Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Resenhas (page 2 of 43)

Odair José solta o verbo em mais um belo álbum roqueiro e rebelde

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Por Fabian Chacur

Em 2015, com o álbum Dia 16 (leia a resenha de Mondo Pop aqui), Odair José iniciou uma trilogia roqueira que prosseguiu em 2016 com Gatos e Ratos (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Agora, chega a vez de Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio, outro trabalho vigoroso, criativo e com uma assinatura forte e própria. Coisa fina! Uma profissão de fé no nosso velho e bom rock and roll feita no capricho e com letras rebeldes e incisivas.

Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio impressiona bem a partir da embalagem digipack do CD, com direito a encarte caprichado e visual com arte a cargo de Roger Marx que traz desenhos ilustrando a temática das letras. A produção incrível em termos visuais e sonoros conseguiu ser viabilizada graças ao apoio do Proac (programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo), com distribuição a cargo do ótimo selo goiano Monstro Discos, um dos mais ativos do indie rock brasileiro. Aliás, muito legal essa parceria entre eles e um dos mais importantes artistas goianos de todos os tempos.

Com 11 músicas, o álbum teve seu nome criado a partir da união dos títulos das três faixas que o abrem. A sonoridade lembra o rock com tempero blues e hard da década de 1970, pontuado por riffs de guitarra bem bacanas, teclados e a inclusão de gaita e metais aqui e ali. A voz de Odair nunca esteve melhor, algo incrível para quem completou 70 anos em agosto do ano passado. Sinal de que o cara está se cuidando muito bem, especialmente se levarmos em conta a intensidade de cada uma dessas canções.

As letras trazem temas bem atuais unidos a outros bastante presentes na obra do cantor, compositor e músico goiano, mas que também permanecem inseridos no contexto das pessoas. A paixão por descobrir as coisas pelas ondas do rádio (Ouvindo Rádio), a necessidade de dar uma respirada em meio ao caos que vivemos (Hibernar) e a busca do prazer com as “damas da noite” ou com quem quer que seja (Na Casa das Moças, Gang Bang, Liberado, Fetiche) estão em cena.

A obsessão pelas redes sociais é detonada em Fora da Tela, enquanto o lamentável e absurdo apoio do governo atual à liberação geral da posse de armas sofre forte questionamento na virulenta Chumbo Grosso.

O espírito daquele cara que vem do interior para encarar a vida nos grandes centros surge em Rapaz Caipira e Imigrante Mochileiro, e o dia-a-dia nessas cidades inspirou Pirata Urbano. Além de uma excelente banda, o disco também traz participações de Toca Ogan e Jorge du Peixe (da Nação Zumbi) e das cantoras do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira. Timaço que dá show de rock.

Após viver longos períodos fora da mídia e sem poder fazer aquilo que realmente desejava, hoje Odair José usufrui com categoria da liberdade artística que conquistou a duras penas, como prova esse muito bacana Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio. Quem sai no lucro somos nós. Que venham mais coisas boas pela frente, quem sabe um DVD gravado ao vivo com esse repertório roqueiro ou coisa do gênero. Pois agora, quem dá as cartas é ele. Melhor assim!

Ouça Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio na íntegra:

Boca Livre celebra 40 anos de estreia com Viola de Bem Querer

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Por Fabian Chacur

Em 1979, saía pela via independente o álbum de estreia do Boca Livre. Não demorou para que se tornasse um verdadeiro fenômeno, pois mesmo sem a ajuda das grandes gravadoras, atingiu em cheio o grande público e ultrapassou a marca das 100 mil cópias vendidas. E aquilo era só o começo de uma trajetória belíssima. Quatro décadas depois, o quarteto carioca celebra a efeméride com Viola de Bem Querer, um trabalho que os mantém em seu alto patamar de qualidade artística.

Quando fiquei sabendo do novo título do álbum do Boca Livre, imaginei que se trataria de um trabalho retrospectivo de seus maiores sucessos, pois a frase remetia a dois grandes hits da banda, Quem Tem a Viola e Toada (Na Direção do Dia). Errei feio! Na verdade, Viola de Bem Querer é uma composição do jovem cantor, compositor e músico paulista Breno Ruiz, lançada por ele em seu álbum Cantilenas Brasileiras, lançado em 2016 pela via independente.

Com letra a cargo do consagrado Paulo Cesar Pinheiro, esta belíssima canção, curiosamente, foi gravada por Breno em versão na qual temos ele cantando e tocando piano (seu instrumento habitual) e acompanhado por Igor Pimenta (baixo acústico). Ou seja, não tem viola! Na releitura feita pelo Boca, o instrumento se faz presente, reforçando sua mensagem simples e encantadora.

A formação atual do Boca Livre é a sua mais estável nesses 41 anos de estrada, com Zé Renato (voz e violão), Mauricio Maestro (voz, baixo e violão), David Tygel (voz e viola) e Lourenço Baeta (voz, violão e flauta). Desde o início, investem em uma sonoridade que traz como influências mais visíveis o Clube da Esquina, a ala mais melódica do rock rural, bossa nova e outras vertentes bacanas da nossa música popular. Isso, dando continuidade à tradição de grandes grupos vocais brasileiros, como MPB-4 e Os Cariocas.

Viola de Bem Querer, como um todo, os mostra no geral com uma ênfase no som mais rural, o que transparece logo na capa e nas fotos incluídas no belo encarte da versão em CD deste trabalho. São nove faixas no total. O padrão habitual se mantém, com algumas composições de integrantes do time, como as belas Santa Marina (parceria de Lourenço Baeta com o poeta Cacaso), Noite (escrita por Zé Renato com a genial Joyce Moreno, autora de um dos pontos altos do álbum de estreia, Mistérios, feita com Mauricio Maestro), Eternidade (Mauricio Maestro) e a instrumental O Paciente (David Tygel).

Somadas às autorais, temos composições alheias escolhidas a dedo, como a deliciosa Um Paraíso Sem Lugar (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), e clássicos perenes da música brasileira em encantadoras adaptações personalizadas. Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos) vem do Clube da Esquina, enquanto Um Violeiro Toca (Almir Sater e Renato Teixeira) sai do berço da canção rural brasileira. A surpresa fica por conta de Vida da Minha Vida (Moacyr Luz e Sereno), hit na voz de Zeca Pagodinho que aqui ganhou contornos latinos e percussivos.

Além dos quatro se desdobrando em vocais e instrumentos musicais, o disco conta com participações de músicos do porte de Pantico Rocha (bateria, conhecido por seu trabalho com Lenine), João Carlos Coutinho (piano elétrico), Bernardo Aguiar (pandeiro), Thiago da Serrinha (percussão) e Marcelo Costa (percussão). A sonoridade delicada e envolvente do grupo se mostra muito bem preservada, enfatizando os belos arranjos vocais, dividindo-se entre uníssomos, solos e vocalizações elaboradas e encantadoras.

Muito legal ver um grupo celebrar 40 anos de seu disco de estreia com um trabalho que não soa saudosista ou redundante. Aqui, o que temos é a fidelidade intensa e entusiástica a um estilo próprio de se fazer música, sem se render a modismos ou tendências do cenário musical, e oferecendo apenas o melhor a quem os acompanha nesses anos todos. Da mesma forma que ouvimos até hoje Boca Livre (o álbum) com o mesmo prazer de 1979, certamente este Vida da Minha Vida continuará encantando daqui a muitos e muitos anos.

Viola de Bem Querer– Boca Livre:

Meu Tio e o Joelho de Porco na programação do Canal Brasil

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Por Fabian Chacur

Em 1988, um certo Rafael perdeu precocemente seu pai, o empresário Sérgio Terpins, vítima de um infarto. A presença de seu tio Tico o ajudou bastante a lidar com uma perda tão terrível e repentina. Dez anos depois, é Tico que se vai, também antes do que se imaginaria. Em 2018, agora cineasta, Rafa nos oferece um delicado relato sobre esse parente tão peculiar, que para o público em geral tem relevância como o criador da incrível banda Joelho de Porco. Trata-se de Meu Tio e o Joelho de Porco, delicioso documentário que o Canal Brasil exibe nesta quinta (30) às 18h45, sexta (31) às 15h45 e domingo (2-6) às 10h55.

É importante ter em mente essa dualidade de intenções do documentário para apreciá-lo melhor. Não se trata de um filme exclusivamente sobre o grupo paulistano surgido em 1972 e criado pelo cantor, compositor e baixista Tico Terpins em parceria com o vocalista Próspero Albanese, que ele conheceu nos tempos de colégio. Ou seja, análises um pouco mais detalhadas dos álbuns lançados pela banda, suas influências musicais, algumas contradições em sua trajetória e mesmo opiniões de críticos ficaram de fora, mostrando que um segundo filme só sobre o grupo em si seria mais do que bem-vindo.

Mas a relação entre Rafael e seu tio famoso, explicitada na tela, nos ajuda muito a conhecer melhor esse personagem peculiar. Um cara genial em termos artísticos, que soube encaminhar o bom humor existente no trabalho dos Mutantes rumo a estâncias ainda mais extremas, em uma união rock-sátira que iria inspirar Língua de Trapo, Premeditando o Breque e diversos outros artistas dessa praia, até mesmo os Mamonas Assassinas, como ilustra depoimento de Zé Rodrix, integrante do grupo nos anos 1980.

Fugindo de uma abordagem mais convencional, Rafael é uma espécie de mestre de cerimônias do filme, amarrando as cenas com suas participações guiando o LTD do tio e conversando com um boneco que representa o músico, em diálogos deliciosos. O material de arquivo teve excelente utilização, permitindo conferir a trajetória da banda e suas performances em apresentações na TV e em shows, além de algumas entrevistas resgatadas. Depoimentos atuais de ex-integrantes como Próspero e de parentes de Tico nos permitem descobrir peculiaridades desse personagem incomum.

Se era um músico de primeira, Tico tinha um bom-humor do tipo “perco o amigo, mas não perco a piada”. Vários desses momentos absurdos gerados por seu temperamento irrequieto são relatados no filme, incluindo “causos” bizarros ocorridos durante shows e programas de TV. O legal é que Rafael não tenta esconder esse lado inconsequente do tio, uma das possíveis razões pelas quais o Joelho de Porco não conseguiu o sucesso que merecia ter atingido.

Outro problema que Rafael conseguiu superar do jeito que deu foi o fato de Billy Bond, vocalista da banda durante a sua “fase punk”, que gerou o álbum Joelho de Porco (1978), lançado pela gravadora global Som Livre, ter saído do time de forma nada amigável. No filme, o bonequinho Tico afirma que aquele álbum, o com mais visibilidade dentre os quatro que gravaram, com direito a comerciais na Globo e tudo, não passava de “um disco sem alma”.

E Rafa lê o SMS enviado por Billy justificando o porque não aceitou o convite para dar a sua versão para o fim de sua participação no Joelho de Porco. O curioso fica por conta da apresentação dos registros de TV e shows dessa fase, nas quais as imagens de Bond são distorcidas. Ficou estranho, mas acabou sendo melhor do que excluí-las, pois são em quantidade bastante expressiva.

A parceria com Arnaldo Baptista em seu primeiro compacto simples, de 1973, o incrível álbum de estreia São Paulo 1554-Hoje (1975), um dos melhores da história do rock brasileiro, o polêmico “disco punk” de 1978 e os dois dos anos 1980, já na fase com Zé Rodrix, Saqueando a Cidade (1983) e 18 Anos Sem Sucesso (1988) são abordados, assim como a atuação de Tico Terpins no mercado publicitário e como dono de estúdio de gravação.

Meu Tio e o Joelho de Porco equivale a uma deliciosa viagem pela vida de um cara do tipo malucão que nos deixou um legado musical que merece ser mais reverenciado, e sua principal virtude é exatamente essa: incentivar quem o vê a ir atrás dos quatro álbuns do grupo, todos repletos de maravilhas do porte de Boing 723897, México Lindo, Mardito Fiapo de Manga, São Paulo By Day, O Rapé, Vai Fundo, A Última Voz do Brasil e tantas outras.

Ouça São Paulo 1554-Hoje, do Joelho de Porco:

I Am (1979) marca o auge da incrível banda Earth, Wind & Fire

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Por Fabian Chacur

Muito difícil escolher o melhor álbum lançado pelo Earth, Wind & Fire. Durante sua trajetória, a banda criada pelo genial cantor, compositor, músico e produtor americano Maurice White nos proporcionou diversos trabalhos de primeiríssima linha, especialmente durante a década de 1970, seu auge em termos criativos e comerciais. Mas dá para selecionar, sem sustos, o LP que marca o auge deles, aquele momento em que viraram praticamente uma unanimidade perante os mais diversos públicos. Estou falando de I Am, lançado em 1979, quando os caras tomaram a cena pop de assalto, de uma vez por todas.

Até aquele momento de sua carreira, o grupo já havia conseguido grandes feitos, como atingir o topo das paradas americanas de álbuns e singles, lotar ginásios pelos EUA e outros países com seu show repleto de efeitos especiais e produção sofisticada e também conquistar fãs fora do universo da black music.

O mais importante, obviamente, é a qualidade artística da música que lhes possibilitou tais conquistas, uma brilhante fusão de soul, funk, rock, jazz e músicas africana e latina. Faltava apenas a cereja do bolo, ou seja, ganhar o público mainstream, entrando no primeiro escalão da popularidade mundial.

Inquieto e inteligente, Maurice White sempre buscou parcerias com gente de fora da banda, como forma de somar forças e também levar adiante sua intenção de criar um som universal e ao mesmo tempo criativo e popular.

Em I Am, essa busca o impulsionou a iniciar um trabalho ao lado do compositor, músico e produtor canadense David Foster, que até aquele momento já havia gravado com e produzido artistas do porte de George Harrison, Daryl Hall & John Oates e outros. Fã da banda, ele conheceu Maurice através de uma amiga em comum, e logo de cara mostrou a ele uma balada que havia composto ao lado dos amigos músicos Jay Graydon e Bill Champlin.

Maurice não só adorou a tal balada, nada menos do que After The Love Has Gone, como perguntou a Foster se ele não estava interessado em tentar compor alguma coisa a seu lado. Foster aceitou, e as jam sessions entre eles geraram seis das nove faixas incluídas em I Am. Com boas influências da black music, Foster trouxe para o grupo elementos da música pop que ajudaram a banda a se aproximar do mainstream radiofônico.

Aliás, as duas faixas que conseguiram concretizar esse feito são de certa forma opostas, e ambas agradaram em cheio importantes setores do grande público da época. Uma é a já citada After The Love Has Gone, que chegou ao número 2 da parada de singles da Billboard e pegou em cheio os fissurados por canções românticas, nostálgicas e de apelo fortemente melódico.

A outra mirou os fãs da então extremamente popular disco music. Trata-se de Boogie Wonderland, única música do disco não assinada por White (composição de Joe Lind e Allee Willis) e a única faixa escancaradamente do gênero gravada pela banda, e que estourou com força total nas discotecas de todo o mundo e de quebra atingiu o nº 6 entre os singles da Billboard.

Não é de se estranhar, portanto, que I Am tenha sido o álbum mais popular do E,W&F no Reino Unido, atingindo por lá a posição de nº 5, e também nos principais mercados discográficos do mundo. Mas vale ressaltar uma coisa: se essas duas faixas são apelos a públicos que o grupo nunca havia atingido em cheio, não caem em fórmulas pré-estabelecidas ou diluições picaretas, sendo excelentes e também sem fugir demais ao espírito musical desenvolvido por Maurice White e seus discípulos.

E o disco nos oferece muito mais. O LP tem início de forma apoteótica com In The Stone entrando em cena com uma abertura digna dos melhores musicais da Broadway, para mostrar logo de cara o vasto acervo de armas musicais desse timaço musical: o entrosamento da voz máscula de Maurice com o sedutor falsete de Philip Bailey, os metais sempre pontuando tudo, percussão salerosa e afro para contagiar e o time de guitarras, baixo (do estupendo Verdine White, irmão de Maurice) e teclados dando o arremate final.

Uma das marcas registradas do E,W&F é a criação de interlúdios musicais, pequenos trechos que ou introduzem uma canção ou a ligam à outra que vem a seguir. E é um deles que abre o caminho para que surja a galopante Can’t Let Go, delicioso “balanço” (termo que se usava no Brasil nos anos 1970 para definir canções dançantes) que tocou em nossas rádios. Chega o momento da primeira balada, After The Love Has Gone, cujo solo de sax no final é a deixa para a entrada da sacudida Let Your Feelings Show, encerrando o lado A do LP de vinil original.

Boogie Wonderland abre o lado B para chacoalhar o esqueleto de todos, clima que a incrível Star se incumbe de manter, mesmo não sendo propriamente disco e com vocais simplesmente encantadores. O romantismo na melhor tradição da soul music marca a belíssima Wait, de andamento mais lento e com aquelas paradinhas deliciosas. O momento instrumental do álbum vem a seguir, a roqueira Rock That!, com ótima performance dos músicos. You And I, que fecha o disco, tem um clima ao mesmo tempo romântico, swingado e sensual que certamente influenciou o charm dos anos 1980.

Verdine White define I Am como “o nosso Abbey Road“, o disco mais bem-sucedido em termos comerciais da carreira dos Beatles, enquanto Maurice White o considera não só um dos melhores da banda como um dos mais influentes. “Alguns artistas fizeram suas carreiras baseados em faixas deste álbum”, afirmou ele em texto incluído na box set The Eternal Dance (1992).

Curiosidades envolvendo personagens e fatos sobre I Am:

***** David Foster ganhou seu primeiro Grammy, o Oscar da música, com After The Love Has Gone. Sua participação em I Am foi um divisor de águas na carreira dele, que posteriormente faria trabalhos de imenso sucesso comercial com artistas como Chicago, Whitney Houston, Céline Dion, Josh Groban, Michael Bublé e Andrea Bocelli, entre muitos outros. Ele compôs mais algumas músicas com Maurice White, entre as quais os hits And Love Goes On e Could It Be Right.

***** Em sua ótima autobiografia Hit Man (2008- Pocket Books, não foi lançado no Brasil), David Foster relembra que ele e Maurice White se entendiam muito bem em quase tudo, menos em duas questões: alimentação e cigarros. Enquanto o líder do E,W& F era adepto de alimentação natural e hábitos saudáveis, Foster se dizia um voraz consumidor de hambúrgueres e fast food em geral, além de fumar em torno de três maços de cigarro por dia.

***** Os parceiros de David Foster em After The Love Has Gone tem um belo pedigree musical. O guitarrista americano Jay Graydon, por exemplo, gravou com inúmeros astros da música e é autor de vários hits de Al Jarreau, entre eles a deliciosa Mornin’. Além do Grammy com essa bela balada, ele faturou outro, desta vez com a swingada Turn Your Love Around, hit na voz de George Benson e que inclui na parceria novamente Bill Champlin e Steve Lukather (do grupo Toto).

****** Também com belo currículo como músico de estúdio e autor, Bill Champlin de quebra integrou entre 1981 e 2009 o grupo Chicago, tendo gravado o vocal principal em grandes hits como Hard Habit To Break, Look Away e I Don’t Wanna Live Without Your Love. Vale lembrar que, como músico de estúdio, Jay Graydon gravou o solo de Peg, do grupo Steely Dan, citado por muitos como um dos melhores de todos os tempos. Ouça e tente não concordar aqui.

***** Na edição original em vinil de I Am e mesmo na caixa The Eternal Dance, o título da mais famosa balada do disco é After The Love IS Gone. Na edição em CD, no entanto, a grafia é After The Love HAS Gone , a mesma na qual voce encontra informações sobre ela na internet. A segunda versão, ressalte-se, é a correta em termos gramaticais, pois coloca a palavra no tempo certo, ou seja, no passado.

****** Além de David Foster, Maurice White contou com outra parceria nas canções incluídas em I Am. Trata-se da compositora Alee Willis, que é coautora de sete das nove faixas do álbum, atuando neste caso principalmente no quesito letras. Ela é conhecido como coautora de outros hits importantes, entre os quais Neutron Dance (Pointer Sisters), What Have I Done To Deserve This (Pet Shop Boys e Dusty Springfield) e I’ll Be There For You (The Rembrandts, tema principal da série de TV Friends). Ela também é uma das autoras de September, do E,W&F.

***** Única faixa do álbum não assinada por Maurice White, Boogie Wonderland é uma parceria de Alee Willis com Jon Lind. Este compositor também escreveu com White Sun Godess, gravada originalmente por um dos mentores de Maurice White, Ramsey Lewis e depois pela banda no ao vivo Gratitude. Entre seus hits para outros artistas, vale destacar Crazy For You (Madonna) e Save The Best For Last (Vanessa Williams), sendo que ambas atingiram o topo da parada americana.

****** Duas canções adicionais foram gravadas para integrar o álbum I Am, mas acabaram ficando de fora de sua versão original. São elas Dirty, da qual participa o saudoso gaitista Junior Wells (conhecido por sua dupla com Buddy Guy) e Diana, esta última outra parceria entre Maurice White e David Foster. Essas gravações foram adicionadas como faixas-bônus da versão remasterizada de I Am, lançada em 1999 pela Sony Music.

***** A capa de I Am, com ilustração a cargo de Shusei Nagaoka e design assinado por Roger Carpenter, são inspiradas no Egito antigo, uma das fascinações de Maurice White, um fã de assuntos místicos e espiritualistas. Ele conseguiu levar a banda para lá em uma ocasião, sendo que, segundo ele, “metade deles amou e metade odiou”. A contracapa traz um pot-pourry de vários fatos históricos e discos voadores voando ao fundo, em ilustração bela e apoteótica de Shusei.

*****Eis a escalação do E,W&F, considerada a sua clássica: Maurice White (vocal, percussão e bateria), Verdine White (baixo), Philip Bailey (vocal e percussão), Larry Dunn (teclados), Al McKay (guitarra), Fred White (bateria, irmão de Maurice e Verdine), Johnny Graham (guitarra), Andrew Woolfolk (sax tenor) e Ralph Johnson (percussão). A sessão de metais trazia Don Myrick (sax tenor e barítono), Louis Satterfield (trombone) e Rahmlee Michael Davis (trompete).

Ouça I Am em streaming:

Fábio Jorge canta clássicos da MPB vertidos para o francês

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Por Fabian Chacur

Fábio Jorge é fruto do amor entre um brasileiro e uma francesa. Essa fusão, típica da bela miscigenação que marca o povo brasileiro, se apresenta plena na trajetória musical deste cantor e compositor paulistano formado em Letras e nascido em 1970. Em seus 15 anos de carreira, ele investe em canções do songbook francês, sempre com um toque brasileiro na mistura. Em seu quarto CD, Connexions, a simbiose se mostra perfeita, com o artista interpretando clássicos da música popular brasileira com letras vertidas para a língua popularizada em termos musicais por mestres do porte de Charles Aznavour e Édith Piaf.

Das 14 faixas, 13 foram versionadas pelo próprio Fábio. A seleção de repertório tem na abrangência sua marca, pois traz desde pérolas da bossa nova até hits dos anos 2000. São canções popularizadas por artistas como Elis Regina, Tom Jobim, Dalto, Alcione, Milton Nascimento, Djavan e Marisa Monte, entre outros. Uma interessante amostra do nosso cancioneiro popular, e sem cair em preconceitos, incluindo canções da seara mais popular, muito bem pinçadas, por sinal.

Os arranjos instrumentais são precisos, primando pelo bom gosto e pela delicadeza, assinados por Alexandre Vianna, João Henrique Baracho, Rovilson Pascoal e Daniel Bondaczuk (os de cordas). Com inteligência, souberam captar o estilo da música francesa tradicional e adaptá-lo para um repertório brasileiro, trazendo características de cada um desses universos sem despencar em caricatura ou diluição barata para turista ver (e ouvir). Aqui, é tudo a vera.

O destaque fica por conta das interpretações de Fábio Jorge, que possui voz de timbre aveludado e extremamente boa de se ouvir que ele conduz com categoria típica de quem fez a lição de casa. Aqui aparece provavelmente a maior influência que ele traz de sua origem francesa: aquela desenvoltura elegante típica de intérpretes como Charles Aznavour, a capacidade de cantar como se estivesse batendo um papo agradável com pessoas queridas.

Entre outras, vale destacar L’Eternité (Pessoa, hit com o autor, Dalto, e também com Marina Lima), Les Bateaux Sur La Mer (Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes e estouro com Elis Regina) e Mon Énorme Folie (Estranha Loucura, de Michael Sullivan e Paulo Massadas e hit com Alcione).

De quebra, o intérprete convidou três ótimas cantoras para dividirem canções com ele. Respectivamente, Márcia em Notres Printemps (Primavera, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes), Diva Maria em Dans Ma Rue (Pela Rua, de Dolores Duran) e Edith Veiga em J’Ai Le Mal De Toi (Briguei com Você, da própria Edith em parceria com Dora Lopes. As três cantam suas partes em português, ressaltando a parceria Brasil-França que está no DNA deste excelente Connexions.

L’Eternité (Pessoa) (clipe)- Fábio Jorge:

Alfredo Dias Gomes funde MPB e jazz instrumental no álbum Solar

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Por Fabian Chacur

Alfredo Dias Gomes iniciou sua carreira no final dos anos 1970, ainda muito jovem. E começou com tudo, sendo o baterista da banda do incrível Hermeto Pascoal, conhecido pelo rigor com que arregimenta seus músicos de apoio. Com o tempo, atuou com inúmeros grupos e artistas, entre os quais Heróis da Resistência, Ivan Lins, Lulu Santos, Ritchie e Sergio Dias, só para citar alguns. Desde 1993, o músico carioca se concentra em sua carreira-solo, que acaba de render mais um novo e belo fruto, o álbum Solar, disponível nas plataformas digitais e também em CD.

Duas características marcam este trabalho. Uma é o fato de Alfredo ter a seu lado apenas mais um músico, Widor Santiago, que se incumbe dos sopros (sax e flauta). De resto, temos ele na bateria e também nos teclados, baixos e composições. A outra fica por conta de um mergulho em sonoridades brasileiras, especialmente de ritmos nordestinos, que se misturam ao jazz durante as oito faixas do álbum, com um resultado dos mais agradáveis.

O título Solar, que também dá nome a uma das faixas do disco, é bem feliz para retratar o clima geral deste trabalho. É um álbum para cima, bom de se ouvir, energético, no qual as sutilezas são oferecidas ao ouvinte de forma inteligente, sem cair no formato hermético que por vezes a música instrumental acaba seguindo em função da virtuosidade dos músicos envolvidos. Aqui, tanto Alfredo quanto Widor Santiago solam com categoria e esbanjam técnica, mas sem cair em tecnicismos ególatras.

A faixa Viajante é a mais antiga do repertório, e tem uma história bacana. Ela foi escrita por Alfredo em 1980, atendendo ao pedido de sua mãe, ninguém menos do que a novelista Janete Clair. A música foi gravada originalmente por Dominguinhos e entrou na trilha sonora da novela global Coração Alado (1980-1981). Agora, enfim recebe versão de seu autor. Trata-se de uma espécie de baião, com bela ênfase rítmica e melodia redonda e gostosa. Aliás, vale lembrar que seu pai é o também novelista-e também saudoso- Dias Gomes.

Se a pegada brasileira predomina em Viajante, na faixa título e em Corais, o jazz clima anos 1950 marca a incrível Smoky, enquanto o jazz rock permeia Alta Tensão e Trilhando. Com sotaque latino, El Toreador foi escrita em 1993 para a trilha sonora da peça teatral homônima de Janete Clair. E Finale encerra o CD com classe. No geral, Solar mostra Alfredo Dias Gomes à vontade como músico e compositor, proporcionando ao ouvinte muito prazer auditivo.

Ouça Solar, de Alfredo Dias Gomes, em streaming:

Uganga ousa e consolida a sua sonoridade com o álbum Servus

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Por Fabian Chacur

Não é fácil desenvolver uma sonoridade original e consistente na seara do rock pesado. Um dos problemas é o fato de esse gênero exigir virulência e massa sonora, o que às vezes leva algumas bandas a caírem em uma armadilha que as prendem a clichês que sempre dão certo em termos gerais, em detrimento de uma personalidade mais apurada. O grupo mineiro Uganga, em seus mais de 25 anos de trajetória, nunca despencou nesse perigoso alçapão, e dessa forma cresce a cada ano. Servus, o seu novo álbum, mostra mais uma vez o poder criativo e energético dessa turma do barulho, no melhor sentido do termo.

A história do Uganga (leia mais sobre eles aqui) teve início no Triângulo Mineiro, mais precisamente na bela cidade de Uberlândia (MG). Possuem no currículo cinco álbuns de estúdio, um ao vivo gravado na Alemanha, um DVD incluindo documentário sobre sua trajetória e show ao vivo e turnês por Brasil e Europa.

A maturidade adquirida nessa trajetória se mostra muito evidente em Servus, a partir dos apoios obtidos para a sua realização. A Waken Foundation, por exemplo, é uma organização alemã sem fins lucrativos criada em 2008 pelos produtores do festival Waken Open Air, considerado o maior de heavy metal do planeta, e que apoia projetos consistentes de hard e heavy metal de todo o mundo. Outro parceiro importante para a realização deste álbum é o Programa Municipal de Incentivo À Cultura (PMIC) de Uberlândia, que soube reconhecer o quanto a banda divulga e eleva o nome da cidade pelo mundo afora.

O retorno desses investimentos você percebe logo ao manusear o CD físico, com direito a capa digipack dupla e um encarte luxuoso com letras, fotos e ficha técnica completa. As impactantes artes de capa e contracapa ficaram a cargo do artista pernambucano Wendell Araújo, que já trabalhou com grupos como Ratos de Porão e Cólera. A qualidade técnica de gravação, mixagem e masterização tem padrão internacional, e foi feita em nosso país, basicamente no estúdio Rock Lab, em Goiânia (GO), com produção a cargo do vocalista da banda, Manu Joker, em parceria com Gustavo Vazquez.

Se tudo isso relatado até aqui já seria suficiente para ficar bem impressionado com o Uganga, o que de fato os torna dignos de muitos elogios é o conteúdo musical de Servus. Mesmo com tanto tempo de estrada, o time continua com aquela fúria energética típica de bandas iniciantes. No entanto, essa adrenalina toda é filtrada de modo a gerar um resultado tecnicamente impecável, fugindo da mera barulheira insana rumo a uma estrutura na qual você consegue ouvir cada detalhe, incluindo as tramas das guitarra, a sólida cozinha rítmica e os penduricalhos adicionais incluídos em cada uma das 13 faixas.

Capitaneando essa estrutura bem azeitada, Manu Joker se mostra um dos melhores cantores de rock pesado do Brasil. Sua voz tonitroante é controlada de forma quase cirúrgica, e com uma dicção impecável (algo não tão frequente em vocalistas dessa praia), que nos permite entender e mergulhar nas letras em português, o que valoriza ainda mais as conquistas deles no exterior, onde o inglês é quase obrigatório para quem quiser ver sua música valorizada.

O conteúdo poético contido nas letras do álbum traz um forte protesto contra o sofrimento da maior parte da população nas mãos dos poderosos de plantão, sem cair em panfletarismos ou ideologias restritivas. O refrão da alucinada faixa título exemplifica bem essa linha de pensamento: “escravos somos nós, escravos coniventes de loucos genocidas insanos, errados somos nós, massa de manobra, não mais do que servos”. A esperança de tempos melhores, no entanto, sempre aparece, com elementos espiritualistas sendo utilizados.

Manu tem a seu lado neste álbum Christian Franco (guitarra), Thiago Soraggi (guitarra), Maurício “Murcego” Pergentino (guitarra), Raphael “Ras” Franco (baixo e vocais) e Marcelo Henriques (bateria e vocal). Pergentino saiu do time após a gravação do álbum, substituído por Lucas “Carcaça”. Um time coeso, vibrante e tecnicamente impecável, que viabiliza a sonoridade thrascore, uma mistura de thrash metal com o punk hardcore, de forma plena e muito criativa.

Também temos as participações especiais da cantora e dançarina pernambucana Flaira Ferro, que com Manu e Luiz Salgado divide os vocais da incrível faixa E.L.A., do grupo chileno de rap Lexico na vigorosa Hienas, e também de Renato BT (do John No Arms), DJ Eremita, Marco Melo (sax), Fábio Marreco (do Totem) e o espiritualista Sr. Waldir, este último na enigmática Depois de Hoje…, que traz sampler de um discurso do líder pacifista indiano Mahatma Ghandi.

Servus nos mostra uma inquietude e inconformismo com os rumos atuais vividos pela humanidade, mas sempre com um olho no futuro que pode ser melhor, se as pessoas do bem se unirem para modificar essa situação. Com este álbum, o Uganga mostra que quem considera o heavy metal um antro de gente que só sabe fazer barulho insano e abordar temas satânicos precisa urgentemente atualizar os seus conceitos. Aqui, estamos diante de rockers do melhor calibre, lutando por um mundo melhor em todos os sentidos, tanto musicais como de convivência entre os seres humanos.

Servus (videoclipe)- Uganga:

Johnny Alf e sua essência são as marcas de dois álbuns digitais

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Por Fabian Chacur

Alfredo José da Silva, embora sóbrio, não era um nome muito charmoso para um dos grandes nomes da história da nossa música. Felizmente, ele atendeu a sugestões de amigos e tornou-se Johnny Alf, denominação muito mais classuda. E deu muito certo. Esse grande cantor, compositor e pianista carioca, que completaria 90 anos no próximo dia 19, mas que infelizmente nos deixou em 2010, construiu uma obra sólida e densa que merecia ser bem mais cultuada do que é. A Kuarup acaba de disponibilizar em todas as plataformas digitais dois álbuns inéditos deste gênio, intitulados O Autor e O Intérprete.

Para alguns dos maiores especialistas no tema, entre eles o jornalista Ruy Castro, Johnny foi o pioneiro da bossa nova, misturando com criatividade e sutileza samba e jazz já no início da década de 1950. Versátil, ele sabia não só compor com desenvoltura como também tocar um piano personalizado, além de reler com classe canções alheias. Um artista de primeira, que habitualmente rendia o máximo ao vivo, nos palcos da vida, com uma categoria reservada a poucos.

Os dois álbuns digitais trazem faixas extraídas de gravações ao vivo realizadas no início dos anos 2000 pertencentes ao acervo do produtor e empresário Nelson Valência, que trabalhou por muitos anos com Johnny Alf. Esse material foi pesquisado pelo consagrado produtor musical e jornalista Thiago Marques Luiz, que se incumbiu de selecionar o repertório que chegou aos produtos finais.

O álbum O Autor nos traz dez das composições mais icônicas do nobre songbook do artista carioca, com direito a Rapaz de Bem, O Que é o Amor, Eu e a Brisa e Ilusão À Toa. O Intérprete, por sua vez, nos oferece suas certeiras releituras de maravilhas alheias do porte de Corcovado, Chega de Saudade, Desafinado, Valsa de Eurídice, Alguém Como Tu e The Shadow Of Your Smile.

Totalmente à vontade e em excelente forma, tanto vocal como instrumental, Johnny aparece no formato do trio de jazz, acompanhado por um guitarrista e um baterista. Suas performances tem total DNA jazzístico, respeitando as melodias mas não se negando a improvisos deliciosos e a belos solos de piano e guitarra aqui e ali. Em alguns momentos, ele fala com a plateia, dando informações sobre as músicas. A qualidade de áudio é das melhores.

O material merecia ter lançamento físico, com direito a um encarte com texto informativo redigido por Thiago e uma capa aproveitando as simples, porém muito belas e eficientes imagens que ilustram as versões digitais, mas só o fato de essas gravações raras chegarem à tona e estarem agora disponíveis para todos os fãs da melhor música brasileira já merece fartos aplausos.

O Intérprete- Johnny Alf (ouça em streaming):

Lô Borges nos oferece 10 novos clássicos no inspirado Rio da Lua

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Por Fabian Chacur

Em 2018, Lô Borges nos ofereceu uma bela e emocionante releitura de seus trabalhos de estreia de 1972, o maravilhoso DVD Tênis+Clube Ao Vivo no Circo Voador (leia a resenha aqui). Seria até normal esperar que ele ficasse um bom tempo capitalizando os louros oriundos desse lançamento. No entanto, o cantor, compositor e cantor mineiro prova que, aos 67 anos, quer mesmo é viver novas emoções. No caso, um novo CD, o maravilhoso Rio da Lua (Deck).

Rio da Lua adiciona duas novidades a sua carreira. Normalmente, Lô compõe as melodias, para depois encaixar as letras, feitas por ele ou outros parceiros. Desta vez, inverteu-se o processo. As letras apareceram primeiro, para serem posteriormente musicadas. A segunda nova decorre daí: pela primeira vez, ele compôs em parceria com o cantor, compositor e músico mineiro Nelson Angelo, outro egresso do Clube da Esquina. O amigo mandava as letras via aplicativo digital, e ele as ia transformando em canções. O resultado gerou dez belezuras compatíveis com o que de melhor eles já fizeram.

Tendo seu violão como âncora, Lô traz a seu lado Henrique Matheus (guitarras), o irmão Telo Borges (piano e teclados), Thiago Corrêa (baixo) e Fernando Monteiro (bateria). Esse time criou uma sonoridade envolvente e consistente, repleta de sutilezas e de uma capacidade inesgotável de embelezar canções que já seriam capazes de nos cativar, mesmo que fossem executadas só no modo voz-e-violão. Virou uma sólida banda de folk-pop-rock, ou de MPB pop, se preferir. Tudo criando o clima ideal para abrigar a voz suave, docemente apaixonada e fantasticamente bem colocada desse trovador roqueiro que é Lô Borges.

O parceiro de Milton Nascimento soube aproveitar a poesia visionária e viajante de Nelson Angelo, cujas letras nos falam de sonhos e de como encarar a vida, os momentos difíceis, as paixões e as perspectivas futuras, tudo sem cair em autoajuda barata ou reducionismo imbecilizante. Aqui, o tom é a beleza estética com forte conteúdo filosófico. Tudo embalado por aquelas melodias que vão te ganhando de tal forma que, quando você se dá conta, já ouviu o CD umas mil vezes. E que venha a milésima primeira!

Qualquer uma das dez canções merece elogios efusivos, mas a faixa-título, Em Outras Canções, Flecha Certeira, Partimos, Inusitada e especialmente Profeta, que encerra o álbum com seu clima jazzy misterioso, são pepitas preciosas em meio a uma verdadeira Serra Pelada musical. Rio da Lua, é obra ao mesmo tempo repleta da consistência que só a maturidade dá ao artista e recheada daquele idealismo juvenil inspirado e sincero que tantas coisas boas proporcionou no mundo da música. Que venham boas novas todo dia!

Ouça Rio da Lua, de Lô Borges:

Rafa Castro mostra Fronteira em show único no Sesc Vila Mariana

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Por Fabian Chacur

Mineiro radicado em São Paulo desde 2017, o cantor, compositor e tecladista Rafa Castro está lançando o seu terceiro CD. Intitulado Fronteira, o álbum conta com direção musical de Luiz Ribeiro e participações especiais de Mônica Salmaso, Teco Cardoso, Léa Freire e Neymar Dias. Ele mostra o repertório desse disco com um show neste feriadão de 1º de maio (quarta-feira) às 18h no Sesc Vila Mariana (rua Pelotas, nª 141- Vila Mariana- fone 0xx11-5080-3000), com ingressos de R$ 6,00 a R$ 20,00.

Além do próprio Rafa Castro (piano e voz), teremos em cena Igor Pimenta (contrabaixo), Gabriel Altério (bateria) e André Bordignhon (guitarra), além da participação especial da talentosa cantora Tatiana Parra. Entre outras do novo trabalho, estarão no set list músicas autorais como Casulo, Teimosa, Menino Dançante e Cacos de Vitral, além de clássicos dos repertórios de Caetano Veloso (O Quereres), Milton Nascimento (Vera Cruz) e Lô Borges (Trem Azul).

Calcado na melhor MPB e também com elementos eruditos e jazzísticos, o trabalho de Rafa Castro é repleto de delicadeza, sensibilidade e introspecção. Um belíssimo marco de sua trajetória ocorreu em 2014, quando lançou em CD e DVD Teias, trabalho feito em parceria com ninguém menos do que Túlio Mourão, tecladista brilhante que integrou os Mutantes em sua fase progressiva e tocou com gênios do porte de Milton Nascimento, Chico Buarque, Mercedes Sosa, Jon Anderson e outros, além de ter composto a belíssima trilha sonora do filme Jorge Um Brasileiro (1988), que lhe valeu um prêmio da APCA.

Fronteira, disponível em bela versão digipack com direito a encarte especial, equivale a uma viagem musical e sensorial pelos caminhos da emoção, doçura e beleza. Em tempos nos quais só se pensam em terríveis distopias apavorantes, Rafa nos oferece uma verdadeira utopia sonora, que nos cativa e até faz acreditar que um mundo melhor e mais encantador pode ser possível. Soa como possível em um trabalho desse gabarito. E isso é ainda só o começo. Esse cara promete mais, muito mais, e certamente fará. É apenas uma questão de tempo. Todos nós veremos, e ouviremos, e com muito deleite!

Ouça Fronteira na íntegra, em streaming:

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