Mondo Pop

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Category: Grandes nomes esquecidos (page 1 of 2)

Karla Bonoff, uma artista que você precisa conhecer agora

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Por Fabian Chacur

Em 1977, uma jovem cantora, compositora e musicista americana chamada Karla Bonoff lançava o seu autointitulado álbum de estreia pela gravadora Columbia. Quatro décadas após, esse álbum continua não só soando maravilhosamente belo, como prossegue aguardando um maior reconhecimento por parte de crítica e, especialmente, de público. Então, como forma de celebrar esses 40 anos, vamos mergulhar de cabeça na carreira desta incrível artista.

A forma como descobri Karla foi típica de quem trabalha como crítico musical e é curioso. Lá pelos idos de 1999, entrevistei um trio country brasileiro dos mais competentes, o West Rocky. No disco de estreia deles, Me Faz Bem (1998), o destaque era a deliciosa Quando o Amor se Vai, versão em português de Tell Me Why, música escrita exatamente por miss Bonoff, que até então eu não tinha nem ideia de quem era.

Algumas semanas depois da entrevista, estava em uma loja de CDs situada no Shopping Eldorado, em São Paulo, e dei de cara com o CD All My Life- The Best Of Karla Bonoff. Como sou curioso, ávido comprador de discos e estava com dinheiro, comprei esse álbum cuja capa trazia aquela bela moça de olhar tímido e cabelos escuros.

Logo ao ouvir a primeira faixa dessa excepcional coletânea, quase caí de costas. Lay Down Beside Me é sem medo de errar uma balada rock avassaladora. Com letra que toca no tema da solidão de forma emotiva, traz uma melodia encantadora, em tom menor, um clima introspectivo e uma interpretação de arrepiar de Karla, com direito a certeiras intervenções de guitarra. Tipo da música perfeita, um clássico óbvio que também abre o álbum de estreia de Karla.

Nesse seu primeiro LP solo, Karla Bonoff contou com a participação de músicos do primeiríssimo escalão do chamado bittersweet rock, ou soft rock, aquele estilo musical surgido no finalzinho dos anos 1960 que somava elementos de rock, country e folk com letras emotivas, introspectivas e confessionais e que teve em James Taylor, Carole King, Crosby, Stills & Nash e Cat Stevens alguns de seus nomes seminais.

Karla Bonoff (o álbum) apresenta ao mundo uma cantora de bela voz, uma instrumentista extremamente competente e uma compositora iluminada. Além da já citada Lay Down Beside Me, o álbum nos traz pérolas sonoras como a envolvente balada country em andamento de valsa Home, o rockão I Can’t Hold On, a balançada Isn’t It Always Love e a tocante Lose Again, só para citar algumas.

Era um álbum que permitia ao ouvinte mais atento notar que sua autora não estava estreando com tanta competência do nada. Fica claro, ao ouvi-lo, que tínhamos ali o fruto de anos anteriores de trabalho, mesmo sendo Karla ainda bastante jovem. E é exatamente este antes, e também o depois da carreira dela que vamos contar daqui pra frente. Com direito à entrada em cena de muitos nomes conhecidos da música, trilhas de filme etc. Vamos lá!

Dupla com a irmã, um grupo, Linda Ronstadt…

Nascida em 27 de dezembro de 1951, Karla Bonoff iniciou de fato sua carreira musical ao formar uma dupla com a irmã, Lisa, intitulada The Daughters Of Chester P.(as filhas de Chester P.), uma homenagem ao pai. Elas tiveram a oportunidade de gravar uma demo para a Elektra Records no final dos anos 1960 com a produção de Bruce Botnick, que trabalhou com os Doors, mas a gravadora não as contratou, e Lisa preferiu seguir carreira como professora.

Karla seguiu adiante, e virou presença constante no Troubador, mitológico barzinho de Los Angeles nos quais nomes como James Taylor, Jackson Browne, Elton John e os músicos que depois formariam os Eagles eram figuras constantes. Por lá, a moça fez amizade com o músico Kenny Edwards, integrante da Stone Poneys, banda da qual também fazia parte a cantora Linda Ronstadt. Com o fim desse grupo, eles começaram uma parceria musical que duraria mais de 40 anos.

Com o acréscimo de Andrew Gold e Wendy Waldman, Karla e Edwards criaram a Bryndle. Essa banda gravou um álbum para a A&M Records no início dos anos 1970, mas novamente nossa heroína não deu sorte, pois o disco nunca foi lançado, o que levou os integrantes do grupo a partirem para seus próprios projetos. Eles, no entanto, nunca se distanciariam, sempre participando uns dos discos/shows dos outros, deixando no ar a possibilidade de um dia voltarem.

Kenny Edwards foi convidado a integrar a banda de apoio da ex-colega de Stone Poneys, Linda Ronstadt, que se tornou uma estrela da cena country rock. Um dia, Karla teve a chance de mostrar canções para Ronstadt, e um ano depois disso, mais precisamente em 1976, nada menos do que três músicas da compositora entraram no álbum Hasten Down the Wind: Someone To Lay Down Beside Me, Lose Again e If He’s Never Near, com direito a participação de Karla fazendo backing vocals.

A qualidade das músicas rendeu o contrato com a Columbia. Após o primeiro álbum, que teve repercussão mediana, apesar de sua alta qualidade, ela lançou em 1979 Restless Hearts, outro LP belíssimo com direito a baladas doloridas como Restless Nights, rocks como Baby Don’t Go e dois momentos bacanas para o currículo: When You Walk In The Room, grande sucesso em 1963 de e com Jackie De Shannon (que de quebra participou dessa releitura), e The Water Is Wide, hit do Kingston Trio com participação nos vocais e violão de James Taylor.

Como a repercussão do álbum anterior foi respeitável (nº 31 nos EUA), tivemos em 1982 o terceiro trabalho dela, Wild Heart Of The Young, que traz como destaques a maravilhosa balada que lhe dá o nome e Personally, obscura canção de r&b regravada por ela que acabou se tornando, ironicamente, o maior sucesso de sua carreira solo, atingindo o posto de nº 19 na parada de singles da Billboard.

O quarto álbum de Karla, New World, chegou às lojas em 1988 e tem em seu repertório as encantadoras Tell Me Why, All My Life e Goodbye My Friend. Seria o último trabalho solo de estúdio dela até o momento (2017), que depois lançaria apenas o excelente CD duplo ao vivo Live (2007). Antes, tivemos a coletânea All My Life- The Best Of Karla Bonoff (1999), melhor iniciação para a sua obra.

Compositora regravada por grandes nomes da música

Expressiva representante da ala singer-songwritter (cantautori, em italiano) do universo pop, ou seja, aqueles artistas que gravam com mais frequência as suas próprias canções, Karla Bonoff no entanto também é bastante conhecida por ter seu repertório relido por grandes nomes da música. Linda Ronstadt abriu essa porteira em 1976, como já dissemos anteriormente. E não foi só isso.

Em 1989, no seu álbum Cry Like a Rainstorm, Howl Like the Wind, Linda voltou a recorrer ao songbook da amiga, e gravou de uma só vez All My Life, Trouble Again e Goodbye My Friend. Além de o álbum ter vendido muito, All My Life, que teve a participação do cantor Aaron Neville, rendeu a Linda Ronstadt um troféu Grammy.

Bonnie Raitt, aclamada cantora, compositora e guitarrista americana, fez belíssima gravação de Home no álbum Sweet Forgiveness (1977). Em 1979, foi a vez de a cantora country Lynn Anderson (famosa pelo megahit Rose Garden, que fez sucesso no Brasil na versão Mar de Rosas, com os Fevers) recorrer a uma canção da Karlinha, a sacudida Isn’t It Always Love, do seu álbum Outlaw Is Just a State Of Mind.

E tem também Tell Me Why. Em 1993, a estrela country Wynonna Judd, ex-integrante do duo The Judds e irmã da atriz Ashley Judd, resolveu regravar essa canção, só que seus músicos não conseguiam reproduzir o arranjo da gravação original. Aí, surgiu a ideia de convidar a própria Karla, que tocou o violão e fez backing vocals nessa releitura, um grande hit country naquele ano, integrante do álbum Tell Me Why, de Judd.

Uma curiosidade: foi exatamente essa regravação de Wynonna que levou o grupo brasileiro West Rocky a fazer a sua versão. Eles nem tinham ideia de quem era Karla Bonoff, e, no entanto, por tabela foram os responsáveis por eu ter descoberto essa artista maravilhosa. Vale registrar que, em 2006 e 2013, a dupla sertaneja Guto & Nando também releu Quando o Amor Se Vai (Tell Me Why), respectivamente em um CD de estúdio e em um DVD ao vivo.

A segunda chance do Bryndle enfim chegou

A história do Bryndle aparentemente seria a de uma espécie de grupo que foi sem nunca ter sido, em razão do melancólico fim de seu contrato com a gravadora A&M. Isso, embora seus integrantes sempre tenham se mantido próximos um dos outros. Kenny Edwards, por exemplo, foi o produtor de vários dos discos de Karla, enquanto Andrew Gold e Wendy Waldman participaram deles.

No entanto, o tempo acabou dando uma nova chance aos amigos, que se reuniram novamente com o objetivo de reativar a banda no inicio dos anos 1990. Desta vez, o projeto se mostrou plenamente vitorioso, pois rendeu dois álbuns, Brindle (1995) e House Of Silence (2002), além de inúmeros shows e aparições em programas de TV.

Infelizmente, tudo acabou com as mortes de Kenny Edwards em 2010 e Andrew Gold em 2011. Desde então, Karla continuou na estrada fazendo shows solo, dando uma geral em seu repertório de hits. Alguns deles são em parceria com Livingston Taylor, irmão de James Taylor.

Duetos e participações em trilhas de filmes

Acho que a história de Karla Bonoff tinha acabado por aqui? Doce ilusão! Chegou a hora de dar uma geral nos duetos e participações em trilhas de filmes. E tem muita coisa boa. Em 1983, por exemplo, ela participou do segundo CD de Christopher Cross, Another Page, fazendo um dueto com ele em What Am I Supposed To Believe.

Em 1996, ela gravou junto com a consagrada banda country Dirt Band a música You Believed In Me, que entrou no álbum feito em homenagem aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. J.D. Souther, seu contemporâneo dos tempos de Troubadour e grande nome do soft rock dos anos 1970, gravou em dueto com ela Step By Step, incluída em 1986 na trilha do filme About Last Night.

E já que entramos no tópico trilhas sonoras, temos outro dueto bacana feito com o astro country Vince Gill, When Will I Be Loved, incluída na trilha do filme 8 Seconds, que por sinal também traz outra canção interpretada por Karla, Standing Right Next To Me.

A gravação feita especialmente para filmes que provavelmente mais lhe rendeu deve ter sido a da canção Somebody’s Eyes, integrante da trilha de Footloose, álbum que permaneceu 10 semanas no topo da parada americana e vendeu milhões de cópias mundo afora, impulsionado pela faixa-título, interpretada por Kenny Loggins.

Para os fãs de músicos, vai aí uma pequena relação dos craques da música que participaram dos álbuns de estúdio de Karla Bonoff: Waddy Watchel, Leland Sklar, Dan Dugmore, Russel Kunkel, Rick Marotta, Danny Kortchmar, Don Henley, Victor Feldman, Bill Payne, Timothy B. Schmidt, Garth Hudson, Peter Frampton e Glenn Frey.

Bem, se você chegou até aqui, não deixe de ouvir o trabalho de Karla Bonoff, que está disponível nas melhores plataformas digitais disponíveis na rede, e em selecionadíssimas lojas de CDs e LPs. Duvido que quem tiver um ouvido apurado e curtir música pop de qualidade não acabe se apaixonando pela obra desta brilhante artista. Comece como eu, por essa música que eu postei abaixo. Boa viagem sonora:

Someone To Lay Down Beside Me– Karla Bonoff:

Bunny Sigler, grande nome do Philly Sound, morre nos EUA

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Por Fabian Chacur

Quem curtia as novelas globais nos anos 1970, especialmente as suas trilhas sonoras, possivelmente se lembrará de uma balada classuda, com tempero de jazz e soul, intitulada Picture Us. Foi o maior hit no Brasil do cantor, compositor e produtor americano Bunny Sigler. Ele se foi na última sexta-feira (6), aos 76 anos, vítima de um ataque cardíaco. Mas ele não era um mero one hit wonder, aqueles artistas que estouram com um único sucesso e depois somem de cena. Muito longe disso, como vocês poderão ler a seguir.

Walter Sigler nasceu na cidade americana da Filadélfia em 27 de março de 1941. Como muitos garotos negros de sua geração, aprendeu a cantar inicialmente em igrejas, e posteriormente integrando grupos vocais que se dedicavam ao doo-wop, estilo musical que consagrou bandas como The Platters e The Moonglows na década de 1950. Ele integrou por algum tempo um desses grupos, os Opals, sem muito êxito.

Ele gravou seu primeiro single como artista solo lá pelos idos de 1959. Em seguida, conheceu o jovem compositor e produtor Leon Huff, que o indicou ao selo local Cameo Parkway. Depois de alguns singles pouco ouvidos e vendidos, Bunny Sigler sentiu o primeiro gostinho do sucesso ao gravar o pot-pourry Let The Good Times Roll/Feel So Good, que em 1967 atingiu o 22º lugar na parada pop. Com a decadência da Cameo Parkway, ficou disponível no mercado.

Aí, surgiu o momento decisivo em sua carreira. O velho amigo Leon Huff estava iniciando uma parceria com o músico, compositor e produtor Kenny Gamble, dobradinha que iria criar em 1971 o selo Philadelphia International Records (PIR), que não só consagrou artistas como The O’Jays, Billy Paul e Harold Melvin & The Blue Notes (incluindo Teddy Pendergrass) como ajudou a criar o Philly Sound, uma vertente sofisticada da soul music que desembocaria na disco music.

Lá, Sigler seria utilizado como compositor e vocalista de apoio. Hits do trio vocal The O’Jays como Sunshine, You Got Hooks On Me e When The World Is At Peace são de sua autoria, assim como I Could Dance All Night, sucesso com Archie Bell & The Drells. E sua voz está no refrão de hits como If You Don’t Know Me By Now, de Harold Melvin & The Blue Notes.

Já com bastante moral na PIR, ele resolveu gravar, depois de muitos anos, um álbum solo, That’s How Long I’ll Be Loving You (1974, saiba mais sobre o disco aqui). Ele se apresentou no badalado programa de TV Soul Train cantando duas músicas deste LP, a faixa título e também Things Are Gonna Get Better.

Curiosamente, uma faixa deste mesmo álbum que não teve grande repercussão nos EUA estourou por aqui, em 1975. Trata-se exatamente de Picture Us, incluída na trilha sonora da novela global O Grito, ao lado de outros hits daquela época como Fly Robin Fly (Silver Convention), Island Girl (Elton John) e True Love (Steve McLean.

Lá pelos idos de 1973/74, ele conheceu uma banda oriunda de New Jersey cujo nome era Instant Funk. Logo, tornou-se o produtor dos rapazes, que se mudaram para a Filadélfia em 1976. Quando resolveu sair da PIR, Sigler levou essa banda com ele.

Na nova gravadora, a Gold Mind Records (que pouco depois seria incorporada pela Salsoul Records, de Nova York), ele lançou seu grande hit disco em 1978, Let Me Party With You (Party, Party, Party), bem legal e cantada em falsete, mas com alguma semelhança com Got To Give It Up, de Marvin Gaye. E gravou com a cantora Barbara Mason em 1977 o álbum Locked In This Position.

Em 1978, produziu o maior hit do Instant Funk, a demencial I Got My Mind Made Up (You Cant Get It Girl), que chegou ao número 20 na parada pop americana e depois seria sampleada e entraria em diversas trilhas de filme, incluindo o ótimo Studio 54 (1998). Bodyshine, Witch Doctor e Slap Slap Lickedy Lap são outras maravilhas funk-disco produzidas por Sigler para a banda, que chegou a acompanhar ele e outros astros funk-soul em shows e discos.

Only You foi um dueto que gravou com a cantora Loleatta Holloway. E já que o assunto é cantoras, sua parceria com a consagrada Patty Labelle rendeu belos frutos. Entre eles, a gravação por parte dela, em 1983, de Love, Need And Want You, parceria de Sigler com Kenny Gamble que não só fez sucesso nessa versão como seria sampleada por vários artistas posteriormente. Entre eles, Nelly, que usou o refrão dela na sua Dilemma, estouro em 2002 em dueto desse artista com Kelly Rowland.

Se não apareceu tanto na mídia a partir dos anos 1990, Bunny Sigler se manteve fazendo shows, gravando e até mesmo mantendo um canal próprio do Youtube (confira aqui). Nele, foi lançado há pouco Angel Eyes, seu novo single, parte do seu próximo álbum, Young At Heart, previsto para sair em breve. Ah, ele gravou gospel também. E aí, continua achando que esse cara só fez Picture Us?

Picture Us– Bunny Sigler:

I Got My Mind Made Up (You Can Get It Girl)– Instant Funk:

Curta-metragem com entrevista do artista e cenas de sua carreira:

Sylvester, um dos grandes da disco music, e os seus 70 anos

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Por Fabian Chacur

No último dia 6(quarta-feira), um certo Sylvester James teria completado 70 anos de idade. Infelizmente, ele só viveu 41 anos, tendo nos deixado no dia 16 de dezembro de 1988. Mas o seu legado musical certamente sobreviverá a mim, a você e a todos nós. Sylvester nos deixou as incríveis You Make Me Feel (Mighty Real), Dance (Disco Heat) e outros petardos que até hoje eletrizam as melhores pistas de dança do planeta. Esse cara deixou a sua marca. Ele faz falta…

O som da minha adolescência foi a disco music, e quando esse ritmo mágico estava no auge, lá pelos idos de 1978, o álbum Step II, do Sylvester, era um dos mais ouvidos. Meu irmão Victor o comprou logo que saiu no Brasil. Esse vinil traz os dois maiores hits de Sylvester, as incríveis Dance (Disco Heat) e You Make Me Feel (Mighty Real), que conseguiram ir além das paradas disco, invadindo até trilhas de novela e tocando em rádios mais afeitas a sonoridades tradicionais ou caretas.

Step II marca o momento em que este cantor, compositor e músico americano nascido na região de Los Angeles em 6 de setembro de 1947 encontrou um caminho musical ao mesmo tempo original e com forte potencial comercial. Ele acoplou sua influência gospel e soul music à sonoridade eletrônica que começava a emergir no cenário dance, graças a pioneiros como Giorgio Moroder e o grupo alemão Kraftwerk. Na mistura, criou uma espécie de discoeletrogospelsoul.

O lado 1 do vinil de Step II traz os dois megahits, e é encerrado por uma belíssima versão gospel e lenta de You Make Me Feel (Mighty Real). O lado B do álbum é dedicado a uma sonoridade soul mais convencional e também muito boa, com direito até a música de Burt Bacharach e com destaque para a comovente balada Just You And Me Forever.

Vale ressaltar alguns nomes essenciais para que este álbum se tornasse um clássico não só da disco music, mas como da música pop em geral. Um é o produtor, Harvey Fuqua, líder do grupo vocal The Moonglows e descobridor de ninguém menos do que Marvin Gaye, que ele levou para o que viria a ser a Motown Records, onde atuou como produtor e compositor. Coube a Fuqua trazer Sylvester para a gravadora Honey Records, distribuída pela Fantasy Records.

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O lado eletrônico de sua sonoridade teve como um dos caras fundamentais o multi-instrumentista Patrick Cowley (1950-1982), que a seguir passou a ser figura constante nas bandas de apoio e discos de Sylvester. Quando gravou disco solo, Cowley teve como grande sucesso Do Ya Wanna Funk?, com participação especial do patrão famoso.

A parte vocal dos álbuns da fase áurea do astro disco se firmou graças à incorporação ao seu time das cantoras Martha Wash e Izora Rhodes, que junto com ele criaram um modernizado coral gospel/soul contagiante. Elas receberam o codinome Two Tons O’Soul, e nos anos 1980, em carreira própria, passaram a ser conhecidas como The Weather Girls, do megahit It’s Raining Man. Comandando este time, Sylvester se tornou um dos astros máximos da disco.

A vida de Sylvester Stewart não foi das mais fáceis. Descobriu ser homossexual ainda criança, para horror dos pais. Aos 13 anos, teve de deixar o coral da igreja em que atuava desde criança por causa disso, e aos 15 anos, foi a vez de ir para a estrada, longe da família. Depois de integrar um grupo de trangêneros e cross dressers, mudou-se para a cidade de San Francisco em 1970, integrando-se naquela cidade ao grupo de drag queens The Cockettes.

Em 1972, após participar de diversos espetáculos com aquele grupo de drags, geralmente imitando Billie Holiday e Josephine Baker, resolveu partir para um projeto próprio. Em 1973, essa nova fase de sua carreira desembocou na Sylvester And His Hot Band, uma banda de rock com a qual gravou dois álbuns em 1973 pelo selo Blue Thumb, sem sucesso comercial. Como melhor momento, abriram um show de David Bowie, que elogiou Sylvester e sua turma.

Já sob a tutela de Harvey Fuqua e com as Two Tons O’ Soul, gravou o seu primeiro álbum solo, Sylvester (1977), que tinha uma sonoridade ainda convencional e emplacou um semihit, Down Down Down. A coisa engrenou mesmo foi com Step II. Logo a seguir, em 1979, lançou Stars, álbum totalmente disco com apenas quatro faixas. Mas com a qualidade delas, para que mais? Todas bem extensas.

O destaque é uma releitura simplesmente brilhante de I (Who Have Nothing), que transformou a dramática canção de Ben E. King (conhecido por Stand By Me e diversos outros hits) em uma faixa disco percussiva simplesmente irresistível. Body Strong, a faixa-título e I Need Somebody To Love Tonight trazem uma sonoridade que influenciaria e muito o pop eletrônico dos anos 80.

Ainda em 1979, chegou às lojas o álbum duplo Living Proof (que eu saiba, inédito no Brasil), que traz nos lados 1, 2 e 3 um incrível show beneficente de Sylvester e sua banda gravado em 11 de março daquele mesmo ano e trazendo não só hits do artista como também releituras bacanas, entre elas uma de Blackbird, dos Beatles, que arrepia. O lado 4 trazia inéditas de estúdio, entre elas o semihit Can’t Stop Dancing. obs.: segundo o músico e jornalista Fernando Savaglia, um especialista em black music, este álbum saiu, sim, no Brasil, tanto que ele tem um exemplar dessa raridade. Sortudo demais! Valeu pelo toque, fera!

A partir de 1980, tal qual todos os nomes mais importantes e populares da disco music, Sylvester sofreu uma forte queda em sua popularidade, prejudicado por um odioso movimento intitulado Disco Sucks que em 1979 levou imbecis preconceituosos a quebrar e queimar álbuns e singles de disco em locais públicos. Uma das manifestações mais lamentáveis de preconceito, uma espécie de holocausto fonográfico que arrebentou a carreira de muita gente boa.

Vale um pequeno parêntesis aqui. A disco music teve como berço a comunidade gay dos EUA e de outros países. Quando estourou e cativou todos os tipos de público com sua sonoridade alegre, pra cima e criativa, horrorizou os conservadores, e, ironia das ironias, muitos roqueiros, que haviam sido vítimas de preconceitos em décadas anteriores, mas que naquele momento se sentiam ameaçados pelos artistas disco. E Sylvester nunca negou a sua homossexualidade.

Mesmo tendo se recusado a usar o rótulo disco como sua principal intenção musical, Sylvester acabou marcado por ela. Nos anos 80, viu sua popularidade ir despencando aos poucos. Ainda se daria bem em colaborações com o músico de jazz Herbie Hancock no ótimo single funk-disco Magic Number (1981). Em 1982, saiu da gravadora Fantasy e a processou, mas o ex-mentor Harvey Fuqua não teve como pagar o valor total do processo. Uma separação triste.

Se seus álbuns passaram a vender cada vez menos, Sylvester teve a oportunidade de realizar um sonho. Em 1985, ele participou, fazendo backing vocals, do álbum Who’s Zooming Who?, de Aretha Franklin, uma de suas heroínas. Ele deu sorte a ela, pois o disco foi um dos mais vendidos de sua carreira, com Sylvester atuando em dois singles de sucesso, a faixa título e Freeway Of Love. Em 1986, lança Mutual Attraction, o último que lançaria em vida.

Desde o fim dos anos 1970, uma doença até então desconhecida vitimou diversos integrantes da comunidade gay. Patrick Cowley, o amigo de Sylvester, foi uma de suas primeiras vítimas. Desde o início, o autor de You Make Me Feel (Mighty Real) mostrou-se solidário às vítimas do posteriormente revelado vírus HIV e da Aids. Para sua tristeza, viu um namorado morrer, vítima da doença. Pouco depois, descobriu também ser portador daquela terrível enfermidade.

Consta que Sylvester James foi o primeiro astro negro gay a assumir ser portador do vírus HIV. Ele se manteve ativo até onde pode, mas a partir do início de 1988, não conseguiu mais. E em 16 de dezembro de 1988, saiu do plano físico rumo à eternidade, não sem antes ser homenageado pela comunidade gay de San Francisco. Ele deixou instruções para que toda a renda com os royalties de seus trabalhos fossem doados a entidades ligadas à assistência aos portadores da Aids.

Não é nada fácil encontrar discos de Sylvester atualmente. O mais acessível costuma ser a coletânea The Original Hits, que traz onze faixas lançadas entre 1977 e 1981, entre elas seus megahits. Pena que não inclua I (Who Have Nothing). O incrível Step II só saiu em uma rara edição internacional em CD que também incluía Sylvester (de 1977) no pacote. Mas vale ir atrás. O som alegre e contagiante deste gênio do falsete disco vale a procura. E dá pra ouvir no Youtube, na faixa, para quem não se importa em não ter os itens físicos.

Step II- Sylvester (ouça em streaming):

Janis Joplin, a voz eterna que faria 70 anos

Por Fabian Chacur

Neste sábado, 19 de janeiro de 2013, Janis Joplin completaria 70 anos. A Pérola do Texas, no entanto, nem aos 30 chegou, pois nos deixou em um triste 4 de outubro de 1970, aos 27 anos. O ser humano se foi, mas a voz lendária, preservada nos discos, permanece nos arrepiando até hoje. E que voz maravilhosa!

Janis viveu pouco, mas com muita intensidade. Dentro dela, um eterno impasse certamente ajudou a levá-la mais cedo. De um lado, a cantora visceral, a mulher livre, que desejava apenas ser “mais uma da turma” e beber até cair. Do outro, a garota que sonhava em ser esposa, ter filhos e uma vida convencional, “careta”. Muita contradição.

Em termos musicais, a cantora texana misturou com originalidade o blues, o rhythm and blues, o country, o soul, o folk, o jazz e o rock and roll como ninguém antes, nem depois, com uma das vozes mais poderosas jamais apresentadas ao grande público. Dinamite pura, sentimento puro, explosão pura, em uma intérprete carismática.

Em sua concisa discografia, que inclui títulos lançados por ela ainda em vida e outros póstumos bem bacanas, destaco particularmente três. Cheap Thrills (1968), gravado ao lado do grupo Big Brother & The Holding Company, a tornou conhecida mundialmente, graças a petardos como Summertime, Piece Of My Heart e Ball And Chain.

Pearl, lançado de forma póstuma em 1971, é para mim seu momento máximo, quando a emoção e a técnica se equilibraram, gerando um álbum ao mesmo tempo emocionante e tecnicamente impecável, gerando gravações excepcionais como Move Over, Cry Baby, Me And Bobby McGee, My Baby e A Woman Left Lonely. Um dos melhores álbuns lançados em qualquer época e em qualquer estilo musical. Clássico até a medula.

Lançado em 1982, Farewell Song traz nove faixas registradas entre 1968 e 1970, e mostram Janis esbanjando talento, em canções como Tell Mama, One Night Stand e Catch Me Daddy. Nem parece uma coletânea de material deixado de lado dos discos da cantora.

Na verdade, essas são escolhas pessoais minhas, mas recomendo praticamente qualquer um de seus álbuns. Mesmo I Got Dem Ol’ Kosmic Blues Again Mama! (1969), que peca pela produção excessiva e por um pouco de frieza, traz momentos bacanas como To Love Somebody e One Good Man e merece ser explorado pelos ouvintes atuais.

Toda cantora que se preze tem a obrigação de mergulhar na obra de Janis Joplin como forma de aprender a arte de transpor para os estúdios e palcos os sentimentos sem cair na gritaria sem sentido, no tecnicismo barato ou no lugar comum. Janis era original como poucas, e continua nos emocionando em seus discos e DVDs.

Agora, ouça cinco das minhas gravações favoritas de Janis Joplin:

Move Over:

Me And Bobby McGee:

One Night Stand:

Cry Baby:

Summertime:

Morre Gerry Rafferty, do sucesso Baker Street

Por Fabian Chacur

Embora com atraso, não posso deixar de registrar em Mondo Pop a morte de um talentoso nome do pop rock internacional.

O cantor, compositor e músico escocês Gerry Rafferty se foi no dia 4 de janeiro deste 2011 no sul da Inglaterra, onde morava com a filha.

Nascido em 16 de abril de 1947, Rafferty tornou-se conhecido nos idos de 1973 como integrante do grupo Stealers Wheel.

O grupo, do qual também fazia parte Joe Egan (que em 1979 gravou o hit solo Back On The Road), teve como grandes sucessos Stuck In The Middle Of You (usado em 1992 na trilha do filme Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino) e Next To Me, esta última com enorme repercussão no Brasil.

Em 1978, o artista viveu o maior momento de sua carreira ao lançar o álbum solo City To City. O disco chegou ao primeiro lugar na parada americana, tirando de lá nada menos do que a trilha de Os Embalos de Sábado à Noite.

Duas grandes músicas ajudaram a impulsionar o sucesso deste excelente álbum: a balançada e deliciosa Right Down The Line e a inesquecível Baker Street, esta última um dos grandes hits dos anos 80.

Baker Street é uma daquelas músicas iluminadas, com direito a melodia belíssima, interpretação cool por parte do intérprete e um dos mais marcantes solos/riffs de sax de todos os tempos.

A canção voltou às paradas nos anos 90 em algumas regravações, entre as quais a do grupo Undercover, e também foi relida em shows pelos Foo Fighters e em um episódio dos Simpsons por Lisa Simpson.

Pena que, nos anos seguintes, Gerry não tenha conseguido manter o mesmo nível de repercussão, embora tenha gravado novos trabalhos e atuado ao lado de Mark Knopfler e outros nomes importantes do pop.

Ouça Next To Me, com o Stealers Wheel:

Veja o clipe de Stuck In The Middle Of You, com o Stealers Wheel:

Veja o clipe de Baker Street, com Gerry Rafferty:

Ouça Right Down The Line, com Gerry Rafferty:

Cinco músicas sensacionais do Prefab Sprout

Por Fabian Chacur

Já escrevi tanto sobre o grupo britânico Prefab Sprout por aqui que logo vai ter neguinho achando que o Paddy McAloon me paga para fazer isso.

Na verdade, se eu conseguir tornar ao menos mais uma pessoa fã incondicional desse trabalho maravilhoso, já estarei bem pago.

Continuando minha missão, vou apresentar mais cinco músicas maravilhosas dos caras. Ouçam, vejam e tirem suas próprias conclusões.

A Life Of Surprises – clipe (1989)

Lançada no álbum Protest Songs (1989), virou faixa título da primeira coletânea de hits da banda, de 1992. Dançante, otimista, contagiante.

Faron Young ao vivo em 1985:

Esse agitado rockabilly de refrão inesperado abre o clássico álbum Steve McQueen (1985). O refrão cita a música Four In The Morning, do cantor country americano Faron Young.

Electric Guitars – clipe 1997:

Homenagem aos roqueiros sonhadores, esse rock melódico tem um clipe repleto de bem-humorados clichês do visual rock and roll. Um clássico!

Cars And Girls ao vivo 1988:

Pop até a medula, esse rock melódico mostra a vertente mais acessível do PS, sem no entanto cair no vulgar ou no brega. Uma delícia de roquinho básico.

Wild Horses (só áudio) – 1991:

Por quê ninguém tocou essa música nas rádios? Teria sido um hit instantâneo. Balada soul matadora, com uma pitada de Culture Club.

Porque eu adoro o Steve Winwood – parte 4 (final)

Por Fabian Chacur

 

A década de 90 foi levada no melhor estilo low profile por Steve Winwood. Em 1994, ele e o antigo parceiro Jim Capaldi resolveram retomar o Traffic, agora como dupla, e lançaram um bom disco, Far From Home, que rendeu uma turnê mundial. A carreira solo voltou à tona em 1997 com Junction Seven, disco pop e balançado que merecia ter feito sucesso, mas que passou batido. Como destaques, a coprodução de Narada Michael Walden, uma releitura inspirada de Family Affair (clássico setentista de Sly & The Family Stone), a certeira Spy In The House Of Love e a bela Plenty Lovin’, esta última, dueto com a cantora Des’ree. Seis anos se passariam até que About Time, seu novo álbum, chegasse às lojas, já no século XXI. Acompanhado por José Pires de Almeida Neto na guitarra e Walfredo Reyes Jr. na bateria e percussão, nos proporcionou um disco sublime, swingado, com muita latinidade e ele se dedicando aos vocais e ao mítico órgão Hammond. Destaques para as faixas Different Light, Cigano (For The Gypsies) e um cover fiel de Why Can’t We Live Togheter, hit nos anos 70 com Timmy Thomas. O álbum foi posteriormente disponibilizado em luxuosa versão com direito a dualdisc com DVD de áudio e vídeo e canções gravadas ao vivo, entre as quais Dear Mr. Fantasy, do Traffic.

Nine Lives (2008), seu mais recente CD, já foi resenhado aqui em Mondo Pop, mas pode ser resumido como um ótimo trabalho, com elementos latinos e mais rock e blues do que em About Time. Destaque para a faixa Dirty City, da qual participa na guitarra um particularmente inspirado Eric Clapton. Em 1995, saiu uma magnífica caixa com quatro CDs intitulada The Finer Things, que abrange os melhores momentos de sua carreira, com direito a faixas solo e também do The Spencer Davis Group, Powerhouse, Traffic, Blind Faith e Go, além de encarte luxuoso repleto de informações. Vale cada centavo que você pagar nela. Aos 61 anos, Winwood continua relevante, atuante e capaz de nos proporcionar novos discos e shows de qualidade. Ele tocou no Brasil em 1998, um show maravilhoso no Palace (hoje CitiBank Hall) que tive a honra de conferir.

 

Dear Mr. Fantasy ao vivo em 2003:

 

http://www.youtube.com/watch?v=SvT_f_lVyNQ

 

Porque eu adoro o Steve Winwood- parte 3

Por Fabian Chacur

 

No dia 23 de março, a primeira parte desta série falou do genial músico britânico nos anos 60. No dia primeiro de abril, foi a vez da década de 70. Agora, entramos nos 80. Winwood resolveu gravar discos nos quais tocava todos os instrumentos. Arc Of a Diver (1980) gerou pelo menos dois clássicos: a fantástica faixa título e a contagiante While You See A Chance, que se tornou uma das mais músicas mais tocadas da história do rádio americano. Talking Back To The Night (1982) o manteve em alto nível artístico e com direito a músicas ótimas como a faixa título e Valerie, mas com repercussão menor em termos comerciais. Em 1986, quando alguns apressadinhos consideravam Steve Winwood um nome do passado, ele lança Back In The High Life, contando com participações especiais de feras do naipe de James Taylor, Nile Rodgers (Chic), Joe Walsh (Eagles), Chaka Khan, Dan Hartman, James Ingram e inúmeros outros, e inicia o auge de sua carreira em termos comerciais. Canções como a fantasticamente sacudida Higher Love (primeiro lugar nos EUA), a roqueira Freedom Overspill, a deliciosamente pop The Finer Things e a lírica Back In The High Life Again invadem as paradas, e mostram que, sim, é possível conciliar apelo comercial com qualidade artística. Roll With It (1988), no qual se destacam a sacudida faixa título e a romântica Don’t You Know What The Night Can Do?, chegou ao número um da parada americana, e deu início a um contrato milionário com a Virgin Records. A década se encerrou com o mediano Refugees Of The Heart (1990), que trouxe como novidade a retomada da parceria com o ex-colega de Traffic Jim Capaldi, indicativo de um retorno compacto da banda nos anos 90. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

 

Confira o videoclipe de Higher Love:

 

http://www.youtube.com/watch?v=gdTHa8m1EFo

 

Porque eu adoro o Steve Winwood-parte 2

Por Fabian Chacur

 

A parte 1 desta série se encerrou com o fim do Blind Faith, em 1969. Nesse momento, já com um currículo invejável e apenas 21 anos de idade, Steve Winwood não sabia muito bem qual seria o seu futuro. Inicialmente, participou do álbum ao vivo do Ginger Baker’s Airforce, mega-banda de duração também efêmera. Depois, a gravadora Island sugeriu a ele a gravação de um disco solo, algo que o cantor, compositor e multi-instrumentista não tinha vontade de fazer, naquele momento. A reaproximação com os velhos parceiros Jim Capaldi e Chris Wood acabou gerando o retorno do Traffic, que em 1970 lançou seu comeback álbum, o ótimo John Barleycorn Must Die. O som do agora trio ganhou uma outra dimensão, indo do psicodelismo pop a uma fusão de folk, soul, jazz, música latina e rock, com faixas mais longas e repletas de improvisos inspirados, típicos do rock progressivo. O auge desse novo tempo ocorreu com o excepcional The Low Spark Of High Heeled Boys (1971), que flagra o grupo em versão ampliada, incluindo músicos de apoio como Rick Grech (baixo) e Reebok Kwaku Baah (percussão). Em 1974, devido a problemas de saúde com Winwood e também a uma falta de sintonia entre o núcleo da banda, o Traffic saiu de cena. O astro britânico aproveitou o fato de não ter mais compromissos fixos para participar de diversos discos alheios, entre os quais os de Sandy Denny, Toots & The Maytals e o percussionista japonês Stomu Yamashita. Este último lançou dois álbuns com o nome Go, envolvendo estrelas como Al DiMeola e Pat Thrall. E em 1977, beirando os trinta anos, enfim Winwood resolveu iniciar a carreira solo. Auto-intitulado, o CD traz boas músicas como Vacant Chair e Hold On, e equivale a uma carta de intenções sobre o futuro direcionamento em busca de uma sonoridade mais pop, embora com grande qualidade artística. Até o final dos anos 70, ele se manteve em low profile, participando de discos de George Harrison e outros amigos. As coisas iriam mudar, e muito, em 1980, com Arc Of A Diver. Mas isso fica para o terceiro capítulo. Como diria Silvio Santos, aguardem!

 

Ouça The Low Spark Of High Heeled Boys, com o Traffic, ao vivo:

 

http://www.youtube.com/watch?v=ZVlbgqmxXNY

 

Porque eu adoro o Steve Winwood-parte 1

Por Fabian Chacur

 

No dia 12 de maio do ano passado, um dos maiores nomes da história do rock fez 60 anos. Ele foi menos celebrado do que deveria. Então, inicio aqui uma nova série de matérias para tentar dizer o porque este cantor, compositor e multi-instrumentista britânico merece muita, mas muita badalação, mesmo. Comecemos pelo fato de que, com apenas 16 anos de idade, ele era um dos nomes mais elogiados do cenário inglês, como vocalista, guitarrista-solo e tecladista do The Spencer Davis Group. Nessa banda, que integrou de 1964 a 1967 ao lado do irmão Muff (baixo), Spencer Davis (guitarra-base) e Pete York (bateria), gravou clássicos do rock como Keep On Running, Every Little Bit Hurts, Gimme Some Lovin’ e I’m a Man, sendo que estas duas últimas também são de sua autoria. De arrepiar o vozeirão e a categoria como músico que o então adolescente já demonstrava. Ousado, resolveu sair fora do TSDG no auge para montar seu próprio grupo. Ao lado de Jim Capaldi (vocais, bateria e percussão), Chris Wood (instrumentos de sopro) e Dave Mason (vocal, guitarra e baixo), criou o Traffic, que rapidamente se tornou um dos expoentes do rock psicodélico, graças a canções hipnóticas como Paper Sun, Coloured Rain, Heaven Is In Your Mind, Smiling Phases, Dear Mr. Fantasy e Forty Thousand Headman. Brigas, especialmente com o indócil Dave Mason (que contribuiu com o mega hit Feelin’ Alright para a banda), Winwood mais uma vez ousou, dando fim ao quarteto. Ao lado dos amigos Eric Clapton (guitarra e vocal) e Ginger Baker (bateria), que haviam acabado de aposentar o Cream, mais Rick Grech (baixo), montou o efêmero Blind Faith, cujo disco de estréia encantou a todos em 1969, especialmente graças às maravilhosas Can’t Find My Way Home e Sea Of Joy. O grupo fez um mega show no Hyde Park, em Londres, em sete de junho de 1969, mas logo saiu de cena. Note: com apenas 21 anos, o cara já havia reservado um espaço na história do rock. Mas ele faria muito mais!

 

The Spencer Davis Group ao vivo em 1966 com Keep On Runnin’:

 

http://www.youtube.com/watch?v=H6LVI1gDswg

 

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