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Cosmo’s Factory (1970), o auge do Creedence Clearwater Revival

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Por Fabian Chacur

Nesta quinta (28), John Fogerty completa 75 anos de idade. Em abril, Doug Cosmo Clifford (no dia 24) e Stu Cook (no dia 25) atingiram a mesma idade. Como forma de homenagear esses três grandes músicos, resolvi mergulhar de cabeça no mais bem-sucedido álbum da carreira da banda que os consagrou, o Creedence Clearwater Revival. Trata-se de Cosmo’s Factory, que no dia 25 de julho celebrará 50 anos de seu lançamento. A homenagem também se estende ao quarto integrante do time, o saudoso Tom Fogerty (9-11-1941/6-9.1990).

Em 1970, poucas bandas de rock se aproximavam do Creedence Clearwater Revival em termos de popularidade. Em um período de dois anos, haviam lançado quatro álbuns que atingiram os primeiros postos das paradas de sucesso do planeta, todos recheados de singles certeiros, entre os quais Proud Mary, Suzy Q, Down On The Corner, Green River e Fortunate Son, só para citar alguns. Como explicar tanto sucesso e produtividade artística em tão curto período de tempo?

Não, o CCR não surgiu do nada. Na verdade, os colegas de ginásio John, Doug e Cook tocavam juntos desde o finalzinho dos anos 1950, quando ainda eram adolescentes imberbes. Pouco depois, Tom, o irmão mais velho de John, entrou no time, na época intitulado The Blue Velvets. Durante anos, o quarteto tocou em bares, e gravou singles a partir de 1961, inicialmente como Tommy Fogerty & The Blue Velvets e também Tommy Fogerty & The Blue Violets.

Em 1964, foram contratados pela Fantasy Records, agora batizados de The Golliwogs. Eles lançaram diversos singles, mas sem o desejado sucesso comercial. Pode-se dizer que, dessa forma, os garotos fizeram o seu caminho das pedras, aprendendo a tocar e gravar e conquistando dessa forma um entrosamento impressionante. Em 1966, John e Clifford tiveram de servir o exército, mas nem isso baixou a guarda do grupo.

Mudança de nome e o sucesso enfim se concretiza

O ponto de mudança ocorreu em 1967, quando a Fantasy Records foi adquirida pelo ambicioso Saul Zaentz. Ele viu o enorme potencial daquele quarteto endiabrado e resolveu apostar de vez nele, mas com uma condição: deixar o tolo nome Golliwogs e adotar outro mais palatável. A sugestão foi aceita.

No início de 1968, o agora rebatizado Creedence Clearwater Revival vinha à tona. Naquele mesmo ano, no mês de maio, lançou seu autointitulado álbum de estreia, de sucesso moderado, mas com um single matador, Suzie Q (releitura do clássico rockabilly de Dale Hawkins), que chegou ao 11º lugar nos EUA.

O ano de 1969 marcou um verdadeiro tsunami roqueiro por parte de John Fogerty e seus asseclas. Em apenas 12 meses, lançaram três álbuns de muito sucesso, Bayou Country, Green River e Willy And The Poor Boys, que atingiram, respectivamente, as posições de nº 7, 1 e 3 nas paradas americanas. De quebra, ainda tocaram com destaque no festival de Woodstock.

Uma proposta sonora atípica ganha o público

O mais impressionante é situar o CCR em meio ao que ocorria na época. O rock vivia um momento de mudanças, com gêneros como o hard rock, o heavy metal e o psicodelismo dando as cartas. E o que o quarteto californiano oferecia ao público? Uma sólida releitura do rock and roll original, com direito a rockabilly, country, blues e soul na mistura. “É onde o country e o rhythm and blues se encontram que fica o meu lugar favorito”, disse John Fogerty em entrevista a Craig Rosen para o livro The Billboard Book Of Number One Albums.

Lógico que esse coquetel molotov sonoro só atingiu esse sucesso todo devido ao imenso talento dos músicos envolvidos. É a chamada simplicidade sofisticada, algo muito difícil de se concretizar. De cara, o vozeirão inconfundível de John, somado ao seu talento como compositor e guitarrista-solo.

A seu lado, um certeiro guitarrista-base (seu irmão Tom) e uma das melhores cozinhas rítmicas da história do rock. O extremamente eficiente Cook encaixava seu baixo com perfeição na sólida batida de Clifford, um dos melhores bateristas de rock de todos os tempos, verdadeira usina rítmica que merecia ser mais reverenciada pelos críticos e público em geral.

O disco-síntese de uma banda seminal

É nesse momento de puro êxtase artístico e comercial que Cosmo’s Factory vem à tona. O nome do álbum tem a ver com o lugar onde o quarteto realizava os seus ensaios, localizada em um espaço situado na casa do baterista da banda, cujo apelido Cosmo vem desde seus tempos de moleque. O jeitão de fábrica valeu o apelido ao local, que é exatamente onde a foto da capa do álbum foi registrada.

A ideia de John Fogerty era que o álbum se tornasse uma espécie de auge desses anos iniciais do CCR, e seu desejo não poderia ter se concretizado de forma mais cristalina e potente. O álbum atingiu o topo da parada americana, permanecendo por lá durante nove longas semanas e ultrapassando a marca de quatro milhões de cópias nos EUA desde então.

Trata-se de uma espécie de disco-síntese da banda, ao trazer em suas 11 faixas bons exemplos das variações sonoras que se propôs a fazer durante sua carreira, além da bela mistura de composições próprias de John com releituras de clássicos alheios. Vale uma análise faixa a faixa, para explicitar isso.

As faixas de Cosmo’s Factory

Ramble Tamble (J.C. Fogerty)- Nada melhor para abrir um álbum de puro rock como esta aqui. Com mais de 7 minutos de duração, começa e termina com levada rockabilly, e possui várias mudanças de andamento no meio, ficando mais rápida e mais lenta e com direito a belos solos.

Before You Accuse Me (Bo Diddley)- Um clássico do repertório do célebre bluesman roqueiro merece uma releitura vigorosa mostrando o jeito próprio de abordar o blues do CCR.

Travelin’ Band (J.C. Fogerty)- Rock and roll cinquentista típico, clara homenagem a Little Richard, de quem o CCR regravou Good Molly Miss Molly no álbum Bayou Country (1969). Fogerty chegou a ser incomodado pela editora de vários hits de Richard sob acusação de plágio, mas acabou dando em nada. O famoso “parece mas não é”.

Ooby Dooby (Moore-Penner)- O primeiro hit de Roy Orbison, em seus tempos de Sun Records, é relido de forma ao mesmo tempo reverente e energética, com muito balanço e categoria.

Lookin’ Out My Back Door (J.C. Fogerty)- O momento mais country do álbum, com pique dançante e um delicioso sotaque caipira.

Run Through The Jungle (J.C. Fogerty)- O rótulo swamp rock criado por um crítico para definir o som da banda tem neste rock balançado com elementos do som de Nova Orleans um bom exemplo. Matadora!

Up Around The Bend (J.C. Fogerty)- Um rockão sacudido com riff de guitarra ardido e inconfundível. Aqui, o estilo próprio do CCR se mostra de forma mais explícita.

My Baby Left Me (Arthur “Big Boy” Crudup)- Regravação vigorosa de clássico do mesmo autor de That’s All Right, o primeiro sucesso de Elvis Presley. Aliás, Elvis também regravou essa música. Fica difícil dizer quem a releu melhor, mas creio que o Creedence ganhe por pequena diferença.

Who’ll Stop The Rain (J.C. Fogerty)- Delicioso rock balada no qual Fogerty aproveita para falar sobre a Guerra do Vietnã, algo que poucos esperariam em uma canção tão delicada e melódica.

I Heard It Through The Grapevine (Norman Whitfield-Barrett Strong)- Este clássico do songbook da Motown Records possui três versões espetaculares, todas com muito sucesso: a de Marvin Gaye, a de Gladys Knight And The Pips e esta aqui. A do CCR cativa pela longa duração, mais de 11 minutos, uma batida sólida, dançante e constante e uma performance absurda dos músicos, improvisando com foco e sem perder o prumo.

Long As I Can See The Light (J.C. Fogerty)- Para encerrar o álbum, nada melhor do que uma fantástica balada soul, na qual John tem uma performance certeira nos vocais e ainda toca sax, de quebra.

A reedição de Cosmo’s Factory lançada em 2008 traz, além de um belo encarte com fotos, ficha técnica e texto informativo e opinativo do consagrado crítico Robert Cristgau, três faixas-bônus: uma versão alternativa de Travellin’ Band, uma gravação ao vivo de Up Around The Bend e uma gravação (infelizmente com baixa qualidade técnica) de Born On The Bayou reunindo o CCR com o mitológico grupo Booker T & The MGs.

obs.: a primeira edição de Cosmo’s Factory lançada no Brasil em vinil veio com duas faixas diferentes. Ninety Nine And a Half (Steve Cropper, Eddie Floyd, Wilson Pickett), lançada originalmente no álbum de estreia do CCR, entrou no lugar de Travellin’ Band, enquanto The Working Man (J.C. Fogerty), também do primeiro álbum do grupo, veio na vaga de Who’ll Stop The Rain. Os relançamentos posteriores em vinil e depois em CD em nosso país trouxeram a seleção original de faixas. Obrigado aos amigos Emilio Pacheco e Valdir Angeli por essa informação, que adicionei após ter publicado este post.

Ouça Cosmo’s Factory em streaming:

Tuia relê canções alheias e as próprias em seu novo álbum

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Por Fabian Chacur

Se estivéssemos na era medieval, Tuia certamente seria um daqueles trovadores, viajando por todas as cortes e reinados com seu instrumento musical para cantar as idas e vindas do amor perante as mais diversas plateias. De certa forma, é exatamente isso o que ele faz em 2020. Na estrada desde os anos 1990, o cantor, compositor e músico paulista tem um currículo dos mais respeitáveis (leia mais sobre ele aqui), e agora lança Versões de Vitrola Vol.1 (Kuarup), nos formatos CD e digital.

Em sua rica trajetória profissional, Tuia consolidou uma sonoridade que tem tudo a ver com o rock rural brasileiro, pois mistura com categoria e do seu jeito rock, country, folk, MPB e música caipira. Não por acaso, atraiu as atenções dos craques dessa praia, entre os quais Zé Geraldo, Tavito, Renato Teixeira e Guarabyra, com quem já trocou belas figurinhas em shows e discos.

Este novo trabalho o flagra em um momento de releituras. Temos aqui oito canções, sendo seis composições alheias e duas de sua autoria, nenhuma delas inédita. Linda Juventude, grande hit com o 14 Bis nos anos 1980, aparece em duas versões, uma acústica e outra com banda, ambas contando com a delicada participação da cantora e compositora paranaense Ana Vilela.

A consagrada estrela paraibana Elba Ramalho, por sua vez, marca presença na nova gravação de uma das canções mais bem-sucedidas de Tuia, a lírica Céu, em dueto que funcionou às mil maravilhas.

A única música que foge das fronteiras do som rural brasileiro é Tudo é Possível, rock de Kiko Zambianchi lançado pelo autor em seu álbum Disco Novo (2001) e que aqui surge em um arranjo mais afeito ao universo do country. Aliás, o ponto alto do disco é exatamente esse: as canções surgem repaginadas com assinatura própria de Tuia, mas sem perderem suas espinhas dorsais.

Chalana, clássico de Mário Zan e Arlindo Pinto que muita gente conheceu nas versões de Sérgio Reis e Almir Sater, aparece aqui com jeitão folk rock.

Espanhola, megahit escrito por Guarabyra e Flávio Venturini, renasce como uma power ballad, enquanto Senhorita, do grande Zé Geraldo, virou um country rock encapetado. Flor, a outra composição de Tuia incluída neste CD, surge levemente diferente de gravações anteriores.

Completa o repertório a maravilhosa Começo Meio e Fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle), que fez sucesso nas gravações do próprio Tavito e do Roupa Nova. Nela, assim como nas outras, Tuia nos oferece suas interpretações apaixonadas, nas quais se entrega às canções sem medo de ser feliz, e por tabela consegue cativar seus inúmeros fãs pelo Brasil afora.

Versões de Vitrola Vol.1 é daqueles trabalhos de sofisticada simplicidade que transmite ao ouvinte paz, emoção e alegria, especialmente em tempos tão confusos e conturbados como os atuais. Que o nosso querido trovador possa continuar cumprindo seu ofício com essa categoria e sensibilidade por muitos e muitos anos. E que venha em breve o Volume 2 dessa parada aí!

Céu (lyric video)- Tuia e Elba Ramalho:

Diana Ross lança novo álbum de remixes Supertonic Mixes dia 29

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Por Fabian Chacur

Com mais de cinco décadas de carreira, Diana Ross ainda mostra fôlego para invadir as paradas de sucesso. Em 2017, o remix de seu clássico hit Ain’t No Mountain High Enough (ouça aqui) atingia o topo da parada Dance Club Songs da Billboard, a bíblia da indústria fonográfica mundial. Era o início de uma série de quatro hits número 1 nas mesmas listas- os outros são I’m Coming Out/Upside Down (ouça aqui), The Boss (ouça aqui) e Love Hangover (ouça aqui). E não é só isso.

Além de disponibilizar uma quinta faixa com as mesmas características, It’s My House (será que também chegará ao topo?), a ex-cantora das Supremes e uma das maiores divas da história da música promete para o dia 29 deste mês um álbum com estas e outras pérolas de seu longo currículo de sucessos em versões repaginadas. Trata-se de SUPERTONIC Mixes, que aqui só chegará às plataformas digitais, mas que no exterior terá versões em CD e LP.

Com produção da própria Diana, o trabalho teve como autor dos remixes o badalado produtor, músico, compositor e remixador americano Eric Kupper, que desde meados dos anos 1980 se firmou como um dos mais bem-sucedidos nessa área, tendo feito trabalhos para artistas como Whitney Houston, Janet Jackson, Sheryl Crow, Lenny Kravitz, New Order, Depeche Mode, Donna Summer, Myley Cyrus e inúmeros outros do mesmo alto calibre.

Lógico que as versões originais desses grandes sucessos continuam sendo as melhores, mas essas releituras equivalem a uma nova visão de grandes canções, e não as invalidam, além de preservarem a essência de cada uma delas, o que não é pouco. Nada mal para uma artista tão celebrada e que em 2019 recebeu uma homenagem na cerimônia do Grammy, o Oscar da música, em função de tudo o que conquistou nesses anos todos.

It’s My House (remix)- Diana Ross:

Samba de Rainha lança clipe caseiro de Fé Não é Pequena

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Por Fabian Chacur

Como forma de dar uma espairecida nesses tempos estranhos e ao mesmo tempo inspirar sentimentos positivos nas pessoas, o grupo Samba de Rainha acaba de disponibilizar o clipe com uma gravação inédita. Trata-se de Fé Não é Pequena, composição de Aidée Cristina gravada pelas garotas por via remota. As cenas registram cada uma delas em suas residências, com gravações feitas a partir de celulares.

A música é um sambão contagiante, que a vocalista Núbia Maciel defende com a categoria habitual, muito bem acompanhada por suas atuais parceiras. A letra é bem otimista e traz palavras e expressões muito utilizadas por nós desde o início do isolamento social no Brasil. O Samba de Rainha (leia mais sobre esse grupo incrível aqui) curtiu tanto realizar este clipe que promete novidades por aí.

A ideia é lançar novas canções uma a uma. Teremos faixas autorais e também a releitura de um clássicos dos Novos Baianos cujos direitos autorais estão sendo devidamente acertados. Elas pretendem, futuramente, fazer uma gravação mais elaborada em termos técnicos de Fé Não é Pequena. Como diria outro samba clássico de um certo Martinho da Vila “canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar”.

Fé Não é Pequena (Aidée Cristina)

Não deixo ser de medo
O meu bom dia
Vou vibrando na alegria
Isso logo vai passar
Compartilhando
Mesmo que seja de longe
Meu tambor e seu canto
Põe amor no mundo
Chama para somar
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…

Participaram do clipe:
Aidée Cristina – surdo
Erica Japa – rebolo
Karinah Oliveira – violão
Luana Souza – pandeiro
Marina Marques – bateria
Núbia Maciel – voz
Sandra Gamon – percussão
Thais Musachi – cavaco

Fé Não é Pequena (clipe)- Samba de Rainha:

Edy Star mostra sua incrível carreira em documentário

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Por Fabian Chacur

O Brasil tem como uma de suas marcas a capacidade de gerar grandes talentos nas mais distintas áreas, mesmo sem dar o devido apoio ou valor a essas pessoas. Edy Star é um bom exemplo. Este incrível cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de TV e artística plástico baiano tem uma carreira com mais de 60 anos de estrada e repleta de grandes momentos. O documentário Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star (2018), que está na programação do canal a cabo Music Box Brasil, faz jus a esse artista de talento absurdo.

Nascido em Juazeiro (BA) em 10 de janeiro de 1938, Edy se embrenhou pelo meio artístico ainda criança, no teatro, e rapidamente foi ampliando seus horizontes profissionais. Após anos como apresentador de um programa de TV na Bahia, ele se uniu ao amigo Raul Seixas e, junto com Miriam Batucada e Sérgio Sampaio, gravou em 1971 o mitológico álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, que vendeu pouco mas com o tempo se tornou cultuado e posteriormente relançado em vinil e CD.

Com o insucesso do álbum, ele teve de se virar fazendo apresentações em boates em região barra pesada do Rio de Janeiro, e seu talento como show man o levou a ser a estrela na boate Number One, onde João Araújo, da gravadora Som Livre, o convidou para gravar o que seria Sweet Edy (1974). Este álbum traz canções feitas especialmente para ele por astros do alto calibre de Gilberto Gil, Roberto e Erasmo Carlos, Moraes Moreira e Galvão, Caetano Veloso, Renato Piau, Jorge Mautner e Getúlio Cortês.

Embora com um repertório ótimo e interpretações marcantes, o disco foi outro retumbante fracasso, e seguiu o mesmo rumo do anterior, tornando-se uma raridade disputada a murros nos sebos da vida, com relançamento ocorrido apenas em 2012 no formato CD e há pouco em vinil. O disco traz uma mistura de rock e outros ritmos, em retrato bem fiel do que Edy chama de “cabaretear”, ou seja, seu estilo versátil e criativo.

Sem baixar a cabeça, ele seguiu adiante, estrelando a montagem brasileira do espetáculo Rocky Horror Show e depois espetáculos de teatro de revista. Neles, esbanjava talento, cantando, dançando, atuando e cativando o público com seu carisma. Durante os anos 1980, no entanto, especialmente devido à disseminação do vírus HIV no Brasil, os espaços diminuíram bastante por aqui.

Em 1992, resolveu mudar para a Espanha, onde viveu durante longos 18 anos, firmando-se na cena teatral de lá e conseguindo até mesmo a cidadania espanhola, que se mostrou fundamental para que pudesse combater um câncer que o acometeu e que ele superou após três meses de tratamento.

Um convite para participar da Virada Cultural em São Paulo em 2009, no qual interpretou com muito sucesso de público e crítica e na íntegra o álbum que gravou com Raul Seixas, Miriam Batucada e Sergio Sampaio, serviu como incentivo para voltar ao Brasil, o que se concretizou em 2010.

Em 2016, recebeu o convite de Zeca Baleiro para gravar um novo álbum pela gravadora do artista maranhense, a Saravá Discos. O trabalho, simplesmente excelente, saiu em 2017, Cabaré Edy, e é outro evento, com músicas de Caetano Veloso (que também participa do álbum), Gilberto Gil, Sergio Sampaio, Zé Rodrix, Odair José, Herivelto Martins e outros, e participações de Ney Matogrosso, Angela Maria, Zeca Baleiro, Felipe Catto e gravações inseridas de forma póstumas de Raul Seixas e Emilio Santiago.

As gravações de Cabaré Edy são o mote para o documentário dirigido por Fernando Moraes. Entre ensaios e sessões, o artista dá deliciosos depoimentos contando suas incríveis histórias dessas décadas de carreira. A forma como, por exemplo, conheceu Caetano Veloso quando o hoje monstro sagrado da MPB era apenas um adolescente com vagas ambições artísticas.

O fato de ter assumido desde sempre a homossexualidade e o preço que pagou por isso também permeia o filme, assim como sua eterna disposição em superar as dificuldades e de não se glamurizar demais. Por exemplo, ele vai direto ao ponto sobre o porque foi para a Espanha: “eu estava morrendo de fome, não tinha trabalho no Brasil, então fui para lá para tentar sobreviver, não teve badalação nenhuma!”, registra.

Além dessas cenas atuais, o diretor nos oferece um maravilhoso material de arquivo que registra todas essas fases vividas pelo artista baiano, e também entrevistas recentes com Caetano, Zeca Baleiro e outros artistas que conviveram e trabalharam com ele. Tudo de forma bem-humorada e com uma edição que torna o documentário delicioso de se conferir.

Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star vale como necessário e maravilhoso registro da trajetória de um artista completo que com seu talento e persistência não só sobreviveu em um meio tão selvagem e difícil como o artístico como de quebra construiu trajetória exemplar e digna de aplausos. Que essa obra nunca seja esquecida, e que sirva de referência para as novas gerações.

Veja o trailer do documentário de Edy Star:

The Rolling Stones a mil por hora mesmo durante uma pandemia

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Por Fabian Chacur

Para uma banda com inacreditáveis 58 anos de vida, os Rolling Stones estão esbanjando energia. Após sua marcante participação no festival virtual One World Together At Home no último dia 18, no qual fizeram uma inesquecível performance com o clássico You Can’t Always Get What You Want (veja aqui), a banda disponibilizou nesta quinta (23) o clipe de uma canção inédita. Das boas, por sinal.

Trata-se de Living in a Ghost Town. A música foi composta e teve suas bases gravadas em 2019, mas Mick Jagger e sua turma alteraram a letra e a finalizaram no isolamento, de forma remota ou coisa que o valha. O clipe mescla cenas do quarteto em estúdio registradas em preto e branco mescladas com outras coloridas flagradas nas cidades vazias devido à quarentena gerada pelo novo coronavírus, algumas delas aceleradas, com belo resultado.

A letra traz como principais versos “I’m a ghost, living in a ghost town” (sou um fantasma vivendo em uma cidade fantasma, em tradução livre), refletindo de forma crua o sentimento das pessoas nesses dias tão estranhos e irreais que estamos vivenciando nessas semanas recheadas de distopia e surrealismo do mal. Com levada em andamento médio (nem balada, nem acelerada) e em tom menor, traz eco de canções como Miss You e Harlem Shuffle, com direito a um solo de gaita por parte de Mick Jagger (cantando melhor do que nunca).

Trata-se da primeira faixa inédita da banda desde 2012, quando lançaram a coletânea Grrr!, na qual incluíram as então novas Doom And Gloom e One More Shot. O último trabalho só de inéditas é A Bigger Band (2005), enquanto o mais recente é o álbum de covers Blue & Lonesome (2016).

Os Stones deveriam iniciar no dia 5 de maio sua turnê No Filter 2020, que se estenderia até o dia 9 de julho e passaria pelos EUA e Canadá, com prováveis datas por outros países na sequência. Os shows foram adiados por causa da pandemia, ainda sem nova agenda divulgada. A banda também estava preparando um novo álbum, cujo lançamento também ainda não está devidamente programado. Mas a amostra entusiasma.

Living in a Ghost Town (clipe)- The Rolling Stones:

Sting- A Free Man (2017) é um documentário bastante eficiente

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Por Fabian Chacur

Abordar uma carreira de mais de 45 anos como a de Sting em apenas 52 minutos parece uma tarefa difícil, senão impossível de se realizar. O diretor francês Julie Veille, no entanto, mesmo sem ter esgotado o tema, proporciona uma interessante e muito bem realizada amostra do que de melhor o grande cantor, compositor e músico britânico fez nesses anos todos. Sting- A Free Man (2017), o resultado desse projeto, está disponível na programação do Canal Bis e também em sua plataforma de streaming.

Feito para um canal de TV francês, o filme tem como base uma ótima entrevista feita com o astro da música especialmente para a atração. Também temos bons depoimentos de pessoas ligadas a ele, entre os quais o guitarrista Dominic Miller, que toca há muito tempo em sua banda de apoio e é seu parceiro em algumas composições, e também o italiano Zucchero, o baterista Vinnie Colaiuta, Will.I.am (do grupo Black Eyed Peas) e Bob Geldof. Este último surpreende pelo aparente profundo conhecimento da vida e obra do colega de profissão.

A opção foi por ter foco principal na carreira solo de Sting, passando por alto por seus anos no The Police, incluindo uma justificativa pela qual ele saiu da banda: “Não queria repetir as mesmas fórmulas, eu queria a liberdade que me seria ditada pelas músicas, e não pelo grupo”.

Sting fala sobre o desafio de contar histórias relevantes em um formato tão compacto como o das canções pop, e de como escreveu alguns de seus clássicos, como Shape Of My Heart, Desert Rose e do repertório do álbum The Soul Cages (1991), este último feito em homenagem ao seu pai.

O envolvimento do músico com questões humanitárias e ecológicas também é abordado, entre eles sua ligação com o cacique brasileiro Raoni e as mães das vítimas da ditadura de Pinochet no Chile (que rendeu a bela canção They Dance Alone). O show que fez em Toscana, Itália, no mesmo dia dos ataques às torres gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001, está na pauta, assim como a inspiração das belas canções Russians e Inshala.

Pontuado por um bem selecionado material de arquivo, Sting- A Free Man equivale a uma concisa e bem realizada viagem na obra de um artista que soube como poucos trafegar por gêneros musicais como rock, reggae, jazz, pop, world music, folk etc com desenvoltura, criatividade e muito talento. E pensar que, no relato do próprio Sting, tudo começou quando ele herdou o violão de um tio que se mudou para o Canadá…

Veja o trailer de Sting- A Free Man:

Skank e Roberta Campos lançam Simplesmente, single em parceria

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Por Fabian Chacur

Em novembro de 2019, foi anunciado o fim do grupo Skank, o que ocorreria após uma turnê celebrando os 30 anos de carreira da banda mineira. A ideia era também lançar uma coletânea com seus grandes hits e uma música inédita. Os shows estão no freezer, digamos assim, devido à pandemia do novo coronavírus. Mas, ao menos, a nova canção acaba de ser disponibilizada nas plataformas digitais. E não se trata de qualquer musiquinha.

Simplesmente reativa a parceria entre Samuel Rosa, cantor e guitarrista da banda, com o saxofonista e letrista mineiro Chico Amaral, uma dobradinha afinada que rendeu ao Skank hits massivos e marcantes como Te Ver, Garota Nacional, Vou Deixar, Tão Seu e Pacato Cidadão, entre muitos outros.

Esta bela e inspirada balada folk traz como cereja do bolo a participação mais do que especial da cantora e compositora Roberta Campos, cuja bela voz se encaixou feito luva na melodia de Simplesmente. Tipo da música que, se de fato se tornar a última dessa fase do Skank, será equivalente a uma despedida das mais dignas de uma banda que marcou a história do pop-rock brasileiro.

Simplesmente (clipe)- Skank e Roberta Campos:

Bob Dylan lança a introspectiva e bela balada I Contain Multitudes

Bob Dylan Performa at Hyde Park - London

Por Fabian Chacur

Os fãs de Bob Dylan com saudades de canções inéditas escritas pelo grande astro do rock não podem reclamar. Após o lançamento há alguns dias de Murder Most Foul (ouça aqui), com seus pungentes 17 minutos de duração, agora é disponibilizada I Contain Multitudes, que também surge de forma impressiva e arrancando elogios por parte da crítica especializada.

Bem mais compacta do que a anterior (tem pouco mais de 4 minutos) mas com o mesmo clima reflexivo predominando, temos aqui o autor de Blowin’ In The Wind e tantos outros clássicos mais inspirado do que nunca.

Ele inicia com os belos e profundos versos “today, tomorrow and yesterday, too, the flowers are dyin’ like all things do” (“hoje, amanhã e ontem, as flores estão morrendo, como todas as coisas fazem”, em tradução livre).

Influenciada pelo saudoso poeta Walt Whitman, a balada mostra o cantor com uma interpretação contida e bem segura, e a letra traz citações referentes aos Rolling Stones, Edgar Allan Poe e Frank Sinatra.

A parte final traz os versos “I have no apologies to make” (“não tenho desculpas a pedir”, em tradução livre). No geral, a canção tem alguma afinidade com a clássica Ring Them Bells, do álbum Oh Mercy (1989).

O álbum mais recente de Bob Dylan incluindo apenas composições próprias, Tempest, saiu em 2012. Desde então, o icônico cantor, compositor e músico americano nos proporcionou três álbuns com releituras de standards da música americana- Shadows In The Night (2015), Fallen Angels (2016) e Triplicate (2017, este um álbum triplo), todos bem-sucedidos em termos comerciais.

Ainda não se sabe se essas duas novas faixas de Bob Dylan são a amostra de um novo álbum à caminho ou se encerram em si mesmas. A primeira opção parece a mais provável, mas só saberemos no decorrer dos próximos capítulos.

Vale lembrar que ele sempre foi uma figura enigmática, de decisões nem sempre previsíveis. Seja como for, ou amostras, ou faixas avulsas, possuem seu forte e poderoso DNA, o que não é pouco para alguém rumo a completar 79 anos de idade no próximo dia 24 de maio. Que venha mais!

I Contain Multitudes– Bob Dylan:

Alfredo Dias Gomes esbanja sutilezas em Jazz Standards

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Por Fabian Chacur

O jazz entrou de vez na vida de Alfredo Dias Gomes aos 16 anos, quando ele teve aulas com o saudoso baterista e percussionista americano Don Alias (1939-2006). Com esse músico, que tocou com gênios da música do porte de Miles Davis, David Sanborn, Joni Mitchell e Herbie Hancock, ele aprendeu os macetes básicos dessa nobre vertente musical. Agora, mergulha de vez nessa seara em Jazz Standards, lançado em CD físico e também disponível nas plataformas digitais, no qual relê com desenvoltura standards jazzísticos do primeiro calibre.

Nascido em 1960 na cidade do Rio de Janeiro, Alfredo possui uma longa trajetória no mundo da música que teve início quando ele era ainda um adolescente, no fim dos anos 1970. Nos últimos tempos, preferiu se dedicar ao próprio trabalho na música instrumental, sempre próximo do jazz rock com elementos rítmicos da música brasileira, algo bem exemplificado por seu trabalho anterior, o excelente Solar (leia a resenha aqui aqui).

O repertório do álbum é composto por nove músicas escritas por monstros sagrados do jazz. São eles Miles Davis, John Coltrane, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Freddie Hubbard, Wayne Shorter e Ray Noble. São temas nada simples de serem tocados e que exigem perícia e habilidade nas sutilezas por parte dos músicos, mas de uma beleza expressiva que pode ser apreciada mesmo por neófitos neste gênero musical.

Cherokee, Seven Steps To Heaven, Lazy Bird, Red Clay, Solar (a de Miles Davis, não a que deu título ao álbum anterior de Alfredo), Giant Steps, A Night In Tunisia, Caravan e Footprints foram escolhas certeiras para um trabalho deste porte, pois fazem parte do songbook dos clássicos do gênero e não são opções tão óbvias.

Para encarar essas pérolas do jazz americano, o baterista carioca escalou um timaço composto por Jessé Sadoc (trompete), Widor Santiago (sax tenor), Jefferson Lescowich (baixo) e Lulu Martin (teclados,seu parceiro desde os tempos dos Heróis da Resistência, nos anos 1980). Entrosadíssimo, este grupo incorpora o repertório com categoria, com espaço para todos se sobressaírem e acrescentar cores marcantes à sonoridade final.

Jazz Standards equivale a uma bela incursão no maravilhoso mundo do jazz, conduzida por quem entende do assunto e tem prazer em fazer isso. Um belo presente que Alfredo Dias Gomes dá a ele e aos fãs da melhor música, no ano em que completa 60 anos de idade.

Ouça Jazz Standards em streaming:

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