Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

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Rod Stewart: os 75 anos de um eterno rocker playboy dos bons!

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Por Fabian Chacur

Em 1983, Cyndi Lauper estourou no mundo inteiro com uma canção na qual dizia que “girls just want to get fun” (garotas só querem se divertir). Pode-se dizer que um certo cantor e compositor britânico que completou 75 anos de idade no último dia dez de janeiro seguiu, segue e provavelmente sempre seguirá esse lema, obviamente adaptado para a sua masculinidade. Alegre, às vezes inconsequente e absurdamente talentoso, Rod Stewart ainda se mantém firme nas paradas de sucesso de todo o mundo, algo que poucos conseguem.

A nova prova dessa permanência constante do roqueiro nos primeiros lugares das paradas de sucesso veio em novembro, quando seu mais recente trabalho, o álbum duplo You’re In My Heart- Rod Stewart With The Royal Philharmonic Orchestra (leia mais sobre este trabalho aqui) atingiu o topo da parada britânica, mesma façanha obtida pelo anterior, Blood Red Roses (2018).

Como explicar esses mais de 50 anos de sucesso, em um cenário musical sempre em constante mudança e no qual cantores solo, duplas e grupos surgem e somem como que por passe de mágica? Além de uma voz rouca e de assinatura própria, o cara também sempre soube não só compor boas canções como também escolher obras alheias para gravar e cantar em seus shows pelos quatro cantos do planeta.

Versatilidade foi outra arma secreta utilizada pelo autor de Maggie May e tantos outros hits. Nos dois discos que gravou com o Jeff Beck Group (Truth-1968 e Beck-Ola-1969), por exemplo, mergulhou de cabeça no blues-rock e no que pouco depois viria a ser denominado heavy metal, influenciando inúmeras bandas, incluindo o Led Zeppelin, só para citar uma delas.

Com os Faces, que integrou de 1970 a 1975 foi a vez do rock básico e ardido. Paralelamente, investia em carreira-solo misturando rock, folk e soul. Como o sucesso dos trabalhos individuais foi se tornando cada vez maior, suplantando de longe o de sua boa banda, a separação se mostrava inevitável, e ocorreu em 1975. Nesse ano, Rod assinou contrato milionário com a gravadora Warner, lançou Atlantic Crossing e virou solo de vez.

Talentoso e, por que não dizer, oportunista, procurou a partir daí sempre flertar com as tendências da moda, adaptando-se e tentando faturar com elas, mas sempre mantendo um DNA forte e próprio. Disco music, new wave, tecnopop, britpop, standards americanos, soul, o cara não se fez de rogado na hora de experimentar novos rumos. E nunca fez isso de forma pretensiosa ou grotesca.

Às vezes, acertou em cheio, em outras, errou feio, mas nunca a ponto de perder um enorme público fiel. O resultado é uma discografia com momentos memoráveis. O auge do folk-rock em Every Picture Tells a Story (1971), as baladas matadoras Sailing, You’re In My Heart e Tonight’s The Night,o flerte certeiro com a disco music em Do Ya Think I’m Sexy (com uma “ajudinha” de um certo artista brasileiro…), o funk tecnopop de Infatuation…. Ah, essa lista vai longe.

Sempre que o cara parecia que iria, enfim, sair das paradas rumo ao ostracismo, algo ocorria e o levantava. Bons exemplos são Unplugged…An Seated (1993), disco acústico que o reuniu de novo com o velho colega dos tempos de Jeff Beck Group e Faces Ron Wood. Ou a nova parceria com o grande Jeff Beck, que rendeu em 1984 e 1985 os hits Infatuation, People Get Ready, Can We Still Be Friends e Bad For You.

O ás mais valioso e importante que tirou da manga do paletó veio em 2002 com o início da série de cinco álbuns com standards do cancioneiro americano, um êxito comercial surpreendente que o levou de novo ao topo da parada americana após muito tempo. Ali, ficou a prova de que não dá para duvidar da capacidade de reação desse eterno playboy do rock, célebre por suas extravagâncias, mulheres bonitas, bagunças em hotéis e coisas do gênero.

Tudo bem que hoje ele está um pouco mais tranquilo, a ponto de fazer em 2015 uma divertida música de ninar para seu filho mais novo, a divertida Batman Superman Spiderman. Em termos musicais, no entanto, o cara está sempre pronto a fazer a trilha sonora para a festa de seus fãs e continua ativo, mesmo com a voz um pouco menos potente do que nos bons tempos, mas ainda capaz de nos divertir e encantar. Valeu, Rod The Mod! Que venha mais por aí!

Maggie May (clipe)- Rod Stewart:

Neil Peart, do Rush, uma espécie de baterista dos bateristas

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Por Fabian Chacur

Em suas mais de quatro décadas de existência, o Rush foi uma banda polêmica. Não tanto pela atitude de seus integrantes, mas pela forma como era encarada por fãs e detratores, quase que em um espírito de “ame ou odeie”. Um ponto, no entanto, não costumava gerar tanta confusão: a enorme e reconhecida qualidade técnica de seu baterista, Neil Peart. Infelizmente, o icônico músico canadense nos deixou na última terça (7), embora sua morte só tenha sido divulgada nesta sexta (10) por seus familiares e amigos.

O músico, de 67 anos, foi vítima de um câncer no cérebro, contra o qual lutou durante quase quatro anos. Ele estava longe dos palcos desde 2015, desde o fim da então divulgada como última turnê do Rush, fato agora infelizmente definitivo, pelo menos com a formação que consagrou o trio canadense. Como consolo, aquela turnê teve grande repercussão, e o mostrou em plena forma, saindo de cena de forma digna.

Nascido em 12 de setembro de 1952, Neil entrou no Rush em 1974 para substituir o baterista fundador do time, John Rutsey (1952-2008), que saiu após o autointitulado álbum de estreia da banda. O novo integrante entrou com tudo, tornando-se logo o principal letrista e se encaixando feito luva ao lado de Geddy Lee (baixo, teclados e vocal) e Alex Lifeson (guitarra), estreando em disco no segundo LP do grupo, Fly By Night (1975).

Fã de bateristas como Keith Moon e Ginger Baker, Neil Peart desenvolveu um apuro técnico e uma energia inesgotáveis, que abriram espaços enormes para que o grupo canadense desenvolvesse sua original e consistente sonoridade, que trafegou entre o hard rock puro, o rock progressivo mais intrincado, um rock mais sutil e com elementos eletrônicos nos anos 1980 e diversos outros desdobramento com o decorrer dos anos.

A crítica especializada frequentemente os hostilizou, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, mas isso não os impediu de cultivar um fã-clube imenso pelos quatro cantos do mundo, que permitiu ao grupo fazer turnês massivas, sempre com estádios e ginásios lotados de admiradores entusiásticos e fanáticos.

O Rush esteve no Brasil em 2002 e 2010, e o show realizado no estádio do Maracanã em 2002 foi eternizado no DVD Rush In Rio (2003). As apresentações geraram forte comoção perante os fãs brasileiros, que celebraram a presença de seus ídolos por aqui com muita vibração e demonstrações de fidelidade.

Neil Peart sempre foi o mais inacessível integrante da banda, raramente participando de entrevistas coletivas, por exemplo, ao contrário da simpatia e acessibilidade de seus colegas de Rush. Isso, no entanto, nunca atrapalhou o respeito que seus fãs sempre tiveram por ele.

Time Stand Still (clipe)- Rush:

Zé Geraldo faz nova profissão de fé no seu estilo com o CD Hey, Zé!

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Por Fabian Chacur

Zé Geraldo é um artista autêntico. Desde o lançamento de seu primeiro álbum, em 1979, tem como marca a fidelidade a um estilo musical que funde rock, country e música rural brasileira, sempre com uma assinatura própria. Lógico que essa autenticidade pouco valeria se esse cantor, compositor e músico mineiro de 75 anos não tivesse talento, e isso ele tem de sobra. Hey, Zé!, seu novo CD, lançado pelo selo Sol do Meio Dia com distribuição da gravadora Kuarup, é mais uma prova concreta da força de sua criação.

Mesmo sem contar com a simpatia da grande mídia, o intérprete de hits como Cidadão e Milho aos Pombos conquistou um legião enorme de fãs pelo Brasil afora no melhor estilo boca-a-boca, em uma época (décadas de 1970, 1980 e 1990) que facilidades como internet e redes sociais ainda não eram sequer cogitadas por aqui. Ele consolidou sua fama na estrada, shows após show, canção após canção, superando as dificuldades com muita garra e fé.

Em seu novo trabalho, Zé não abre espaço para novas sonoridades, nem experimenta rumos diferentes dos habituais em sua longa e bem-sucedida trajetória. E isso não se mostra um problema, pois o universo ao qual se presta a desenvolver é uma estrada praticamente infinita, se o cara tiver talento, sensibilidade, inspiração e disposição, como é o caso do cidadão em questão.

Com sua voz rouca de timbre gostoso e cativante, esse trovador urbano-rural nos proporciona belas reflexões a respeito da vida, louvando o amor, a amizade e mostrando um eterno pé atrás em relação aos políticos, aos falsos pregadores e a quem só pensa em nos explorar e nos enganar. Não tem jabá que o compre, como ele próprio diz. E também demonstra uma fé inabalável nas novas gerações e em seu poder de transformar o mundo.

O bacana é que ele canta isso tudo de forma apaixonada, sim, mas também muito bem humorada, como, por exemplo, nas deliciosas Bicho Grilo Artesão, Roqueiro da Roça e Hippie Véio Sonhador, nas quais dá de ombros em relação a quem ironiza esse perfil de ser humano e mostrando que boas ideias e bons conceitos continuam tão atuais como sempre foram e sempre serão. Sonhar é preciso!

A faixa que dá nome ao álbum é uma inspirada versão em português de Hey Joe, que se tornou famosa mundialmente na gravação de Jimi Hendrix nos anos 1960. A Canção Que Vem do Céu é uma tocante homenagem a seu neto Gael, enquanto O Chão do Nosso Chão segue uma linha ecológica.

Enquanto Há Tempo propõe entregar o comando do Brasil a diversos tipos de pessoas de bem, cujas atitudes inspiram esperança em tempos melhores do que os atuais, mas com a advertência: “enquanto há tempo”. Afinal de contas, o relógio não para e as coisas se deterioram. Esperança, mas com foco!

E quem tem cães sabe o quanto esses seres encantadores ajudam a fazer nossas vidas mais saudáveis, encantadoras e até mesmo suportáveis. Zé Geraldo faz uma bela homenagem à sua encantadora cachorra na música Tina, um country rock delicioso com direito a latidos adoráveis em seu final.

Se as canções e as ideias são de primeira linha, os músicos que estão com Zé Geraldo nessa viagem musical são da melhor qualidade, todos mergulhando de cabeça no projeto. Feras do porte do Duofel, Folk na Kombi, Jean Trad, Hamilton Mica, Zeca Loureiro, Carneiro Sândalo e Aroldo Santarosa, por exemplo.

A faixa que encerra o álbum é Zé Geraldo (O Poeta do Bem), escrita por João Carreiro e Chico Teixeira, que por sinal participam nos vocais e violões. Uma homenagem tão bonita e merecida que não poderia ter ficado de fora do disco.

Hey, Zé! (o álbum) flagra um artista ainda inquieto, ativo e inspirado aos 75 anos de idade, capaz de nos oferecer canções belas, vigorosas e inspiradoras, que se mostram essenciais para suportar e tentar superar tempos tão difíceis como os que vivemos atualmente. A força de sua mensagem continua superando todos os desafios. Como diria outro artista do mesmo gabarito dele, o incrível Ednardo, “não tema sinhá donzela nossa sorte nessa guerra, eles são muitos, mas não podem voar”. Zé Geraldo pode! Voemos com ele!

Veja o clipe de Bicho Grilo Artesão, de Zé Geraldo:

Zé Renato garimpa pepitas de Paulinho da Viola em CD solo

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Por Fabian Chacur

Zé Renato é um daqueles artistas que leva a sério aquela definição de “operário da arte”. Em seus mais de 40 anos de carreira, sempre se mostrou dos mais ativos, como integrante do Boca Livre, na carreira-solo e em projetos os mais diversos. Aos 63 anos, não parece disposto a botar o pé no freio. Após recentemente lançar um álbum com o Boca Livre (leia a resenha aqui) e um DVD com a Banda Zil (leia a resenha aqui), ele nos oferece novo disco solo, O Amor é Um Segredo- Zé Renato Canta Paulinho da Viola, em CD e nas plataformas digitais, distribuído pela Mills Records.

O cantor, compositor e músico oriundo de Vitória (ES) e há muito radicado no Rio de Janeiro já havia gravado anteriormente músicas de Paulinho da Viola, e desta vez resolveu dedicar um disco inteiro a esse grande ícone da nossa música. Ao contrário do que habitualmente ocorre nesse tipo de obra, ele não optou por grandes hits do artista enfocado, mergulhando fundo em seu repertório para resgatar pepitas tão preciosas quanto, mas que o grande público provavelmente desconhece. São nove canções lançadas originalmente entre 1965 e 1987.

A gravação foi feita em Recife, com um dia para o artista propriamente dito e o outro dedicado ao registro dos complementos. Zé Renato aproveitou uma passagem do Boca Livre pela capital de Pernambuco para isso, e se valeu do estúdio do compositor Lula Queiroga, seu amigo de muitos anos. Minimalista, o artista canta acompanhado por seu violão, com participações delicadas e discretas de Tostão Queiroga (percussão), Spok (sax barítono e tenor) e Fabinho Costa (trompete surdina) variando de faixa a faixa.

Embora imprimindo sua assinatura própria às canções, Zé respeitou o jeito elegante com que Paulinho da Viola interpreta seu repertório. As canções são da lavra mais intimista e introspectiva do autor. Um Caso Perdido, Lua, Só o Tempo, Cidade Submersa e Para Um Amor no Recife são só dele. As outras são com parceiros: Sofrer (Capinam), Foi Demais (Mauro Duarte), Vida (Elton Medeiros) e Minhas Madrugadas (Candeia).

Ótimo compositor, Zé Renato mais uma vez mostra que também sabe reler com muita categoria canções de repertórios alheios, como já havia feito anteriormente com os de Silvio Caldas e Zé Keti.

O integrante do Boca Livre mostra o repertório deste novo trabalho em São Paulo com shows neste sábado (11) às 21h e domingo (12) às 18h no Sesc Bom Retiro (Alameda Nothman, nº 185- Bom Retiro- fone 0xx11-3332-3600), com ingressos custando de R$ 9,00 a R$ 30,00.

Ouça O Amor é Um Segredo, de Zé Renato, em streaming:

Ana Cañas celebra 12 anos de carreira com show em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Em 2007, Ana Cañas lançou seu álbum de estreia, Amor e Caos, e rapidamente viu seu nome ser comentado como uma das grandes revelações da música brasileira naquele período. Desde então, a cantora e compositora conseguiu se firmar, com direito a um público fiel e muito respeito por parte dos colegas. Ela celebra 12 anos desse lançamento (que logo serão 13, por sinal) com shows nos dias 10 e 11 (sexta e sábado) às 21h na Comedoria (antiga Chopperia) do Sesc Pompeia (rua Clélia, nª 93- Pompéia- fone 0xx11-3871-7700), com ingressos de R$ 9,00 a R$ 30,00.

A ideia é dar uma geral no repertório de seus seis álbuns de estúdio, incluindo algumas do mais recente, intitulado Todxs (2018). Entre outras canções, teremos Pra Você Guardei o Amor (que ela gravou em parceria com seu autor, Nando Reis), Esconderijo, Será Que Você Me Ama?, Tô na Vida e Luz Antiga.

“Também cantarei músicas da militância que fizeram parte da história do país, celebrando a resistência nesse momento difícil que vivemos para arte e cultura. É um show pra todo mundo cantar junto, com muita emoção e canções especiais que marcaram a minha vida”, garante a intérprete.

Ana Cañas terá a seu lado nesses dois shows em São Paulo uma banda composta por Monica Agena (guitarra), Dj Nato PK (beats), Estevan Sinkovitz (baixo), Marco da Costa (bateria) e André Lima (teclados).

Pra Você Guardei o Amor– Ana Cañas e Nando Reis:

Tom Jobim, um maestro soberano e um ser humano como todos nós

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Por Fabian Chacur

Imagino o orgulho de quem teve a honra de entrevistar mitos do mundo da música como Elis Regina, Adoniran Barbosa, Ary Barroso, John Lennon e David Bowie, por exemplo. Esses infelizmente não fazem parte do meu currículo. Mas não posso reclamar, pois Paul McCartney, James Taylor, Cazuza, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luciano Pavarotti e Gonzaguinha estão nele. E um certo Tom Jobim, também.

Tom, que nos deixou há 25 anos, mais precisamente no dia 8 de dezembro de 1994, aos 67 anos, é um dos nomes mais importantes da história da nossa cultura popular. Conhecido e venerado nos quatro cantos do mundo, poderia ter sido um cara arrogante e difícil, pois tinha currículo para justificar isso. No entanto, primava pela simplicidade, bom humor e gentileza, tendo deixado belas recordações para quem teve a oportunidade de conviver com ele.

Descobri por conta própria essas características em um dia lá pelos idos de 1988. O Maestro Soberano iria fazer um show ao ar livre no Parque do Ibirapuera ou outro local do gênero no fim daquela semana, e meu editor na época no hoje extinto Diario Popular, de São Paulo, pediu para que eu tentasse entrevistá-lo. O artista estava hospedado no hotel Maksoud Plaza, e resolvi arriscar.

Ao ligar, pedi à telefonista do hotel que me transferisse para o quarto de Tom Jobim. Normalmente isso não costuma ocorrer de forma imediata quando você procura alguém ilustre, mas me dei bem aqui. E quem me atendeu foi o próprio. “Oi, Tom, aqui é o Fabian, do Diario Popular. Gostaria de fazer uma entrevista com você por telefone sobre o show de domingo, seria possível?”.

“Oi, Fabian, bom dia. Olha, agora (liguei para ele por volta das 11 horas da manhã) eu não tenho como te atender. Será que você poderia me ligar de novo por volta das 14h? Aí eu certamente estarei disponível para conversar com você”. Concordei sem mais rodeios e coloquei o fone no gancho, crente de que, no horário combinado, ele certamente não estaria, ou alguém me daria algum tipo de desculpa e ficaria por isso mesmo.

A minha expectativa negativa não era em razão de pessimismo. É que, normalmente, esse tipo de entrevista só costuma ocorrer quando um assessor de imprensa entra em cena, e é esse profissional quem oferece ao jornalista uma oportunidade como essa. Difícil você conseguir direto com o artista, no caso de alguém com o porte de um Tom Jobim. Ainda mais para um jornal como o Diario, que não tinha (injustamente, por sinal) o respeito dado a concorrentes na época como a Folha, o Estadão, o Globo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.

Preparado para a missão, mas cético sobre se a mesma seria concretizada, liguei na hora combinada. E não é que Tom me atendeu? Mais: ainda me pediu desculpas por não ter me atendido na tentativa anterior! Aí, iniciei o papo, delicioso por sinal, que durou uma meia hora, mais ou menos.

De tudo o que perguntei, lembro basicamente da resposta que ele me deu ao questioná-lo sobre os direitos autorais que tinha ganho no exterior com Garota de Ipanema e tantos outros sucessos marcantes. Ele me explicou que os valores eram muito menores do que as pessoas imaginavam, e justificou: “Fabian, na época eu era jovem, a gente não lia aquelas letrinhas miúdas dos contratos…”

Reencontrei esse gênio da música no finalzinho de 1989 ou no começo de 1990, não sei precisar exatamente a data, quando Tom foi nomeado o primeiro reitor e presidente de conselho da então Universidade Livre de Música, criada pelo na ocasião governador do estado de São Paulo Orestes Quercia.

Era uma entrevista coletiva, realizada no mesmo Maksoud Plaza, hotel situado próximo à avenida Paulista e um dos mais badalados naquele período. Aí, foi pessoalmente, e aquela simpatia do primeiro encontro se mostrou ainda mais forte, além do carisma e inteligência desse ilustre entrevistado.

A principal marca daquele segundo (e, infelizmente, último) encontro com o autor de Wave ficou em sua parte final. Estava fazendo aquela matéria junto com a fotógrafa Patricia Gatto (o site dela está aqui), uma fã assumida do nosso entrevistado. No final, ela me pediu para que eu tirasse uma foto dela com Tom.

Fotógrafo amador, no máximo, resolvi encarar o desafio pela amizade com ela, uma excelente profissional e muito simpática. Para ser sincero, não me lembro se o resultado prestou, mas fiz o possível. E vacilei feio, também, por não ter pedido um autógrafo ao Tom. Marquei uma bobeira clássica!

Vale lembrar que meu primeiro contato com a música de Tom Jobim ocorreu de forma curiosa, quando tinha 10 anos de idade e meu irmão comprou um exemplar do Disco de Bolso, projeto pioneiro do Pasquim que trazia, como brinde, um compacto simples de vinil com duas músicas.

No lado A, a primeira versão de Águas de Março, em andamento bem mais rápido do que o de gravações posteriores. Do lado B, a intensa Agnus Sei, de um cantor, compositor e violonista mineiro ainda desconhecido, de nome João Bosco.

Gostava tanto daquele compacto que, alguns meses depois, quando nossa professora de português do ginásio pediu a cada aluno escolher uma música para tocar na classe durante uma aula, não vacilei em escolher Águas de Março.

Os coleguinhas não curtiram tanto quanto eu ouvir esse hoje clássico da música brasileira, mas eu amei, e nunca poderia imaginar que, quase 20 anos depois, teria esses contatos bacanas com seu autor.

Águas de Março– Tom Jobim e Agnus Sei– João Bosco:

Barão Vermelho mostra álbum Viva e seus hits em show no RJ

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Por Fabian Chacur

Se muita gente já jogou a toalha para o trabalho em 2019 e está curtindo suas férias, o Barão Vermelho dá uma de Muricy Ramalho, o ex-treinador de futebol e criador da célebre frase “aqui é trabalho”. A banda carioca irá suar a camisa mais uma vez este ano neste sábado (28) no Rio de Janeiro a partir das 22h no mítico Circo Voador (rua dos Arcos, s-nº- Lapa- fone 0xx21-2533-0354), com ingressos de R$ 60,00 a R$ 120,00.

O agora quarteto dá mostras de que merece ser considerado uma espécie de Jason Vorhees do rock tupiniquim. Afinal de contas, eles encaram a terceira mudança de vocalista, e não demonstram sinais de enfraquecimento. Rodrigo Suricato, que também toca guitarra, entrou no time e se encaixou feito uma luva, mostrando-se um frontman de primeira ao lado de Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados) e Fernando Magalhães (guitarra).

O mote deste show é o repertório de Viva, mais recente álbum da banda, disponível nas plataformas digitais e a estreia em gravações de estúdio do novo line up dos rapazes. Além do single matador lançado no final de 2018, a encapetada A Solidão Te Engole Vivo, o trabalho traz outras composições bacanas do time, entre as quais Eu Nunca Estou Só, Um Dia Igual ao Outro e Por Onde Eu For.

Lógico que, além das novidades, o show também trará uma seleção dos grandes sucessos desses mais de 30 anos de trajetória da banda que já teve Cazuza e Roberto Frejat em suas fileiras, petardos do porte de Maior Abandonado, Bete Balanço, Por Você e tantos outros.

Leia mais sobre o Barão Vermelho em Mondo Pop aqui.

Para Onde Eu For – Barão Vermelho:

Bira, o músico gente boa que ia até em ensaio de banda obscura

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Por Fabian Chacur

Em 1984, eu integrava uma obscura banda de rock de nome Reflexo. Naquele período específico, éramos um quarteto e ensaiávamos em uma garagem do baterista, o glorioso Paulo “Prefeito” (que herdou o apelido do irmão, mas isso não vem ao caso aqui), em uma rua no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, próximo ao Parque do Ibirapuera. Um dia, para nossa surpresa, recebemos a visita de um vizinho ilustre, que morava ali pertinho.

Era o Bira, baixista que, então, integrava a orquestra do SBT, participando dos programas da emissora, em especial o de Silvio Santos. Extremamente simpático, ele bateu um gostoso papo conosco, falando de suas experiências no mundo da música e também de um músico amigo dele que inventava os acordes que tocava, nomeando-os como “fu” ou coisa que o valha. Foi marcante.

Anos depois, quando aquele soteropolitano simpático de meia idade já era conhecido nacionalmente como integrante da banda do programa de Jô Soares, tive a oportunidade de encontrá-lo novamente, já nos anos 1990, e rapidamente o cumprimentei e o lembrei dessa passagem entre nós. Mesmo com toda a fama que a aparição constante na telinha hipnótica lhe deu, ele se mostrava o mesmo, para minha felicidade.

E é com muita tristeza que neste domingo (22), Ubirajara Penacho dos Reis se foi, aos 85 anos, dois dias após ter sido internado com um AVC. O músico deixa quatro filhos e três netos, e uma legião de fãs pelo Brasil afora, conquistados por seu riso largo e imensa simpatia estampada em seu rosto.

Bira nasceu em Salvador em 5 de setembro de 1934. A música entrou quase por acaso em sua vida, pois ele pensava em ser médico, desejo que se encerrou após ter presenciado uma autópsia pela primeira vez. Não teve segunda… Depois, trabalhou como representante de um laboratório. Sua primeira atuação como músico foi tocando bongô. Depois, como cantor em um coral, época em que conheceu Tom Zé, ainda em Salvador.

Ele trabalhou com diversos artistas, entre eles Wilson Simonal, com quem tocou durante um ano e sete meses. Mas acabou se firmando como músico de TV, inicialmente na célebre banda do maestro Zezinho, dos programas de Silvio Santos, incluindo o célebre Qual é a Música?, um grande sucesso.

Mas foi já cinquentão, em 1988, que viu sua carreira ganhar um impulso imenso ao ser convidado para integrar a banda do talk show que Jô Soares faria no SBT, emissora para a qual se mudou após muito tempo na Globo. Logo em sua primeira aparição no Jô Soares Onze e Meia, no terceiro episódio da atração, teve uma interação com o humorista Agildo Ribeiro, que já havia trabalhado com ele e reconheceu sua risada inconfundível.

“Jô, eu já trabalhei com o Bira, ele vai te ajudar muito nesse programa”, eis o conselho que um gênio do humor deu ao outro. Conselho aceito, o baixista ficou com Jô durante quase 30 anos, no SBT e posteriormente na Globo, para onde o programa migrou, rebatizado com o nome Programa do Jô.

Ao lado de músicos talentosos como Derico Sciotti e Osmar Barutti, Bira ficou marcado por sua simpatia e a risada escancarada que dá para associar àquela venerada por uma encantadora música de seu conterrâneo Caetano Veloso, Irene (“quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada”). De quebra, volta e meia ele dava depoimentos que mostravam seu grande conhecimento musical.

Bira gravou dois discos com o grupo do programa televisivo, Quinteto Onze e Meia (1992) e Jô Soares e o Sexteto- Ao Vivo No Tom Brasil (2000), e fez alguns shows com o grupo fora do ambiente televisivo, sempre com boa repercussão.

O fim do Programa do Jô, em 2016, também marcou o encerramento dessa parceria de tanta qualidade. Em entrevista dada ao programa de Danilo Gentili, The Noite, em julho de 2018, Bira foi bem franco: “o fim do Programa do Jô foi equivalente a um soco no queixo, esse programa ajudou a mudar a minha vida, e sinto muito falta dele”. Em um ano pesado e muito difícil, não mais ouvir a risada do Bira equivale a um de seus pontos mais baixos. R.I.P., mestre!

Veja entrevista do Bira ao The Noite em julho de 2018:

Emanuelle Araújo lança single e canta clássicos de Jards Macalé

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Por Fabian Chacur

Há 20 anos, Emanuelle Araújo se tornou conhecida nacionalmente ao substituir Ivete Sangalo na Banda Eva. Desde então, a cantora e compositora baiana expandiu os seus horizontes. Após sair do grupo, onde ficou por volta de dois anos e meio, investiu em carreira-solo, criou o grupo Moinho ao lado de Toni Costa e Lan Lan e também fez sucesso como atriz. Na música, seu novo passo é o lançamento do single Hotel das Estrelas, já disponível nas plataformas digitais e o ponto inicial de um novo trabalho previsto para 2020 pela gravadora Deck.

A canção Hotel das Estrelas é de autoria de Jards Macalé, e essa é a grande novidade. O genial cantor, compositor e músico carioca será o homenageado nesse trabalho, pois todas as canções incluídas nele serão de sua autoria. Esta primeira amostra, com direito a um clipe bem produzido, é uma balada rock que se encaixou feito luva na capacidade vocal da artista, e dá uma expectativa positiva para o trabalho completo.

A faixa foi gravada em um estúdio em Nova York, mais precisamente no Brooklin, durante passagem de Emanuelle pelos EUA. O músico brasileiro radicado por lá Guilherme Monteiro se incumbiu da guitarra, e no álbum ficou como coprodutor ao lado da artista e também tocou violão. No single, também marcam presença Ben Zwerin (baixo) e Bill Dobrow (bateria). Bela ideia celebrar a obra de um cara tão talentoso como Jards Macalé, cuja obra é uma das mais consistentes e criativas do universo da música brasileira.

Hotel das Estrelas (clipe)- Emanuelle Araújo:

Eliana Pittman lança belo álbum com gravações novas e antigas

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Por Fabian Chacur

Eliana Pittman viveu seus anos de ouro em termos profissionais durante as décadas de 1960 e 1970. Nesse período, fez inúmeros shows no Brasil e no exterior, gravou discos de sucesso, mostrou versatilidade ao cantar de jazz a carimbó e de quebra foi capa da badalada revista americana Ebony em 1965. Desde 1991 sem lançar um disco de estúdio, embora se mantivesse na ativa, a cantora enfim quebra essa escrita negativa com Hoje, Ontem e Sempre (Kuarup Música), um trabalho à altura de seu belo currículo.

O álbum se divide em duas partes que justificam o seu título. A primeira consiste em um repertório composto por dez canções oriundas de vários períodos, todas interpretadas com o acompanhamento do violão de Joan Barros, com percussão em alguns momentos a cargo de Michel Machado. As gravações ocorreram em um único dia, o que nos proporciona interpretações espontâneas, nas quais Eliana se mostra craque no seu jogo, mais do que nunca.

As canções fluem bem graças à ótima interação entre os músicos e a intérprete. O Morro Não Tem Vez (Carlos Lyra e Vinícius de Moraes), Gamei (Délcio Luiz e André Renato, hit nos anos 1990 com o Exaltasamba), Preciso Dizer Que Te Amo (Dé, Cazuza e Bebel Gilberto), Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazón (Fito Paes) e Drão (Gilberto Gil) são pontos altos de uma seleção musical bem diversificada que a cantora alinhava sem grandes sustos.

A segunda parte do disco traz oito faixas gravadas ao vivo em 1970, durante show de Eliana na boate Dom Camilo, em Paris, França. A fita com o registro dessa apresentação histórica estava nos arquivos da cantora, e foi descoberta pelo sempre inquieto produtor Thiago Marques Luiz. Acompanhada por uma banda afiada cuja formação infelizmente se perdeu, a moça aparece no auge de seus 25 anos de idade, inquieta e com um swing absurdo.

Temos aqui como pontos altos Aquele Abraço (Gilberto Gil), Ponteio (Edu Lobo e Capinam), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), Big Spender (Cy Coleman e Dorothy Fields) e um incrível pot-pourry incluindo Felicidade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), Deixa Isso Pra Lá (Edson Menezes e Alberto Paz) e curiosamente O Morro Não Tem Vez, a mesma que abre a parte de estúdio do álbum, permitindo ao ouvinte comparar a performance da cantora na mesma música em duas épocas distintas.

A performance de Eliana neste disco ao vivo é uma prova cabal de sua alma jazzística, com direito a improvisos, scat singing e muito, mas muito swing mesmo, além de uma interação total e completa com a plateia presente. O resultado é simplesmente arrebatador, pequena e belíssima prova da grande capacidade dessa artista em um palco.

Se o conteúdo musical merece nota alta, a apresentação de Ontem, Hoje e Sempre no formato CD é simplesmente brilhante. Além de bela capa digipack, o disco físico traz encarte com 38 páginas incluindo pequenos textos da cantora e de seu produtor e uma maravilhosa seleção de fotos oriundas de várias fases de sua carreira, incluindo capas de revistas como a Ebony e uma da extinta Intervalo na qual aparece ao lado de Roberto Carlos.

Eis uma forma inteligente de tornar a versão física um objeto de desejo não só para os mais fanáticos pela cantora, mas também por quem curte música brasileira e quer ter em mãos um verdadeiro documento dessa carreira. Grande sacada de Thiago, assim como essa ideia de reunir conteúdo de duas épocas distintas da artista em um mesmo CD, algo que ele já havia feito com a cantora Rosa Marya Colin (leia resenha de Mondo Pop aqui).

Gamei (clipe)- Eliana Pittman:

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