Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Tag: 2018 (page 1 of 3)

Rosa Marya Colin hipnotiza o ouvinte em CD com dois álbuns

rosa marya colin capa cd-400x

Por Fabian Chacur

Rosa Marya Colin parece ter sido a cantora que inspirou aquela célebre frase “capaz de extrair emoção até de um catálogo telefônico”, coisa que não existe há muito, vale dizer. Mas se existisse, não tenham dúvidas, você se emocionaria ao ouvi-la interpretando suas linhas burocráticas. Gravou muito pouco, mas sempre bem. E agora nos oferece Rosa (Gravadora Eldorado-Nova Estação), um trabalho à altura de seu imenso talento, e que merece ser apreciado e divulgado com a mesma intensidade e profissionalismo que ela teve ao conceber este belíssimo CD.

Nessas mais de duas décadas que ficou longe da gravação de discos, Rosa se manteve atuando como atriz em novelas e séries globais como Deus Salve o Rei (2018) e Fina Estampa (2011). Mas essas “férias” musicais felizmente acabaram.

Coproduzido por ela em parceria com o talentoso LC Varella e produção executiva a cargo de Thiago Marques Luiz (sempre ele!), Rosa equivale a um banho de vitalidade, maturidade e sensibilidade dessa cantora mineira radicada no Rio de Janeiro que completará 73 anos no próximo dia 27 de fevereiro.

Com dez faixas, o novo trabalho de Rosa Marya Colin traz o blues e o jazz no seu DNA, em algumas de forma direta, como Um Blues Para Rosa (Lula Barbosa-Celso Prudente), Depois das Seis (Sylvia Patricia), Man (Alzira Espindola-Itamar Assumpção) e Eu Canto Esse Blues (Arlindo Cruz-Rogê Cury-Gabriel Moura), em outras no tempero, como em Giz (Renato Russo-Marcelo Bonfá-Dado Villa-Lobos), Mas Até Lá (Roney Giah) e É Por Você Que Vivo (Rosa Maria e Tim Maia).

General da Banda (José Alcides-Satiro de Melo-Tancredo Silva), maior sucesso do grande e saudoso Blecaute, é relido com grande impacto. Tema de Eva (Taiguaira) prima pela delicadeza. E o final fica com Alma Cigana (Edu Rocha e Orlando) na qual a intérprete, a capella, se incumbe de todas as vozes de forma magistral.

Os arranjos são precisos, sem excessos ou ausências sonoras, no ponto certo. E Rosa demonstra um domínio pleno de sua potência vocal, sem arroubos exagerados ou contenção excessiva, dando a cada nota e a cada palavra o que elas pedem. Ela mostra que conhece todos os atalhos, proporcionando ao ouvinte maciças doses de prazer auditivo. Blues, jazz, folk, rock, MPB, tudo aqui soa às mil maravilhas, vindos de uma profissional que respeita cada canção que escolhe com muito bom gosto para seu repertório.

Em uma boa sacada que acaba valorizando a versão física do álbum, Rosa traz como bônus nada menos do que a íntegra de outro álbum da intérprete, Vagando, lançado pela Gravadora Eldorado em 1980 e há algum tempo fora de catálogo. Trata-se de um disco mais próximo da estética da MPB, no qual a intérprete encanta com Dancing Cassino (Fátima Guedes), Vagando (Paulinho Pedra Azul), Coração de Strass (Paulinho Nogueira e Zezinha Nogueira), Romeiros (Djavan) e Espírito do Som (Chico Evangelista e Pericles Cavalcante). Discaço!

É um exercício de apreciação bem interessante ouvir as 10 faixas de Rosa e logo a seguir as 10 de Vagando, comparando as nuances da intérprete aos 34 anos de idade e em sua fase atual. Mas posso adiantar que ambas as versões são maravilhosas. Essa cantora encantadora, cujo maior hit foi a releitura de California Dreamin’ (dos The Mamas And The Papas) em 1988, merece a sua atenção. Aliás, na verdade, você merece, mesmo, é ser encantado, hipnotizado e cativado por essa voz maravilhosa. Um bálsamo para tempos difíceis!

Ouça Rosa e Vagando em streaming:

Grandes nomes da música que nos deixaram durante 2018

miucha-400x

Por Fabian Chacur

A única certeza que temos nesse período de tempo sem limitação exata chamado de vida é referente à inevitabilidade da morte, no fim dessa viagem de tempo imprevisível. Não há como fugir. E 2018 nos trouxe o encerramento da trajetória de artistas importantes, sendo um triste acréscimo tardio a cantora Miúcha, que nos deixou no dia 27 de dezembro, aos 81 anos. Uma das irmãs de Chico Buarque, deixou-nos como legado discos elegantes, deliciosos e marcantes, especialmente os que gravou ao lado de Tom Jobim., o eterno Maestro Soberano.

Perdemos vários ícones de diversas áreas. Mondo Pop registrou a partida de alguns desses artistas maravilhosos, que se não estão mais conosco em termos físicos, ao menos nos deixaram como legado seus álbuns, gravações, entrevistas etc. Que suas memórias sejam sempre reverenciadas, pois o que é lembrado, na verdade não morrerá jamais!

Algumas perdas na música em 2018:

Ruy Farias (ex-MPB 4) e Fast Eddie Clarke (ex-Motorhead):

Ruy Faria e Fast Eddie Clarke são os desfalques da música

Dolores O’Riordan (The Cranberries):

Dolores O’Riordan, a cantora de voz deliciosa, nos deixou

Dennis Edwards (ex-The Temptations):

Dennis Edwards, ex-membro dos Temptations, nos deixa

Angela Maria:

Angela Maria, um marco para os fãs da música brasileira

Marty Balin:

Marty Balin, cantor da banda Jefferson Airplane, nos deixa

Vai Levando– Tom Jobim, Miúcha:

Edu Lobo faz belas releituras de clássicos com parceiros ilustres

edu-romero-mauro-400x

Por Fabian Chacur

Em 2016, Edu Lobo se reuniu com o violonista Romero Lubambo e o saxofonista e flautista Mauro Senise para a gravação de um CD, Dos Navegantes, que chegou ao mercado discográfico e virtual em 2017. A qualidade do trabalho se mostrou tão grande que parecia inevitável um registro ao vivo, e é exatamente isso que a gravadora Biscoito Fino acaba de fazer, com o mesmo título do anterior, agora no formato DVD e também disponível em áudio digital nas plataformas digitais.

No palco, temos Edu Lobo nos vocais, relendo 16 de suas composições mais belas, cinco a mais do que o repertório do CD de estúdio. Oito são parcerias com Chico Buarque, sendo cinco delas extraídas da magistral e antológica trilha sonora de O Grande Circo Mistico. Temos também parcerias com Gianfrancesco Guarnieri, Cacaso, Torquato Neto, Paulo Cesar Pinheiro, Ronalto Bastos e Capinan. Equivale a uma bonita amostra da caudalosa e essencial obra desse grande cantor, compositor e músico carioca.

Ao lado desse mestre da música brasileira, hoje com 75 anos bem vividos, dois músicos com currículos invejáveis como Lubambo e Senise. Além deles, marcam presença o também consagrado pianista Cristóvão Bastos (em seis faixas), o percussionista internacional Mingo Araújo (em sete faixas) e o contrabaixista Bruno Aguiar (em 13 faixas). O formato é essencialmente acústico, com ênfase nos detalhes e nas sutilezas, abrindo caminho para que o canto delicado e delicioso de se ouvir de Edu Lobo flua sem medo de ser feliz.

O repertório não segue o formato de um greatest hits, tendo sido selecionado provavelmente entre as canções do vasto e ótimo repertório de Edu que melhor se encaixassem na proposta sonora premeditada para o show, gravado ao vivo no Rio de Janeiro no dia 13 de maio de 2017 na Sala Cecília Meirelles. Entre elas, maravilhas do naipe de Pra Dizer Adeus, Dos Navegantes, Valsa dos Clowns, O Circo Místico, Na Carreira, Beatriz, Valsa Brasileira e A História de Lily Braun.

Desde o início de sua carreira, na década de 1960, Edu Lobo se mostrou um compositor capaz de aliar sofisticação e simplicidade, conseguindo a proeza de fazer canções elaboradas plenamente capazes de atrair os ouvidos mais afeitos aos sons populares. Mesmo os mais arraigados fãs daquele tipo de música que pulula nas rádios e programas televisivos atuais do tipo Só Toca Top (eita título infame esse aí…) dificilmente não se renderão à beleza de Beatriz, A História de Lily Braun e Na Carreira, por exemplo. Ao lado de Mauro Senise, Romero Lubambo e seus outros músicos, ele mostra que música boa é para sempre.

Dos Navegantes, com Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise:

Road To Ruin, dos Ramones, é relançado com edição deluxe

ramones road to ruin capa-400x

Por Fabian Chacur

Há 40 anos, chegava às lojas de discos Road To Ruin, quarto álbum dos Ramones e um dos melhores de sua carreira. Como forma de celebrar essa efeméride, a Warner Music lançou duas edições comemorativas, uma no formato Deluxe Edition contendo três CDs e um LP de vinil, e outra standard, em embalagem digipack dupla. Só a segunda sairá em formato físico no Brasil, sendo que a primeira estará disponível nas plataformas digitais.

A edição deluxe inclui o seguinte conteúdo: o CD 1 traz duas mixagens do álbum, uma a original remasterizada e a outra mais crua e feita especialmente para esta ocasião. O CD 2 tem versões alternativas e extras e o CD 3 traz material gravado ao vivo em 1979. O LP de vinil, de 180 gramas, vem com a mixagem original e remasterizada. O site da Amazon oferece o pacote por 45,85 dólares (em torno de R$ 170,00).

Road To Ruin, na versão física que já pode ser encontrada no Brasil, possui uma charmosa embalagem digipack com capa dupla incluindo cinco fotos do grupo e de seus integrantes, e poucas informações técnicas. Destoando do que era praxe nos relançamentos feitos pelo selo Rhino, hoje da Warner, não traz encarte com texto informativo ou coisa que o valha. Uma pena, pois valorizaria ainda mais o produto e o tornaria mais atrativo ao público em geral.

A remasterização é muito boa, dando ao álbum uma qualidade de áudio matadora e superior às versões anteriores. Algo bem legal, se levarmos em conta que Road To Ruin equivale a um momento no qual os Ramones buscavam ir além do punk rock cru e acelerado que havia marcado a sua trajetória até então. Mais melodias e sutilezas a caminho.

Um marco deste trabalho fica por conta de ser o primeiro com Marky Ramone na bateria. Seu antecessor, Tommy, passou a se dedicar totalmente à produção do álbum, que ele assina (com seu nome de batismo, T. Erdelyi. em parceria com Ed Stasium (que também trabalhou com Talking Heads, Living Colour e Smithereens).

O espírito “1,2,3,4,porrada!” dos discos anteriores se mostra em faixas como I Wanted Everything, I’m Against It, Bad Brain (que inspiraria o nome da célebre banda americana Bad Brains) e She’s The One. I Just Want To Have Something To Do, I Don’t Want You e It’s a Long Way Back seguem um compasso mais lento, com cara hard rock.

A vertente mais melódica surge em canções como Don’t Come Close, um roquinho delicioso com direito a base de violão e um belo solo de guitarra. Grande hit nos anos 1960 com a cantora americana Jackie DeShannon e o grupo britânico The Searchers, a maravilhosa balada rock Needles And Pins surge em uma releitura inspirada, na qual Joey Ramone mostra como a sua voz carismática e agressiva podia se tornar extremamente agradável em um contexto menos básico.

Questioningly os insere novamente no formato rock balada de forma certeira, com direito a violões e ao uso inspirado da slide guitar que certamente arrancaria sorrisos de George Harrison e Lulu Santos. E temos a provavelmente mais conhecida faixa deste trabalho, a endiabrada I Wanna Be Sedated, que equivale a uma mistura do punk básico com uma pegada new wave então emergente. Faixa enérgica, para levantar defuntos e agitar festas rockers!

Como um todo, Road To Ruin é um trabalho no qual Joey (vocal), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo) e Marky (bateria) demonstram maturidade, energia e uma vocação pop-rock inesperada. Se teve péssimo desempenho comercial na época (nº 103 na parada americana), acabou se tornando um clássico do rock, e boa prova de que os Ramones não eram tão repetitivos e básicos como alguns apressados podem pensar. Eles sabiam variar, e fazer rock melódico. Esta é a prova cabal!

Confira a tracklist completa de “Road To Ruin: 40th Anniversary Deluxe Edition”

Disco Um-
Original Mix Remastered

1.“I Just Want To Have Something To Do”
2.“I Wanted Everything”
3.“Don’t Come Close”
4.“I Don’t Want You”
5.“Needles And Pins”
6.“I’m Against It”
7.“I Wanna Be Sedated”
8.“Go Mental”
9.“Questioningly”
10.“She’s The One”
11.“Bad Brain”
12.“It’s A Long Way Back”

40th Anniversary Road Revisited Mix

13.“I Just Want To Have Something To Do”
14.“I Wanted Everything”
15.“Don’t Come Close”
16.“I Don’t Want You”
17.“Needles And Pins”
18.“I’m Against It”
19.“I Wanna Be Sedated”
20.“Go Mental”
21.“Questioningly”
22.“She’s The One”
23.“Bad Brain”
24.“It’s A Long Way Back”

Disco dois: “Rough Mixes & 40th Anniversary Extras”

1.“I Walk Out” (2018 Mix) *
2.“S.L.U.G.” (2018 Mix) *
3.“Don’t Come Close” (Single Mix)
4.“Needles And Pins” (Single Mix)
5.“I Just Want To Have Something To Do” (Basic Rough Mix) *
6.“I Don’t Want You” (Basic Rough Mix) *
7.“I’m Against It” (Basic Rough Mix) *
8.“It’s A Long Way Back” (Basic Rough Mix) *
9.“I Walk Out” (Basic Rough Mix) *
10.“Bad Brain” (Basic Rough Mix) *
11.“Needles And Pins” (Basic Rough Mix) *
12.“I Wanna Be Sedated” Take 2 (Basic Rough Mix) *
13.“I Wanted Everything” (Basic Rough Mix) *
14.“Go Mental” (Basic Rough Mix) *
15.“She’s The One” (Basic Rough Mix) *
16.“Questioningly” Take 2 (Basic Rough Mix) *
17.“S.L.U.G.” (Basic Rough Mix) *
18.“Don’t Come Close” (Basic Rough Mix) *
19.“I Wanna Be Sedated” (Backing Track) *
20.“I Don’t Want You” (Brit Pop Mix) *
21.“Questioningly” (Acoustic Version) *
22.“Needles And Pins” (Acoustic Version) *
23.“Don’t Come Close” (Acoustic Version) *
24.“I Wanna Be Sedated” (“Ramones-On-45 Mega-Mix!”)

Disco três: “Live At The Palladium, New York, NY, December 31 1979”

1.“Blitzkrieg Bop” *
2.“Teenage Lobotomy” *
3.“Rockaway Beach” *
4.“I Don’t Want You” *
5.“Go Mental” *
6.“Gimme Gimme Shock Treatment” *
7.“I Wanna Be Sedated” *
8.“I Just Want To Have Something To Do” *
9.“She’s The One” *
10.“This Ain’t Havana” *
11.“I’m Against It” *
12.“Sheena Is A Punk Rocker” *
13.“Havana Affair” *
14.“Commando” *
15.“Needles And Pins” *
16.“I Wanna Be Your Boyfriend” *
17.“Surfin’ Bird” *
18.“Cretin Hop” *
19.“All The Way” *
20.“Judy Is A Punk” *
21.“California Sun” *
22.“I Don’t Wanna Walk Around With You” *
23.“Today Your Love, Tomorrow The World” *
24.“Pinhead” *
25.“Do You Wanna Dance?” *
26.“Suzy Is A Headbanger” *
27.“Let’s Dance” *
28.“Chinese Rock” *
29.“Beat On The Brat” *
30.“We’re A Happy Family” *
31.“Bad Brain” *
32.“I Wanted Everything” *

*não divulgadas previamente

She’s The One (clipe)- Ramones:

Bixiga 70 destila grooves com categoria em Quebra-Cabeça

bixiga 70 quebra cabecas-400x

Por Fabian Chacur

Durante algum tempo no Brasil, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, música instrumental era quase que sinônimo de sonoridades intrincadas e melhor entendidas por estudiosos do que pelo público em geral. Nada contra, mas fazia falta quem se dedicasse a investir em um som sofisticado, mas sem perder o groove jamais. E é exatamente esta a marca registrada do excepcional grupo paulistano Bixiga 70, que nos oferece outro petardo, o CD Quebra-Cabeça, lançado pela gravadora Deck em parceria com o selo Traquitana.

O Bixiga 70 surgiu lá pelos idos de 2010, quando o tecladista Maurício Fleury reuniu uma turma de músicos que frequentavam e atuavam no estúdio Traquitana, situado na rua 13 de Maio, nº 70, no tradicional bairro paulistano do Bixiga, para gravar a música Grito de Paz. Como ele me disse em entrevista, “íamos gravar apenas uma música, e acabamos criando uma banda”. Melhor para eles e melhor para nós.

O time é integrado por Décio 7 (bateria), Marcelo Dworecki (baixo), Cris Scabello (guitarra), Mauricio Fleury (teclado e guitarra), Rômulo Nardes e Gustávo Cék (percussão), Cuca Ferreira (sax barítono), Daniel Nogueira (sax tenor), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete). Embora todos sejam craques em seus respectivos instrumentos, eles jogam sempre em função do grupo, sem exibicionismos tolos. O resultado final sempre fala mais alto.

Quebra-Cabeça é o quarto álbum dessa intrépida trupe, e mostra que o entrosamento e a criatividade deles continua com forte viés de alta em termos qualitativos. Aqui, o que manda é o groove, o balanço, o diálogo democrático entre os instrumentos, resultando em uma massa sonora deliciosa de se ouvir e deliciosa de se ter como trilha sonora para dançar até a sola do sapato, sapatilha, tênis etc se desgastar por completo.

Os elementos utilizados na mistura são diversos, especialmente afrobeat, rock, soul, funk de verdade, latinidade a la Carlos Santana, jazz, música brasileira em geral e temperos que a gente nem consegue definir, de tão refinados. Não é de se estranhar que eles tenham no currículo shows pelos quatro cantos do mundo, incluindo participações marcantes em festivais de música como Glastonbury (Inglaterra) Roskilde (Dinamarca) e Womad Austrália/Nova Zelândia.

O álbum traz 11 faixas, todas muito boas, a começar da hipnótica faixa título, divulgada com um clipe que se vale como cenário do estúdio Traquitana e de pontos bacanas do Bixiga. Psicodelia, latinidade, afro-jazz, chame como quiser. Ilha Vizinha, Primeiramente, Camelo, Areia, Pedra de Raio, é uma faixa melhor do que a outra. Do Brasil para o mundo, um som capaz de energizar até zumbis. Ouça sem moderação.

Quebra-Cabeça (clipe)- Bixiga 70:

The Who tem álbum duplo ao vivo lançado no Brasil em CD

the who capa cd ao vivo 1968-400x

Por Fabian Chacur

Excelente notícia para os fãs do melhor classic rock e também do formato físico musical. A Universal Music acaba de lançar no Brasil, no formato CD duplo e também nas plataformas digitais, o álbum Live At The Fillmore East 1968, do The Who, que no exterior possui uma terceira versão, a de LP de vinil triplo. Este trabalho nunca havia saído pela via oficial anteriormente.

Esse flagra da formação clássica da célebre banda britânica ocorreu no histórico Fillmore East, situado em Nova York, mais precisamente no Lower East Side de Manhattan. Dois shows foram realizados naquele final de semana, mas só o do dia 6 de abril de 1968, o segundo deles, teve registro na íntegra. A restauração de áudio e mixagem ficou a cargo do hoje renomado engenheiro de som Bob Pridden, que na época era um dos roadies do quarteto inglês.

O repertório de 14 faixas traz músicas dos álbuns lançados pelo The Who até então (o mais recente era The Who Sell Out, de dezembro de 1967) com alguns covers bem bacanas, como C’mon Everybody (Eddie Cochran) e Fortune Teller (Allen Toussaint). A versão longa de My Generation, que a partir dali se tornaria um cavalo de batalha clássico do grupo, também merece destaque, e encerra o álbum.

TRACKLIST- Live At Fillmore East 1968:

Disco 1

1. Summertime Blues

2. Fortune Teller

3. Tattoo

4. Little Billy

5. I Can’t Explain

6. Happy Jack

7. Relax

8. I’m A Boy

9. A Quick One

10. My Way

11. C’mon Everybody

12. Shakin’ All Over

13. Boris The Spider

Disco 2

1. My Generation

My Way/C’mon Everybody– The Who:

Ricardo Bacelar mostra swing e bom gosto em Sebastiana

Bacelar6@FernandoHerrera-400x

Por Fabian Chacur

Ricardo Bacelar ficou mais de uma década longe da música, após ter integrado por 11 anos o grupo Hanói Hanói e lançado o CD solo In Natura (2001). O também advogado voltou à sua paixão eterna com força total, com o excelente DVD/CD Concerto Para Moviola- Ao Vivo (2016, leia entrevista sobre o álbum aqui). Agora, ele nos apresenta o CD (também lançado em vinil) Sebastiana, uma bela sequência lógica do trabalho anterior, com a mesma alta qualidade artística.

Em Concerto Para Moviola- Ao Vivo, Bacelar nos ofereceu uma elogiável e gostosa releitura do som fusion/jazz rock dos anos 1970 e 1980. Aquela sonoridade ao mesmo tempo bastante sofisticada e acessível ao ouvido médio do público se mantém presente em Sebastiana, só que desta vez com um pouco mais de ênfase em brasilidade e tempero latino, além de abertura para vocais em quatro das quinze faixas presentes neste trabalho.

Para concretizar este álbum, o artista cearense contou com o velho amigo Cesar Lemos como braço direito, incumbindo-o da produção, guitarra e baixo. Também foram convocados artistas oriundos de vários países, como os americanos Steve Hinson (pedal steel guitar) e Maye Osorio (vocal), os venezuelanos Anderson Quintero (bateria e percussão) e Andrea Mangiamarchi (vocal) e o argentino Gabriel Fernandez (bandoneon), entre outros.

O repertório traz composições de Ivan Lins, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e Tom Jobim, entre outros, além de duas parcerias Bacelar/Lemos e três de Bacelar sozinho. A performance do time escalado para o álbum não poderia ter sido melhor, esbanjando entrosamento, qualidade artística e swing, ajudando a dar ao conjunto desta obra uma consistência admirável.

Influências de lounge e new bossa também podem ser identificadas ao longo do álbum. Com vocais, Nothing Will Be As It Was (versão de Nada Será Como Antes, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), e Somewhere In The Hills (de Tom Jobim e Vinícius de Moraes) receberam roupagem eletrônica envolvente, enquanto o balanço afro de Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil, ganha nuances jazzísticas bem bacanas.

Sebastiana equivale a uma mais do que agradável viagem pelo mundo da fusion, bossa nova, easy listening, lounge, jazz, pop, new bossa e latin music, comandada pela mão hábil de Ricardo Bacelar. A Volta da Asa Branca, Partido Alto, Depois dos Temporais e Sambadouro são bem elogiáveis, mas o repertório é muito equilibrado e bom, como um todo.

O álbum no seu formato físico também será lançado na América Latina, EUA, Japão e Europa, algo bastante lógico, pois é muito provável que consiga melhor repercussão no mercado internacional do que por aqui. Bom por um lado, ruim pelo outro, pois o brasileiro deveria abraçar com mais entusiasmo e carinho um trabalho tão bom e tão representativo do melhor da nossa música como esse aqui.

Obs.: a embalagem do CD é deslumbrante, com direito a belíssima capa digipack e um caprichado encarte recheado de fotos e informações sobre a concepção do álbum, além de ficha técnica completa. Prova de que o formato físico é insuperável para os verdadeiros fãs de música, se desenvolvido com o nível de excelência deste ótimo Sebastiana.

Nothing Will Be As It Was– Ricardo Bacelar:

Manifesto Cerrado traz a bela trajetória do grupo Uganga

Uganga_2016-400x

Por Fabian Chacur

Criada no Triângulo Mineiro em meados dos anos 1990 pelo ex-integrante da seminal banda Sarcófago Manu Joker, a Uganga hoje pode ser incluída sem nenhum exagero no hall das melhores formações do rock brasileiro, independente de estilo (o deles é o thrashcore, só para constar). Uma boa forma de se entender o porque Mondo Pop dá tanta moral para esses caras é conferir Manifesto Cerrado, DVD financiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC) da cidade de Araguari (MG) e também disponível no Youtube.

Fazer rock no Brasil não é tarefa para qualquer um, exigindo dos dispostos a encarar tal desafio muita garra, resistência e talento. E a trajetória percorrida por Manu Joker e seus parceiros representa bem isso. Manifesto Cerrado é dividido em duas parte. A primeira, com 75 minutos de duração, é um documentário que dá uma geral em sua história, sendo que a segunda traz o registro de um show ao vivo.

O documentário detalha a caminhada dessa banda, que passou por diversas mudanças em sua formação até o lançamento de seu primeiro CD, Atitude Lótus (2003). Com depoimentos de seus integrantes e cenas de arquivo, incluindo uma histórica aparição na MTV em 1999, a narrativa chega até 2013, quando o grupo fez sua segunda turnê europeia, que passou por países como Itália, Alemanha, Polônia, França, Suíça, Eslováquia, Hungria, Eslovênia e Áustria.

Nessa época, a formação do Uganga estava consolidada em torno de Joker (vocal), seu irmão Marco Henriques (bateria), Christian Franco (guitarra) e seu irmão Raphael Ras Franco (baixo e vocais) e Thiago Soraggi (guitarra). Aí, em pleno processo da pré-produção do que viria a ser o seu quinto álbum, Opressor (2014- leia a resenha de Mondo Pop aqui), diversos problemas de saúde infernizaram a vida dos rapazes.

Mesmo assim, eles não só conseguiram dar conta da gravação como nos ofereceram o até o momento melhor trabalho de sua carreira, um disco sólido e vigoroso. O amigo e guitarrista Maurício Murcego Pergentino (do grupo Canábicos) foi convocado para ajudar nos shows e acabou incorporado ao time. Nos depoimentos e cenas de estrada, fica clara a irmandade entre os integrantes do Uganga, o que explica onde eles arrumaram forças para superar os problemas.

O final do documentário mostra o agora sexteto em vias de iniciar a pré-produção de seu próximo álbum, em um astral dos melhores. Com direção e produção a cargo do cineasta Eddie Shumway, o trabalho também demonstra a importância dos amigos e da produtora Som do Darma e do selo Sapólio Rádio para que o grupo atingisse o estágio atual, digno de participar de festivais de grande porte, do tipo Rock in Rio e Lollapalooza, o que ainda não ocorreu, mas irá ocorrer, se depender da qualidade artística deles.

A segunda parte do DVD é um show realizado em julho de 2014 na histórica Estação Stevenson, parada de trens situada às margens da rodovia que liga as cidades mineiras de Uberlândia e Araguari. Com 47 minutos, o espetáculo é realizado em um palco no qual a banda fica circundada pela plateia, em um formato intimista no qual o grupo se mostrou repleto de energia, mostrando músicas de Opressor e de outros momentos de sua carreira até então, incluindo um cover da histórica banda paulista Vulcano, Who Are The True?, a única em inglês do repertório de 11 músicas.

Se conseguiu superar tantos desafios e realizar tantas coisas bacanas nesses seus mais de 20 anos de estrada, Manu Joker, seu vozeirão de trovão e sua afiadíssima turma do barulho tem tudo para nos oferecer, em um futuro não muito distante, mais doses maciças de seu vigoroso e inteligente rock pesado, no qual as letras trazem mensagens positivas e poderosas. Vale ficar ligado neles e em outros representantes do rock do Triângulo Mineiro.

Veja o show do DVD Manifesto Cerrado, do Uganga:

Leny Andrade incorpora belas composições de Fred Falcão

fred falcao e leny andrade-400x

Por Fabian Chacur

Fred Falcão era ainda um jovem compositor em busca de reconhecimento quando a já badalada cantora Leny Andrade entrou em seu caminho, lá pelos idos de 1966. Ela o aconselhou a mostrar Vem Cá Menina para o consagrado grupo Os Cariocas, e foi exatamente isso o que ele fez, e se deu bem. Agora, mais de 50 anos depois, os bons amigos se reúnem para um projeto delicioso: Leny Andrade Canta Fred Falcão-Bossa Nossa (Biscoito Fino).

Desde que se conheceram, muita coisa aconteceu na vida dos dois personagens deste álbum. Fred Falcão teve suas músicas gravadas nas décadas de 1960 e 1970 por nomes do gabarito de Wilson Simonal, Vanusa, Maysa, Clara Nunes, Beth Carvalho, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Os Cariocas, Pery Ribeiro, Boca Livre, Golden Boys e outros. Advogado de ofício, deixou a música de lado por algum tempo, mas não para sempre, pois não faria sentido.

Incomodado por não ter seu nome associado a canções que escreveu e fizeram sucesso, ele resolveu gravar álbuns reunindo sua obra interpretada por ele e amigos famosos. Nesse clima, surgiram os CDs Imparceria (2006), Voando na Canção (2011) e Nas Asas dos Bordões (2014). E foi quando este pernambucano radicado no Rio preparava novas composições para um novo CD que Leny voltou à cena.

Considerada uma das melhores cantoras brasileiras e com fãs nos quatro cantos do mundo, admirada não só no cenário da bossa nova e MPB como também pelos jazzistas, Leny Andrade já havia participado de um dos CDs de Fred. Ao mandar as novas canções para ela escolher uma delas, a intérprete se ofereceu para gravar o álbum inteiro, proposta irrecusável que Fred obviamente não perdeu tempo em aceitar rapidamente. Surgia assim este admirável CD.

Com um repertório de 12 músicas maravilhosas, escritas sozinho ou com os parceiros Carlos Costa, Aroldo Medeiros, Ed Wilson, Lysias Ênio e Nelson Wellington, Fred deixou seu lado músico de lado e montou um time do tipo seleção, integrado por Jorge Helder (baixo), Lula Galvão (violão e guitarra), Rafael Barata (bateria) e João Carlos Coutinho (produção musical, arranjos, piano e acordeom), concentrando-se na direção artística e seleção/composição do repertório.

Com essa escalação e esse material, a probabilidade de termos em mãos um projeto impecável era imensa, e se concretizou sem maiores temores. As músicas viajam por variações bacanas da bossa nova, indo desde temas mais rítmicos como outros mais introspectivos e líricos, com os músicos demonstrando um swing e entrosamento de dar gosto, aproveitando alguns instantes para improvisos deliciosos, sem nunca deixar as composições em segundo plano.

E temos, obviamente, a estrela da companhia, Leny Andrade, esbanjando emoção, técnica e bom gosto em cada interpretação. No auge de seus 75 anos, soa como se fosse uma jovem com fome de bola, e ao mesmo tempo relaxada e tranquila, oferecendo às belas composições de Fred Falcão vida plena e vigorosa. Ela, vamos combinar, incorporou cada uma delas. Que beleza sem fim!

Difícil destacar só uma ou duas das músicas do CD, mas para não ficar em cima do muro, vamos de O Amor Pegou na Veia, Alô Donato, Tons de Ipanema e a faixa-título. E não nos esqueçamos das letras, que abordam as várias fases do amor e também mergulham nas lembranças e referências da Bossa Nova com sensibilidade e charme. Leny Andrade Canta Fred Falcão- Bossa Nossa é um disco que já surge clássico, um bálsamo para a alma em tempos tão conturbados como os atuais.

Bossa Nossa– Leny Andrade:

Anna Ratto relê composições alheias no ótimo CD Tantas

Annaratto@NANAMORAES.50805c-400x

Por Fabian Chacur

Desde que lançou seu primeiro álbum de fato, Do Zero (2006), a cantora, compositora e musicista carioca Anna Ratto (conhecida até 2009 como Anna Luisa) batalha para se consolidar no competitivo cenário musical brasileiro com sua bela e delicada voz e um som próximo do que se rotulou como nova MPB. Com seu quinto CD, Tantas, lançado pela gravadora Biscoito Fino, ela investe essencialmente em canções alheias, e se dá bem.

Após Anna Ratto Ao Vivo (2015), a artista inicia um novo ciclo de sua trajetória ao lado de novos parceiros, os produtores Jr.Tostoi e Marcelo Vig. O fato de os dois atuarem com desenvoltura entre o rock e a MPB deu a ela os instrumentos para fazer um disco no qual a mistura entre esses dois gêneros musicais se apresenta delicada, criativa e com nuances capazes de proporcionar uma identidade própria.

O repertório do álbum traz apenas uma canção autoral, Frevolenta, parceria com Jam da Silva. As outras nove levam a assinatura de nomes talentosos das novas gerações da MPB, como Rodrigo Maranhão, Bruna Caram, Duda Brack e Caio Prado. Temos também Aviéntame, do excepcional grupo mexicano de indie rock mexicano Café Tacvba.

A voz doce, delicada e bem treinada de Anna se mostra bastante adequada para dar uma unidade ao álbum, que nos oferece samba com timbres roqueiros (Pode Me Chamar), levadas pop africanas eletrônicas mescladas ao nordeste brasileiro (Frevolenta), puro funk rock (Inemurchecível), balada blues com tempero rocker (Dom) e até uma espécie de valsa com teor erudito e arranjo idem (Ana Luisa).

Tantas esbanja bom gosto, detalhismo, doçura, uma pimentinha aqui e ali e versatilidade rítmica, tudo amarrado pelo vocal de Anna, cujo timbre nos lembra Marisa Monte, Roberta Sá e Gal Costa, mas sem nunca soar como cópia. É uma questão de semelhança de timbre, nada além disso, que ela certamente ignora, pois desenvolve bem seu próprio rumo. Eis um disco maduro, estiloso e cativante.

Pode Me Chamar– Anna Ratto:

Older posts

© 2019 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑