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Category: Resenhas (page 3 of 42)

Sallaberry lança novo álbum com som instrumental e amigos feras

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Por Fabian Chacur

Roberto Sallaberry é um baterista, produtor e compositor brasileiro com mais de 30 anos de carreira. Sua trajetória é repleta de trabalhos bacanas envolvendo a música, incluindo uma carreira solo que proporcionou a ele parcerias com gente do mais alto calibre, entre os quais Billy Cobham, Dennis Chambers, Airto Moreira e Robertinho Silva. E essas parcerias se ampliam a cada novo ano, como comprova seu oitavo CD, o excelente e recém-lançado Rhythm Of The Spirits, creditado (não por acaso) a Sallaberry And Friends. Um elenco de amigos da maior qualidade artística.

A música instrumental é a especialidade deste músico brasileiro radicado nos EUA desde 2014. Sua sonoridade tem como base o jazz rock à brasileira, com direito a muita diversidade e mergulho em diversas vertentes da nossa música, do jazz, do rock, latinidades e o que mais pintar. Seu arsenal percussivo dá o tom, mas a essência deste trabalho surge essencialmente do diálogo entre ele e seus convidados, em um bate-bola sonoro que nos leva a viagens sensoriais daquelas sem contraindicações ou possíveis restrições. Consuma sem limites.

Temos 15 faixas, com coprodução musical e mixagem a cargo do consagrado Guilherme Canaes, conhecido por ter trabalhado com Ivan Lins e George Benson, entre muitos outros. Marcam presença no álbum feras como Derico Sciotti (flauta), Fernando Moura (piano acústico), Marcos Romera (teclados), Chico Wilcox (baixo), Sandro Haick (guitarra, teclados e percussão), Ed Côrtes (saxofone), Michel Freidenson (teclados), Fúlvio Oliveira (guitarra), Mauríico Marques (teclados), Marco Bosco (percussão, samples e beatbox) e outros.

As gravações foram feitas valendo-se do recurso E-Rec, que permitiu aos “parças” de Sallaberry enviarem suas participações e arranjos via internet, para que fossem agregadas às gravações do capitão dessa verdadeira celebração sonora. O resultado é incrível, dando a impressão de que tudo foi gravado com os músicos no mesmo ambiente, sem a eventual frieza que gravações desse tipo vez por outra proporcionam. A performance dos músicos agrada em cheio.

Difícil citar só algumas faixas, mas para não ficar em cima do muro, vale destacar a faixa-título, Winds From The East, Dennis, Baião de Dois, Voices, Friends, Missing Brazil e Senzala como pontos altos. A última faixa, Rhythm Of The Spiritis II (immersive audio), tem o recurso de 3D audio, e proporciona ao ouvinte que a conferir em fones de ouvido uma verdadeira imersão em seu ritmo tribal e hipnótico. Um CD que celebra a música como um todo.

Veja entrevista de Sallaberry:

Ayrton Montarroyos esbanja sua elegância em CD gravado ao vivo

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Por Fabian Chacur

Se fosse necessário definir o segundo CD de Ayrton Montarroyos, Um Mergulho no Nada (lançado pela gravadora Kuarup) com apenas uma palavra, eu escolheria esta aqui: elegante. O intérprete pernambucano de 23 anos esbanja tal qualidade durante os aproximadamente 35 minutos de duração deste belo álbum, gravado ao vivo ironicamente no dia 1º de abril de 2018 no Teatro Itália, em São Paulo. Pois se há uma coisa que a performance do moço não emana, é mentira. A verdade marca presença por aqui de ponta a ponta.

Ayrton ficou conhecido nacionalmente ao ser um dos finalistas em 2015 do reality show musical The Voice Brasil. Em 2017, lançou o primeiro álbum, gravado em estúdio e autointitulado. Desta vez, ele nos oferece sua alma desnuda. Afinal de contas, trata-se de um trabalho ao vivo e no qual ele conta com o apoio de apenas um instrumento, no caso o violão de 7 cordas tocado magistralmente por Edmilson Capelupi, literalmente professor nessa área e conhecido por participar das trilhas dos filmes Dois Córregos (1999) e Cidade de Deus (2002) e gravar com gente do gabarito de Jane Duboc, Zizi Possi, Patricia Marx, Eliete Negreiros e muitos outros.

Nesse formato, a interação entre cantor e músico precisa ser absurda. Afinal, qualquer eventual falha fica exposta de forma constrangedora. Neste caso, a dobradinha Montarroyos-Capelupi envolve o ouvinte de forma poderosa, pois temos um vibrante diálogo entre os acordes, baixos e dedilhados do violão com a voz ao mesmo tempo doce e mais próxima das regiões graves do cantor. Os vazios são sempre aproveitados de forma estilística, não ocasional, e são poucos, pois o preenchimento de espaços feito por eles é cirúrgico.

As dez faixas selecionadas por Ayrton para Um Mergulho no Nada vão desde obras de compositores jovens até pérolas obscuras pinçadas de eras distantes e nobres da nossa música, passando por alguns clássicos, também. Na verdade, temos a impressão de que o principal critério seguido por ele deve ter sido o mais simples, e ao mesmo tempo mais coerente: aquelas canções que melhor se encaixam em sua musicalidade, que falam mais para ele, e que ele sente mais prazer em interpretar. E como deu certo!

Com um timbre belíssimo de voz, Ayrton Montarroyos procura trabalhá-lo de forma precisa, sem se permitir arroubos operísticos ou exagerados. As sutilezas são esmiuçadas no melhor estilo bossa nova, com inspiração provavelmente de gente do gabarito de Caetano Veloso e João Gilberto. Cada palavra é dita com conhecimento de causa de quem entende seu significado e procurando transmitir o sentido de cada poesia ao ouvinte, como que o convidando a sonhar, sofrer, amar e imaginar cada contexto criativo proposto por seus autores.

Alguns poderiam contestar as releituras de músicas com versões originais tão marcantes como Açaí (Djavan) e Cálice (Chico Buarque-Gilberto Gil), mas vale lembrar a justificativa que os integrantes do grupo Roupa Nova deram em 1999 às releituras que fizeram de seus sucessos no álbum meio eletrônico Agora Sim!: essas regravações não invalidam as anteriores e podem conviver pacificamente. E neste caso específico, Ayrton soube se apropriar das duas e dar a elas uma cara nova e própria. Não supera as originais, mas quem disse que isso seria necessário? O legal é que dá prazer ouvir as duas com ele, e isso basta.

Um Mergulho No Nada (título extraído de versos da canção Sem Pressa de Chegar, de Capiba e Delcio Carvalho e um dos pontos altos do CD) alterna samba, bossa-nova, latinidades, samba-canção e até pop com uma fluência que vai ligando de forma natural uma faixa à outra. Como a duração do álbum equivale a um daqueles discos de vinil de antigamente, dá vontade de ouvir novamente. E aí você ouve, e ouve, e ouve, descobrindo novas sutilezas, novos encadeamentos, novas surpresas. E a paixão se concretiza! Se a ideia era mergulhar no nada, Ayrton na verdade nos fez mergulhar no tudo. Tudo de bom!

Cálice– Ayrton Montarroyos:

Rosa Marya Colin hipnotiza o ouvinte em CD com dois álbuns

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Por Fabian Chacur

Rosa Marya Colin parece ter sido a cantora que inspirou aquela célebre frase “capaz de extrair emoção até de um catálogo telefônico”, coisa que não existe há muito, vale dizer. Mas se existisse, não tenham dúvidas, você se emocionaria ao ouvi-la interpretando suas linhas burocráticas. Gravou muito pouco, mas sempre bem. E agora nos oferece Rosa (Gravadora Eldorado-Nova Estação), um trabalho à altura de seu imenso talento, e que merece ser apreciado e divulgado com a mesma intensidade e profissionalismo que ela teve ao conceber este belíssimo CD.

Nessas mais de duas décadas que ficou longe da gravação de discos, Rosa se manteve atuando como atriz em novelas e séries globais como Deus Salve o Rei (2018) e Fina Estampa (2011). Mas essas “férias” musicais felizmente acabaram.

Coproduzido por ela em parceria com o talentoso LC Varella e produção executiva a cargo de Thiago Marques Luiz (sempre ele!), Rosa equivale a um banho de vitalidade, maturidade e sensibilidade dessa cantora mineira radicada no Rio de Janeiro que completará 73 anos no próximo dia 27 de fevereiro.

Com dez faixas, o novo trabalho de Rosa Marya Colin traz o blues e o jazz no seu DNA, em algumas de forma direta, como Um Blues Para Rosa (Lula Barbosa-Celso Prudente), Depois das Seis (Sylvia Patricia), Man (Alzira Espindola-Itamar Assumpção) e Eu Canto Esse Blues (Arlindo Cruz-Rogê Cury-Gabriel Moura), em outras no tempero, como em Giz (Renato Russo-Marcelo Bonfá-Dado Villa-Lobos), Mas Até Lá (Roney Giah) e É Por Você Que Vivo (Rosa Maria e Tim Maia).

General da Banda (José Alcides-Satiro de Melo-Tancredo Silva), maior sucesso do grande e saudoso Blecaute, é relido com grande impacto. Tema de Eva (Taiguaira) prima pela delicadeza. E o final fica com Alma Cigana (Edu Rocha e Orlando) na qual a intérprete, a capella, se incumbe de todas as vozes de forma magistral.

Os arranjos são precisos, sem excessos ou ausências sonoras, no ponto certo. E Rosa demonstra um domínio pleno de sua potência vocal, sem arroubos exagerados ou contenção excessiva, dando a cada nota e a cada palavra o que elas pedem. Ela mostra que conhece todos os atalhos, proporcionando ao ouvinte maciças doses de prazer auditivo. Blues, jazz, folk, rock, MPB, tudo aqui soa às mil maravilhas, vindos de uma profissional que respeita cada canção que escolhe com muito bom gosto para seu repertório.

Em uma boa sacada que acaba valorizando a versão física do álbum, Rosa traz como bônus nada menos do que a íntegra de outro álbum da intérprete, Vagando, lançado pela Gravadora Eldorado em 1980 e há algum tempo fora de catálogo. Trata-se de um disco mais próximo da estética da MPB, no qual a intérprete encanta com Dancing Cassino (Fátima Guedes), Vagando (Paulinho Pedra Azul), Coração de Strass (Paulinho Nogueira e Zezinha Nogueira), Romeiros (Djavan) e Espírito do Som (Chico Evangelista e Pericles Cavalcante). Discaço!

É um exercício de apreciação bem interessante ouvir as 10 faixas de Rosa e logo a seguir as 10 de Vagando, comparando as nuances da intérprete aos 34 anos de idade e em sua fase atual. Mas posso adiantar que ambas as versões são maravilhosas. Essa cantora encantadora, cujo maior hit foi a releitura de California Dreamin’ (dos The Mamas And The Papas) em 1988, merece a sua atenção. Aliás, na verdade, você merece, mesmo, é ser encantado, hipnotizado e cativado por essa voz maravilhosa. Um bálsamo para tempos difíceis!

Ouça Rosa e Vagando em streaming:

The Struts toca ao vivo com o guitarrista Tom Morello-veja

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Por Fabian Chacur

As coisas não andam lá essa maravilha para o rock em termos de mídia e de paradas de sucesso, atualmente dominadas no exterior por r&b, música eletrônica, rap e, no Brasil, por sertanejo, fúnc carioca e outros estilos. No entanto, existem esperanças de que a situação possa mudar um pouco. E uma das bandas que parece ter fôlego para equilibrar as coisas para os roqueiros é a britânica The Struts. Eles postaram no Youtube uma bela gravação ao vivo de Dancing In The Dark, megahit de Bruce Springsteen, na qual contaram com a participação de Tom Morello (Rage Against The Machine, Audioslave etc).

Morello não é daqueles caras que toca com qualquer um, o que dá uma ideia de como essa parceria é bacana para o quarteto inglês. A dobradinha rolou em um show recente realizado no The Basement East, em Nashville, durante turnê dos caras pela terra de Barack Obama. Uma bela performance, com direito a solos inspirados do excelente guitarrista e ativista americano.

Criado na Inglaterra em 2009, o The Struts mantém a mesma formação desde 2012, que é Luke Spiller (vocal), Adam Slack (guitarra), Jed Elliot (baixo) e Gethin Davies (bateria), todos beirando os 30 anos de idade. Seu primeiro álbum, Everybody Wants (2014), traz o hit Put Your Money On Me (ouça aqui).

Antes de lançar um novo álbum, os roqueiros ingleses tiveram a oportunidade de abrir shows para bandas do primeiríssimo time do rock mundial, como Rolling Stones (2014, em Paris), Guns N’ Roses (2016, em San Francisco), The Who (2017) e Foo Fighters (2017). Com a banda de Dave Grohl, Spiller ainda teve a oportunidade de participar em um show dos FF de uma releitura de Under Pressure, do Queen, que ficou muito simpática.

Em outubro de 2018, enfim saiu o segundo álbum dos Struts, Young & Dangerous, que aos poucos vai conquistando novos fãs. Faixas incendiárias como Primadonna Like Me (ouça aqui), In Love With a Camera (ouça aqui) e especialmente Body Talks, esta última com participação especial da cantora Kesha (ouça aqui), tem pinta de que podem impulsionar o quarteto rumo a um patamar mais alto no cenário musical atual.

E qual o mérito dos Struts para merecer a sua atenção, roqueiro amigo? Eles não estão reinventando a roda ou coisa semelhante. Apenas e tão somente investem, com muita energia e personalidade, em em um estilo roqueiro que traz influências de Queen, The Darkness, The Sweet (de quem eles regravaram Ballroom Blitz para a trilha do filme Edge Of Seventeen, de 2006- ouça aqui).

É um som pra cima, divertido, ardido e despretensioso, com ótimos backing vocals. E Luke Spiller canta muito bem e esbanja carisma, com um quê de Freddie Mercury, obviamente guardadas as devidas proporções. Pura diversão!

obs.: na sessão covers, também temos uma releitura bem bacana de Royals, o maior sucesso da jovem cantora Lorde (ouça aqui).

Dancing In The Dark (live)- The Struts e Tom Morello:

Carole King conta sua bela história em Natural Woman

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Por Fabian Chacur

Em uma época na qual a participação feminina no mundo da música parece aumentar e ser mais valorizado, nada melhor do que relembrar a trajetória de uma pioneira no setor. Carole King é o tema do excelente documentário Natural Woman (2016), integrante da série American Masters, já lançado em DVD no exterior. O filme, com aproximadamente 60 minutos de duração, será exibido pelo Canal Bis nesta terça (22) às 13h30 e nesta quarta (23) às 10h na faixa Arquivo Musical, além de já estar disponível na plataforma de streaming pago do canal, a Bis Play.

Nascida em Nova York em 9 de fevereiro de 1942, Carole King começou a tocar piano ainda criança, e não demorou a dominar o instrumento. Ainda adolescente, já compunha, e em 1959 não só arrumou um parceiro para composições, o letrista Gerry Goffin, como ganhou de quebra um marido, pois eles se casaram naquele ano. O documentário registra bem esse período, no qual ela e Goffin escreviam músicas para outros artistas, emplacando hits clássicos como Up On The Roof, The Loco-Motion, One Fine Day, Chains, Will You Love Me Tomorrow, Take a Giant Step, Going Back e (You Make Me Feel Like a) Natural Woman, só para citar alguns dos mais bem-sucedidos.

Com uma mescla de entrevistas feitas em épocas diferentes (incluindo uma realizada especialmente para Natural Woman), a cantora, compositora e pianista relembra com franqueza a dolorosa separação de Goffin, o início de sua carreira como cantora, a parceria musical com James Taylor e o estouro do álbum Tapestry (1971), que vendeu milhões de cópias e a consagrou de uma vez por todas. Os problemas com os outros maridos, a dificuldade de fazer shows e ter de ficar semanas longe das filhas são outros temas muito bem abordados.

Foram aproveitadas imagens de vários momentos da vida de Carole, incluindo fofíssimas cenas de quando ela era criança e começava a tocar piano. Temos também deliciosos depoimentos de amigos e cúmplices do mundo da música como James Taylor, o guitarrista fantástico Danny Kortchmar, o produtor Peter Asher, o casal de compositores Barry Mann e Cynthia Weil, a letrista Toni Stern (parceria dela em hits como It’s Too Late), o produtor Lou Adler e outros.

Natural Woman aproveita muito bem o curto espaço de tempo para abranger uma brilhante carreira que beira 60 anos e equivale a um belíssimo cartão de apresentações para quem não tem muita ideia de quem seja essa tal de Carole King. Duvido que, após ver esse documentário, você não se disponha a ouvir mais, ver mais e saber mais sobre a obra dessa incrível artista, que além de ter uma obra incrível no pop-rock ainda arruma tempo para um ativismo civil muito importante. Temos até ela recebendo o importante prêmio Guershwin das mãos do então presidente americano Barack Obama em 2013.

Veja o trailer do documentário Natural Woman:

Michel Freidenson e Teco Cardoso releem Luiz Millan e Moacyr Zwarg em DVD e CD

Michel Freidenson, Anna Setton, Luiz Millan e Teco Cardoso - Foto Priscila Prade-400x

Por Fabian Chacur

Formado em medicina com especialização em psiquiatria, Luiz Millan também desenvolveu sua veia musical, estudando piano e violão. Após ver um show do pianista Moacyr Zwarg, não só procurou o músico para elogiá-lo como também quis ter aulas com ele. O aprendizado formal não foi lá essas maravilhas, mas rendeu coisa melhor: uma parceria musical. Nascia ali uma semente que rendeu quase 40 músicas, um CD de estúdio e, agora, um DVD-CD, Dois Por Dois Ao Vivo. Trata-se de um trabalho inusitado, e cuja história é deliciosa, envolvendo fortes amizades e muito talento e emoção. O resultado merece bons elogios.

Pois vamos acrescentar mais informações sobre os eventos que geraram este trabalho. Millan viu que o número de obras compostas por ele e Zwarg era bastante significativo. Aí, surgiu a ideia de registrar uma parte delas, 14, para ser mais preciso, em um CD. Mas o conceito em torno desse trabalho seria diferente. Ao invés de os autores as gravarem, eles convidariam dois outros músicos para interpretá-las. E Millan resolveu convidar um amigo que já havia trabalhado com ele, o pianista, compositor e arranjador Michel Freidenson.

Na estrada desde os anos 1980 com muito destaque, integrante de bandas como a ZonaZul e acompanhando nomes do porte de Hermeto Pascoal, Djavan, Milton Nascimento e outros, além de trabalhos próprios, Freidenson aceitou de imediato o convite do velho amigo, e logo em seguida outro parceiro dele de muitos anos, o flautista e saxofonista Teco Cardoso, entrou no time. Teco integrou o ZonaZul junto com Freidenson, e tocou com Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Dori Caymmi, Ivan Lins e Toots Thielemans. Mesmo sem tocar junto há algum tempo, o duo logo viu que continuava entrosado.

O CD Dois Por Dois saiu em 2016, e no dia 25 de agosto daquele mesmo ano foi realizado em São Paulo, no Teatro Espaço Promon, um show de lançamento. O espetáculo traria no palco Freidenson, Cardoso e também a cantora Anna Setton, que participou do álbum na única faixa com vocais do mesmo, a delicada balada Janeiro de 76. Millan apresentou as músicas e tocou piano em um único momento, para acompanhar no piano a leitura do poema Depois de Ouvir o Millan (de autoria de Márcia Salomão) por Marília Pereira Bueno Millan.

Felizmente, surgiu a ideia de gravar, com quatro câmeras e direção do jovem Thales Menezes, a apresentação, mas com o intuito apenas de registrar o evento. O resultado, no fim das contas, ficou tão bom que o lançamento se mostrou inevitável, e é exatamente o que acaba de acontecer, em luxuosa embalagem digipack com direito a encarte caprichado e englobando DVD e CD em um único produto, distribuído pela Tratore e com preço médio de R$ 30,00.

O repertório traz as 14 faixas do CD de estúdio mais o já citado poema e também três canções de Millan compostas com outros parceiros: E O Palhaço Chorou (com Mozar Terra), Entre Nuvens (com Plinio Cutait) e Montparnasse (também com Plinio Cutait). As três, e também Janeiro de 76, são interpretadas em um único bloco no show por Anna Setton, que se mostra à vontade na função, ressaltando as boas melodias e letras de cada faixa.

As músicas da dupla Millan & Zwarg possuem uma delicadeza muito grande, valendo-se de elementos de várias vertentes da música brasileira e com um tempero erudito. A seleção, segundo conta Millan no ótimo making of de 16 minutos contido no DVD, procurou optar por uma diversidade de estilos, com direito a canções, bossa nova e até frevo. O Passar das Horas, Frevo Para Léa (bela homenagem a Lea Freire), Dois Por Dois e Primeiro Amor são destaques de um repertório que flui sem dificuldade.

A parte triste ficou para o fim. No dia 22 de junho de 2017, durante a fase de produção do DVD, Moacyr Zwarg nos deixou, aos 72 anos de idade. Ele aparece tanto no making of (gravado em 2016, após o lançamento do CD de estúdio) como na plateia do show, e este lançamento equivale a uma bela e merecida homenagem a ele, oriundo de uma família de vários músicos (incluindo o pai, Antonio Bruno Zwarg) e com trabalhos ao lado de nomes como Hermeto Pascoal, Fagner, Ednardo, Leny Andrade e Peri Ribeiro, entre outros.

Janeiro de 76 (ao vivo)- Michel Freidenson e Teco Cardoso, com Anna Setton:

Johnny Mathis e Chic enfim tem seu álbum lançado em CD simples

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Por Fabian Chacur

Em 1981, o consagrado astro do jazz e do pop Johnny Mathis deveria ter lançado o álbum I Love My Lady, no qual foi produzido por Nile Rodgers e Bernard Edwards, do grupo Chic. Na prática, o LP equivale a uma espécie de álbum da banda disco com os vocais do cantor, pois composições, músicos e backing vocals ficaram por conta deles. No entanto, a gravadora Columbia Records resolveu abortar o projeto, e colocou-o em seus arquivos. Em 1ª de fevereiro, nos EUA, I Love My Lady, o fruto dessa parceria, enfim estará disponível no formato CD simples.

Na verdade, este mitológico álbum já havia sido disponibilizado no formato CD anteriormente. No entanto, o interessado teria de adquirir The Voice Of Romance: The Columbia Original Album Collection, box set lançada em 2017 com 67 discos (!!!) e um livro com 200 páginas. No site da Amazon americana, está disponível pela “bagatela” de 362 dólares (bem mais do que mil reais, fora frete). A partir de 2010, algumas faixas do disco apareceram em coletâneas como Up All Night (The Chic Organization Album (2013, lançada no Brasil).

A nova versão do álbum, que será disponibilizada em CD e logo após em vinil, trará como atrativos adicionais uma nova capa, belíssima, e um encarte repleto de informações sobre as gravações de I Love My Lady com direito a uma entrevista com o próprio Johnny Mathis feita especialmente para esta ocasião. O selo responsável por tal reedição é o americano Real Gone Music, especialista em reeditar trabalhos bacanas há muito fora do mercado discográfico.

I Love My Lady traz oito faixas, e mostra o cantor se adaptando de forma competente à sonoridade concebida pelos geniais Nile Rodgers e Bernard Edwards. O repertório é muito bom, com direito a maravilhas como a swingada balada Fall In Love (I Want To), a sacudida e irresistivelmente dançante Something To Sing About (com um refrão fantástico e bela interação entre Mathis e as vocalistas de apoio), a elegante faixa-título e a gostosa Love And Be Loved.

Alguns podem achar os vocais de Mathis muito contidos em relação a outros trabalhos dele, mas a graça quem sabe esteja exatamente aí, ou seja, ele teve a humildade de se enquadrar na concepção musical do Chic. No fim das contas, valeu a pena esperar tanto para enfim ouvir essa parceria histórica. Pena que, só para variar, esse álbum não terá versão nacional no formato físico…

Something To Sing About– Johnny Mathis:

Miguel Barone relê Adoniran Barbosa com nova roupagem

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Por Fabian Chacur

Miguel Barone possui duas faces bem distintas, digamos assim, em termos musicais. Uma delas, na qual se vale do pseudônimo Krafor, é a de vocalista, compositor e líder da banda de rock Zona Proibida, que tem em seu currículo dois ótimos trabalhos, Corrida Noturna (1991) e Pane Cega (2016, (leia a resenha aqui). A outra o apresenta como fã ardoroso de Adoniran Barbosa (1910-1982), investindo de forma incomum e original nas canções deste saudoso cantor e compositor. Essa segunda faceta acaba de render um novo fruto.

Trata-se do EP Adoniran Mezzo a Mezzo, disponível em versão física e com cinco faixas, sendo quatro delas versões em italiano para as letras originais e uma, Trem das Onze, com a letra tradicional em português. A primeira experiência de Barone com essa releitura das canções do grande mestre do samba paulista ocorreu em 1996 com o lançamento de uma fita cassete independente que obteve boa repercussão e lhe valeu participação em programas de TV.

Oriundo do bairro paulistano da Bela Vista, o mítico Bixiga, com forte presença de descendentes de italianos e personificado em várias canções do genial Adoniran, Miguel resolveu unificar essas duas marcas do bairro em um pacote só. Essa característica marcante do Brasil, a mistura de diversas culturas, é ressaltada ainda mais na forma como Krafor resolveu gravar tais canções.

Além das novas letras em língua napolitana, o samba original do autor de Saudosa Maloca, embora ainda forte e presente, recebe fortes elementos de rock, blues e jazz nos arranjos, com um resultado bastante criativo, mas sem fugir excessivamente da essência do som do compositor paulista.

Com interpretação ao mesmo tempo roqueira e swingada, Miguel Barone nos oferece Prova Del Mio Amore (Prova de Carinho), Alvaro (Tiro ao Álvaro), Samba (No Morro da Casa Verde) e Non Lasciarmi (Malvina), além de Trem das Onze em português, que encerra a festança com gosto de quero mais.

Os músicos escolhidos ajudam a dar consistência às releituras. São eles Markinhos Rodriguez (bateria), Danilo Rocha (violão), Marcos Prado (guitarra), Dico Santana (baixo) e Alecio Rodrigues (teclados). Temos também participações especiais de Romualdo da Rocha (vocais, congas e pandeiro), Jean Marcell Saad (surdo) e Ayrton Mugnaini Jr (vocais), este último jornalista, músico, cantor, compositor, pesquisador e autor de livro sobre Adoniran, Dá Licença de Contar.

Difícil reler de forma original um repertório tão regravado anteriormente e por tanta gente como o de Adoniran Barbosa, mas Miguel Barone conseguiu concretizar essa façanha em seu EP Adoniran Mezzo a Mezzo.

Álvaro (Tiro ao Álvaro)– Miguel Barone:

Serguei, o Último Psicodélico, um documentário certeiro e delicioso

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Por Fabian Chacur

Sergio Augusto Bustamante é, acima de tudo, um grande personagem. Poucos roteiristas seriam capazes de conceber uma trajetória tão fascinante e cheia de idas e vindas quanto as vividas na realidade por este cantor e compositor carioca, mais conhecido pelo nome artístico Serguei. Enfim essa vida, louca vida ganhou um documentário, o genial Serguei, O Último Psicodélico (2017), que o Canal Brasil está exibindo em dezembro. Para quem ainda não viu, o canal a cabo programou o filme para os dias 27 (quinta) às 8h20 e 30 (domingo) às 5h10. Absolutamente essencial.

Com 1h55 minutos de duração, o documentário dirigido por Ching Lee e Zahy Tata Pur’gte mergulhou fundo no seu tema, com direito a raras cenas de programas de TV (algumas em condições não muito ideais em termos técnicos, mas valendo pela raridade) e deliciosas entrevistas com o próprio cantor e pessoas que conviveram ou convivem com ele, um saco de gatos que inclui Erasmo Carlos, Alcione, Angela Maria, Michael Sullivan, Ney Matogrosso e Sylvinho Blau Blau, só para citar alguns.

Nascido em 8 de novembro de 1933, Serguei trabalhou em banco e foi comissário de bordo antes de mergulhar de vez no mundo artístico, isso quando já havia passado dos 30 anos. Ousado, usava roupas transgressivas e primava pela irreverência, isso em plena Ditadura Militar. Seu carisma o levou a participar em mais de 20 ocasiões do Programa Flávio Cavalcanti, cujo apresentador era um conservador de marca maior, mas que não rasgava notas de 100 dólares. Ele sabia que aquele maluquete dava audiência, e muita.

Das inúmeras pessoas com quem manteve amizade e relacionamentos afetivos, Janis Joplin foi de longe a mais importante, e essa passagem bacana de sua vida é muito bem enfocada no documentário, com direito a um surpreendente depoimento de Alcione, que na época (1970) cantava na noite e presenciou o dueto de Serguei e a cantora americana no palco de uma boate carioca. Fotos bem bacanas de arquivo também ilustram essa parte, assim como depoimentos do onipresente Nelson Motta.

Lógico que a música marca presença, e temos a oportunidade de ouvir várias interpretações deste roqueiro de corpo e alma, que gravou muito menos do que merecia nesses anos todos. Os incríveis singles As Alucinações de Serguei (1967) e Eu Sou Psicodélico (1968) e a versão Rolava Bethânia (Roll Over Beethoven, de Chuck Berry) são destaques, assim como suas releituras de Summertime e Move Over, cavalos de batalha de Janis Joplin.

Aos 85 anos de idade, Serguei conseguiu ver o seu trabalho venerado neste belo documentário, que tem como marcas a irreverência, a busca pelos detalhes e a abrangência de mostrar um pouco de tudo o que esse cara viveu nesse tempo todo, incluindo suas participações no Rock in Rio, a gravação de um LP pela BMG em 1991 com produção de Michael Sullivan e muito mais. Nada melhor do que receber as flores em vida, e Serguei, O Último Psicodélico é exatamente isso. Toca, toca, toca rock and roll!!!

Leia mais sobre Serguei aqui .

Veja o trailer de Serguei, O Último Psicodélico:

Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho resgatam Sidney Miller

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Por Fabian Chacur

Sidney Miller (1945-1980) infelizmente nos deixou ainda jovem, e de forma trágica. No entanto, o legado que nos deixou de seus 15 anos de carreira como cantor, compositor e músico só proporciona alegria, emoção e prazer a quem se propor a conhecer melhor essa obra curta, porém caudalosa. Como seus três discos são bem raros, uma boa forma de se apreciar suas canções acaba de chegar ao mercado discográfico e virtual. Trata-se de Argumento, álbum lançado pela gravadora Kuarup que reúne dois grandes talentos de gerações distintas, Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho, relendo essas sublimes pérolas musicais.

O álbum nos traz a íntegra de um show realizado no Auditório do Instituto Moreira Sales (IMS), no Rio de Janeiro, em 17 de abril de 2012. Na programação, as 12 canções contidas no autointitulado álbum de estreia do artista carioca, lançado em 1967 pelo mitológico selo Elenco, além de outras 4 de outros períodos. Joyce (voz, arranjos e violão) e Alfredo (voz, violão de sete cordas e viola) interpretam seis músicas em dupla, enquanto a cantora se incumbe de sete por conta própria e seu parceiro de outras três.

Em um formato acústico e minimalista, os dois músicos e cantores esbanjam bom gosto, talento e carisma para preencher os espaços existentes. Ora em dupla, que revive a parceria de Miller com Nara Leão (decisiva no impulsionamento de sua carreira), ora individualmente, eles demonstram um lindo entrosamento entre si e com a obra que abordaram. As deliciosas canções do artista carioca, dividindo-se entre samba, bossa e ritmos regionais, são incorporadas de forma ágil e sensível, valorizando cada verso, cada frase melódica, cada acorde. Um show que te pega logo de cara e só te solta minutos após o último acorde.

Em dupla, eles dão um banho nas deliciosas A Estrada e o Violeiro e É Isso Aí. Joyce nos resgata a deliciosa O Circo, que em 1977 fez muito sucesso na voz de Marília Barbosa como abertural da novela global À Sombra dos Laranjais, e brilha em Argumento, Pede Passagem e Maria Joana, com seu violão endiabrado dando o tom com aquela classe que poucos instrumentistas no Brasil conseguem igualar.

Por sua vez, Alfredo, no frescor de seus 37 anos, esbanja uma bela voz e segurança como músico em canções como Me Dá Um Dó e Botequim Nº 1. Este cantor, compositor, músico, ator e pesquisador carioca encarou uma árdua missão ao mergulhar em um repertório tão bom e caudaloso, e ao lado de um verdadeiro mito da nossa música, e passou com nota máxima.

Argumento não só apresenta as canções de Sidney Miller às novas gerações como mostra o incrível talento de Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho como intérpretes de repertório alheio. Um disco daqueles que surge e rapidamente se revela como discografia essencial para os fãs de música brasileira da boa.

Show Argumento na íntegra:

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