Mondo Pop

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Category: Grandes nomes esquecidos (page 1 of 8)

If I Could Only Remember My Name…- David Crosby (1971)

david crosby capa cd 1971 400x

Por Fabian Chacur

Quando o álbum If I Could Only Remember My Name… chegou às lojas de discos, mais precisamente no dia 22 de fevereiro de 1971, David Crosby já era um nome consagrado no cenário do rock. Primeiro, integrando de 1965 a 1968 os Byrds, banda que não só consolidou o folk rock como foi muito além, psicodelia e country rock afora. Em seguida, fazendo parte do supergrupo Crosby, Stills & Nash, que ganharia um Young adicional pouco após lançar o seu disco de estreia, em 1969.

A semente deste trabalho surgiu em julho de 1970, após o fim da turnê que o Crosby, Stills, Nash & Young realizou para divulgar seu álbum Déja Vú. O clima beligerante entre ele, Stephen Stills, Graham Nash e Neil Young colocou a banda no freezer por tempo indeterminado, com cada um deles tentando capitalizar para si próprios o imenso sucesso que a banda havia feito naqueles poucos, porém intensos e produtivos meses de existência.

Se o sucesso de sua banda certamente alimentava seu ego e sua alma, Crosby também administrava a imensa tristeza de ter perdido, no dia 30 de setembro de 1969, sua namorada, Christine Gail Hinton (1948-1969), em um fatal acidente automobilístico. Essa dor o levou a intensificar seu contato com o mar, a ponto de morar em seu barco, ancorado no porto de Sausalito, em Marin County.

Uma forma informal de definir o DNA do primeiro álbum individual do cantor, compositor e músico norte-americano nascido em 14 de agosto de 1941 é “solo, porém bem acompanhado”. E a explicação para tal definição vem do local onde o trabalho foi gravado e o clima reinante por aquelas plagas. Estamos falando do Wally Heider Studios, situado em San Francisco, Califórnia, um dos grandes polos do rock americano naquele período.

Com três salas de gravação disponíveis, o local era frequentado pelos mais badalados roqueiros da época. Naquele mesmo período, além do disco de Crosby, estavam sendo registrados outros dois trabalhos, o 1º disco solo de Paul Kantner, do Jefferson Airplane (Blows Against The Empire-1970), e um LP da genial banda psicodélica Grateful Dead (American Beauty-1970).

A informalidade e o bom relacionamento entre os músicos geravam colaborações espontâneas. Quando uma das sessões de gravação era interrompida para algum procedimento técnico, por exemplo, os músicos envolvidos nela de repente se viam no estúdio ao lado, e sem que nada fosse previamente combinado, surgia uma vocalização ali, uma slide guitar acolá, e, pronto, uma faixa clássica tomava forma de um jeito imprevisível.

Stephen Barncard, que se incumbiu da gravação e da mixagem de If I Could Only Remember My Name…, conta que vinha para cada dia de trabalho preparado para tudo o que pudesse rolar, pois os formatos variavam desde Crosby sozinho até um time com dez craques do rock ali, do nada, lado a lado. O legal é que, mesmo com esse clima de improviso constante, o resultado final conseguiu concisão suficiente para gerar um resultado antológico.

O braço direito de Crosby acabou sendo Jerry Garcia, o líder do Grateful Dead, que deu a várias faixas do LP um tempero todo especial com sua guitarra e especialmente com sua slide guitar. Além de integrantes do Dead, do Airplane, do Santana e do Quicksilver Messenger Service, o disco também trouxe os parceiros Graham Nash e Neil Young. Apenas Stephen Stills não marcou presença, dos craques do CSN&Y.

O repertório, selecionado entre canções compostas de 1968 a 1970, vai do clima hard rock da potente Cowboy Movie e da ardida What Are Their Names até a espiritualidade envolvente de Song With No Words (Tree With No Leaves). O álbum conseguiu bom resultado comercial, atingindo o posto de nº 12 na parada americana e vendendo mais de 500 mil cópias por lá, e a mesma posição na parada britânica.

As canções são tão boas que merecem serem detalhadas uma a uma, incluindo a escalação de músicos e cada uma delas, algo que você não encontra nos créditos do álbum, por sinal. Essas informações foram garimpadas de várias fontes, entre as quais os livretos das caixas Voyage– David Crosby (2006) e CSN– Crosby Stills & Nash (1991) e do livro Crosby Stills & Nash- The Biography (2000- Dave Zinner e Henry Diltz).

Music Is Love (David Crosby)- Vocais: David Crosby, Graham Nash e Neil Young. Violões: David Crosby e Neil Young. Congas: Graham Nash.
Esta foi a única faixa do disco gravada no A&M Studios em Los Angeles, California, e também a única produzida por Nash e Young. A gravação foi feita de improviso, e Crosby não pensava em incluí-la no disco, mas seus amigos gostaram tanto do resultado que levaram a fita, acrescentaram outros elementos e a devolveram a Crosby, que, ao conferir o resultado, viu que não poderia deixá-la de fora. O clima é de mantra, envolvendo o ouvinte logo nos primeiros acordes. Um belo pontapé inicial para o LP.

Cowboy Movie (David Crosby)-David Crosby (vocal, guitarra e palmas)- Jerry Garcia (guitarra)- Neil Young (guitarra), Phil Lesh (baixo)- Mickey Hart (bateria, percussão, palmas).
Neste rockão, belo sucessor de Almost Cut My Hair (do álbum Dèja Vú), Crosby conta de forma bem humorada, como se fosse o enredo de um faroeste, a história da separação do CSN&Y. Cada integrante mereceu um codinome. Crosby é o Old Weird Harold, Neil Young, o Young Billy, Stephen Stills, o Eli, Graham Nash, The Dynamiter, e a cantora Rita Coolidge, que gerou uma briga amorosa entre Stills e Nash (ganha por este último) é a Indian Girl. O clima de bangue-bangue também remete à capa de Dèja Vú, na qual os integrantes do CSN&Y aparecem trajados com roupas daquela época. O vocal vibrante de Crosby e o duelo de guitarras entre Young e Garcia são marcantes.

Tamalpais Hight (At About 3) (David Crosby)- David Crosby (guitarra, vocal)- Jerry Garcia (guitarra)- Jorma Kaukonen (guitarra)- Phil Lesh (baixo)- Bill Kreutzmann (bateria).
Sem letra, esta faixa se vale das envolventes vocalizações de Crosby para te levar a um clima contemplativo. A guitarra de timbre e inspiração jazzística é de Kaukonen, do Jefferson Airplane, em uma combinação de músicos que poderíamos apelidar de Jefferson Dead ou Grateful Airplane.

Laughing (David Crosby)- David Crosby (vocal, violão 12 cordas e guitarra)- Jerry Garcia (guitarra e pedal steel)- Phil Lesh (baixo)- Bill Kreutzmann (bateria)- Joni Mitchell (vocais).
Foi Crosby quem apresentou George Harrison ao trabalho de Ravi Shankar, e por tabela, à cultura oriental. Ele de certa forma se preocupava com a obcessão do amigo em descobrir a “verdade sobre a vida”, o que levou o músico britânico a se envolver com o célebre Maharishi. Daí surgiu a inspiração para a letra desta belíssima balada swingada, na qual podemos ouvir uma das grandes performances de steel guitar da história, pilotada pelo saudoso Jerry Garcia. Nos versos, Crosby diz ao amigo que, na verdade, a resposta que ele tanto procurava podia estar no sorriso inocente de uma criança tomando sol.

What Are Their Names (David Crosby-Neil Young-Jerry Garcia-Phil Lesh-Michael Shrieve)- David Crosby (violão e guitarra, vocais)- Jerry Garcia (guitarra)- Neil Young (guitarra)- Michael Shrieve (bateria)- David Frieberg, Jerry Garcia, Paul Kantner, Phil Lesh, Joni Mitchell, Graham Nash, Grace Slick (vocais).
Uma espécie de “quem é quem” no universo do rock americano de então, especialmente o de San Francisco. Balada climática, ardida, com letra cutucando a hipocrisia dos políticos, sempre tentando ocultar seus nomes na execução de fatos escusos e com objetivos corruptos e asquerosos.

Traction In The Rain (David Crosby)- David Crosby (vocal e violão)- Laura Allen (autoharp). Graham Nash (violão e vocais).
Canção acústica e doce, nas quais os acordes jazzísticos típicos da obra de Crosby prevalecem de forma cristalina, além da sutileza das intervenções de Laura Allen. Encantadora é pouco!

Song With No Words (Tree With No Leaves) (David Crosby)- David Crosby (guitarra, violão de 12 cordas e vocal)- Jerry Garcia (guitarra)- Jorma Kaukonen (guitarra)- Gregg Rolie (piano)- Jack Casady (baixo)- Michael Shrieve (bateria).
Em uma combinação que poderia ser apelidada de Jefferson Santana por mesclar músicos de duas bandas seminais do rock americano, Crosby nos encanta com outra faixa sem palavras, na qual a melodia melancólica e introspectiva é ressaltada por vocalizações simplesmente arrepiantes por parte do dono da festa.

Orleans (tradicional, adaptação David Crosby)- David Crosby (violões e vocais).
Doce canção folclórica bem adaptada pelo ex-integrante dos Byrds, na qual ele mais uma vez mostra sua incrível capacidade de fazer arranjos vocais com assinatura própria.

I’d Swear There Was Somebody Here (David Crosby)- David Crosby (vocais).
O título que esta peça com seis partes vocais, todas executadas pelo próprio artista, acabou ganhando (eu juro que tinha alguém aqui, em tradução livre) tem a ver com a impressão que Crosby afirma ter tido na hora em que a gravação estava sendo feita de que o espírito da amada Christine estava no estúdio. O resultado final reflete essa descrição, arrancando arrepios do ouvinte.

Obs.: em 2006, uma edição especial deste álbum trouxe uma faixa-bônus inédita, feita durante as gravações do álbum.
Kids And Dogs (David Crosby)- David Crosby (violão e voz)
Outro desses momentos maravilhosos de que Crosby é capaz se valendo apenas de violão e vocais.

A capa do álbum é uma foto de Robert Hammer registrando um frame de um filme de 16 mm que mescla de forma mágica o rosto de David Crosby e um pôr do sol em pleno mar, captando de forma lírica o espírito de navegador do roqueiro americano. Vale lembrar que David é filho de um cineasta premiado, Floyd Crosby, que ganhou o Oscar de melhor direção de fotografia em 1931 pelo filme Tabu: A History Of The South Seas.

Ouça If I Could Only Remember My Name em streaming:

Mary Wilson, 76 anos, uma das fundadoras da The Supremes

mary wilson supremes

Por Fabian Chacur

Há alguns dias, Mary Wilson postou um vídeo no youtube (veja aqui) no qual, de forma jovial e entusiasmada, revelava que a gravadora Universal Music irá em breve relançar seu primeiro álbum solo, autointitulado e de 1979, com direito a quatro faixas-bônus inéditas produzidas em 1980 por Gus Dudgeon, conhecido por seu trabalho com Elton John. Imaginem o susto ao sabermos que, na última segunda (8), a cantora, integrante da formação original do seminal grupo The Supremes, nos deixou, aos 76 anos, de causas não reveladas.

Nascida em 6 de março de 1944, Mary Wilson se uniu à amiga Florence Ballard (1943-1976) no finalzinho dos anos 1950 com o intuito de montar, em Detroit, um grupo vocal. Essa formação ainda incluía Barbara Martin e Betty Travis, mas esta última saiu rapidinho de cena. Aí, o cantor Eddie Kendricks, que integrava um grupo vocal chamado The Primes, sugeriu como substituta uma amiga de nome Diane Ross, fã incondicional do cantor Frankie Lymon.

No início, o quarteto topou fazer backing vocals em shows dos amigos do The Primes, e, por isso, inicialmente, usaram o nome Primettes. Em 1960, quando os Primes foram contratados pela Motown Records, e rebatizados de The Temptations, Mary e sua turma pediram uma chance ao dono da gravadora, o hoje lendário Berry Gordy. Ele as aconselhou a terminarem o colégio, ensaiarem mais um pouco e depois voltarem para novos testes.

Persistentes, as meninas conseguiram uma chance no pequeno selo Lupine Records, gravando backing vocals para artistas como Eddie Floyd e Wilson Pickett, que também davam seus primeiros passos. Naquele mesmo 1960, gravaram dois singles para esta gravadora, ambos com Mary como vocalista principal, sem grande repercussão. Aí, voltaram a frequentar a Motown, até finalmente serem contratadas, o que ocorreu no dia 15 de janeiro de 1961, rebatizadas como The Supremes, sugestão de Florence.

As adolescentes (três com 16 anos e Florence com 17) vibraram com a oportunidade, e seu primeiro single para a gravadora de Detroit, I Want a Guy, saiu no final de 1961. Era apenas o início de uma longa trajetória até o sucesso, com direito ao lançamento de vários singles que passaram batidos e a tentativa de descobrir um som e um formato corretos para aquele grupo. Barbara resolveu sair fora logo após o lançamento do single.

Agora definidas como um trio, as meninas passaram a ter Diana como vocalista principal, seguindo a orientação de Gordy. Florence não curtiu muito a ideia, mas a aceitou, enquanto Mary não ficou tão afetada, por achar que se incumbir dos backing vocals era tão importante para o grupo como a voz principal.

A coisa só foi engrenar quando Gordy resolveu dar ao trio de compositores e produtores Lamont Dozier e os irmãos Brian e Eddie Holland a incumbência de trabalhar para as meninas. Em janeiro de 1964, o single assinado e produzido pelo trio, When The Lovelight Starts Shining Through His Eyes, atingiu o 23º lugar na parada pop americana. E muita coisa boa viria logo a seguir.

Quando compuseram a música Where Did Our Love Go, Eddie achou que Mary seria mais adequada para assumir o vocal principal, enquanto Brian e Lamont preferiam Diana. Com uma mudança de tom, o trio concordou de forma unânime em dar a Diana a missão. Bingo! Esta canção, em julho de 1964, tornou-se a 1ª do grupo a atingir o primeiro posto na parada americana. Até 1970, outras 11 conseguiriam tal façanha.

Enquanto Mary se sentia aparentemente confortável com Diana aos poucos ganhando cada vez mais os holofotes, Florence foi se tornando muito insatisfeita, até que, em julho de 1967, ela acabou sendo substituída por Cindy Birdsong. O nome do grupo também havia mudado, para Diana Ross & The Supremes, o que indicava o que estava por vir em um futuro não muito distante.

Em 1970, Diana sai do grupo rumo a uma carreira-solo de muito sucesso. Mary, então, torna-se a única remanescente da formação original, agora ao lado de Cyndi e da novata Jean Terrel, que se incumbiu dos vocais principais em hits como Stoned Love, Nathan Jones e Floy Joy, entre outros.

O grupo se manteria ativo, com mudanças na formação, até 1977, quando saiu de cena. Nesse meio tempo, lançou um álbum produzido e com canções do grande Jimmy Webb em 1972, e teve single produzido por Stevie Wonder. O último hit foi I’m Gonna Let My Heart Do The Walking, que chegou ao nº 40 nos EUA.

Com o fim das Supremes, Mary lançou seu primeiro álbum solo, intitulado Mary Wilson, em 1979. Centrado em disco music, emplacou um hit modesto, a ótima Red Hot, mas não vendeu bem. Em 1980, ela já havia gravado quatro faixas com Gus Dudgeon para o que seria o seu segundo álbum-solo pela Motown Records, mas a gravadora preferiu abortar o projeto e encerrar o contrato com a cantora.

Os 25 anos da Motown Records foram celebrados com um show intitulado Motown 25: Yesterday, Today And Tomorrow, e uma de suas principais atrações era a participação das Supremes com Diana Ross, Mary Wilson e Cindy Birdsong (Florence Ballard morreu em 1976, após anos tristes e decadentes). Nas gravações, os desentendimentos entre Diana e Mary se mostraram evidentes, embora a versão exibida na TV tenha retirado os momentos mais picantes.

Em 1986, Mary lançou Dreamgirl: My Life as a Supreme, sua primeira autobiografia, escrita em parceria com Patricia Romanovsky e focada na história do seu ex-grupo nos anos 1960. A parceria voltaria em um segundo livro, Supreme Faith: Someday We’ll Be Together (1990), desta vez dedicado ao período pós-Diana Ross do grupo e à sua carreira solo.

Em 1992, a cantora lançou o seu segundo álbum solo, Walk The Line, no qual releu um hit das Supremes, You Keep Me Hangin’ On, e uma composição da hitmaker Dianne Warren, Under Any Moon, além de I Am Changing, do musical Dreamgirls (1981), supostamente baseado na carreira das Supremes. Ela também participou de discos de artistas como Neil Sedaka, The Four Tops, Paul Jabara e do grupo australiano Human Nature.

Os fãs do grupo que marcou a história da música pop com hits como Baby Love, Stop! In The Name Of Love, You Keep Me Hangin’ On e tantos outros ficaram animados em 1999, quando os boatos de uma possível turnê de reunião das Supremes voltou à tona. No entanto, as complicadas negociações e os velhos ressentimentos não permitiram que esse sonho de seus admiradores se realizasse. Pelo menos, não como deveria.

Diana Ross se juntou a duas outras ex-integrantes do grupo, curiosamente da fase anos 1970 em que ela própria não estava mais por lá, Scherrie Payne e Linda Laurence, para a realização de uma turnê intitulada Return To Love. A série de shows, que teve um início promissor com show sold out no Madison Square Garden, acabou sendo interrompida na sua metade, devido à procura de ingressos ter sido muito inferior ao esperado. Triste.

Outro lançamento bacana de Mary Wilson longe das Supremes saiu em 2006 nos formatos CD e DVD. Trata-se de Up Close: Live From San Francisco, show gravado ao vivo em dezembro de 2005 no Blush Room em San Francisco no qual ela releu desde standards da música americana até hits mais recentes de autores como Eric Clapton, Sting e Joni Mitchell. Curiosidade: temos aqui um pot-porry com I Remember You, The Girl From Ipanema e Mas Que Nada.

Uma das canções desse CD-DVD certamente foi escolhida a dedo. Trata-se de Tears In Heaven, feita por Eric Clapton em tributo ao seu filho Connor, morto de forma trágica aos 5 anos de idade. Mary perdeu seu filho de 14 anos em um acidente de carro em janeiro de 1994.

Mary permaneceu uma figura relativamente constante na mídia, sendo entrevistada em programas de TV e rádio. Em 2015, um single inédito dela, Time To Move On, atingiu o 17º lugar na parada dance da Billboard, 36 anos após Red Hot ter atingido essa parada, sendo esse um recorde de distância entre uma classificação e outra de singles de uma mesma artista nesse chart.

Em 2019, participou do popular reality show norte-americano Dancing With The Stars, além de lançar uma nova biografia, Supreme Glamour: New York, Thames & Hudson, escrito em parceria com Mark Bego. Vale lembrar que em 1999 ela publicou uma versão condensando as duas primeiras bios em um único volume.

Red Hot– Mary Wilson:

Lloyd Cole, grande nome do rock britânico, completa 60 anos

Lloyd_Cole 400x

Por Fabian Chacur

Hoje é dia de celebrar o aniversário de 60 anos de Lloyd Cole. O grande cantor, compositor e músico britânico, nobre integrante da “classe de 1961” a qual tenho a honra de pertencer, continua na ativa, sendo seu mais recente álbum Guesswork, lançado em 2019. No entanto, ele é mais lembrado por seu trabalho com a banda Lloyd Cole And Commotions, com a qual lançou três deliciosos álbuns de estúdio entre 1984 e 1989. Como forma de homenageá-lo, eis aqui uma breve bio desse talentosíssimo artista que marcou época.

Lloyd Cole nasceu em Derbyshire, Inglaterra, em 31 de janeiro de 1961. Interessado desde sempre em música, literatura e poesia, ele se mudou para Glasgow (Escócia) em 1982 para estudar filosofia e língua inglesa na universidade local. E foi por lá que iniciou a banda que o tornou famoso internacionalmente, ao lado de Stephen Irvine (bateria), Neil Clark (guitarra e violão), Lawrence Donegan (baixo) e Blair Cowan (teclados), com ele se dedicando ao vocal principal, guitarra, violão e composições.

Em plena era do tecno pop e do pós punk, Cole e seus amigos propunham um retorno a sonoridades mais próximas do folk rock, country e rock básico, com forte dedicação a boas melodias e a letras filosóficas e poéticas enfocando o amor em todos os seus ângulos, especialmente as idas e vindas dos relacionamentos. Isso, com um tempero político, levando-se em conta a militância socialista dos cinco músicos, mas sem nunca cair no panfletarismo.

Em 1984, eles estreiam em disco com Rattlesnakes. E que estreia! Atrevo-me a colocar este como um dos melhores álbuns de estreia de todos os tempos, pois nos apresenta uma banda absolutamente pronta, madura e inspiradíssima, desenvolvendo sua proposta musical com desenvoltura rara. São dez faixas absurdamente boas e diversificadas entre si, e contando com os inspirados arranjos de cordas de Anne Dudley, integrante do grupo Art Of Noise e autora de trilhas incidentais para cinema, entre elas a vencedora do Oscar na categoria feita para o filme Ou Tudo Ou Nada (The Full Monty-1997).

Rattlesnakes é perfeito a partir de sua envolvente faixa-título, com sua mistura de folk e música oriental e vigorosas passagens de cordas. Rock melódico em Perfect Skin, country sacudido em Four Flights Up, lirismo dolorido em Are You Ready To Be Heartbroken, nostalgia em Charlotte Street (que tocava em rádios rock no Brasil), doçura em Forest Fire… Quantas belas músicas juntas!

A repercussão de Rattlesnakes em termos de vendagem foi respeitável, com um 13º posto na parada do Reino Unido. Graças também a suas ótimas performances ao vivo, o grupo criou uma boa expectativa em torno de seu segundo álbum, e Easy Pieces (1985) não decepcionou, atingindo o 5º posto no Reino Unido e vendendo mais rapidamente do que o trabalho anterior.

Tendo um objetivo claro e assumido de atingir um público maior, Easy Pieces traz algumas canções deliciosas, entre as quais a contagiante Lost Weekend, a balançada e otimista Brand New Friend (o momento mais pop da banda, provavelmente), a tocante Cut Me Down e a ótima Perfect Blue. A expectativa era de que o quinteto logo atingisse o primeiro escalão do pop-rock.

A missão de Mainstream (1987) já se mostrava logo no título, e de certa forma cumpriu o seu objetivo. Digo de certa forma porque foi durante as suas gravações, que duraram bem mais do que os trabalhos anteriores, que as coisas se deterioraram entre eles. Blair Cowan saiu da banda antes mesmo que o grupo iniciasse a turnê de divulgação do álbum, que acabaria sendo a última da banda.

A qualidade de Mainstream, que chegou ao 9º lugar no Reino Unido, é das melhores, trazendo faixas poderosas como My Bag, Jennifer She Said e Mr. Malcontent. A cantora Tracey Thorn, integrante de outro grupo icônico daquela época, o Everything But The Girl, marca presença em Big Snake. Uma bela despedida para uma banda que, curiosamente, pouco conseguiu no mercado americano, onde seus discos passaram meio batidos, sendo consumidos apenas pelo público do chamado “college rock”.

O próximo passo de Lloyd Cole foi se mudar de mala e cuia para Nova York. Enquanto participava de uma banda cover de Bob Dylan, preparou o material de seu primeiro disco solo, autointitulado e lançado em 1990. Ao seu lado, novos parceiros, como o guitarrista Robert Quine, conhecido por seu trabalho ao lado de Lou Reed, e Matthew Sweet, figura bem cotado no rock alternativo norte-americano. O resultado foi ótimo, com destaque para a faixa No Blue Skies.

Durante os anos 1990, Cole viu sua popularidade se esvair, embora continuasse ativo e lançando bons trabalhos, entre os quais os álbuns Don’t Get Weird On Me Babe (1991), Bad Vibes (1993) e Love Story (1995), indo desde o folk voz e violão até um rock mais ardido com ecos de Velvet Underground. Nesse período, contou em alguns trabalhos com as participações dos ex-colegas de Commotions Neil Clark e Blair Cowan (este último também em parcerias em novas canções). Cole tocou no Brasil em 1998, sendo o show em São Paulo no extinto Palace.

Em 2001, Lloyd Cole marcou um trabalho de três anos com um novo time de músicos com o lançamento do álbum The Negatives. Trata-se de um CD que completa 20 anos totalmente ignorado pelo grande público, e de forma absurdamente injusta. Nele, o artista retoma a sonoridade do Lloyd Cole And The Commotions com uma inspiração incrível, oferecendo-nos 11 canções comparáveis aos seus clássicos de outrora.

Past Imperfect, Impossible Girl, No More Love Songs, Negative Attitude e a iluminada What’s Wrong With This Picture? mereciam ter entrado com força nas paradas de sucesso de todo o mundo, mas nem passaram perto. Quer fazer um favor a si mesmo? Ouça AGORA este álbum aqui.

Em 2004, como forma de celebrar os 20 anos do lançamento de Rattlesnakes, Lloyd Cole And The Commotions se reuniram para uma curta turnê pelo Reino Unido. Recentemente, foi lançada no exterior a caixa Lloyd Cole And The Commotions- Collected Recordings 1983-1989, trazendo cinco CDs e um DVD com todas as faixas lançadas oficialmente pela banda, mais raridades e material inédito e participações do grupo em programas de TV.

Enquanto Neil Clark e Blair Cowan continuaram eventualmente participando de trabalhos de Lloyd Cole paralelamente a trabalhos próprios, o baterista Stephen Irvine tocou bateria com outros grupos e também foi manager de outros artistas, enquanto Lawrence Donegan virou jornalista e escritor, especializado em golfe.

Ouça o álbum Rattlesnakes em streaming:

W. Eugene Smith e um incrível registro da história do jazz

the jazz loft according to

Por Fabian Chacur

Quem foi W. Eugene Smith (1918-1978)? Um fotógrafo genial, que marcou época na história dessa atividade, um profissional obsessivo que sabotou sua própria carreira ou um fã incondicional de jazz que criou um dos mais importantes acervos culturais do gênero? Bem, ele era tudo isso e muito mais. Uma boa forma de se saber um pouco mais sobre essa personalidade fascinante é o documentário The Jazz Loft According To W. Eugene Smith (2015), que o Canal Arte 1 tem exibido em sua programação.

A carreira de Smith como fotógrafo ganhou força a partir do final dos anos 1930, quando ele tornou-se um dos mais talentosos e criativos colaboradores de revistas como a Newsweek e a Life e da Agência Magnum. Seu trabalho é considerado um marco dos chamados estudos fotográficos, aquelas sequências de fotografias que contam de forma técnica e emocional uma determinada história. Ele também atuou como correspondente de guerra entre 1943 e 1944.

Graças à sua forma minuciosa de realizar seu trabalho, sempre beirando e frequentemente ultrapassando os limites do que poderíamos chamar de “normal”, Smith começou a ser meio que colocado de lado na cena profissional, acumulando dívidas e não conseguindo gerir sua família. É dessa forma que, em 1957, após vender sua casa para pagar dívidas e também se distanciar de sua esposa e filhos, ele se muda para um loft em Nova York.

Situado em um prédio velho na região do comércio de flores, seu apartamento era vizinho do de Hall Overton (1920-1972), célebre arranjador, compositor e professor de música. O local era um espaço livre não só para aulas, mas também para jam sessions de jovens músicos sem hora para terminar. Ao perceber a qualidade do que rolava por ali, Smith teve uma ideia maluca: não só começou a tirar fotos de tudo o que ocorria, como também comprou vários gravadores e microfonou diversos ambientes- apartamentos, corredores, escadas etc.

Resultado: entre 1957 e 1965, o cidadão gravou mais de quatro mil horas em fitas de rolo e fez mais de 40 mil fotografias. Pode-se dizer que ele, sozinho, foi uma espécie de BBB daqueles músicos, registrando sem censura tudo o que ocorria naquele espaço, como se fosse uma verdadeira “mosca na parede”, figura tão presente que ninguém se preocupava com o que ele estava fazendo.

Entre outros registros, ele flagrou as mais de três semanas de ensaios de um dos trabalhos mais idolatrados do grande mestre do jazz Thelonious Monk (1917-1982), The Thelonious Monk Orchestra At Town Hall (1959), gravado ao vivo no mítico Town Hall nova iorquino em 28 de fevereiro de 1959.

The Jazz Loft According To W. Eugene Smith é um documentário de 87 minutos no qual a diretora e roteirista Sara Fishko nos conta essa história quase inacreditável valendo-se de várias dessas gravações e fotos e também com entrevistas com alguns dos sobreviventes daqueles anos verdadeiramente incríveis, nos quais músicos totalmente descompromissados com os mesquinhos limites impostos pela indústria cultural tinham como objetivos se divertir e, como consequência, criar alguns dos grandes momentos do jazz.

Além de contar de forma resumida a trajetória de Smith enquanto profissional da fotografia e pai de família, com direito a um depoimento tocante e sem rodeios de um de seus filhos, o filme se vale das fotos incríveis e dos históricos registros de áudio feitos por ele, com direito a diálogos deliciosos de Hall e Monk e trechos simplesmente encantadores das jam sessions.

A permanência de W. Eugene Smith no loft durou até 1971, quando foi despejado do local. Seu absurdamente importante acervo, que também envolvia 25 mil discos e 8 mil livros, foi doado ao Centro de Fotografia Criativa da Universidade do Arizona. Bom saber que estes registros fundamentais de uma das eras mais importantes do jazz estão devidamente preservados. O documentário é a primeira utilização desse material em um filme, e tomara que não seja a única. O filme está disponível no exterior em formato físico (DVD).

Veja o trailer de The Jazz Loft According To W. Eugene Smith:

Phil Spector, 81 anos, genial na música e um ser humano horrível

phil spector

Por Fabian Chacur

A trajetória de vida de Phil Spector equivale a um belo retrato das contradições inerentes ao ser humano. De um lado, o produtor, compositor e músico que marcou presença em grandes momentos da música, como discos de John Lennon, The Beatles, George Harrison, The Ronettes, The Crystals e The Righteous Brothers, entre outros. Do outro, um ser humano de temperamento difícil, cujo momento mais horrível foi um crime que lhe custou a liberdade. Ele nos deixou neste sábado (16) aos 81 anos, em um presídio na California. Triste final.

Spector nasceu em 26 de dezembro de 1939, fato curioso se levarmos em conta que um de seus trabalhos mais reverenciados foi um álbum natalino sobre o qual falarei mais à frente. Seu primeiro momento importante na carreira musical ocorreu em 1958 graças ao sucesso de To Know Him Is To Love Him, canção de sua autoria e gravada por sua banda na época, a Teddy Bears, na qual ele cantava e tocava guitarra. Atingir o primeiro lugar entre os singles nos EUA com apenas 19 anos e sendo o autor da música não é pra qualquer um.

Com o precoce fim do grupo que o lançou, em 1959, ele resolveu investir em seu lado compositor, produtor e empresário. Com o sucesso de Spanish Harlem, hit em 1960 com o cantor Ben E. King e parceria de Spector com o consagrado compositor e produtor Jerry Leiber (parceiro de Mike Stoller em inúmeros hits), seu prestígio aumentou, e ele resolveu montar a própria gravadora, a Philles Records, no final de 1961.

De forma inteligente, Phil montou um time com ótimos profissionais, entre os quais o arranjador Jack Nitzche (1937-2000), o engenheiro de som Larry Levine (1928-2008) e um elenco de ótimos músicos de estúdio (entre os quais Hal Blaine, Larry Knetchell e Carol Kaye) que depois seriam conhecidos pela alcunha Wrecking Crew. De quebra, buscou nomes promissores, entre os quais os grupos vocais The Ronettes, The Crystals e The Righteous Brothers.

Até 1966, Spector emplacaria inúmeros sucessos nas paradas pop como produtor e compositor pelo seu próprio selo, entre eles Be My Baby (The Ronettes), Da Doo Ron Ron (The Crystals) e You’ve Lost That Loving Feelin’ (The Righteous Brothers). Sua marca registrada era a utilização de uma técnica de estúdio apelidada de Wall Of Sound, na qual ele se valia de uma verdadeira orquestra de músicos para dar um tom apoteótico para cada canção, definida por ele próprio como “uma abordagem Wagneriana para o rock and roll” ou “pequenas sinfonias para as crianças”.

Em 1963, Phil Spector resolveu fazer um disco para celebrar o Natal, uma das festas mais queridas pelo público americano, e lançou A Christmas Gift For You From Phillis Records, com a participação de Darlene Love, The Ronettes e The Crystals, entre outros. O disco não fez sucesso logo de cara, quem sabe pela infelicidade de ter sido lançado no mesmo dia em que John F. Kennedy foi assassinado, mas com o decorrer dos anos se tornou um clássico, também chamado de Phil Spector’s Christmas Album.

Em 1966, apostou todas as suas fichas no sucesso de River Deep-Mountain High, a rigor a primeira gravação solo de Tina Turner. Apesar da inegável qualidade da gravação, elogiada pelos críticos, o single só atingiu o modestíssimo nº 88 nos EUA, embora tenha sido 3º lugar no Reino Unido. Aparentemente, a decepção o levou a sair de cena até 1969.

Naquele ano, começou sua relação com os Beatles e seus integrantes. No início de 1970, Instant Karma!, de John Lennon, foi o primeiro fruto daquela nova fase dele. Em seguida, incumbiu-se da produção da trilha do filme Let It Be, retrabalhando as gravações feitas anteriormente por George Martin e Glynn Johns. O resultado obteve grande resultado comercial, mas teve repercussão diversificada entre os críticos. Paul McCartney odiou o arranjo “wall of sound” para The Long And Winding Road, por exemplo.

Entre outros trabalhos, Spector se incumbiria da produção de clássicos do porte de John Lennon- Plastic Ono Band (1970), Imagine (1971) e Some Time In New York (1972), de Lennon, e All Things Must Pass (1970) e The Concert For Bangladesh (1971), de George Harrison

Em 1973, a excentricidade que já acompanhava o produtor americano começou a se tornar mais aparente. Tudo começou com o álbum de releituras de clássicos do rock que ele começou a produzir para John Lennon. Depois de algumas semanas de trabalho, ele simplesmente sumiu com as fitas master do álbum, deixando o ex-beatle simplesmente atordoado. O material só seria devolvido depois de meses, e a partir dali, Lennon tomou conta ele próprio da produção do LP, que sairia em 1975 com o título Rock And Roll.

Em 1974, Phil sofreu um grave acidente de carro, e por muito pouco não abreviou em uns bons anos o seu tempo de vida. Reza a lenda que foi a partir daí que, por causa de cicatrizes que ganhou com a batida, passou a usar perucas, que com o decorrer dos anos foram se tornando cada vez mais bizarras.

Em 1974, o grande Dion DiMucci, conhecido por clássicos do rock como Runaround Sue e I Wonder Why, resolveu apostar em Spector para produzir um de seus álbuns. O resultado foi Born To Be With You (1975), que Dion odiou tanto a ponto de definir sua sonoridade como de “música para trilha sonora de velório”. Há quem goste muito deste LP, no entanto.

Aliás, essa passou a ser a marca de Spector como produtor a partir daí: assinar trabalhos não apreciados pelos artistas que os lançaram, mas cultuados por fãs e por outros artistas. O próximo da lista foi Death Of a Ladies Man (1977), do canadense Leonard Cohen.

A coisa pegou mesmo em 1980, quando ele foi escolhido para tentar dar aos Ramones um disco que vendesse bastante. End Of The Century (1980) teve um resultado comercial bem modesto, e também arrancou comentários ácidos por parte de Johnny e Marky Ramone acerca do produtor, incluindo relatos de horas infindáveis para gravar um único acorde e reuniões tétricas na mansão de Spector, com direito a filmes bizarros sendo exibidos e armas de fogo podendo ser acionadas a qualquer momento.

A partir de 1981, quando coproduziu Seasons of Glass (1981), álbum que Yoko Ono lançou poucos meses após a morte de John Lennon, Phil Spector foi aos poucos saindo de cena. Um momento de destaque ocorreu em 1991 com o lançamento de Back To Mono (1958-1969), luxuosa caixa com 4 CDs reunindo 60 faixas produzidas e/ou compostas por ele e também o álbum natalino em sua íntegra. Esse produto ajudou a resgatar a importância da sua obr.

Em 2003, no entanto, a parte sombria da personalidade do produtor americano veio mais uma vez à tona, e desta vez de forma trágica. Ele matou com um tiro na boca em sua mansão na Califórnia a atriz e modelo Lana Clarkson (1962-2003). O julgamento final ocorreu em 2009 e rendeu a Spector uma pena de 19 anos de reclusão. Há também provas de que ele teria cometido delitos graves contra filhos e ex-esposas, mas prefiro não me estender nessa área.

Nesses anos de ostracismo, ele foi cogitado para ser um dos produtores de Falling Into You (1996), álbum que solidificou a carreira internacional da canadense Céline Dion, mas ele não teria conseguido se entrosar com a equipe da cantora. Seu provável último trabalho ocorreu no álbum Silent Is Easy (2003), do grupo inglês Starsailor, que traz duas músicas produzidas por ele, incluindo a faixa-título, que no formato single atingiu o 10º lugar na parada britânica. O último hit com sua griffe.

O lado bom de Phil Spector deixou como herança grandes álbuns e canções, mesmo sem nunca ter tido a unanimidade de público e dos outros profissionais do ramo. O negativo, por sua vez, mostrou um profissional nem sempre confiável, de ego exacerbado, e um ser humano capaz das maiores atrocidades em seus relacionamentos pessoais. Uma espécie de Dr. Jeckyl e Mr. Hyde da vida real.

Be My Baby– The Ronettes:

Genival Lacerda, 89 anos, o rei eterno do forró de duplo sentido

genival lacerda

Por Fabian Chacur

Uma das diversas variantes do forró leva como subtítulo “duplo sentido”, cujas letras investem na semelhança entre algumas palavras para dar a entender uma coisa ao ouvinte, tentando disfarçar essa intenção sempre escancarada. Presente há décadas no imaginário do povo brasileiro, esta vertente teve como seu principal nome o paraibano Genival Lacerda, que nos deixou nesta quinta-feira (7) no Recife (PE) aos 89 anos, após mais de um mês internado por causa da covid-19. Uma grande perda para a nossa cultura.

Nascido em Campina Grande (PB) em 15 de abril de 1931, Genival iniciou sua carreira musical nos anos 1950, quando se mudou para o Recife, onde gravou seu primeiro disco. Aceitando a sugestão de seu concunhado, o célebre e genial Jackson do Pandeiro, ele se mudou para o Rio de Janeiro em 1964, trabalhando em casas de forró e tentando ampliar os seus horizontes profissionais. Foi duro, mas enfim ele conseguiu.

Isso ocorreu em 1975, quando Severina Xique-Xique, sua composição em parceria com João Gonçalves, tomou conta de todo o país com sua letra bem-humorada e com o refrão grudento “ele tá de olho é na boutique dela”. Além da música ser muito boa em seu estilo, também a ajudou o fato de Genival ter uma forte presença cênica, com direito a roupas coloridas e a indefectível dança balançando sua barriga protuberante.

Presença frequente nos programas populares de TV nos anos 1970 e 1980, o artista paraibano emplacou uma série de hits, entre os quais Mate O Véio Mate, Quem Dera, Radinho de Pilha e inúmeros outros, todos investindo na ala mais dançante do forró e com versos irreverentes beirando (e muitas vezes ultrapassando) o politicamente incorreto. Mas sua simpatia e carisma sempre o ajudaram a superar possíveis problemas.

Uma das marcas registradas de Genival Lacerda foi sua capacidade de se reinventar e de estar sempre aberto a parcerias com outros artistas. Em 1988, por exemplo, ele marcou presença no primeiro LP solo do roqueiro Marcelo Nova, na faixa A Gente é Sem-Vergonha. Com Zeca Baleiro, gravou em 1997 O Parque de Juraci, faixa de Por Onde Andará Stephen Fry?, álbum de estreia do cantor e compositor maranhense.

Em 2010, foi a vez de Ivete Sangalo registrar um dueto com ele, a divertida Chevette da Menina, na qual brincam com o fato de o nome do carro rimar com o da cantora. E teve também uma parceria de Genival com o impagável Falcão, Forró Cheiroso, que saiu no álbum Casa do Forró, de 1998.

Mas o momento mais curioso de sua carreira ocorreu na metade dos anos 1990, quando o DJ Cuca fez uma versão dance de Rock do Jegue. A versão fez tanto sucesso que gerou o álbum Forró Dance By Genival Lacerda, lançado pela gravadora Paradoxx. Para divulgar essa música, ele chegou a ir em programas de TV vestido com uma versão forrozeira de um MC de dance music, incluindo até aqueles bonés típicos.

Mas esse seu lado pop não tirou dele o respeito por parte dos fãs do forró mais tradicional, o que pode ser comprovado pelo fato de ele participar de programas de TV dedicados à música brasileira de raiz, como o de Rolando Boldrin, por exemplo. Ele conseguia agradar ao povão mais simples e aos mais sofisticados.

Rock do Jegue (Cuca Mix)- Genival Lacerda:

Gerry Marsden, 78 anos, o cantor que nunca nos deixou sozinhos

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Por Fabian Chacur

Os Beatles foram a banda mais bem-sucedida a sair da cidade britânica de Liverpool. Quanto a isso, não há a menor dúvida. No entanto, em um item, eles perderam para outra banda local e contemporânea, Gerry And The Pacemakers: os rivais conseguiram emplacar seus primeiros três singles no topo da parada britânica. Uma façanha até então inédita por lá, e que só seria igualada 20 anos depois. Seu cantor, guitarrista e líder, Gerry Marsden, nos deixou neste domingo (3) aos 78 anos, e deixa um legado que vai além da música.

Nascido em Liverpool em 24 de setembro de 1942, Gerry iniciou uma banda ao lado do irmão mais velho, Freddie Marsden (1940-2006). A formação clássica de Gerry And The Pacemakers também trazia Les Chadwick (baixo, 1943-2019) e Les Maguire (piano, 1941). Eles disputavam os fãs de rock em Liverpool com os Beatles, inclusive tocando nos mesmos locais, entre eles o célebre Cavern Club, onde se apresentaram por quase 200 vezes.

O quarteto foi o segundo a ser contratado por Brian Epstein (1934-1967), o lojista que resolveu se tornar empresário de artistas e iniciou seu projeto com os Beatles. Se os Fab Four foram contratados pela Parlophone, Gerry And The Pacemakers entraram em um outro selo da EMI, o Columbia, mas ambos tiveram como produtor o genial George Martin (1926-2016). Aliás, há uma história bem interessante envolvendo os dois grupos e Martin.

O primeiro single dos Beatles, Love Me Do, lançado no final de 1962, atingiu o 17º posto na parada britânica, um bom desempenho para uma banda iniciante. Mas George Martin achava que os seus garotos podiam ir ainda mais longe se gravassem uma canção alheia, e sugeriu a eles que tentassem How Do You Do It?, escrita por um jovem e emergente compositor chamado Mitch Murray.

Mesmo a contragosto, John, Paul, George e Ringo gravaram a tal música. O resultado não ficou nada mal, mas eles queriam de qualquer jeito que seu segundo single fosse Please Please Me, de Lennon e McCartney, e a vontade deles prevaleceu. No fim das contas, foi aquele caso em que os dois lados tinham razão, pois Please Please Me atingiu o segundo posto na parada britânica e se tornou o primeiro grande hit da banda.

Martin cismou que How Do You Do It? tinha cara de sucesso, e resolveu experimentá-la com Gerry And The Pacemakers, que não vacilaram e a gravaram de forma bem semelhante ao registro dos conterrâneos (que só seria lançado oficialmente em 1995 no primeiro volume de Anthology). Bingo! O grupo estreou com um single que atingiu o topo da parada britânica.

Vale o registro: os Beatles só chegariam ao topo da parada de singles britânica com seu terceiro single, From Me To You, o primeiro do que seriam, no total, 17 compactos simples dos Fab Four a atingir tal posto na parada de sucessos do Reino Unido. Mas voltemos aos Pacemakers.

Sem perder o embalo, Gerry e seus asseclas escolheram outra composição de Mitch Murray para seu segundo compacto simples, I Like It, e mais uma vez capitanearam a parada do Reino Unido. No caso do terceiro single, no entanto, a coisa rolou de uma forma um pouco diferente.

Fã de Laurel And Hardy (O Gordo e o Magro), Gerry resolveu ver um filme deles que estava sendo reprisado no cinema Odeon, em Londres. O plano era ver esse e se mandar. Só que uma bela chuva resolveu dar o ar de sua graça na capital inglesa, e o cantor e guitarrista resolveu ficar para ver o outro filme do programa, um tal de Carousel (1956), filme musical americano com músicas escritas pela célebre dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.

Quando ouviu a principal canção da trilha, You’ll Never Walk Alone, apresentada com destaque em dois momentos importantes do filme, Gerry pôs na cabeça que aquela musica tinha de entrar no repertório de sua banda. E foi exatamente com ela que os Pacemakers emplacaram seu terceiro nº 1 consecutivo nos charts britânicos. Pouco depois, essa gravação viraria uma espécie de hino alternativo do Liverpool, sempre cantando por sua fanática torcida em suas partidas de futebol. As torcidas de Celtic (Escócia) e Borussia Dortmund (Alemanha) também adotaram essa mesma canção.

Por muito pouco Gerry And The Pacemakers não emplacaram um 4º single consecutivo no topo, pois I’m The One conseguiu chegar ao 2º lugar. E se não teve a performance dos singles anteriores, a doce balada Don’t Let The Sun Catch You Crying (assinada pelos quatro integrantes do grupo) se tornou um hit perene dos anos 1960, atingindo o 6º posto no Reino Unido e o 4º lugar nos EUA, o maior êxito do quarteto na terra do Tio Sam.

No finalzinho de 1964, Gerry Marsden registrou seu amor por Liverpool na canção de sua autoria Ferry Cross The Mersey, música que também daria nome ao filme estrelado pela banda lançado em 1965. O compacto com essa canção vendeu bem, sendo 8º colocado no Reino Unido e 6º nos EUA. A trilha do filme, o álbum mais bem-sucedido da banda nos EUA, também trazia a ágil It’s Gonna Be Alright, que fez sucesso no Brasil com o grupo Renato e Seus Blue Caps na versão em português intitulada Você Não Soube Amar.

No entanto, ao contrário dos Beatles, que se tornaram um fenômeno de proporções mundiais, Gerry e sua turma não conseguiram esse mesmo embalo. Walk Hand In Hand, lançado no final de 1965, foi seu último single a entrar nas paradas de sucessos britânicas, e ainda assim em um modesto 29º lugar. Após lançar a sarcástica The Big Bright Green Pleasure Machine (de Paul Simon) em outubro de 1966, o grupo anunciou sua separação.

A partir daí, Gerry Marsden investiu em uma carreira-solo sem grande repercussão, além de atuar em programas de TV e em um musical no teatro. Nos anos 1970, tentou reativar o grupo com uma nova formação que fez shows e lançou em 1974 o single Remember (The Days Of Rock And Roll), que passou batido em termos de sucesso.

Gerry, mesmo assim, manteve-se fazendo shows no circuito nostálgico, sempre se mostrando sensível e disponível para apoiar causas beneficentes. Com esse objetivo, regravou em 1985 You’ll Never Walk Alone, e o single voltou ao primeiro lugar por lá, a primeira vez em que um mesmo intérprete participava de duas versões número 1 de uma mesma canção. E o fato se repetiu em 1989, quando ele, ao lado de Paul McCartney, The Christians, Holly Johnson (do grupo Frankie Goes To Hollywood) e o trio de produtores e compositores Stock Aitken e Waterman, releu Ferry Cross The Mersey, que mais uma vez virou um hi nº1.

Aliás, a relação entre Frankie Goes To Hollywood e Gerry And The Pacemakers vai além de ambas as bandas serem oriundas de Liverpool. O grupo do cantor Holly Johnson foi exatamente aquele que, em 1983 e 1984, repetiu a façanha de seus conterrâneos, emplacando seus três primeiros singles- Relax, Two Tribes e The Power Of Love– no posto mais alto da parada britânica.

Aliás, mais duas coincidências ocorreriam entre eles. Welcome To The Pleasuredome, o 4º single do FGTH, bateu na trave, atingindo o 2º posto nos charts britânicos e os impedindo de conquistar seu 4º número 1 consecutivo. E o sucesso de Holly e seus colegas também se mostrou efêmero, com o grupo saindo de cena em 1987.

Gerry Marsden lançou em 1993 sua autobiografia I’ll Never Walk Alone em parceria com Ray Coleman, ex-editor do jornal britânico especializado em música Melody Maker. Ele foi condecorado com o MBE em 2003 pela sua atuação em causas humanitárias, e sofreu duas operações cardíacas, em 2003 e 2016. Ele anunciou sua aposentadoria em 2018, mas ainda apareceria publicamente celebrando a vitória de seu amado Liverpool na Champions League em 2019 e regravando You’ll Never Walk Alone em 2020 em homenagem aos profissionais da saúde do Reino Unido.

It’s Gonna Be Alright- Gerry And The Pacemakers:

Three For Love (1980), o álbum que consolidou o trio Shalamar

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Por Fabian Chacur

Tudo que começa mal, termina mal, afirma uma das inúmeras frases feitas pertencentes ao léxico popular. Nem sempre, no entanto. O exemplo do Shalamar serve como um belo exemplo. O grupo americano que, na verdade, começou como uma mera armação de estúdio destinada a faturar uns trocados, acabou se tornando uma das forças do r&b e da disco music em seus anos de ouro, entre 1977 e 1983. E o álbum que consolidou sua trajetória, Three For Love, completa 40 anos de seu lançamento pela Solar Records nos EUA neste 15 de fevereiro.

Antes de nos concentrarmos nesse icônico trabalho, vamos dar uma geral na trajetória do grupo. Tudo começou quando o produtor e promotor artístico Dick Griffey (1938-2010) resolveu criar, em parceria com o apresentador de TV e criador do seminal programa televisivo americano Soul Train, Don Cornelius (1936-2012), uma gravadora dedicada à música negra, a Soul Train Records. A ideia era apostar no r&b, mais especificamente naquele mais próximo da disco music, então o estilo musical mais efervescente em termos comerciais.

Em 1977, como forma de entrar com força nesse mercado e explorar um veio bem seguido naqueles anos, Griffey arregimentou cantores e músicos de estúdio e gravou um pot-pourry com trechos de vários hits da Motown Records (como Going To a Go-Go e I Can’t Help Myself) e intitulado Uptown Festival. O single, creditado ao Shalamar, atingiu o 25º posto na parada pop e o 10º na de r&b.

Ficou claro para Griffey que poderia ser interessante criar um grupo de verdade para não só divulgar aquele single em rádios e TVs como também fazer shows e gravar um álbum completo. Dos cantores que participaram de Uptown Festival, Gary Mumford foi considerado o mais adequado a entrar no projeto. Completaram o time dois dançarinos estilosos do cast do Soul Train.

Jody Watley, nascida em 30 de janeiro de 1959, subiu ao palco pela primeira vez na vida aos oito anos de idade, em um show de seu padrinho, ninguém menos do que o lendário soul man Jackie Wilson (1934-1984). Ao participar do Soul Train, logo se tornou um dos destaques do elenco de dançarinos, por dançar bem, ter um belíssimo visual e estilo próprio. De quebra, tinha um belo parceiro de dança.

Jeffrey Daniel, esse “parça”, nasceu em 24 de agosto de 1955, e era estilosíssimo, além de criativo. Reza a lenda que foi ele quem inventou os passos que, depois, se tornaram mundialmente conhecidos através de Michael Jackson, o célebre moonwalk. Quando surgiram as vagas para o Shalamar, e ao ficar claro que eles também cantavam, e bem, Dick Griffey os escalou para gravar o 1º LP.

Intitulado Uptown Festival, o LP saiu em 1977 e teve boa vendagem. Só que surgiu um problema pouco depois de seu lançamento: Don Cornelius quis encerrar as atividades da Soul Train Records, para se dedicar exclusivamente ao programa de TV. Inconformado, Dick Griffey comprou a parte do ex-sócio e mudou o nome da empresa, que passou a se chamar Solar (sigla criada a partir do nome Sound Of Los Angeles, sua solar cidade-sede).

A nova fase da gravadora estreou com o segundo álbum do Shalamar, Disco Gardens (1978), que trouxe o jovem veterano Gerald Brown na vaga de Gary Mumford. Este trabalho marcou o início da parceria do grupo com o produtor, baixista e compositor Leon Sylvers III, integrante do The Sylvers que naquele momento resolveu se concentrar na área da produção e sair daquela bem-sucedida banda de r&b pop.

A parceria rendeu um hit logo de cara, a deliciosa Take That To The Bank (Leon Sylvers III- Kevin Spencer), uma espécie de aperitivo do que viria a seguir. Pouco depois do lançamento do álbum, mais uma alteração no grupo: Gerald Brown saiu de forma intempestiva durante a turnê de divulgação do álbum. Para preencher a vaga, Watley e Daniel se lembraram de um cara talentoso que encontraram em um de seus shows, em Akron, Ohio.

A peça final no quebra-cabeças intitulado Shalamar atende pelo nome de Howard Hewett, nascido em 1º de setembro de 1955 e cujas marcas registradas eram o carisma, a ótima voz, a desenvoltura como dançarino e o mais do que instantâneo entrosamento com seus novos colegas de banda.

O “grupo-armação” ganha identidade própria

O terceiro álbum do trio, Big Fun (1979), trouxe, além da excelente estreia de Hewett no time, a adição de uma série de músicos arregimentados por Leon Sylvers III, que além de forte consistência e identidade sonora, trariam também ótimas composições. A primeira delas foi o primeiro grande hit do Shalamar, Second Time Around, assinada por Sylvers com um desses músicos.

Trata-se do tecladista William Shelby, irmão do cantor Thomas Shelby, do ótimo grupo de r&b Lakeside (conhecido pelo hit massivo na praia da black music Fantastic Voyage, de 1980). Ele, Kevin Spencer (teclados), Richard Randolph (guitarra) e Nidra Beard (cantora, compositora e mulher de Sylvers) também integravam outra banda da Solar Records produzida por Sylvers, a Dynasty.

Second Time Around atingiu o 8º posto na parada pop e o topo da parada de r&b americanas, além de ter integrado a trilha da novela global Duas Vidas em 1980. O álbum, nº 23 na parada pop e nº 4 na de r&b, trouxe outro hit bacana, I Owe You One (Joey Gallo- Leon Sylver III), e criava uma grande expectativa em torno do que viria a seguir. E isso se confirmou com o antológico Three For Love.

Leon Sylvers II pôe seus craques em campo

Para as gravações de Three For Love, Leon Sylvers III arregimentou um timaço. Além dele próprio e do irmão Foster no baixo, temos (entre outros) Kevin Spencer, William Shelby, Ricky Smith e Joey Gallo nos teclados, Wardell Potts Jr. na bateria, Ernest Pepper Reed, Richard Randolph, Stephen Shockley e Ricky Silver na guitarra, boa parte deles integrantes do projeto Dynasty.

Como vários desses músicos também eram parceiros nas composições das músicas, certamente deram aquele algo a mais para que as suas músicas ficassem com a melhor roupagem e pudessem lhes render um bom dinheiro. Inteligente, Leon soube explorar a versatilidade e o talento de cada um deles.

Ao contrário de outros grupos similares a este, o Shalamar tinha também a participação de seus integrantes como coautores de algumas músicas. Mais: eles também ajudavam nos arranjos vocais, em parceria com William Shelby e Sylvers. E os ótimos arranjos de cordas e metais ficaram a cargo de Gene Dozier, John Stevens e Ben Wright.

E já que falamos nos vocais, vale lembrar que aqui também temos muita qualidade e eficiência. Howard Hewett é o mais destacado no time, mas Jody Watley não ficava muito atrás, com os dois se alternando nos vocais principais e Jeffrey Daniel na maior parte do tempo participando das harmonizações vocais e bolando as coreografias.

Sucesso, mesmo em plena crise da disco music

Se em termos artísticos Three For Love tinha tudo para ser o discaço que acabou sendo, em termos comerciais sofreu um pouco com o contexto da época em que foi lançado. Mesmo tendo ultrapassado um milhão de cópias vendidas e valido ao grupo o seu primeiro disco de platina nos EUA, o álbum atingiu apenas a posição de nº 40 na parada pop, e a 8º na de r&b, com seus ótimos singles atingindo posições bem inferiores a Second Time Around.

E qual era o problema? Simples. No segundo semestre de 1979, teve início nos EUA um odioso movimento de cunho racista e homofóbico intitulado Disco Sucks (disco music “fede”, em tradução livre), liderado por verdadeiros fundamentalistas brancos que não admitiam que a disco tivesse tanta repercussão. Eles chegaram a fazer cerimônias públicas de destruição de LPs e singles de disco music. O horror, o horror!

Essa pressão gerou um clima de medo em importantes setores da mídia, e graças a isso, em 1980 artistas mais fortemente rotulados como de disco music, como Bee Gees, Chic, Village People e muitos outros, viram da noite para o dia seus trabalhos saírem das programações de rádios e TVs e terem muito menos divulgação do que antes.

Embora certamente tenha sido prejudicado por esse movimento, o Shalamar nunca deixou de lado suas raízes no r&b em seus trabalhos, e dessa forma mantinha um público fiel e grande nessa praia musical, o que lhes valeu naquele momento um resultado comercial muito melhor do que outros colegas.

Na época, a posição dos singles nos EUA era tirada a partir de uma média entre vendagens e execução em rádios. Como a disco music teve uma queda grande nas execuções em rádios mais populares, isso explica porque single matadores como Make That Move (nº 60 pop, nº6 no r&b), Full Of Fire (nº 55 pop, nº24 r&b) e This Is For The Lover In You (não entrou na parada pop, nº17 r&b) tiveram um desempenho tão fraco na parada pop.

Three For Love, faixa a faixa

FULL OF FIRE (Jody Watley-Joey Gallo- Richard Randolph)
O primeiro hit single do álbum traz como marcas uma guitarra bem roqueira, um arranjo vocal repleto de nuances, com Jody comandando as ações, um refrão impactante e uma mistura muito bem dosada de r&b e disco. Bela abertura de álbum, dando a medida do que viria a seguir, em termos de qualidade musical. A letra, escrita pela menina do trio, aposta ousadamente, mas de forma polida até, no lado sensual e sexual do amor.

ATTENTION TO MY BABY (William Shelby-Kevin Spencer-Wardelll Potts Jr.)
Mantendo o clima dançante, esta canção traz Hewett no vocal principal, dialogando bem com os backing vocals e as passagens de cordas.

SOMEWHERE THERE’S A LOVE (William Shelby-Ernest Pepper Reed-Otis Stokes)
Chegou a hora de uma slow jam, termo usado para definir canções lentas e sensuais no universo da black music. Aqui, Hewett e Jody se revezam no vocal principal, em uma balada doce, romântica até a medula, com letra idealista e esperançosa (“em algum lugar, existe um amor só pra mim). Fofa até a medula!

SOMETHINGS NEVER CHANGE (William Shelby- Dana Meyers)
O lado A do vinil se encerra com uma canção balançada, com belos riffs de sintetizador e um groove delicioso, com aquelas vocalizações cheias de sutilezas típicas do Shalamar.

MAKE THAT MOVE (Kevin Spencer- William Shelby- Ricky Smith)
Entre as oito faixas de Three For Love, é a mais escancaradamente disco, e provavelmente uma das melhores gravações do trio americano. Timbres instrumentais, variações vocais, elaboração melódica, arranjo de cordas, tudo esta perfeito por aqui, além de uma letra otimista, pra cima e contagiante. Clássico das pistas!

THIS IS FOR THE LOVER IN YOU (Howard Hewett- Dana Meyers)
Depois de um verdadeiro petardo dançante, temos aqui o momento mais soul music do álbum, uma balada arrebatadora na qual Howard Hewett dá um verdadeiro banho de interpretação, apoiado por vocalizações no mínimo arrepiantes. Certamente a melhor balada da carreira do grupo. Em 1996, o cantor, compositor, músico e produtor Babyface, que teve uma passagem pela Solar Records no início de sua premiada carreira, regravou esta belezura para seu álbum The Day, com participações especiais de LL Cool J e também de Jody, Hewett e Daniel, a primeira reunião da formação clássica do grupo desde 1993 e a única desde então. Essa releitura atingiu o nº 6 na parada pop e o nº 2 na de r&b.

WORK IT OUT (Jody Watley-Nidra Beard)
Esta parceria de Jody Watley com a cantora do grupo Dynasty tem semelhanças com o hit Second Time Around, embora sem ser uma cópia descarada. Leve, descontraída, serve como um bom veículo para a cantora, com uma letra otimista do tipo “nós vamos conseguir fazer isso dar certo”.

POP ALONG KID (Jeffrey Daniel-Howard Hewett-Nidra Beard)
O álbum se encerra com a canção de pegada mais eletrônica, com direito a um belo riff de sintetizador. Aqui, quem faz o vocal principal é Jeffrey Daniel, interpretando uma letra feita sob encomenda para ele, o “garoto pop” da banda por excelência. Pode não ser um cantor tão efetivo como seus então colegas de banda, mas consegue um bom desempenho e deixando os fãs com um sabor de quero mais nos ouvidos.

Three For Love ficou na posição de nº 43 no ranking The 80 Greatest Albums of 1980 da edição americana da revista Rolling Stone. O álbum saiu no Brasil no início de 1981 pela gravadora RCA, e nunca saiu por aqui no formato CD.

A formação clássica do Shalamar se manteria unida até 1983, quando, após o lançamento do álbum The Look, Jody e Daniel resolveram sair do grupo. Mas essa história a gente conta em outra ocasião.

Ouça Three For Love em streaming:

Paulinho, 68 anos, grande cantor e membro de um grupo seminal

paulinho roupa nova

Por Fabian Chacur

Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, eram, na verdade, quatro. E os equivalentes brasileiros do mundo na música eram seis. Sim, infelizmente sou obrigado a colocar o verbo no passado, pois um deles se foi nesta segunda-feira (14) aos 68 anos. Estou me referindo ao Roupa Nova, e seu mosqueteiro que infelizmente se retira de cena é Paulo Cesar Santos, o Paulinho, vocalista e percussionista que nos deixa aos 68 anos, vítima de covid-19, ele que há três meses havia feito um transplante de medula óssea.

E porque a comparação com os personagens da literatura baseados de certa forma na vida real? Simples: em seus exatos 40 anos de carreira, sempre com a mesma formação, Paulinho e seus fiéis parceiros, Cleberson Horst, Ricardo Feghali, Kiko, Serginho Herval e Nando sempre foram adeptos da máxima “um por todos, todos por um”. Não é de se estranhar que essa formação única só se quebre agora por causa de um problema de saúde.

Tudo começou nos anos 1970, quando o grupo Famks foi criando fama na cena dos bailes cariocas. Eles chegaram a gravar discos, mas faltava alguma coisa. Até que Paulinho, Nando, Kiko e Cleberson convidaram para entrar no time dois novos mosqueteiros, Feghali e Serginho. Com a nova escalação, faltava um nome mais bacana, que veio de uma música composta por Milton Nascimento e Fernando Brant de encomenda pra eles. Roupa Nova!

O disco de estreia saiu há exatos 40 anos, e nos mostrou logo de cara que não se tratava de qualquer grupo. Ou você encontra todo dia uma formação em que todos cantem e toquem muito bem, além de serem versáteis e criativos? Logo naquele álbum, intitulado Roupa Nova, emplacaram seus primeiros hits, maravilhas do naipe de Sapato Velho, Bem Simples, Canção de Verão e o presentão de Milton, padrinho da banda.

Apesar da cara amarrada de boa parte da crítica especializada (sempre eles…), o Roupa Nova logo se mostrou não só um grupo com luz própria, emplacando hit em cima de hit, como também se tornaram reis dos estúdios, gravando com artistas como Roberto Carlos, Gal Costa, Tim Maia e quem você imaginar, sempre dando seu auxílio luxuoso a artistas dos mais diferentes estilos. Até a música-tema do Rock in Rio em 1985 eles fizeram!

Em 1986, em uma das primeira entrevistas coletivas de que participei como jornalista, tive a honra de ter meu primeiro contato com o sexteto, e foi paixão à primeira vista, tal a simpatia deles. Embora todos participassem das vocalizações, os cantores que se incumbiam dos solos vocais eram Paulinho, que também se virava bem na percussão, e Serginho Herval, um de nossos melhores bateristas. Aliás, todos nessa banda são cobras criadas.

Um dos grandes méritos do Roupa Nova reside em seus incríveis arranjos vocais, ao mesmo tempo elaborados e extremamente bons de se ouvir. Quem ouviu o que eles fizeram com Yesterday, dos Beatles, sabe bem do que estou falando. Populares, sim, mas bem longe de popularescos, mesmo nas canções mais escancaradamente românticas que gravaram nesses anos todos.

Serginho era o cara das baladas mais doces, como Anjo e Bem Simples, enquanto Paulinho sempre esbanjou potência vocal e agito na hora dos rocks mais dançantes, do tipo Whisky a Go-go e Show de Rock And Roll, ou nas power balladas do tipo Volta Pra Mim e Linda Demais.

Com todos esses atributos, aliados a uma união invejável, o Roupa Nova conseguiu atravessar quatro décadas lotando os shows, frequentando as programações de rádios e mantendo um fã-clube fiel, sempre com um trabalho consistente e capaz de cativas os mais diferentes tipos de público. E bem-humorados, como em uma entrevista para mim nos anos 1990, na qual se autodenominaram os “dinossauros do brega”. Brega? Tá bom…

Linda Demais– Roupa Nova:

Sapato Velho (clipe)- Roupa Nova:

Vanusa, 73 anos, a cantora talentosa de personalidade forte

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Por Fabian Chacur

No início dos anos 2000, estava em uma loja de CDs e vi, em um balcão de ofertas, a coletânea Grandes Sucessos, de Vanusa, lançada em 1998 pela gravadora BMG. Quando peguei o disco em minhas mãos e conferi o repertório, lembrei-me de que não tinha um único álbum dela em minha coleção, mesmo amando a sua voz. Nem é preciso dizer que comprei rapidamente esta compilação. Acho que isso ilustra como as polêmicas em torno dela ofuscaram o que ela teve de maior, que era o talento como cantora e compositora. Ela infelizmente nos deixou neste domingo (8), aos 73 anos.

Vanusa Flores Santos nasceu em Cruzeiro (SP) em 22 de setembro de 1947, e foi criada em Uberaba (MG). Sua carreira como cantora teve início com o apoio de Eduardo Araújo e Carlos Imperial, não por acaso os autores do primeiro sucesso da moça, a deliciosa Pra Nunca Mais Chorar, lançada em 1967, nos estertores da Jovem Guarda. Embora tenha tido outros hits pouco depois, o melhor mesmo viria nos anos 1970.

O auge de Vanusa teve o pontapé inicial em 1973 com o sucesso da maravilhosa Manhãs de Setembro, composição dela em parceria com o músico e produtor musical Mario Campanha, o eterno produtor das Irmãs Galvão. Em 1975, fez a gravação definitiva de Paralelas, de Belchior, estouro ao ser incluída na trilha sonora da novela global Duas Vidas.

Com uma voz potente e muito bem colocada, ela logo emplacou outras canções nas paradas de sucesso, como Amigos Novos e Antigos (João Bosco e Aldir Blanc, da trilha de Anjo Mau) e Estado de Fotografia (Malim e Sérgio Sá, da trilha de O Astro), além de uma gravação irresistível de Congênito, de Luiz Melodia. Ela até estrelou uma novela, Cinderela 77, tendo Ronnie Von como o seu par romântico.

Mulher de personalidade forte e de opiniões diretas e sem rodeios, Vanusa foi casada com dois nomes importantes da cena cultural brasileira, o cantor e compositor Antônio Marcos, nos anos 1970, e o diretor e ator Augusto César Vannucci. Curiosamente, ambos morreram no mesmo ano, 1992, e ela nos deixa no exato dia em que seria comemorado o 75º aniversário de Antônio Marcos. E Vanucci nos deixou também no mês de novembro, no dia 30.

A partir dos anos 1980, a artista infelizmente deu uma bela sumida das paradas de sucesso, voltando à mídia apenas por entrevistas apimentadas e problemas particulares. A coisa piorou muito a partir de 2009, quando ela se enrolou toda ao interpretar o Hino Nacional Brasileiro durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em plena era da internet, o vídeo com o registro desse momento triste viralizou, e as pessoas e a imprensa exploraram esse momento infeliz da cantora de forma cruel.

A única notícia positiva e ligada à música nesses últimos 11 anos ocorreu em 2015, quando a cantora, com o apoio de Zeca Baleiro, lançou o que viria a ser seu último álbum de estúdio, Vanusa Flores Santos. Nos últimos dois anos, Vanusa morou em uma casa de repouso em Santos, e foi vítima de problemas respiratórios. Ela deixa os filhos Amanda, Aretha e Rafael.

Paralelas- Vanusa:

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