Mondo Pop

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Category: Resenhas (page 1 of 39)

Edu Lobo faz belas releituras de clássicos com parceiros ilustres

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Por Fabian Chacur

Em 2016, Edu Lobo se reuniu com o violonista Romero Lubambo e o saxofonista e flautista Mauro Senise para a gravação de um CD, Dos Navegantes, que chegou ao mercado discográfico e virtual em 2017. A qualidade do trabalho se mostrou tão grande que parecia inevitável um registro ao vivo, e é exatamente isso que a gravadora Biscoito Fino acaba de fazer, com o mesmo título do anterior, agora no formato DVD e também disponível em áudio digital nas plataformas digitais.

No palco, temos Edu Lobo nos vocais, relendo 16 de suas composições mais belas, cinco a mais do que o repertório do CD de estúdio. Oito são parcerias com Chico Buarque, sendo cinco delas extraídas da magistral e antológica trilha sonora de O Grande Circo Mistico. Temos também parcerias com Gianfrancesco Guarnieri, Cacaso, Torquato Neto, Paulo Cesar Pinheiro, Ronalto Bastos e Capinan. Equivale a uma bonita amostra da caudalosa e essencial obra desse grande cantor, compositor e músico carioca.

Ao lado desse mestre da música brasileira, hoje com 75 anos bem vividos, dois músicos com currículos invejáveis como Lubambo e Senise. Além deles, marcam presença o também consagrado pianista Cristóvão Bastos (em seis faixas), o percussionista internacional Mingo Araújo (em sete faixas) e o contrabaixista Bruno Aguiar (em 13 faixas). O formato é essencialmente acústico, com ênfase nos detalhes e nas sutilezas, abrindo caminho para que o canto delicado e delicioso de se ouvir de Edu Lobo flua sem medo de ser feliz.

O repertório não segue o formato de um greatest hits, tendo sido selecionado provavelmente entre as canções do vasto e ótimo repertório de Edu que melhor se encaixassem na proposta sonora premeditada para o show, gravado ao vivo no Rio de Janeiro no dia 13 de maio de 2017 na Sala Cecília Meirelles. Entre elas, maravilhas do naipe de Pra Dizer Adeus, Dos Navegantes, Valsa dos Clowns, O Circo Místico, Na Carreira, Beatriz, Valsa Brasileira e A História de Lily Braun.

Desde o início de sua carreira, na década de 1960, Edu Lobo se mostrou um compositor capaz de aliar sofisticação e simplicidade, conseguindo a proeza de fazer canções elaboradas plenamente capazes de atrair os ouvidos mais afeitos aos sons populares. Mesmo os mais arraigados fãs daquele tipo de música que pulula nas rádios e programas televisivos atuais do tipo Só Toca Top (eita título infame esse aí…) dificilmente não se renderão à beleza de Beatriz, A História de Lily Braun e Na Carreira, por exemplo. Ao lado de Mauro Senise, Romero Lubambo e seus outros músicos, ele mostra que música boa é para sempre.

Dos Navegantes, com Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise:

David Bowie em um CD duplo gravado ao vivo em tour de 78

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Por Fabian Chacur

Welcome To The Blackout (Live London ’78) é um CD duplo inédito de David Bowie gravado ao vivo durante sua turnê Isolar II realizada entre março e dezembro de 1978 e lançado no Brasil pela Warner em formato físico. Como já havia saído naquela época um álbum duplo ao vivo registrado na mesma tour, Stage, a pergunta inicial é: seria este novo lançamento indicado apenas aos colecionadores mais fanáticos e a completistas de plantão? A resposta é um solene e categórico não.

Logo de cara, vale a pena levar em conta as datas em que esses álbuns foram gravados. Stage é oriundo de shows realizados em 28 e 29 de abril e 5 e 6 de maio de 1978 em Filadélfia, Boston e Providence, nos EUA, quando tínhamos por volta de 20 shows realizados da Isolar II Tour. Welcome To The Blackout saiu de registros feitos nos dias 30 de junho e 1º de julho daquele mesmo ano, em Earls Court, Londres, com mais de 50 shows da turnê já feitos. Ou seja, este último álbum traz um show mais bem concatenado.

O set list de Welcome To The Blackout é basicamente o mesmo dos shows de 1978, enquanto o de Stage traz uma ordem de músicas bem diferente. Vale registrar que a reedição em CD de Stage lançada em 2005 apresenta pela primeira vez o set list original das apresentações ao vivo, sendo que a recentemente lançada caixa A New Career in a New Town (1977–1982) traz as duas versões desse álbum em seu conteúdo.

A Isolar II Tour mostrava um David Bowie investindo na sonoridade eletrônica, experimental e um pouco mais introspectiva do que em eras anteriores de sua trajetória, cujas marcas são exatamente os dois álbuns que ele lançou em 1977, Low e Heroes, e cujos repertórios são a base dos set list de Welcome To The Blackout. Completam o repertório diversas músicas de Ziggy Stardust (1972) e algumas outras pinçadas dos outros álbuns, devidamente adequadas à sonoridade daquela turnê.

Como de praxe em toa a trajetória de Bowie, a banda de apoio é excepcional, trazendo como destaques os guitarristas Adrian Belew e Carlos Alomar, o tecladista Roger Powell e o baterista Dennis Davis. Um time afiado, que criou uma moldura sonora tensa, urbana, claustrofóbica e metódica, mais do que adequada à performance estupenda de Bowie como cantor, apostando bem nas regiões mais graves de sua voz.

Das 24 músicas apresentadas, algumas delas instrumentais (como Warszawa e Sense Of Doubt), destacam-se as sublimes Heroes, Beauty And The Beast, Sound And Vision, Fame, Blackout e Station To Station, assim como uma hipnótica e insana releitura de Alabama Song (de Kurt Weill e Bertold Brecht, da década de 1920 e regravada pelos Doors em 1967). Mas, a rigor, não há uma única música fraca ou irregular.

Welcome To The Blackout (Live London ’78) flagra um dos maiores gênios da história do rock em um momento de criação fervilhante, no qual suas performances ao vivo se mostravam absolutamente essenciais para se ter uma ideia total da qualidade de seu trabalho. Ah, e mais uma vantagem deste álbum em relação a Stage: a capa, muito mais expressiva. O encarte traz belas fotos em preto e branco e uma resenha do show publicada na época. Para ouvir uma, duas, três, mil vezes.

Welcome To The Blackout-Live London ’78- ouça em streaming:

Road To Ruin, dos Ramones, é relançado com edição deluxe

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Por Fabian Chacur

Há 40 anos, chegava às lojas de discos Road To Ruin, quarto álbum dos Ramones e um dos melhores de sua carreira. Como forma de celebrar essa efeméride, a Warner Music lançou duas edições comemorativas, uma no formato Deluxe Edition contendo três CDs e um LP de vinil, e outra standard, em embalagem digipack dupla. Só a segunda sairá em formato físico no Brasil, sendo que a primeira estará disponível nas plataformas digitais.

A edição deluxe inclui o seguinte conteúdo: o CD 1 traz duas mixagens do álbum, uma a original remasterizada e a outra mais crua e feita especialmente para esta ocasião. O CD 2 tem versões alternativas e extras e o CD 3 traz material gravado ao vivo em 1979. O LP de vinil, de 180 gramas, vem com a mixagem original e remasterizada. O site da Amazon oferece o pacote por 45,85 dólares (em torno de R$ 170,00).

Road To Ruin, na versão física que já pode ser encontrada no Brasil, possui uma charmosa embalagem digipack com capa dupla incluindo cinco fotos do grupo e de seus integrantes, e poucas informações técnicas. Destoando do que era praxe nos relançamentos feitos pelo selo Rhino, hoje da Warner, não traz encarte com texto informativo ou coisa que o valha. Uma pena, pois valorizaria ainda mais o produto e o tornaria mais atrativo ao público em geral.

A remasterização é muito boa, dando ao álbum uma qualidade de áudio matadora e superior às versões anteriores. Algo bem legal, se levarmos em conta que Road To Ruin equivale a um momento no qual os Ramones buscavam ir além do punk rock cru e acelerado que havia marcado a sua trajetória até então. Mais melodias e sutilezas a caminho.

Um marco deste trabalho fica por conta de ser o primeiro com Marky Ramone na bateria. Seu antecessor, Tommy, passou a se dedicar totalmente à produção do álbum, que ele assina (com seu nome de batismo, T. Erdelyi. em parceria com Ed Stasium (que também trabalhou com Talking Heads, Living Colour e Smithereens).

O espírito “1,2,3,4,porrada!” dos discos anteriores se mostra em faixas como I Wanted Everything, I’m Against It, Bad Brain (que inspiraria o nome da célebre banda americana Bad Brains) e She’s The One. I Just Want To Have Something To Do, I Don’t Want You e It’s a Long Way Back seguem um compasso mais lento, com cara hard rock.

A vertente mais melódica surge em canções como Don’t Come Close, um roquinho delicioso com direito a base de violão e um belo solo de guitarra. Grande hit nos anos 1960 com a cantora americana Jackie DeShannon e o grupo britânico The Searchers, a maravilhosa balada rock Needles And Pins surge em uma releitura inspirada, na qual Joey Ramone mostra como a sua voz carismática e agressiva podia se tornar extremamente agradável em um contexto menos básico.

Questioningly os insere novamente no formato rock balada de forma certeira, com direito a violões e ao uso inspirado da slide guitar que certamente arrancaria sorrisos de George Harrison e Lulu Santos. E temos a provavelmente mais conhecida faixa deste trabalho, a endiabrada I Wanna Be Sedated, que equivale a uma mistura do punk básico com uma pegada new wave então emergente. Faixa enérgica, para levantar defuntos e agitar festas rockers!

Como um todo, Road To Ruin é um trabalho no qual Joey (vocal), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo) e Marky (bateria) demonstram maturidade, energia e uma vocação pop-rock inesperada. Se teve péssimo desempenho comercial na época (nº 103 na parada americana), acabou se tornando um clássico do rock, e boa prova de que os Ramones não eram tão repetitivos e básicos como alguns apressados podem pensar. Eles sabiam variar, e fazer rock melódico. Esta é a prova cabal!

Confira a tracklist completa de “Road To Ruin: 40th Anniversary Deluxe Edition”

Disco Um-
Original Mix Remastered

1.“I Just Want To Have Something To Do”
2.“I Wanted Everything”
3.“Don’t Come Close”
4.“I Don’t Want You”
5.“Needles And Pins”
6.“I’m Against It”
7.“I Wanna Be Sedated”
8.“Go Mental”
9.“Questioningly”
10.“She’s The One”
11.“Bad Brain”
12.“It’s A Long Way Back”

40th Anniversary Road Revisited Mix

13.“I Just Want To Have Something To Do”
14.“I Wanted Everything”
15.“Don’t Come Close”
16.“I Don’t Want You”
17.“Needles And Pins”
18.“I’m Against It”
19.“I Wanna Be Sedated”
20.“Go Mental”
21.“Questioningly”
22.“She’s The One”
23.“Bad Brain”
24.“It’s A Long Way Back”

Disco dois: “Rough Mixes & 40th Anniversary Extras”

1.“I Walk Out” (2018 Mix) *
2.“S.L.U.G.” (2018 Mix) *
3.“Don’t Come Close” (Single Mix)
4.“Needles And Pins” (Single Mix)
5.“I Just Want To Have Something To Do” (Basic Rough Mix) *
6.“I Don’t Want You” (Basic Rough Mix) *
7.“I’m Against It” (Basic Rough Mix) *
8.“It’s A Long Way Back” (Basic Rough Mix) *
9.“I Walk Out” (Basic Rough Mix) *
10.“Bad Brain” (Basic Rough Mix) *
11.“Needles And Pins” (Basic Rough Mix) *
12.“I Wanna Be Sedated” Take 2 (Basic Rough Mix) *
13.“I Wanted Everything” (Basic Rough Mix) *
14.“Go Mental” (Basic Rough Mix) *
15.“She’s The One” (Basic Rough Mix) *
16.“Questioningly” Take 2 (Basic Rough Mix) *
17.“S.L.U.G.” (Basic Rough Mix) *
18.“Don’t Come Close” (Basic Rough Mix) *
19.“I Wanna Be Sedated” (Backing Track) *
20.“I Don’t Want You” (Brit Pop Mix) *
21.“Questioningly” (Acoustic Version) *
22.“Needles And Pins” (Acoustic Version) *
23.“Don’t Come Close” (Acoustic Version) *
24.“I Wanna Be Sedated” (“Ramones-On-45 Mega-Mix!”)

Disco três: “Live At The Palladium, New York, NY, December 31 1979”

1.“Blitzkrieg Bop” *
2.“Teenage Lobotomy” *
3.“Rockaway Beach” *
4.“I Don’t Want You” *
5.“Go Mental” *
6.“Gimme Gimme Shock Treatment” *
7.“I Wanna Be Sedated” *
8.“I Just Want To Have Something To Do” *
9.“She’s The One” *
10.“This Ain’t Havana” *
11.“I’m Against It” *
12.“Sheena Is A Punk Rocker” *
13.“Havana Affair” *
14.“Commando” *
15.“Needles And Pins” *
16.“I Wanna Be Your Boyfriend” *
17.“Surfin’ Bird” *
18.“Cretin Hop” *
19.“All The Way” *
20.“Judy Is A Punk” *
21.“California Sun” *
22.“I Don’t Wanna Walk Around With You” *
23.“Today Your Love, Tomorrow The World” *
24.“Pinhead” *
25.“Do You Wanna Dance?” *
26.“Suzy Is A Headbanger” *
27.“Let’s Dance” *
28.“Chinese Rock” *
29.“Beat On The Brat” *
30.“We’re A Happy Family” *
31.“Bad Brain” *
32.“I Wanted Everything” *

*não divulgadas previamente

She’s The One (clipe)- Ramones:

Los 3 Plantados unem lindas mensagens ao rockão perfeito

Los Três Plantados - foto © Fernanda Chemale

Los Três Plantados – foto © Fernanda Chemale

Por Fabian Chacur

Se a vida te dá um limão, tente fazer dele uma limonada. Seguindo esse sábio ditado, os músicos gaúchos Bebeto Alves, King Jim e Jimi Joe resolveram encarar o desafio de viver com órgãos transplantados com bom humor, criatividade e, para nossa felicidade, rock and roll da mais pura qualidade. O resultado é o incrível CD Alimente a Vida, lançamento viabilizado por financiamento coletivo que une o útil ao agradável com categoria certeira.

O clima pra cima que permeia a união desses músicos já aparece logo no nome com que batizaram seu projeto coletivo, Los 3 Plantados (a versão Los Tresplantados também é válida). Eles só conseguiram se manter vivos graças a transplantes de fígado (dois deles) e rins (um deles). Sacaram a importância daquela milagrosa dose adicional de vida que receberam e se dedicaram ao tema como uma importante missão de conscientização geral.

Os caras envolvidos no projeto são muito importantes na cena roqueira gaúcha. Bebeto Alves é cantor, compositor e toca guitarra, violão e sax, com 40 anos de carreira impecável e discos incríveis no currículo como Canção Contaminada (leia a resenha de Mondo Pop aqui).

King Jim canta, compõe e toca sax, e integrou os Garotos da Rua, uma das grandes bandas do rock gaúcho nos anos 1980 e criadora de clássicos como Gurizada Medonha, Tô de Saco Cheio e Você é Tudo Que Eu Quero. E Jimi Joe, além de cantor, compositor e guitarrista dos bons, também é jornalista e radialista, tendo atuado no Estadão, Bizz e tantos outros órgãos de imprensa da área musical. Seriam eles os Traveling Wilburys gaudérios?

Adianto desde já que Los 3 Plantados conseguiram fugir de um possível didatismo exagerado ou mesmo uma abordagem piegas de assunto tão delicado como o da doação de órgãos. As letras das 12 canções incluídas no álbum abrangem diversos aspectos desse universo, mesclando sensibilidade, inteligência e bom senso como forma de mostrar a todos como é importante a solidariedade entre os seres humanos, e como também é possível abraçar uma vida bem bacana pós-transplante.

Em termos musicais, o som proposto pelo trio traz o rock como denominador comum, mas sem se limitar a um único rumo, colocando na mistura de forma criativa hard rock, folk, rockabilly, música latina, jazz, pop, funk de verdade e sonoridades gauchescas, conseguindo dessa forma um resultado pra lá de universal, mas com o sotaque local bem impresso. Coisa de quem tem talento e sabe juntar as peças desse quebra-cabeça rumo a algo que valha a pena.

Além dos capitães do projeto, o álbum conta com participações especiais de um elenco de músicos do mais alto gabarito, entre os quais Humberto Gessinger, Duca Leindecker, Luis Vagner, Biba Meira, Leandro Schirmer, Luciano Albo, Renato Borghetti, Marcelo Corsetti, Luke Faro e Thomas Dreher, entre outros. Um povo generoso que vestiu a camisa dos Los 3 Plantados com garra e fé.

As músicas são diversificadas e poderosas. Los 3, por exemplo, vai em uma linha acústica de folk latino. Planos exala um clima hard rock na melhor tradição AC/DC. Alimente a Vida é puro jazz tradicional, enquanto Balão de Gás mescla melodia pop com uma levada swingada que é simplesmente deliciosa.

Voo Astral equivale a uma balada rock viajante. INSS, com uma letra bem irônica, soa como George Harrison em sua carreira solo, enquanto a endiabrada Gota é um rockão compassado que ecoa os magníficos Tom Petty And The Heartbreakers. Sensível é o momento mais gauchesco, enquanto O Melhor Instrumento é a Voz fecha o CD com fortes ecos dos Beatles em sua fase psicodélica, lá pelos idos de 1967.

Essencialmente, este álbum é uma energética, criativa e eficiente profissão de fé na vida, uma reunião de três craques gaúchos do rock and roll na qual o bom humor, a generosidade e a sensibilidade à flor da pele geraram um trabalho antológico, que merece ser muito mais conhecido e que tem não só grande mérito temático, como principalmente artístico. Ou, indo direto ao assunto: um discaço de rock and roll gaúcho que você deve ouvir agora!

Uma Gota (clipe)- Los 3 Plantados:

Toquinho comemora 50 anos de bela carreira com DVD/CD

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Por Fabian Chacur

Toquinho é um desses nomes tão grandes da nossa música popular que às vezes pode parecer que é menos louvado do que deveria. Mas há uma explicação para isso: sua elegância. Cantor, compositor, violonista, ele mantém desde o início de sua carreira, na década de 1960, uma postura humilde, sóbria e sem cair em excessos ou estrelismo. Para comemorar meio século de trajetória artística, ele acaba de lança o DVD/CD 50 Anos de Carreira (Deck), um trabalho enxuto, bem feito e à altura da trajetória desse craque da canção popular brasileira.

Antonio Pecci Filho, nascido em São Paulo em 6 de julho de 1942 e apelidado Toquinho pela mãe, tornou-se conhecido ao lançar parcerias com Jorge Ben como Carolina Carol Bela e Que Maravilha. A seguir, tornou-se parceiro de palcos, discos e composições de ninguém menos do que Vinícius de Moraes. A dupla, com enorme sucesso de público e critica, durou uma década, encerrando-se apenas devido à morte prematura do grande Poetinha em 1980.

Como artista solo, consagrou-se de vez com o estouro de Aquarela, em 1983, e não só lançou trabalhos individuais bem bacanas como também manteve parcerias com craques como Paulinho da Viola, Chico Buarque, MPB-4, Sadao Watanabe e vários outros. Nos últimos anos, mostrou-se aberto ao intercâmbio com as novas gerações, atuando ao lado de Paulo Ricardo, Tiê, Veronica Ferriani e Anna Setton, por exemplo.

O DVD/CD equivale a uma pequena amostra dessa trajetória, gravado ao vivo em duas sessões no dia 25 de março de 2016 no Teatro WTC, Hotel Sheraton, em São Paulo. A seu lado, uma banda composta por Guga Machado (percussão), Ivâni Sabino (baixo), Nailor Proveta Azevedo (clarinete e sax alto) e Pepa D’Elia (bateria), um time afiado que se mostra muito adequado e ensaiado para acompanhar um dos melhores violonistas brasileiros de todos os tempos.

O repertório dos 55 minutos de show traz 24 músicas acomodadas em 14 faixas, sendo apenas uma delas de fora do repertório do artista, A Noite, sucesso da cantora Tiê que ela interpreta ao lado de seu padrinho artístico. De resto, temos desde o primeiro sucesso, Que Maravilha, até a recente Quem Viver Verá, de 2011. Além de Tiê, participam Anna Setton, Verônica Ferriani, Mutinho e Paulo Ricardo.

Com efeitos cênicos simples e bem concatenados, entre os quais três telões com imagens ilustrando cada canção, o show traz Toquinho à vontade, cantando com sua voz agradável e doce e contando pequenos ‘causos’ entre uma música e outra, entre os quais uma deliciosa recordação de episódio envolvendo sua assumida hipocondria. Da ótima banda, o destaque é o lendário Proveta, que dá um colorido especial às canções com seus belos e inspirados solos.

Da fase com Vinícius, temos representadas A Tonga da Mironga do Kabuletê, Tarde em Itapoã (dueto com Paulo Ricardo), Samba de Orly e O Velho e a Flor/Veja Você (dueto com Verônica Ferriani), entre outras. As canções dedicadas ao público infantil aparecem em um pot-pourry que traz A Casa, O Pato, O Ar (O Vento), A Bicicleta e O Caderno.

Os megahits Que Maravilha, Turbilhão (dueto com o parceiro Mutinho) e Aquarela não poderiam ficar de fora, e não ficaram. Nos extras do DVD, temos pequenos depoimentos de amigos como Galvão Bueno, Roberto Menescal, Zico, Eliane Elias e Ivan Lins, e 10 minutos deliciosos nos quais Toquinho mostra seu talento como solista de violão, tocando sozinho e em estúdio maravilhas como Abismo de Rosas, Bachianinha nº 1 (do seu mestre Paulinho Nogueira) e Gente Humilde, entre outras.

Toquinho 50 Anos de Carreira equivale a uma deliciosa viagem por uma carreira repleta de boas músicas, feitas e interpretadas por um artista que nunca se valeu de recursos reprováveis para fazer sucesso e conseguiu sua popularidade de forma justa e mais do que merecida. Usando versos de seu eterno parceiro naquela célebre canção com a grife Tom & Vinícius: “se todos fossem iguais a você, que alegria viver”…

obs.: e falar o que dessa bela capa, do sempre genial Elifas Andreato?

Tarde em Itapoã– Toquinho e Paulo Ricardo:

Bixiga 70 destila grooves com categoria em Quebra-Cabeça

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Por Fabian Chacur

Durante algum tempo no Brasil, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, música instrumental era quase que sinônimo de sonoridades intrincadas e melhor entendidas por estudiosos do que pelo público em geral. Nada contra, mas fazia falta quem se dedicasse a investir em um som sofisticado, mas sem perder o groove jamais. E é exatamente esta a marca registrada do excepcional grupo paulistano Bixiga 70, que nos oferece outro petardo, o CD Quebra-Cabeça, lançado pela gravadora Deck em parceria com o selo Traquitana.

O Bixiga 70 surgiu lá pelos idos de 2010, quando o tecladista Maurício Fleury reuniu uma turma de músicos que frequentavam e atuavam no estúdio Traquitana, situado na rua 13 de Maio, nº 70, no tradicional bairro paulistano do Bixiga, para gravar a música Grito de Paz. Como ele me disse em entrevista, “íamos gravar apenas uma música, e acabamos criando uma banda”. Melhor para eles e melhor para nós.

O time é integrado por Décio 7 (bateria), Marcelo Dworecki (baixo), Cris Scabello (guitarra), Mauricio Fleury (teclado e guitarra), Rômulo Nardes e Gustávo Cék (percussão), Cuca Ferreira (sax barítono), Daniel Nogueira (sax tenor), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete). Embora todos sejam craques em seus respectivos instrumentos, eles jogam sempre em função do grupo, sem exibicionismos tolos. O resultado final sempre fala mais alto.

Quebra-Cabeça é o quarto álbum dessa intrépida trupe, e mostra que o entrosamento e a criatividade deles continua com forte viés de alta em termos qualitativos. Aqui, o que manda é o groove, o balanço, o diálogo democrático entre os instrumentos, resultando em uma massa sonora deliciosa de se ouvir e deliciosa de se ter como trilha sonora para dançar até a sola do sapato, sapatilha, tênis etc se desgastar por completo.

Os elementos utilizados na mistura são diversos, especialmente afrobeat, rock, soul, funk de verdade, latinidade a la Carlos Santana, jazz, música brasileira em geral e temperos que a gente nem consegue definir, de tão refinados. Não é de se estranhar que eles tenham no currículo shows pelos quatro cantos do mundo, incluindo participações marcantes em festivais de música como Glastonbury (Inglaterra) Roskilde (Dinamarca) e Womad Austrália/Nova Zelândia.

O álbum traz 11 faixas, todas muito boas, a começar da hipnótica faixa título, divulgada com um clipe que se vale como cenário do estúdio Traquitana e de pontos bacanas do Bixiga. Psicodelia, latinidade, afro-jazz, chame como quiser. Ilha Vizinha, Primeiramente, Camelo, Areia, Pedra de Raio, é uma faixa melhor do que a outra. Do Brasil para o mundo, um som capaz de energizar até zumbis. Ouça sem moderação.

Quebra-Cabeça (clipe)- Bixiga 70:

ClaudetteSoares-AlaídeCosta são realmente o fino da bossa

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Por Fabian Chacur

Muitas homenagens aos 60 anos da Bossa Nova estão sendo feitas neste ano, e uma das mais louváveis e bem realizadas acaba de chegar às lojas e às plataformas digitais. Trata-se do estupendo álbum 60 Anos de Bossa Nova, lançado pela gravadora Kuarup e que reúne duas expoentes do gênero, as cantoras Claudette Soares e Alaíde Costa. O show de lançamento no Rio ocorre nesta terça (9) às 21h o Theatro Net Rio (rua Siqueira Campos, nº 143- 2º piso- fone 0xx21-2147-8060), com ingressos de R$ 50,00 a R$ 100,00.

As cariocas Claudette e Alaíde estavam na área quando João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros mestres desse naipe deram o pontapé inicial no gênero musical que somou o swing do samba com a elaboração do jazz. Foram participantes desde o começo, e ajudaram a divulgar essa “batida diferente” no Rio e principalmente em São Paulo, onde elas se radicaram ainda na década de 1960. Ou seja, as moças possuem conhecimento suficiente para encarar a tarefa.

Com produção musical a cargo de Thiago Marques Luiz, que há muito já virou uma verdadeira grife desses projetos envolvendo craques da nossa música com muita estrada nas costas, as duas intérpretes foram acompanhadas no show que deu origem ao álbum e gravado em 23 de março de 2018 em São Paulo no Teatro Itália por Giba Estebez (produção musical, arranjos e piano), Renato Loyola (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria, o célebre Naminha, que integrou o grupo Língua de Trapo na década de 1980).

Com arranjos classudos e despojados a acompanha-las, as cantoras deram conta do recado diante de um repertório composto por 18 faixas, sendo algumas delas pot-pourris. Em alguns momentos elas atuam juntas, mas na maior parte se incumbem de blocos solo. A seleção traz canções integrantes do songbook máximo da bossa, entre as quais Insensatez, Dindi, Caminhos Cruzados, Chega de Saudade, O Barquinho, Os Grilos, Oba-la-la e Vem Balançar, só para citar algumas.

Os estilos das protagonistas se mostram bem claros. Alaíde é mais contida, discreta e doce, brilhando muito nos momentos intimistas. Por sua vez, Claudette é serelepe, sabendo alternar partes introspectivas com momentos de puro swing, encantando e sendo capaz de conquistar até o ouvinte mais distante e cético em relação ao gênero musical homenageado. A interação entre as duas é ótima e cordial, proporcionando momentos de raro prazer ao ouvinte.

60 Anos de Bossa Nova flui deliciosamente em sua viagem encantadora pelas preciosidades bossa novísticas, e demonstra que Claudette e Alaíde se mantém em plena forma, capazes ainda de oferecer a seus inúmeros fãs shows maravilhosos e discos com este altíssimo padrão artístico e técnico. Prova mais do que concreta de que elas continuam o fino da bossa, 60 anos depois, e que esse repertório é para sempre.

60 Anos de Bossa Nova- ouça em streaming:

Maestrick mostra como fazer prog metal bom de se ouvir

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Por Fabian Chacur

Das várias ramificações do heavy metal, o prog metal é certamente uma das mais fadadas aos excessos. Bandas desse gênero às vezes se entusiasmam com suas qualidades técnicas e extrapolam, deixando a música de lado em prol do ego e do tecnicismo exagerado. E é exatamente o fato de não cair nessa armadilha que torna a banda Maestrick uma das melhores do gênero. A prova é seu novo CD, o impecável Espresso Della Vita-Solare.

Criada em São José do Rio Preto (SP) em 2006, esta banda tem como núcleo Fabio Caldeira (vocal e piano), Renato “Montanha” Somera (baixo e vocal) e Heitor Matos (bateria e percussão). No currículo, o elogiado CD de estreia Unpuzzle! (2011) e o ótimo EP de releituras de clássicos alheios The Trick Side Of Some Songs (2016). Suas principais influências são o Queen dos anos 1970, Iron Maiden, Rush e Yes.

Misturando essas e outras influências, a banda também se mostra muito atenta no quesito canções, respeitando esse importante formato e acrescentando a ele espaços para solos instrumentais sempre muito bem concatenados. Não por acaso, as bandas citadas e outras bacanas da área progressiva também tem em comum esse culto às canções, mesmo expandido seus horizontes instrumentais e vocais sem amarras nem restrições prévias limitadoras.

O conceito em torno do projeto é o de comparar a vida humana a uma viagem de trem, com suas idas e vindas, seus momentos inesperados, alegrias e tristezas e, inevitavelmente, o fim do trajeto. O álbum Espresso Della Vita- Solare é a primeira parte, com 12 faixas dedicadas a cada hora do dia, sendo que em um futuro não muito distante teremos sua conclusão, um novo CD com o título de Expresso Della Vita-Lunare, trazendo 12 faixas “noturnas”, digamos assim.

A qualidade artística deste álbum é impecável em todos os aspectos-artísticos, concepção, técnicos, de execução etc. A produção, mixagem e masterização ficaram a cargo do experiente produtor catarinense Adair Daufembach, que já trabalhou com Tony MacAlpine, Hangar, Project46 e outros e, de quebra, ainda se incumbiu de gravar todas as passagens e solos de guitarra do álbum, de forma brilhante, por sinal.

Espresso Della Vita-Solare é uma profissão de fé no formato álbum, pois você começa a ouvir a primeira faixa e só consegue parar após o último acorde da faixa 12, tal a capacidade de envolvimento que esse material possui. As variações musicais são constantes, mas sempre realizadas de forma organizada e coerente, surpreendendo pelo bom gosto.

O clima quase messiânico de Across The River, a levada repleta de brasilidade de Penitência (única faixa em português), as canções melódicas Daily View e Water Birds, a intrincada e deliciosa The Seed e a impregnada de sonoridades latinas Hijos de La Tierra trazem vocais impecáveis, instrumental vibrante e sonoridades que nos permitem imaginar a viagem proposta pelo conceito, com letras profundas.

Além dos músicos da banda e de seu produtor, o álbum também traz diversos vocalistas e músicos convidados, num total de 23 deles, dando ao trabalho um clima beirando o sinfônico no qual os teclados são a base de tudo. Banjo, dobro e ukulelê, instrumentos nem sempre utilizados no rock, aparecem em algumas das canções, caprichando no tempero sonoro. E, como a cereja do bolo, temos a belíssima capa e encarte do CD físico, em embalagem digipack e qualidade compatível com a do conteúdo artístico que ela contém.

Para aqueles que insistem em ignorar a qualidade do heavy metal brasileiro, vale uma audição urgente deste Espresso Della Vita-Solare, um trabalho que esbanja ambição, criatividade e um resultado final digno de ser chamado de arte. A banda, cujos CDs saem no exterior e mereceram muitos elogios por parte da crítica especializada de lá, inicia nos próximos dias uma turnê europeia que tem tudo para ser impecável.

Espresso Della Vita- Solare- ouça em streaming:

Lô Borges resgata um de seus álbuns clássicos em belo DVD

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Por Fabian Chacur

Em 1972, com apenas 20 anos de idade, Lô Borges surpreendeu aos fãs de música brasileira ao lançar dois trabalhos que com o tempo seriam consagrados como antológicos. Um é Clube da Esquina, álbum duplo que gravou em parceria com o amigo e mentor Milton Nascimento. Outro, um álbum solo autointitulado hoje mais conhecido como “Disco do Tênis”. Hoje curtindo a maturidade de seus 66 anos, ele resgata o repertório desses dois trabalhos seminais no DVD Tênis+Clube- Ao Vivo No Circo Voador, lançado pela gravadora Deck. Desde já, um dos grandes lançamentos deste 2018. Sublime é pouco!

Lô Borges marcou sua trajetória musical como autor de algumas das mais belas e enigmáticas canções do repertório pop brasileiro. Misturando com maestria folk, rock, country, MPB e experimentalismo, ele rapidamente se firmou como um dos grandes nomes a despontar do time de craques capitaneados por Milton Nascimento que recebeu o nome geral de Clube da Esquina. Se não fez tanto sucesso como o Bituca ou mesmo Beto Guedes, ele possui porte artístico compatível.

Em sua belíssima discografia, repleta de grandes momentos, o “Disco do Tênis” (ouça aqui) é certamente um dos mais badalados. O repertório do novo DVD do cantor, compositor e músico mineiro traz as 15 faixas daquele álbum (tocadas em ordem diferente da do LP original), as oito assinadas por Borges em Clube da Esquina e Para Lennon e McCartney, uma das primeiras composições dele a serem gravadas, mais precisamente por seu mestre e amigo, no LP Milton (1970).

Gravado ao vivo no Circo Voador (RJ) no dia 23 de março, o DVD nos traz um show sóbrio e elegante em termos visuais, sem grandes efeitos ou elementos cenográficos. O foco é todo na parte musical do espetáculo, e aí estamos diante da total e completa excelência, a começar pelos seis músicos selecionados por Lô, que toca guitarra, violão e caxixi, além de cantar com uma voz deliciosamente madura.

O capitão do time é Pablo Castro (vocal, piano, violão, guitarra), que além de ser o diretor musical da coisa toda ainda dá um banho de sensibilidade e talento ao reproduzir com rara competência os vocalizes feitos por Milton Nascimento na gravação original de Clube da Esquina Nº 2. Aliás, o projeto foi levar ao palco os arranjos originais gravados nos álbuns de 1972, e a missão não poderia ter sido melhor cumprida.

Além de Pablo, integram a banda os excelentes Gui de Marco (guitarra, violão, percussão e vocais), Paulim Sartori (baixo, bandolim, percussão e vocais), D’Artagnan Oliveira (bateria, percussão e vocais), Dan Oliveira (guitarra, violão, percussão e vocais) e Alê Fonseca (teclados e programações), um elenco que não se preocupou apenas em “tocar igualzinho”, mas sim de trazer para o palco a emoção contida em cada uma dessas canções admiráveis.

Tocando perante um Circo Voador lotado e com plateia gritando “Lô, eu te amo” desde o início, o mestre mineiro da canção esbanja simpatia, evidente timidez e emoção em músicas divinas como Você Fica Melhor Assim, Pensa Você, Aos Barões, Canção Postal, Tudo Que Você Podia Ser, Nuvem Cigana, Paisagem da Janela… São 78 minutos de puro prazer, um belo culto a canções que equivalem a um verdadeiro bálsamo sonoro em tempos tão difíceis como os atuais.

Clube da Esquina Nº2 (ao vivo)- Lô Borges:

Antonio Adolfo grava CD com a ótima Orquestra Atlântica

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Por Fabian Chacur

Antonio Adolfo serve como bom exemplo de como a atividade profissional constante e bem planejada ajuda o ser humano a se manter eternamente jovem e inquieto. Aos 71 anos de idade, este pianista, compositor, arranjador e produtor carioca recusa-se a deitar nos muitos louros de uma carreira impecável, trabalhando bastante e nos proporcionando novos lançamentos. O mais recente é o CD Encontros, que inicia sua parceria com a ótima Orquestra Atlântica.

Habitualmente, o autor do seminal álbum Feito em Casa (1977), marco da produção independente brasileira, costuma ser acompanhado por formações musicais mais compactas. Ele desejava investir em uma parceria corm um grupo maior, e ao ver um show da Orquestra Atlântica, percebeu que ali estava o time capaz de realizar seu desejo.

Na ativa desde 2012 e com um CD no currículo, a Orquestra Atlântica reúne onze músicos do primeiro time, entre os quais Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Marcos Nimrichter (piano e acordeon), Marcelo Martins (sax tenor e flauta) e Jorge Helder (baixo). Sua mistura de música brasileira, sons latinos e jazz se encaixa feito luva nas preferências musicais de Antonio Adolfo, e a parceria se mostrou certeira, levando-se em conta a qualidade deste álbum.

O repertório incluído traz 10 faixas, sendo nove delas composições recentes e antigas de Adolfo (duas delas em parceria com Tiberio Gaspar) e uma, Milestones, um clássico do repertório do mestre do jazz Miles Davis. Além dos músicos da Orquestra Tropical, temos participações especiais de feras do porte de Nelson Faria (violão), Zé Renato (vocalizações) e Leo Amuedo (guitarra), entre outros.

O som criado por eles é uma delícia de se ouvir, conciliando solos divididos generosamente entre os músicos envolvidos, belas melodias e variações rítmicas muito bem concatenadas. A sofisticação se mostra presente, mas sem deixar de lado aquele elemento que nos livra ao mesmo tempo do tecnicismo excessivo e da acessibilidade sem sal e digna do som de elevador. Temos aqui música elaborada e com raro requinte, mas para todos curtirem sem dificuldades.

A rigor, todas as faixas são dignas de serem citadas, mas pegarei apenas algumas como bons exemplos. Partido Samba-Funk, que abre o CD, tem ecos da Banda Black Rio, e energiza o ouvinte logo nos seus primeiros instantes. Capoeira Yá parte do som básico da trilha da capoeira rumo a algo mais consistente em termos musicais, enquanto África Bahia Brasil mergulha com classe e bom gosto em uma fusão afro-brasileira.

Sá Marina, uma das composições de maior sucesso de Antonio Adolfo, é relida com uma verve jazzística/bossa-novista que é um luxo, enquanto Milestones recebe um tempero brazuca, sem no entanto perder a sua essência. Novamente, esse mestre da música brasileira nos mostra como fazer música instrumental boa de se curtir e bem elaborada. Que essa inquietude continue nos proporcionando novos e ótimos trabalhos.

E vale ressaltar um último, porém muito importante, detalhe. As versões físicas em CD dos álbuns de Antonio Adolfo primam pelo bom gosto, com embalagem digipack sempre com capas lindas (a deste novo traz bela ilustração de Bruno Liberati) e com textos nos quais o artista explica sua abordagem musical. Capricho total!

leia mais textos de Mondo Pop sobre Antonio Adolfo aqui.

Encontros- Antonio Adolfo- Orquestra Atlântica (ouça em streaming):

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