Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

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The Who não morreu e chega à maturidade com categoria

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Por Fabian Chacur

Ah, a juventude. Nela, dizemos coisas que nem sempre são realmente sinceras. Em 1965, Pete Townshend afirmou, na letra de seu hit My Generation: “hope I die before I get old” (espero morrer antes de ficar velho). Que bom esse “desejo” não ter se concretizado. Dessa forma, enfim os brasileiros puderam ver o seu grupo, o The Who, mais de 50 anos após o seu surgimento. E valeu a pena aguardar tanto. Que maturidade e que categoria!

Em São Paulo, na noite desta quinta-feira (21), o público presente ao Allianz Parque estava lá para ver o The Who. Antes, tivemos a eficiência insossa do hard rock grungeado do Alter Bridge e a vibração e pegada do hard gótico do The Cult. Este segundo agradou bastante, com hits como She Sells Sanctuary, Love Removal Machine, Phoenix, Sweet Soul Sister e Wild Flower. Fizeram um show compacto e ótimo. Mas eles já nos visitaram algumas vezes. A novidade era outra.

E pontualmente às 21h30, com I Can’t Explain (exatamente o primeiro single da carreira da banda, de 1965), enfim Roger Daltrey e Pete Townshend pisaram em um palco brasileiro. Infelizmente, Keith Moon e John Entwistle já não se encontram mais entre nós, mas seus ex-colegas sabem como carregar um legado tão poderoso como o desta banda britânica, acompanhados por um timaço que traz Simon Townshend (irmão de Pete) e Zack Starkey.

Zack, filho de Ringo Starr, é uma das explicações pela qual a atual encarnação do The Who está tão empolgante. Ele conseguiu pegar a essência do estilo do inimitável dínamo Keith Moon, e com a energia de quem tem 20 anos a menos do que seus dois patrões, equivale ao motorzinho do time, energizando os colegas e não deixando a peteca ir ao chão em momento algum.

O show deu um mergulho na história da banda de 1965 a 1982. A amostra dessa obra tão consistente é um ode ao talento de Townshend como compositor. Versátil, o cara começou com rocks ágeis e simples, precursores do que depois recebeu o rótulo de power pop.

Depois, mergulhou na psicodelia, ajudou a formatar as óperas-rock, flertou com o rock progressivo e o hard rock, inspirou o punk rock, escreveu baladas maravilhosas, e investiu em versos que vão do amor à filosofia, com direito ao atualíssimo protesto de Won’t Get Fooled again, por exemplo. Rock eletrônico, new wave, essa mistura é original e única.

Townshend é um compositor que usa a guitarra a favor das canções. Seu estilo de tocar é sem frescuras nem exibicionismos fúteis, embora capaz de empolgar com seus power chords ou solos envolventes. De quebra, ainda canta, e muito bem, por sinal, embora a concorrência na banda seja bastante desleal

Por outro lado, reafirmo pela milésima vez: Roger Daltrey é um dos vocalistas mais subestimados da história do rock. Dificilmente é citado entre os melhores. Uma baita injustiça. A capacidade que esse cara tem de emocionar os fãs com sua bela voz é algo de impressionar. E também sem exibicionismos ou tecnicismos bestas. A voz também a favor das canções. Coisa linda!

Em Sampa City, foram aproximadamente duas horas de rock and roll que simplesmente deixaram o público presente ao Allianz Parque de queixo caído. Sim, com seus celulares o tempo todo filmando e tirando fotos, costume às vezes irritante. Mas gostando e urrando, em especial durante as músicas mais conhecidas da maioria, como Who Are You, Baba O’Riley, Won’t Get Fooled Again, Pinball Wizard e See Me Feel Me.

O show deste sábado (23), no Rock in Rio, teve de ser reduzido em mais de 20 minutos devido ao fato de, horror dos horrores, esse time histórico e clássico ter sido escalado para ficar encaixotado entre o roquinho insosso do Sucubus e a milésima apresentação do Guns N’ Roses no Brasil. Mesmo assim, e diante de uma plateia que estava lá para ver Axl, Slash e sua turma, deram conta do recado com a categoria de quem soube envelhecer com honra. Baita show! Mas Medina e sua turma não deram a chance de nem um bis para o grupo. Vergonha!

Quem por ventura perdeu, que dê uma de Kleiton & Kledir: vá para Porto Alegre e tchau. Pete Townshend e sua trupe do bem tocam na cidade nesta terça (26). E quem perder, provavelmente vai ficar chupando o dedo, pois pelo teor do papo do guitarrista em entrevista ao Multishow logo após a sua excelente performance, a ideia dele é tirar um período sabático e cuidar de carreira solo. Mas mesmo que seja o fim, que fim para uma incrível jornada!

Setlist do show de São Paulo:
Início: 21h30

I Can’t Explain
The Seeker
Who Are You
The Kids Are Alright
I Can See For Miles
My Generation (com trechos de Cry If You Want)
Bargain
Behind Blue Eyes
Join Together
You Better You Bet
I’m One
The Rock
Love Reign O’er Me
Eminence Front
Amazing Journey
Sparks
Pinball Wizard
See Me, Feel Me
Baba O’Riley
Won’t Get Fooled Again

bis

5:15
Substitute final: 23h30 (aproximado)

Set List Rock In Rio

Início: 22h41

I Can’t Explain
Substitute
The Kids Are Alright
I Can See For Miles
My Generation (com trechos de Cry If You Want)
Bargain
Behind Blue Eyes
Join Together
You Better You Bet
I’m One
5:15
Love Reign O’er Me
Amazing Journey
Sparks
Pinball Wizard
See Me Feel Me
Baba O’Riley
Won’t Get Fooled Again
final: 00h17

Baba O’Riley (ao vivo-SP)- The Who:

Efeito Borboleta, bela viagem rocker de Rodrigo e Fernando

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Por Fabian Chacur

Quando entrou no Barão Vermelho, em 1992, Rodrigo Santos não só tornou-se membro do primeiro time do rock brasileiro como também ganhou um novo parceiro musical, o guitarrista Fernando Magalhães. Depois de 25 anos, essa amizade não só se consolidou como agora rende um primeiro trabalho em dupla. E que trabalho! Efeito Borboleta (lançado pela Coqueiro Verde) equivale a uma bela viagem rocker.

A ideia dos dois amigos é que este CD seja o primeiro de uma trilogia. Neste volume inicial, temos 15 músicas assinadas por eles. Rodrigo se incumbe de vocais (todos), baixo e violões, enquanto Fernando é o cara das guitarras e violões. Completam o time o tecladista Humberto Barros, que tocou com Rodrigo no Kid Abelha, e o baterista Lucas Frainer, do grupo Rodrigo Santos & Os Lenhadores.

A dobradinha Santos/Magalhães gerou uma fornada de canções roqueiras com várias nuances, sem cair na mesmice. O início não poderia ser melhor, com a virulenta faixa-título, cuja letra detona a situação caótica do mundo e os riscos que corremos de um fim apocalíptico.

A faixa-final, o impactante hard rock A Magnitude da Nossa Insignificância, é uma espécie de complemento da de abertura, trazendo versos ácidos sobre o quanto o ser humano é insignificante perante tudo o que o cerca, embora sempre se ache a última bolacha do pacote.

Entre uma e outra, o ouvinte poderá se divertir com um repertório que investe em rocks certeiros com vocação pop como Navegar, Juntos de Novo e A Vida Bela, a balada com slide guitar inspiradíssima Sem Deixar Pegadas, a ótima stoneana Uma Pequena Lágrima (espécie de Beast Of Burden da dupla), e a belíssima balada folk acústica O Meu Juízo.

Mano é uma bela blues ballad homenageando o saudoso percussionista Peninha, parceiro dos dois no Barãm Vermelho. Sorte é um rock melódico com cara de hit, assim como a incrível Coragem. As duas mereciam entrar imediatamente nas programações das rádios roqueiras deste país, se é que ainda existe alguma. Na pior das hipóteses, nos podcasts dedicados ao rock nacional.

Em outro momento político do repertório (sem cair no panfletário, por sinal), O Fóssil Brasileiro mistura punk e hard rock com versos incisivos como “e se o chão é duro, traiçoeiro, é mais heroico pra partir, do que o espinhoso travesseiro dos assassinos do país”. Por sinal, as letras são sempre muito bem concatenadas, independente do tema desenvolvido- amor, relacionamentos, filosofia de vida, política…

Versátil e com um currículo do tamanho de uma lista telefônica, Rodrigo Santos mostra que aprendeu e muito com todas essas experiências. Ele canta cada vez melhor, com personalidade e estilo, mostrando que sabe tanto ser sideman como frontman, sempre com a mesma categoria. Por sua vez, Fernando Magalhães joga para o time o tempo todo, sem querer ser mais do que as canções, que mandam neste álbum.

O que não significa que, em momentos como 12 Anos de Espera, Sem Deixar Pegadas e A Magnitude da Nossa Insignificância Magalhães não assuma o protagonismo com fúria, técnica e emoção. Como já sabíamos nesses seus tantos anos de Barão Vermelho, é um baita músico. E nas composições, a dupla esbanja inspiração, concisão e talento, manuseando as regras e elementos do rock and roll com uma desenvoltura destinada apenas aos craques.

Se esse é apenas o início de uma trilogia, fica a torcida para que os outros volumes venham logo, pois esta dupla dá provas inequívocas de que estão bem errados aqueles que afirmam ser o rock um gênero morto e com farofa na boca. Provavelmente, são os caras que afirmam uma asneira dessas que se encontram em tal situação. O saudoso mestre Zeca Neves amaria este álbum!

Efeito Borboleta- Rodrigo Santos e Fernando Magalhães (ouça em streaming):

Ayrton Mugnaini Jr. nesse seu mundo peculiar e fascinante

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Por Fabian Chacur

Dificilmente alguém que por ventura conheça Ayrton Mugnaini Jr. o esquecerá. Este jornalista, pesquisador, tradutor juramentado e também cantor, compositor e multi-instrumentista paulistano é daquelas figuras absolutamente ímpares. Aos 60 anos, que completa nesta quinta-feira (30), ele lançou um novo CD, intitulado Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, equivalente sonoro a uma viagem de montanha russa, de tantas alternativas e possibilidades que oferece ao ouvinte. Viagem das boas, para quem tem bom humor e curte música inventiva.

Nascido em São Paulo, mas criado nas cidades de Lins e especialmente Sorocaba até o fim dos anos 1970, Ayrton como jornalista especializado em música (e agora, também em temas circenses) é daqueles sujeitos que mergulha fundo nos detalhes, nas histórias obscuras e no que de fato importa. Com um texto simplesmente impecável, ele se notabilizou como crítico e também como autor de inúmeros livros, daqueles que você lê de cabo a rabo, sem parar. Enciclopédia ambulante!

Paralelamente, desenvolveu uma carreira musical bastante significativa, integrando os grupos Língua e Trapo e Magazine, com os quais gravou discos, fez shows e, provavelmente sua veia mais significativa, teve várias músicas gravadas pelos mesmos. Não tenho a menor dúvida de que as melhores gravações de músicas dele estão exatamente em vários discos do grupo do incrível Laert Sarrumor e também no instigante CD Na Honestidade, do Magazine do saudoso Kid Vinil.

E tem também a sua trajetória solo, iniciada em 1984 ainda nos tempos das fitas cassete (que estão voltando, vejam só) com a antológica Brega’s Banquet. Até 2000, lançaria mais 15 dessas, além de um LP de vinil (A Arte de Ayrton Mugnaini Jr., em 1992) e 9 CDs. Se por ventura você não teve a oportunidade de ouvir algum, alguns ou mesmo todos esses itens, saiba que Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá! equivale a uma bela e generosa amostra, com o típico DNA mugnaínico.

Em seus 72m30 de duração, o CD traz nada menos do que 30 faixas, o que torna a comparação com o Álbum Branco dos Beatles inevitável, embora isso não o agrade. O autor separa as canções em faixas que falam sobre a própria música em si, em um interessante exercício de metalinguagem, e outras que versam sobre os mais diversos temas. Os caminhos musicais seguidos por ele são os mais diversos, com direito a várias vertentes de rock, outras tantas de música brasileira e até mesmo tango. E acredite: tem ainda mais nessa mistura.

Mugnaini é um tipo peculiar de perfeccionista, pois se por um lado mostra muito capricho nos detalhes e na qualidade de seu trabalho, por outro prima pelas “sujeiras” de uma virada de bateria meio atrapalhada aqui, um timbre de guitarra meio esquisito ali etc, denotando uma preferência pela espontaneidade em detrimento exatamente do perfeccionismo. Contradições de um ser humano e de um criador que, dessa forma, apresenta uma originalidade ímpar.

Mesmo sem ser um bom cantor, ele sabe como transmitir suas ideias com muita eficiência, e melhorou bastante a dicção, um problema sério de seus anos iniciais. Além de se desdobrar entre vários instrumentos, Mug também se vale da ajuda de vários amigos musicais que cultivou nesses anos todos. Algo natural para ele, um dos caras mais generosos e gregários que já conheci nesse nem sempre muito simpático mundo da música, seja o dos músicos como o dos jornalistas especializados etc.

Além de músicas próprias, ele também traz a releitura de A Palo Seco (de Belchior, que ele releu antes do triste fim do grande astro cearense). Não faltam momentos empolgantes, como o rock escrachado Foi Pra Isso Que Eu Fiz Cinquenta, o desabafo Quero Viver Só de Shows, a incrível Foguete Prateado, a deliciosa The Beet Song (quem mais comporia uma música em homenagem à…beterraba?), o divertido samba Cadê o Doce?, a fofa Naruto e a delicada Quem No Ar Se Encosta Cai.

A incrível diversidade de Mugnaini Jr. como compositor é a principal marca deste álbum. Aliás, esse cara deveria ser muito mais procurado por intérpretes e grupos interessados em aumentar a qualidade de seus repertórios, pois ele oferece itens capazes de entrar nos álbuns/shows de rigorosamente qualquer tipo de artista, seja de que praia musical ele for. Agora, não dá para negar que é uma delícia ter a oportunidade de ouvir essas ótimas músicas tocadas e na voz de quem as criou.

Aos interessados em adquirir Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, Ayrton Mugnaini Jr. pode ser encontrado no Facebook e também através do e-mail mugayr@hotmail.com .

Cadê o Doce? (ao vivo)- Ayrton Mugnaini Jr:

Tony Babalu reafirma amor à música em seu novo trabalho

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Por Fabian Chacur

Os músicos sempre correm um grande risco quando possuem muito talento: achar que são mais importantes do que a própria música que tocam/criam. Quando isso ocorre, a autoindulgência os leva a se tornarem um pálida cópia do que eventualmente já foram anteriormente. Por isso, é muito bom quando podemos presenciar um grande músico não caindo nessa armadilha. É o caso de Tony Babalu, que brilha em seu novo álbum, Sessions II, lançamento da Amelis Records com distribuição da Tratore.

Babalu está na estrada desde os anos 1970, tendo trabalhado com o Made In Brazil e outros nomes bacanas do rock brasileiro, tocando e produzindo. Sua carreira solo, totalmente dedicada à música instrumental, o firmou como um dos melhores guitarristas brasileiros, menos popular do que merece mas certamente referência entre os colegas. Aquilo que alguns chamam de “músico dos músicos”. Só que, neste caso, um cara que pode ser ouvido por todos, bastando que a pessoa tenha bom gosto e abertura para sons mais sofisticados.

Sim, sofisticado, mas não necessariamente intrincado, complicado ou, usando um termo mais chulo, “chato”, como alguns mais superficiais rotulam alguns expoentes da música instrumental. Babalu demonstra muita perícia e técnica em cada acorde e/ou solo que toca, mas sem jogar conversa fora. Ele obviamente toca para seu prazer, mas também claramente para cativar seus ouvintes, e duvido que alguém o ouça e não tire essas mesmas conclusões.

Live Sessions II é o mais do que digno sucessor do ótimo Live Sessions At Mosh (2014- leia a resenha de Mondo Pop aqui). O conceito é o mesmo, com gravação ao vivo feita de forma analógica. Estão no seu time Adriano Augusto (teclados), Leandro Gusman (baixo) e Percio Sapia (bateria), músicos talentosos que mostram ótimo entrosamento.

São seis faixas. O álbum abre com Locomotiva, rock ágil e sacudido. Meio-Fio vem a seguir, marcada por belas variações de climas. Valentina é uma espécie de balada com temperinho blues que cativa por seu lirismo. Veia Latina tem aquele tempero Carlos Santana sem cair na mera cópia. O jazz fusion marca presença na intrincada e deliciosa Encrenca, enquanto In Black encerra o CD com uma levada funk cuja guitarra rítmica tem um quê do genial Nile Rodgers, do grupo Chic.

O bacana de Tony Babalu enquanto band leader é a forma como ele se integra aos músicos que o acompanham, sempre abrindo espaços para que cada um deles também tenha seus espaços para solar e dessa forma se destacar. Sessions II é uma verdadeira profissão de fé desse grande instrumentista em relação à sua musa eterna, a música, colocando-a no pedestal e a cultuando com o devido carinho e inspiração.

Encrenca (ao vivo)- Tony Babalu:

In Black (ao vivo)- Tony Babalu:

David Crosby, ou a inquietude de um grande gênio do rock

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Por Fabian Chacur

David Crosby equivale a um grande mistério. Aos 76 anos, completados no dia 14 de agosto, este cantor, compositor e músico americano se mostra mais atuante do que nunca. Menos de um ano após lançar o incrível Lighthouse, ele se prepara para nos oferecer outro lançamento, previsto para sair no exterior no dia 29 de setembro. O título é Sky Trails, que já tem uma faixa circulando na rede, a envolvente She’s Got To Be Somewhere.

Ao contrário do essencialmente acústico trabalho anterior, sobre o qual falaremos mais no decorrer desta matéria, Sky Trails é um álbum de banda, no qual Crosby tem a seu lado, entre outros músicos, os ex-parceiros de CPR, o filho James Raymond (teclados) e Jeff Pevar (guitarra). A sonoridade traz influências de jazz fusion, soul e rock. A faixa Before Tomorrow Falls On Love é uma parceria do roqueiro com Michael McDonald, ex-Doobie Brothers.

Quatro músicas são parceria de Crosby e Raymond, filho temporão que o roqueiro deu para adoção no inicio dos anos 1960 e só redescobriu nos anos 1990. Uma única faixa não é autoral. Trata-se de Amelia, de Joni Mitchell, cuja versão original foi registrada pela estrela canadense em 1976 no álbum Hejira. A expectativa em torno deste álbum é grande.

A carreira de David Van Cortland Crosby equivale a uma inacreditável viagem, repleta de surpresas. Ele passou seus anos de formação nos Byrds, banda na qual ele era um coadjuvante de luxo para o líder Roger McGuinn (vocal, composições e guitarra) e também para Gene Clark (vocal). Com o tempo, percebeu que não conseguiria ter no grupo o espaço suficiente para dar vasão a seu talento, e no processo acabou sendo expulso do time, no final de 1967.

A partir daí, ele abriu as portas da sua carreira para novas experiências. Conheceu Stephen Stills (ex-Buffalo Springfield) e Graham Nash (ex-The Hollies) e criou o Crosby, Stills & Nash, grupo seminal para a história do rock no qual as individualidades eram respeitadas, e que volta e meia virava Crosby, Stills, Nash & Young com a eventual participação de Neil Young (também ex-Buffalo Springfield).

Paralelamente ao CSN/CNSY e a trabalhos em dupla com Graham Nash, Crosby também desenvolveu uma carreira solo que iniciou de forma brilhante, com If I Could Only Remember My Name (1971). Teríamos de esperar 18 longos anos para poder ouvir um segundo trabalho solo do artista, com o irônico título Oh Yes I Can (1989). “Se eu ao menos pudesse me lembrar do meu nome”, dizia o título da estreia solo. “Oh, sim, eu posso”, afirma sem sombra de dúvidas o segundo.

Nos anos 1990, foram três trabalhos solo, um de estúdio com composições alheias e duas de sua autoria, o belíssimo Thousand Roads (1991) e dois ao vivo, It’s All Coming Back To Me Now (1994) e King Biscuit Flower Hour (1996). Aí, surge o trio CPR com Raymond e Jeff Pevar, que lançou quatro álbuns (dois de estúdio e dois ao vivo) entre 1998 e 2001) com uma bela mistura de rock, jazz, folk e country.

Filho do premiado cineasta Floyd Crosby (1899-1985), David Crosby tem como marcas um forte lado intelectual, além de ouvinte atento de jazz, preferência audível nos acordes de violão que usa em suas composições. De temperamento difícil e rebelde, ele teve de superar problemas como prisão por consumo de drogas na metade dos anos 1980, um transplante de fígado nos anos 1990 e um problema cardíaco em 2014, percalços que venceu tal qual um highlander do rock.

Em 2014, após alguns anos se dedicando a trabalhos com o Crosby, Stills & Nash, Crosby volta à carreira solo com o excelente Croz (leia a resenha de Mondo Pop aqui). E não parou mais de fazer shows e gravar, afora aquele susto cardíaco que felizmente foi só um sustão.

Lighthouse- a resenha

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Em outubro de 2016, chegou ao mercado internacional Lighthouse, que, assim como Croz, permanece inédito no Brasil. O álbum traz como marca a parceria de Crosby com o multi-instrumentista Michael League, líder do grupo (na verdade, uma espécie de coletivo) de jazz fusion Snarky Puppy, que está na estrada desde 2004 e já faturou três troféus Grammy com seus mais de 10 CDs lançados até o momento.

League é o braço direito de Crosby no álbum, atuando como coprodutor (ao lado de Fab Dupont), vocalista de apoio e também tocando vários instrumentos, além de ser o coautor de cinco das nove faixas do CD. Aliás, na maior parte das faixas são só os dois em cena, sendo que os tecladistas Cory Henry e Bill Laurance (também do Snarky Puppy) marcam presença em duas cada.

Com base fundamentalmente acústica, Crosby e League nos oferecem acordes belíssimos e sutilezas que vão sendo descobertas a cada audição do álbum. Curiosidade: não temos nem bateria, nem percussão. Em um making of do trabalho, o roqueiro afirma que os únicos som mais percussivos saíram dele batendo com sua aliança no violão.

O clima das canções varia da balada Things We Do For Love à jazzy-bossa Look In Their Eyes, passando pelo clima hipnótico e quase dark de Somebody Other Than You e a sacudida The City. A voz do astro roqueiro se mostra mais afinada e afiada do que nunca, cativando no modo solo e também nas vocalizações, uma de suas marcas registradas.

A canção que encerra o álbum, By The Light Of Common Day, é parceria de Crosby com outra integrante da família Snarky Puppy, a incrivelmente talentosa Becca Stevens. Com mais de seis minutos de duração que passam a jato, essa música equivale a um verdadeiro farol (tradução do título do álbum) perante os mares revoltos e não tão animadores do mundo atual. As vozes dos dois se encaixam feito luva, e o violão de Michael League evoca as belas sonoridades do saudoso Michael Hedges, que não por acaso também foi parceiro de Mr. Crosby.

Aliás, uma das explicações pelas quais é possível entender porque um músico de 76 anos de idade que passou por tantas coisas na vida consegue se manter tão relevante é a sua eterna abertura ao novo. Ele sabe se renovar, trocando figurinhas com músicos das novas gerações e nunca se rendendo aos caminhos mais fáceis em termos musicais e de carreira. Dessa forma, cada novo show e cada novo álbum de David Crosby merecem toda a nossa atenção, pois as perspectivas são sempre as melhores. O passado é de glórias, o presente, belíssimo, e o futuro nos trará ainda mais, se Deus quiser. Parabéns, mestre!

By The Light Of Common Day– David Crosby:

Mamparra traz intensidade e brilho em seu primeiro álbum

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Por Fabian Chacur

Os sons tropicalistas e pós-tropicalistas dos anos 1960 e 1970 tem influenciado diversos artistas da cena atual. Nem todos conseguem captar a essência daquela sonoridades sem cair na mera repetição ou em verdadeira naftalina sonora, de tão datada. Felizmente, esse não é o caso da banda paulistana Mamparra, que com seu álbum de estreia nos traz dez faixas consistentes, nas quais intensidade, brilho, bom humor e sutileza aparecem como características essenciais.

Com sete anos de existência, a Mamparra traz como integrantes Gustavo Araújo Borges (guitarra e voz), Maiana Monteiro (voz), Felippe Rodrigues (bateria) e Guilherme Mingroni (baixo). No início, tocavam apenas músicas de Itamar Assumpção, mas com o tempo abriram o leque para nomes como Belchior, Jards Macalé e Gilberto Gil, e depois, rumo a composições próprias. Tropicalismo e Novos Baianos são outras referências importantes em seu trabalho.

Mamparra, o álbum, lançado em CD e também disponível nas plataformas digitais, foi gravado com o conceito “ao vivo no estúdio” em apenas três dias. A produção ficou a cargo de Fábio Barros, dono do estúdio Trampolim, que além disso participou tocando diversos instrumentos. Também fizeram participações especiais Fernando Mostaço Foca (trompete), Arthur Joly (mini moog), Habacuque Lima (vocais) e Gabriel Nascimbeni (vocais).

Essa opção em gravar todo mundo junto e de também se valer essencialmente de recursos analógicos nas gravações sempre que possível deu ao trabalho um clima bem orgânico e intenso, que faz o ouvinte se sentir dentro do estúdio, como se estivesse bem no meio de tudo. A participação dos convidados dá um sabor adicional ao trabalho, especialmente o excelente trompete de Fernando Mostaço Foca, que interage com os outros músicos de forma marcante.

A sonoridade do Mamparra aposta em um minimalismo flexível, valorizando os vazios de forma inteligente e os preenchendo sempre que se fez necessário, sem exageros. Essa moldura precisa ajuda a voz gostosa e bem colocada de Maiana (que é filha da ótima Vânia Abreu) a fluir com desenvoltura. Quando o jeitão falado e meio rapper de cantar de Gustavo dialoga com ela, a originalidade da banda ganha recursos muito bem utilizados.

O repertório do álbum é bem consistente, com direito a momentos excelentes como Cidadania, Samba Velho, Trajetória e Hobbinho. Soa bem setentista, mas sem cair na mera repetição, exalando fortes elementos de diversas variações do samba, música nordestina, rock e até um pouco de psicodelia. Que venha mais coisa boa de onde vieram estas dez faixas, sempre com esse clima de celebração (um dos significados para o termo africano mamparra).

Samba Velho (clipe)- Mamparra:

Lindsey Buckingham faz dupla perfeita com Christine McVie

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Por Fabian Chacur

Em 1975, o grupo britânico Fleetwood Mac ganharia um fôlego redobrado com a entrada de dois americanos no time. A partir dali, o quinteto conquistou as paradas de sucesso de todo o mundo, vivenciou histórias incríveis e encarou separações e retornos surpreendentes. Agora, chega a vez de dois de seus integrantes lançarem um álbum em dupla pela primeira vez. Lindsey Buckingham Christine McVie é, desde já, um dos grandes lançamentos de 2017.

A semente deste álbum teve início em 2014, quando a cantora, compositora e tecladista britânica Christine McVie voltou ao Fleetwood Mac após mais de uma década longe do grupo que a consagrou. Naquela época, ela, o cantor, compositor e guitarrista americano Lindsey Buckingham, o baixista britânico John McVie (ex-marido de Christine) e o baterista Mick Fleetwood resolveram fazer gravações de material inédito para um possível álbum de retorno.

O problema foi que a quinta integrante do time, a cantora e compositora americana Stevie Nicks (ex-mulher de Lindsey) resolveu fazer uma turnê solo, o que adiou por meses a continuidade dos trabalhos. Quando ficou claro que Stevie participaria dos shows, mas não de um disco novo (pelo menos, não no prazo que os colegas desejavam), Christine e Buckingham resolveram realizar um sonho antigo e lançar um disco em dupla, algo que ele e Nicks fizeram em 1973, quando ainda eram ilustres desconhecidos, um LP raríssimo e inédito no formato CD.

Vale lembrar que, no FM, eles já haviam feito quatro músicas em parceria, além de dividido os vocais na célebre Don’t Stop, de autoria de McVie. Para seu primeiro trabalho em dupla, selecionaram três composições em parceria, duas só de Christine e cinco só de Lindsey. Também participam do CD como músicos John McVie (baixo), Mick Fleetwood (bateria) e Mitchell Froom (teclados, ex-marido de Suzanne Vega, aquela do hit Luka).

São dez faixas muito boas. O início é com o rockão Sleeping Around The Corner, com refrão matador e tempero percussivo. Feel About You é um pop rock típico de Christine, embora assinado pelos dois, e possui um refrão envolvente, o que explica ter sido escolhida como o primeiro single a ser divulgado pela gravadora.

In My World é um daqueles ótimos rocks em tom menor de Lindsey, e agrada. Red Sun tem uma levada pop-rock bem balançada, e é assinada pela dupla. Os fãs do lado violonista de Lindsey irão vibrar com Love Is Here To Stay, que tem andamento de valsa e na qual ele faz um acompanhamento envolvente com o instrumento, com direito a belo refrão no qual as vozes dos dois se encaixam feito luva.

Too Far Gone, outra parceria, é um rockão potente com tempero percussivo típico de Mick Fleetwood. Lay Down For Free é um pop rock bem bacana do guitarrista, enquanto Game Of Pretend traz o DNA das baladas da cantora, com piano proeminente. On With The Show é outro momento rocker do músico, enquanto Carnival Begin é uma inspirada balada rock de Christine com um solo arrasador de Buckingham.

Como Lindsey Buckingham é creditado como tocando guitarra, teclados, baixo, bateria, percussão e vocal, dá para deduzir que algumas das faixas tenham ele como um quase “one man band”, com os acréscimos fornecidos por Christine e Mitchell Froom.

Não há créditos individualizados para quem toca o quê em cada faixa, mas parece evidente que John McVie e Mick Fleetwood não participaram de todas as sessões, sendo que algumas delas foram feitas no estúdio caseiro de Buckingham, o que reforça essa suspeita.

Uma das coisas mais difíceis no rock é fazer canções que ao mesmo tempo sejam peças artísticas e tenham forte apelo comercial, e essa sempre foi uma marca do Fleetwood Mac em sua formação clássica pós-1975. Lindsey Buckingham-Christine McVie mantém esse alto padrão de qualidade, e equivale a outro grande momento da carreira deles.

Os dois, por sinal, farão shows como dupla paralelos aos do FM, com músicos de apoio. O álbum atingiu o 17º posto na parada ianque. Eles bem que poderiam tocar por aqui, heim? Fica o sonho no ar…

Too Far Gone– Lindsey Buckingham- Christine McVie:

DVD registra Bryan Adams no auge da sua carreira, em 1996

bryan adams live wembley 1996

Por Fabian Chacur

Em 1996, Bryan Adams era um dos artistas mais populares do mundo. Seu mais recente álbum, 18 Til I Die, ocupava o primeiro posto na parada britânica, e vendia muito em diversos outros países. Foi nesse clima, no dia 27 de julho daquele ano, que o roqueiro canadense se apresentou para aproximadamente 70 mil pessoas no lendário estádio de Wembley, em Londres. Agora, enfim o show chega ao formato DVD no Brasil, com o título Wembley 1996 Live. Um registro histórico e incrível.

Para começo de conversa, são 143 minutos de show durante os quais o cantor, compositor e músico se vale apenas de ótima aparelhagem de som, iluminação discreta e cinco músicos. Entreter uma multidão em um estádio valendo-se apenas e tão somente de música não é coisa para qualquer artista. Hoje em dia, torna-se cada vez mais raro. Pois o nosso personagem dá conta da tarefa com carisma, talento e habilidade, sem apelar ou cair no vulgar.

Sua banda de apoio é absurdamente boa, a começar do guitarrista-solo Keith Scott, que o acompanha desde meados de 1982 e está com ele até hoje, com suas intervenções sempre precisas e sem jogar notas foras. Mickey Curry (bateria), Tommy Mandel (teclados e piano), Dave Taylor (baixo) e Danny Cummings (percussão) são os outros craques que se mostram prontos para quaisquer desafios, ajudando Adams a segurar a plateia o tempo todo.

Esse show é uma prova mais do que concreta de como são desinformados aqueles que classificam o autor de Heaven como “apenas um cantor romântico”. Em seus shows pelo mundo afora, o rock and roll básico e melódico sempre come solto, com direito a muita energia. Para que vocês possam ter uma ideia, a primeira balada, Have You Ever Really Loved a Woman?, aparece como sétima música do show, quando o espetáculo já conta com meia hora de duração.

Bryan Adams não é um daqueles artistas inovadores, ou criadores de novos rumos para o rock ou coisa assim. Ele soube estudar os grandes nomes do rock dos anos 50, 60 e 70 e tirar boas lições de suas obras. A partir dali, criou o seu jeito próprio de compor, tocar e cantar, que se não revolucionou nada, certamente ajudou a injetar energia positiva e muita emoção em fãs dos quatro cantos do planeta. E, porque não, influenciar muitos artistas que vieram depois dele.

Com uma voz potente e belíssima, ele encara tanto rockões como The Only Thing That Looks Good On Me Is You, Kids Wanna Rock e She’s Only Happy When She’s Dancin’ como power balllads matadoras como Heaven, It’s Only Love, Somebody e All For Love. Sua empatia com o público é tão grande que praticamente não precisa chama-los para cantar juntos, o que às vezes até o surpreende, algo captado pelas câmeras.

O repertório generoso traz 24 músicas, com direito a várias de 18 Til I Die e de seus trabalhos anteriores, além de alguns covers bacanas, entre os quais Wild Thing (The Troggs). Os arranjos seguem as gravações originais de estúdio, com direito a algumas brincadeiras legais, como Keith Scott brincando com os amplificadores e gerando microfonia e solos incríveis durante a música Touch The Hand, por exemplo.

O show é repleto de momentos legais, entre os quais temos a participação da estrela americana Melissa Etheridge fazendo as vezes de Tina Turner na impactante It’s Only Love. Outra parte marcante é quando o grupo sai do palco principal e toca cinco músicas em um palquinho colocado no meio do povão. Na hora em que apresentam a última música naquele espaço (She’s Only Happy When She’s Dancin’), um montão de gente sobe para dançar com o ídolo.

No palco principal, em sua parte de trás, foi instalada uma arquibancada na qual dezenas de sortudos puderam ver o show de pertinho. Wembley 1996 Live é uma dessas provas de poder de fogo que poucos artistas no mundo podem se gabar de ter. E Bryan Adams, que se mantém ativo de forma admirável, tem em seu currículo um acontecimento como esse. Podem até ser apenas “tolas canções de amor” as que ele canta/compõe. Mas o que há de errado nisso, como diria Paul McCartney?

Heaven (live Wembley 1996)- Bryan Adams:

Fernanda Takai dá um banho de sutileza em seu novo DVD

na medida do impossivel ao vivo dvd capa-400x

Por Fabian Chacur

Em 2007, Fernanda Takai iniciou uma carreira-solo paralela à do grupo que a consagrou nacionalmente, o Pato Fu. Essa trajetória chega agora ao seu quinto lançamento, o DVD/CD (vendidos juntos, em embalagem digipack) Na Medida do Impossível- Ao Vivo No Inhotim (Deck). Trata-se de um trabalho no qual a sutileza, o bom gosto e o talento da cantora radicada há décadas em Minas Gerais se apresentam de forma superlativa.

O trabalho foi gravado ao vivo no Inhotim, um misto mágico e cativante de parque e galeria de arte ao ar livre situado em Brumadinho (MG) no dia 3 de setembro de 2016. Além da dona da festa no vocal principal e violão (e usando um belo vestido), temos Larissa Horta (baixo e vocais), Lenis Rino (bateria, MPC e vocais), Lulu Camargo (teclados e gaita) e Tiago Borba (guitarra, violão e vocais), um time afiado que se presta às várias sonoridades empregadas durante o espetáculo.

O repertório do DVD traz 18 faixas, sendo 11 das 13 canções incluídas em Na Medida do Impossível (CD de estúdio lançado em 2014), três de trabalhos anteriores e três novidades em seu repertório,

São elas De Onde Vens (que ela gravou em 2014 para o álbum-tributo a Nelson Motta, Nelson 70), Nada Para Mim (do marido e parceiro de Pato Fu John Ulhôa e gravada originalmente por Ana Carolina em 1999) e I Don’t Want To Talk About It (do saudoso Danny Whitten, do grupo Crazy Horse, sucesso em gravações de Rod Stewart e Everything But The Girl) e Fui Eu (hit de José Augusto nos anos 1980).

O CD, por sua vez, conta com 14 faixas, sendo 12 iguais às do DVD e duas gravações de estúdio de Nada Pra Mim e I Don’t Want To Talk About It. Ainda no DVD, surgem duas versões de Partida, uma ao vivo que aparece nos extras junto com um making of de 6m37 de duração, e outra ilustrada por um clipe gravado nos domínios do Inhotim.

O curioso é que o show foi gravado à noite, com uma iluminação que dá uma ambientação de “festa à luz de velas”. Desta forma, o cenário natural fica em segundo plano, podendo ser confundido com um registro em teatro ou local fechado. A atmosfera de encantamento não é prejudicada por essa opção, que, ao contrário, não banaliza a natureza presente. E para quem deseja ver melhor o local, basta conferir o clipe da envolvente Partida, que cumpre essa função com eficiência.

O show flui com muita felicidade, com um repertório que se divide entre canções folk, pop, rock, eletrônica e um pouco de samba/bossa nova aqui e ali. Tudo isso pontuado pela voz doce de Fernanda, que com sua presença de palco delicada e simpática cativa o público e cria um clima de empatia sem grandes dificuldades.

Sem prejudicar a trajetória do Pato Fu, a carreira solo de sua talentosa cantora segue como uma boa forma de Takai externar sonoridades e canções que não caberiam tão bem na banda, podendo assim ampliar seus horizontes musicais. Boa sacada.

Partida (clipe)- Fernanda Takai:

Canábicos mostram hard rock potente no ótimo CD Intenso

Capa Canabicos Intenso-400x

Por Fabian Chacur

Dizem que a melhor forma de se aprimorar aquilo que se faz é fazendo, cada vez mais e sempre atento ao que se pode realizar para melhorar a qualidade do resultado final. O grupo Canábicos, na estrada desde 2013, aparentemente segue esse lema à risca, pois em quatro anos de estrada chega agora ao seu quarto álbum. E pela excelência de Intenso (Monstro Discos), o seu mais novo trabalho, o caminho é esse mesmo.

Cria de Araguari (MG), o grupo traz Clandestino (vocal), Murcego González (guitarra, também integra o ótimo Uganga), MM (baixo) e Mestre Mustafá. No currículos, os álbuns La Bomba (2013), Reféns da Pátria (2014), Alienígenas (2015) e o recém-lançado Intenso (2017). A vitória em 2015 no Fun Music, o maior festival universitário de música do Brasil, os ajudou muito na divulgação de seu trabalho.

A concepção musical do quarteto mineiro é centrada no hard rock de tempero setentista, com direito a influências bacanas como Led Zeppelin, Grand Funk Railroad, Deep Purple, Black Sabbath, Golpe de Estado e até Made In Brazil em seus momentos mais pesados. Temos enfurecidos riffs de guitarra, tocados de maneira tecnicamente admirável, acompanhados por uma cozinha sólida e um vocalista simplesmente demencial no seu carisma e poder de fogo.

Intenso é um título perfeito para o álbum, pois são oito faixas repletas de energia, elaboração e diversidade. Consegue conciliar a fúria com o bom gosto, algo nem sempre muito simples de se fazer. E o bacana é que as letras são todas em português, e muito boas em sua simplicidade e ataque direto e sem rodeios, prova concreta de que dá para se fazer hard rock ótimo sem ter de escolher o inglês como idioma.

O repertório do álbum é excelente, com direito à swingada Planeta Estranho, a incrível Lei do Cão (que merece entrar na programação de qualquer rádio rock que se preze) e a psicodélica Eu Não Sei o Que Vai Ser de Mim, que envolve o ouvinte e é encerrada pela repetição em looping de um sinistro som de saco de risos. Final surpreendente para um CD que contou com a ótima produção de Gustavo Vazquez, que deu ao álbum qualidade técnica internacional.

Planeta Estranho (clipe)- Canábicos:

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