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Feito em Casa, clássico LP de Antônio Adolfo, faz 40 anos

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Por Fabian Chacur

Em 1977, cansado de ouvir não dos diretores artísticos de gravadoras, Antonio Adolfo arregaçou as mangas e lançou por conta própria o LP Feito em Casa. Os grandes selos queriam que ele repetisse o seu trabalho anterior , como autor de hits de intérpretes como Tony Tornado e Evinha ou como líder do grupo A Brazuca. Ele queria ir adiante, mesmo fazendo música instrumental e sem se render a fórmulas pré-estabelecidas.

Graças à sua ousadia e ao resultado positivo dessa experiência, a alternativa independente começou a ser uma opção para quem se dedicava a um estilo musical que por ventura não estivesse dentro dos parâmetros do mainstream musical. Os frutos foram incríveis.

Marco na produção independente no Brasil, este álbum foi reeditado posteriormente em CD e em vinil, e é um clássico não só por seu valor histórico, mas também por seu conteúdo musical, com oito faixas instrumentais, uma com vocalizes e duas com letras.

Em entrevista feita via e-mail, o músico, maestro, arranjador e compositor, que completou 70 anos em fevereiro mais ativo do que nunca, recorda como foi sua opção pela independência, e dá detalhes sobre como encarou esse desafio.

Leia mais sobre Antonio Adolfo e sua produção atual aqui .

E leia a resenha de Feito em Casa aqui .

Mondo Pop- Você primeiro gravou o Feito em Casa para só depois procurar as gravadoras, já com tudo pronto. O que o levou a fazer isso? Era uma espécie de premonição em relação ao que viria (a não aceitação por parte delas) ou era dessa forma que você fazia seus trabalhos habitualmente, já naquela época?
Antonio Adolfo
– Não era habitual. Eu vinha de uma temporada de estudos na França (com Nadia Boulanger) e aqui no Brasil (com Guerra-Peixe) entre 1974 e 1976. Compus muito nessa época e acho que aprendi bastante. Cheguei ao Rio e, enquanto estudava com o Guerra, fazia gravações com vários artistas da MPB, jingles, trilhas sonoras etc – eu atuava somente como músico acompanhante, nessas gerações – e ficava ganhando para sobreviver. Costumava gravar muito lá no estúdio Sonoviso – o engenheiro de som (Toninho Barbosa) ficou muito meu amigo e eu comecei a pensar que ali seria um bom estúdio – não muito caro – onde eu poderia gravar algumas músicas minhas Selecionei músicos etc, e resolvi alugar algumas horas do estúdio para gravar. Foi dando tudo certo. Os músicos dando todo o apoio. E a fita (gravação completa) ficou pronta. Resolvi então mostrar ao pessoal das gravadoras, que foram unânimes em recusar. Acho que eles queriam que eu repetisse a fórmula Antonio Adolfo e Tibério Gaspar ou Antonio Adolfo e a Brazuca. Resolvi, então, fazer eu mesmo. Contratei uma fábrica de disco e fiz uma edição pequena. Pedi à gráfica para me vender capas em branco, com cartolina ao avesso, pois criaríamos, eu e amigos, capas uma a uma.. Depois dos 500 primeiros, escolhi uma para matriz.

Mondo Pop- Como você fez para cobrir os custos do álbum na época? Os músicos que participaram do disco receberam algum tipo de cachê ou você contou com o apoio deles sem remuneração imediata?
Antonio Adolfo
– Eu tive que vender um carro, e ganhava dinheiro nas gravações e também algum direito autoral. Assim, dava pra eu viver com minha família e sobrou para a gravação. Os músicos me deram a maior força e acho que só precisei pagar alguns. Esse tipo de atitude entre os colegas músicos é fundamental, já que com o restante da produção, geralmente, não tem “colher de chá”.

Mondo Pop- Fale um pouco da forma como você realizou as vendas. Tinha uma equipe? Conseguiu colocar em todo tipo de loja ou se concentrou nas de menor porte?
Antonio Adolfo
– Cheguei a colocar anúncio no jornal para conseguir vendedores: “gravadora nova precisa de vendedores etc” ou coisa assim. E apareceram vários candidatos. Só um tinha experiência nessa área, e me ajudou muito. Mas como o disco não era um hit, ele foi pra outra. E eu tive que criar coragem e vender de loja em loja. Foi aí que o Tim Maia me deu umas dicas, pois já havia feito coisa semelhante com o Tim Maia Racional. Passou muita informação das lojas e explicou como fazer, mas ele mesmo não estava mais nessa. A imprensa começou a apoiar o disco e fui convidado pra fazer o Fantástico na TV Globo. Aí as coisas começaram a mudar, pois já estava vendendo nas lojas e o LP ganhou força. Mas o que me ajudou muito mesmo a vender foram os shows.

Mondo Pop- Você levava os discos para vender nos shows. Tem ideia de quantos exemplares conseguiu comercializar dessa forma? E quantas cópias, mais ou menos, no total, você vendeu de Feito em Casa naquela época? E tem ideia de quanto venderam os relançamentos em CD (pela Kuarup) e LP de vinil (pela Polysom)?
Antonio Adolfo
– Fiz vários shows, sendo que os Seis e Meia, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, eram um sucesso. E vendia, às vezes, 100 discos após o show que fazia em parceria com o Cesar Costa Filho. Daí por diante, fui combinando vendas em lojas e em show. E o disco chegou a vender 20 mil copias. Um sucesso, principalmente por se tratar principalmente de disco instrumental. O Feito em Casa foi meu best seller. Na Kuarup vendia bem menos e na Polysom (reedição do Feito em Casa) também. Acho que porque não estava fazendo muitos shows nessa época. É bem comum vender muitos discos em shows. É onde se vende maior quantidade de discos físicos no momento.

Mondo Pop- Das onze faixas do álbum original, duas tem letras e uma traz vocalizações. Como surgiu a ideia de incluir essas faixas, e qual o critério usado por você para escalar as cantoras Joyce e Málu para interpretá-las?
Antonio Adolfo
– Nunca fui muito de escrever letras. Mas gostava da canção , que a Málu interpretou. Gosto de música cantada também, mesmo que sem letra. Veja o exemplo da faixa Acalanto que a Joyce gravou. E teve a Aonde Você Vai, que eu mesmo me atrevi a cantar.

Mondo Pop- O repertório traz obras compostas entre 1972 e 1976. Quais foram as principais influências musicais ou mesmo não musicais que você teve para cria-las?
Antonio Adolfo
– Eu vinha de um momento muito tranquilo, quando só estudava, fazia yoga, Aikido, macrobiótica, lia Krishnamurti etc. Acho que essa combinação resultou naquele som. No entanto, no meu terceiro disco, Viralata, eu já havia me modificado um pouco e “suinguei” mais (risos).

Mondo Pop- Eu era adolescente na época, e conheci a faixa Aonde Você Vai? ouvindo-a em uma emissora de rádio. Conte como foi para conseguir que essa e outras faixas entrassem em programações de rádio?
Antonio Adolfo
– A melodia e a letra eram bem simples. E eu era conhecido do pessoal de radio por causa dos hits dos anos 67 a 70 (n da r.: BR 3, Teletema, Juliana e inúmeras outras). Então, comecei a ir também às emissoras de radio e conversar com os programadores, que escolheram essa faixa, por ser a mais “comercial”. Ia também às redações dos jornais e revistas. Isso, no Brasil inteiro.

Mondo Pop- Como foi a turnê de divulgação do álbum? Quantos shows você fez , mais ou menos, e como foi a recepção do público?
Antonio Adolfo
– Viajei o Brasil inteiro. Quando o local do show era mais próximo ao Rio, ia de carro – tinha uma Belina na época, e colocava meu piano elétrico e muitos LPs nela. Quando era mais longe, tipo Belém e Nordeste, ia de avião. Entrava em contato com os diretórios acadêmicos, estações de radio e jornais e ia me aproximando dos artistas locais Conheci muita gente, e esses encontros foram maravilhosos. Fiz shows por todo o país. Fiz também turnês com meu grupo e, a partir de algum momento, o Projeto Pixinguinha. Foi tudo maravilhoso e na hora certa.

Mondo Pop- Aonde Você Vai tem você como vocalista principal. Como surgiu a ideia de você mesmo cantá-la? Cogitou convidar alguém para interpretá-la antes ou desde o começo pretendia fazer isso você mesmo? Pensa em repetir a experiência?
Antonio Adolfo
– Não gosto de cantar. Prefiro tocar piano.

Mondo Pop- A letra de Aonde Você Vai? soa extremamente atual, 40 anos após o seu lançamento. Como você encara isso?
Antonio Adolfo
– Não tinha reparado isso. Talvez outro cantor (ou cantora) pudesse gravá-la novamente. Não eu, pois não gosto de cantar.

Mondo Pop- Nos últimos 40 anos, as grandes gravadoras entraram em parafuso, e hoje perderam muito do seu poder e do seu tamanho. Como você vê esse estado de coisas? Seria a vitória da música independente? Ou foi só incompetência deles mesmo?
Antonio Adolfo
– Foi uma modificação toda do mercado, assim como a tecnologia, a internet etc. Naquela época em que comecei, os meios de produção estavam nas mãos das gravadoras. Depois, a coisa foi mudando. Hoje com a internet, temos inúmeras possibilidades e os autoprodutores foram aumentando. As gravadoras, que ficaram paradas de certa forma, acabaram virando, ou distribuidoras ou empresárias de artistas. A produção delas é bem pequena se comparada à independente. Na verdade, eles não tinham como enfrentar essa avalanche da transformação. Você vê que a Internet, hoje em dia, está até penetrando mais do que a midia tradicional (rádio, TV, jornais impressos).

Mondo Pop- Você é um artista inquieto, sempre buscando novos projetos. Mesmo assim, pensa em fazer algo para comemorar esses 40 anos do Feito Em Casa? Hoje muitos artistas celebram essas efemérides com shows tocando o repertório do trabalho em questão na íntegra. Pensa em fazer isso eventualmente?
Antonio Adolfo
– Não penso em fazer mais do que aguardar um reconhecimento como o seu. Acho que se eu ficar recordando o passado, vou bloquear os novos lançamentos, que estão me dando o maior gás e força pra continuar produzindo e divulgando internacionalmente o meu trabalho.

Mondo Pop- Uma última curiosidade: esse Peninha que aparece nos créditos de músicos que participaram do álbum é aquele mesmo que depois integraria o Barão Vermelho e que nos deixou há alguns meses?
Antonio Adolfo
– Sim, havia ele, que gravava muito comigo quando eu fazia arranjos pra terceiros e o Ariovaldo Contesini também. Os dois na percussão.

Ouça Feito em Casa em streaming:

Antonio Adolfo relê o Wayne Shorter no ótimo CD Hybrido

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Por Fabian Chacur

Uma das vantagens de você ser o seu próprio patrão é criar pautas próprias sem depender de aprovação dos outros. Por isso, nesses 11 anos de Mondo Pop, pude me divertir escrevendo sobre artistas de que gosto muito. Mais: dando espaço a alguns deles, que nem sempre tem a atenção que merecem. Antônio Adolfo é um dos campeões de posts aqui. Se tiver alguma dúvida, confira neste link aqui e leia algumas das matérias publicadas no blog sobre ele.

Além de sua importância e currículo invejável no cenário da nossa música, Antonio Adolfo possui outra grande virtude: a vitalidade. Ele, que completou 70 anos no último dia 10 de fevereiro, continua mais ativo do que nunca, com constantes shows e lançamentos de novos álbuns. E cada novo disco vem com aquele rigor estilístico e com temáticas diferentes entre si e ao mesmo tempo pertinentes, tendo como regra o prazer e a paixão pela boa música popular.

Nem é preciso dizer que Hybrido- From Rio To Wayne Shorter, seu novo CD, não foge a esse alto parâmetro artístico. O músico carioca, desta vez, mergulhou na obra do genial saxofonista e compositor americano Wayne Shorter e trouxe de seu rico repertório oito composições, que receberam novos arranjos e foram tocados com swing, categoria e sentimento pelo músico e uma banda afiadíssima.

Além do próprio Antonio no piano e arranjos, temos em cena Lula Galvão (guitarra), Jorge Helder (contrabaixo), Rafael Barata (bateria e percussão), André Siqueira (percussão), Jessé Sadoc (trompete), Marcelo Martins (sax tenor e soprano e flauta) e Serginho Trombone (trombone). Zé Renato (vocais) e Claudio Spiewak (violão) fazem participação especial. Um timaço, conduzido com a competência habitual pelo dono da festa, que dá espaço para que todos brilhem.

Além das oito composições, escolhidas principalmente da produção de Shorter da década de 1960, temos também uma obra própria, Afosamba. A ideia foi mesclar as belas melodias e o teor jazzístico de maravilhas como Deluge, Footprints, Speak No Evil, Beauty And The Beast e E.S.P. com elementos da nossa música, e o resultado não poderia ser melhor, renovando clássicos sem os violentar.

Vale lembrar que Wayne Shorter, conhecido por seu trabalho com Miles Davis e por ter criado o influente e bem-sucedido grupo Weather Report, sempre foi um fã confesso da música popular brasileira, vide o álbum que gravou em 1974 em parceria com Milton Nascimento, Native Dancer, só para citar uma dessas colaborações. Aos 83 anos, ele dificilmente não se encantará ao ouvir novas versões tão quentes de suas composições. Mais um golaço de Antonio Adolfo, e mais um post sobre ele em Mondo Pop. Que venham muitos outros!

Viralata- Antonio Adolfo (álbum em streaming):

Antonio Adolfo mescla samba e jazz no CD Tropical Infinito

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Por Fabian Chacur

Na ativa desde a década de 1960, o pianista, produtor, compositor e arranjador Antonio Adolfo faz parte da elite da música desde sempre. No setor música instrumental, então, é daqueles que não erram uma. Para felicidade de quem segue sua brilhante carreira, a partir de 2005 ele engatou uma terceira marcha em termos de produtividade fonográfica, lançando desde então 10 CDs, sendo três deles em parceria com a filha, a ótima Carol Saboya. Seu novo álbum, Tropical Infinito, é outra aula de swing, bom gosto e criatividade.

Nada disposto a dormir sobre os louros do passado, Antonio Adolfo sempre traz novidades em seus trabalhos. Tropical Infinito tem como surpresa o uso de metais, algo que ele não fazia em sua discografia desde o álbum Viralata, lançado em 1979.

Participam do CD três craques dos sopros no Brasil. São eles Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Marcelo Martins (sax tenor e soprano) e Serginho Trombone (trombone). Eles somam forças com Leo Amuedo (guitarra), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria e percussão) e André Siqueira (percussão), além do dono da festa, no piano e arranjos. Um verdadeiro timaço, que entra em cena e goleia mesmo!

Como habitualmente, Adolfo improvisa e abre espaços para seus músicos improvisarem sem, no entanto, cair no mero tecnicismo ou em sonoridades excessivamente intrincadas que só façam sentido para os próprios músicos. Aqui, quem manda é a música, com cada melodia e cada harmonia sendo desenvolvidas com requinte e dando ao ouvinte um prazer absoluto em suas audições.

A entrada dos metais na mistura deu ao álbum uma sonoridade brejeira, meio de gafieira, com um forte tempero de samba, bossa nova e jazz. E o legal é que temos no repertório cinco clássicos do jazz, que ganharam novas roupagens que, sem roubar suas características essenciais, as renovaram: Killer Joe e Whisper Not (ambas de Benny Golson), Stolen Moments (Oliver Nelson), Song For My Father (Horace Silver) e All The Things You Are (Jerome Kern e Oscar Hammerstein).

Além dessas, quatro composições de Antonio Adolfo foram incluídas, duas inéditas (Yolanda Yolanda, homenagem à sua mãe, Yolanda Maurity, a primeira mulher violinista da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e Luar da Bahia) e duas já gravadas anteriormente (Cascavel, em 1979, e Partido Leve, em 1994). Elas se encaixaram feito luva no espírito deste novo trabalho do autor de Sá Marina.

Outro aspecto altamente elogiável dos CDs desse brihante músico carioca é o cuidado com a apresentação visual deles. Este novo traz novamente capa digipack dupla e um design impecável assinado por Julia Liberati, que aproveita com finesse as belíssimas ilustrações de Bruno Liberati. Tipo do combo “embalagem perfeita para conteúdo perfeito”. Coisa fina, como se dizia antigamente.

Quem encara música instrumental como “algo difícil de se ouvir” deveria ouvir urgente Tropical Infinito. Se depois dessa audição continuar com a mesma opinião. é de se lamentar até o fim dos tempos…

Killer Joe– Antonio Adolfo:

Yolanda Yolanda– Antonio Adolfo:

Song For My Father– Antonio Adolfo:

Carol Saboya esbanja classe e swing em seu álbum Carolina

carolina saboya cd-400xPor Fabian Chacur

Existe uma velha discussão entre os fãs de música quando o assunto é cantar. Para alguns, só vale aquele que tem o chamado vozeirão, que é adepto do “dó de peito”, com características quase operísticas. Para outros, o que vale é a sutileza, sem exageros e com requinte cirúrgico. Na verdade, não há fórmula, é aquela história daquele antigo comercial: existem mil maneiras de se preparar Neston, invente a sua. E Carol Saboya faz isso muito bem em seu CD Carolina.

Nascida no Rio de Janeiro, Carol Saboya começou a cantar aos oito anos de idade. Morou nos EUA de 1989 a 1991, participou do célebre CD Brasileiro, de Sergio Mendes, e gravou Dança da Voz, primeiro trabalho solo, em 1998. Desde então, lançou mais de dez álbuns, alguns deles nos EUA e Japão, além de fazer inúmeros shows. Dessa forma, aperfeiçoou o seu canto, tornando-se uma profissional de alto nível.

Carolina, o CD, traz dez composições alheias selecionadas pela artista de modo a apresentar um pouco de suas influências no cenário musical. O quadro é amplo, e abrange autores que vão de Pixinguinha a Sting, passando por Beatles, João Bosco, Edu Lobo, Tom Jobim, Djavan e Chico Buarque. A escolha é bem personalizada, com direito a Passarim, Fragile, Hello Goodbye, Avião e Zanzibar, entre outras. Bom gosto e fuga ao óbvio.

Dois fatos dão ao disco uma estrutura sólida em termos de criação e concretização, tornando-o impecável. Um é a capacidade interpretativa de Carol, que canta suave, sim, mas sem cair na monotonia, mostrando-se expressiva e sutil e aproveitando bem cada palavra das letras, ou no caso da fantástica Zanzibar (do genial Edu Lobo), valendo-se com classe dos vocalizes/scats da gravação original sem cair na imitação.

O outro ponto chave de Carolina, o CD, é o elenco escalado para acompanha-la. No piano e arranjos, temos o mestre Antônio Adolfo, que é pai da moça. Nas outras posições, os craques Marcelo Martins (sopros), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria) e André Siqueira (percussão), com participação especial de Claudio Spiewak na faixa Faltando Um Pedaço. Juntos, eles fazem uma sonoridade swingada, pura bossa jazz que proporciona a moldura perfeita para a voz de Carol.

A capacidade que Antônio Adolfo tem de mesclar a sofisticação e a acessibilidade sonora na sua forma de arranjar e tocar dão o tom ao disco. Mas de nada valeria se Carol não fosse uma intérprete tão capacitada e talentosa. Carolina (que é seu nome de batismo) é um trabalho que celebra a música brasileira e internacional sem cair na mesmice, prova de que em pleno 2016 há ainda muita coisa boa a se ouvir dessa fonte inesgotável chamada MPB.

Passarim– Carol Saboya:

Sá Marina – Carol Saboya e Antonio Adolfo:

Leve– Carol Saboya:

Antonio Adolfo une produção a enorme qualidade artística

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Por Fabian Chacur

Antonio Adolfo é um dos grandes nomes da história da música brasileira. Tecladista, arranjador, produtor, compositor, o cara mostra categoria em todas essas searas. Está na ativa há mais de 50 anos, e mantém o frescor dos tempos de iniciante, aliando a esse vigor as vantagens desses anos todos de experiência musical. E continua extremamente produtivo aos 68 anos de idade.

A prova fica por conta do número constante de lançamentos no formato CD que ele vem nos proporcionando nos últimos anos. Em 2013, lançou o incrível Finas Misturas (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Em 2014, foi a vez do álbum de piano solo O Piano de Antonio Adolfo (saiba mais sobre esse álbum aqui), outra maravilha sonora.

As mais recentes criações do mestre mantém o mesmo pique e qualidade. Rio, Choro, Jazz…, cujo subtítulo é A Tribute To Legendary Brazilian Pianist & Composer Ernesto Nazareth é uma bela homenagem a um dos pioneiros do chorinho, que para muitos é considerado uma espécie de jazz brasileiro. Adolfo vai fundo nessa fusão, e nos proporciona belas releituras de composições de Nazareth, em resultado muito bacana.

São 9 obras do mitológico Ernesto Nazareth, entre elas Brejeiro, Odeon (provavelmente a mais conhecida de todas), Feitiço, Coração Que Sente e Não Caio Noutra, além de uma faixa, a que dá nome ao CD, de autoria de Antonio Adolfo. Acompanhado por um quinteto afiadíssimo, ele renova essas músicas, sem no entanto deixar de lado a essência de cada uma delas. Uma homenagem e tanto.

O mais recente trabalho do músico nascido no Rio de Janeiro em 10 de fevereiro de 1947 intitula-se Tema, e inclui novas versões para composições lançadas originalmente por ele em diversos momentos de sua carreira, parcerias com Tibério Gaspar, Claudio Spiewak, Xico Chaves e também algumas individuais. Ele procurou incorporar novos elementos a cada uma das dez faixas, fazendo-se valer de seu bom gosto e da experiência conquistadas nesses anos todos.

O bacana é que, embora seja o álbum de um pianista, Antonio Adolfo oferece generosos espaços para que seus seis colegas de banda também brilhem. Aliás, a verdade é que os sete músicos envolvidos em Tema atuam juntos em prol da qualidade e concisão musical, sem se jogar em exibicionismos tolos que alguns músicos menos maduros costumam fazer. Aqui, a música é quem dá as cartas, dando ao ouvinte grandes momentos para curtir e viajar.

A sonoridade é ampla, com direito a ritmos nordestinos, bossa nova, samba, funk, jazz e o que mais vier. Alegria For All, São Paulo Express, Trem da Serra e Variations On a Tema Triste são destaques de um trabalho delicioso, que transcende os limites do rótulo “música instrumental” rumo a uma musicalidade intensa que fala mais do que mil palavras. Como diriam os gringos, Antonio Adolfo está no auge do seu jogo (“on the top of their game”). Que venham os próximos CDs, shows etc.

Teletema– Antonio Adolfo:

Feito em Casa- Antonio Adolfo (CD na íntegra em streaming):

Odeon– Antonio Adolfo:

Sá Marina (ao vivo)- Antonio Adolfo:

Deck lança série com CD de Antonio Adolfo

Por Fabian Chacur

O Piano de Antônio Adolfo, já disponível no formato digital e previsto para sair em termos físicos em maio, será o primeiro lançamento de uma nova série da Deck. A gravadora carioca comemorou 15 anos de existência em 2013, e aproveitou para ampliar e modernizar seus estúdios. De quebra, comprou um grand piano Yamaha direto do Japão, e é este instrumento que será usado por músicos convidados a gravar álbuns instrumentais pelo selo. E o nome escolhido para abrir a série é altamente elogiável.

Na ativa desde os anos 60, Antônio Adolfo é um pianista ao mesmo tempo refinado e com vários sucessos populares em seu currículo. Autor de maravilhas como Teletema, mergulhou no aprendizado formal e ganhou uma consistência artística que poucos possuem no Brasil. Lançou em 1977 o fantástico Feito em Casa (leia resenha aqui), pioneiro da cena independente no Brasil e um clássico da nossa música. Ele também tocou com grandes nomes da MPB e liderou o grupo A Brazuca.

Radicado nos EUA há um bom tempo, ele se mostra em fase bastante produtiva, tendo lançado recentemente um CD nada menos do que brilhante, Finas Misturas (leia resenha aqui), no qual o som fluente e criativo de seu piano atinge um patamar simplesmente arrebatador.

Neste trabalho feito para a Deck Disc, Antônio Adolfo nos mostra 14 releituras de músicas de sua autoria como Teletema e Chora Baião e também de clássicos de mestres como Tom Jobim e Vinícius de Moraes (Insensatez e A Felicidade), Jacob do Bandolim (Doce de Coco) e Pixinguinha e Benedito Lacerda (Ingênuo), entre outros. Um disco que nasce clássico.

Teletema, com Antônio Adolfo e A Brazuca:

Feito em Casa, de Antonio Adolfo, é relançado

Por Fabian Chacur

Feito em Casa, um dos discos mais importantes da história da MPB e um clássico do repertório de Antônio Adolfo, está sendo relançado no formato original no qual chegou ao mercado musical, em 1977, ou seja em vinil. O selo Polysom está disponibilizando o disco em vinil de 180 gramas, com qualidade de áudio e embalagem de primeira linha, como esse incrível álbum merece.

A importância de Feito em Casa vai além da qualidade musical, pelo fato de ter sido o primeiro trabalho do eventual cantor, mas atuante compositor, tecladista e maestro pela via independente. O sucesso de sua empreitada acabou animando outros artistas a explorar esse caminho, entre os quais o grupo Boca Livre, Paulinho Boca de Cantor, a vanguarda paulistana e muitos outros.

Com predominância instrumental, o álbum inclui uma faixa com vocais que fez sucessos nas rádios dedicadas à música brasileira na época, a belíssima Aonde Você Vai, cantada pelo próprio Adolfo com impecável registro vocal. Ele conta no álbum com participações especiais de músicos do alto gabarito de Jamil Joanes (baixo), Luizão Maia (baixo), Luiz Cláudio Ramos (violão e guitarra) e Chico Batera (bateria).

Outra participação bacana é a da cantora, compositora e violonista Joyce na faixa Acalanto, sendo que Dia de Paz foi composta em parceria com Jorge Mautner. Vale lembrar que, na época, nenhuma gravadora multinacional se dispôs a lançar esse trabalho de Antônio Adolfo, que resolveu então encarar a opção independente como forma de dar continuidade a uma carreira que já tinha colhido frutos bacanas.

Antes de lançar Feito Em Casa, Antônio Adolfo integrou o popular grupo A Brazuca, compôs sucessos como Sá Marina, BR-3 e Juliana e trabalhou com nomes do alto gabarito de Wilson Simonal, Elis Regina e Sérgio Mendes, entre muitos outros. Ele tem sólida formação musical, tendo estudado no Brasil e no exterior, o que lhe possibilitou refinar seu trabalho, sem no entanto cair no tecnicismo puro.

Mais ativo do que nunca, Adolfo lançou recentemente o fantástico álbum Finas Misturas (leia a crítica aqui), e tocou recentemente em São Paulo em julho (leia mais aqui), em apresentação única e gratuita. Ele continua morando no exterior, e desenvolve um prolífico trabalho educacional, além de continuar tocando ao vivo e gravando novos álbuns.

Ouça Aonde Você Vai, com Antônio Adolfo:

Antonio Adolfo fará show gratuito em SP

Por Fabian Chacur

Não é todo dia que um músico do gabarito de Antônio Adolfo toca em São Paulo. Ainda mais se a apresentação tem entrada gratuita. Pois o fato raro ocorrerá nesta sexta-feira (12) às 20h no Itaú Cultural (avenida Paulista, 149- fone 0xx11- 2168-1777). Os ingressos poderão ser retirados meia-hora antes do show, mas recomenda-se chegar antes.

A visita desse consagrado compositor, arranjador e tecladista deve-se ao fato do lançamento de seu mais recente CD, o excelente Finas Misturas (leia crítica aqui). Nele, temos a mistura de temas próprios e clássicos do jazz, em somatória inspirada e bem concatenada.

Além de Adolfo nos teclados, teremos no palco os experientes e talentosos Jorge Helder (baixo), Leo Amuedo (guitarra) e Rafael Barata (bateria), com a participação especial do saxofonista Mauro Senise, outra “cobra criada”. O repertório trará faixas do novo álbum e outras de seus mais de 40 anos de carreira.

Antônio Adolfo tornou-se conhecido inicialmente como líder do grupo A Brazuca e autor de sucessos como Sá Marina, Juliana e Teletema, gravados e interpretados ao vivo por nomes como Wilson Simonal, Ivete Sangalo, Stevie Wonder e inúmeros outros.

Sua carreira solo inclui clássicos como o álbum Feito Em Casa (1977), um dos pioneiros da produção independente no Brasil e incluindo faixas marcantes como Aonde Você Vai e a faixa título. Ele está morando nos EUA há seis anos, onde tem uma escola de música.

Ouça Aonde Você Vai, com Antônio Adolfo:

Ouça Feito Em Casa, com Antônio Adolfo:

Antonio Adolfo cativa com Finas Misturas

Por Fabian Chacur

Antônio Adolfo é um dos grandes nomes da história da música brasileira. Como músico, arranjador, maestro, compositor, produtor e intérprete, entre outras atribuições, ele desde os anos 60 nos proporciona grandes obras. Finas Misturas, CD lançado pelo seu selo AAM Music e distribuído no Brasil pela SaladeSom Records, acrescenta novos elementos a um universo sonoro sempre rico e delicioso de se ouvir.

Na primeira fase de sua carreira, Adolfo tocou piano em grupos como o Trio 3-D, Samba a Cinco e A Brazuca, emplacando canções clássicas da MPB e bastante regravadas como Sá Marina, BR-3 e Juliana, entre outras, tendo como frequente parceiro o letrista Tibério Gaspar. Como forma de se aperfeiçoar, ele saiu do Brasil para estudar música nos anos 70.

Ao voltar, as gravadoras simplesmete o ignoraram, e o músico carioca resolveu apostar numa opção até então considerada maluca por muitos: a produção independente. Com o excelente álbum Feito Em Casa (1977), não só teve sucesso artístico e comercial como abriu as portas para a produção independente no Brasil, que rende belos frutos até hoje.

Em meados dos anos 80, passou a se dedicar a projetos educacionais na área musical, criando o Centro Musical Antônio Adolfo e lançando vários livros com esse intuito educativo. Mas nunca descuidou de seu lado artístico, gravando de tempos em tempos discos sempre pautados por uma excelência em termos técnicos e criativos.

Finas Misturas traz como mote um excitante diálogo entre o jazz e os ritmos brasileiros, com quatro composições de Adolfo e seis de nomes seminais do jazz como John Coltrane, Keith Jarrett, Bill Evans e Dizzy Gillespie. A quebra de barreiras, por sinal, sempre marcou o trabalho do pianista, que foge dos rótulos como o diabo da cruz.

O resultado é um álbum no qual fica difícil detectar onde está o jazz ou onde se encontra a música brasileira, pois a fusão deu uma liga simplesmente deliciosa e indivisível. Falando de forma mais direta, aqui não temos nem música brasileira, nem música americana, e sim música do mundo, do universo, da galáxia. Música da boa.

O bacana de Antônio Adolfo é que ele consegue ser um músico e compositor altamente sofisticado sem cair no tecnicismo, na chamada “música para músicos”, na qual harmonizações complicadas e solos intrincados só são mesmo apreciados pelos profissionais do ramo. Esse genial músico brasileiro consegue ser requintado sem deixar de ser acessível.

Esse fantástico Finas Misturas trará prazer tanto ao fã de música inventiva e criativa como àquele ouvinte humilde e sem conhecimento técnico que deseja apenas curtir música instrumental cativante, delicada, melódica e boa de se ouvir. Coisa difícil de se fazer, que só mesmo mestres como Antônio Adolfo tem a manha de tornar realidade.

Veja entrevista de Antônio Adolfo e trechos de Finas Misturas:

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