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Herman Rarebell conta suas memórias com os Scorpions

herman rarebell livro capa-400x

Por Fabian Chacur

De 1977 a 1995, Herman Rarebell foi o baterista de uma das bandas de maior sucesso da história do hard/heavy metal e que colocou a Alemanha no mapa desse gênero musical em termos mundiais, os Scorpions. Ele conta as histórias sobre esse período de sua carreira e também outras memórias bem bacanas sobre o antes e depois no livro Scorpions-Minha História em uma das Maiores Bandas de Todos os Tempos (Panda Books), que este crítico comprou a módicos R$ 10,00. Bom negócio!

A trajetória do baterista alemão nascido em 18 de novembro de 1949 é repleta de momentos interessantes, e ele nos conta tudo, com o auxílio do jornalista Michael Krikorian, de uma forma repleta de bom humor e sem cair na linearidade. Entre um acontecimento e outro, Rarebell dá suas opiniões sobre os mais diversos assuntos, incluindo muita coisa sobre relações afetivas e sexuais e a vida de um rocker na estrada.

Quando entrou nos Scorpions, a banda já estava há seis anos na estrada, com sucesso apenas mediano. Não por acaso, a partir de sua integração no time, a partir do álbum Taken By Force (1977), as coisas foram melhorando. Uma curiosidade é saber que o músico foi selecionado pelo grupo alemão em Londres, onde Rarebell morou durante uns bons anos, tocando e participando de gravações em estúdios na cidade britânica.

Graças a seu melhor conhecimento da língua inglesa, Rarebell logo se tornou um dos principais letristas da banda, e colaborou para a composição de hits marcantes como Blackout e Rock You Like a Hurricane, entre outros. Nos anos 1980, os Scorpions entraram no primeiro time do rock internacional, e Herman Ze German (seu apelido) teria participação decisiva para que isso ocorresse, com seu carisma e talento.

A ascensão da banda, o relacionamento entre eles, a importância do produtor Dieter Dierks, as turnês, a passagem pelo Brasil no primeiro Rock in Rio em 1985, sua fase como artista solo pós 1995, está tudo lá, com detalhes bem bacanas. O texto às vezes fica “viajante” demais, mas não a ponto de atrapalhar quem deseja saber mais sobre ele e os Scorpions. Se encontrar a preço bacana, pode pegar sem susto.

Blackout– Scorpions:

Rock You Like a Hurricane– Scorpions:

Take It As It Comes– Herman Rarebell:

Procurando Sugar Man chega ao formato DVD com extras

sugar man dvd

Por Fabian Chacur

A saga de Sixto Rodriguez é daquelas que supera de longe qualquer tipo de ficção, com alternativas dignas dos melhores novelistas e roteiristas de cinema. Essa história fantástica é o mote do documentário vencedor do Oscar em 2013 Procurando Sugar Man (Searching For Sugar Man), que chega ao Brasil no formato DVD com belos extras. E o enredo não para de ganhar novos e bons capítulos.

Para quem não conhece, vale relatar a trajetória do cantor, compositor e músico americano descendente de latinos Sixto Rodrigues. Nascido em 10 de julho de 1942, ele ganhou experiência tocando em bares na cidade de Detroit, lar da Motown Records. Tocando uma mistura de folk, rock e bittersweet rock, foi descoberto pelos músicos e produtores Dennys Coffey e Mike Theodore, ambos egressos da Motown.

Contratado pela gravadora Sussex, de outro oriundo da Motown, Clarence Armant, Rodriguez lançou em 1970 Cold Fact. Embora elogiado, o LP não vendeu nada, assim como seu sucessor, Coming From Reality, produzido por Steve Rowland e lançado em 1971. Pior: foi logo a seguir demitido da gravadora. Um final que parecia infeliz.

Se não teve sucesso algum em sua terra natal, o que Rodriguez não soube na época é que Cold Fact não só foi lançado como se transformou em um enorme sucesso de vendas na longínqua África do Sul, vendendo algo em torno de 500 mil cópias por lá e o tornando mais popular naquele país do que Elvis Presley e os Rolling Stones.

Só que ninguém no país africano sabia nada sobre Rodriguez. Havia, inclusive, mitológicas explicações sobre seu sumiço, do tipo “botou fogo no próprio corpo” ou “atirou na própria cabeça durante um show”. Como se tratava de um país que viveu durante anos oprimido por uma violenta ditadura, sem contatos efetivos com o exterior, a lenda se manteve.

Até que, em meados dos anos 1990, o fã Stephen Segerman (que recebeu o apelido Sugar em função da música Sugar Man, do artista americano) foi questionado por uma amiga sul-africana que estava morando nos EUA onde poderia comprar uma cópia de Cold Fact. Ele descobriu que ninguém sabia desse disco nos EUA, e nem quem era o tal de Rodriguez, que para eles era um astro americano, e não um ninguém.

Aí, Segerman criou um site na então ainda emergente internet tentando encontrar pistas de Rodriguez. De quebra, fez o texto para o encarte do lançamento em CD de Coming From Reality, alertando para a falta de informações sobre Rodriguez e “convocando” detetives musicais para resolver aquele mistério. E o jornalista sul-africano Craig Bartholomeu-Strydom topou o desafio.

Conseguiram, depois de muita batalha, o contato do produtor Dennis Coffey, e ligaram para ele em Detroit. Lá, tiveram a notícia inesperada: Rodriguez ainda estava vivo. Logo em seguida, em mensagem publicada no site de busca, ninguém menos do que uma das filhas de Rodriguez entrou em contato com eles, passando os contatos dela e dele.

Resumo da ópera: Rodriguez foi convidado a se apresentar na África do Sul em 1998, foi tratado como um astro do rock e lotou ginásios em três shows por lá. Desde então, voltou e fez mais de 30 shows. Ele também ficou popular na Austrália, onde se apresentou em 1979 e 1981, mas em escala menor do que no país africano.

Só faltava o resto do mundo conhecer essa história fascinante, e isso ocorreu quando o jovem aspirante a diretor e roteirista de cinema sueco Malik Bendjelloul ficou sabendo dessa história através de Segerman e resolveu encarar o desafio de fazer um documentário. Foram quatro anos de muitas dificuldades e investimentos próprios. Até que seu sonho virou realidade.

Procurando Sugar Man estreou no mítico festival de Sundance nos EUA e desde então conquistou o mundo. Ganhou o Oscar de melhor documentário em 2013, merecidamente. E conta essa história com riqueza de detalhes, entrevistas suculentas, belas cenas de arquivo e criativas artes para ilustrar momentos importantes não documentados. E tem as músicas, belíssimas.

Fica difícil entender o porque Rodriguez não fez sucesso nos anos 1970. Seu trabalho tem tudo a ver com o espírito daquela época, um bittersweet rock recheado de afinidades com os trabalhos de Cat Stevens, James Taylor, Bob Dylan e Jose Feliciano (cujo timbre vocal é bem semelhante ao seu) e canções sublimes como Sugar Man, I Wonder, I Think Of You, I’ll Sleep Away e outras.

O mais curioso é saber que, nessas décadas longe dos holofotes, Rodriguez criou as três filhas trabalhando no ramo da construção civil, dando duro e carregando geladeiras nas costas, por exemplo. Sua postura zen, no entanto, não nos leva a crer que ele tenha encarado isso como sofrimento. Aguentou tudo, e soube encarar o sucesso tardio.

Os dois álbuns dele foram relançados nos EUA depois do sucesso do filme. Juntos, venderam mais de 300 mil cópias, e a trilha do documentário também vendeu muito bem. Ele tem feito shows pelos EUA e Europa e participado dos programas de TV de maior audiência, e não está descartada a hipótese do lançamento de um novo disco de canções inéditas.

Mas Procurando Por Sugar Man não teve apenas desdobramentos positivos. Malik Bendjelloul ganhou o Oscar com seu primeiro longa, mas não segurou a onda. Começou a trabalhar como roteirista em Hollywood e se afastou dos amigos e das pessoas mais próximas. Voltou a Estocolmo e, no dia 13 de maio de 2014, jogou-se nos trilhos do metrô da cidade, suicidando-se aos 36 anos de idade. Uma tragédia horrível.

Chega a ser difícil ver, nos extras do DVD, a boa entrevista concedida por Malik à TV alemã na qual fala sobre como fez o filme, suas experiências anteriores e seus planos para um futuro que, hoje sabemos, não viria. O making of do filme também é repleto de cenas com ele, Rodriguez e os entrevistados. Triste fim para um autor tão promissor, e mais um capítulo em uma saga simplesmente fascinante. Tipo do DVD essencial para os fãs de cinema e de música.

Sixto Rodriguez -Cold Fact – CD em streaming:

Coming From Reality- Sisto Rodriguez (CD em streaming):

Dead Men Don’t Tour – Rodriguez in South Africa 1998 (TV Documentary):

– Veja Procurando Sugar Man:

Jake Bugg resgata rock dos anos 50/60

Por Fabian Chacur

Faça um teste. Ouça as músicas de Jake Bugg sem ler nada sobre ele. Tente chutar quando saiu seu disco de estreia. Garanto que muita gente irá apostar em 1965, 1966 ou algo assim. No entanto, o álbum de estreia desse cantor, compositor e músico britânico, intitulado Jake Bugg, saiu no exterior em outubro de 2012 e acaba de chegar às nossas lojas agora, via Universal Music.

Quem ouviu sabe o porquê dessa dúvida. A sonoridade da obra desse adorável moleque de 19 anos e rosto que lembra um jovem Keith Richards é quase toda calcada no rock dos anos 50 e 60. Nomes como Bob Dylan, Johnny Cash, The Everly Brothers, Carl Perkins, Buddy Holly, Roy Orbison, The Rolling Stones e The Beatles surgem imediatamente na mente do ouvinte mais bem-informado.

Este músico oriundo de Nottingham também demonstra ter ouvido com atenção alguns artistas mais recentes, entre os quais o grupo Oasis e o cantor e compositor Brendan Benson. O melhor de tudo é que, graças a sua inteligência, talento e garra, ele não soa como um mero diluidor desses nomes grandões citados acima.

Mal comparando e com as devidas proporções, Bugg equivale a uma verdadeira anomalia no atual cenário pop, tal qual os adoráveis Stray Cats nos anos 80, que tocavam rockabilly cinquentista de forma magistral em plena era do tecnopop, rock gótico e heavy metal. E, exatamente como o trio americano, Jake já conseguiu vender muitos discos. Esse álbum de estreia atingiu o primeiro lugar na Inglaterra.

Merecidamente, diga-se de passagem. Afinal, é de se tirar o chapéu a façanha de superar tantos concorrentes atuais valendo-se apenas de canções melódicas, gravadas com acompanhamento básico no melhor estilo violão, baixo e bateria, ou guitarra, violão, baixo e bateria, ou só violão e voz, sem teclados e com técnicas de gravação estilo analógico.

As 14 faixas do álbum são muito legais. Lightning Bolt, por exemplo, soa como Johnny Cash puro. Two Fingers tem um tempero meio Brendan Benson, enquanto a bela balada em tom menor Ballad Of Mr.Jones traz pitadas do lado mais melódico do finado Oasis. O rockabilly Trouble Town é uma delícia. E por aí vai. E vai bem, muito bem.

Jake Bugg, o disco, mostra que é possível mergulhar em um universo repleto de clássicos como o folk-rock, country, rock básico e rockabilly, e tirar dali um trabalho consistente, bom de se ouvir e que não cai na pura caricatura. Basta ter talento e bom gosto. Uma façanha, sem sombra de dúvidas, ainda mais para um garoto de apenas 19 anos.

No momento, Jake Bugg está trabalhando em Malibu, Califórnia, com o premiado produtor Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, Tom Petty e tantos outros) em faixas previstas para entrar em seu segundo álbum, entre elas Slum Dog Sunrise. Vamos ver o que sai dessa parceria, pois a expectativa criada por essa bela estreia é grande.

Ballad Of Mr. Jones – Jake Bugg:

Trouble Town _ Jake Bugg:

Two Fingers – Jake Bugg:

Móbile mostra swing de Rogério Rochlitz

Por Fabian Chacur

Muitas vezes se questiona qual a razão de a música instrumental normalmente não alcançar a popularidade das canções com letras e refrão. Com uma certa frequência, a resposta mais simples costuma atribuir a esse tipo de trabalho musical uma preocupação maior com o virtuosismo e a sofisticação, deixando às vezes a fluência e o swing em segundo plano.

Felizmente, o músico, arranjador, compositor e produtor Rogério Rochlitz não sofre desse problema. Em seu quarto álbum solo, Móbile, o ex-integrante do grupo Jambêndola dá uma verdadeira aula de como se fazer música sem palavras ou vocais sem cair no exibicionismo ou na chamada “música para músicos”. Para curti-lo, basta sensibilidade.

Em suas 15 faixas, Móbile traz uma sonoridade quente e diversificada que inclui diversas vertentes da música brasileira, como forró, samba, chorinho e bossa nova, fundidas com jazz, funk de verdade, rock, pop e o que mais vier, tendo sempre como âncora boas melodias e arranjos que fogem do óbvio e nos proporcionam agradáveis surpresas a cada compasso, tudo construído com muito swing e consistência.

Rogério se divide entre teclados, baixo, samples, violão e outros instrumentos, e conta com o apoio de ótimos músicos, entre os quais Gileno Foinquinos (guitarras), João Parahyba (percussão), Guga Stroeter (vibrafone), Bina Coquet (violão de 7 cordas), Guilherme Held (guitarra), Bocato (trombone) e Tião Carvalho (berimbau), só para citar alguns.

Cada tema instrumental equivale a um novo e diferenciado roteiro sonoro, impedindo que o ouvinte caia na monotonia ou na mesmice um instante sequer. Prince no Sambão, por exemplo, mistura samba, funk e urbanidade/urgência pop, enquanto Berimboca adiciona latinidade a um tempero soul bastante envolvente.

O trombone inconfundível de Bocato dá o norte à swingada Bocato No País das Maravilhas, enquanto a cuíca é o eixo da misteriosa e envolvente Prótons, que ganha elementos minimalistas e por vezes soa como uma possível versão século XXI do som instrumental exótico dos anos 50 do músico americano Martin Denny. A delicada Amor Amora equivale a uma versão levemente sinfônica da música gaúcha de raiz.

Momento máximo do álbum, Paralao soa como uma espécie de bossa nova com cobertura soul psicodélica, guardando parentesco com o trabalho do genial maestro brasileiro Arthur Verocai. Mas Móbile revela novos segredos a cada nova audição.

Poderia ganhar as programções das rádios, caso elas tivessem abertura suficiente para isso. Mas pode tocar na sua própria emissora pessoal, se você quiser. Experimente e mergulhe de cabeça na deliciosa música de Rogério Rochlitz.

Prince no Sambão (clipe) – Rogério Rochlitz:

North é o Matchbox Twenty em plena forma

Por Fabian Chacur

O Matchbox Twenty é o tipo da banda que não tem o perfil dos grupos que costumam ser idolatrados pela imprensa musical tupiniquim. Não soa esquisito, não tem cara “alternativa”, não tem integrantes “doidões”, investe em um visual sem grandes maluquices e joga todas as suas fichas na qualidade musical.

Dessa forma, é difícil ler alguma matéria em português sobre esse afiado quarteto, que iniciou sua carreira em Orlando, Flórida, em 1995, e estourou logo com seu disco de estreia, o excelente Yourself Or Someone Like You (1996), um dos melhores álbuns de rock dos anos 90.

Desde o início, Rob Thomas (vocal), Kyle Cook (guitarra solo), Brian Yale (baixo) e Paul Doucette (guitarra base e bateria) apostam em uma mistura de Beatles, John Mellencamp, Bruce Springsteen, power pop, country rock, folk e pop, com direito a boas melodias, muita energia e a aposta em canções, não em modismos. Uma fórmula que se mostrou vencedora.

Além dos cinco excelente discos (incluindo uma coletânea, Exile On Mainstream, que consegue a façanha de incluir seis inéditas, todas ótimas), temos também dois ótimos discos solo do vocalista Rob Thomas. Todos esses álbuns ficaram entre os seis mais nos EUA.

De quebra, Rob é o vocalista e o coautor de Smooth, música que em 1999 trouxe Carlos Santana de volta às paradas de sucesso como principal faixa do estelar álbum Supernatural. Thomas também compôs a músca Disease, incluída no álbum da banda More Than You Think You Are, em parceria com Mick Jagger, dos Rolling Stones. Haja currículo!

North, o quinto álbum do agora quarteto (Paul Doucette, da formação original, saiu do time em 2005), confirma mais uma vez o incrível talento dessa banda em nos oferecer canções compactas, bem arranjadas, simples e ao mesmo tempo repleta daquela sofisticação pop que só os grandes nomes possuem. O bife com fritas perfeito, eu diria.

Entre as 15 ótimas faixas incluídas em North, destaco o power pop She’s So Mean (com um clipe hilariante), a empolgante balada The Way e o rock melódico I Believe In Everything, daquelas músicas que não saem mais da sua cabeça logo após a primeira audição.

Put Your Hands Up, I Will, How Long, Radio e Like Sugar também merece destaque, mas no geral o novo álbum deste grupo americano pode ser ouvido de ponta a ponta, sem pulos.

Se você está se lixando por hype, badalação barata ou truques pop banais, e procura um grupo de rock que toca de verdade, compõe bem e tem um dos melhores vocalistas disponíveis no mercado, pode apostar sem medo em North, do Matchbox Twenty, que o público americano colocou no primeiro lugar em sua semana de lançamento. Eis um caso bacana de sucesso comercial aliado a qualidade artística.

Veja o clipe de She’s So Mean:

Ouça The Way:

Ouça I Believe In Everything:

Tio Caetano vira sobrinho ágil em Abraçaço

Por Fabian Chacur

Aos 70 anos de idade, Caetano Veloso parece qualquer coisa, menos um septuagenário como imaginávamos antigamente alguém com essa idade. O sujeito está mais inquieto e criativo do que nunca. Abraçaço, seu novo CD, está mais para trabalho de sobrinho do que de tio. Ótimo, um dos melhores de 2012.

Desde o início de sua carreira, nos já distantes anos 60 do século passado, Caetano nunca se limitou a uma única sonoridade/abordagem/estilo em seus trabalhos. Abrangente no limite do impensável, ele é um artista sempre inquieto, e que, por isso, nem sempre consegue agradar a todos. Provavelmente nem pretende tal feito, por maior que seja o seu ego de leonino.

A fase atual, iniciada com o estupendo (2006) e que o une aos excelentes Pedro Sá (guitarra e vocais), Ricardo Dias Gomes (baixo, teclados e vocais) e Marcelo Callado (bateria, percussão e vocais), é uma das mais interessantes dessa trajetória toda.

O Caê das melodias delicadas e bossa-novistas e dos ritmos afrobaianos se encaixa feito luva no universo rock and roll do jovem trio de músicos. O melhor: o autor de Sampa mergulha no rock, mas a Banda Cê também não tem medo de enfiar a cara na brasilidade inerente ao som do astro baiano. Resultado: mistura da boa.

O rockão com direito a eventual quebradeira bossa de A Bossa Nova É Foda é o grande single do disco, com sua letra repleta de palavras sonoras e difícil decodificação. Seria algo no estilo “O mundo se curvou ao Brasil”, tendo a bossa nova como base? Essa é a minha interpretação. Descole a sua! Devem existir pelo menos uma outras mil possíveis.

Abraçaço traz solos endiabrados de guitarra de Pedro Sá, enquanto Estou Triste é um daqueles momentos introspectivos roqueiros a la Radiohead, embora sem soar como cópia barata. Quero Ser Justo é uma variação mais próxima da MPB da mesma tendência de Estou Triste, mas com clima mais Sampa.

O Império da Lei soma uma levada sambaiana animada a uma letra curta e de forte teor político. E a política é também tema de Um Comunista, homenagem a Carlos Marighella que soa ambígua, defendendo e não defendendo ao mesmo tempo, o que é bem próximo do pensamento acerca desse tema do tipo campo minado.

Em Funk Melódico e O Galo Cantou, Caetano experimenta inserir em sua musicalidade elementos respectivamente do funk carioca e do pagode romântico, felizmente sem cair nos chavões/clichês mais medíocres e repetitivos dos dois estilos.

Vinco equivale ao ponto jazzy do disco, com levada lenta, guitarra e violões limpos e bateria com vassourinha. Um quase blues, com tempero bossa e repleto de delicadeza, ideal para quem gosta do Caetano mais tradicional.

Os apreciadores do lado mais sacudido e leve do eterno tropicalista certamente curtirão Parabéns, que equivale a um novo fruto do veio que gerou A Luz de Tieta e Não Enche, entre outras. Não por acaso, de longe a pior do CD.

E se Abraçaço abriu com a ousada e virulenta A Bossa Nova É Foda, teve como encerramento a única faixa assinada por outro autor, uma inédita do tropicalista Rogério Duarte.

Trata-se de Gayana, que entra naquele elenco de canções escancaradamente românticas tipo Lua e Estrela, Você é Linda, Sozinho e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer. Um bom exemplar dessa tendência.

No geral, Abraçaço equivale a um trabalho diversificado, repleto de nuances e sutilezas que surgem a cada nova audição, e que deixa claro o porque o caetanismo continua firme e forte, quase 50 anos depois de seu surgimento.

Ouça A Bossa Nova é Foda, com Caetano Veloso:

Ouça Um Comunista, com Caetano Veloso:

Maria Rita relê repertório da mãe com classe

Por Fabian Chacur

Desde que resolveu encarar a carreira de cantora, há dez anos, Maria Rita sabia que teria de lidar com o fato de ser filha de uma das maiores divas da história da MPB, a saudosa Elis Regina (1945-1982). Um legado maravilhoso, sem dúvidas, mas extremamente difícil de se carregar, pela inevitável e quase cruel comparação entre o trabalho das duas intérpretes.

Nessa primeira década de carreira, a paulistana nascida em 9 de agosto de 1977 conseguiu se consolidar como uma intérprete de grande sucesso comercial, além de ganhar um fã-clube fiel e composto por inúmeros admiradores da Pimentinha, o que não deixa de ser um ponto favorável. O timbre semelhante de voz também a ajudou bastante.

Em 2012, quando a morte precoce de Elis (aos 36 anos) completa 30 anos, Maria Rita a homenageia com o projeto Redescobrir, que a Universal Music acaba de lançar em DVD e CD duplo. Uma viagem pelo repertório de uma das grandes estilistas da história da MPB, incluindo 28 de seus maiores sucessos.

Lógico que a comparação entre as interpretações das duas cantoras precisa ser feita, mas com cuidado. Os timbres vocais são semelhantes, mas ninguém consegue ou conseguirá cantar esse repertório com a paixão, a assinatura própria e a divisão vocal que Elis Regina imprimia às canções que escolhia. Ninguém. Nem mesmo sua filha. Simples assim.

Aparentemente, Maria Rita entrou no projeto consciente disso, e se mostra despojada e à vontade, mesmo nos momentos em que fica nítida demais a desproporção entre o talento da mãe e da filha, tipo em Como Nossos Pais, Saudosa Maloca, Fascinação, O Bêbado e a Equilibrista e Águas de Março, só para citar os exemplos mais contundentes desse desnível.

A opção por arranjos enxutos e bem concebidos e pelo acompanhamento de uma banda coesa e minimalista formada por Tiago Costa (teclados), Sylvinho Mazzucca (baixo), Davi Moraes (guitarra) e Cuca Teixeira (bateria) consegue criar um clima gostoso e que ajuda Maria Rita a encarar com eficiência essa sequência de grandes canções de grandes autores.

Alguns momentos são particularmente elogiáveis e acima da média geral, como Agora Tá (Tunai e Sérgio Natureza), Zazueira (Jorge Ben, com direito a brilhante citação de Brazilian Rhyme Interlude 1, do Earth, Wind & Fire), Doce de Pimenta (Rita Lee e Roberto de Carvalho) e Aprendendo a Jogar (Guilherme Arantes).

Claro que no geral é melhor ouvir esse songbook na voz de Elis Regina, mas esse fato não invalida o projeto Redescobrir, que certamente permitirá a muitos jovens a descoberta de canções maravilhosas, aqui interpretadas com respeito, dignidade e despretensão. Certamente um peso está saindo das costas de Maria Rita com este lançamento. Missão cumprida!

Veja o show Redescobrir, de Maria Rita:

Cyro Aguiar esbanja jovialidade em DVD/CD

Por Fabian Chacur

Quem já teve a oportunidade de conversar recentemente com Cyro Aguiar dificilmente acreditará que ele está às vésperas de completar 70 anos de idade, o que irá ocorrer no próximo dia 9 de dezembro. Este cantor, compositor e músico baiano esbanja boa forma, simpatia e jovialidade. E essas são as marcas de Cyro Aguiar Ao Vivo, seu novo lançamento.

Gravado ao vivo no Carioca Club (SP), o DVD/CD equivale a uma equilibrada mistura de grandes sucessos de seus quase 50 anos de carreira, releituras de hits alheios e canções inéditas em sua voz. Acompanhado por uma banda afiada e versátil, Cyro dá um banho de ritmo, carisma e jogo de cintura, com uma voz cristalina e swingada.

Aliás, swing é uma palavra que sempre esteve associada a seu trabalho. Para quem não sabe, Mr. Aguiar é um dos pais do samba rock, uma das vertentes mais dançantes e criativas da MPB, e que muita gente costuma associar apenas a Jorge Ben Jor quando o tema é pioneirismo. Quem estudar um pouco verá que a coisa não é bem assim. Cyro também é.

O samba mais melódico e romântico também teve em Cyro um seguidor talentoso, como prova Crítica, um de seus grandes sucessos, além da versão brasileira do rock inglês dos anos 60, a Jovem Guarda, movimento de que participou e no qual conseguiu fazer grandes amizades, além de cativar inúmeros fãs.

Cyro Aguiar Ao Vivo inclui várias participações especiais. A ótima cantora Adryana Ribeiro marca presença em Amor Na Contramão, provavelmente a melhor faixa deste trabalho, enquanto Jorge Aragão é o convidado na bela releitura de Volta Por Cima, maior sucesso da carreira do saudoso cantor Noite Ilustrada.

Os Demônios da Garoa trocam figurinhas com Aguiar em um pot-pourry que inclui quatro grandes sucessos do grupo paulistano: Samba do Arnesto, Iracema, Saudosa Maloca e Trem das Onze, interpretados de forma entusiasmada e fazendo justiça à importância dessas canções no repertório da MPB tradicional.

O talentoso cantor Eder Miguel está em Crítica. O grupo Katinguelê bate o cartão em Sim Ou Não, enquanto seu ex-cantor, Salgadinho, é a voz em Se a Saudade Apertar. A sambista histórica Lecy Brandão dá brilho a Me Ilumina. Nas canções em que fica sozinho no holofote, Cyro Aguiar também tira de letra.

Entre esses momentos, destaco a bela Eu Vou Ter Sempre Versão, sucesso americano dos anos 40 vertido para o português pelo saudoso Antonio Marcos, Minha Vida (versão de My Way, o sucesso de Frank Sinatra), Depende Muito de Você, Asfalto Falsificado e Aviso Prévio. E tem também a versão de Blue Suede Shoes, de Carl Perkins e estouro com Elvis Presley, que virou Sapato de Camurça Azul sem perder a elegância.

Cyro Aguiar Ao Vivo é um trabalho gostoso, despretencioso e com um clima dançante que o permeia do começo ao vim. Pelo visto, aquela frase “a vida começa aos 40” terá de ser alterada no caso desse artista baiano. Para ele, chegar aos 70 com esse pique certamente significa um eterno recomeço espiritual com a maturidade que só a estrada da vida nos dá.

Ouça Amor Na Contramão, com Cyro Aguiar e Adryana Ribeiro:

O Teatro Mágico grava DVD ao vivo em SP

Por Fabian Chacur

Após lançar seu terceiro e melhor CD, o excelente A Sociedade do Espetaculo, o grupo O Teatro Mágico passa agora para o próximo passo, que é a gravação ao vivo do show que divulgou este álbum. A performance será registrada no dia 2 de novembro (sexta-feira) às 22h no Credicard Hall, com ingressos de R$ 40 a R$ 300 (informações: fone 4003-5588- www.t4f.com.br).

Criado em 2003 em Osasco (SP) e liderado pelo cantor, compositor e músico Fernando Anitelli, O Teatro Mágico trouxe desde o início uma proposta inovadora que mistura música, teatro e circo, com direito a caras pintadas, fantasias, adereços e um visual que deu à banda uma marca registrada e um diferencial em relação aos outros grupos.

Sem contar com o apoio de uma grande gravadora ou mesmo da grande mídia e lançando seus trabalhos por conta própria, o grupo virou um verdadeiro fenômeno, vendendo até hoje em torno de 400 mil cópias de seus CDs, além de seis milhões de downloads oficiais. Seus shows são sempre lotados, e os fãs estão espalhados por todo o país.

A Sociedade do Espetáculo, o CD, inclui várias músicas bem bacanas, entre as quais Amanhã…Será?, cujo clipe investe em um visual que reflete os tempos de tumulto e violência vividos por todos nós atualmente, pontuando a mensagem visionária e poética da letra de Fernando Anitelli, um dos grandes talentos da nova geração da MPB.

Veja o clipe de Amanhã…Será?, de O Teatro Mágico:

Kiss oferece rock básico e vibrante em Monster

Por Fabian Chacur

O rock tomou tantos caminhos nesses seus quase 60 anos de existência que às vezes a gente se esquece de que, em sua origem, esse gênero musical tinha como alicerces a energia, a descontração e o compromisso total com a irreverência e o efeito contagiante capaz de lavar a alma de seus ouvintes para todo o sempre.

Felizmente, grupos como o Kiss não se esquecem disso. Em seu novo álbum, o excelente Monster, lançado no Brasil pela Universal Music, é exatamente isso que o quarteto americano nos oferece. Sem frescuras, sem complicações e com uma eficiência simplesmente impressionante. Rock na veia, como diziam os roqueiros setentistas.

Gene Simmons (vocal e baixo) e Paul Stanley (guitarra e vocal), os líderes do time, estão extremamente bem acompanhados de Tommy Thayer (guitarra e vocal, na banda há 10 anos) e Eric Singer (bateria e vocal, na banda, entre idas e vindas, há 20 anos). São esses dois caras que injetaram toda essa energia nos veteranos fundadores do Kiss.

Monster é hard/heavy rock básico do começo, com a alucinante Hell Or Hallelujah, ao fim, com a vibrante Last Chance, sem espaço para uma única balada. Riffs contagiantes de guitarra, refrãos matadores no estilo do hard rock oitentista e letras simples falando de temas simples. Solos econômicos, arranjos concisos e vocais repletos de personalidade são outras marcas.

As 12 músicas são bacanas, mas as minhas favoritas são, além das duas que já citei, a sensacional Wall Of Sound, a contundente Shout Mercy e a detonante Eat Your Heart Out. O melhor cantor do time é Paul Stanley, mas os outros três não ficam atrás quando assumem o vocal principal. Um time entrosado e que joga para ganhar na base da união.

O Kiss se vale de tanta parafernália visual em seus shows que muitos se esquecem de analisar o seu conteúdo musical. E não dá para negar que, em seus melhores momentos (e eles são muitos), o grupo do Linguarudo nos oferece um rock and roll simples, poderoso e que os aproxima do que o gênero tem de melhor, que é a irreverência e a energia.

Monster é um álbum que não irá revolucionar o mundo do rock, nem será badalado pela crítica especializada, nem mesmo será cultuado pelos fãs mais elitistas desse estilo musical. Mas que delícia ouvi-lo no talo e botar os ya-yas para fora!.

Isso é o verdadeiro rock and roll, e não é fácil de se fazer, embora aparentemente simples. O Kiss prova mais uma vez que sabe o caminho das pedras. E olha que eu não sou fanático por essa consagrada banda ianque. Mas não dá para negar que os caras são from hell mesmo!

Veja o Kiss ao vivo em Nova York em 2012:

Hell Or Hallellujah ao vivo com o Kiss no David Letterman:

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