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Toquinho comemora 50 anos de bela carreira com DVD/CD

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Por Fabian Chacur

Toquinho é um desses nomes tão grandes da nossa música popular que às vezes pode parecer que é menos louvado do que deveria. Mas há uma explicação para isso: sua elegância. Cantor, compositor, violonista, ele mantém desde o início de sua carreira, na década de 1960, uma postura humilde, sóbria e sem cair em excessos ou estrelismo. Para comemorar meio século de trajetória artística, ele acaba de lança o DVD/CD 50 Anos de Carreira (Deck), um trabalho enxuto, bem feito e à altura da trajetória desse craque da canção popular brasileira.

Antonio Pecci Filho, nascido em São Paulo em 6 de julho de 1942 e apelidado Toquinho pela mãe, tornou-se conhecido ao lançar parcerias com Jorge Ben como Carolina Carol Bela e Que Maravilha. A seguir, tornou-se parceiro de palcos, discos e composições de ninguém menos do que Vinícius de Moraes. A dupla, com enorme sucesso de público e critica, durou uma década, encerrando-se apenas devido à morte prematura do grande Poetinha em 1980.

Como artista solo, consagrou-se de vez com o estouro de Aquarela, em 1983, e não só lançou trabalhos individuais bem bacanas como também manteve parcerias com craques como Paulinho da Viola, Chico Buarque, MPB-4, Sadao Watanabe e vários outros. Nos últimos anos, mostrou-se aberto ao intercâmbio com as novas gerações, atuando ao lado de Paulo Ricardo, Tiê, Veronica Ferriani e Anna Setton, por exemplo.

O DVD/CD equivale a uma pequena amostra dessa trajetória, gravado ao vivo em duas sessões no dia 25 de março de 2016 no Teatro WTC, Hotel Sheraton, em São Paulo. A seu lado, uma banda composta por Guga Machado (percussão), Ivâni Sabino (baixo), Nailor Proveta Azevedo (clarinete e sax alto) e Pepa D’Elia (bateria), um time afiado que se mostra muito adequado e ensaiado para acompanhar um dos melhores violonistas brasileiros de todos os tempos.

O repertório dos 55 minutos de show traz 24 músicas acomodadas em 14 faixas, sendo apenas uma delas de fora do repertório do artista, A Noite, sucesso da cantora Tiê que ela interpreta ao lado de seu padrinho artístico. De resto, temos desde o primeiro sucesso, Que Maravilha, até a recente Quem Viver Verá, de 2011. Além de Tiê, participam Anna Setton, Verônica Ferriani, Mutinho e Paulo Ricardo.

Com efeitos cênicos simples e bem concatenados, entre os quais três telões com imagens ilustrando cada canção, o show traz Toquinho à vontade, cantando com sua voz agradável e doce e contando pequenos ‘causos’ entre uma música e outra, entre os quais uma deliciosa recordação de episódio envolvendo sua assumida hipocondria. Da ótima banda, o destaque é o lendário Proveta, que dá um colorido especial às canções com seus belos e inspirados solos.

Da fase com Vinícius, temos representadas A Tonga da Mironga do Kabuletê, Tarde em Itapoã (dueto com Paulo Ricardo), Samba de Orly e O Velho e a Flor/Veja Você (dueto com Verônica Ferriani), entre outras. As canções dedicadas ao público infantil aparecem em um pot-pourry que traz A Casa, O Pato, O Ar (O Vento), A Bicicleta e O Caderno.

Os megahits Que Maravilha, Turbilhão (dueto com o parceiro Mutinho) e Aquarela não poderiam ficar de fora, e não ficaram. Nos extras do DVD, temos pequenos depoimentos de amigos como Galvão Bueno, Roberto Menescal, Zico, Eliane Elias e Ivan Lins, e 10 minutos deliciosos nos quais Toquinho mostra seu talento como solista de violão, tocando sozinho e em estúdio maravilhas como Abismo de Rosas, Bachianinha nº 1 (do seu mestre Paulinho Nogueira) e Gente Humilde, entre outras.

Toquinho 50 Anos de Carreira equivale a uma deliciosa viagem por uma carreira repleta de boas músicas, feitas e interpretadas por um artista que nunca se valeu de recursos reprováveis para fazer sucesso e conseguiu sua popularidade de forma justa e mais do que merecida. Usando versos de seu eterno parceiro naquela célebre canção com a grife Tom & Vinícius: “se todos fossem iguais a você, que alegria viver”…

obs.: e falar o que dessa bela capa, do sempre genial Elifas Andreato?

Tarde em Itapoã– Toquinho e Paulo Ricardo:

Bixiga 70 destila grooves com categoria em Quebra-Cabeça

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Por Fabian Chacur

Durante algum tempo no Brasil, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, música instrumental era quase que sinônimo de sonoridades intrincadas e melhor entendidas por estudiosos do que pelo público em geral. Nada contra, mas fazia falta quem se dedicasse a investir em um som sofisticado, mas sem perder o groove jamais. E é exatamente esta a marca registrada do excepcional grupo paulistano Bixiga 70, que nos oferece outro petardo, o CD Quebra-Cabeça, lançado pela gravadora Deck em parceria com o selo Traquitana.

O Bixiga 70 surgiu lá pelos idos de 2010, quando o tecladista Maurício Fleury reuniu uma turma de músicos que frequentavam e atuavam no estúdio Traquitana, situado na rua 13 de Maio, nº 70, no tradicional bairro paulistano do Bixiga, para gravar a música Grito de Paz. Como ele me disse em entrevista, “íamos gravar apenas uma música, e acabamos criando uma banda”. Melhor para eles e melhor para nós.

O time é integrado por Décio 7 (bateria), Marcelo Dworecki (baixo), Cris Scabello (guitarra), Mauricio Fleury (teclado e guitarra), Rômulo Nardes e Gustávo Cék (percussão), Cuca Ferreira (sax barítono), Daniel Nogueira (sax tenor), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete). Embora todos sejam craques em seus respectivos instrumentos, eles jogam sempre em função do grupo, sem exibicionismos tolos. O resultado final sempre fala mais alto.

Quebra-Cabeça é o quarto álbum dessa intrépida trupe, e mostra que o entrosamento e a criatividade deles continua com forte viés de alta em termos qualitativos. Aqui, o que manda é o groove, o balanço, o diálogo democrático entre os instrumentos, resultando em uma massa sonora deliciosa de se ouvir e deliciosa de se ter como trilha sonora para dançar até a sola do sapato, sapatilha, tênis etc se desgastar por completo.

Os elementos utilizados na mistura são diversos, especialmente afrobeat, rock, soul, funk de verdade, latinidade a la Carlos Santana, jazz, música brasileira em geral e temperos que a gente nem consegue definir, de tão refinados. Não é de se estranhar que eles tenham no currículo shows pelos quatro cantos do mundo, incluindo participações marcantes em festivais de música como Glastonbury (Inglaterra) Roskilde (Dinamarca) e Womad Austrália/Nova Zelândia.

O álbum traz 11 faixas, todas muito boas, a começar da hipnótica faixa título, divulgada com um clipe que se vale como cenário do estúdio Traquitana e de pontos bacanas do Bixiga. Psicodelia, latinidade, afro-jazz, chame como quiser. Ilha Vizinha, Primeiramente, Camelo, Areia, Pedra de Raio, é uma faixa melhor do que a outra. Do Brasil para o mundo, um som capaz de energizar até zumbis. Ouça sem moderação.

Quebra-Cabeça (clipe)- Bixiga 70:

ClaudetteSoares-AlaídeCosta são realmente o fino da bossa

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Por Fabian Chacur

Muitas homenagens aos 60 anos da Bossa Nova estão sendo feitas neste ano, e uma das mais louváveis e bem realizadas acaba de chegar às lojas e às plataformas digitais. Trata-se do estupendo álbum 60 Anos de Bossa Nova, lançado pela gravadora Kuarup e que reúne duas expoentes do gênero, as cantoras Claudette Soares e Alaíde Costa. O show de lançamento no Rio ocorre nesta terça (9) às 21h o Theatro Net Rio (rua Siqueira Campos, nº 143- 2º piso- fone 0xx21-2147-8060), com ingressos de R$ 50,00 a R$ 100,00.

As cariocas Claudette e Alaíde estavam na área quando João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros mestres desse naipe deram o pontapé inicial no gênero musical que somou o swing do samba com a elaboração do jazz. Foram participantes desde o começo, e ajudaram a divulgar essa “batida diferente” no Rio e principalmente em São Paulo, onde elas se radicaram ainda na década de 1960. Ou seja, as moças possuem conhecimento suficiente para encarar a tarefa.

Com produção musical a cargo de Thiago Marques Luiz, que há muito já virou uma verdadeira grife desses projetos envolvendo craques da nossa música com muita estrada nas costas, as duas intérpretes foram acompanhadas no show que deu origem ao álbum e gravado em 23 de março de 2018 em São Paulo no Teatro Itália por Giba Estebez (produção musical, arranjos e piano), Renato Loyola (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria, o célebre Naminha, que integrou o grupo Língua de Trapo na década de 1980).

Com arranjos classudos e despojados a acompanha-las, as cantoras deram conta do recado diante de um repertório composto por 18 faixas, sendo algumas delas pot-pourris. Em alguns momentos elas atuam juntas, mas na maior parte se incumbem de blocos solo. A seleção traz canções integrantes do songbook máximo da bossa, entre as quais Insensatez, Dindi, Caminhos Cruzados, Chega de Saudade, O Barquinho, Os Grilos, Oba-la-la e Vem Balançar, só para citar algumas.

Os estilos das protagonistas se mostram bem claros. Alaíde é mais contida, discreta e doce, brilhando muito nos momentos intimistas. Por sua vez, Claudette é serelepe, sabendo alternar partes introspectivas com momentos de puro swing, encantando e sendo capaz de conquistar até o ouvinte mais distante e cético em relação ao gênero musical homenageado. A interação entre as duas é ótima e cordial, proporcionando momentos de raro prazer ao ouvinte.

60 Anos de Bossa Nova flui deliciosamente em sua viagem encantadora pelas preciosidades bossa novísticas, e demonstra que Claudette e Alaíde se mantém em plena forma, capazes ainda de oferecer a seus inúmeros fãs shows maravilhosos e discos com este altíssimo padrão artístico e técnico. Prova mais do que concreta de que elas continuam o fino da bossa, 60 anos depois, e que esse repertório é para sempre.

60 Anos de Bossa Nova- ouça em streaming:

Maestrick mostra como fazer prog metal bom de se ouvir

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Por Fabian Chacur

Das várias ramificações do heavy metal, o prog metal é certamente uma das mais fadadas aos excessos. Bandas desse gênero às vezes se entusiasmam com suas qualidades técnicas e extrapolam, deixando a música de lado em prol do ego e do tecnicismo exagerado. E é exatamente o fato de não cair nessa armadilha que torna a banda Maestrick uma das melhores do gênero. A prova é seu novo CD, o impecável Espresso Della Vita-Solare.

Criada em São José do Rio Preto (SP) em 2006, esta banda tem como núcleo Fabio Caldeira (vocal e piano), Renato “Montanha” Somera (baixo e vocal) e Heitor Matos (bateria e percussão). No currículo, o elogiado CD de estreia Unpuzzle! (2011) e o ótimo EP de releituras de clássicos alheios The Trick Side Of Some Songs (2016). Suas principais influências são o Queen dos anos 1970, Iron Maiden, Rush e Yes.

Misturando essas e outras influências, a banda também se mostra muito atenta no quesito canções, respeitando esse importante formato e acrescentando a ele espaços para solos instrumentais sempre muito bem concatenados. Não por acaso, as bandas citadas e outras bacanas da área progressiva também tem em comum esse culto às canções, mesmo expandido seus horizontes instrumentais e vocais sem amarras nem restrições prévias limitadoras.

O conceito em torno do projeto é o de comparar a vida humana a uma viagem de trem, com suas idas e vindas, seus momentos inesperados, alegrias e tristezas e, inevitavelmente, o fim do trajeto. O álbum Espresso Della Vita- Solare é a primeira parte, com 12 faixas dedicadas a cada hora do dia, sendo que em um futuro não muito distante teremos sua conclusão, um novo CD com o título de Expresso Della Vita-Lunare, trazendo 12 faixas “noturnas”, digamos assim.

A qualidade artística deste álbum é impecável em todos os aspectos-artísticos, concepção, técnicos, de execução etc. A produção, mixagem e masterização ficaram a cargo do experiente produtor catarinense Adair Daufembach, que já trabalhou com Tony MacAlpine, Hangar, Project46 e outros e, de quebra, ainda se incumbiu de gravar todas as passagens e solos de guitarra do álbum, de forma brilhante, por sinal.

Espresso Della Vita-Solare é uma profissão de fé no formato álbum, pois você começa a ouvir a primeira faixa e só consegue parar após o último acorde da faixa 12, tal a capacidade de envolvimento que esse material possui. As variações musicais são constantes, mas sempre realizadas de forma organizada e coerente, surpreendendo pelo bom gosto.

O clima quase messiânico de Across The River, a levada repleta de brasilidade de Penitência (única faixa em português), as canções melódicas Daily View e Water Birds, a intrincada e deliciosa The Seed e a impregnada de sonoridades latinas Hijos de La Tierra trazem vocais impecáveis, instrumental vibrante e sonoridades que nos permitem imaginar a viagem proposta pelo conceito, com letras profundas.

Além dos músicos da banda e de seu produtor, o álbum também traz diversos vocalistas e músicos convidados, num total de 23 deles, dando ao trabalho um clima beirando o sinfônico no qual os teclados são a base de tudo. Banjo, dobro e ukulelê, instrumentos nem sempre utilizados no rock, aparecem em algumas das canções, caprichando no tempero sonoro. E, como a cereja do bolo, temos a belíssima capa e encarte do CD físico, em embalagem digipack e qualidade compatível com a do conteúdo artístico que ela contém.

Para aqueles que insistem em ignorar a qualidade do heavy metal brasileiro, vale uma audição urgente deste Espresso Della Vita-Solare, um trabalho que esbanja ambição, criatividade e um resultado final digno de ser chamado de arte. A banda, cujos CDs saem no exterior e mereceram muitos elogios por parte da crítica especializada de lá, inicia nos próximos dias uma turnê europeia que tem tudo para ser impecável.

Espresso Della Vita- Solare- ouça em streaming:

Lô Borges resgata um de seus álbuns clássicos em belo DVD

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Por Fabian Chacur

Em 1972, com apenas 20 anos de idade, Lô Borges surpreendeu aos fãs de música brasileira ao lançar dois trabalhos que com o tempo seriam consagrados como antológicos. Um é Clube da Esquina, álbum duplo que gravou em parceria com o amigo e mentor Milton Nascimento. Outro, um álbum solo autointitulado hoje mais conhecido como “Disco do Tênis”. Hoje curtindo a maturidade de seus 66 anos, ele resgata o repertório desses dois trabalhos seminais no DVD Tênis+Clube- Ao Vivo No Circo Voador, lançado pela gravadora Deck. Desde já, um dos grandes lançamentos deste 2018. Sublime é pouco!

Lô Borges marcou sua trajetória musical como autor de algumas das mais belas e enigmáticas canções do repertório pop brasileiro. Misturando com maestria folk, rock, country, MPB e experimentalismo, ele rapidamente se firmou como um dos grandes nomes a despontar do time de craques capitaneados por Milton Nascimento que recebeu o nome geral de Clube da Esquina. Se não fez tanto sucesso como o Bituca ou mesmo Beto Guedes, ele possui porte artístico compatível.

Em sua belíssima discografia, repleta de grandes momentos, o “Disco do Tênis” (ouça aqui) é certamente um dos mais badalados. O repertório do novo DVD do cantor, compositor e músico mineiro traz as 15 faixas daquele álbum (tocadas em ordem diferente da do LP original), as oito assinadas por Borges em Clube da Esquina e Para Lennon e McCartney, uma das primeiras composições dele a serem gravadas, mais precisamente por seu mestre e amigo, no LP Milton (1970).

Gravado ao vivo no Circo Voador (RJ) no dia 23 de março, o DVD nos traz um show sóbrio e elegante em termos visuais, sem grandes efeitos ou elementos cenográficos. O foco é todo na parte musical do espetáculo, e aí estamos diante da total e completa excelência, a começar pelos seis músicos selecionados por Lô, que toca guitarra, violão e caxixi, além de cantar com uma voz deliciosamente madura.

O capitão do time é Pablo Castro (vocal, piano, violão, guitarra), que além de ser o diretor musical da coisa toda ainda dá um banho de sensibilidade e talento ao reproduzir com rara competência os vocalizes feitos por Milton Nascimento na gravação original de Clube da Esquina Nº 2. Aliás, o projeto foi levar ao palco os arranjos originais gravados nos álbuns de 1972, e a missão não poderia ter sido melhor cumprida.

Além de Pablo, integram a banda os excelentes Gui de Marco (guitarra, violão, percussão e vocais), Paulim Sartori (baixo, bandolim, percussão e vocais), D’Artagnan Oliveira (bateria, percussão e vocais), Dan Oliveira (guitarra, violão, percussão e vocais) e Alê Fonseca (teclados e programações), um elenco que não se preocupou apenas em “tocar igualzinho”, mas sim de trazer para o palco a emoção contida em cada uma dessas canções admiráveis.

Tocando perante um Circo Voador lotado e com plateia gritando “Lô, eu te amo” desde o início, o mestre mineiro da canção esbanja simpatia, evidente timidez e emoção em músicas divinas como Você Fica Melhor Assim, Pensa Você, Aos Barões, Canção Postal, Tudo Que Você Podia Ser, Nuvem Cigana, Paisagem da Janela… São 78 minutos de puro prazer, um belo culto a canções que equivalem a um verdadeiro bálsamo sonoro em tempos tão difíceis como os atuais.

Clube da Esquina Nº2 (ao vivo)- Lô Borges:

Antonio Adolfo grava CD com a ótima Orquestra Atlântica

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Por Fabian Chacur

Antonio Adolfo serve como bom exemplo de como a atividade profissional constante e bem planejada ajuda o ser humano a se manter eternamente jovem e inquieto. Aos 71 anos de idade, este pianista, compositor, arranjador e produtor carioca recusa-se a deitar nos muitos louros de uma carreira impecável, trabalhando bastante e nos proporcionando novos lançamentos. O mais recente é o CD Encontros, que inicia sua parceria com a ótima Orquestra Atlântica.

Habitualmente, o autor do seminal álbum Feito em Casa (1977), marco da produção independente brasileira, costuma ser acompanhado por formações musicais mais compactas. Ele desejava investir em uma parceria corm um grupo maior, e ao ver um show da Orquestra Atlântica, percebeu que ali estava o time capaz de realizar seu desejo.

Na ativa desde 2012 e com um CD no currículo, a Orquestra Atlântica reúne onze músicos do primeiro time, entre os quais Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Marcos Nimrichter (piano e acordeon), Marcelo Martins (sax tenor e flauta) e Jorge Helder (baixo). Sua mistura de música brasileira, sons latinos e jazz se encaixa feito luva nas preferências musicais de Antonio Adolfo, e a parceria se mostrou certeira, levando-se em conta a qualidade deste álbum.

O repertório incluído traz 10 faixas, sendo nove delas composições recentes e antigas de Adolfo (duas delas em parceria com Tiberio Gaspar) e uma, Milestones, um clássico do repertório do mestre do jazz Miles Davis. Além dos músicos da Orquestra Tropical, temos participações especiais de feras do porte de Nelson Faria (violão), Zé Renato (vocalizações) e Leo Amuedo (guitarra), entre outros.

O som criado por eles é uma delícia de se ouvir, conciliando solos divididos generosamente entre os músicos envolvidos, belas melodias e variações rítmicas muito bem concatenadas. A sofisticação se mostra presente, mas sem deixar de lado aquele elemento que nos livra ao mesmo tempo do tecnicismo excessivo e da acessibilidade sem sal e digna do som de elevador. Temos aqui música elaborada e com raro requinte, mas para todos curtirem sem dificuldades.

A rigor, todas as faixas são dignas de serem citadas, mas pegarei apenas algumas como bons exemplos. Partido Samba-Funk, que abre o CD, tem ecos da Banda Black Rio, e energiza o ouvinte logo nos seus primeiros instantes. Capoeira Yá parte do som básico da trilha da capoeira rumo a algo mais consistente em termos musicais, enquanto África Bahia Brasil mergulha com classe e bom gosto em uma fusão afro-brasileira.

Sá Marina, uma das composições de maior sucesso de Antonio Adolfo, é relida com uma verve jazzística/bossa-novista que é um luxo, enquanto Milestones recebe um tempero brazuca, sem no entanto perder a sua essência. Novamente, esse mestre da música brasileira nos mostra como fazer música instrumental boa de se curtir e bem elaborada. Que essa inquietude continue nos proporcionando novos e ótimos trabalhos.

E vale ressaltar um último, porém muito importante, detalhe. As versões físicas em CD dos álbuns de Antonio Adolfo primam pelo bom gosto, com embalagem digipack sempre com capas lindas (a deste novo traz bela ilustração de Bruno Liberati) e com textos nos quais o artista explica sua abordagem musical. Capricho total!

leia mais textos de Mondo Pop sobre Antonio Adolfo aqui.

Encontros- Antonio Adolfo- Orquestra Atlântica (ouça em streaming):

Solano Ribeiro relembra MPB e belas histórias dos festivais

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Por Fabian Chacur

Quem começa a pesquisar sobre a era dos festivais chegará infalivelmente no nome de Solano Ribeiro. E não é para menos. Esse produtor de TV, rádio e publicidade teve participação fundamental nos principais eventos ligados ao tema no Brasil, dos anos 1960 aos dias de hoje. Em 2003, lançou Prepare Seu Coração- Histórias da MPB, livro relançado agora em edição revista e atualizada pela Kuarup. A noite de autógrafos em São Paulo será nesta terça (18) a partir das 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (avenida Paulista, 2.073- fone 3170-4033). No Rio de Janeiro, vai rolar no dia 2 de outubro (terça) na Livraria da Travessa do Leblon (avenida Afrânio de Melo Franco, nº 290- loja 205- fone 0xx21-3138-9600).

Solano Ribeiro nasceu em 1939, e começou sua trajetória no meio artístico na segunda metade da década de 1950, estudando e atuando em teatro e também integrando o grupo The Avalons, um dos pioneiros do rock paulistano. Logo se envolveu na produção de shows musicais e também de programas de TV e festivais televisivos. O seu trabalho nos festivais das TVs Excelsior, Record e Globo foi decisivo, especialmente nos aspectos criativos e organizacionais.

Com um texto na primeira pessoa bastante fluente, franco e direto, ele narra suas experiências nessa era de enorme criatividade na música brasileira. Do namoro com Elis Regina aos bastidores dos eventos, histórias que envolvem nomes que ajudou a impulsionar, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Edu Lobo e tantos outros. Ficamos sabendo também dos arranjos políticos, das lutas de egos, dos altos e baixos, das idas e vindas.

Dono de um temperamento forte que se evidencia em cada página de seu livro de memórias, Solano certamente deve ter desagradado alguns colegas com certas opiniões, mas demonstrou coragem ao colocar no papel as suas ideias e visões sobre cada evento no qual se envolveu. Nem mesmo nomes incensados por alguns, como o radialista e jornalista Zuza Homem de Mello e o empresário Paulinho Machado de Carvalho, da TV Record, escaparam da sua pena afiada.

Lógico que temos também momentos muito bem-humorados, incluindo até mesmo uma longa descrição de um affair amoroso de Solano com direito a detalhes eróticos. Suas lembranças gastronômicas também ocupam diversas páginas, assim como viagens e trabalhos não só em festivais, mas também em especiais feitos para TV no Brasil e na Alemanha, atuação em rádio, publicidade etc. Um profissional sempre inquieto, criativo e combativo em sua longa e produtiva trajetória.

Nas páginas de Prepare Seu Coração- Histórias da MPB, viajamos por um tempo incrível repleto de realizações, criatividade e também com direito a frustrações e fracassos. O legal é saber que Solano nunca desistiu de lutar pela criação de espaços para a MPB, sigla que, por sinal, ele afirma ter criado. Mais na ativa do que nunca, ele apresenta o programa de rádio Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil, criou o prêmio Cata-Vento, que premia os melhores da produção independente musical, além de criar o portal www.solanoribeiro.com.br . Sua história ainda irá longe, pelo andar da carruagem!

Solano Ribeiro fala sobre Festival de 1968:

Fred Falcão mostra o seu lado regional no CD Ser Tão Brasil

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Por Fabian Chacur

Após lançar o antológico álbum Leny Andrade Canta Fred Falcão-Bossa Nossa (leia a resenha aqui), o cantor, compositor e músico Fred Falcão volta com outro trabalho digno de ser devidamente apreciado. Trata-se de Ser Tão Brasil- Canções de Fred Falcão (Fina Flor), no qual traz como mote o lado mais regional de sua inspiração, ele que é pernambucano de Recife e radicado há décadas no Rio de Janeiro. Mais brasileiro, impossível.

Compositor inspirado e versátil, Fred foi gravado por artistas de áreas bem distintas, como Clara Nunes, Boca Livre, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga e Os Cariocas, entre outros. É exatamente essa capacidade de enveredar por vários estilos musicais com jogo de cintura que ele nos apresenta neste novo CD, no qual também dá vasão ao seu lado cantor e se mostra muito competente nessa área, dando conta do recado.

Inteligente, deu um espaço significativo no álbum para um bom valor da nova geração, a cantora Mariana Brant, sobrinha do grande e saudoso poeta mineiro Fernando Brant, um dos melhores parceiros de Milton Nascimento. Ela marca presença em cinco das doze faixas do álbum, emprestando a elas seu tom doce e bem utilizado, com destaque para as envolventes Valsa Sertaneja, Ser Tão Brasil e Faca de Ponta. A moça prova ter um ótimo potencial que tem tudo para gerar belos frutos.

Além de Mariana, o álbum traz outras presenças importantes. Entre outros, temos aqui Rildo Hora (harmônica), Elias Muniz (vocal), Manno Góes (vocal), Dirceu Leite (flauta e clarinete), Jaime Alem (viola caipira e viola 12 cordas), Lula Galvão (violão e guitarra), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria) e Marcelo Costa (percussão). Os arranjos e regências foram divididos por João Carlos Coutinho e Geraldo Vianna, com resultado expressivo e classudo.

O repertório passa por bolero, baião, xote, toada, canções e bossa nova, esta última a especialidade de Fred, que assina todas as músicas. Entre seus parceiros, temos aqui Antônio Cícero, Manno Góes, Elias Muiz, Aluizio Reis, Carlos Henrique Costa e Ronaldo Monteiro de Souza.

As envolventes melodias foram aliadas a letras impecáveis, versando sobre as várias vertentes do amor, memórias bacanas e impressões sobre o Brasil, com direito à citação de ícones da nossa música como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Altamiro Carrilho e Ademilde Fonseca.

Ser Tão Brasil equivale a uma deliciosa viagem por um universo musical oriundo da abençoada mestiçagem brasileira, fundindo ritmos e estilos e dando origem a uma sonoridade própria, típica da nossa terra e rica por natureza. E fica o registro: intérpretes talentosos/talentosas e de bom gosto em busca de músicas de qualidade deveriam procurar Fred Falcão urgente, pois o seu songbook não só é repleto de coisas boas, como também se renova e se amplia a olhos vistos.

Ser Tão Brasil– Fred Falcão e Mariana Brant:

Zé Brasil, o roqueiro classudo, lança primeiro CD solo em SP

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Por Fabian Chacur

Zé Brasil é merecedor da denominação “roqueiro classudo”. Afinal, com quase 50 anos de trajetória dedicado ao velho e bom rock and roll, nunca, jamais, perdeu a classe, mesmo perante as dificuldades que se apresentaram à sua frente nesse tempo todo. Ele enfim lança o seu primeiro álbum solo, autointitulado, e mostra esse trabalho em show em São Paulo na próxima sexta (31) às 21h30 na comedoria do Sesc Belenzinho (rua Padre Adelino, nº1.000- fone 0xx11-2076-9700), com ingressos custando de R$ 6,00 a R$ 20,00.

Na estrada desde 1970 e com passagens por EUA, Reino Unido, França e Espanha, Zé Brasil integrou bandas bacanas como Apokalypsis, UHF, Delinquentes de Saturno e Space Patrol, esta última um embrião da Patrulha do Espaço. Parceiro do mutante Arnaldo Baptista na música Cabelos Dourados (homenagem a Rita Lee), este cantor, músico, produtor e compositor já fez trabalhos com diversos nomes do rock brasileiro. Ele é uma cabeças pensantes do projeto 70 de Novo, que busca resgatar o espírito criativo e visionário do rock dos anos 1970.

Zé Brasil, o CD, que também está disponível nas principais plataformas digitais, traz 11 faixas, sendo dez delas inéditas e uma a releitura de sua faixa mais conhecida, Novo Eden, que ele gravou em parceria com a cantora e parceira de vida Silvia Helena. Trata-se de um trabalho dos mais consistentes, no qual ele mescla rocks básicos ótimos, como Borocoxô, Louco de Rock e Passarinho Rock And Roll, com baladas roqueiras bacanas como Segredo da Vida e Tudo a Ver.

A sonoridade do cara mescla rock básico, folk e muito mais, com influências de Bob Dylan, Jethro Tull e Beatles, entre outros. Temos até um reggae, Tudo a Ver. As letras trazem mensagens positivas e bom humor. Já Era de Aquarius, Maya, Peregrino e Victor são outros momentos importantes de um CD ótimo e repleto de personalidade. Opa, citei todas as faixas do álbum… E elas mereceram!

O disco conta com a participação de diversos músicos conhecidos com os quais Zé Brasil já trocou muitas figurinhas em sua carreira, entre os quais Edgard Scandurra (Ira!), Billy Forghieri (Blitz), Rolando Castello Junior (Patrulha do Espaço), Xando Zuppo (Harpia, Patrulha do Espaço), Adriano Grineberg e Jimmy Pappon, entre outros. Além, é claro, dos vocais de Silvia Helena. No show, Zé terá a seu lado Julio Manaf (guitarra), Mario Baraçal (baixo), Alexandre Barreto (bateria) e Silvia Helena (voz). Para ver, curtir e celebrar junto!

CD Zé Brasil-ouça em streaming:

Walk The Dog And Light The Light- Laura Nyro (1993)

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Por Fabian Chacur

Em 1993, Laura Nyro completou 26 anos de carreira discográfica. Durante esse período, tornou-se mais conhecida como compositora, embora fosse uma excelente intérprete, dona de uma discografia instigante. Naquele ano, a também cantora e pianista americana lançou o trabalho que tinha tudo para enfim elevá-la aos primeiros lugares das paradas de sucesso, o envolvente Walk The Dog And Light, lançado pela Columbia (hoje parte do conglomerado Sony Music). Só que não…

Laura teve um início precoce no mundo da música, e com apenas 18 anos já lançava seu álbum de estreia, More Than a New Discovery (1967), pelo pequeno selo Verve Folkways (seria relançado em 1973 com o título First Songs e outra sequência das músicas contidas nele). Desde o início, mostrava uma original mistura de soul, jazz, pop music tradicional e doo-wop, com um leve tempero de rock.

Ela participou do Monterey Pop Festival em 1967, e depois lançaria uma trilogia de álbuns que a tornou uma verdadeira unanimidade entre os colegas músicos, Eli And The Thirteenth Confession (1968), New York Tendaberry (1969) e Christmas And The Beads Of Sweat (1970), nos quais aliou introspecção, apelo pop, belas melodias, vocalizações atraentes e letras profundas e inteligentes.

Se esses trabalhos não conseguiram grandes números em termos de vendagens, atraíram outros artistas, que regravaram composições de sua autoria como Wedding Bell Blues, Stoned Soul Picnic, And When I Die, Save The Country e outras e, aí, sim, conquistaram os primeiros lugares das paradas de sucesso. Artistas como Barbra Streisand, The Fifth Dimension, Three Dog Night e Blood, Sweat & Tears foram alguns dos que se deram bem com suas canções.

Curiosamente, seu single de maior sucesso, Up On The Roof, é um cover, releitura de canção escrita por Carole King e Gerry Goffin e incluída no álbum Christmas And The Beads Of Sweat (1970). Em 1971, incentivada por tal êxito, gravou um álbum inteiro só de covers de soul e r&b ao lado do trio negro feminino Labelle, o delicioso Gonna Take a Miracle. Aí, com apenas 24 anos, ela resolveu sair de cena.

A partir do seu retorno ao mundo musical, ocorrido em 1976 com o álbum Smile, Laura passou a ter uma carreira marcada por alguns hiatos e ainda menos repercussão. Quando Walk The Dog And Light The Light chegou às lojas, em agosto de 1993, ela completava nove anos sem lançar um álbum de estúdio, período durante o qual só tivemos um LP ao vivo com algumas inéditas (Live At The Bottom Line, 1989).

Walk The Dog… equivale a uma consolidação da fase pós-retorno de Laura, na qual suas canções foram aos poucos ganhando um clima mais solto e relaxado, embora sem perder a consistência de seus anos de maior popularidade. A coprodução do experiente Gary Katz, conhecido por seus trabalhos ao lado do grupo Steely Dan, deu ao trabalho uma sonoridade concisa e consistente, o que a presença de músicos experientes ajudou a concretizar.

O álbum é aberto e encerrado com canções de outros autores. A deliciosamente delicada Oh Yeah Maybe Baby (The Heebie Jeebies), de Phil Spector, fez sucesso com o grupo vocal The Crystal em 1963. Um delicioso pot-porry une I’m So Proud, de Curtis Mayfield e hit com seu grupo The Impressions em 1964, e a célebre Dedicated To The One I Love, lançada em 1957 pelo grupo The 5 Royales e eternizada em regravações de The Shirelles e The Mamas And The Papas.

Lite a Flame (The Animal Rights Song) e Broken Rainbow são novas versões de musicas que ela havia gravado nos anos 1980. Combinadas com outras seis composições de Laura, temos aqui um álbum absolutamente perfeito, no qual tudo se encaixa feito luva. As letras, profundas, tem como temas o feminismo sem recalques, respeito aos animais e à natureza, a solidão da vida na estrada e até mesmo, de forma divertida, um ode à menstruação (a swingada The Descent Of Luna Rosé).

A performance vocal de Laura é provavelmente uma das melhores de sua carreira, efeito positivo de ela ter abandonado o vício do cigarro uns anos antes. Seu piano elegante e estiloso conduz tudo, ladeada por músicos do porte de Bernard Purdie (bateria), os irmãos Michael e Randy Brecker (metais), Michael Landau (guitarra) e outros do mesmo porte. E vale elogiar as harmonias vocais, com todas as vozes a cargo da própria artista. Simplesmente de arrepiar.

Embora sofisticadas, as canções não são complicadas a ponto de impedirem o público mais acostumado a música pop comercial de ouvi-las e assimilá-las. No entanto, o disco sequer passou perto dos charts americanos, e por tabela, dos de outros países. As rádios simplesmente ignoraram suas dez ótimas faixas.

Devem ter ajudado para tal resultado negativo o fato de a artista ter se recusado a participar de programas de TV para divulgar o disco (até mesmo o de David Letterman, fã confesso da artista), ou mesmo a falta de um empenho um pouco maior por parte da Columbia no intuito de impulsionar as vendas de seu produto discográfico.

Infelizmente, Walk The Dog And Light And Light The Light foi o último trabalho de inéditas lançado por Laura Nyro em vida. Ela nos deixou precocemente em abril de 1997, sendo que em 2001 seria lançado o álbum Angels In The Dark, com as gravações feitas por ela em 1994 e 1995 visando criar na verdade dois álbuns, um de inéditas e um de covers. Um verdadeiro crime contra a boa música esse CD ser tão pouco conhecido. Ouça e tente duvidar dessa afirmação!

Walk The Dog And Light The Light– Laura Nyro:

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