Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Resenhas (page 1 of 33)

Livros MPBambas trazem um elenco de ótimas entrevistas

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Por Fabian Chacur

Tempo em TV vale ouro. Por isso, frequentemente entrevistas gravadas para esse veículo de comunicação costumam trazer apenas uma parte do conteúdo obtido nos papos com os alvos de suas matérias. Os dois volumes de MPBambas- Histórias e Memórias da Canção Brasileira, de autoria de Tarik de Souza e editados pela Kuarup, tem como nobre objetivo preencher uma dessas lacunas inevitáveis, e o faz de forma brilhante.

Um profissional como Tarik de Souza deveria dispensar apresentações prévias, mas como estamos no Brasil, vale falar um pouco dele. Trata-se de um jornalista especializado em música brasileira na ativa há quase 50 anos, com currículo recheado de passagens por órgãos de imprensa bacanas e autor de inúmeros livros que fazem parte das bibliotecas de quem se interessa por informações musicais consistentes e oferecidas com texto sempre impecável ao leitor.

De 2009 a 2014, Tarik apresentou no Canal Brasil o programa televisivo MPBambas, no qual trazia um grande nome da música brasileira por edição para entrevistas deliciosas. Como cada episódio comportava apenas 27 minutos de conteúdo, sobrou muita coisa boa, que ficaria apenas na memória de quem teve a honra de participar dos bate-papos. Mas Paulo Mendonça, um dos comandantes do Canal Brasil, sugeriu ao jornalista a edição em livro desse material, e graças à sua batalha, e à parceria com a Kuarup, gravadora que também enveredou pelo lançamento de livros, a ideia se tornou realidade.

Organizadas em dois volumes vendidos separadamente, as entrevistas foram divididas em 14 por exemplar, curiosamente como se fossem um disco de vinil. A abrangência dos entrevistados impressiona, pois focaliza desde monstros sagrados bem conhecidos do grande público, como Milton Nascimento, Gal Costa e Beth Carvalho, até craques musicais menos divulgados do que mereceriam, tipo Getúlio Côrtes, Billy Blanco, Sueli Costa e Doris Monteiro.

Cada entrevista é uma verdadeira viagem dentro do universo musical do personagem escolhido. Como as transcrições são integrais, elas nos possibilitam a oportunidade de conhecer características particulares de cada um deles. Tarik vem sempre com a lição de casa prontinha, e faz perguntas pertinentes e buscando esclarecer dúvidas sobre o trabalho de cada um deles, nada mais adequado para um formato do tipo enciclopédia musical brasileira audiovisual.

Quem não curte detalhes e minúcias deve ficar longe de MPBambas, os livros. Quem, no entanto, deseja descobrir muito sobre cada entrevistado, terá seu desejo saciado de forma generosa, além de deparar com fatos importantes e inusitados de cada um deles. Fofocas, boatos tolos e idiotices do gênero não entraram em cena, felizmente. Ao fim de cada leitura, você percebe que tomou contato com gente profunda, importante e que fez da arte suas vidas.

Os livros ganharam ainda mais importância pelo triste fato de que diversos dos entrevistados infelizmente partiram para o outro lado do mistério, tempos após terem concedido suas entrevistas ao programa de TV. Desta forma, viraram registros ainda mais fundamentais. Duvido que você encontre papos mais densos e registrados em livros com os hoje saudosos Dominguinhos, Paulo Vanzolini, Inezita Barroso, Billy Blanco e Ademilde Fonseca do que estes aqui.

Uma das grandes sacadas de Tarik foi uma entrevista com Chico Anysio sobre a sua rica faceta de compositor musical, que muita gente boa infelizmente desconhece. Ou de mostrar a cara de Getúlio Côrtes, autor de hits eternos como Negro Gato, O Gênio, Uma Palavra Amiga e tantos outros. MPBambas-Histórias e Memórias da Canção Brasileira Volumes 1 e 2 é para ler, reler e consultar, além de obrigatórios para estudantes e profissionais de jornalismo.

O Gênio/Pega Ladrão/ Negro Gato (ao vivo)- Getulio Côrtes:

Putos Brothers Band estreiam com um álbum visceral e cru

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Por Fabian Chacur

Aqui não há lugar para frescuras. Nada de elaboração excessiva, ou harmonizações bonitinhas, ou mesmo poesia lírica e impoluta. A opção da Putos Brothers Band foi cair de cabeça em um blues rock ardido, cru e repleto de papo reto, sem curvas nem nada do gênero, com direito a alguns palavrões aqui e ali. O resultado de sua estreia em CD, Tá Todo Mundo Puto Brother!, não poderia ser melhor, e transborda energia, personalidade e talento. Esse quarteto sabe das coisas!

Na estrada desde 2010, a Putos Brothers Band possui pedigree dos melhores, na figura de seu gaitista, Sylvio Passos. Sim, ele mesmo, fundador do Raul Rock Club e amigo pessoal do saudoso Maluco Beleza. O cara demorou a entrar no mundo das músicas autorais, pois há alguns anos integra a Raul Rock Club Band, especializada no repertório de Raulzito. Valeu a espera. E, não por acaso, os outros integrantes do time são dessa mesma banda.

Além de Sylvio, que de forma escrachada se classifica como o “Sid Vicious da gaita” (referindo-se ao péssimo baixista da fase final dos Sex Pistols), temos em campo (ou nos palcos) Agnaldo Araújo (vocal e guitarra), seu irmão Adriano Araújo (baixo) e André Lopes (bateria). Os quatro formam um grupo afiado, com os elementos fundamentais para uma banda de blues-rock dar certo: muita garra, talento e nenhum medo de errar, se o acerto geral for a meta.

O primeiro disco dos Putos Brothers Band ganha o ouvinte mesmo antes de começar a ser tocado. A apresentação visual do CD é simplesmente demais, com direito a capa desde já clássica, encarte com letras, informações e fotos bacanas e tudo o mais. Coisa de gente inteligente, consciente de que precisa oferecer algo mais ao público para justificar a aquisição do trabalho físico. Vá por mim: é melhor ter a versão em CD ou a em vinil, que sairá em breve.

Mas não adianta roupa bonita se o cara é feio, e aqui o som é na veia. Lógico que tem influências do autor de Ouro de Tolo, mas traz muito mais, como toques de Nasi & Os Irmãos do Blues, Barão Vermelho, Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix e vários outros, muitas e boas influências. As letras são sempre simples, mas muito bem sacadas, apostando na inteligência do público e mergulhando em ironia, poesia direta e protesto sem panfletarismo.

As dez faixas incluídas neste CD são bem legais, mas algumas merecem destaque adicional, como a contagiante Tá Todo Mundo Puto Brother, a deliciosa A Busca (com brilhante participação especial do guitarrista Israel Che Hendrix, da banda Gangster), a incisiva Ela Vem de Trem e a homenagem Um Blues Para Raul. Tá Todo Mundo Puto Brother é para se ouvir a toda altura, aumentando o alto astral geral. Mister Seixas teria orgulho do seu pupilo!

Tá Todo Mundo Puto Brother!(streaming, CD completo):

Duran Duran foi brilhante em seu show no Lollapalooza-BR

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Por Fabian Chacur

O problema de grandes festivais é que, por razões de tempo, nem sempre as melhores atrações recebem o tempo que mereceriam ter para desfilar sua categoria. Eis o que ocorreu no Lollapalooza 2017 na tarde deste domingo (26) em relação à incrível apresentação do Duran Duran, no Autódromo de Interlagos. Foram apenas 63 minutos. O bom é que ficou aquele enorme gosto de quero mais, presente em todos os grandes espetáculos.

Devidamente acomodado em minha cama, vi, exatamente às 16h38 deste domingo, o grupo britânico que caminha para 40 anos de estrada em plena forma entrar em cena. Pela TV, no canal Multishow. A abertura veio com Wild Boys, e serviu como uma boa prévia do que teríamos durante toda a apresentação. Hungry Like The Wolf e A View To a Kill pintaram logo a seguir, conquistando o público que estava lá tomando um sol daqueles, mas feliz da vida.

A atual encarnação do grupo britânico traz quatro de seus integrantes originais. Roger Taylor continua aquele baterista discreto, enquanto o tecladista Nick Rhodes, com suas roupas sempre coloridas e extravagantes, se incumbe dos teclados e das programações eletrônicas usadas pela banda com categoria. O baixista John Taylor permanece com sua ótima performance de palco, da qual nosso Paulo RPM Ricardo tirou várias lições.

E temos Simon Le Bon, que aos 58 anos continua em ótima forma e com um desempenho vocal extremamente competente, na qual uma ou outra nota na trave tem como compensação muito pique, carisma e energia. Além do quarteto original, quatro outros músicos estavam em cena, entre eles as ótimas backing vocalistas Ana Ross e Erin Stevenson e o vibrante guitarrista Dominic Brown.

Com esse time extremamente entrosado, o Duran Duran mostrou o porque, em pleno 2017, ainda continua sendo uma banda relevante e capaz de atrair não só os fãs dos anos 1980, mas também a molecada da era dos smartphones. Eles souberam se renovar com o decorrer dos anos, e mesmo as músicas mais antigas são tocadas com novos elementos e sem soarem como um mero ode ao passado.

O repertório de 13 músicas é uma prova disso, pois trouxe desde músicas de seu primeiro álbum, como Girls On Film (Duran Duran, de 1981), até duas de seu excelente álbum mais recente, Last Night In The City e Pressure Off (ambas de Paper Gods, lançado em 2015). No meio, faixas dos anos 1980, 1990 e 2000, como Notorious, Come Undone e (Reach Up For The) Sunrise.

Tivemos duas surpresas bacanas. Uma, o pot-pourry que reuniu as canções (Reach Up For The) Sunrise e New Moon On Monday (interpolada nesta primeira). A segunda ficou por conta da ótima participação especial da brasileira Céu, que, belíssima em um modelito preto, esbanjou talento e categoria em dueto com Le Bon na balada Ordinary World. O show acabou com Rio, que teve a coroá-la uma chuva de papel picado digna de fim de ano nos escritórios.

O momento “vergonha alheia” teve como protagonista a “repórter” Didi Wagner, do Multishow. Logo após do show, ela abordou o baixista John Taylor, chamando-o de Roger (o baterista). Como estava ainda na adrenalina pós-show, o músico a atendeu de forma simpática, embora ele confundisse a primeira vez que tocou em São Paulo (foi em 1988, e não em 1986). Após se despedir do músico, Wagner insistiu em dizer que havia falado com Roger…

Sei que errar é humano, mas fica difícil admitir uma falha deste tamanho de uma profissional que trabalhou durante “500 anos” na MTV, onde o Duran Duran aparecia toda a hora. Isso, além de seus comentários sempre superficiais e sem o menor conteúdo. Sei que serei grosseiro, mas irrita saber que esse tipo de “profissional” parece sempre ter emprego garantido nos melhores locais de trabalho, enquanto outros, muito mais talentosos…. De chorar!

Set list do show do Duran Duran:

Wild Boys
Hungry Like The Wolf
A View To a Kill
Last Night In The City
Come Undone
Notorious
Pressure Off
Ordinary World
(Reach Up For The)Sunrise + New Moon On Monday
White Lines
Girls On Film
Rio

A View To a Kill (live 2017)- Duran Duran:

Hyldon apresenta inspiração e boas canções em novo CD

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Por Fabian Chacur

Hyldon integra a santíssima trindade da soul music brasileira ao lado de Tim Maia e Cassiano, com quem, por sinal, trabalhou antes de assumir sua carreira-solo em tempo integral, lá pelos idos de 1975. Naquele ano, lançou o fantástico Na Rua Na Chuva Na Fazenda, um dos melhores álbuns de qualquer gênero musical já lançados por aqui. Mais de 40 anos depois, ei-lo esbanjando inspiração em seu 12º trabalho, o delicioso As Coisas Simples da Vida (Deck), comparável com aquela estreia incrível.

Nascido em 17 de abril de 1951 na Bahia e radicado no Rio desde os 7 anos de idade, Hyldon sabe como poucos compor aquele tipo de canção ao mesmo tempo swingada, intensa e envolvente, com letras bacanas falando de amor, natureza, família e outros temas com os quais todos podem se identificar. Com uma voz deliciosa e mais do que adequada ao estilo soul-funk-pop, ele sabe como fazer música acessível e com alto grau de sofisticação. Coisa de mestre.

Bastante ativo nos últimos anos e sem se mostrar disposto a descansar em cima dos preciosos louros do passado, Hyldon volta ao universo das canções inéditas após o elogiado Romances Urbanos (2013), no qual trouxe parcerias com Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Jorge Vercillo, Mano Brown e Dexter, entre outros. Neste, ele é o autor de todas as dez canções, sendo cinco sozinho e as outras cinco com parceiros como Alex Malheiros e Luiz Otávio.

A principal virtude de As Coisas Simples da Vida é a sua fluência e concisão. Não há aqui um único acorde, um único verso, uma única canção sobrando. Dá para se ouvir de ponta a ponta com o mesmo prazer. Além disso, não se mantém em um único andamento, indo do soul swingado ao mais romântico, com direito a bossa, funk de verdade e até rock. Os arranjos de metais são simplesmente impecáveis, e os vocais andam pela mesma estrada.

A faixa que dá nome ao álbum é tão boa como seus hits clássicos, aquelas maravilhosas As Dores do Mundo, Na Rua Na Chuva Na Fazenda (Casinha de Sapê) e Na Sombra de Uma Árvore. Tem uma levada soul swingada com cara de anos 70 e meio jazzística. Depois do Inverno traz a veia soul mais tradicional, enquanto Música Bonita, com direito a quatro vocalistas solo (Hyldon, Guinho Tavares, Arthur de Palla e Márcio Pombo), envolve com sua melodia, seu violão no centro e um refrão daqueles que nascem clássicos.

A ala mais agitada do repertório traz o funkão Um Trem Pra Bangu, a bossa-soul Sábado Passado, o funk a la Tim Maia Papai e Mamãe e o rock no melhor estilo Erasmo Carlos Todo Mundo é Dono da Rua. As baladas O Raio do Amor, Nosso Lar é Onde o Amor Morar e Não Molhe os Olhos completam o repertório de forma consistente e inspirada.

Em outros tempos, As Coisas Simples da Vida teria pelo menos umas três músicas estourando nas programações das rádios e venderia muito. Como isso não parece ser muito fácil de se concretizar atualmente, ao menos este álbum serve como prova de que Hyldon continua em plena forma aos 65 anos de idade, com a voz intacta e inspirado para nos oferecer novidades quentes. Ignore a indiferença da mídia e mergulhe neste trabalho de cabeça!

Obs.: o único ponto a ser lamentado neste CD é o fato de o encarte não trazer as ótimas letras das canções, o que ajudaria a tornar perfeita a ótima embalagem digipack e as fotos bacanas das gravações. O formato físico não pode prescindir desse tipo de informação, ainda mais se levarmos em conta a poesia e as belas mensagens das letras de Hyldon.

As Coisas Mais Simples da Vida– Hyldon:

Thadeu Romano dá um show de estilo em Da Reza à Festa

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Por Fabian Chacur

Thadeu Romano é um daqueles músicos com currículo de dar inveja. Entre outros, ele já atuou ao lado de nomes do alto gabarito de Bibi Ferreira, Antônio Nóbrega, Danilo Caymmi, Marina de La Riva, Roberta Miranda, Zizi Possi, Geraldo Azevedo, Fábio Jr., Dominguinhos e Fernanda Porto. A amostra dá uma dica do que surge em seu disco solo Da Reza à Festa: versatilidade, estilo próprio e muita categoria. Coisa de quem de fato sabe o que está fazendo.

Com coprodução musical a cargo do experiente e consagrado Swami Jr., que o incentivou a gravar este álbum, Thadeu Romano se cercou de ótimos músicos para realizar o que pretendia em termos musicais. Gente do porte de Toninho Ferragutti, François de Lima, Luiz Guello, Laércio de Freitas, Carlos Malta, Marcelo Modesto, Rodrigo Sater e Paulo Ribeiro. O time vestiu a camisa do trabalho, e se sai bem no acompanhamento, solos e texturas apresentadas.

As onze faixas contidas no CD provam que o título não está aí por acaso, pois os climas sonoros variam das batidas mais festeiras a alguns momentos reflexivos com ambiência espiritual e introspectiva. Ritmos como o forró, o chamamé, o samba, o tango e até mesmo uma eventual pitada roqueira geram uma sonoridade rica, boa de se ouvir e que nos leva a uma viagem deliciosa rumo a um mundo no qual a gente é obrigado a ser feliz. E feliz seremos!

Romano, que recentemente fez turnê de um mês pela Europa, nos oferece de bom grado as várias possibilidades de seu instrumento, além de se mostrar um ótimo compositor, com um fornada de temas instrumentais requintados e bons de se ouvir. Da Reza à Festa equivale a uma profissão de fé no instrumento divulgado por virtuoses como Sivuca, de quem, por sinal, o músico admite ter boas influências, especialmente nesse lado versátil e sem fronteiras.

Lua Cheia (ao vivo)- Thadeu Romano:

Gatos e Ratos traz Odair José com rock básico e tema irado

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Por Fabian Chacur

Odair José sempre incluiu boas doses de rock em seu trabalho, vide o incrível e injustiçado O Filho de José e Maria (1977). De uns tempos para cá, no entanto, esse gênero musical virou o eixo de sua criação, vide o excelente e muito elogiado Dia 16 (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Seu novo álbum, Gatos e Ratos, equivale a mais rock na fogueira. Rock do bom!

A concepção sonora do novo trabalho deste consagrado cantor, compositor e músico goiano aposta em uma sonoridade crua, com a presença de apenas três músicos: o próprio Odair (vocal e guitarra), o coprodutor (ao lado de Conrado Ruther) Júnior Freitas (guitarra, baixo, teclados e piano) e Caio Mancini (bateria e percussão). Muitos riffs e solos de guitarras ótimos, vocais bem entrosados e pequenas sutilezas aqui e ali, para dar um colorido e um toque de classe.

A temática das letras é baseada no inconformismo com a situação atual do mundo, no qual o ser humano não se respeita e não respeita a natureza, o próximo, o bem-estar, coisa alguma. Irado, o artista libera sua visão com letras fortes, simples em seu formato para que todos possam entender, mas sem cair na banalidade. Nada de tomar partidos ou de panfletarismo. O que ele defende é um respeito que parecemos ter perdido por tudo e por todos.

São dez músicas, com destaques para a ótima faixa-título, as ardidas Carne Crua e Cobrador de Impostos e a virulenta Segredos. Um momento particularmente inspirado é a ácida balada Livre, com guitarra slide a la George Harrison e letra na qual fica claro que nem sempre ser livre é o melhor para nós. Pelo menos, não no caso específico que ele aborda. Gatos e Ratos é papo reto bem tocado e bem cantado. Odair rules!

Gatos e Ratos- Odair José (CD em streaming):

Os Rolling Stones provam que óbvio também pode ser genial

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Por Fabian Chacur

Nada mais óbvio para uma banda que tirou o seu nome de um clássico do blues (Rollin’ Stone, do genial Muddy Waters) do que gravar um álbum totalmente dedicado a esse gênero musical, não é mesmo? Pois essa obra demorou 54 anos para se concretizar. E quer saber? Valeu, e como, a espera. Blue & Lonesome, novo álbum da banda de Mick Jagger, prova de que às vezes o óbvio também pode ser genial e instigante.

O blues faz parte desde sempre do repertório desta seminal banda inglesa. Não faltam exemplos de standards blueseiros relidos com categoria por eles, como I Just Want To Make Love To You, Little Red Rooster e Love in Vain, só para citar três. Isso, sem contar as composições próprias que se valeram de elementos desse gênero fundamental para o surgimento de jazz, rock and roll e tantas outras sonzeiras de primeiríssima linha.

Das várias possibilidades de se realizar um trabalho desse porte, os Stones optaram pela mais adequada a eles. Ou seja, selecionaram um repertório maravilhoso, que soará inédito para a maioria dos fãs por se tratar de canções tiradas do fundo do baú, coisa de conhecedores, mesmo, e as gravaram sem frescuras, de forma crua e direta. Além dos quatro integrantes oficiais da banda, apenas seus três músicos de apoio em shows e a participação de Eric Clapton em duas faixas. As 12 músicas foram registradas em apenas três dias.

O resultado é o que se poderia se esperar de uma empreitada como essa. Totalmente à vontade, Jagger, Richard e sua turma esmerilham, soltando a alma e exalando prazer em maravilhas do porte de Ride ‘Em Down, Hate To See You Go, Just Your Fool, I Gotta Go e Just Like I Treat You, de autores como Little Walter, Willie Dixon e Jimmy Reed. Só uma é mais conhecida. Trata-se de I Can’t Quit You Baby, que muitos conheceram na ótima versão do Led Zeppelin.

Eric Clapton exibe a competência habitual na seara do blues nas ótimas I Can’t Quit You Baby e Everybody Knows About My Good Thing. Se não bastasse a qualidade musical, Blue & Lonesome aparece em belíssima embalagem digipack, com direito a capa tripla e encarte repleto de informações sobre as músicas e as sessões de gravações. Se por alguma razão este álbum se tornar o último dos Rolling Stones, nenhuma despedida poderia ser mais brilhante e elogiável do que esta. Mas se vier um volume 2, será mais do que bem-vindo!

Ride ‘Em On Down- The Rolling Stones:

Sambalanço é dissecado com categoria por Tarik de Souza

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Por Fabian Chacur

A riqueza da música popular brasileira é tanta que algumas de suas vertentes acabam ficando em segundo plano, no que se refere ao estudo e à divulgação para o grande público. Uma que permaneceu durante muito tempo na penumbra foi o chamado sambalanço, roupagem swingada e repleta de molho que surgiu na mesma época da bossa nova, nos anos 1950 e 1960. O livro Sambalanço, a Bossa Que Dança- Um Mosaico, de Tarik de Souza e lançado pela Kuarup, chega com a missão de preencher essa lacuna, e cumpre sua missão com brilhantismo e riqueza de detalhes.

Não é de se estranhar a qualidade deste livro. Tarik de Souza é um dos melhores e mais gabaritados jornalistas, críticos e pesquisadores musicais do país, com diversos livros no currículo e também atuação em jornais, revistas, sites e programas de TV. Foram longos anos de pesquisas, durante os quais resgatou um estilo musical que curtia desde a sua infância e adolescência e que correu à margem do prestígio de outras vertentes musicais brazucas.

No livro, Tarik mostra o quanto o sambalanço foi colocado em segundo plano devido ao fato de investir em uma sonoridade mais dançante e descontraída, em contraponto à maior seriedade da “concorrente” bossa nova. Mesmo assim, teve forte aceitação por parte do público na época, gerando ídolos como Miltinho, Orlandivo, Ed Lincoln, Elza Soares, Silvio Cesar, Dóris Monteiro e tantos outros, além de ser a trilha sonora preferencial para bailes pelos quatro cantos do país.

Em comportamento que vem se transformando em padrão em nossa história recente, o sambalanço saiu de cena em meados dos anos 1970 e só foi resgatado graças ao interesse de pesquisadores e fãs de outros países, notadamente da Inglaterra e de outros países europeus e asiáticos. E também a artistas brasileiros das novas gerações, entre os quais Marco Mattoli, Amanda Bravo e Clara Moreno, além de pesquisadores como o próprio Tarik, Charles Gavin e outros.

A obra nos oferece um ensaio geral sobre o movimento, uma discografia básica (que poderia ter sido mais detalhada), 15 deliciosas entrevistas com grandes nomes do estilo, como Elza Soares, Orlandivo, Durval Ferreira, Dóris Monteiro e Silvio Cesar, e 13 perfis de outros artistas fundamentais para o sambalanço, tipo Walter Wanderley, Nilo Sérgio, Luiz Bandeira e Miltinho.

Com riqueza de detalhes e muita, mas muita informação mesmo, Sambalanço, a Bossa Que Dança- Um Mosaico pode ser uma obra difícil de ser assimilada pelo leitor menos afeito ao mundo musical, mas é essencial para quem é iniciado nesse universo e quer completar a sua formação, além de ser uma incrível fonte de consultas sobre o sambalanço e suas estrelas, especialmente sobre o curioso e peculiar Orlandivo, uma figura carimbada da nossa música.

Bolinha de Sabão– Orlandivo:

Vânia Bastos e Marcos Paiva homenageiam Pixinguinha

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Por Fabian Chacur

Já vão longe os tempos em que me preocupava em resenhar um CD, DVD, Blu-ray ou coisa que o valha de forma rápida, tentando ser o primeiro crítico a publicar algo sobre determinado lançamento. Pouco me importa. O que realmente vale a pena é tentar fazer isso bem, seja quando for. E esse é precisamente o caso deste Concerto Para Pixinguinha, de Vânia Bastos e Marcos Paiva, que já ganhou inúmeros elogios na imprensa, e só chega a Mondo Pop agora.

Antes tarde do que nunca? Eu preferiria dizer “antes bem-feito do que nunca”. E chega de metalinguagem. Vamos ao que interessa, que é este CD, o primeiro lançamento de um novo selo, o Conexão Musical, criado pelo experiente produtor musical Fran Carlo, um cara que só mete a mão onde existe talento. A escolha para a abertura desse novo espaço para a nossa música não poderia ter sido mais feliz, e lógica, vide o envolvimento dele com Vânia nesses anos todos.

Desde que iniciou a sua carreira solo, na década de 1980, Vânia Bastos tem se pautado por uma trajetória na qual não abre mão de seus princípios em prol de eventuais resultados comerciais mais significativos. Nunca foi uma grande vendedora de discos, mas consolidou uma carreira brilhante em torno de belas escolhas de repertório, bom gosto ao escolher os músicos com os quais faz shows e grava e a utilização sempre cirúrgica de sua bela e suave voz.

Em sua discografia, temos alguns trabalhos dedicados a temas específicos como as obras de Tom Jobim e Caetano Veloso e da turma do Clube da Esquina. Desta vez, ela resolveu se debruçar sobre o songbook de um dos grandes ícones da música brasileira, o compositor, orquestrador, arranjador, flautista e saxofonista Pixinguinha (1897-1973), que se só tivesse assinado a maravilhosa Carinhoso já mereceria ser lembrado para sempre.

Ele, no entanto, nos deixou uma herança repleta de maravilhas do porte de Rosa, Isso é que é Viver, Lamentos e tantas outras, escritas com parceiros como Braguinha e Vinícius de Moraes. Integrou o lendário grupo Oito Batutas, o primeiro combo regional brasileiro a excursionar pela Europa, isso nos anos 1920. Ele também trabalhou com música para cinema e teatro e assinou arranjos para Carmen Miranda, por exemplo.

Para realizar essa homenagem, a cantora se uniu ao baixista, compositor e arranjador Marcos Paiva, que desenvolve um trabalho próprio na música instrumental e também já atuou com feras do porte de Bibi Ferreira, Zizi Possi, Teresa Salgueiro e Fernando Ferrer. Ele lidera o Marcos Paiva Quarteto, composto por César Roversi (sax, clarinete e flauta), Jônatas Sansão (bateria), Nelton Essi (vibrafone) e ele próprio no contrabaixo acústico, arranjos e direção musical.

A sonoridade apresentada em Concerto Para Pixinguinha é quase camerística, esbanjando delicadeza, bom gosto e o inteligente aproveitamento de cada integrante do time, Vânia obviamente incluída. Aliás, os diálogos entre voz e os instrumentos podem ser citados como alguns dos pontos altos do álbum, assim como o entrosamento da equipe, desenvolvido durante os inúmeros shows que fizeram previamente com este material, antes da ida ao estúdio para registra-lo.

A sequência das faixas flui de forma deliciosa, não comportando uma audição incidental, do tipo pano de fundo. É preciso sentar e se concentrar, pois se trata de música feita para envolver o ouvinte, de forma classuda e sem arestas. Uma boa sacada foi a inclusão de quatro temas instrumentais (Seu Lourenço no Vinho, Cochichando, Displicente e Recordações) intercalados entre nove faixas com vocais, representando o lado instrumental da criação de Pixinguinha. Prova da generosidade de Vânia, abrindo espaços para seus colegas brilharem. E ela brilha muito, também, em Rosa, Carinhoso, Isso é que é Viver e especialmente em Urubu Malandro, que encerra o disco com força total.

Concerto Para Pixinguinha é aquele tipo de lançamento feito para durar, e que serve como boa prova de que o formato álbum nunca irá se extinguir. Pelo menos, não enquanto existirem artistas como Vânia Bastos e Marcos Paiva, dispostos a oferecer ao público um produto de altíssima qualidade como este aqui, e a selos como o Conexão Musical, viabilizando essa tarefa e caprichando em embalagem e produção.

Carinhoso (ao vivo)- Vânia Bastos e Marcos Paiva:

Box traz versões remaster de três trabalhos de Belchior

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Por Fabian Chacur

Lamentável que, de 2006 para cá, o nome de Belchior só entre em cena na imprensa devido a situações estranhas e difíceis de serem analisadas. Portanto, nada melhor do que ter a oportunidade de analisar um novo lançamento da gravadora Universal Music envolvendo este incrível cantor, compositor e músico cearense. Trata-se do box Três Tons de Belchior, que faz o necessário resgate de três álbuns do artista em versões remaster. Vamos só falar de música, por aqui. Beleza!

Os títulos selecionados são os três gravados em estúdio por Belchior e pertencentes ao catálogo da antiga Polygram. Os discos surgem com encartes caprichados que reproduzem o conteúdo gráfico original e também acrescentam versões com corpo maior de letras e fichas técnicas, permitindo melhor leitura. De quebra, ainda um encarte adicional trazendo textos informativos sobre cada lançamento a cargo de Renato Vieira, também curador do projeto. Trabalho muito decente.

Alucinação (1976) abre o pacote de forma brilhante. Trata-se do melhor álbum da carreira do artista, e aquele que o tornou conhecido nacionalmente, após quase dez anos de trajetória durante a qual lançou um LP de vendas esparsas em 1974, participou de festivais universitários (venceu um deles em 1971 com Na Hora do Almoço), atuou ao lado de amigos como Fagner e Ednardo e viu sua composição Mucuripe ser gravada por Elis Regina.

É o chamado “disco certo na hora certa”. As três primeiras faixas são provavelmente as mais conhecidas de seu rico repertório: Apenas Um Rapaz Latino-Americano, Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, as duas últimas também gravadas pela Pimentinha. Difícil um início melhor, e as outras sete canções contidas no CD não deixam a peteca ir ao chão. Com produção de Mazola e a participação de músicos brilhantes como José Roberto Bertrami, é uma verdadeira delícia auditiva.

Em uma mais do que feliz mistura de rock, folk e música nordestina, Belchior nos oferece belas canções e uma poesia afiada, desafiadora, que toca em temas importantes como juventude, liberdade, amor, sonhos e frustrações, sempre com lirismo, inteligência e uma fina ironia típica de sua escrita. Alucinação, A Palo Seco, Como o Diabo Gosta e Não Leve Flores são outras maravilhas deste trabalho que soa mais atual do que nunca, 40 anos após seu lançamento.

Salto para 1987, quando Bel voltou para a Polygram. Durante esses onze anos, ele lançou discos de sucesso pela Warner e a partir de 1981 entrou em fase de sensível redução de exposição na mídia e nas paradas de sucesso. Melodrama chegou às lojas com a missão de reverter esse panorama, e nessa sua primeira versão no formato digital, é fácil entender o porque não conseguiu atingir esse sonhado objetivo.

Como forma de tentar ampliar seu universo de fãs, Belchior nos apresenta aqui tentativas de flertar com as sonoridades eletrônicas e tropicais que estavam na moda, naqueles tempos. A fraca Bucaneira, por exemplo, conta com arranjos e guitarra de Luiz Caldas, naquele momento estourado com músicas como Fricote e Haja Amor. De Primeira Grandeza ganhou um arranjo bolero meio brega que também constrange. Os Derradeiros Moicanos, parceria com Moraes Moreira e com participação do artista baiano, é outra bola fora.

Sorte que, em meio a essas tentativas malsucedidas de dar contornos mais vendáveis ao som do artista, Belchior nos oferece alguns momentos dignos do seu imenso talento, como a releitura de Todo Sujo de Batom, dos anos 1970, e as deliciosas Em Resposta a Carta de Fã, Jornal Blues e Tocando Por Música, esta última com letra sarcástica até a medula, quem sabe avacalhando com as intenções deste trabalho.

Irregular em termos artísticos, Melodrama não vendeu lá essas coisas, e possivelmente isso levou a Polygram a não botar muita fé no próximo lançamento do artista pela companhia. Foi um erro daqueles. Elogio da Loucura (1988) de certa forma prossegue no espírito do disco anterior, só que desta vez nos apresentando um conteúdo muito mais consistente e inspirado. Amor de Perdição, por exemplo, é aquele tipo de balada grudenta que poderia ter impulsionado as vendas deste trabalho.

O reggae pop de Os Profissionais, com teclados à frente, é outra com características mais comerciais que passou longe das paradas de sucesso, mesmo com todo o seu potencial. Mas o melhor do álbum fica mesmo por conta das músicas que nos mostram a melhor faceta de Belchior, ou seja, quando ele molda seus versos precisos com rock, folk, country e pop. Aí, é o chamado jogo ganho, como diriam os antigos.

Balada de Madame Frigidaire, por exemplo, é um banho de simplicidade, envolvendo com sua letra deliciosa. Pelo menos duas faixas podem ser comparadas a seus clássicos dos anos 1970: o incrível rock and roll Lira dos Vinte Anos e a certeira folk-rock Arte-Final. No geral, Elogio da Loucura é um dos melhores trabalhos da carreira de Belchior, e passou criminosamente batido, só agora chegando ao formato CD.

Outro ponto a ser destacado em Elogio… é o fato de, nas melhores faixas, Bel ser acompanhado pela banda com a qual fazia seus ótimos shows naquela época, que trazia entre outros os excelentes músicos Sérgio Zurawsky (guitarra), Meciê Parron (bateria) e João Mourão (baixo e arranjos). Um time afiado que vestia com garra e talento a camisa do artista com o qual atuavam.

Vale lembrar que, após Elogio da Loucura, Belchior só lançaria mais um disco concentrado em repertório inédito, Baihuno (1993), dedicando-se depois a releituras de suas canções e também de canções alheias em discos ao vivo, ao vivo em estúdio ou em estúdio mesmo.

Há mais de 15 anos não temos um novo trabalho dele, seja de que tipo for. Portanto, nada mais essencial do que esta caixa para seus fãs. E vale a lembrança: por irregular que seja, Melodrama é melhor do que 90% da produção atual da música brasileira, o que não é pouco. E os outros dois são clássicos com cê maiúsculo!

Elogio da Loucura– Belchior (ouça em streaming):

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