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Rumours, aquele limão azedo que virou a limonada perfeita

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Por Fabian Chacur

Diz um daqueles ditados antigos que se a vida te dá um limão, o melhor é tentar transformá-lo em uma limonada. Pois foi exatamente isso o que a banda anglo-americana Fleetwood Mac nos proporcionou em 1977. O quinteto transformou uma série de relacionamentos afetivos esfacelados, alto consumo de drogas e a enorme pressão para tentar repetir o sucesso de seu álbum anterior, Fleetwood Mac (1975), em um trabalho clássico, campeão de vendas e de qualidade artística, Rumours.

Para ficar mais claro o contexto em torno do qual Rumours foi gerado, vale um pequeno recuo no tempo. Criado em 1967 na Inglaterra por Mick Fleetwood (bateria) e John McVie (baixo), o Fleetwood Mac surgiu como um combo de blues rock, dos melhores, por sinal. Com o tempo, foi trocando de integrantes e passou por uma fase de transição, incorporando elementos de folk, country e pop ao seu som. Esse período levou o duo fundador e também a mulher de John, a cantora, compositora e tecladista Christine Perfect McVie (que havia entrado na banda em 1970), a se mudar para os EUA.

Lá, iniciaram uma fase positiva, especialmente com a entrada do cantor, compositor e guitarrista Bob Welch. No entanto, não muito tempo após lançarem o álbum ironicamente intitulado Heroes Are Hard To Find (1974), que obteve o seu melhor desempenho na parada americana até então, a posição de nº 34, a péssima notícia. Welch resolveu sair fora do FM, rumo a uma carreira-solo, ele que dividia com Christine o posto de vocalista e compositor principal do grupo.

E aí, como sair dessa enrascada? A solução veio por acaso. Mick Fleetwood procurava um estúdio para gravar o próximo álbum do FM quando o engenheiro de som Keith Olsen mostrou a ele faixas do álbum que havia gravado no estúdio Sound City em 1973 com uma dupla então obscura formada por Lindsey Buckingham (guitarra, vocal e composições) e Stevie Nicks (vocal e composições). O baterista amou o que ouviu, especialmente as passagens de guitarra.

Dias depois, quando a saída de Bob Welch se materializou, Fleetwood ligou para Buckingham e o convidou a ser o novo guitarrista da banda. Ele disse que só aceitaria se pudesse levar com ele para a banda a namorada. A condição foi aceita, e nascia a formação clássica dessa incrível banda, agora anglo-americana. E a estreia do time não poderia ter sido melhor, com um álbum autointitulado que vendeu dez vezes mais do que a média de seus trabalhos anteriores.

Melhor: atingiu, em setembro de 1976, o primeiro posto na parada americana, onde ficou por uma semana. A turnê que estavam fazendo, com shows sempre vibrantes, certamente ajudou na realização dessa façanha. Só que, a essa altura, os problemas começaram a surgir em pencas para a banda. Logo de cara, a pressão do sucesso e da estrada os levou a aumentar em muito o consumo de drogas, tornando-os bastante dependentes desse tipo de aditivo para trabalhar.

De quebra, Christine se encheu das eventuais grosserias do marido e resolveu dar a ele o cartão vermelho, passando a namorar o iluminador dos shows do grupo. Por sua vez, Lindsey e Stevie, que se conheciam desde adolescentes, também começaram a brigar muito, e perceberam que o casamento deles também deveria acabar. Como desgraça pouca é bobagem, Mick Fleetwood viu seu melhor amigo na época levar sua esposa, Jenny Boyd (irmã de Patty, mulher de George Harrison e depois de Eric Clapton, inspiração da música Layla).

O que esperar de um roteiro tenebroso como esse, piorado ainda mais em função da pressão da gravadora Warner por um novo álbum que conseguisse ir além do trabalho de estreia dessa nova escalação do FM? A separação do quinteto, ou ao menos a saída de alguns de seus integrantes, seria o rumo mais lógico. Mas não foi isso o que aconteceu.

Do jeito que dava, eles procuraram deixar as desavenças afetivas de lado e centrar fogo na criação artística. E, surpreendendo a muitos, puseram nas letras das músicas do novo álbum o enredo daquela confusão toda. Não é de se estranhar, portanto, que por sugestão de John McVie o álbum tenha sido intitulado Rumours (boatos, fofocas, em tradução livre). Eram acusações, desabafos, lamentos, sonhos, planos e esperanças para tudo quanto é lado.

O mais legal é que esse bafafá todo gerou canções de rock simplesmente perfeitas, repletas de boas melodias, vocalizações impecáveis, arranjos instrumentais precisos e uma perfeição presente apenas no melhor pop. Nunca o termo agridoce se aplicou de forma tão perfeita a um produto artístico como aqui. Era a dor exposta de forma delicada, vibrante e positiva, como se isso fosse possível. Bem, para este quinteto, foi, sim.

A colaboração entre Stevie e Lindsey, o ex-casal mais briguento do time, chega a ser inacreditável, pois fica difícil acreditar que dois caras que praticamente se odiavam naquele momento pudessem, juntos, gravar músicas de forma tão entrosada e artisticamente impecável. Ouça, por exemplo, Go Your Own Way, I Don’t Want To Know, Dreams e Second Hand News com esse background em sua mente. Definitivamente não dá para acreditar. Mas é real!

Enquanto isso, Christine escrevia e interpretava You Make Loving Fun em homenagem ao novo namorado, contando com uma performance maravilhosa de baixo do seu ex, que a infernizava fora das gravações. Além disso, ela ainda compôs a belíssima balada Oh Daddy inspirada no sofrimento de Mick Fleetwood, que ficou afastado durante um bom tempo de suas duas filhas por causa do litígio com Jenny Boyd. Vale lembrar que, nesse período, as duas garotas do FM passaram a morar em apartamentos vizinhos, tomando conta uma da outra.

O vício de cocaína é o mote de Gold Dust Woman, de Stevie, enquanto Never Going Back Again, tocada por Lindsey acompanhado por violão com maestria, registra uma espécie de certeza de que os bons tempos de seu relacionamento com a colega de banda nunca mais voltariam. Ela reclamou do tom mais ácido dele em relação à separação, mas ele garante que nunca disse que “queria sua liberdade”, como Nicks postou na letra de Dreams. Eita! Ah, e a musa pop teve um caso com Mick Fleetwood durante as gravações. Ok, ok!

A vibrante e positiva Don’t Stop, de Christine e na qual ela divide os vocais com Lindsey, é outro ponto alto do álbum, que por sinal só tem pontos altos. Songbird traz Miss McVie sozinha, voz e piano, em uma performance de fazer chorar até um freezer. E em The Chain, temos uma composição coletiva assinada pelos cinco, que fala exatamente sobre essa “corrente” que todos haviam prometido nunca quebrar.

Bem, em termos profissionais, eles de fato não quebraram, pois o Fleetwood Mac prosseguiria décadas afora, com alguns hiatos, mas sempre voltando com força. Rumours ficou incríveis 31 semanas não consecutivas no topo da parada ianque, gerou quatro singles que atingiram o top 10 (incluindo um número 1, Dreams) e vendeu mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo, sendo mais de 20 milhões delas nos EUA. Isso é o que eu chamo de um limão bem aproveitado!

Rumours-Fleetwood Mac (ouça em streaming):

Álbum ao vivo dos Beatles vai enfim sair em CD, com bônus

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Por Fabian Chacur

Live At The Hollywood Bowl, disco lançado originalmente em vinil em 1977 e um dos únicos álbuns oficiais dos Beatles nunca relançados, enfim ganhará sua versão em CD. A informação é do site americano da Billboard. O álbum chegará às lojas no dia 9 de setembro, em versão com 17 faixas, quatro a mais do que a edição original, além de um inédito e luxuoso livreto com 24 páginas e trazendo fotos inéditas e texto do premiado jornalista americano David Fricke.

Esse disco, cuja capa original ilustra este post, é histórico. Trata-se do primeiro lançamento oficial de gravações ao vivo dos Fab Four, feitas em agosto de 1964 e agosto de 1965 em shows realizados no Hollywood Bowl, em Los Angeles, Califórnia (EUA). Os registros foram feitos com apenas três pistas de gravação, e trazem como marca registrada a incrível gritaria dos fãs americanos durante toda a apresentação.

Gilles Martin, filho do lendário e saudoso produtor dos Beatles, George Martin, e Sam Okell foram incumbidos de, a partir das fitas originais, melhorar a qualidade sonora, e afirmam terem conseguido cumprir a missão no resultado final. Quatro músicas foram adicionadas à nova versão de Hollywood Bowl: You Can’t Do That, Baby’s In Black, I Want To Hold Your Hand e Everybody’s Trying To Be My Baby. Além de versões em CD e digital, lançadas simultaneamente, o álbum também sairá em vinil de 180 gramas no dia 18 de novembro.

O lançamento ocorrerá uma semana antes do que o filme Eight Days a Week: The Touring Years, de Ron Howard, que é um documentário sobre a fase 1962-1966 dos Beatles, concentrada nos shows realizados pela banda naquela fase, apelidada de Beatlemania. A foto da capa do novo LP e do cartaz do filme foi feita pelo tour manager da turnê americana Bob Bonis. O lançamento original atingiu o segundo lugar nos EUA e o primeiro no Reino Unido, na época.

Lista das músicas da nova versão de Live At The Hollywood Bowl:

1. Twist and Shout [30 August, 1965]

2. She’s A Woman [30 August, 1965]

3. Dizzy Miss Lizzy [30 August, 1965 / 29 August, 1965 – one edit]

4. Ticket To Ride [29 August, 1965]

5. Can’t Buy Me Love [30 August, 1965]

6. Things We Said Today [23 August, 1964]

7. Roll Over Beethoven [23 August, 1964]

8. Boys [23 August, 1964]

9. A Hard Day’s Night [30 August, 1965]

10. Help! [29 August, 1965]

11. All My Loving [23 August, 1964]

12. She Loves You [23 August, 1964]

13. Long Tall Sally [23 August, 1964]

14. You Can’t Do That [23 August, 1964 – nunca antes lançada]

15. I Want To Hold Your Hand [23 August, 1964 – nunca antes lançada]

16. Everybody’s Trying To Be My Baby [30 August, 1965 -nunca antes lançada ]

17. Baby’s In Black [30 August, 1965 – nunca antes lançada]

The Beatles Live At The Hollywood Bowl:

The Beatles Live At The Hollywood Bowl (versão não oficial):

Polysom relança o compacto de vinil do obscuro Vímana

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Por Fabian Chacur

O nome Vímana pode não ter registro para muitas pessoas que gostam e acompanham o cenário musical brasileiro. Os mais atentos, no entanto, já devem ter ouvido falar desse quinteto carioca, que existiu entre 1974 e 1978. O único registro fonográfico oficial dos rapazes, o compacto simples de vinil com as músicas Zebra e Masquerade, está sendo relançado neste mês pela Polydisc, em edição limitada. Um interessante resgate.

A banda é daquele tipo que se tornou muito mais conhecida depois de sua separação, em função da fama que seus ex-integrantes ganharam posteriormente. Ritchie (vocal e flauta), inglês radicado no Rio, era um deles, assim como os outros astros do pop-rock dos anos 1980 Lulu Santos (guitarra e vocal) e Lobão (bateria). De quebra, completavam o time Fernando Gama (baixo), que integrou de 1992 a 2005 o grupo Boca Livre, e o tecladista Luiz Paulo Simas.

Fortemente influenciado pelo rock progressivo, especialmente o feito pelo grupo Yes, o Vímana participou de festivais como o Hollywood Rock em 1975 e fez shows em locais como o MAM, no Rio, além de tocar com Fagner, Marília Pera, Walter Franco e Sérgio Dias, dos Mutantes. O compacto simples foi lançado originalmente pela gravadora global Som Livre em 1977. Zebra, em português, é uma mistura de rock, disco music e percussão brasileira, enquanto Masquerade (em inglês) tem o típico tempero do progressivo setentista, embora bem mais curta.

Após sair, curiosamente, do Yes, o tecladista suíço Patrick Moraz veio ao Brasil e quis transformar o Vímana em sua banda de apoio. Uma briga com ele tirou Lulu Santos do grupo, que em seguida encerrou suas atividades. A Som Livre preferiu não lançar o LP que gravou com eles, e hoje só são encontrados raros piratas de outras de suas músicas. Mas vamos ser sinceros: o trabalho posterior de seus músicos é bem melhor.

Zebra– Vímana:

Masquerade– Vímana:

On The Rocks (pirata)- Vímana:

Tiro de Misericórdia, de João Bosco, sai em CD via Kuarup

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Por Fabian Chacur

A discografia de João Bosco é uma das mais consistentes e ricas da história da MPB. Por alguma razão, seu quarto trabalho, Tiro de Misericórdia (1977), lançado na época pela RCA, não estava disponível em CD. Graças à gravadora Kuarup, esse título enfim chega à era digital, e em grande estilo, com direito a encarte luxuoso com letras e ficha técnica. Um grande álbum.

Chega a ser inacreditável pensar que, de 1975 a 1977, o cantor, compositor e violonista mineiro teve fôlego para lançar três trabalhos tão bons e repletos de clássicos como Caça à Raposa (1975), Galos de Briga (1976) e o em questão Tiro de Misericórdia (1977). Era muita inspiração, pois não é qualquer um que consegue lançar tantas coisas boas em tão pouco tempo.

Tiro de Misericórdia é essencialmente um disco de samba, mas sem amarras e aberto a outras sonoridades, como música latina, chorinho, bossa nova e até um tempero pop aqui e ali. A conduzir tudo, um violão endiabrado, uma voz deliciosa e composições de João Bosco nas melodias e Aldyr Blanc nas letras. Uma dupla dinâmica!

O álbum abre com Gênesis (Parto) e fecha com Tiro de Misericórdia, duas músicas irmãs. A primeira conta o nascimento de uma criança na marginalidade, sofrendo todas as dificuldades dessa condição, e com toda a pinta de que, “oxum falou, esse promete”. A faixa título mostra o trágico fim dessa história, com o moleque virando marginal e morrendo de forma violenta. Tudo pontuado por muita percussão e ritmos de umbanda. De arrepiar, de tão atual.

Duas músicas integraram com destaque a trilha sonora do magistral Se Segura Malandro, um clássico de Hugo Carvana e na minha modesta opinião um dos melhores filmes da história do cinema nacional. A panfletária (no melhor sentido da palavra) Plataforma contagia logo nos primeiros acordes, enquanto a envolvente Vaso Ruim Não Quebra une Bosco e Cristina Buarque contando o inusitado romance entre Laurinha e Romão. Dois sambas matadores.

Ainda no quesito sambão, Jogador não fez feio nas paradas de sucesso, enquanto o lirismo fatalista marca a belíssima Falso Brilhante. E tem também o irresistível bolero sacudido Bijuterias, grande sucesso usado como abertura da novela global O Astro. E as outras faixas do álbum não deixam a peteca ir ao chão, de tão consistentes e inspiradas que são.

Além de João Bosco na voz e violão, o álbum conta com direção criativa a cargo de Durval Ferreira, coordenação artística e direção de estúdio pilotadas pelo brilhante Rildo Hora e a participação de músicos do alto gabarito de Horondino Dino Silva (violão de 7 cordas), Toninho Horta (guitarra), Pascoal Meireles (bateria), Abel Ferreira (clarinete), Raul de Barros (trombone) e Altamarinho Carrilho (flauta). Um clássico perene da MPB. Compre já!

Plataforma– João Bosco:

Vaso Ruim Não Quebra– João Bosco e Cristina Buarque:

Tiro de Misericórdia– João Bosco:

Odair José toca na íntegra em SP seu álbum mais polêmico

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Por Fabian Chacur

Em maio de 2013, Odair José mostrou uma surpresa para seus fãs durante a Virada Cultural: tocou na íntegra seu álbum mais polêmico, O Filho de José e Maria (1977). Para quem perdeu, surge uma nova chance neste fim de semana. Sexta (13) e sábado (14) às 21h e domingo (15) às 18h, o cantor, compositor e músico goiano tocará as músicas desse trabalho tão marcante no Sesc Belenzinho (rua Padre Adelino, 1.000- fone 2076-9700), com ingressos de R$ 8,00 a R$ 40,00.

A história de O Filho de José e Maria é das mais interessantes. Após se tornar um dos artistas mais populares do Brasil nos anos 1970, graças a hits certeiros como A Noite Mais Linda do Mundo (Felicidade), Pare de Tomar a Pílula e Cadê Você, Odair José recebeu uma proposta milionária da gravadora RCA e deixou a Polydor (hoje Universal Music) em 1977. Só que ele tinha novos planos para sua carreira.

Ambicioso e visionário, o astro goiano estava apaixonado por trabalhos de artistas como Peter Frampton, Neil Diamond e Paul McCartney, entre outros, e resolveu estrear na nova gravadora com uma ambiciosa ópera-rock na qual explorava temas como sexualidade, casamento, religião e comportamento, com uma sonoridade pop-rock com toques de soul e funk de verdade.

A acompanha-lo, músicos brilhantes como Hyldon (guitarra), Jaime Alem (guitarra e violão),Robson Jorge (piano e órgão Fender Rhodes), Alexandre (baixo), José Roberto Bertrami (órgão, clarinete e arp string) e Ivan Mamão (bateria). Uma verdadeira seleção, que proporcionou a Odair José uma sonoridade consistente e criativa.

Com dez ótimas faixas, entre as quais O Casamento, Nunca Mais, Não Me Venda Grilos (Por Direito), De Volta às Origens e a faixa-título, O Casamento de José e Maria infelizmente não conseguiu boa repercussão comercial, e rapidamente saiu de catálogo. Um exemplar em vinil custa uma verdadeira fortuna, sendo que o álbum nunca foi reeditado na íntegra no formato CD.

Você só encontra faixas de O Filho de José e Maria no formato CD (oito delas, para ser mais preciso) na hoje também rara coletânea Grandes Sucessos, lançada pela BMG (hoje Sony Music) em 2000 e trazendo um total de 20 músicas dessa quase obscura passagem de Odair José pela gravadora RCA. Tomara que esse disco ainda seja reeditado, pois é muito bom e merece ser resgatado.

Nos shows que fará no Sesc, Odair cantará e tocará violão e guitarra, tendo a seu lado os músicos Caio Mancini (bateria), Marco Camarano (guitarra), Marco Bispo (teclados) e seu filho Odair José Jr. (baixo). Pelo que se viu na Virada Cultural, vale e muito a pena não perder essa nova oportunidade de ouvir um clássico obscuro da MPB ao vivo e a cores.

Ouça a versão original de estúdio de O Casamento:

Ouça O Casamento ao vivo na Virada Cultural 2013:

Maria Fumaça (Banda Black Rio) volta em vinil

Por Fabian Chacur

Um dos maiores clássicos da música instrumental brasileira voltará às lojas no formato LP. Trata-se do seminal Maria Fumaça, trabalho de estreia da mítica Banda Black Rio. O álbum chegará às lojas no início de novembro em vinil de 180 gramas e capa luxuosa como parte da coleção Clássicos Em Vinil, criado pela Polysom e responsável pelo resgate de grandes títulos da nossa música na opção bolachão.

Surgida em 1976, a Banda Black Rio era capitaneada pelo saudoso Oberdan Magalhães (sax), e contava na época em que Maria Fumaça foi lançado com ele e também Lucio J. da Silva (trombone), José Carlos Barroso (trumpete), Jamil Joanes (baixo), Cláudio Stevenson (guitarra), Cristóvão Bastos (teclados) e Luiz Carlos Santos (bateria e percussão). Um timaço de músicos criativos e de vasto currículo.

A intenção desse grupo carioca era uma fusão da black/funk music americana da época com as sonoridades tipicamente brasileiras, gerando um balanço simplesmente irresistível, com a metaleira na frente e uma cama alucinada de instrumentos dando o apoio para que o baile se tornasse inevitável. A faixa-título desse álbum brilhou com intensidade nas paradas de sucesso como tema principal da novela global Loco-Motivas.

O disco se divide entre belas composições próprias como Maria Fumaça (Oberdan-Luiz Carlos), a absurdamente sacudida Mr. Funky Samba (Jamil Joanes) e Leblon Via Vaz Lobo (Oberdan) com releituras absolutamente personalizadas e criativas de clássicos da MPB como Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), Casa Forte (Edu Lobo) e Baião (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira). Para se ouvir (e dançar) de ponta a ponta.

A Banda Black Rio se manteria nessa fase inicial (com mudanças na escalação) até o início dos anos 80, lançando os bacanérrimos Gafieira Universal (1978) e Saci Pererê (1980). O grupo voltaria em 2001 com outra formação e capitaneada pelo tecladista William Magalhães, filho do saudoso Oberdan, gerando um belo álbum, Movimento, iniciativa do extinto selo Regata Música, do poeta Bernardo Vilhena.

Ouça o álbum Maria Fumaça, da Banda Black Rio:

Feito em Casa, de Antonio Adolfo, é relançado

Por Fabian Chacur

Feito em Casa, um dos discos mais importantes da história da MPB e um clássico do repertório de Antônio Adolfo, está sendo relançado no formato original no qual chegou ao mercado musical, em 1977, ou seja em vinil. O selo Polysom está disponibilizando o disco em vinil de 180 gramas, com qualidade de áudio e embalagem de primeira linha, como esse incrível álbum merece.

A importância de Feito em Casa vai além da qualidade musical, pelo fato de ter sido o primeiro trabalho do eventual cantor, mas atuante compositor, tecladista e maestro pela via independente. O sucesso de sua empreitada acabou animando outros artistas a explorar esse caminho, entre os quais o grupo Boca Livre, Paulinho Boca de Cantor, a vanguarda paulistana e muitos outros.

Com predominância instrumental, o álbum inclui uma faixa com vocais que fez sucessos nas rádios dedicadas à música brasileira na época, a belíssima Aonde Você Vai, cantada pelo próprio Adolfo com impecável registro vocal. Ele conta no álbum com participações especiais de músicos do alto gabarito de Jamil Joanes (baixo), Luizão Maia (baixo), Luiz Cláudio Ramos (violão e guitarra) e Chico Batera (bateria).

Outra participação bacana é a da cantora, compositora e violonista Joyce na faixa Acalanto, sendo que Dia de Paz foi composta em parceria com Jorge Mautner. Vale lembrar que, na época, nenhuma gravadora multinacional se dispôs a lançar esse trabalho de Antônio Adolfo, que resolveu então encarar a opção independente como forma de dar continuidade a uma carreira que já tinha colhido frutos bacanas.

Antes de lançar Feito Em Casa, Antônio Adolfo integrou o popular grupo A Brazuca, compôs sucessos como Sá Marina, BR-3 e Juliana e trabalhou com nomes do alto gabarito de Wilson Simonal, Elis Regina e Sérgio Mendes, entre muitos outros. Ele tem sólida formação musical, tendo estudado no Brasil e no exterior, o que lhe possibilitou refinar seu trabalho, sem no entanto cair no tecnicismo puro.

Mais ativo do que nunca, Adolfo lançou recentemente o fantástico álbum Finas Misturas (leia a crítica aqui), e tocou recentemente em São Paulo em julho (leia mais aqui), em apresentação única e gratuita. Ele continua morando no exterior, e desenvolve um prolífico trabalho educacional, além de continuar tocando ao vivo e gravando novos álbuns.

Ouça Aonde Você Vai, com Antônio Adolfo:

Slowhand, de Eric Clapton, volta no capricho

Por Fabian Chacur

Como vender discos inéditos está se tornando uma tarefa cada vez mais difícil (embora não impossível, felizmente), a indústria fonográfica está há algum tempo apostando em reedições matadoras no formato físico de álbuns clássicos, aqueles que os fãs de bom gosto precisam ter em suas coleções.

Acaba de chegar às lojas brasileiras uma reedição que eu recomendo com entusiasmo. Trata-se da versão comemorativa de 35 anos de lançamento de Slowhand, um dos melhores e mais vendidos álbuns da carreira do genial cantor, compositor e guitarrista britânico Eric Clapton.

O álbum é oferecido em formato digipack que reproduz a embalagem capa dupla do original em vinil, acrescentando novas fotos, um fantástico encarte repleto de informações e fotos, quatro faixas-bônus e um CD adicional com gravações ao vivo.

Gravado em Londres em maio de 1977, Slowhand traz três dos maiores sucessos da carreira do ex-integrante do Cream: o rockão Cocaine (escrita por J.J.Cale), a doce balada Wonderful Tonight e o country swingado Lay Down Sally. Mas o álbum traz outros atrativos bem fortes.

O rockão The Core, por exemplo, que Clapton canta em dueto com a coautora da faixa, a excelente Marcy Levy (letrista de Lay Down Sally, por sinal). A deliciosa e delicada canção country Next Time You See Her, a releitura turbinada do blues Mean Old Frisco (de Arthur Big Boy Crudup, que também escreveu That’s Alright Mama, hit com Elvis Presley) e a ótima May You Never (de John Martyn) também cativam o ouvinte.

Influenciado pelo grupos The Band e Delaney, Bonnie & Friends (com quem gravou, por sinal) e pelo amigo George Harrison, Clapton mergulhou de cabeça no mundo das canções, usando sua incrível habilidade como guitarrista a favor delas, deixando preciosismos e egotrips bem longe. Isso, além de cantar de forma impecável e versátil. E pensar que ele se achava um mau cantor… Vai se autoavaliar de forma errada ali adiante!

A seu lado, uma excelente banda de apoio usada nos shows, que ele sabiamente resolveu levar para o estúdio também. Com a produção a cargo do experiente Glynn Johns (que trabalhou com The Who, Eagles e inúmeros outros), ele conseguiu gravar Slowhand em apenas seis semanas, contando o período de mixagem.

As quatro faixas bônus adicionadas às nove do trabalho original são excelentes, com destaque para Looking At The Rain (escrita por Gordon Lightfoot), e poderiam perfeitamente ter entrado no disco, na época. Um ótimo resgate.

O CD bônus inclui nove clássicos do repertório de Eric Clapton solo, do Cream e do Blind Faith, gravados ao vivo em show no Hammersmith Odeon de Londres no dia 27 de abril de 1977, ou seja, em torno de uma semana antes das gravações do álbum. O entrosamento dos músicos é impressionante, assim como a energia das performances.

Bem bacana ouvir Steady Rolling Man, do mestre do blues Robert Johnson, e descobrir ali o riff utilizado pouco depois nas gravações de Lay Down Sally, em um contexto completamente diferente. Ou Can’t Find My Way Home (de Steve Winwood e gravada pelo Blind Faith, supergrupo do qual Clapton fez parte), com belíssima interpretação vocal a cargo de Yvonne Elliman (que fez sucesso ao gravar If I Can’t Have You para a trilha do filme Os Embalos de Sábado à Noite, curiosamente lançada naquele mesmo 1977).

As longas versões de Tell The Truth, Stormy Monday e I Shot The Sheriff dão bons espaços para as improvisações dos músicos, que os aproveitam com sabedoria. Mais compactas, Further On Up The Road, Badge e Knocking On Heaven’s Door também são ótimas.

Se Slowhand já era um álbum indispensável para os fãs do melhor rock melódico, imaginem agora, nessa reedição primorosa. Vale cada centavo que você investir nela.

Ouça The Core:

Ouça Lay Down Sally:

Ouça Next Time You See Her:

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