÃO VIVO- E como ocorreu a parte comercial do produto DVD, como ele está sendo comercializado, e como funcionam as porcentagens para cada um dos envolvidos?
MARKU RIBAS
– Proporcionando toda essa infraestrutura, o banco quase te obriga a encontrar um selo para sair com o DVD, pois é a grande oportunidade de lançar músicas, no meu caso quase todas inéditas. Aí, me associei à Mais Brasil, de Belo Horizonte, são os companheiros da Cria Cultura, que tem uma estrutura muito boa e criaram a editora para edições musicais e o selo Mais Brasil para o lançamento de DVDs e CDs. E temos a distribuição feita pela Tratore. Estamos atualmente no Top 20 de vendagens de DVDs, na internet. Agora estamos entrando na fase de divulgar o produto nos programas de tevê, na mídia em geral. Tocam nele o maestro Tiquinho, no trombone, o Bruninho Buarque (que toca com a Céu e o grupo Barbatuques) na percussão e o gaúcho Xandelle na guitarra. O DVD é muito autêntico, cara-a-cara, assino tudo embaixo. As músicas traduzem tudo. Eu tive de assumir 50% para mim como autor, músico, minha personalidade, meu nome, sou autor das músicas, arranjador etc. Dei 20% para o Eduardo BID, que é o produtor, e 30% para a Cria, para conseguir viabilizar o projeto.

CONEXÃO VIVO- Recentemente saiu uma coletânea intitulada Zamba Ben, com uma seleção de suas músicas. Como você a avalia? Encara como uma boa iniciação para quem não conhece a sua obra?
MARKU RIBAS
– Essa compilação foi lançada pelo selo Dubas Música, que é do Ronaldo Bastos, um grande letrista que fez coisas com o Milton Nascimento, Beto Guedes. O Ed Motta, admirável músico e meu amigo, bolou essa coletânea, escolheu as músicas, fizeram a remasterização, pagaram os direitos às editoras direitinho, valorizaram na nossa negociação. Ed é humilde, diz que se surpreendeu comigo ao me ver tocar ao vivo em Londres e Nova York. Aí, foi atrás do meu trabalho. Eles pegaram músicas boas que soam atuais. Escrevi para o encarte do CD informações sobre cada faixa, e também sobre a minha vida e carreira. Se eu fosse você, iria procurar essa coletânea, mesmo, pois é muito boa!

CONEXÃO VIVO- Você teve algumas experiências ao lado do Mick Jagger, dos Rolling Stones, inclusive gravando com essa banda. Como rolou essa história toda? É verdade que você não recebeu um tostão por ter gravado com eles?
MARKU RIBAS
– Conheci o Mick Jagger em 1968, quando ele foi jantar em um restaurante no Rio de Janeiro onde eu estava, e conversamos. Anos depois, em 1984, eu trabalhava em um musical do Oscar Castro Neves, e me avisaram que estavam fazendo no hotel Copacabana Palace a seleção para participar de um videoclipe do Mick Jagger para a música Just Another Night, do disco solo dele She’s The Boss (1985). Acabei sendo escolhido para viver o baterista no clipe, dirigido pelo cineasta Julien Temple. O percussionista Café, que tocou com o Djavan, também participa. Aí, o Mick perguntou se eu estaria na Europa no ano seguinte, e por coincidência, eu iria para Paris naquele período. Ele me convidou para gravar com os Rolling Stones. Fui para Paris com a peça do Oscar, com 62 integrantes. Aí, ele mandou um carro de luxo me buscar, e fui com o Mário, um amigo meu que tocou comigo no grupo Batuki, gravar. Participei da faixa Back To Zero, do CD Dirty Work (1986), toquei tambor marroquino de pele de peixe e cerâmica e uma cuíca de boca. A gravação ocorreu no estúdio da EMI em Paris. Não cobrei dinheiro, não, pois tinha um monte de burocracia para poder receber. Foi uma cortesia que fiz para eles. Hoje, teria cobrado, e até mais caro. (risos) Não tem o crédito no disco, o que me deixou magoado, acho que isso é pior do que não ter recebido.

CONEXÃO VIVO- Seus shows são sempre muito elogiados, e não se restringem a um único formato. Como você os planeja?
MARKU RIBAS
– Procuro adequar o meu show aos espaços onde toco, e é a partir daí que escolho como será a formação. O violão você precisa tocar sentado, já a guitarra é em pé. Quando toco de pé, posso me dedicar mais à parte de coreografia, de dança. Tenho o show que você pode pagar, desde um trio, quarteto, eu sozinho, tenho versatilidade para me adaptar aos mais diversos tipos de situação.

CONEXÃO VIVO- Você tem um projeto musical envolvendo músicos muito conhecidos e em vias de ser concretizado. Fale um pouco sobre ele, e quando o mesmo será viabilizado.
MARKU RIBAS
– Esse projeto é gravar um CD com João Donato no piano, Maurício Einhorn na gaita e o Raul de Souza no trombone. O projeto chama-se Croas e Loas e em função dele visitaremos oito cidades. A utilização de lei de incentivo já está aprovada, e o patrocinador para viabilizar tudo também está a caminho, acho que isso será concretizado em breve.

CONEXÃO VIVO- Você tem participado do Conexão Vivo. Como avalia esse projeto, e qual a importância do mesmo os artistas?
MARKU RIBAS
– O intercâmbio promovido pelo Conexão Vivo entre artistas novos e veteranos renova todo o contexto, não só o conhecimento, a oportunidade de fazer novos amigos, como o lado cênico e artístico de cada um sendo explicitado, a contextualização de cada um, pois não dá para comparar artistas, cada um tem o seu caminho, suas características próprias. E você ainda ganha um novo público com esse tipo de evento.

CONEXÃO VIVO- Sua participação no filme Chega de Saudade, da Lais Bodanski, foi muito elogiada. Qual a importância do mesmo em sua trajetória como músico e ator, e como foi trabalhar ao lado de Elza Soares, que já gravou músicas suas?
MARKU RIBAS
– A Elza é uma entidade, uma mulher brasileira que deve ser muito respeitada por toda a sua história, o seu favelismo. Uma mãe solteira na favela, negra, com um marido bêbado que lhe batia todos os dias, e aí ela se rebela contra tudo isso, até conhecer Garrincha, a quem ela ajudou muito financeiramente e como mulher, ao contrário das críticas injustas que recebeu na época. É uma cantora de personalidade forte, como o foram Monsueto, Noite Ilustrada, aqueles negões que cantam de um jeito diferente, que não dá para ser igual, cantam de forma rascante e que trazia toda aquela revolta natural do sofrimento que vivenciaram. Quando o Ary Barrozo perguntou em um programa de rádio de que planeta a Elza vinha, ela respondeu que era do planeta fome! (risos). Respeito muito ela, admiro-a como artista, suas posições e atitudes. Esse filme nos aproximou mais ainda. A Laís sempre foi muito gentil conosco, nos dirigiu muito bem. Gostei de fazer o filme, cuja trilha sonora ganhou como a melhor do cinema brasileiro em 2008.

CONEXÃO VIVO- Sua primeira experiência em cinema foi em Paris, e logo com um diretor famoso, o Robert Bresson. Como isso ocorreu?
MARKU RIBAS
– Morei em Paris entre 1970 e 1971. O Bresson tem uma importância fundamental, inovou para que uma indústria de cinema, sendo mais autêntica, pudesse ser mais barata, mais objetivamente construída, tirou aquelas câmeras pesadíssimas de Hollywood, aquela estrutura enorme, e fez a câmera na mão, o cinema mais objetivo, caminhando com o ator pelas ruas, sentindo a sensibilidade cara-a-cara, entrando nos becos. Esse filme analisa quatro noites de sofrimento sobre o amor, uma senhorita linda que se apaixona por alguém que irá voltar dali a um ano no mesmo lugar, na mesma praça e no mesmo horário. Durante quatro noites, ela está lá, mas ele não vem. Ocorre algo surpreendente na quarta noite, e ela, sozinha, é percebida por um pintor sensível, francês, estudante de pintura, que vê nela uma musa, se aproxima, a vê melancólica e conversa com ela. Aí, entra a cena de eu e o meu grupo na época, o Batuki, do qual fazia parte o Mário (o mesmo que foi comigo na gravação com os Rolling Stones em 1985), tocando dentro de um barco que descia o rio Sena. O casal fica absorvido pela música, vem em direção ao cais, e a música virou uma protagonista no roteiro. No mesmo ano, fiz outro filme por lá com o cineasta Jean-Mark Tibaut, Revolucion, no qual representei o Luis Carlos Prestes.

CONEXÃO VIVO- Aliás, é verdade que a trilha sonora desse filme nunca foi lançada, e que você tem as fitas masters da mesma?
MARKU RIBAS
– É verdade. As músicas foram gravadas em 1970 no estúdio do Michel Magne, que ficava a 19 quilômetros de Paris, na estrada de Lyon, chamava Chateau de Rouville. Está na minha mão, estou esperando negociações para poder lançá-lo com prensagem, remasterização, capa nova, divulgação, isso tudo.

CONEXÃO VIVO- Você teve outras experiências interessantes em termos de cinema. Fale sobre elas, e também qual é a importância para você de atuar como ator.
MARKU RIBAS
– Vivi o papel do Carlos Marighella no filme Batismo de Sangue, do Helvécio Ratton, ao lado de Caio Blatt, Ângelo Antonio, Cássio Gabus Mendes, Daniel de Oliveira, uma turma boa. Gosto muito de cinema. No momento, gravo participação no filme do Fábio Barreto, Lula, O Filho do Brasil, vivendo um sindicalista aposentado que era uma espécie de consciência do movimento. Será uma participação curta, mas contextualizada, ele vigiava e pegava no pé dos caras, para manter a coisa longe do peleguismo. A cena é gravada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Acho fundamental a documentação da história do Brasil, dessa coisa da Ditadura, da “Redentora”, para que nunca mais ocorra algo assim neste País, e esses filmes sobre nossa história tem esse papel.

CONEXÃO VIVO- Por sinal, uma das razões pelas quais você saiu do país no final dos anos 60 foi a Ditadura Militar, não é isso?
MARKU RIBAS
– É verdade. Fui preso no dia 27 de outubro de 1968 no Leblon, no Rio de Janeiro, pelo Exército Brasileiro. Uma experiência injusta. Eu fazia críticas em músicas como Alerta Geral, que na época chamava-se Canto Certo e que foi gravada pela Alcione em 1978, no seu LP Alerta Geral, que depois virou também nome do programa de televisão que ela apresentou na Rede Globo. Eles proibiram de forma absurda porque não havia conteúdo para ser proibido, era apenas uma sátira musical, uma crítica inteligente e bem-humorada. Outra música que me causou problemas foi a Nunca Vi, com os versos “nunca vi país democrata ter tanto rei, tanto rei, tanto rei, rei do rock, do samba, da bola, enquanto isso, outra criança chora, e o palácio anuncia outro rei”. Vivi na França e também quatro anos no Caribe.

CONEXÃO VIVO- Fale um pouco sobre a sua forma de atuar, como ator.
MARKU RIBAS
– Procuro incorporar o personagem que faço, sair da pessoa que você conhece, e aí, você não me vê mais, você vê o personagem lá. Tenho feito vários projetos, como um ditador de república das bananas em Uma Nova Bandeira Para a Nação, do jovem cineasta Paulo Marcelo Tavares do Valle, da Faap. A escola do cinema no Brasil é muito boa, temos um cabedal desde Humberto Mauro, aproveitamos bem as lições dos irmãos Lumiére e desenvolveu-se o Brasil do cinema competente, porque em outras áreas não somos, mesmo.

CONEXÃO VIVO- A sua formação como músico é riquíssima em termos culturais e de intercâmbios. Dá para fazer um pequeno resumo de tudo isso?
MARKU RIBAS
– A surpresa do chamado original, atávico, autóctone, que são sinônimos do mesmo sentimento, as pessoas que tem cultura própria onde nasceram, já ali. As manifestações folclóricas, a música erudita, eu tive a sorte de presenciar tudo isso com o meu pai, meu avô, meu bisavô, que era mouro. Meu pai, como médico, tinha muito interesse pela vida. Ele gostava de cantar coisas de Caruso, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Orlando Silva, fazia serenatas nas horas vagas. Captei a diversidade das coisas, até do cantochão, da música nas igrejas, a confluência indígena, com influência negras e com o meu avô materno português. Sou barranqueiro da gota, como existem os cariocas da gema, os paulistanos etc. Represento uma cultura do rio São Francisco que tem semelhanças de espectro com o Rio Vermelho da China, o Rio Nilo da África, o Mississipi americano, são sentimentos iguais em lugares díspares, mas com uma vivência muito igual de depender da pescaria, da chuva, do sol, da enchente.

CONEXÃO VIVO- E como isso tudo foi se desenvolvendo? Você sente influências de outros artistas no seu trabalho e do seu trabalho no dos outros?
MARKU RIBAS
– Faço sons com as mãos, no rosto, na testa, na bochecha, desde que era criança, alguma coisa eu aprendi com a minha mãe. Uma verdadeira sinfonia corporal. Aí, descobri o gutural, os sons onomatopaicos que traduzem não palavras ou línguas, mas sentimentos. Fui incorporando isso tudo enquanto ouvia grandes violonistas como Dilermando Reis, Manoel da Conceição, Baden Powell, Manoel da Conceição Mão de Vaca, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, e um gênio da minha região, o Deoclécio, que morreu cedo tragicamente e que fazia cada “aranha” nos acordes que a gente não tinha a menor noção do que era, grande guitarrista e violonista. Sou parceiro de Erasmo Carlos, Walter Queiróz, João Donato, Djalma Correa. Tenho essa noção do violão cheio, violão magnífico, que se toca em todas as regiões do instrumento. Sou ainda um aprendiz de tudo, sim, mas tenho o bom senso e a sensibilidade de ter colocado alguns craques no jogo, como o baixista Artur Maia, o violonista Romero Lubambo, o tecladista Jotinha Moraes, que começaram tocando e gravando comigo. Vejo influências minhas em Eduardo Dussek, João Bosco, Tunai, Ed Motta e João Donato, entre outros.

CONEXÃO VIVO- Marku, sua história de vida é riquíssima. Já pensou em escrever uma biografia contando tudo isso?
MARKU RIBAS
– Boa pergunta. Já estou fazendo isso, uma autobiografia que intitulei Marku Por Marco Antonio, e para a qual vou procurar patrocínio, editora etc. Para quem não sabe, meu nome de batismo é Marco Antonio Ribas. Criei o personagem Marku para homenagear a tribo Cariri Macu, da minha região, onde tem um sítio arqueológico de 2.500 anos com resquícios históricos da vivência dessa tribo indígena na barranca do Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, entre Pirapora e Buritizeiros. Já escrevi contando coisas que ocorreram comigo entre o meu nascimento em 1947 até 1977. Acho que depois farei um segundo volume, contando todo o resto. Nasci em um 19 de maio com eclipse total do sol, que tem toda uma influência cósmica, elétrica, na espiritualidade, também. Vou contar histórias nesse livro que farão muita gente cair de costas (risos). Por exemplo, como era quando eu cheguei em São Paulo em 1967 e gravei logo de cara um LP pela Continental. Eu namorava a passadeira e lavadeira para livrar a passagem e a lavagem de roupa. (risos) Ia às cinco da manhã às rádios para fazer a divulgação do disco, que na época era chamada de “caitituagem”. Também estou escrevendo outro livro, Moemas e Moemas, que será de poemas sobre amor, a vida etc.

CONEXÃO VIVO- Você tem um problema com o Marcelo D2 em relação a direitos autorais e conexos. A quantas vai essa história?
MARKU RIBAS
– O Marcelo D2 está usando a minha gravação de Zamba Ben não como um sampler, simplesmente, como ele declara no disco A Procura da Batida Perfeita, mas como um plágio. Ele usa a minha música o tempo todo na dele. A Maldição do Samba é o Zamba Ben lá dentro, o meu violão, o baixo do Cláudio Bertrami, o som dos músicos que participaram dessa minha gravação. Todo mundo está lá, e não recebem direitos conexos, e nem eu, como autor. Ele não me pediu autorização, a editora Arlequim comeu mosca, também. Está em litígio na justiça, mas está demorando, três anos já se passaram. Ele gostou tanto que já colocou essa música em três discos dele, virou o carro-chefe dele. Zamba Ben é um avanço, uma porrada, música criativamente brasileira para dançar, com contexto internacional que não fosse batuque ou samba, somente.

Zamba Ben– Marku Ribas:

Zé Brasil chega aos 71 anos mais ativo e criativo do que nunca

crédito: Dean Cláudio

crédito: Dean Cláudio

Por Fabian Chacur

O rock brasileiro possui algumas figuras incríveis que, por uma razão ou outra (ou por várias delas), não são reconhecidas como deveriam. Zé Brasil é certamente uma desses caras que você precisa conhecer para aprender detalhes importantes da história do nosso amado rock and roll brazuca.

Com 71 anos de idade e cinco décadas de estrada como cantor, compositor e músico, ele acaba de lançar um álbum espetacular, DoisMilEVinteUm, disponível em formato físico e também nas plataformas digitais. O disco traz participações especiais de nomes do porte de André Christovan, Fabio Golfetti (Violeta de Outono), Rolando Castello Júnior e Roberto Lazzarini, entre outros.

Vale lembrar que ele é parceiro de Arnaldo Baptista, gravou com Edgard Scandurra (Ira!) e Billy Forghieri (Blitz) e participou em 1975 do lendário Festival de Águas Claras, só para citar mais alguns feitos desse talentoso roqueiro paulistano. Em deliciosa entrevista a Mondo Pop, ele dá uma geral em sua trajetória e fala sobre este novo CD.

Mondo Pop- Fale um pouco do conceito por trás de DoisMilEVinteUm. Você lançou previamente quatro das 11 faixas em 2020 em um EP digital. Desde aquele momento já existia a ideia de criar este álbum completo que saiu agora ou isso veio depois?
Zé Brasil
– Você usou a palavra certa: conceito. “DoisMilEVinteUm” é um CD conceitual, para levantar a moral em meio à tragédia. Lancei online em 2020 o EP com quatro músicas e no final do ano o álbum completo com 11 músicas finalizadas durante esse tempo que marcou nossa geração pelo perigo e pela dor. Agora, no início de 2021 lancei a versão física. Todas as músicas já tinham sido lançadas como singles na maioria das plataformas através da distribuição da Tratore. Foi a primeira vez que usei essa estratégia de lançamento e o resultado está sendo muito interessante.

Mondo Pop- Em termos musicais, o seu novo álbum é bem diversificado, com vários estilos sendo desenvolvidos. Mas quem ouve certamente perceberá uma unidade, um sotaque próprio, que liga tudo. Fale um pouco sobre isso.
Zé Brasil
– Uma das minhas características como compositor é o ecletismo emoldurado pela linguagem do rock. Acho que isso decorre da minha formação como baterista, pois a bateria é um instrumento que propicia a execução de diversos gêneros musicais através dos diferentes ritmos. A unidade intencional transparece nos temas e nas letras das músicas. Pelas canções, busco transmitir uma mensagem com energia, alegria e esperança.

Mondo Pop- Como pintaram as participações especiais? Essa, digamos assim, troca de figurinhas com outros músicos é um elemento fundamental na sua criação, uma espécie de modus operandi seu?
Zé Brasil
– Tenho o privilégio de conviver e partilhar da amizade de grandes artistas e músicos de diversas gerações. Sempre quando me proponho a uma nova tarefa musical, tanto nos palcos como nos estúdios, convido e peço a colaboração dessa elite transgeracional. Atualmente, na minha carreira solo, isso tem se intensificado e enriquecido todas as canções, em geral a partir de guias e arranjos de base que eu forneço. Acostumado ao trabalho coletivo nas bandas, essa situação traz novas possibilidades e mais liberdade de criação artística.

Mondo Pop- Uma de suas músicas do novo álbum intitula-se Povo Brasileiro. Fale um pouco sobre a mesma, e sobre o seu recado.
Zé Brasil
Povo Brasileiro é um testemunho poético/musical da visão mágica e psicodélica da nossa gente que compartilho com meu parceiro/letrista Nico Queiroz. Nossa atual realidade, careta e preocupante, ainda nos permite sonhar com um mundo novo regido pela paz, amor e compaixão.

Mondo Pop- Quando surgiu o nome artístico Zé Brasil? Como você se sente levando o nome de seu país nas costas? Rsrsrsrs
Zé Brasil
– Antes de tudo, é uma prova de fé e amor pela nossa terra. No final dos anos 1960 e começo dos 1970, na sala de visitas da minha casa da rua Padre João Manuel, no bairro Cerqueira César da capital paulista, os músicos ensaiavam e improvisavam (principalmente) com nossas namoradas e amigas. Era uma atividade amadora, mas que nos ajudou muito nas futuras atividades profissionais. Chegamos inclusive a nos apresentar no Colégio Equipe e na Fundacão das Artes de São Caetano do Sul, levando de trem a banda e os instrumentos até aquela cidade da Grande São Paulo. Eu nomeei essa turma de Grupo Brasil, e desde então fiquei conhecido como Zé Brasil. No ano de 1972 me apresentei pela primeira vez como Zé Brasil e a nata dos músicos que tocavam comigo no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Já em 1973, em Arembepe, na Bahia, o espírito do Zé Brasil se incorporou definitivamente em mim através de uma viagem de ácido e viola caipira.

Mondo Pop- Como a música surgiu na sua vida, e como foi o seu início na carreira de músico?
Zé Brasil
– Acho que eu fui predestinado: meu primeiro presente, que ganhei da minha mãe quando nasci, foi um pandeirinho… hehehe. Sou descendente de músicos e políticos. Meu tataravô paterno fundou a banda Aurora Aparecidense em 1886 na cidade de Aparecida do Norte (SP), e o pai dele já era músico. Meu avô materno liderou a independência de Aparecida e foi seu primeiro prefeito. Meu tio foi ministro no governo Sarney. No meu caso, desde cedo ouvia todo tipo de música na vitrola de casa: brasileira, erudita, orquestras americanas etc. Também me maravilhava com os saraus na casa das minhas tias em Aparecida, onde meus parentes demonstravam toda a sua maestria cantando e tocando as peças do repertório erudito no piano, violino e cello. Aí veio o rock and roll e me abduziu. Estamos falando dos meados da década de 1950 e a bela professora de piano surge como mais um estímulo para me jogar de corpo e alma nessa estrada. No início da adolescência me aventurei no violão com os cadernos de aulas do meu irmão. Também comecei a compor, mas aos quinze anos a bateria, que já me seduzia, me conquistou definitivamente. De lá para cá muita água passou debaixo dessa ponte: estudei, viajei, conheci muita gente incrível e pratiquei muito para me apresentar e gravar da melhor forma possível, sempre respeitando a música como arte, missão e o ouvinte como prioridade.

Mondo Pop- O documentário O Barato de Iacanga trouxe para as novas gerações o trabalho do seu grupo Apokalypsis. Fale um pouco sobre ele, sobre como foi a participação no Festival de Águas Claras em 1975, e do porque o grupo acabou. Pensa em voltar com ele um dia?
Zé Brasil
– Saí da Space Patrol em meados de 1974 para fundar o Apokalypsis. O Prandini (guitarra, sax, flauta e viola caipira) já tinha tocado comigo e trouxe o Tuca Camargo (piano). O Edú Parada (in memoriam, baixo) me foi indicado pelo Rolando Castello Junior (n da r. :fundador e líder do grupo Patrulha do Espaço) que era meu amigo e vizinho. Ensaiávamos todos os dias e logo fomos contratados pela Trinka Produções Brasileiras, do empresário Fernando Tibiriçá. Nossa estréia oficial foi no TUCA, que era o templo dos grandes shows musicais da época. Depois, nos apresentamos no Teatro Aquarius, ainda em 1974, num show memorável, gravado e depois lançado pelo meu selo Natural Records em 2009 no CD “1974”. No início de 1975, fomos contratados pelo empresário Gabriel Neto e participamos do Festival de Águas Claras tocando duas horas e meia para um público acordando num domingo de sol. Não queriam nos deixar sair do palco. Fomos até Londres em 1978 e o nosso farewell show da fase setentista foi em fevereiro de 1979. O Apokalypsis voltou aos palcos em 2006 e continua hibernando nos shows ao vivo por causa da pandemia, mas contando com novos integrantes para apresentar seu repertório progressivo setentista e novas músicas compostas no Século XXI. Também lançou novos álbuns, CDs e se apresenta com grandes artistas convidados nos shows do Movimento 70 De Novo que fundei com meu parceiro Nico Queiroz em 2006.

Mondo Pop- Como foi a sua parceria com o Arnaldo Baptista, especialmente na criação do Space Patrol, e porque você não seguiu adiante com aquele grupo? Fale um pouco sobre a canção que vocês compuseram juntos.
Zé Brasil
– Antes de viajar para os Estados Unidos, participei do Festival de São Lourenço, Minas Gerais, em meados de 1973. O Arnaldo Baptista tinha acabado de sair dos Mutantes e também se apresentou lá. Já o conhecia desde 1968 no Tropicalismo, mas foi então que ficamos amigos. Em seguida fui para os EUA onde, além de viajar de carona pela costa leste de Miami a Nova York e depois cruzar o país até a Califórnia, toquei bastante em San Francisco, tanto na rua quanto em coffee houses e nightclubs. Na volta, reencontrei o Arnaldo e, com o Alan Kraus que era técnico dos Mutantes e guitarrista, fundamos a Space Patrol no final de 1973. Depois o Alan, que deu o nome à banda, saiu, e entrou o guitarrista Marcelo Aranha (in memoriam). A Space Patrol ensaiava sempre na casa do Arnaldo na Mutantolândia da Serra da Cantareira, assim como os Mutantes do Sergio Dias e o Tutti Frutti da Rita Lee na casa do Sergio. Jams memoráveis aconteciam frequentemente com os músicos das três bandas. Ensaiávamos, desde novembro de 1973, o repertório do disco Loki? que o Arnaldo iria gravar no segundo semestre de 1974. Tivemos o privilégio de participar dessa gestação e da formatação dos arranjos das músicas. Apresentamos esse repertório em dois grandes festivais no Parque do Ibirapuera: no final de 1973 e em janeiro de 1974. A curiosidade do Show do Cometa, como ficou conhecido o primeiro em 1973, é que foi a única apresentação em que os três Mutantes originais se apresentaram com suas bandas: Arnaldo Baptista (Space Patrol), Sergio Dias (Mutantes) e Rita Lee (Tutti Frutti). O segundo festival, comemorando o aniversário de São Paulo, foi nossa melhor performance, com grandes bandas paulistanas (Som Nosso, Made in Brazil, Mutantes), quando apresentamos na íntegra o repertório do que viria a ser o Loki? para um público estimado em 25 mil pessoas. Depois, continuei ensaiando com a Space Patrol até meados de 1974, quando amigavelmente saí para fundar o Apokalypsis, minha banda do coração até hoje. O único integrante da Space Patrol que gravou no Loky? foi o saudoso baixista Sergio Kaffa, que entrou em 1974 e nunca se apresentou ao vivo com a gente. Minhas melhores lembranças desse tempo estão em imagens em Super 8 mm do Mario Luiz Thompson da nossa presença no Festival da Saúde Perfeita, de novo em São Lourenço, em 1974. O legado da Space Patrol está também registrado na música Cabelos Dourados, que compus em 2005 com uma letra que o Arnaldo me deu nas manhãs setentistas da Cantareira em 1974. É um rock and roll que contagia as plateias e ouvintes nos shows do Apokalypsis.

Mondo Pop- Porque você demorou tanto para lançar trabalhos como artista solo?
Zé Brasil
– Desde 1965 sou independente, mas preocupado com o presente e o futuro da humanidade. Talvez, aliado ao sonho das bandas inspiradas pelos Beatles, essa característica tenha me conduzido a um trabalho coletivo na música. Com a Silvia Helena, comecei a ensaiar e me apresentar em duo também. Mas nunca deixei de compor, estudar e praticar. Isso naturalmente me levou a uma atitude e comportamento de liderança na música. Ao mesmo tempo sempre desenvolvi um trabalho solo que só dependesse de mim. Em algumas ocasiões cheguei a me apresentar ao vivo e consegui concretizar essa situação em 2017, quando lancei o primeiro EP como Zé Brasil. De lá para cá, venho me apresentando nessas condições: artista solo, duo, convidado, com bandas (Apokalypsis, Delinquentes de Saturno, UHF) e no Movimento 70 De Novo.

Mondo Pop- Fale um pouco sobre a sua duradoura e consistente parceria musical e afetiva com a Silvia Helena.
Zé Brasil
– Em 17 de novembro de 1975, conheci a cantora Silvia Helena num show do Gilberto Gil no Teatro Aquarius em São Paulo. Desde então, estamos juntos na vida e na música. Casamos em 1977, lançamos nosso primeiro disco em 1976, viajamos para Europa em 1978 e constituímos, desde 1981, uma família maravilhosa com nossos filhos Alexandre e Andréa. Minha satisfação maior é quando subimos, os quatro, no palco juntos. Já com a Silvia Helena, cantamos, compomos e tocamos em duo ou com banda. O sentido da minha vida é buscar e propagar paz, amor e compaixão. Isso só foi possível a partir do nosso encontro. Acho que é o que nos define, inspira e fortalece.

Mondo Pop- Bicho Grilo, uma das faixas do seu novo CD, brinca com um certo preconceito existente contra o espírito hippie no Brasil. Fale um pouco de como é lutar contra isso, contra os estereótipos negativos.
Zé Brasil
– Acho que o humor é arte e, quando integrado positivamente na música, agrega interesse e diversidade. Procuro compor canções que lidam com os diversos sentimentos e emoções, incluindo o bom humor. Bicho Grilo, parceria com o Edu Viola, que é meu amigo desde 1968, é uma brincadeira com o estereótipo do hippie/bicho grilo, que surgiu na transição dos anos 1960 para os anos 1970 no Brasil. Éramos, de uma certa maneira, todos bichos grilos na nossa ingenuidade e esperança por um mundo melhor, apostando no rock e na Era de Aquarius.

Mondo Pop- Você foi um dos criadores do projeto 70 de Novo, em 2006. A quantas anda, e como avalia os frutos colhidos com o mesmo?
Zé Brasil
– O Movimento 70 De Novo resgatou uma década complexa da história do Rock Brasileiro. Para muitos foi o ápice da criatividade e qualidade musical dessa vertente. Por causa das condições sócio-políticas decorrentes da repressão da ditadura militar, a maioria dos artistas e músicos permanece praticamente desconhecida do grande público atual. Tínhamos dezenas de milhares, pelo menos, de seguidores naquele período, mas hoje em dia somos conhecidos por um nicho de aficionados que conhecem nosso trabalho através dos discos e registros que sobreviveram até aqui. O Apokalypsis, ao contrário das grandes bandas da época, não chegou a gravar por um capricho do destino. Apesar de ser considerado a revelação de 1975, está sendo reconhecido e apreciado por um maior número de pessoas através dos shows, discos gravados no século XXI e do documentário O Barato de Iacanga. O mesmo acontece com os grandes artistas e músicos que participam dos nossos shows/celebrações. Meu parceiro Nico Queiroz, que batizou o Movimento 70 De Novo, e eu vivemos intensamente esse tempo inesquecível do underground paulistano e brasileiro.

Mondo Pop – O seu show celebrando 70 anos de vida foi um dos últimos realizados antes da pandemia. A festa musical ocorreu poucos dias antes disso. Como você encara essa feliz coincidência?
Zé Brasil
– Chegar aos 70 anos não é fácil, mas é gratificante. Resolvi celebrar da melhor forma possível e, ao mesmo tempo, agradecer pela minha vida. Todos que compareceram receberam um CD Zé Brasil de presente. O show contou com caros e talentosos amigos que proporcionaram um belo espetáculo. Minha família compareceu em peso e a casa estava cheia de gente feliz. Foi o meu melhor aniversário até hoje.

Mondo Pop- Vivemos atualmente no Brasil um clima de muito retrocesso, com extremismos e reacionarismo no ar o tempo todo. Você iniciou sua trajetória musical na época da ditadura militar. Como compara essas duas épocas? Tem esperança de que isso mude em um futuro próximo?
Zé Brasil
– Houve um tempo em que eu evitava comparações, dualismos, dialética, essas coisas. Buscava a unidade espiritual e intelectual. Hoje, mais experiente, procuro ser tolerante e compreensivo. Meu radicalismo me forçou a dois exílios voluntários: em 1975 nos Estados Unidos e em 1978 na Europa. Fui torturado no pau-de-arara, levei choques e porradas. Não penso mais em me mudar do Brasil. Uma das principais diferenças entre os dias de hoje e os da ditadura militar é a quantidade e a facilidade de informação. É muito mais difícil, quase impossível, esconder algum fato verídico da população. Ao mesmo tempo é muito mais fácil disseminar mentiras, fake news, etc. Sempre fui progressista, a favor das mudanças, da evolução, da diversidade, da democracia… Enfim, agradeço pela minha criação e formação de caráter para enfrentar e resistir ao arbítrio, negacionismo, ignorância e fanatismo.

Mondo Pop- Aos 71 anos de idade, você se mantém mais ativo do que nunca. Qual a receita para chegar a esse momento da vida nesse pique todo?
Zé Brasil
– Paz, amor e compaixão, babe!

Mondo Pop- Bem, era “só” isso, por enquanto rsrsrsrrs Desde já, agradeço pelas respostas e um grande abraço!
Zé Brasil
– Sou eu é quem agradece, jovem e talentoso amigo.

Povo Brasileiro– Zé Brasil:

Bela, um novo talento que surge na cena folk-pop do Brasil

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Por Fabian Chacur

Após trabalhar durante três anos em uma agência de publicidade, Isabela Zaremba foi para Londres, onde estudou por um ano na BIMM (The British And Irish Modern Music Institute). Formada em Comunicação pela PUC-RJ e em balé clássico, ela já estava decidida a se dedicar em tempo integral à musica. Desta forma, surgia Bela, cantora, compositora e musicista que toca banjo, banjolele e violão, hoje novamente no Brasil.

Com 26 anos de idade e dois singles autorais já lançados nas plataformas digitais, Desandar (ouça aqui) e The Wolf (em versões acústica e elétrica), ela prepara material para seu primeiro EP. Saiba mais sobre essa jovem talentosa e promissora em entrevista feita por e-mail a Mondo Pop.

MONDO POP- Fale um pouco como teve início o seu interesse pela música: o que ouvia inicialmente (estilos musicais, artistas etc) e em que momento esse interesse teve como foco a criação- cantar, compor, tocar.
BELA
– Eu sempre fui uma criança/adolescente que gostava de escutar música. Não ligava muito para TV. Com o passar do tempo, o folk foi ganhando mais destaque nas minhas playlists, além do pop, trap, clássico, indie e MPB. A descoberta do “cantar” veio quando eu era muito nova, no coral da escola. Mas foi só aos 25 anos que comecei a sentir necessidade de transformar meus sentimentos em som. Passei por mudanças de vida marcantes e vi no ato de compor uma forma de escoar meus sentimentos pro mundo – sempre fui muito mais de escrever do que falar.

MONDO POP- Você trabalhou durante três anos em uma agência de publicidade. Como avalia essa experiência, e o que você traz dessa experiência para o seu trabalho na área musical?
BELA
– Trabalhar no mercado publicitário me deu as ferramentas necessárias para empreender no mercado musical. Me ensinou a ter organização, consistência, profissionalismo e paciência. Também aprendi muito sobre estratégia de marketing, aspecto primordial para um artista alavancar a carreira. Cresci muito como pessoa, e a maturidade que ganhei ao trabalhar em agência foi decisiva para a minha mudança de carreira.

MONDO POP- Além dos nomes mais recentes do folk, como Mumford And Sons e Of Monsters And Men, quais outros você citaria, nacionais e internacionais, como possíveis influências em sua sonoridade?
BELA
– Algumas das minhas influências internacionais são Joni Mitchell, Bon Iver, Sufjan Stevens, Of Monsters and Men e Mogli. Já as nacionais SÃO Tiago Iorc, Silva e Anavitória.

MONDO POP- Você compõe em inglês e em português. A ideia é mesclar canções nesses dois idiomas no seu repertório ou pensa em se dedicar a algumas delas de forma mais constante?
BELA
– Eu tenho escrito mais em português por querer entrar com mais força no mercado brasileiro. Me sinto mais confortável por ser minha língua materna, fora que o vocabulário é riquíssimo. Mas não descarto lançar mais músicas em outro idioma – gosto muito da minha voz ao cantar em inglês. As duas línguas permitem explorar significados e fonéticas completamente diferentes, há muito o que explorar dentro desses dois mundos.

MONDO POP- Como você avalia sua passagem por Londres, onde gravou The Wolf? Se a pandemia do novo coronavírus não tivesse ocorrido, teria ficado por lá ou você já pretendia retornar ao Brasil? Pensa em voltar a Londres?
BELA
– Abriu demais meu horizonte. Vi tantas referências artísticas diferentes, principalmente dentro do folk, do rock, do pop. Fiz shows, fiz busking (n.da r.: cantou na rua e em locais públicos), gravei The Wolf com meus amigos da faculdade… Além disso, pude beber na fonte de outros tipos de arte, como museus, teatros, ballet. Mas, desde sempre, eu já tinha planos de voltar pois quero muito conduzir a minha carreira musical aqui no Brasil. Aqui é o meu lugar no mundo. Mas voltaria, sim, menos no inverno cinza e chuvoso hehehe.

MONDO POP- The Wolf e Desandar, as duas canções autorais já divulgadas por você, são bem diferentes entre si, e não só por causa da língua. Elas são boas representantes de duas vertentes distintas de sua obra enquanto compositora?
BELA
– Acredito que as duas canções mostram dois momentos diferentes da minha vivência artística. Desandar foi a primeira música que eu escrevi, representa o início da minha descoberta criativa. Mas vejo a sua beleza justamente por conta disso: é orgânica, sem fortes influências de técnicas de songwriting. É reflexo da sonoridade folk-pop que eu amava ouvir naquele momento, mais “americanizada”. The Wolf já é mais amadurecida e carrega uma bagagem sonora mais ampla. É a soma de referências que vi ao morar em Londres. Por conta disso, tem uma sonoridade mais permissiva dentro do folk-pop, com mais camadas de vozes e uma atmosfera mais orquestral, por exemplo. O timbre da minha voz também é diferente ao comparar com Desandar por conta do trabalho vocal que desenvolvi na faculdade de música.

MONDO POP- Fale um pouco sobre o que te inspira a compor, o que você tenta transmitir nas suas canções.
BELA
– Acredito que o produto artístico de qualquer artista é o resultado de suas vivências e pela sua busca constante por sua identidade. Este fragmento do livro “Creative Inspiration” diz muito sobre essa busca: “I’m an artist. Those words naturally imply always seeking without ever fully finding. It’s the exact opposite of saying I know it already, I’ve already found it. To the best of my knowledge, those words mean “I seek, I pursue, my heart is in it”.”

MONDO POP- Quais são os seus planos para 2021? Pensa em lançar um EP? E como será o repertório?
BELA
– Vou lançar o meu primeiro EP para mostrar mais da minha identidade musical. Estou planejando lançar 5 músicas nesse novo trabalho, que irão transitar entre o folk, pop e nova MPB.

MONDO POP- Você divulgou há pouco uma releitura de Feliz e Ponto, do cantor e compositor Silva. Já tem projetos para fazer outras releituras? De que artistas especificamente?
BELA
– Sim, estou fazendo um projeto em parceria com uma marca para lançarmos outras quatro releituras no formato digital. As gravações já estão em andamento, e teremos canções bem diversificadas entre si, que vão desde o axé e MPB até o rock.

MONDO POP- Com a pandemia atual, a possibilidade de shows presenciais para divulgar seu trabalho parece um pouco distante, no momento. Você pensa em fazer lives ou algo no gênero para preencher essa lacuna? Algo na linha da versão acústica e ao vivo de The Wolf?
BELA
– Sim, a live é uma ótima saída para manter um contato próximo com o público enquanto o presencial não acontece. Fiz lives para promover o lançamento de The Wolf e fortalecer a conexão com a minha rede. Venho aproveitando esse momento para melhorar a qualidade da interação com meu público e para alcançar novos ouvintes por meio das redes sociais.Como parte da estratégia de lançamento, lancei a versão de estúdio de The Wolf e, poucas semanas depois, fiz a versão acústica especialmente para o meu canal do Youtube. Mas, claro, espero ansiosamente para poder cantá-la ao vivo em um show presencial.

MONDO POP- Você pensa em lançar sua música exclusivamente pela via digital ou pretende investir em formatos físicos (CD, LP de vinil etc)?
BELA
– No momento, estou focando em disponibilizar minhas músicas por via digital, pois estou investindo em outras frentes atualmente. Mas penso em diversificar para a mídia física futuramente.

MONDO POP- Para fechar: cite cinco álbuns de que você mais gosta, e faça um pequeno comentário sobre cada um deles.
BELA
– Aí vão eles:
My head is an animal – Of Monsters and Men
O que há de melhor no folk/pop alternativo. É um convite para mergulhar numa sonoridade grandiosa embalada por uma percussão marcante e letras inspiradas na natureza misteriosa da Islândia.

Carrie & Lowell – Sufjan Stevens
Um álbum extremamente sensível mas que, apesar da melancolia, traz leveza à tona através dos dedilhados agudos e da voz sussurrante do Sufjan. É perfeito pra ouvir numa tarde chuvosa.

Wanderer – Mogli
Wanderer tem o poder de transportar o ouvinte para uma atmosfera etérea indie/pop através dos vocais angelicais de Mogli. O álbum foi criado durante uma expedição da artista alemã pela América, o que explica a sua principal inspiração ao compor as canções: a natureza.

Bon Iver – Bon Iver
Bon Iver é um álbum de indie/folk experimental que foge da estrutura convencional de verso/pré-refrão/refrão. Aliás, nada é convencional neste álbum. A sonoridade eletrônica encontra as cordas do violão e as infinitas camadas vocais de Vernon, culminando num resultado incomum e memorável.

Brasileiro – Silva
Silva afina sua brasilidade em Brasileiro, álbum com influência da bossa-nova, pop e samba. As canções trazem calmaria e reforçam a conexão do artista com o mar. É de sentir areia nos pés ao ouvir Duas da Tarde, minha faixa favorita do álbum.

Veja o clipe de The Wolf – Bela:

Filippe Moura mostra som autoral e releituras em vídeo

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Por Fabian Chacur

Mesclando composições própria com releituras de autores bacanas, Filippe Moura disponibilizou há pouco no Youtube De Canto a Canto, show ao vivo gravado em um estúdio em São Paulo. O cantor, compositor e músico investe em uma mistura bem dosada de r&b, MPB, folk e elementos jazzísticos aqui e ali. Ele conta com o auxílio luxuoso do consagrado produtor Luiz Carlos Maluly (RPM, Bruno & Marrone e inúmeros outros).

O destaque do repertório próprio fica por conta de Pode Dar Certo, deliciosa parceria com a cantora carioca radicada em São Paulo Thai, e que está sendo divulgada com um clipe extraído do show. Em entrevista a Mondo Pop via e-mail, Moura nos fala da sua formação musical, seus parceiros, como foram as gravações de De Canto a Canto e muito mais. Divirtam-se!

MONDO POP- Fale um pouco sobre como a música entrou em sua vida, se você tem parentes músicos que possam tê-lo influenciado, o que você ouvia quando era criança-adolescente etc
FILIPPE MOURA
– A música, como em grande parte dos casos de músicos, acredito que sempre fez parte da minha vida. Venho de uma família, principalmente por parte de pai, muito musical. Meu pai toca violão muito bem e minha tia trabalhou muito tempo com ensino de arte e música. Sem sombra de dúvidas, o que mais ouvi na minha vida foi a música vinda de Minas Gerais nos anos 1970. Hoje, tenho grandes referências de Caetano, Gil, Novos Baianos, Lenine, Cássia Eller e diversos outros grandes nomes que me moldaram e ainda me moldam musicalmente, mas Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Ronaldo Bastos, Toninho Horta, Fernando Brant, Telo Borges e Milton Nascimento vieram primeiro, acho que desde a barriga da minha mãe. Minha cabeça musical e meu coração estão sempre com um pé em Minas Gerais, não importa onde eu vá.

MONDO POP- Você é bacharel em música pela UNICAMP. Qual a importância e a influência dessa formação teórica no seu trabalho musical autoral?
FILIPPE MOURA
– Acredito que a universidade foi um momento importante de crescimento pessoal e descobrimento musical. Diria que, para mim, mais do que uma evolução técnica e teórica, a universidade (UNICAMP) representou um momento de descobrimento da música como um universo de pessoas e símbolos que ultrapassam o momento do fazer música e tocar propriamente dito. Eu diria que a universidade me ajudou a entender melhor a música como um “estilo de vida” que permeia todos os meus momentos. Acordar de manhã e perceber cada dia mais o quanto eu preciso da música perto de mim. Já teve essa sensação? É como eu me sinto e é algo que a universidade me ajudou a entender, acredito que isso me marcou mais do que o ensino formal de música propriamente dito.

MONDO POP- Uma pessoa muito importante na sua trajetória é Ulisses Rocha. Como você o conheceu, como é o relacionamento entre vocês, e quais as principais coisas que ele te ensinou enquanto músico?
FILIPPE MOURA
– O Ulisses foi e é ainda a minha grande referência como músico e como profissional na música, digamos assim. Eu lembro que estava no casamento de um primo, devia ter uns 12 ou 13 anos, meu pai me ligou e perguntou: “Quer ter aula com o Ulisses Rocha?” Eu era novo, mas já conhecia os discos do D’Alma e adorava, então foi super legal essa proposta que meu pai me fez. Na primeira aula, cheguei com o violão todo desajeitado no colo, o Ulisses falou: “Toca aí”. Fechei o olho e fui, toquei uma música do Lenine e do Marcos Suzano chamada Escrúpulo. Não sei muito bem o que o Ulisses achou, mas sei que ele me aceitou como aluno rsrs. Daí pra frente virou uma relação meio que de padrinho musical, logo comecei a tocar com o Vítor (que é filho do Ulisses), pois temos a mesma idade e hoje ele é um dos meus grandes parceiros e melhores amigos. A partir daqui eu precisaria de um livro para escrever essa história rsrs.

MONDO POP- Como avalia a experiência de ter participado do EP da banda Disco Voador como compositor, coprodutor e arranjador?
FILIPPE MOURA
– Nossa, foi uma experiência muito intensa. Quando você é super jovem (17 ou 18 anos) você tem sempre aquela sensação de que sabe o que quer e de que sabe o que está fazendo, então chegar nos resultados esperados te consome de uma forma, em uma intensidade muito grande. Eu diria que foi o meu laboratório para entender o que é uma gravação, o ponto de partida mesmo. Produzi com o Vítor Loureiro esse trabalho e a gente basicamente saiu de “nunca gravamos na vida” para um trabalho lançado pelo selo Pimba da Dubas, gravadora do Ronaldo Bastos. O que é uma loucura, muito por parte do Ronaldo, eu diria rsrs. Um menino de 18 anos que liga para ele e fala: “Tenho um trabalho aqui em São Paulo, a gente consegue lançar pelo seu selo?” Ele respondeu: “Manda aí, deixa eu ouvir.”. Uma semana depois eu estava pegando um avião para o Rio, para ir na Dubas (gravadora do Ronaldo) pegar os contratos etc. Não digo que o disco rendeu uma grande visibilidade, mas certamente shows e os primeiros passos no meio profissional da música.

MONDO POP- Você passou um período frequentando a University Of Florida, em 2014. Fale um pouco sobre essa experiência por lá, e no que isso influenciou a sua trajetória profissional.
FILIPPE MOURA
– A University of Florida (UF) foi um período muito importante e desafiador para mim. Na verdade, eu fui pra lá participar de um Ensemble de música brasileira da universidade, chamado Jacaré Brasil, pois jacaré é o símbolo da UF, os Gators (em inglês). No final, acabei participando das aulas de violão popular, nas quais o Ulisses era o professor convidado, e acabei até “dando umas aulas” para a graduação, quando ele me convidou para ser assistente dele. Também participei, e aí mais um grande desafio, de aulas de forma e análise de música clássica e arranjo para orquestra. Foi um período de crescimento musical e pessoal gigantesco. Imagina, eu fazia música popular brasileira aqui na UNICAMP e fui me meter em uma aula de forma e análise de música clássica que era dada por um professor de Harvard, na UF, uma loucura. No final deu tudo certo, fora toda a oportunidade de conhecer uma nova cultura, pessoas incríveis, músicos incríveis, tive algumas oportunidades de tocar e participar de jams lá, foi um período muito rico e muito feliz para mim.

MONDO POP- Seu primeiro lançamento foi o EP Ilha, em 2018. Como você o avalia? Ele equivale a um bom cartão de apresentações do seu trabalho? E como foi a escolha das faixas incluídas nele?
FILIPPE MOURA
– Com toda certeza, tudo que envolve o lançamento do EP Ilha me deixa muito feliz! Foi um trabalho que levantei e decidi fazer, pois já estava sendo consumido por ele muito antes de ele existir como show e como EP. No geral, eu coloquei um objetivo muito claro: queria me sentir confortável comigo, com o som, dentro dessa lógica de trabalho solo. Então, escolhi as minhas músicas que mais me traziam paz e que mais me deixavam feliz no momento, feliz no sentido de estar contente com o que eu estava tocando. Peguei algumas coisas de parceiros, coloquei debaixo do braço e saí pra entender como iria viabilizar tudo aquilo.

MONDO POP- Como foi realizar esse trabalho em termos práticos? Quem te ajudou logo no começo?
FILIPPE MOURA
– De cara, encontrei o Felipe Consoline, que deu a cara sonora inicial do disco, ele havia produzido o álbum de lançamento de uma banda que eu adoro aqui de São Paulo, chamada Vitreaux, álbum que eu particularmente adoro também! Depois dele veio, para variar, o Vítor Loureiro, algumas sessões de gravação em Ilhabela, muitas outras de mix. Após isso, por aqueles acasos da vida, acabei topando com o Luiz Carlos Maluly, produtor muito conhecido, que me abriu as portas do estúdio dele e acabou me ajudando na montagem da banda. Aí eu já estava com quase tudo na mão, o Dalton Vicente, que trabalha muito em parceria com o Maluly, acabou masterizando o trabalho. Depois, saí na cara dura e bati, junto com um grande amigo chamado Luis Feijão, na porta do pessoal do Centro Cultural Rio Verde, palco conhecido aqui em SP, e falei: “Gente, estou com um disco para lançar, tem a participação de um monte de gente legal no processo, vocês teriam uma data?” rsrs. Aconteceu! E como cereja do bolo, acabei entrando em um projeto com o Claudio Zoli, de quem eu sou fã, e ele ainda aceitou participar do lançamento. Depois, veio o Nego Jam RZO, que toca com um dos grandes nomes do Rap de São Paulo (o grupo RZO) e já havia feito uma participação no EP e por último a Thai, minha cara metade musical.

MONDO POP- De Canto a Canto mostra você ao lado de uma superbanda de apoio, com destaques para os grandes Albino Infantozzi e Marcos “Caixote” Pontes, além da produção do badalado Luiz Carlos Maluly. Como conseguiu arregimentar esse timaço, e como foi tocar com músicos com currículos tão expressivos?
FILIPPE MOURA
– Nossa, a banda está na conta do Maluly rsrs As coisas acontecem de uma forma que não tem muita explicação. Eu tive a sorte de encontrar algumas pessoas muito importantes nesse caminho e tenho a felicidade pelo fato de que algumas delas gostam do meu trabalho e das músicas e acabaram me ajudando de muitas formas. A relação com o Maluly começou por causa de outros projetos musicais, que nem eram meus, mas dos quais eu estava participando de alguma forma. De lá para cá, fui tentando mostrar para ele um pouco do meu trabalho e, por sorte talvez, ele tem dado muita força e me apresentado muita gente importante e conhecida no mercado, tem sido um período de grande crescimento pra mim. Agradeço demais toda a generosidade do Maluly, uma pessoa ímpar no meio musical, não à toa é a referência que é. Imagina o meu frio na barriga e a responsabilidade que foi gravar com esses caras! Caras que já tocaram com absolutamente todos os nomes importantes da música brasileira e do mundo e que tocaram comigo neste projeto. Quantas histórias deles me contando que estavam gravando com fulano e depois eu vou descobrir que fulano é o engenheiro de som do John Mayer e que cicrano já fez turnê com o Michael Jackson, sei lá, não lembro se são exatamente esses os casos, mas é coisa desse nível. Enfim, um enorme desafio, que espero poder levar para os palcos em breve, quando tudo se normalizar.

MONDO POP- Em De Canto a Canto, você relê duas composições do uruguaio Jorge Drexler. Como surgiu a ideia de incluir essas músicas em seu repertório, como você avalia a obra dele e como vê o fato de ele ser um músico fortemente influenciado pela música brasileira?
FILIPPE MOURA
– Poxa, o Drexler para mim é um ícone, ele e o Fito Paez (argentino) são grandes referências. Sei que eles são fortemente influenciados pela música brasileira e isso só mostra e ressalta a riqueza cultural e musical do Brasil. Acho que essa troca é essencial, essa mistura de culturas, línguas, sons, influências, isso é maravilhoso, me mostra o quanto a música é generosa e como devemos ser generosos para com ela e para com as pessoas. O Drexler ainda tem algo com o qual me conecto ainda mais, que é o fato de ele ser um ótimo violonista, tendo passado por um ensino formal de violão muito próximo ao meu. Essas influências todas da música brasileira e o modo como a música brasileira influencia músicos do mundo todo me faz lembrar uma música do próprio Drexler, em que ele fala mais ou menos assim: “De nenhum lado do todo, de todos os lados um pouco” (perdão a tradução simultânea aqui rsrs). É isso, somos todos essa mistura de culturas e ritmos que nos transforma em pessoas de nenhum e de todos os lados ao mesmo tempo.

MONDO POP- Duas das músicas de De Canto a Canto são do repertório de Marina Lima. Você a sente como uma influência importante em sua obra autoral? E o Claudio Zoli, autor de uma delas?
FILIPPE MOURA
– O Zoli acho que veio de uma forma mais óbvia, pois no show lançamento do EP Ilha eu toquei com ele a música À Francesa, além da participação que ele fez na minha música Tempo Rei. Aliás, uma experiência maravilhosa foi essa de tocar com ele! Zoli é um cara extremamente generoso, musical, iluminado. Bom, todos conhecem o trabalho dele, mas só gostaria de ressaltar que ele é tudo isso mesmo, uma alma incrível e leve. A Marina me veio muito nessa linha do som pop dos anos 80 que de alguma forma me tomou quando eu fui pensar no repertório para o show. Na verdade, estava de carro em Ilhabela e começou a tocar Fullgás, na hora eu falei: “Essa tem que entrar”. Quando o Caixote veio com o arranjo, aí eu tive mais certeza ainda.

MONDO POP- Como você define a sonoridade que desenvolve em seu trabalho autoral, e quais as influências mais importantes presentes nele?
FILIPPE MOURA
– Meu trabalho autoral vem muito da minha relação com o violão. Aliás, já dando um spoiler, essa é uma sonoridade que eu pretendo explorar bastante no meu próximo trabalho. Mas falando deste último, acredito que mesmo com a banda, vários instrumentos, é possível ver ali bem delineada a minha relação com o violão. Seja na lógica harmônica ou melódica das músicas, o violão está sempre ali. O violão é meu grande amigo e parceiro de muitos anos, comecei cedo, então diria que já são uns 15 anos. Sobre o as influências: acredito que eu bebi de tudo da música brasileira, mas principalmente de dois lados: o primeiro é a música mineira dos anos 70, o segundo, principalmente no que diz respeito à relação de um compositor com o violão, foi o Lenine. Diria que Minas me colocou na música e o Lenine me convenceu de que eu não tinha outra saída rsrs Fora eles, claro que vamos falar de João Gilberto, Caetano e Gil, parada obrigatória pra quem faz qualquer tipo de música no Brasil.

MONDO POP- O momento mais marcante em De Canto a Canto, para mim, é o seu dueto-parceria com a cantora Thai na canção Pode Dar Certo. Como você a conheceu? Está em seus planos ampliar essa parceria, tipo gravarem um álbum em dupla, por exemplo?
FILIPPE MOURA
– A Thai é uma dessas felicidades que a vida te proporciona, ela é uma alegria para mim e é um prazer imenso poder conhecer e conviver com ela. Uma pessoa generosa não só musicalmente, e de uma alegria, talento e voz vibrantes. Conheci ela em um projeto que eu estava produzindo com alguns músicos cubanos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ela ia fazer uma participação no show do pianista Pepe Cisneros e do cantor Fernando Ferrer. A conexão ficou ali escondida um tempinho, mas quando fui lançar o EP Ilha e o Rodrigo Bueno “Papito”, baterista que participou das gravações, mostrou o som Na Sua Onda pra Thai, me ligou e disse: “A Thai amou sua música e quer gravar ela”. Aí não teve jeito, nasceu a amizade e a parceria.

MONDO POP- Foi dessa forma que surgiu a ideia de convidá-la para participar de De Canto a Canto?
FILIPPE MOURA
– Sim. Ela participou antes do show de lançamento do EP Ilha cantando uma música do Drexler e agora, em De Canto a Canto, a conexão foi ainda mais intensa, pois lançamos nossa primeira música juntos. A música, aliás, é linda, não por ser minha (rsrs), mas realmente por ser uma canção que me deixa muito feliz com o resultado e de como ela nasceu, em uma tarde de conversas. Enfim, tudo de felicidade e de musicalidade eu vejo na Thai. Tem um ponto curioso, que é o fato de que ela quase não participou da gravação, pois estava em turnê com o Baco Exu do Blues e não sabíamos se as datas iam dar certo, mas devido à pandemia os shows não rolaram, as gravações foram postergadas e acabou rolando a participação dela. Delicado essa questão da pandemia e de como tem afetado o mercado cultural no país e no mundo, mas, bom, esse é um outro assunto. Sobre uma gravação com a Thai: quem sabe? Eu ficaria imensamente feliz em poder gravar com ela novamente. O que será que 2021 nos guarda? Espero que essa gravação rsrs.

Pode Dar Certo (clipe)- Filippe Moura e Thai:

Aline Calixto conta os detalhes sobre o seu primeiro DVD

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Por Fabian Chacur

Aline Calixto é uma cantora e compositora carioca criada em Minas Gerais cuja carreira fonográfica teve início com um álbum autointitulado em 2009. Em 2011, foi a vez do segundo, Flor Morena, cuja faixa-título, de autoria de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Junior Dom, que fez sucesso nacionalmente ao entrar na trilha sonora da novela global Fina Estampa. Os dois discos foram lançados pela gravadora Warner Music.

Concentrando-se no samba mas sempre aberta a outras influências musicais, Aline lançou Meu Ziriguidum (2015- Independente) e Serpente (2017, em parceria com a gravadora LAB 344) e se firmou como uma das grandes cantoras da cena de BH, com direito a uma belíssima voz e muita presença de palco.

Como forma de celebrar essa carreira que tem tudo para proporcionar ainda mais frutos nos próximos anos, ela está lançando 10 Anos Aline Calixto- Ao Vivo em BH, DVD físico e álbum digital mais uma vez em parceria com a LAB 344 e contanto com diversos apoios. Com produção musical, arranjos e violão a cargo do fiel parceiro musical Thiago Delegado, com ela desde o começo, ela conta com as participações especiais de Beth Carvalho e Monarco e a Velha Guarda da Portela, entre outros.

Em entrevista concedida por e-mail a Mondo Pop, ela nos dá detalhes sobre esse ótimo lançamento, certamente um dos melhores do ano em termos de música popular brasileira, e também sobre sua trajetória artística e mesmo acerca de sua opção de se dividir entre o Brasil e a França em termos de residência.

MONDO POP- Para começar, faça uma avaliação desses dez anos de carreira, que hoje na verdade já são 12(rsrsrsrs).
ALINE CALIXTO
– Muita coisa aconteceu, né? Foram 4 discos solos, 1 DVD, participações em CDs e DVDs (Samba Social Clube, Sambabook, Martinho da Vila Canta Noel, dentre outros). Muitos shows pelos quatro cantos do mundo. Parcerias maravilhosas, muito estudo, enfim, só tenho a agradecer por tudo.

MONDO POP- O show foi gravado em junho de 2018, mas o DVD só está saindo agora. Conte um pouco sobre como foi a trajetória para conseguir viabilizar um projeto tão importante para você como esse, e quais foram os principais obstáculos que você teve se superar para concretiza-lo.
ALINE CALIXTO
– Pude realizar esse projeto porque fui contemplada pela Lei Estadual de Incentivo a Cultura de MG e a CEMIG entrou na parceria. Foi um ano totalmente dedicado a sua produção. Alguns percalços apareceram na caminhada, como, por exemplo, a mudança na data de gravação. A primeira data foi exatamente no dia de uma paralização dos rodoviários em BH. Eu e minha equipe decidimos não realizar a gravação, visto que muita gente (artistas que participaram) e equipamentos viriam de fora do estado. Mas ok, no final deu tudo certo! O lançamento era pra acontecer em meados de junho de 2019, porém em fevereiro daquele ano descobri que estava grávida, logo os planos foram adiados. Quando definimos a nova data de lançamento, que seria após o carnaval de 2020, veio a pandemia. Esperamos alguns meses e então dei a palavra final, bora lançar o trabalho e, quando puder, faremos os shows de lançamento. Agora é aguardar a vacina!!

MONDO POP- O repertório do DVD se divide entre músicas dos seus três CDs, inéditas e releituras de músicas alheias. Fale inicialmente das inéditas, especialmente de Dona do Pedaço, e depois sobre os critérios que seguiu para selecionar as músicas dos CDs anteriores que acabaram entrando no DVD.
ALINE CALIXTO
– Não foi tarefa fácil desenhar esse repertório, mas acredito que o resultado ficou bem dentro do que imaginava. Um “resumão” da minha trajetória musical. Somente uma faixa é inédita, que escolhi a dedo. Dona do Pedaço foi um lindo presente do André da Mata e Felipe Acaf. Há também releituras, mas essas o público já conhecia, pois as cantava em meus shows.

MONDO POP- A participação da Beth Carvalho no seu DVD acabou sendo histórica por ter sido o último registro dela. Relembre como foi essa gravação, do seu relacionamento com a Beth e a tristeza que é lançar o DVD sem que ela esteja mais entre nós.
ALINE CALIXTO
– Foi o último registro audiovisual em show que a Beth participou. Ela estava radiante, super feliz! Tínhamos uma relação de amizade muito linda. A conheci no início da minha carreira, e desde então nunca perdemos o contato. Ela era uma “mãe musical” pra mim. Sempre mostrava a ela os repertórios dos meus discos antes de iniciar as gravações. Fiquei muito abalada na época do seu falecimento. Lembro bem que, um dia depois da morte dela, estava pronto o primeiro corte do DVD e eu não consegui assistir. Estava grávida de 5 meses. Precisei segurar a onda e acalmar o coração. Tenho plena certeza que ela está muito feliz com a realização do meu sonho e por ter feito parte dele.

MONDO POP- A presença de Monarco e a Velha Guarda da Portela é quase que um selo de qualidade em seu DVD, tal a importância e a representatividade deles na história do nosso samba. Como surgiu a ideia dessa parceria, e como foi para você tê-los nesse DVD?
ALINE CALIXTO
– Conheço o pessoal há um tempo, né? São pessoas queridas que me acolheram desde o início da minha carreira. Monarco é sempre generoso, é a segunda vez que ele participa de uma gravação comigo. Já cantei algumas vezes com a Velha Guarda e é óbvio que passava pela minha mente que quando eu fizesse um registro audiovisual seria maravilhoso se eles pudessem participar. Quando o projeto saiu do papel, uma das primeiras coisas que fiz foi conversar com eles. Ficaram super felizes e prontamente aceitaram! Escolhi duas músicas, uma é emblemática e ficou conhecida na voz de uma das maiores cantoras desse país, que sempre foi uma das minhas maiores fontes de inspiração, Clara Nunes. Cantar Portela na Avenida com a Velha Guarda foi arrepiante. A segunda foi um lado B da Velha Guarda, Benjamin. Adoro esse samba!

MONDO POP- Temos outras participações bem bacanas no DVD. Comente um pouco sobre cada uma delas.
ALINE CALIXTO
– Tive a honra de dividir o palco com uma das mais importantes figuras da música mineira que é o Maurício Tizumba, e com ele o seu Tambor Mineiro. Foi lindo trazer também ao palco a novíssima geração do samba representada pelo Tavinho Leoni e Isadora Ferreira. Duas grandes vozes de BH também se juntaram ao projeto, Cinara Ribeiro e Marina Gomes. Acho importante dar espaço a outras mulheres. Aposto muito as minhas fichas nesses duas vozes do samba mineiro. Teve também representantes de vários blocos de carnaval de BH dividindo a faixa Beijo Mesmo, foi uma verdadeira festa nesse momento no palco!

MONDO POP- Explique como foi a escolha da rua Sapucaí em BH como palco para o show deste DVD, sua relação com esse local, e a importância desse espaço para o samba em Minas Gerais.
ALINE CALIXTO
– É uma rua emblemática da cidade. Um endereço central, que tem uma vista linda e nos últimos anos se tornou um espaço de grande efervescência cultural. Foi nessa rua que eu cantei em BH pela primeira vez. Mal imaginava que retornaria ao mesmo local para a gravação do meu DVD.

MONDO POP- Flor Morena foi tema da novela global Fina Estampa e é provavelmente o seu maior sucesso em termos nacionais. Você imaginava que essa música teria toda essa repercussão quando a gravou? Qual a sua relação com ela?
ALINE CALIXTO
– Eu sempre soube que essa música seria um marco na minha história por que foi um presente lindo que recebi do Zeca, Arlindo e Jr. Dom. Quando chegou a notícia de que ela faria parte da trilha de uma novela, fiquei meio paralisada e depois foi caindo a ficha. Ela é de fato o meu cartão de visitas. Tenho muito orgulho desse samba.

MONDO POP- Você começou sua carreira quando a indústria fonográfica brasileira caminhava para um momento muito difícil, que só piorou nesses anos todos. Como foi encarar toda essa dificuldade e conseguir sobreviver em termos profissionais, apesar de tudo?
ALINE CALIXTO
– Foi difícil sim, mas nada é eterno, tudo está em constante movimento. Quando vivemos e encaramos essa realidade, as coisas tendem a fluir melhor. Os formatos mudam, as pessoas mudam, a gente só precisa entender o balanço do mar pra melhor saber conduzir o barco.

MONDO POP- Como você avalia hoje a experiência que teve com a Warner, que lançou seus dois primeiros CDs, e como funciona atualmente a parceria com a gravadora independente LAB 344?
ALINE CALIXTO
– A Warner foi minha primeira casa, me abriu muitas portas e aprendi muito lá dentro. Tenho um carinho e respeito eternos pelo Sérgio Afonso e por todos os profissionais que fizeram parte de sua equipe, sempre atenciosos comigo. A LAB é uma empresa que me recebeu de braços e ouvidos abertos! Outro Sérgio na liderança também rsrsrs. Tenho total liberdade e sintonia com eles. É meu segundo projeto que sai com a assinatura do selo. E que venham mais!

MONDO POP- Fale um pouco sobre sua parceria musical com o Thiago Delegado, que está com você desde o início e foi o diretor musical deste DVD, além de participar como músico.
ALINE CALIXTO
– É meu casamento mais duradouro rsrsrs. Eu e ele crescemos musicalmente juntos. Acompanhamos mutuamente nossas trajetórias musicais. Delegado me compreende bem. A gente dá muito certo juntos, o que acho natural pois são muitos anos de parceria e amizade. Ele é um talento nato. Agradeço ao universo por ter colocado ele no meu caminho.

MONDO POP- O DVD traz nos bônus uma faixa especial focada no Bloco da Calixto, que teve início em 2014. Como foi essa experiência para você, especialmente com releituras de músicas de outros estilos musicais para o universo do carnaval?
ALINE CALIXTO
– Esse é um trabalho paralelo que conduzo desde 2014, quando crio o Bloco da Calixto. A ideia era justamente produzir um trabalho em que eu pudesse cantar outras músicas que não somente samba e dar a elas um toque carnavalesco. Eu adoro desenvolver o repertorio do bloco, que a cada ano traz um tema. Em 2017, o tema foi o Amor, daí compus em parceria com o Juliano Butz a música Beijo Mesmo, que acabou entrando também no DVD, juntamente com um pout pourri de canções que foram temas de outros anos.

MONDO POP- Como está a sua vida profissional e pessoal atualmente, e como a pandemia do novo coronavírus influenciou nesse sentido? Você vai mesmo se dividir entre morar na França e no Brasil?
ALINE CALIXTO
– A pandemia mudou de forma geral a vida de todos, umas mais que as outras. Eu e meu esposo há algum tempo já pensávamos em pôr em prática nosso plano de dupla moradia. Só não esperávamos que seria tão rápido. A área dele sofreu muito no Brasil (ele trabalha com enologia e viticultura), mas na França, nunca parou. Como a minha profissão é mais flexível com relação a localização, resolvemos adiantar os planos e nos dividir entre Brasil e França. Nesse momento, estamos finalizando a “temporada França” e voltamos pro Brasil no finalzinho desse ano ainda.

MONDO POP- Como vai ser a divulgação do DVD? Já tem algum show programado dentro da nova configuração atual, ou com lives, ou com drive thru, ou mesmo show presencial com plateias reduzidas?
ALINE CALIXTO
– Estamos em negociação para a realização de um show por hora somente em versão virtual. Acho que show presencial só mesmo depois da vacina, né?

MONDO POP- Quais são os seus planos para 2021?
ALINE CALIXTO
– Vacinação assim que possível e, após, poder retornar aos palcos pra fazer o show que inspirou o DVD.

Nos Combates Dessa Vida (ao vivo)- Aline Calixto e Beth Carvalho:

Kleiton & Kledir se dividem entre um belo resgate e boas novidades

kleiton & kledir espanhol 400x

Por Fabian Chacur

Os projetos de Kleiton & Kledir para 2020 eram muitos. Como forma de celebrar seus 40 anos de carreira como dupla, eles preparavam um show ao lado da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Também estavam no programa o lançamento de uma biografia e de um filme, além de uma exposição. De quebra, continuariam fazendo seus bem-sucedidos shows com o Nenhum de Nós e o projeto Casa Ramil, reunindo eles com os outros representantes musicais do clã. Aí…

Bem, aí veio a pandemia do novo coronavírus, e tudo, como diria uma canção deles, foi por água abaixo. Pelo menos por enquanto. Enquanto as coisas não se normalizam, os irmãos permanecem há sete meses em suas casas no Rio de Janeiro (RJ), tocando, compondo e reservando energias para tirar a diferença dessa paralização em 2021.

Enquanto isso, eles aproveitam para resgatar o álbum En Español, lançado em 1985 apenas na Argentina e agora devidamente disponibilizado nas plataformas digitais. Nele, releituras em castelhano de 11 músicas de seus três primeiros álbuns, com direito às participações especialíssimas dos ícones da musica argentina Mercedes Sosa e Leon Giecco.

De quebra, também lançaram em single a canção inédita Paz e Amor, com participação especial de seus verdadeiros padrinhos musicais, o grupo MPB-4, com clipe feito com celulares e de forma remota (veja aqui).

Para falar desses e de outros temas, incluindo boas e reveladoras recordações do grupo que lançou os gaúchos na cena musical brasileira, os Almôndegas, Mondo Pop levou um delicioso papo com Kledir.

MONDO POP- Como tem sido para você e o Kleiton esse período de pandemia do novo coronavírus?
KLEDIR
– Estamos mais de sete meses sem nos ver e sem fazer shows. Parou tudo! Mas estamos em casa e bem, apesar de tudo, especialmente perto do que está acontecendo no mundo, com gente morrendo, com esse louco no poder… É tanta ignorância, e muita gente se deixa levar, com o grande capital só se preocupando com os lucros.

MONDO POP- Vocês acabaram de lançar em single uma canção inédita, Paz e Amor, na qual contam com a participação do MPB-4, grupo com o qual vocês tem forte relação de amizade e profissional. Fale um pouco sobre essa música e seu significado.
KLEDIR
– Mesmo com todas as limitações impostas pela pandemia e pelo confinamento, ficou um vídeo lindo. Tudo surgiu de forma muito espontânea. É possível um mundo melhor, é um resgate do ideal hippie. Os movimentos solidários que tem ocorrido precisam continuar, a ignorância precisa ser combatida. De verdade, não só nas redes sociais. Apesar das drogas usadas naquela época, a filosofia hippie tinha coisas positivas. Estão acabando com o mundo pelo lucro a qualquer custo, acabando com a natureza. O preço que estamos pagando é muito alto, com a rejeição aos povos que são obrigados a imigrar, e com poucos bilionários se beneficiando disso.

MONDO POP- Como foi concebido o álbum En Español? A ideia era mesmo lançá-lo apenas na Argentina, na época? E porque a capa dele é igual ao do seu 4º álbum, lançado em 1984?
KLEDIR
– A gente tinha acabado de lançar aquele disco com aquela capa, e quando surgiu a ideia do disco em espanhol, resolvemos usá-la de novo, foi feita pelo artista plástico Nelson Felix em cima de uma foto do Frederico Mendes. A nossa gravadora na época não se entusiasmou com o projeto, lançou só pra cumprir contrato. Era pra sair no México, EUA, Espanha e Argentina, mas não cumpriram o contrato, no fim das contas.

MONDO POP- Esse relançamento só irá ocorrer nas plataformas digitais ou haverá versão física?
KLEDIR
– Agora, só digital, mesmo. Depois, pode ter versão física, para vendermos em shows. Eu, para meu uso particular, prefiro as plataformas digitais, tem tudo lá. Ouço no meu computador com duas caixas de som.

MONDO POP- Como foram realizadas as gravações de En Español? Vocês aproveitaram as bases instrumentais utilizadas nos discos lançados anteriormente no Brasil? E como foram feitas as versões?
KLEDIR
– Usamos as bases instrumentais das gravações dos discos brasileiros. Houve remixagens, como em Paixão, por exemplo, com os metais logo de cara, acho que ficou melhor do que a gravação em português. Os vocais foram refeitos. As versões foram feitas pelo Edmundo Font, que atualmente é embaixador do México na Bolívia, e é um poeta maravilhoso. Ele era cônsul do México no Rio de Janeiro quando o conheci. Fizemos o trabalho juntos, foi prazeroso e difícil, porque o espanhol tem muitas variantes, era preciso usar palavras mais universais, que pudessem ser compreendidas em todos os países onde o disco fosse lançado. E tem a métrica, a prosódia que tinha de coincidir com a parte melódica. Mas deu tudo certo.

MONDO POP- O álbum teve as participações especiais dos argentinos Mercedes Sosa e Leon Giecco. Como surgiu a ideia de convidá-los para gravar com vocês?
KLEDIR
– A Mercedes era um ídolo máximo para nós, que a conhecemos em 1981 em Cuba, quando participamos com ela de um festival em Varadero. Ela gravou Vira Virou em 1984 em um de seus discos, Sera Possible El Sur? (1984), com a nossa participação especial. Fizemos vários shows juntos, um deles no estádio do Velez Sarsfield para mais de 100 mil pessoas. Tinha muito carinho conosco, me achava muito magro, dizia que eu deveria comer carne (n.da r.: Kledir é vegetariano), que o cantor tem de ter força física. Ela faz uma falta danada! O Leon Giecco a gente conheceu através de um produtor. Ele é da nossa geração, mistura o pop rock com a música da Argentina, algo que fazemos também, só que com a música brasileira.

MONDO POP- Como foi a repercussão de En Español na Argentina, na época em que foi lançado?
KLEDIR
– O disco não foi bem de vendas, a gravadora não fez nada para divulgá-lo, muita ignorância por parte deles. Burrice, mesmo, pois pouco depois os Paralamas do Sucesso estouraram por lá, e isso poderia ter acontecido conosco. Era para termos feito uma turnê para divulgar esse disco, mas não tivemos apoio, espero que um dia possa ser possível. Acho importante a aproximação com os outros países latinos, acho que vivemos de costas para o resto da América Latina, é uma coisa muito ruim.

MONDO POP- Como foi a série de shows que vocês fizeram com o Nenhum de Nós? Vocês pensam em lançar algum registro dessas apresentações?
KLEDIR
– Adoramos o Nenhum de Nós, nosso encontro foi muito prazeroso. Todos os shows que fizemos tiveram lotação esgotada. Foi gravado em áudio e em vídeo, a ideia é lançar futuramente.

MONDO POP- Embora os Almôndegas tenham se separado há mais de 40 anos, ainda são lembrados por muita gente, incluindo um público bem mais jovem. Olhando com os olhos de hoje, como você encara a carreira da banda, e porque houve a separação?
KLEDIR
– Os Almôndegas foram a nossa grande escola, é um clássico. Foi onde aprendemos tudo, até a fazer sucesso sem subir no salto alto. Quando começamos a dupla, logo após a separação, estávamos prontos para seguir adiante. O grupo acabou porque, na verdade, sempre fomos uma dupla, sempre juntos, sempre colados um no outro, e demoramos para perceber isso, tanto que, no grupo, fizemos poucas músicas em parceria. O grupo começou quando estávamos na faculdade, e aos poucos foi virando profissional. O grupo, na verdade, mal nasceu e já começou a morrer. O Pery Souza, por exemplo, saiu logo no começo. Nosso pianista mudou para Israel. Depois, entrou o João Baptista. Quando viemos para o Rio, o Quico Castro Neves não quis vir. O Zé Flávio, que no início era um grande compositor (é o autor de Canção da Meia Noite e outros hits do grupo), entrou na banda e deixou de compor para se tornar um excelente guitarrista. Aliás, no começo da dupla o Zé Flávio e o João Baptista participavam da nossa banda de apoio, ficaram conosco uns três ou quatro anos, era meio Almôndegas. O grupo não acabou por brigas e continuamos amigos, tanto que hoje temos até um grupo de whatsapp. É o que sobrou! (rsrsrrsrsrs)

Siembra (Semeadura)– Kleiton & Kledir e Mercedes Sosa:

Miguel Vaccaro Netto, um pioneiro do pop brasileiro

miguel vaccaro netto anos 2000-400x

Por Fabian Chacur

A cena musical brasileira perdeu um grande nome nesta terça-feira (22). Trata-se de Miguel Vaccaro Netto. Ele nos deixou aos 87 anos de causa não revelada. Talento versátil, ele foi jornalista, apresentador de programas de rádio e TV e também criador do célebre programa Não Diga Não, espécie de game show que fez sucesso por onde foi exibido. Ele também criou no final dos anos 1950 o primeiro selo dedicado à música jovem no Brasil, o Young.

Fora da esfera musical, foi ele quem negociou a transmissão via TV para o Brasil do jogo de despedida de Pelé do futebol, partida na qual o New York Cosmos, time que o maior craque de todos os tempos defendeu nos EUA, jogou em Nova York contra o Santos em 1º de setembro de 1977. Ele atuou como repórter de campo naquela partida, vencida pela equipe americana pelo placar de 2 a 1 com um gol do Rei do Futebol.

Em 2003, tive a honra de entrevistar o Miguel para o site da extinta revista Audio Plus. Sóbrio, generoso e com uma memória impressionante, ele me contou algumas de suas muitas histórias, envolvendo artistas como Chico Buarque e João Gilberto. Como homenagem a esta figura fantástica, segue abaixo o texto deste importante encontro que tive com o agora saudoso Vaccaro. R.I.P.

Entrevista
Miguel Vaccaro Netto

Ele revelou Chico Buarque, João Gilberto, Celly Campello….

Por Fabian Chacur

O Repórter Esso, espécie de Jornal Nacional dos anos 60, valia-se do bordão “testemunha ocular da história” como marca registrada. O jornalista, radialista e produtor Miguel Vaccaro Netto poderia perfeitamente valer-se de tal frase como mote de sua trajetória profissional. Só que não teríamos uma definição precisa, pois ele não só presenciou, como também atuou diretamente no surgimento de inúmeros artistas e movimentos musicais no Brasil, especialmente durante as décadas de 50, 60 e 70.

Entre outros, revelou e lançou na mídia Chico Buarque de Hollanda, João Gilberto, Celly Campello, Demétrius, Gilbert e dezenas (centenas, na verdade) de outros nomes. Apresentou programas de rádio e televisão campeões de audiência, além de criar o divertido game show Não Diga Não, no qual a pessoa precisa ficar dois minutos sem falar as palavras não ou né, algo muito mais difícil do que parece.

Às vésperas de completar 70 anos de idade (n. da r.: o que ocorreu no dia 7 de setembro de 2003), com ótima saúde e memória invejável, ele continua mais ativo do que nunca, com vários programas na televisão e capitaneando o serviço Discos Impossíveis, que se propõe a localizar aquele disco raro (seja CD, vinil ou DVD) que você tanto deseja, entregando-o em sua casa. Em entrevista exclusiva a Audioplus, Miguel nos conta deliciosas histórias de sua vitoriosa carreira.

Audioplus- Você iniciou sua carreira ainda muito jovem, como jornalista. Conte como acabou se envolvendo com a música.
Miguel Vaccaro Netto
– Comecei meu trabalho como jornalista aos 17 anos, e aprendi na melhor escola da época, que era a redação do jornal Última Hora, comandado por Samuel Wainer. Dali, passei para o rádio, embora continuasse fazendo colunas para jornal. Na segunda metade dos anos 50, tinha três programas em emissoras de rádio, um na Record, outro na Panamericana (hoje, Jovem Pan) e o terceiro na Rádio América. O da Record era o Disc Disco, apresentado ao vivo da meia noite às duas, que, de repente, tornou-se uma coisa louca, de tanta repercussão. O crédito desse programa entre os jovens tornou-se muito forte, a ponto de muitos irem ao estúdio, no bairro do Aeroporto, para ver sua transmissão. Muitos dos jovens que iam lá me levavam acetatos ou fitas, perguntando se eu não queria ouvi-los. Isso me incentivou a selecionar o que havia de melhor entre aqueles novos valores, e a colocá-los no ar, especialmente no programa da Jovem Pan, que era apresentado à tarde.

Audioplus- No final dos anos 1950, você criou um selo próprio, o Young. A motivação ocorreu por causa dessa efervescência toda?
Miguel Vaccaro Netto
– Na época, eu já fazia um trabalho com o Henrique Lebendiger, presidente da Fermata, editora musical, indicando novidades da Europa que poderiam ser lançadas por aqui. Naquela época, havia iniciado a transmissão do Festival de San Remo, da Itália, para o Brasil. Aí, sugeri a ele que criasse uma gravadora, e fizemos uma sociedade na palavra, no “fio da barba”, como se dizia na época, sem contrato assinado. Foi criada, então, a gravadora Fermata, e no início eu indicava artistas da Europa e dos EUA, lançamos por aqui gente como Chubby Checker, o rei do Twist, por exemplo. Sabendo que existia muita gente nova de valor, também sugeri a criação de um selo voltado especialmente para eles. O Lebendiger só concordava se eu assumisse a coisa como um todo, da seleção dos artistas às gravações e à divulgação, e eu aceitei. Passei a ser praticamente o “factótum” (faz tudo) de lá. O novo selo foi batizado de Young, e ganhou o slogan “O Disco da Juventude”. Além do pessoal que me mandava material, eu também ia a colégios em busca de revelações.

Audioplus- Muita gente boa foi revelada dessa forma, não é?
Miguel Vaccaro Neto
– Sem dúvida. Lembro que, uma vez, fui em um festival realizado no Colégio Santa Cruz, e conheci um garoto muito tímido, que tinha 17, 18 anos, mas muito bom, com potencial enorme. Ele cantava e se acompanhava ao violão. Como na Young eu só gravava músicas em inglês, vi que o tal garoto não se encaixaria lá, mas, mesmo assim, tinha um outro destino para ele em mente. Esse garoto começou a frequentar a casa da então minha noiva, com a qual posteriormente me casei e de quem depois me separei. Começamos a nos reunir lá, que era bem grande, e eu não o ensinei, pois essas coisas você já tem por si próprio, mas fiz uma lapidação do talento natural dele, investindo em postura de palco, entrada em cena, posição de violão, postura física e até mesmo na maneira de se expressar, de pôr a voz para fora da maneira correta. O trabalho durou seis meses. Quando vi que ele estava preparado, e não serviria mesmo para a Young, eu o levei para a Fermata. Esse tal jovem gravou a música A Banda, e se tornou Chico Buarque de Hollanda. Você não tem idéia de como ele era tímido, era terrivelmente tímido.

Audioplus- E na Young, quem surgiu por lá, e como era o espírito do selo, em termos de repertório?
Miguel Vaccaro Netto
– A Young lançava canções em inglês, interpretadas por brasileiros. Lancei na Young muita gente, como Demétrius, que descobri em um colégio, Marcos Roberto, Dori Edson, Hamilton Di Giorgio, Regiane, Nick Savoia, Gato (que depois foi músico do Roberto Carlos) e também grupos vocais e/ou instrumentais como Teenagers, Avalons (o primeiro grupo instrumental brasileiro de rock a gravar discos), The Rebels etc. A Young existiu sob o meu comando entre 1959 e 1963, mais ou menos. Quando o Lebendiger vendeu a Fermata e a RGE para a Som Livre, pensei que a Young tivesse ido junto, fiquei até chateado com ele. Nos anos 70, usavam o selo Young para lançamentos nacionais e internacionais voltados para o público jovem, mas eu não tinha mais nada a ver com ele.

Audioplus- Existe uma procura, por parte dos colecionadores, pelas gravações da Young da sua época. Você tem planos de relançá-las? Legalmente, existe algum tipo de impedimento em relação a isso?
Miguel Vaccaro Netto
– Com o passar dos anos, o material lançado pela Young se tornou cult, os colecionadores de fato procuram muito esses discos. No final de 2003, conversando com o Hélio Costa Manso, diretor da Som Livre e líder do grupo Sunday, que fez sucesso nos anos 70, perguntei sobre os direitos referentes à Young. Ele falou com o João Araújo, presidente da gravadora global, e me informou posteriormente que a Young continua sendo minha, que posso fazer o que quiser com o seu acervo. Então, penso em fazer no futuro um CD duplo com as principais músicas do selo.

Audioplus- Como radialista, você faz parte de uma linhagem de DJs que de fato entendiam de música, que tinham prazer em descobrir novos talentos, e que eram ouvidos pelas gravadoras. É verdade que foi você quem tocou músicas do João Gilberto em rádio pela primeira vez? Como é o seu relacionamento com esse artista tão importante e ao mesmo tempo tão folclórico?
Miguel Vaccaro Netto
– Sem falsa modéstia, eu, nos anos 50 e 60, era o DJ de mais prestígio por aqui, além de ter as minhas colunas em jornais lidas com interesse pelo pessoal das gravadoras. O João Gilberto foi de fato lançado por mim, em meu programa. A Odeon na época me chamou para ouvir o primeiro disco dele, o 78 rotações com Chega de Saudade. Ouvi, e afirmei para o Oswaldo Gurzoni, diretor da gravadora na época, que seria um grande sucesso, e que eu queria lançá-lo em primeira mão. O Gurzoni gostava mesmo de música, vibrava com cada novo lançamento, e me autorizou a fazer o lançamento. Criei toda uma expectativa em torno disso, durante quase um mês, no meu programa. Aí, Chega de Saudade foi pro ar, e o resultado é o que todos sabem, um clássico da MPB. Eu e o João nos tornamos muito amigos. A última vez que eu o vi foi em 1970, quando ele morava no México e fui ser o presidente de honra do júri de um festival de música por lá. Após o final do evento, ele nos convidou (fui com os cantores Claudya e Marcos Roberto) para jantar, e também para nos mostrar a Cidade do México. Sei que eram três da madrugada, e ele ainda estava mostrando a cidade para nós, a pé! (risos). Ele é uma pessoa muito culta, e fala muito. Às cinco da madrugada, estávamos despencando de sono, e ele nos levou para a sua casa. A Claudya se acomodou e dormiu de qualquer maneira. Eu e o Marcos Roberto não tivemos a mesma sorte, pois o João queria jogar pingue-pongue, o que, mesmo com todo aquele sono, tivemos de fazer, sendo que ele ainda estava com uma disposição incrível. (risos).

Audioplus- Nos últimos anos, você tem apresentado o Programa Miguel Vaccaro Netto na TVCom (exibida pela Net, Sky e outras emissoras pelo Brasil), no qual o mote é a participação de artistas dos anos 50, 60 e 70. Como tem sido essa experiência?
Miguel Vaccaro Neto
– Muito boa. No formato atual, estamos no ar há três anos, e já fomos até imitados, e mal, diga-se de passagem, pelo Ratinho. Tive a oportunidade de entrevistar os grandes nomes desse período. Inclusive, um momento que me marcou foi a última entrevista feita com Celly Campello, que, ao lado do irmão Tony, tive a oportunidade de lançar em meu programa de rádio, nos anos 50. Gravamos essa entrevista meses antes de sua morte, e a Rede Bandeirantes chegou a exibi-la na íntegra, como homenagem. Ela morreu em março de 2003. Passaram pelo programa artistas como Benito Di Paula, Os Vips, Os Incríveis, Eduardo Araújo, Tony Campello, Marcos Roberto, Silvinha Araújo e inúmeros outros daquela época áurea da música jovem no Brasil. Nele, também faço o game show Não Diga Não, que em breve deve também ir para a tevê aberta. E estrearei na Alltv, de Alberto Lucchetti Neto, o programa Discos Impossíveis, no qual entrevistarei pessoas que possuem discos raríssimos, mostrando-os, contando como os obtiveram e tocando trechos dos mesmos.

Audioplus- Aliás, aproveitando o gancho, fale-nos sobre esse serviço criado por você, o Discos Impossíveis. Como surgiu a idéia, e do que se trata?
Miguel Vaccaro Netto
– Bem, tudo começou quando muita gente me ligava, pedindo para informar onde poderiam encontrar discos dos artistas que participavam do meu programa. No início, não pensava em mexer com isso, apenas fazia a ligação entre as pessoas e os artistas, para que elas pudessem ser atendidas. Até que percebi existir um grande filão aí, e me propus a encontrar esses discos para as pessoas. O nome Discos Impossíveis, cuja marca inclusive registrei, dá bem a medida. Não importa o que for, se vinil, CD ou mesmo DVD, é só ligar e encomendar que a minha equipe sai à caça. Após uma matéria publicada na revista Veja São Paulo, a procura tornou-se ainda maior, cheguei a receber entre 800 a 900 pedidos em apenas 15 dias. Até agora, não houve item que a gente não tivesse encontrado, sendo que a demora vai de alguns dias a um mês e meio, dependendo da raridade do que se procura.

Audioplus- Você ajudou na consolidação do chamado mercado de música jovem no Brasil. Como encara isso?
Miguel Vaccaro Netto
– Tenho uma convicção bem consolidada de que nada acontece fora de hora. Na ocasião (final dos anos 50), havia uma demanda muito grande pela música americana por aqui, era o auge do Dick Clark (American Bandstand) nos EUA, e meu, por aqui. Senti que havia um vácuo, gente muito boa que não tinha espaço, e criei a Young, era o momento. Isso desencadeou muita coisa, propiciando o clima para a pré-Jovem Guarda, a própria Jovem Guarda, quando se criou esse rótulo (música para a jovem guarda, para o jovem) e a pós-jovem guarda. Hoje, não sinto mais esse clima propício. Existe um mix tão grande de hits de qualidade duvidosa que não há um perfil definido de música brasileira ou americana. Outro dia conversava com um amigo, o cantor e ator Gilbert, e comentávamos que nada mais dura na área musical. Hoje, as coisas surgem e vão embora como um cometa, não deixam marca. Na época, o comunicador tinha por obrigação direcionar o público para o que houvesse de qualidade, e era mais fácil, pois qualidade artística era o que não faltava. Atualmente, um fenômeno como os Tribalistas de Marisa Monte, que conciliaram apelo comercial e qualidade artística, é muito raro. Há um excesso de informação via internet, rádio e televisão, as pessoas não tem tempo de assimilar tudo isso, e passam a ter um gosto descartável. A oferta maior do que a procura tornou o mercado sem sabor, tanto os radialistas quanto as pessoas das gravadoras infelizmente caem lá de para-quedas, não entendem nada.

Veja especial do programa do Miguel sobre a gravadora Young:

Luizinho Lopes, um cantor e compositor mineiro de primeira

Luizinho Lopes-400x

Por Fabian Chacur

Muitos músicos de grande talento são obrigados a dividir sua vocação com o trabalho em outras áreas para conseguir sobreviver. Este é o caso do cantor, compositor e músico mineiro Luizinho Lopes, que além das artes é graduado em engenharia e atua como funcionário público desde 1996. No entanto, ele soube conciliar as duas atividades e, dessa forma, criar uma obra rica, consistente e admirável, em seus mais de 40 anos na música.

Como forma de celebrar essas quatro décadas como músico, Luizinho lançou o álbum-vídeo Dossiê40, já disponível nas plataformas digitais e ainda sem previsão de lançamento em formatos físicos (uma pena!). Nessa longa e deliciosa entrevista concedida a Mondo Pop, ele viaja pela sua belíssima trajetória como músico e criador de um songbook que merece ser mais conhecido Brasil e mundo afora, por sua qualidade incontestável.

MONDO POP- Para começar, fale um pouco de como teve início a sua relação com a música, se sua família tem músicos, o que você ouvia quando era criança, quando começou a tocar e cantar etc.
LUIZINHO LOPES
– Comecei a cantar, em casa, desde muito cedo. Na década de 60 havia os grandes festivais de MPB. Meu pai adorava. Sempre um LP era lançado com as finalistas. Meu pai comprava e me dava de presente. Com seis, sete anos, eu já curtia Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano, Gil, Milton, Geraldo Vandré, Elis Regina, Agostinho dos Santos e muitos outros. Considero essa a minha primeira formação musical. Meu pai teve dois irmãos que eram músicos, um tocava flauta e saxofone e o outro chegou a ser maestro de banda de cidade do interior. Meu pai nasceu em São Pedro dos Ferros, zona da mata mineira, próximo a Ponte Nova. Comecei a tocar violão bem mais tarde aos 18 anos! Antes,fiz algumas músicas de ouvido. Escrever, comecei desde cedo. E lia muito.

MONDO POP- Você nasceu em Pirapora (MG), mas está em Juiz de Fora há muito tempo. Qual a influência dessas duas cidades em sua vida e, por tabela, na sua criação musical?
LUIZINHO LOPES
– Meu pai era bancário. Somos seis filhos. Eu sou o caçula. Meu pai foi transferido de Governador Valadares para Pirapora, onde chegou promovido a gerente do banco. Morou lá por uns sete anos. Nasci lá, mas quando a família mudou-se da cidade, eu tinha somente dois anos. Então, Pirapora nem chegou a exercer uma influência considerável em minha formação, não tenho lembranças de lá. Só mais tarde que retornei para conhecer. Posteriormente, meu pai foi transferido para Bom Jesus do Itabapoana, fronteira do estado do Rio com Espírito Santo, onde moramos por apenas três anos. De novo, meu pai foi transferido para Leopoldina, Minas, onde morei dos cinco aos treze anos. De Leopoldina meu pai foi para Juiz de Fora, onde se aposentou. Foi em Juiz de Fora que tudo começou para mim em relação à arte.

MONDO POP- Você é graduado em engenharia civil. Trabalha na área? Muitos músicos aceleraram seus contatos ao participar do meio universitário, isso também ocorreu com você?
LUIZINHO LOPES
– Foi Na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) que iniciei de forma a princípio amadora a minha carreira musical. Ganhei um violão de meu pai logo quando passei do primeiro para o segundo período(semestre) na Engenharia. Tinha acabado de completar dezoito anos. Uma tarde, após o almoço, estava de férias, fui para o meu quarto escutar um pouco de música, e logo depois, meu pai entrou e me disse que havia visto um violão “bonitinho” na vitrine de uma loja e pensou em me dar de presente, já que eu adorava música. Nessa época, meu pai já havia se aposentado, a diferença de idade dele para mim era de quarenta e dois anos, ele tinha sessenta anos, isso foi em 1977. Acabei convencido, e fui com ele até a tal loja. Quando cheguei com o violão em casa, por volta das duas e meia da tarde, tranquei-me em meu quarto e comecei a tocar. Lá pelas oito da noite, meu pai bateu na porta, e assim que entrou, foi logo comentando: “Meu filho, você está aqui trancado sem sair desde quando chegamos da rua, se soubesse que seria assim, nem teria tido a ideia de dar um violão pra você. Você não saiu nem pra ir ao banheiro ou tomar água. Não é possível, dê um tempo. Vá comer alguma coisa. O que você fez esse tempo todo? Que eu saiba, você nunca havia tocado violão antes”. E eu respondi: “Fiz uma música. Quer ouvir?”… Daí em diante, na atmosfera da UFJF, sem dúvida, adquiri muitos contatos. Estávamos em plena ditadura militar, sentíamos necessidade de estar juntos, cantar juntos, como se isso nos protegesse contra o
medo e a censura. E hoje afirmo com certeza, foi o grande aprendizado que carreguei para a minha vida, não só artística.

MONDO POP- Fale um pouco de como foi a experiência como integrante do grupo Vértice, como surgiu, quanto durou, se gravou algo, e porque acabou. Ainda tem contato com seus ex-integrantes?
LUIZINHO LOPES
– O Vértice surgiu em 1979. Inicialmente eram sete integrantes, quatro estudantes de engenharia, um de economia, um de farmácia e outro que cursava medicina. O nome Vértice foi dado, obviamente, por um estudante de engenharia, na época, o que era o melhor músico do grupo, o Thadeu Grizendi. Todos homens na primeira formação. Com o tempo, chegaram duas cantoras: Andréa Gomes (hoje, Monfardini) e Lúcia Neves. O auge do Vértice foi a participação no programa Som Brasil da TV Globo, em dezembro de 1981. Na época o programa era comandado por Rolando Boldrin. Gravamos três músicas, uma instrumental, “Sete Lenços”, composta pelo Thadeu Grizendi e por Edson Zaghetto, que fora o último a entrar no grupo, “Vice-Versa” e “Chaminés”, ambas de minha autoria, letra e música. O programa foi ao ar em janeiro de 1982, mas a instrumental foi cortada, somente as minhas duas músicas foram apresentadas no programa. Meses mais tarde, descobrimos que “Sete Lenços” estava sendo usada como fundo de uma propaganda da Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo. Nós éramos muito ingênuos, pedimos só para que a música fosse extraída da propaganda. A nossa apresentação repercutiu bastante. Fomos convidados a fazer diversos shows. O Grupo Vértice realizou dois shows oficiais em teatro, o “Sem Fronteiras”, em 1981 e o “Via Luz”, em 1982, ambos em Juiz de Fora. O grupo acabou no final de 1982. A maioria dos integrantes formou-se na Universidade e partiu para a vida profissional. Também me formei no fim de 1982, mas resolvi partir para a música. Em 1983, fiz o primeiro show, já fora do Vértice, com a cantora Andréa Gomes, chamado “Hóstia da Noite”.

MONDO POP- Você está celebrando 40 anos de carreira. Qual é o marco inicial, a partir do qual você conta essas quatro décadas?
LUIZINHO LOPES
– O marco inicial é 1978, ano em que comecei a me apresentar cantando tão somente canções de minha autoria, no palco do Anfiteatro do ICBG (Instituto de Ciências Biológicas) na UFJF, em um projeto que se chamava Som Aberto, com edições que aconteciam todos os sábados, a partir das dez da manhã. O show “DOSSIÊ40” foi gravado em dezembro de 2018, completando justamente estes quarenta anos. DOSSIÊ40 foi lançado somente em 2020. Em 2019, gravei e lancei um outro álbum, “Pé de Letras”, o que acabou atrasando o lançamento de “DOSSIÊ40”.

MONDO POP- Seu primeiro álbum, Nem Tudo Que Nasce é Novo, saiu em 1990, quando você já tinha por volta de uma década de estrada. Quais as dificuldades para conseguir, enfim, concretizar esse disco, e na sua opinião porque demorou tanto tempo para realizar esse sonho?
LUIZINHO LOPES
– Na época, era muito mais difícil gravar um disco do que hoje. Os custos eram bem mais elevados e eu vivia, na ocasião, somente da música, tinha poucos recursos e o “Nem Tudo Que Nasce É Novo” foi um disco feito de forma independente. Tive uma ideia que pus em prática e que possibilitou a gravação do meu primeiro disco: um vale-disco, em que a pessoa comprava o LP de forma antecipada. Deu certo, vendi cerca de trezentos vales assim.

MONDO POP- Qual a importância na sua trajetória de participar de festivais? Lembre-se de algumas experiências nessa área que você considere as mais significativas em termos de repercussão.
LUIZINHO LOPES
– Participei de diversos festivais, como integrante do Vértice e de forma individual. Os mais marcantes foram os festivais do TUCA, em São Paulo (SP), em 1982, em Porto Alegre(RS) e Ouro Preto(MG), ambos em 1983, no Festival Nacional do Carrefour, semifinal em Uberlândia(MG), em 1992, e no Musicanto, em Santa Rosa (RS), festival de música latino-americana, em que faturei o segundo lugar com a música “Lume” numa interpretação antológica do grande cantor paulistano Renato Braz, acompanhado pelo maestro Roberto Lazzarini ao piano, e por mim no violão. O prêmio neste festival trouxe uma grande visibilidade, que contribuiu muito para a expansão de meu trabalho.

MONDO POP- A sua carreira ganhou força a partir de 2014, com mais lançamentos de CDs e DVDs do que em todos os anos anteriores. Qual a razão?
LUIZINHO LOPES
– Creio que tenha sido pelo fato de que em 2012 consegui retornar para Juiz de Fora, e com isso pude ter mais condições de investir em meu trabalho musical. Gravar um disco foi se tornando mais fácil, a
tecnologia contribuiu para o barateamento das gravações. Este fato, inclusive, já tinha sido observado por mim quando da gravação de “Noiteceu”, meu terceiro álbum, que foi gravado com recursos próprios além de recursos da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora.

MONDO POP- O Ricardo Itaborahy tem uma participação importante na fase mais recente de sua carreira. Como você o conheceu, e como funciona o entrosamento musical entre vocês?
LUIZINHO LOPES
– A resposta a esta pergunta tem a ver com a questão anterior. Em 2015, quando Ricardo Itaborahy assumiu a direção musical de “Falas Perdidas”, CD produzido com recursos da Lei Murilo Mendes e recursos próprios, percebi que meu trabalho tomaria outro rumo. Ricardo já havia feito a mixagem de meu álbum anterior, “Luizinho Lopes Ao Vivo”, álbum duplo por sinal, e ali já pude observar a maneira dele trabalhar. Quando iniciamos a produção de “Falas Perdidas”, parecia que já havíamos trabalhado juntos nessa atividade anteriormente. Tudo se encaixava, o modo como ele desenvolveu os arranjos, e até hoje ele discorre sobre isso, respeitando as sequências harmônicas que eu criara quando da composição das músicas, para em cima disso poder partir para suas ideias, além de facilitar o seu trabalho, fazia com que a música não perdesse a sua essência de origem. Em minha opinião, um grande erro de um arranjador é praticamente desvestir a música de um compositor para sobrecarregar com suas ilações, o que na quase totalidade dos casos, desfigura a obra original, transportando o que restar para o patamar da mesmice. O entrosamento entre mim e Ricardo é muito grande. O fato de Ricardo morar em outra cidade faz com que eu envie para ele uma nova composição ou uma ideia de arranjo, através dos meios digitais. Muitas vezes, quando nos encontramos para realizar uma apresentação, um show, não dispomos de muito tempo para ensaiar, o que não chega a ser problema para nós, um tanto também pelo entrosamento que há.

MONDO POP- Fale sobre a concepção de Dossiê40 – escolha de repertório, montagem da banda de apoio, local etc. Quantas músicas incluídas neste trabalho nunca haviam entrado antes em um de seus discos?
LUIZINHO LOPES
– Para o repertório, primeiramente, recolhi cinquenta músicas para escolher dezesseis para o show. Com ajuda do Ricardo Itaborahy peneiramos para vinte e cinco, e finalmente para dezenove. Seis músicas não haviam entrado anteriormente em nenhum de meus discos: Charada, A Dança das Palavras, Coração Kamikaze, Que Loucura!, Vice-Versa e Vi a Luz.

MONDO POP- As cantoras Andréa Monfardini e Elisa Bara Zaghetto participam do álbum. Como surgiu a ideia de convidá-las, e como você avalia o resultado da participação delas?
LUIZINHO LOPES
– As duas cantoras tiveram participações marcantes no show. Andréa Monfardini já participa de trabalhos comigo desde a época do Vértice. A Elisa estuda canto desde cedo e atua em teatro também, tem uma voz
diferenciada, muito afinada. Não é para menos, sempre recebeu orientação artística de seu pai, meu grande parceiro Edson Zaghetto.

MONDO POP- Como você define o seu universo musical, enquanto cantor e compositor? Quais são as influências que você sente como mais decisivas para a consolidação de seu estilo musical próprio?
LUIZINHO LOPES
– De uns tempos pra cá, comecei a vasculhar as origens da arte em minha vida. Na infância, em Leopoldina, estudei em colégio de freiras.Lá, havia uma bandinha com instrumentos de percussão e vozes. Eu era
sempre a primeira voz do grupo, por ser afinado, principalmente, lembro-me da professora que coordenava a bandinha comentar isso. Depois na adolescência, quando já morava em Juiz de Fora, andei fugindo do papel de cantor por uma timidez adquirida não sei como. Mesmo depois de ter lançado dois álbuns, ainda não sentia muito prazer em cantar, na verdade tinha medo de soltar a voz. Enfim, em 2002, encontrei um professor de canto que me fez perder o medo. Estudei com ele por dois anos e foi o maior aprendizado que tive em relação à música, mais do que qualquer aprendizado de teoria musical, harmonia ou técnicas de violão, porque ganhei confiança e a certeza de que o que eu precisava era me soltar no palco, interpretar o que cada canção suplica. Como compositor, creio que as minhas maiores referências são musicais, literárias e cinematográficas. Não sei separá-las. O cinema é cheio de música, palavra e silêncio. É o que mais me fascina. E isso interfere diretamente nas minhas composições. No geral, nomes imprescindíveis para mim: Chico Buarque, Gilberto Gil, Egberto Gismonti, Vítor Ramil, Beatles, Keith Jarret, Chico César, Elomar Figueira de Mello, João Cabral de Melo Neto, Octavio Paz, Luiz Ruffato, Gabriel García Márquez, Kafka, Jorge Luiz Borges, Luis Buñuel, Bergman, Scorcese e Stanley Kubrick. A influência mais decisiva para mim talvez venha de uma expressão literária, talvez seja Jorge Luiz Borges; quando o li pela primeira vez engatei uma leitura de umas 6 horas sem parar, sem levantar da cadeira, foi um soco e eu disse para mim mesmo: dessa forma que eu quero trazer as palavras para a minha música…

MONDO POP- Boa parte das suas composições são solo, mas você também tem algumas parcerias. Comente um pouco como é escrever canções sozinho e também com parceiros.
LUIZINHO LOPES
– Adoro escrever e adoro fazer música. Quando estou compondo sozinho, tenho um prazer especial de ao estar tecendo a melodia, ao mesmo tempo estar selecionando palavras. As palavras chegam antes do tema muitas vezes. Compor com parceiros é sensacional, mas tem que haver muita afinidade com a forma que o parceiro escreve, por exemplo. Por isso tenho poucos parceiros, e esses poucos, deixam comigo os textos que vou conformando à métrica e à necessidade da canção. Entre os parceiros que me municiam com palavras, tenho dois ilustres que eu me orgulho muito, que são o Luiz Ruffato e o Iacyr Anderson Freitas. Já em relação aos parceiros que fazem as melodias, são muito poucos. Sinto muita falta de receber melodias para que eu possa criar as letras.

MONDO POP- Você iniciou sua carreira no final dos anos 1970, em um momento no qual a música brasileira vivia uma de suas fases áureas. Que recordações tem daquela época, e como avalia a cena atual?
LUIZINHO LOPES
– Aquela foi uma época em que ficávamos esperando um disco chegar com tremenda ansiedade. Lembro-me muito do LP A Ópera do Malandro, do Chico Buarque. Cheguei na loja de discos, ainda fechada, e aguardei. Na véspera, fiquei sabendo que chegariam poucas unidades do disco, fui o primeiro a comprar. A MPB estava no auge, vários trabalhos magistrais sendo lançados, praticamente um disco por ano dos grandes compositores. Sem entrar no mérito dos diversos benefícios que a era digital trouxe para a arte em geral, pelo menos o glamour do lançamento da bolacha, do LP, foi perdido, e não sinto como substituí-lo. A cena atual ainda é indecifrável. Como não há espaço suficiente na mídia tradicional para a música de qualidade como havia
no final dos anos 1970, a descoberta das pérolas fica restrita e sujeita à qualidade de farejo do pescador digital.

MONDO POP- Como você encara os formatos através dos quais se lançam músicas atualmente? Pretende lançar Dossiê40 também em formato físico (CD,DVD)? O formato digital tem trazido bons frutos para você em termos de
repercussão e ganhos financeiros?
MONDO POP
– Sem dúvida, a partir desses formatos digitais surgiu uma chance de democratização maior da divulgação do artista, de sua obra de arte. Na prática isso não está ocorrendo ainda para determinados setores da
música. Em termos de repercussão aumentou bastante o alcance de minha música, de minha obra. Em termos de ganho financeiro, ainda não. Mas está aumentando, isso varia proporcionalmente com a quantidade de seguidores nas redes sociais. Por ora, não pretendo lançar o DOSSIÊ40 em formato físico.

MONDO POP- Dossiê40 pode ser considerado uma espécie de viagem por esses 40 anos de carreira?
LUIZINHO LOPES
– Com certeza. A forma como escolhemos o repertório levou em consideração as variáveis “idade” da música, aceitação, contemporaneidade, impacto, poesia e outras. Obviamente se adicionadas mais umas quatro músicas, essa viagem seria mais abrangente, ficaria ainda mais representativa.

MONDO POP- Como compositor, quem você gostaria de ouvir interpretando canções de sua autoria? E como intérprete, com quem você gostaria de trabalhar junto, em shows ou em gravações?
LUIZINHO LOPES
– Gostaria muito de ter músicas cantadas pelo Ney Matogrosso e Marisa Monte. Como intérprete, gostaria de estar no mesmo palco do Vítor Ramil e do Chico César, cantando com eles suas canções.

MONDO POP- Você é graduado em cinema documentário. Pretende também fazer trabalhos nessa área? O que te levou a fazer esse curso? Pensa em unir as duas coisas- música e cinema, quem sabe em trilhas ou coisa que o valha?
LUIZINHO LOPES
– Meu desejo maior desde criança era ser cineasta. Fiz esse curso, porque morava no Rio de Janeiro na época, e não tinha tempo de fazer uma faculdade de cinema. Eu fui da primeira turma de Pós-Graduação
em Cinema-Documentário da FGV-Rio. Está em meus planos realizar um longa, tenho um roteiro bem desenvolvido e adoraria fazer trilhas para cinema, a oportunidade que ainda não surgiu.

MONDO POP- Para encerrar: você consegue viver de música, em termos financeiros? Se a resposta for não, qual ocupação te proporciona isso?
LUIZINHO LOPES
– Não consigo viver de música. Em 1996, através de aprovação em concurso público, assumi o cargo de Auditor Fiscal da Receita Estadual de Minas Gerais, que, dentre outras coisas, possibilitou que eu residisse na capital do Rio de Janeiro de 1999 a 2009, já que Minas Gerais ali possui um escritório avançado da Receita Estadual, e onde entre várias conquistas musicais, pude cursar Cinema Documentário na FGV. A partir de 2012, quando retornei para Juiz de Fora, pude investir mais em minha carreira musical. Foi uma decisão muito difícil o de entrar no serviço público, pelo fato de sobrar menos tempo para me dedicar à música, mas acabou que tive muita disciplina e persistência, e com o tempo fui aprendendo cada vez mais a administrar a situação, hoje digo com tranquilidade, considero-me um músico profissional e posso realizar trabalhos musicais que eu gosto, antes de tudo, sem me curvar a qualquer obrigação de mídia ou coisas do gênero. Isso proporciona uma imensa tranquilidade e grandes realizações, apesar do sacrifício. Se nada de absurdo ocorrer, dentro de dois anos aposento-me no serviço público, para a partir daí poder dedicar-me totalmente às artes.

Ouça e veja Dossiê40, de Luizinho Lopes, em streaming:

Mahmundi investe em um som de banda em seu álbum Mundo Novo

Por Fabian Chacur

Aos 33 anos de idade, Marcela Vale tem muitas histórias para contar. Filha adotada por uma família de evangélicos, a moça se envolveu com a música desde cedo, tocando bateria e violão e cantando em igrejas. Com o tempo, sentiu que era essa musa que desejava seguir. Mas não foi fácil. Durante anos, conciliou trabalhos fora dessa área com a atuação como técnica de áudio e microfonista de lugares como o Circo Voador e a Fundição Progresso.

Há cerca de 10 anos, resolveu encarar o desafio de uma carreira como cantora, musicista e compositora. Desde então, conhecida pelo nome artístico Mahmundi, vai pavimentando uma trajetória das mais interessantes. Efeito das Cores (2012) e Setembro (2013), dois EPs, foram os seus primeiros lançamentos. Em 2016, veio o primeiro álbum, Mahmundi, pelo selo Stereomono-Skol Music.

Sua parceria com a gravadora Universal Music teve início em 2018 com o álbum Para Dias Ruins. Desde o início, mostrou uma voz doce e muito bem colocada, aliada a canções que, como um todo, dificultam uma rotulação. Seria nova MPB, pop, soft rock, eletropop, r&b, reggae, soul? Ou seria tudo isso junto e misturado? Pouco importa, pois a qualidade é o que importa, e é grande.

Mahmundi nos oferece ecos de Corinne Bailey Rae, Marina Lima, Marisa Monte e Erikah Badu, só para citar algumas possíveis referências, mas do seu jeito. Mundo Novo, seu novo álbum, acaba de ser disponibilizado nas plataformas digitais, e tem tudo para ampliar ainda mais os seus horizontes profissionais em termos de público e crítica especializada.

São sete faixas (incluindo uma espécie de vinheta). Uma, inteligentemente escolhida para iniciar a divulgação do trabalho, é a hipnótica Nova TV, uma das duas parcerias com o artista carioca Castello Branco incluídas neste álbum (a outra é Nós de Fronte). Trata-se de uma gravação absolutamente perfeita, que te prende do primeiro ao último segundo, com letra e melodia envolventes.

Sem Medo, parceria com Felippe Lau, fecha o lado autoral. Convívio (Paulo Nazareth) e Vai (Frederico Heliodoro), de dois talentosos compositores da nova geração, estão aqui. O repertório é fechado com uma bela releitura de No Coração da Escuridão, composição de Dadi e Jorge Mautner gravada pelo primeiro originalmente em seu autointitulado álbum de 2005 com marcante participação de Caetano Veloso nos vocais.

Mundo Novo equivale a um álbum conciso (tem pouco mais de 20 minutos de duração) que deixa aquele adorável gostinho de quero mais, amostra luxuosa de uma artista que tem tudo para pavimentar uma discografia preciosa. Em entrevista por telefone a Mondo Pop, a artista carioca atualmente radicada em São Paulo nos dá algumas pistas de suas intenções musicais.

MONDO POP- Como foi o seu encontro com a música, e o que você ouvia quando criança e adolescente?
MAHMUNDI
– Minha educação musical foi muito restrita à música gospel, pois meus pais são religiosos. Ouvia música gospel americana e brasileira. Comecei, na igreja, a tocar violão e bateria. Só depois fui ouvir outras coisas, como Legião Urbana, Oasis, Keane, Avril Lavigne.

MONDO POP- Qual a diferença básica do conceito deste novo trabalho em relação aos anteriores?
MAHMUNDI
– Tenho uma assinatura estética em cada um deles. A ideia em Mundo Novo era fazer algo que soasse mais como uma banda, saindo da produção sozinha, dos sintetizadores e tudo mais. Então, partimos pra um trabalho com coprodução do músico Frederico Heliodoro, que trouxe suas referências de música instrumental. Eu assino a direção e a produção musical e ele fez a coprodução do álbum.

MONDO POP- Mundo Novo tem uma duração de 22 minutos, não muito comum em álbuns tradicionais. Há quem rotule um trabalho com essa duração como EP. Como você encara essa questão?
MAHMUNDI
– Para mim, esse trabalho é um álbum, pois tem um formato atual, adaptado para os dias atuais. Toda a concepção dele é a de um álbum, desde a seleção de faixas até a concepção final, capa, encarte etc.

MONDO POP- Esse é o seu segundo álbum lançado por uma gravadora grande, a Universal Music. Como está sendo a relação entre vocês?
MAHMUNDI
– Minha relação com a Universal é maravilhosa. Eu cuido de tudo em termos artísticos e criativos, e eles me dão todo o apoio necessário na parte de divulgação. A sugestão de que Nova TV fosse a primeira faixa de trabalho, por exemplo, foi uma sugestão deles que acabei aceitando.

MONDO POP- Aliás, já que tocamos nessa faixa, fale um pouco sobre ela.
MAHMUNDI
– É uma parceria com o Castello Branco, que é um artista carioca maravilhoso. Vi um texto dele em uma rede social, gostei muito e adaptei para a criação desta canção. Adoro TV, ver o que as pessoas fazem nos botecos, sair dessa visão de Sudeste que as pessoas tem do Brasil. Somos muito presos aos celulares, e essa música fala sobre isso.

MONDO POP- Como surgiu a ideia de reler No Coração da Escuridão?
MAHMUNDI
– Conheci o Dadi quando ele tocava com a Ana Cañas, em um show no Circo Voador. Eu nem sabia quem ele era, e vi que ele tocava muito, fiquei impressionada como ele era bom. Fiquei amiga dele, e depois fui saber de tudo o que ele já tinha feito em sua carreira. É uma pessoa muito profunda. Este álbum é um encontro muito bonito entre eu e outras pessoas, conectei-me com o melhor das pessoas envolvidas neste trabalho.

MONDO POP- O título do seu disco anterior é Para Dias Ruins. Este é Mundo Novo. No caso do que você está lançando agora, isso tem a ver com o que estamos vivendo nesse momento atual?
MAHMUNDI
Mundo Novo é uma relação muito pessoal, muito comigo mesma, comecei a criar o conceito desse trabalho em 2019. Fiz psicanálise e me descobri muito nesse processo. Quanto ao que está acontecendo hoje, não dá pra ficar só batendo panelas, só reclamando. Não podemos nos bloquear, é preciso seguir em frente, pois isso vai passar. O brasileiro consegue de um jeito muito espirituoso resolver as coisas.

Nova TV– Mahmundi:

Alexia Bomtempo mostra em Suspiro sua versão da bossa nova

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Por Fabian Chacur

A cantora Alexia Bomtempo nasceu em Washington D.C. (EUA), filha de pai brasileiro e mãe americana. Foi criada no Brasil, mas com várias passagens por seu país de origem. Isso criou uma espécie de dualidade cultural em sua formação pessoal que se refletiu em uma trajetória musical com mais de 10 anos.

Há quase oito anos radicada em Nova York, Alexia está lançando Suspiro (que saiu no Brasil pela Lab344, ouça aqui), seu quarto álbum, no qual mergulha em uma visão própria da bossa nova, com direito a canções autorais, inéditas de outros compositores e clássicos nada óbvios daquele movimento musical, de autores como Jorge Ben Jor, João Donato e Edu Lobo.

Em entrevista feita por email a MONDO POP, ela conta tudo sobre o novo trabalho e também nos dá uma geral em sua interessante e bastante consistente trajetória como cantora e compositora.

MONDO POP- Suspiro, seu novo álbum, é um trabalho bem diferente do seu álbum anterior, mais voltado para o pop-rock. Este novo tem um espírito bem de bossa moderna. Como surgiu a ideia de fazer um CD com essa sonoridade?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu passei uns meses em Tokyo fazendo uma residência de jazz e tive uma espécie de “reencontro” com a bossa nova. Fiz um mergulho naqueles discos que foram a base da minha formação musical, comecei a compor músicas novas e convivi muito com amigos e fãs japoneses completamente apaixonados por bossa nova. Voltei pra Nova York com a ideia de fazer um album que explorasse esse universo.

MONDO POP – O repertório de Suspiro mescla faixas inéditas e releituras nada óbvias. Que critérios você seguiu para fazer a seleção? Desde o início a ideia era mesclar idiomas (português, francês e inglês)?
ALEXIA BOMTEMPO
– A gente já tinha o conceito do álbum, que era saudar esse movimento samba-bossa-jazz dos anos 60 e 70, mas com um pensamento moderno. Apesar de fazer minhas próprias músicas, sempre gostei de cantar canções de outros compositores. Adoro pesquisar repertório e encontrar pérolas, relembrar músicas que foram lançadas lá atrás com roupagem diferente. Eu, o Jake e o Stéphane fomos trocando ideias e selecionando o repertório de forma colaborativa. Sou naturalmente bilíngue, sempre cantei em inglês e português e com esse álbum não poderia ser diferente. A bossa nova tem ligação forte com a cultura francesa e achamos bacana explorar esse idioma também.

MONDO POP- Como ocorreu a seleção das faixas inéditas? O objetivo era misturar canções de sua autoria com as de outros compositores ou isso acabou ocorrendo naturalmente?
ALEXIA BOMTEMPO
– O objetivo era esse, mas tudo aconteceu naturalmente. Eu já tinha algumas músicas prontas, depois fiz outras com o Jake pensando mais no conceito do álbum. O Stéphane estava passando uns dias no Rio nessa fase de pré-produção do disco e pediu canções inéditas ao Alberto Continentino e ao Domenico Lancellotti – dois compositores que eu adoro.

MONDO POP- A sonoridade do álbum é muito coesa, delicada e elegante, e soa como um trabalho de banda. Essa era a sua ideia inicial? Escolheu os músicos pensando nisso?
ALEXIA BOMTEMPO
– Sim, a ideia era fazer um disco com essa sonoridade de banda. Chamamos o pianista Vitor Gonçalves e o baixista Eduardo Belo (ambos brasileiros radicados em Nova York), que já vinham tocando com o Stéphane num outro projeto de samba-jazz. Foi bacana, porque já existia todo um entrosamento. O Jake, apesar de ter muita experiência com música brasileira, vem de uma formação mais jazz e blues que somou muito pra chegarmos nesse lugar delicado, elegante e internacional.

MONDO POP- Qual a importância dos produtores Jake Owen e Stéphane San Juan na concretização do álbum Suspiro, e como rolou o dueto com Stéphane em Les Chansons D’Amour?
ALEXIA BOMTEMPO
– O Jake e o Stéphane foram fundamentais. Eles são produtores fantásticos, pessoas lindas e profissionais incríveis. Todo o processo de feitura do disco se deu de uma forma muito leve, divertida e colaborativa – desde a escolha do repertório. Achamos que seria interessante ter uma música em francês, pela bossa nova ter um elo tão vivo com a cultura francesa e o Stéphane fez a letra pra música do Alberto Continentino, que resultou em Les Chansons D’Amour. O dueto também é uma referência aos duetos clássicos de bossa nova. A voz grave do Stéphane combinou muito com a minha e acho que a gravação transporta o ouvinte para outra atmosfera. Ah, e o Stéphane é francês!

MONDO POP- Fale um pouco sobre o clima das gravações, se você gravou com os músicos ao mesmo tempo ou naquele esquema de ir criando aos poucos a base instrumental para depois colocar a voz.
ALEXIA BOMTEMPO
– Gravamos no SuperLegal Studio (do Jake e do percussionista Mauro Refosco) que fica no Brooklyn, tudo ao vivo, com os músicos tocando ao mesmo tempo, “como se fazia antigamente” – inclusive a voz. Os arranjos foram feitos na hora, sem muito ensaio. Eu, o Jake e o Stéphane já tínhamos escolhido o repertório e conhecíamos as músicas, mas o Eduardo e o Vitor foram ouvindo as ideias na hora, deixando a criatividade fluir, e contribuíram imensamente na elaboração de cada faixa. Foi muito leve e divertido, gravamos as bases em dois dias e depois convidamos o trompetista Michael Leonhart para participar. Ele é um músico fantástico e apaixonado por bossa nova. Também chamamos o guitarrista Guilherme Monteiro para participar da faixa “Les Chansons D’Amour” e ele fez o arranjo no violão rapidamente, de uma forma muito natural. Eu amei fazer um disco assim, livre (e em pouco tempo).

MONDO POP- Gostaria de que você me lembrasse um pouco de suas origens, sendo filha de um brasileiro e de uma americana e tendo nascido em Washington. Foi criada lá ou aqui? E como foi essa criação em termos musicais, o que seus pais ouviam, o que você ouvia na infância e adolescência?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu fui criada nos Estados Unidos e no Brasil. Minha vida foi meio partida entre os dois países, foram muitas idas e vindas ao longo dos anos. Sempre me senti dividida, e as influências das duas culturas se misturam muito dentro de mim. A minha formação musical também foi assim, misturada. Em casa a gente ouvia os clássicos do Brasil (Caetano, Gil, Djavan, Tom Jobim, Gal, Rita Lee, João Gilberto) e da América do Norte (Bob Dylan, Billie Holiday, Joni Mitchell, Janis Joplin, Leonard Cohen). Meu pai era produtor cultural em Petrópolis, então tive a sorte de crescer na coxia, assistindo de perto os shows dos grandes nomes da música brasileira. Foi uma infância muito estimulante e eu sempre soube que queria fazer parte daquele mundo algum dia.

MONDO POP- Relembre um pouco suas primeiras experiências musicais, e em que momento você decidiu que esse seria o seu projeto profissional, ser uma cantora e compositora.
ALEXIA BOMTEMPO
– Durante a minha infância e pré-adolescência no Brasil, estudei teatro no Tablado. Já gostava de cantar, mas comecei no teatro. Já com 17 anos e morando nos Estados Unidos, entrei para o coral da escola e comecei a me destacar. E então resolvi abraçar a música de vez. Voltei pro Brasil, montei uma banda e toquei na noite durante um tempo. Depois, resolvi estudar canto lírico nos Estados Unidos e fiquei na faculdade por dois anos antes de voltar novamente ao Brasil. Conheci o produtor Sérgio Carvalho, que produziu minha primeira demo e depois me apresentou seu irmão Dadi – que se tornou um grande amigo, um padrinho musical e produziu meu primeiro disco, Astrolábio.

MONDO POP- O que te levou a se mudar para Nova York há quase oito anos?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu estava lançando o meu segundo disco I Just Happen to Be Here com canções em inglês do Caetano Veloso que me abriu algumas portas fora do Brasil. Já vinha passando umas temporadas em Nova York, sempre fui fascinada pela energia da cidade, pelo aspecto internacional da arte feita aqui e estava cultivando colaborações musicais – queria fazer parte disso. Fui convidada para tocar no Brasil Summerfest e resolvi vir com uma passagem só de ida – se a coisa fluísse, eu ficava. E assim fiquei de vez.

MONDO POP- Astrolábio foi o seu álbum de estreia, como você o encara com os olhos e ouvidos de hoje?
ALEXIA BOMTEMPO
– Acho que o Astrolábio (n.da r.: lançado em 2008 pela EMI) é um disco de descobrimento, que representa o meu encontro musical com o Dadi, um retrato da minha vida naquela época. É um disco carioca, “feito à mão”, sem pressa, com amizade e doçura.

MONDO POP- I Just Happen To Be Here foi uma bela ideia, um recorte provavelmente inédito da produção do Caetano Veloso de 1969 a 1972 em inglês em um período conturbado e criativo da vida dele. Fale um pouco sobre esse projeto e como encara a sua repercussão.
ALEXIA BOMTEMPO
– A ideia foi do Felipe Abreu, um dos produtores do disco, junto com o Dé Palmeira. O Felipe foi meu preparador vocal e se tornou um grande amigo e conselheiro. Um dia, durante uma aula, cantei London, London e ele teve a ideia de fazermos um disco com o repertório em inglês do Caetano. O conceito era buscar “despir” as canções da carga política e emocional da época em que foram feitas e trazê-las pra perto de mim, da minha história partida entre dois países, duas culturas, duas línguas. Foi um desafio muito interessante, tenho muito orgulho desse disco. E Caetano gostou da homenagem.

MONDO POP- Suspiro saiu primeiro no Japão, país que tem um público muito grande para a bossa nova. Você já tocou lá, tem bons contatos lá? E como foi a reação do público japonês para este álbum?
ALEXIA BOMTEMPO
– Tenho muito amor pelo Japão. O público me acompanha desde o início, já fiz várias turnês e residências e tenho muitos amigos queridos por lá. A ideia do Suspiro surgiu justamente quando eu estava passando uma temporada no Japão e achei muito significativo o fato de o disco ter sido lançado lá primeiro. Eles adoraram.

MONDO POP- O lançamento de Suspiro será só no formato digital ou teremos versões físicas (CD, vinil etc)?
ALEXIA BOMTEMPO
– Temos o CD nos Estados Unidos e no Japão. A ideia é fazer vinil também, mas agora as fábricas estão paradas por causa da pandemia. Então futuramente, espero que sim.

MONDO POP- Como tem sido para você esse período da quarentena? Muitos artistas tem feito lives, você pensa em fazer algo assim (se é que já não fez…)?
ALEXIA BOMTEMPO
– Tem dias que são melhores do que outros. Eu gosto de ficar em casa e tenho aproveitado o tempo pra descansar, compor, ouvir discos, cozinhar, ler… Mas a sensação de não saber como serão os próximos meses é desconcertante e causa muita ansiedade. Estar lançando um álbum novo nesse período tem sido interessante. Muita gente tem me falado que o disco acalma e traz paz de espírito, que é a trilha sonora ideal para esses tempos difíceis – isso é muito gratificante. Tenho feito lives, sim, mas aos poucos e com cuidado, pois também acho que a internet está ficando saturada de conteúdo superficial. É uma maneira bacana de se manter conectado com o público, mas sinto muita saudade da troca que acontece ao vivo, no palco.

Eles Querem Amar (clipe)- Alexia Bomtempo:

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