Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

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Genival Lacerda, 89 anos, o rei eterno do forró de duplo sentido

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Por Fabian Chacur

Uma das diversas variantes do forró leva como subtítulo “duplo sentido”, cujas letras investem na semelhança entre algumas palavras para dar a entender uma coisa ao ouvinte, tentando disfarçar essa intenção sempre escancarada. Presente há décadas no imaginário do povo brasileiro, esta vertente teve como seu principal nome o paraibano Genival Lacerda, que nos deixou nesta quinta-feira (7) no Recife (PE) aos 89 anos, após mais de um mês internado por causa da covid-19. Uma grande perda para a nossa cultura.

Nascido em Campina Grande (PB) em 15 de abril de 1931, Genival iniciou sua carreira musical nos anos 1950, quando se mudou para o Recife, onde gravou seu primeiro disco. Aceitando a sugestão de seu concunhado, o célebre e genial Jackson do Pandeiro, ele se mudou para o Rio de Janeiro em 1964, trabalhando em casas de forró e tentando ampliar os seus horizontes profissionais. Foi duro, mas enfim ele conseguiu.

Isso ocorreu em 1975, quando Severina Xique-Xique, sua composição em parceria com João Gonçalves, tomou conta de todo o país com sua letra bem-humorada e com o refrão grudento “ele tá de olho é na boutique dela”. Além da música ser muito boa em seu estilo, também a ajudou o fato de Genival ter uma forte presença cênica, com direito a roupas coloridas e a indefectível dança balançando sua barriga protuberante.

Presença frequente nos programas populares de TV nos anos 1970 e 1980, o artista paraibano emplacou uma série de hits, entre os quais Mate O Véio Mate, Quem Dera, Radinho de Pilha e inúmeros outros, todos investindo na ala mais dançante do forró e com versos irreverentes beirando (e muitas vezes ultrapassando) o politicamente incorreto. Mas sua simpatia e carisma sempre o ajudaram a superar possíveis problemas.

Uma das marcas registradas de Genival Lacerda foi sua capacidade de se reinventar e de estar sempre aberto a parcerias com outros artistas. Em 1988, por exemplo, ele marcou presença no primeiro LP solo do roqueiro Marcelo Nova, na faixa A Gente é Sem-Vergonha. Com Zeca Baleiro, gravou em 1997 O Parque de Juraci, faixa de Por Onde Andará Stephen Fry?, álbum de estreia do cantor e compositor maranhense.

Em 2010, foi a vez de Ivete Sangalo registrar um dueto com ele, a divertida Chevette da Menina, na qual brincam com o fato de o nome do carro rimar com o da cantora. E teve também uma parceria de Genival com o impagável Falcão, Forró Cheiroso, que saiu no álbum Casa do Forró, de 1998.

Mas o momento mais curioso de sua carreira ocorreu na metade dos anos 1990, quando o DJ Cuca fez uma versão dance de Rock do Jegue. A versão fez tanto sucesso que gerou o álbum Forró Dance By Genival Lacerda, lançado pela gravadora Paradoxx. Para divulgar essa música, ele chegou a ir em programas de TV vestido com uma versão forrozeira de um MC de dance music, incluindo até aqueles bonés típicos.

Mas esse seu lado pop não tirou dele o respeito por parte dos fãs do forró mais tradicional, o que pode ser comprovado pelo fato de ele participar de programas de TV dedicados à música brasileira de raiz, como o de Rolando Boldrin, por exemplo. Ele conseguia agradar ao povão mais simples e aos mais sofisticados.

Rock do Jegue (Cuca Mix)- Genival Lacerda:

Luís Martins mescla repertório próprio e clássicos em Sonho Live

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Por Fabian Chacur

O ano de 2020 foi certamente um dos mais difíceis das últimas décadas, especialmente para a classe artística em todas as suas áreas. Mesmo com esse panorama cinzento à sua frente, o cantor, compositor e arranjador baiano Luís Martins não abriu mão de realizar seu novo projeto. Trata-se do álbum audiovisual Sonho Live, lançado pela sua produtora Arroz de Hauçá e disponível nas plataformas digitais.

O trabalho foi gravado ao vivo, sem plateia, no dia 26 de agosto de 2020 no Armazém Hall, situado em Lauro de Freitas, Bahia. No palco, além de Luís Martins, uma banda afiadíssima, composta por Álvaro Pinho (backing vocals), André Almeida (violão), Davi Brito (sopros), Fabrício Cyem (baixo), Fabrício Veloso (percussão), Gel Barbosa (acordeom), Rafael Santana (percussão), Ricardo Sibalde (sopros), Tiago Lourenço (piano) e Wil Wagner (bateria).

Esse timaço, extremamente bem ensaiado, dá um forte embasamento para que o protagonista do evento possa atuar de forma desenvolta. Luís tem aquilo que os críticos musicais das antigas chamavam de “malemolência”, ou seja, aproveita-se com muito swing e jogo de cintura de uma extensão limitada de voz, que ele, no entanto, utiliza com uma maestria digna de um Moraes Moreira, por exemplo, embora com o seu estilo próprio.

O repertório de 20 faixas de Sonho Live traz canções dos dois trabalhos de áudio lançados anteriormente pelo artista baiano, Sou Músico (2018) e Seis Meses (2019), mescladas com novidades autorais e também releituras de clássicos de Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros.

Luís é um excelente compositor, com letras sempre muito bem concatenadas aliadas a uma mistura musical que inclui samba, bossa nova e baião, com um tempero eventual de blues. A produção e direção musical de André Almeida é precisa, no sentido de dar a essas ótimas canções a roupagem adequada.

Em termos visuais, a edição de imagens é sóbria e extremamente eficiente, captando bem a movimentação dos músicos e também aproveitando a utilização de um telão ao fundo do palco que serve como um cenário muito bacana, destacando-se bastante em alguns momentos específicos.

Luís Martins faz algumas belas homenagens em suas composições. A Bahia é o foco em Praia do Forte e Salvador do Agogô, enquanto Luiz Gonzaga (O Rei Pop), Dona Canô (Dona do Amor) e Irmã Dulce (Anjo Bom) são os outros objetos de culto por parte do autor.

Se consegue se incumbir bem do ofício de interpretar suas obras, Luís também não se sai mal no repertório alheio, swingando com categoria em clássicos do porte de Homenagem ao Malandro (Chico Buarque), Reconvexo (Caetano Veloso) e o pot-pourry Mambembe/Sou Eu (Chico Buarque/ Chico Buarque e Ivan Lins).

Sonho Live também é uma boa amostra do poder de fogo da produtora Arroz de Hauçá, criada em Salvador (BA) em 2018 e agora sediada em São Paulo. A organização tem estrutura acústica e acervo completo de instrumentos musicais para ensaios e shows, além de um núcleo de editoração e de comunicação para produzir e editar conteúdos audiovisuais.

Ouça e veja Sonho Live, de Luis Martins, em streaming:

Maricotta lança videoclipe para divulgar seu novo single, Eu Sou

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Por Fabian Chacur

Com apenas 9 anos de idade, Maricotta começa a se destacar na cena musical brasileira graças aos bons singles que está lançando, sempre divulgados por clipes fofos. A jovem radicada em Belo Horizonte (MG) se mostra mais desenvolta a cada novo lançamento, e é essa a marca de Eu Sou (composta por Felipe Ispério e Gaby), seu primeiro single de 2021, disponível nas plataformas digitais e cujo clipe teve direção a cargo de Rafael Casson e Kathia Calil.

A canção traz versos como “estou aqui pra deixar tudo melhor do que encontrei” e investe em uma mensagem positiva e com a qual não só as crianças, mas também os adolescentes e adultos poderão se identificar. A simpática garotinha nos oferece sua visão sobre esta música: “Cantar essa música é legal porque consigo dizer pras pessoas que todos somos importantes e especiais”.

Com uma levada pop envolvente, Eu Sou conta com a produção de Bruno Alves, produtor musical, maestro e arranjador conhecido por seus trabalhos com artistas como Daniel Boaventura, Manu Gavassi, Sophia Abrahão e Kell Smith. Aliás, foi com uma releitura de uma canção de Kell, Era Uma Vez, que Maricotinha conquistou muitos fãs nas redes sociais, incluindo a própria artista, que compôs para ela A Cor Mais Bonita (ouça aqui).

Eu Sou (clipe)- Maricotta:

Gerry Marsden, 78 anos, o cantor que nunca nos deixou sozinhos

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Por Fabian Chacur

Os Beatles foram a banda mais bem-sucedida a sair da cidade britânica de Liverpool. Quanto a isso, não há a menor dúvida. No entanto, em um item, eles perderam para outra banda local e contemporânea, Gerry And The Pacemakers: os rivais conseguiram emplacar seus primeiros três singles no topo da parada britânica. Uma façanha até então inédita por lá, e que só seria igualada 20 anos depois. Seu cantor, guitarrista e líder, Gerry Marsden, nos deixou neste domingo (3) aos 78 anos, e deixa um legado que vai além da música.

Nascido em Liverpool em 24 de setembro de 1942, Gerry iniciou uma banda ao lado do irmão mais velho, Freddie Marsden (1940-2006). A formação clássica de Gerry And The Pacemakers também trazia Les Chadwick (baixo, 1943-2019) e Les Maguire (piano, 1941). Eles disputavam os fãs de rock em Liverpool com os Beatles, inclusive tocando nos mesmos locais, entre eles o célebre Cavern Club, onde se apresentaram por quase 200 vezes.

O quarteto foi o segundo a ser contratado por Brian Epstein (1934-1967), o lojista que resolveu se tornar empresário de artistas e iniciou seu projeto com os Beatles. Se os Fab Four foram contratados pela Parlophone, Gerry And The Pacemakers entraram em um outro selo da EMI, o Columbia, mas ambos tiveram como produtor o genial George Martin (1926-2016). Aliás, há uma história bem interessante envolvendo os dois grupos e Martin.

O primeiro single dos Beatles, Love Me Do, lançado no final de 1962, atingiu o 17º posto na parada britânica, um bom desempenho para uma banda iniciante. Mas George Martin achava que os seus garotos podiam ir ainda mais longe se gravassem uma canção alheia, e sugeriu a eles que tentassem How Do You Do It?, escrita por um jovem e emergente compositor chamado Mitch Murray.

Mesmo a contragosto, John, Paul, George e Ringo gravaram a tal música. O resultado não ficou nada mal, mas eles queriam de qualquer jeito que seu segundo single fosse Please Please Me, de Lennon e McCartney, e a vontade deles prevaleceu. No fim das contas, foi aquele caso em que os dois lados tinham razão, pois Please Please Me atingiu o segundo posto na parada britânica e se tornou o primeiro grande hit da banda.

Martin cismou que How Do You Do It? tinha cara de sucesso, e resolveu experimentá-la com Gerry And The Pacemakers, que não vacilaram e a gravaram de forma bem semelhante ao registro dos conterrâneos (que só seria lançado oficialmente em 1995 no primeiro volume de Anthology). Bingo! O grupo estreou com um single que atingiu o topo da parada britânica.

Vale o registro: os Beatles só chegariam ao topo da parada de singles britânica com seu terceiro single, From Me To You, o primeiro do que seriam, no total, 17 compactos simples dos Fab Four a atingir tal posto na parada de sucessos do Reino Unido. Mas voltemos aos Pacemakers.

Sem perder o embalo, Gerry e seus asseclas escolheram outra composição de Mitch Murray para seu segundo compacto simples, I Like It, e mais uma vez capitanearam a parada do Reino Unido. No caso do terceiro single, no entanto, a coisa rolou de uma forma um pouco diferente.

Fã de Laurel And Hardy (O Gordo e o Magro), Gerry resolveu ver um filme deles que estava sendo reprisado no cinema Odeon, em Londres. O plano era ver esse e se mandar. Só que uma bela chuva resolveu dar o ar de sua graça na capital inglesa, e o cantor e guitarrista resolveu ficar para ver o outro filme do programa, um tal de Carousel (1956), filme musical americano com músicas escritas pela célebre dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.

Quando ouviu a principal canção da trilha, You’ll Never Walk Alone, apresentada com destaque em dois momentos importantes do filme, Gerry pôs na cabeça que aquela musica tinha de entrar no repertório de sua banda. E foi exatamente com ela que os Pacemakers emplacaram seu terceiro nº 1 consecutivo nos charts britânicos. Pouco depois, essa gravação viraria uma espécie de hino alternativo do Liverpool, sempre cantando por sua fanática torcida em suas partidas de futebol. As torcidas de Celtic (Escócia) e Borussia Dortmund (Alemanha) também adotaram essa mesma canção.

Por muito pouco Gerry And The Pacemakers não emplacaram um 4º single consecutivo no topo, pois I’m The One conseguiu chegar ao 2º lugar. E se não teve a performance dos singles anteriores, a doce balada Don’t Let The Sun Catch You Crying (assinada pelos quatro integrantes do grupo) se tornou um hit perene dos anos 1960, atingindo o 6º posto no Reino Unido e o 4º lugar nos EUA, o maior êxito do quarteto na terra do Tio Sam.

No finalzinho de 1964, Gerry Marsden registrou seu amor por Liverpool na canção de sua autoria Ferry Cross The Mersey, música que também daria nome ao filme estrelado pela banda lançado em 1965. O compacto com essa canção vendeu bem, sendo 8º colocado no Reino Unido e 6º nos EUA. A trilha do filme, o álbum mais bem-sucedido da banda nos EUA, também trazia a ágil It’s Gonna Be Alright, que fez sucesso no Brasil com o grupo Renato e Seus Blue Caps na versão em português intitulada Você Não Soube Amar.

No entanto, ao contrário dos Beatles, que se tornaram um fenômeno de proporções mundiais, Gerry e sua turma não conseguiram esse mesmo embalo. Walk Hand In Hand, lançado no final de 1965, foi seu último single a entrar nas paradas de sucessos britânicas, e ainda assim em um modesto 29º lugar. Após lançar a sarcástica The Big Bright Green Pleasure Machine (de Paul Simon) em outubro de 1966, o grupo anunciou sua separação.

A partir daí, Gerry Marsden investiu em uma carreira-solo sem grande repercussão, além de atuar em programas de TV e em um musical no teatro. Nos anos 1970, tentou reativar o grupo com uma nova formação que fez shows e lançou em 1974 o single Remember (The Days Of Rock And Roll), que passou batido em termos de sucesso.

Gerry, mesmo assim, manteve-se fazendo shows no circuito nostálgico, sempre se mostrando sensível e disponível para apoiar causas beneficentes. Com esse objetivo, regravou em 1985 You’ll Never Walk Alone, e o single voltou ao primeiro lugar por lá, a primeira vez em que um mesmo intérprete participava de duas versões número 1 de uma mesma canção. E o fato se repetiu em 1989, quando ele, ao lado de Paul McCartney, The Christians, Holly Johnson (do grupo Frankie Goes To Hollywood) e o trio de produtores e compositores Stock Aitken e Waterman, releu Ferry Cross The Mersey, que mais uma vez virou um hi nº1.

Aliás, a relação entre Frankie Goes To Hollywood e Gerry And The Pacemakers vai além de ambas as bandas serem oriundas de Liverpool. O grupo do cantor Holly Johnson foi exatamente aquele que, em 1983 e 1984, repetiu a façanha de seus conterrâneos, emplacando seus três primeiros singles- Relax, Two Tribes e The Power Of Love– no posto mais alto da parada britânica.

Aliás, mais duas coincidências ocorreriam entre eles. Welcome To The Pleasuredome, o 4º single do FGTH, bateu na trave, atingindo o 2º posto nos charts britânicos e os impedindo de conquistar seu 4º número 1 consecutivo. E o sucesso de Holly e seus colegas também se mostrou efêmero, com o grupo saindo de cena em 1987.

Gerry Marsden lançou em 1993 sua autobiografia I’ll Never Walk Alone em parceria com Ray Coleman, ex-editor do jornal britânico especializado em música Melody Maker. Ele foi condecorado com o MBE em 2003 pela sua atuação em causas humanitárias, e sofreu duas operações cardíacas, em 2003 e 2016. Ele anunciou sua aposentadoria em 2018, mas ainda apareceria publicamente celebrando a vitória de seu amado Liverpool na Champions League em 2019 e regravando You’ll Never Walk Alone em 2020 em homenagem aos profissionais da saúde do Reino Unido.

It’s Gonna Be Alright- Gerry And The Pacemakers:

Tony Babalu apresenta sua visão deste ano estranho em Lockdown

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Por Fabian Chacur

Tony Babalu é presença constante em Mondo Pop, como todos que acompanham este humilde espaço virtual dedicado à boa música sabem (leiam mais sobre ele aqui). Como todos os milhões de seres humanos espalhados por esse mundo imenso, ele também foi impactado pela pandemia do novo coronavírus. Com seu talento exponencial, este grande guitarrista, compositor e produtor nos oferece uma tradução sonora, Lockdown, já disponível em todas as plataformas digitais via Amelis Records-Tratore.

Desta vez, Babalu investe no melhor esquema “banda do eu sozinho”, incumbindo-se dos violões e da programação de baixo, bateria e percussão, com mixagem e masterização feitas no Carbonos Studio a cargo de Marcelo Carezzato, oriundo da célebre família Carezzato que nos proporcionou o célebre grupo Os Carbonos, com tantos bons serviços prestados à nossa música.

Instrumental e com ritmo hipnótico, Lockdown nos envolve com sua melodia precisa e intervenções certeiras em termos de acordes, harmonia e solos sempre concisos e sem firulas desnecessárias. Em menos de 3 minutos de duração, o músico nos mostra sua sensibilidade e criatividade para transformar sensações interiores em música boa de se ouvir.

O excelente clipe que divulga a música teve seleção e edição de imagens a cargo de Karen Holtz, que soube selecionar flagrantes que dialogam com o que passamos nesses momentos tão confusos e inseguros que vivemos atualmente, indo de cenas caseiras típicas da quarentena a outras exteriores que contrastam entre si, como que mostrando a situação de confinamento mesclada ao desejo de ver o por do sol, a orla marítima, as ruas etc.

Lockdown (clipe)- Tony Babalu:

Joss Stone volta com um single com mensagem forte e positiva

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Por Fabian Chacur

Embora tenha se mantido na ativa nos últimos anos em termos de shows e aparições na mídia, Joss Stone lançou seu último álbum de inéditas, Water For Your Soul, em 2015. Para quem estava com saudade de material inédito desta grande cantora e compositora britânica, acaba de ser lançado nas plataformas digitais pela BMG um novo single. Trata-se de Walk With Me, que pode ser uma espécie de prévia de um novo álbum, embora isso ainda não esteja previsto para um futuro imediato. O tempo dirá…

A canção é uma belíssima balada soul, com direito a um coral gospel que interage com Joss no melhor estilo pergunta e resposta que caracteriza essa vertente musical. O clipe mescla cenas da cantora com montagens de manchetes de jornais que se valem de versos de Walk With Me, além de flagrantes de equipes de saúde e outros momentos que marcam este confuso ano de 2020. A cantora explica a motivação desse belo single:

“Essa música surgiu como uma canção romântica, pedindo pra alguém passar a vida com você, tipo uma canção de casamento. Quando começamos a trabalhar nela, tantas coisas aconteceram que eu não conseguia parar de pensar. Com a pandemia e o que aconteceu com George Floyd, pensei que o problema está principalmente com essa atitude de estarmos em um ‘nós contra eles’. Esse é o maior problema – separação e preconceito. Todos precisam se unir para sobreviver nesta vida em paz. Sem união, nada estará bem. Então eu reescrevi a música e espero que as pessoas a interpretem da maneira que foi planejada”.

Desde seu primeiro e ótimo álbum, The Soul Sessions (2003), lançado quando Joss Stone tinha apenas 16 anos, a cantora conseguiu se firmar como uma artista consistente e vibrante, com sua forte influência de soul music aberta a flertes com o pop, r&b e rock, gerando ótimos álbuns solo e também um curioso trabalho em banda, a efêmera SuperHeavy, que a uniu a Mick Jagger, Dave Stewart e Damian Marley e rendeu um álbum de sucesso em 2011.

Walk With Me (clipe)- Joss Stone:

Georgia lança releitura de um clássico oitentista de Kate Bush

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Por Fabian Chacur

Quase um ano após lançar seu segundo e elogiado álbum, Seeking Thrills, a cantora, compositora, rapper, produtora e baterista britânica Georgia nos oferece uma versão digital recheada de faixas-bônus, intitulada Seeking Thrills- The Ultimate Thrills Edition, que traz diversos remixes de canções do trabalho original mais uma bela novidade. Trata-se da releitura de Running Up That Hill, de Kate Bush, faixa de destaque de um de seus LPs mais famosos e icônicos, Hounds Of Love (1985).

Bastante fiel à gravação original da autora, esta regravação traz no clipe que a divulga o bailarino contemporâneo Sid Barnes, que além de muito talentoso é irmão de Georgia. Aliás, já que tocamos no tema família, os dois são filhos de Neil Barnes, integrante do célebre duo britânico de música eletrônica Leftfield, que fez muito sucesso durante a década de 1990 participando de trilhas de filmes como Trainspotting e Vanilla Sky.

Em comunicado enviado à empresa, Georgia explica o porque da escolha desta música para uma regravação:

“Fechar os meus sets ao vivo com Running Up That Hill sempre me trouxe muita alegria, por isso tive a ideia de regravá-la. Mas não começou por aí. Kate Bush sempre fez parte da minha vida e é uma influência no meu trabalho desde as minhas primeiras notas. Meu pai e minha mãe sempre tocavam suas músicas, e quando eu comecei a entender como som e produção funcionavam, embarquei na minha jornada pessoal e íntima com a sua música. Para mim, isso é mais do que um cover, é emocionante e uma experiência que eu sempre levarei comigo.”

Running Up That Hill (clipe)- Georgia:

Titãs lançam versão de Comida ao lado de orquestra e coral Anelo

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Por Fabian Chacur

Lançada em 1987 como faixa do álbum Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, Comida (Arnaldo Antunes-Sergio Britto-Marcelo Fromer) é um dos maiores hits dos Titãs, e uma de suas composições mais emblemáticas. Neste ano, ela mereceu duas novas versões com a participação da banda, uma ao lado de Elza Soares (veja o clipe aqui) e, agora, uma que une o agora trio à Orquestra e Coral Anelo, de Campinas (SP), em projeto patrocinado pela Unimed Campinas.

Há 20 anos oferecendo aulas gratuitas de música na periferia de Campinas (SP), o Instituto Anelo possui atualmente uma orquestra, regida por Guilherme Ribeiro e um coral. Os mais de 40 integrantes dessas duas formações participaram da regravação de Comida e também do clipe, cujas imagens foram captadas de forma remota. A edição de imagens ficou a cargo de Julia Mazzotti Toledo, pianista e produtora, enquanto a mixagem de som teve como realizador o trumpetista Henrique Manchuria, ambos integrantes da orquestra.

“Eu nunca imaginei que a música fosse permanecer durante tanto tempo. Aliás, eu nunca imaginei que a gente fosse permanecer tanto tempo como banda e que as nossas canções fossem resistir ao tempo, não só essa como outras. É sempre uma surpresa agradável ver que o que você fez na juventude segue relevante, ainda faz sentido para muitas pessoas e é um recado pertinente”, diz Britto, um dos autores da canção.

A parceria entre os Titãs e o Instituto Anelo já rendeu outros frutos à entidade, como a doação por parte dos roqueiros de instrumentos e equipamentos musicais e também a cessão dos direitos da versão remix da música Epitáfio feita por eles em parceria com o DJ Alok.

Comida– Titãs+ Orquestra e Coral Anelo:

Filippe Moura mostra som autoral e releituras em vídeo

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Por Fabian Chacur

Mesclando composições própria com releituras de autores bacanas, Filippe Moura disponibilizou há pouco no Youtube De Canto a Canto, show ao vivo gravado em um estúdio em São Paulo. O cantor, compositor e músico investe em uma mistura bem dosada de r&b, MPB, folk e elementos jazzísticos aqui e ali. Ele conta com o auxílio luxuoso do consagrado produtor Luiz Carlos Maluly (RPM, Bruno & Marrone e inúmeros outros).

O destaque do repertório próprio fica por conta de Pode Dar Certo, deliciosa parceria com a cantora carioca radicada em São Paulo Thai, e que está sendo divulgada com um clipe extraído do show. Em entrevista a Mondo Pop via e-mail, Moura nos fala da sua formação musical, seus parceiros, como foram as gravações de De Canto a Canto e muito mais. Divirtam-se!

MONDO POP- Fale um pouco sobre como a música entrou em sua vida, se você tem parentes músicos que possam tê-lo influenciado, o que você ouvia quando era criança-adolescente etc
FILIPPE MOURA
– A música, como em grande parte dos casos de músicos, acredito que sempre fez parte da minha vida. Venho de uma família, principalmente por parte de pai, muito musical. Meu pai toca violão muito bem e minha tia trabalhou muito tempo com ensino de arte e música. Sem sombra de dúvidas, o que mais ouvi na minha vida foi a música vinda de Minas Gerais nos anos 1970. Hoje, tenho grandes referências de Caetano, Gil, Novos Baianos, Lenine, Cássia Eller e diversos outros grandes nomes que me moldaram e ainda me moldam musicalmente, mas Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Ronaldo Bastos, Toninho Horta, Fernando Brant, Telo Borges e Milton Nascimento vieram primeiro, acho que desde a barriga da minha mãe. Minha cabeça musical e meu coração estão sempre com um pé em Minas Gerais, não importa onde eu vá.

MONDO POP- Você é bacharel em música pela UNICAMP. Qual a importância e a influência dessa formação teórica no seu trabalho musical autoral?
FILIPPE MOURA
– Acredito que a universidade foi um momento importante de crescimento pessoal e descobrimento musical. Diria que, para mim, mais do que uma evolução técnica e teórica, a universidade (UNICAMP) representou um momento de descobrimento da música como um universo de pessoas e símbolos que ultrapassam o momento do fazer música e tocar propriamente dito. Eu diria que a universidade me ajudou a entender melhor a música como um “estilo de vida” que permeia todos os meus momentos. Acordar de manhã e perceber cada dia mais o quanto eu preciso da música perto de mim. Já teve essa sensação? É como eu me sinto e é algo que a universidade me ajudou a entender, acredito que isso me marcou mais do que o ensino formal de música propriamente dito.

MONDO POP- Uma pessoa muito importante na sua trajetória é Ulisses Rocha. Como você o conheceu, como é o relacionamento entre vocês, e quais as principais coisas que ele te ensinou enquanto músico?
FILIPPE MOURA
– O Ulisses foi e é ainda a minha grande referência como músico e como profissional na música, digamos assim. Eu lembro que estava no casamento de um primo, devia ter uns 12 ou 13 anos, meu pai me ligou e perguntou: “Quer ter aula com o Ulisses Rocha?” Eu era novo, mas já conhecia os discos do D’Alma e adorava, então foi super legal essa proposta que meu pai me fez. Na primeira aula, cheguei com o violão todo desajeitado no colo, o Ulisses falou: “Toca aí”. Fechei o olho e fui, toquei uma música do Lenine e do Marcos Suzano chamada Escrúpulo. Não sei muito bem o que o Ulisses achou, mas sei que ele me aceitou como aluno rsrs. Daí pra frente virou uma relação meio que de padrinho musical, logo comecei a tocar com o Vítor (que é filho do Ulisses), pois temos a mesma idade e hoje ele é um dos meus grandes parceiros e melhores amigos. A partir daqui eu precisaria de um livro para escrever essa história rsrs.

MONDO POP- Como avalia a experiência de ter participado do EP da banda Disco Voador como compositor, coprodutor e arranjador?
FILIPPE MOURA
– Nossa, foi uma experiência muito intensa. Quando você é super jovem (17 ou 18 anos) você tem sempre aquela sensação de que sabe o que quer e de que sabe o que está fazendo, então chegar nos resultados esperados te consome de uma forma, em uma intensidade muito grande. Eu diria que foi o meu laboratório para entender o que é uma gravação, o ponto de partida mesmo. Produzi com o Vítor Loureiro esse trabalho e a gente basicamente saiu de “nunca gravamos na vida” para um trabalho lançado pelo selo Pimba da Dubas, gravadora do Ronaldo Bastos. O que é uma loucura, muito por parte do Ronaldo, eu diria rsrs. Um menino de 18 anos que liga para ele e fala: “Tenho um trabalho aqui em São Paulo, a gente consegue lançar pelo seu selo?” Ele respondeu: “Manda aí, deixa eu ouvir.”. Uma semana depois eu estava pegando um avião para o Rio, para ir na Dubas (gravadora do Ronaldo) pegar os contratos etc. Não digo que o disco rendeu uma grande visibilidade, mas certamente shows e os primeiros passos no meio profissional da música.

MONDO POP- Você passou um período frequentando a University Of Florida, em 2014. Fale um pouco sobre essa experiência por lá, e no que isso influenciou a sua trajetória profissional.
FILIPPE MOURA
– A University of Florida (UF) foi um período muito importante e desafiador para mim. Na verdade, eu fui pra lá participar de um Ensemble de música brasileira da universidade, chamado Jacaré Brasil, pois jacaré é o símbolo da UF, os Gators (em inglês). No final, acabei participando das aulas de violão popular, nas quais o Ulisses era o professor convidado, e acabei até “dando umas aulas” para a graduação, quando ele me convidou para ser assistente dele. Também participei, e aí mais um grande desafio, de aulas de forma e análise de música clássica e arranjo para orquestra. Foi um período de crescimento musical e pessoal gigantesco. Imagina, eu fazia música popular brasileira aqui na UNICAMP e fui me meter em uma aula de forma e análise de música clássica que era dada por um professor de Harvard, na UF, uma loucura. No final deu tudo certo, fora toda a oportunidade de conhecer uma nova cultura, pessoas incríveis, músicos incríveis, tive algumas oportunidades de tocar e participar de jams lá, foi um período muito rico e muito feliz para mim.

MONDO POP- Seu primeiro lançamento foi o EP Ilha, em 2018. Como você o avalia? Ele equivale a um bom cartão de apresentações do seu trabalho? E como foi a escolha das faixas incluídas nele?
FILIPPE MOURA
– Com toda certeza, tudo que envolve o lançamento do EP Ilha me deixa muito feliz! Foi um trabalho que levantei e decidi fazer, pois já estava sendo consumido por ele muito antes de ele existir como show e como EP. No geral, eu coloquei um objetivo muito claro: queria me sentir confortável comigo, com o som, dentro dessa lógica de trabalho solo. Então, escolhi as minhas músicas que mais me traziam paz e que mais me deixavam feliz no momento, feliz no sentido de estar contente com o que eu estava tocando. Peguei algumas coisas de parceiros, coloquei debaixo do braço e saí pra entender como iria viabilizar tudo aquilo.

MONDO POP- Como foi realizar esse trabalho em termos práticos? Quem te ajudou logo no começo?
FILIPPE MOURA
– De cara, encontrei o Felipe Consoline, que deu a cara sonora inicial do disco, ele havia produzido o álbum de lançamento de uma banda que eu adoro aqui de São Paulo, chamada Vitreaux, álbum que eu particularmente adoro também! Depois dele veio, para variar, o Vítor Loureiro, algumas sessões de gravação em Ilhabela, muitas outras de mix. Após isso, por aqueles acasos da vida, acabei topando com o Luiz Carlos Maluly, produtor muito conhecido, que me abriu as portas do estúdio dele e acabou me ajudando na montagem da banda. Aí eu já estava com quase tudo na mão, o Dalton Vicente, que trabalha muito em parceria com o Maluly, acabou masterizando o trabalho. Depois, saí na cara dura e bati, junto com um grande amigo chamado Luis Feijão, na porta do pessoal do Centro Cultural Rio Verde, palco conhecido aqui em SP, e falei: “Gente, estou com um disco para lançar, tem a participação de um monte de gente legal no processo, vocês teriam uma data?” rsrs. Aconteceu! E como cereja do bolo, acabei entrando em um projeto com o Claudio Zoli, de quem eu sou fã, e ele ainda aceitou participar do lançamento. Depois, veio o Nego Jam RZO, que toca com um dos grandes nomes do Rap de São Paulo (o grupo RZO) e já havia feito uma participação no EP e por último a Thai, minha cara metade musical.

MONDO POP- De Canto a Canto mostra você ao lado de uma superbanda de apoio, com destaques para os grandes Albino Infantozzi e Marcos “Caixote” Pontes, além da produção do badalado Luiz Carlos Maluly. Como conseguiu arregimentar esse timaço, e como foi tocar com músicos com currículos tão expressivos?
FILIPPE MOURA
– Nossa, a banda está na conta do Maluly rsrs As coisas acontecem de uma forma que não tem muita explicação. Eu tive a sorte de encontrar algumas pessoas muito importantes nesse caminho e tenho a felicidade pelo fato de que algumas delas gostam do meu trabalho e das músicas e acabaram me ajudando de muitas formas. A relação com o Maluly começou por causa de outros projetos musicais, que nem eram meus, mas dos quais eu estava participando de alguma forma. De lá para cá, fui tentando mostrar para ele um pouco do meu trabalho e, por sorte talvez, ele tem dado muita força e me apresentado muita gente importante e conhecida no mercado, tem sido um período de grande crescimento pra mim. Agradeço demais toda a generosidade do Maluly, uma pessoa ímpar no meio musical, não à toa é a referência que é. Imagina o meu frio na barriga e a responsabilidade que foi gravar com esses caras! Caras que já tocaram com absolutamente todos os nomes importantes da música brasileira e do mundo e que tocaram comigo neste projeto. Quantas histórias deles me contando que estavam gravando com fulano e depois eu vou descobrir que fulano é o engenheiro de som do John Mayer e que cicrano já fez turnê com o Michael Jackson, sei lá, não lembro se são exatamente esses os casos, mas é coisa desse nível. Enfim, um enorme desafio, que espero poder levar para os palcos em breve, quando tudo se normalizar.

MONDO POP- Em De Canto a Canto, você relê duas composições do uruguaio Jorge Drexler. Como surgiu a ideia de incluir essas músicas em seu repertório, como você avalia a obra dele e como vê o fato de ele ser um músico fortemente influenciado pela música brasileira?
FILIPPE MOURA
– Poxa, o Drexler para mim é um ícone, ele e o Fito Paez (argentino) são grandes referências. Sei que eles são fortemente influenciados pela música brasileira e isso só mostra e ressalta a riqueza cultural e musical do Brasil. Acho que essa troca é essencial, essa mistura de culturas, línguas, sons, influências, isso é maravilhoso, me mostra o quanto a música é generosa e como devemos ser generosos para com ela e para com as pessoas. O Drexler ainda tem algo com o qual me conecto ainda mais, que é o fato de ele ser um ótimo violonista, tendo passado por um ensino formal de violão muito próximo ao meu. Essas influências todas da música brasileira e o modo como a música brasileira influencia músicos do mundo todo me faz lembrar uma música do próprio Drexler, em que ele fala mais ou menos assim: “De nenhum lado do todo, de todos os lados um pouco” (perdão a tradução simultânea aqui rsrs). É isso, somos todos essa mistura de culturas e ritmos que nos transforma em pessoas de nenhum e de todos os lados ao mesmo tempo.

MONDO POP- Duas das músicas de De Canto a Canto são do repertório de Marina Lima. Você a sente como uma influência importante em sua obra autoral? E o Claudio Zoli, autor de uma delas?
FILIPPE MOURA
– O Zoli acho que veio de uma forma mais óbvia, pois no show lançamento do EP Ilha eu toquei com ele a música À Francesa, além da participação que ele fez na minha música Tempo Rei. Aliás, uma experiência maravilhosa foi essa de tocar com ele! Zoli é um cara extremamente generoso, musical, iluminado. Bom, todos conhecem o trabalho dele, mas só gostaria de ressaltar que ele é tudo isso mesmo, uma alma incrível e leve. A Marina me veio muito nessa linha do som pop dos anos 80 que de alguma forma me tomou quando eu fui pensar no repertório para o show. Na verdade, estava de carro em Ilhabela e começou a tocar Fullgás, na hora eu falei: “Essa tem que entrar”. Quando o Caixote veio com o arranjo, aí eu tive mais certeza ainda.

MONDO POP- Como você define a sonoridade que desenvolve em seu trabalho autoral, e quais as influências mais importantes presentes nele?
FILIPPE MOURA
– Meu trabalho autoral vem muito da minha relação com o violão. Aliás, já dando um spoiler, essa é uma sonoridade que eu pretendo explorar bastante no meu próximo trabalho. Mas falando deste último, acredito que mesmo com a banda, vários instrumentos, é possível ver ali bem delineada a minha relação com o violão. Seja na lógica harmônica ou melódica das músicas, o violão está sempre ali. O violão é meu grande amigo e parceiro de muitos anos, comecei cedo, então diria que já são uns 15 anos. Sobre o as influências: acredito que eu bebi de tudo da música brasileira, mas principalmente de dois lados: o primeiro é a música mineira dos anos 70, o segundo, principalmente no que diz respeito à relação de um compositor com o violão, foi o Lenine. Diria que Minas me colocou na música e o Lenine me convenceu de que eu não tinha outra saída rsrs Fora eles, claro que vamos falar de João Gilberto, Caetano e Gil, parada obrigatória pra quem faz qualquer tipo de música no Brasil.

MONDO POP- O momento mais marcante em De Canto a Canto, para mim, é o seu dueto-parceria com a cantora Thai na canção Pode Dar Certo. Como você a conheceu? Está em seus planos ampliar essa parceria, tipo gravarem um álbum em dupla, por exemplo?
FILIPPE MOURA
– A Thai é uma dessas felicidades que a vida te proporciona, ela é uma alegria para mim e é um prazer imenso poder conhecer e conviver com ela. Uma pessoa generosa não só musicalmente, e de uma alegria, talento e voz vibrantes. Conheci ela em um projeto que eu estava produzindo com alguns músicos cubanos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ela ia fazer uma participação no show do pianista Pepe Cisneros e do cantor Fernando Ferrer. A conexão ficou ali escondida um tempinho, mas quando fui lançar o EP Ilha e o Rodrigo Bueno “Papito”, baterista que participou das gravações, mostrou o som Na Sua Onda pra Thai, me ligou e disse: “A Thai amou sua música e quer gravar ela”. Aí não teve jeito, nasceu a amizade e a parceria.

MONDO POP- Foi dessa forma que surgiu a ideia de convidá-la para participar de De Canto a Canto?
FILIPPE MOURA
– Sim. Ela participou antes do show de lançamento do EP Ilha cantando uma música do Drexler e agora, em De Canto a Canto, a conexão foi ainda mais intensa, pois lançamos nossa primeira música juntos. A música, aliás, é linda, não por ser minha (rsrs), mas realmente por ser uma canção que me deixa muito feliz com o resultado e de como ela nasceu, em uma tarde de conversas. Enfim, tudo de felicidade e de musicalidade eu vejo na Thai. Tem um ponto curioso, que é o fato de que ela quase não participou da gravação, pois estava em turnê com o Baco Exu do Blues e não sabíamos se as datas iam dar certo, mas devido à pandemia os shows não rolaram, as gravações foram postergadas e acabou rolando a participação dela. Delicado essa questão da pandemia e de como tem afetado o mercado cultural no país e no mundo, mas, bom, esse é um outro assunto. Sobre uma gravação com a Thai: quem sabe? Eu ficaria imensamente feliz em poder gravar com ela novamente. O que será que 2021 nos guarda? Espero que essa gravação rsrs.

Pode Dar Certo (clipe)- Filippe Moura e Thai:

Three For Love (1980), o álbum que consolidou o trio Shalamar

shalamar three for love-400x

Por Fabian Chacur

Tudo que começa mal, termina mal, afirma uma das inúmeras frases feitas pertencentes ao léxico popular. Nem sempre, no entanto. O exemplo do Shalamar serve como um belo exemplo. O grupo americano que, na verdade, começou como uma mera armação de estúdio destinada a faturar uns trocados, acabou se tornando uma das forças do r&b e da disco music em seus anos de ouro, entre 1977 e 1983. E o álbum que consolidou sua trajetória, Three For Love, completa 40 anos de seu lançamento pela Solar Records nos EUA neste 15 de fevereiro.

Antes de nos concentrarmos nesse icônico trabalho, vamos dar uma geral na trajetória do grupo. Tudo começou quando o produtor e promotor artístico Dick Griffey (1938-2010) resolveu criar, em parceria com o apresentador de TV e criador do seminal programa televisivo americano Soul Train, Don Cornelius (1936-2012), uma gravadora dedicada à música negra, a Soul Train Records. A ideia era apostar no r&b, mais especificamente naquele mais próximo da disco music, então o estilo musical mais efervescente em termos comerciais.

Em 1977, como forma de entrar com força nesse mercado e explorar um veio bem seguido naqueles anos, Griffey arregimentou cantores e músicos de estúdio e gravou um pot-pourry com trechos de vários hits da Motown Records (como Going To a Go-Go e I Can’t Help Myself) e intitulado Uptown Festival. O single, creditado ao Shalamar, atingiu o 25º posto na parada pop e o 10º na de r&b.

Ficou claro para Griffey que poderia ser interessante criar um grupo de verdade para não só divulgar aquele single em rádios e TVs como também fazer shows e gravar um álbum completo. Dos cantores que participaram de Uptown Festival, Gary Mumford foi considerado o mais adequado a entrar no projeto. Completaram o time dois dançarinos estilosos do cast do Soul Train.

Jody Watley, nascida em 30 de janeiro de 1959, subiu ao palco pela primeira vez na vida aos oito anos de idade, em um show de seu padrinho, ninguém menos do que o lendário soul man Jackie Wilson (1934-1984). Ao participar do Soul Train, logo se tornou um dos destaques do elenco de dançarinos, por dançar bem, ter um belíssimo visual e estilo próprio. De quebra, tinha um belo parceiro de dança.

Jeffrey Daniel, esse “parça”, nasceu em 24 de agosto de 1955, e era estilosíssimo, além de criativo. Reza a lenda que foi ele quem inventou os passos que, depois, se tornaram mundialmente conhecidos através de Michael Jackson, o célebre moonwalk. Quando surgiram as vagas para o Shalamar, e ao ficar claro que eles também cantavam, e bem, Dick Griffey os escalou para gravar o 1º LP.

Intitulado Uptown Festival, o LP saiu em 1977 e teve boa vendagem. Só que surgiu um problema pouco depois de seu lançamento: Don Cornelius quis encerrar as atividades da Soul Train Records, para se dedicar exclusivamente ao programa de TV. Inconformado, Dick Griffey comprou a parte do ex-sócio e mudou o nome da empresa, que passou a se chamar Solar (sigla criada a partir do nome Sound Of Los Angeles, sua solar cidade-sede).

A nova fase da gravadora estreou com o segundo álbum do Shalamar, Disco Gardens (1978), que trouxe o jovem veterano Gerald Brown na vaga de Gary Mumford. Este trabalho marcou o início da parceria do grupo com o produtor, baixista e compositor Leon Sylvers III, integrante do The Sylvers que naquele momento resolveu se concentrar na área da produção e sair daquela bem-sucedida banda de r&b pop.

A parceria rendeu um hit logo de cara, a deliciosa Take That To The Bank (Leon Sylvers III- Kevin Spencer), uma espécie de aperitivo do que viria a seguir. Pouco depois do lançamento do álbum, mais uma alteração no grupo: Gerald Brown saiu de forma intempestiva durante a turnê de divulgação do álbum. Para preencher a vaga, Watley e Daniel se lembraram de um cara talentoso que encontraram em um de seus shows, em Akron, Ohio.

A peça final no quebra-cabeças intitulado Shalamar atende pelo nome de Howard Hewett, nascido em 1º de setembro de 1955 e cujas marcas registradas eram o carisma, a ótima voz, a desenvoltura como dançarino e o mais do que instantâneo entrosamento com seus novos colegas de banda.

O “grupo-armação” ganha identidade própria

O terceiro álbum do trio, Big Fun (1979), trouxe, além da excelente estreia de Hewett no time, a adição de uma série de músicos arregimentados por Leon Sylvers III, que além de forte consistência e identidade sonora, trariam também ótimas composições. A primeira delas foi o primeiro grande hit do Shalamar, Second Time Around, assinada por Sylvers com um desses músicos.

Trata-se do tecladista William Shelby, irmão do cantor Thomas Shelby, do ótimo grupo de r&b Lakeside (conhecido pelo hit massivo na praia da black music Fantastic Voyage, de 1980). Ele, Kevin Spencer (teclados), Richard Randolph (guitarra) e Nidra Beard (cantora, compositora e mulher de Sylvers) também integravam outra banda da Solar Records produzida por Sylvers, a Dynasty.

Second Time Around atingiu o 8º posto na parada pop e o topo da parada de r&b americanas, além de ter integrado a trilha da novela global Duas Vidas em 1980. O álbum, nº 23 na parada pop e nº 4 na de r&b, trouxe outro hit bacana, I Owe You One (Joey Gallo- Leon Sylver III), e criava uma grande expectativa em torno do que viria a seguir. E isso se confirmou com o antológico Three For Love.

Leon Sylvers II pôe seus craques em campo

Para as gravações de Three For Love, Leon Sylvers III arregimentou um timaço. Além dele próprio e do irmão Foster no baixo, temos (entre outros) Kevin Spencer, William Shelby, Ricky Smith e Joey Gallo nos teclados, Wardell Potts Jr. na bateria, Ernest Pepper Reed, Richard Randolph, Stephen Shockley e Ricky Silver na guitarra, boa parte deles integrantes do projeto Dynasty.

Como vários desses músicos também eram parceiros nas composições das músicas, certamente deram aquele algo a mais para que as suas músicas ficassem com a melhor roupagem e pudessem lhes render um bom dinheiro. Inteligente, Leon soube explorar a versatilidade e o talento de cada um deles.

Ao contrário de outros grupos similares a este, o Shalamar tinha também a participação de seus integrantes como coautores de algumas músicas. Mais: eles também ajudavam nos arranjos vocais, em parceria com William Shelby e Sylvers. E os ótimos arranjos de cordas e metais ficaram a cargo de Gene Dozier, John Stevens e Ben Wright.

E já que falamos nos vocais, vale lembrar que aqui também temos muita qualidade e eficiência. Howard Hewett é o mais destacado no time, mas Jody Watley não ficava muito atrás, com os dois se alternando nos vocais principais e Jeffrey Daniel na maior parte do tempo participando das harmonizações vocais e bolando as coreografias.

Sucesso, mesmo em plena crise da disco music

Se em termos artísticos Three For Love tinha tudo para ser o discaço que acabou sendo, em termos comerciais sofreu um pouco com o contexto da época em que foi lançado. Mesmo tendo ultrapassado um milhão de cópias vendidas e valido ao grupo o seu primeiro disco de platina nos EUA, o álbum atingiu apenas a posição de nº 40 na parada pop, e a 8º na de r&b, com seus ótimos singles atingindo posições bem inferiores a Second Time Around.

E qual era o problema? Simples. No segundo semestre de 1979, teve início nos EUA um odioso movimento de cunho racista e homofóbico intitulado Disco Sucks (disco music “fede”, em tradução livre), liderado por verdadeiros fundamentalistas brancos que não admitiam que a disco tivesse tanta repercussão. Eles chegaram a fazer cerimônias públicas de destruição de LPs e singles de disco music. O horror, o horror!

Essa pressão gerou um clima de medo em importantes setores da mídia, e graças a isso, em 1980 artistas mais fortemente rotulados como de disco music, como Bee Gees, Chic, Village People e muitos outros, viram da noite para o dia seus trabalhos saírem das programações de rádios e TVs e terem muito menos divulgação do que antes.

Embora certamente tenha sido prejudicado por esse movimento, o Shalamar nunca deixou de lado suas raízes no r&b em seus trabalhos, e dessa forma mantinha um público fiel e grande nessa praia musical, o que lhes valeu naquele momento um resultado comercial muito melhor do que outros colegas.

Na época, a posição dos singles nos EUA era tirada a partir de uma média entre vendagens e execução em rádios. Como a disco music teve uma queda grande nas execuções em rádios mais populares, isso explica porque single matadores como Make That Move (nº 60 pop, nº6 no r&b), Full Of Fire (nº 55 pop, nº24 r&b) e This Is For The Lover In You (não entrou na parada pop, nº17 r&b) tiveram um desempenho tão fraco na parada pop.

Three For Love, faixa a faixa

FULL OF FIRE (Jody Watley-Joey Gallo- Richard Randolph)
O primeiro hit single do álbum traz como marcas uma guitarra bem roqueira, um arranjo vocal repleto de nuances, com Jody comandando as ações, um refrão impactante e uma mistura muito bem dosada de r&b e disco. Bela abertura de álbum, dando a medida do que viria a seguir, em termos de qualidade musical. A letra, escrita pela menina do trio, aposta ousadamente, mas de forma polida até, no lado sensual e sexual do amor.

ATTENTION TO MY BABY (William Shelby-Kevin Spencer-Wardelll Potts Jr.)
Mantendo o clima dançante, esta canção traz Hewett no vocal principal, dialogando bem com os backing vocals e as passagens de cordas.

SOMEWHERE THERE’S A LOVE (William Shelby-Ernest Pepper Reed-Otis Stokes)
Chegou a hora de uma slow jam, termo usado para definir canções lentas e sensuais no universo da black music. Aqui, Hewett e Jody se revezam no vocal principal, em uma balada doce, romântica até a medula, com letra idealista e esperançosa (“em algum lugar, existe um amor só pra mim). Fofa até a medula!

SOMETHINGS NEVER CHANGE (William Shelby- Dana Meyers)
O lado A do vinil se encerra com uma canção balançada, com belos riffs de sintetizador e um groove delicioso, com aquelas vocalizações cheias de sutilezas típicas do Shalamar.

MAKE THAT MOVE (Kevin Spencer- William Shelby- Ricky Smith)
Entre as oito faixas de Three For Love, é a mais escancaradamente disco, e provavelmente uma das melhores gravações do trio americano. Timbres instrumentais, variações vocais, elaboração melódica, arranjo de cordas, tudo esta perfeito por aqui, além de uma letra otimista, pra cima e contagiante. Clássico das pistas!

THIS IS FOR THE LOVER IN YOU (Howard Hewett- Dana Meyers)
Depois de um verdadeiro petardo dançante, temos aqui o momento mais soul music do álbum, uma balada arrebatadora na qual Howard Hewett dá um verdadeiro banho de interpretação, apoiado por vocalizações no mínimo arrepiantes. Certamente a melhor balada da carreira do grupo. Em 1996, o cantor, compositor, músico e produtor Babyface, que teve uma passagem pela Solar Records no início de sua premiada carreira, regravou esta belezura para seu álbum The Day, com participações especiais de LL Cool J e também de Jody, Hewett e Daniel, a primeira reunião da formação clássica do grupo desde 1993 e a única desde então. Essa releitura atingiu o nº 6 na parada pop e o nº 2 na de r&b.

WORK IT OUT (Jody Watley-Nidra Beard)
Esta parceria de Jody Watley com a cantora do grupo Dynasty tem semelhanças com o hit Second Time Around, embora sem ser uma cópia descarada. Leve, descontraída, serve como um bom veículo para a cantora, com uma letra otimista do tipo “nós vamos conseguir fazer isso dar certo”.

POP ALONG KID (Jeffrey Daniel-Howard Hewett-Nidra Beard)
O álbum se encerra com a canção de pegada mais eletrônica, com direito a um belo riff de sintetizador. Aqui, quem faz o vocal principal é Jeffrey Daniel, interpretando uma letra feita sob encomenda para ele, o “garoto pop” da banda por excelência. Pode não ser um cantor tão efetivo como seus então colegas de banda, mas consegue um bom desempenho e deixando os fãs com um sabor de quero mais nos ouvidos.

Three For Love ficou na posição de nº 43 no ranking The 80 Greatest Albums of 1980 da edição americana da revista Rolling Stone. O álbum saiu no Brasil no início de 1981 pela gravadora RCA, e nunca saiu por aqui no formato CD.

A formação clássica do Shalamar se manteria unida até 1983, quando, após o lançamento do álbum The Look, Jody e Daniel resolveram sair do grupo. Mas essa história a gente conta em outra ocasião.

Ouça Three For Love em streaming:

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