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Tag: bittersweet rock

Yusuf/Cat Stevens cativa com o álbum The Laughing Apple

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Por Fabian Chacur

Cat Stevens iniciou sua carreira discográfica em 1967. Naquele mesmo período, no qual comemorou 19 anos de idade, ele lançou seus primeiros álbuns, Matthew & Son (março) e New Masters (dezembro). Muita coisa mudou desde então, incluindo o seu nome, que passou a ser Yusuf Islam, devido à sua conversão ao islamismo. Mas o talento musical se manteve firme, como prova seu novo CD, The Laughing Apple (Universal Music).

Na verdade, o novo trabalho deste genial cantor, compositor e músico britânico equivale a uma mistura entre o passado e o presente. Quatro faixas- I’m So Sleepy, Northern Wind (Death Of Billy The Kid), The Laughing Apple e Blackness Of The Night foram lançadas no LP New Masters, mas o autor nunca gostou do resultado rebuscado e recheado de sons orquestrais impostos pelo produtor Mike Hurst. Elas reaparecem aqui em novas gravações nas quais os arranjos são mais delicados e minimalistas, com um resultado muito melhor.

Outra faixa reciclada é Grandsons, lançada na coletânea The Very Best Of Cat Stevens (2000) com o título I’ve Got a Thing About Seeing My Grandson Grow Old e letra diferente. O resgate dessas canções explica o porque, pela primeira vez em sua carreira, o artista credita um álbum simultaneamente a Yusuf/Cat Stevens, pois as outras seis canções são da safra atual. Vale lembrar que ele ficou longe da música pop do fim dos anos 1970 até 2006, quando retornou com o excelente An Other Cup.

A sonoridade de The Laughing Apple remete à fase de maior repercussão da obra de Stevens/Yusuf, ocorrida na primeira metade da década de 1970. Não por acaso, o coprodutor do novo CD é o mesmo Paul Samwell-Smith daqueles tempos, assim como o guitarrista Alun Davies marca presença com sua forma marcante de tocar. O entrosamento entre eles continua impecável, assim como o deles com os outros músicos presentes no álbum.

Grave e doce como de praxe, a voz do artista conduz belas canções que misturam folk ocidental e oriental de várias épocas a pop e a um bocadinho de rock. Conciso, o conteúdo do álbum é passível de ser apreciado pelo ouvinte de forma tranquila e estimulante, sem cair em um possível clima modorrento típico de alguns artistas ditos folk atuais.

As canções de épocas diferentes se integraram de forma muito boa, sendo que dificilmente o leigo seria capaz de dizer quais são as dos anos 1960 e quais foram criadas neste século. See What Love Did To Me, You Can Do (Whatever), Don’t Blame Them e Blackness Of The Night são pontos altos de um trabalho no qual requinte, doçura e simplicidade convivem de forma harmoniosa e inspirada.

Esse belo conteúdo musical vem em uma embalagem (no formato CD, o analisado para esta resenha) simplesmente maravilhosa, prova de que o formato físico ainda se mostra muito mais completo para o apreciador da arte musical como um todo.

Com preciosos desenhos a cargo do próprio Yusuf, a capa digipack traz embutido encarte com as letras, ilustrações para cada canção e ficha técnica completa de cada faixa. The Laughing Apple equivale a uma viagem sensorial rumo a uma era de paz, sonho e encanto que talvez só exista nos cinzentos dias atuais durante a audição atenta de maravilhas como este CD. Menos mal. Sonhar é preciso.

You Can Do (Whatever)!– Yusuf/Cat Stevens:

Karla Bonoff, uma artista que você precisa conhecer agora

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Por Fabian Chacur

Em 1977, uma jovem cantora, compositora e musicista americana chamada Karla Bonoff lançava o seu autointitulado álbum de estreia pela gravadora Columbia. Quatro décadas após, esse álbum continua não só soando maravilhosamente belo, como prossegue aguardando um maior reconhecimento por parte de crítica e, especialmente, de público. Então, como forma de celebrar esses 40 anos, vamos mergulhar de cabeça na carreira desta incrível artista.

A forma como descobri Karla foi típica de quem trabalha como crítico musical e é curioso. Lá pelos idos de 1999, entrevistei um trio country brasileiro dos mais competentes, o West Rocky. No disco de estreia deles, Me Faz Bem (1998), o destaque era a deliciosa Quando o Amor se Vai, versão em português de Tell Me Why, música escrita exatamente por miss Bonoff, que até então eu não tinha nem ideia de quem era.

Algumas semanas depois da entrevista, estava em uma loja de CDs situada no Shopping Eldorado, em São Paulo, e dei de cara com o CD All My Life- The Best Of Karla Bonoff. Como sou curioso, ávido comprador de discos e estava com dinheiro, comprei esse álbum cuja capa trazia aquela bela moça de olhar tímido e cabelos escuros.

Logo ao ouvir a primeira faixa dessa excepcional coletânea, quase caí de costas. Lay Down Beside Me é sem medo de errar uma balada rock avassaladora. Com letra que toca no tema da solidão de forma emotiva, traz uma melodia encantadora, em tom menor, um clima introspectivo e uma interpretação de arrepiar de Karla, com direito a certeiras intervenções de guitarra. Tipo da música perfeita, um clássico óbvio que também abre o álbum de estreia de Karla.

Nesse seu primeiro LP solo, Karla Bonoff contou com a participação de músicos do primeiríssimo escalão do chamado bittersweet rock, ou soft rock, aquele estilo musical surgido no finalzinho dos anos 1960 que somava elementos de rock, country e folk com letras emotivas, introspectivas e confessionais e que teve em James Taylor, Carole King, Crosby, Stills & Nash e Cat Stevens alguns de seus nomes seminais.

Karla Bonoff (o álbum) apresenta ao mundo uma cantora de bela voz, uma instrumentista extremamente competente e uma compositora iluminada. Além da já citada Lay Down Beside Me, o álbum nos traz pérolas sonoras como a envolvente balada country em andamento de valsa Home, o rockão I Can’t Hold On, a balançada Isn’t It Always Love e a tocante Lose Again, só para citar algumas.

Era um álbum que permitia ao ouvinte mais atento notar que sua autora não estava estreando com tanta competência do nada. Fica claro, ao ouvi-lo, que tínhamos ali o fruto de anos anteriores de trabalho, mesmo sendo Karla ainda bastante jovem. E é exatamente este antes, e também o depois da carreira dela que vamos contar daqui pra frente. Com direito à entrada em cena de muitos nomes conhecidos da música, trilhas de filme etc. Vamos lá!

Dupla com a irmã, um grupo, Linda Ronstadt…

Nascida em 27 de dezembro de 1951, Karla Bonoff iniciou de fato sua carreira musical ao formar uma dupla com a irmã, Lisa, intitulada The Daughters Of Chester P.(as filhas de Chester P.), uma homenagem ao pai. Elas tiveram a oportunidade de gravar uma demo para a Elektra Records no final dos anos 1960 com a produção de Bruce Botnick, que trabalhou com os Doors, mas a gravadora não as contratou, e Lisa preferiu seguir carreira como professora.

Karla seguiu adiante, e virou presença constante no Troubador, mitológico barzinho de Los Angeles nos quais nomes como James Taylor, Jackson Browne, Elton John e os músicos que depois formariam os Eagles eram figuras constantes. Por lá, a moça fez amizade com o músico Kenny Edwards, integrante da Stone Poneys, banda da qual também fazia parte a cantora Linda Ronstadt. Com o fim desse grupo, eles começaram uma parceria musical que duraria mais de 40 anos.

Com o acréscimo de Andrew Gold e Wendy Waldman, Karla e Edwards criaram a Bryndle. Essa banda gravou um álbum para a A&M Records no início dos anos 1970, mas novamente nossa heroína não deu sorte, pois o disco nunca foi lançado, o que levou os integrantes do grupo a partirem para seus próprios projetos. Eles, no entanto, nunca se distanciariam, sempre participando uns dos discos/shows dos outros, deixando no ar a possibilidade de um dia voltarem.

Kenny Edwards foi convidado a integrar a banda de apoio da ex-colega de Stone Poneys, Linda Ronstadt, que se tornou uma estrela da cena country rock. Um dia, Karla teve a chance de mostrar canções para Ronstadt, e um ano depois disso, mais precisamente em 1976, nada menos do que três músicas da compositora entraram no álbum Hasten Down the Wind: Someone To Lay Down Beside Me, Lose Again e If He’s Never Near, com direito a participação de Karla fazendo backing vocals.

A qualidade das músicas rendeu o contrato com a Columbia. Após o primeiro álbum, que teve repercussão mediana, apesar de sua alta qualidade, ela lançou em 1979 Restless Hearts, outro LP belíssimo com direito a baladas doloridas como Restless Nights, rocks como Baby Don’t Go e dois momentos bacanas para o currículo: When You Walk In The Room, grande sucesso em 1963 de e com Jackie De Shannon (que de quebra participou dessa releitura), e The Water Is Wide, hit do Kingston Trio com participação nos vocais e violão de James Taylor.

Como a repercussão do álbum anterior foi respeitável (nº 31 nos EUA), tivemos em 1982 o terceiro trabalho dela, Wild Heart Of The Young, que traz como destaques a maravilhosa balada que lhe dá o nome e Personally, obscura canção de r&b regravada por ela que acabou se tornando, ironicamente, o maior sucesso de sua carreira solo, atingindo o posto de nº 19 na parada de singles da Billboard.

O quarto álbum de Karla, New World, chegou às lojas em 1988 e tem em seu repertório as encantadoras Tell Me Why, All My Life e Goodbye My Friend. Seria o último trabalho solo de estúdio dela até o momento (2017), que depois lançaria apenas o excelente CD duplo ao vivo Live (2007). Antes, tivemos a coletânea All My Life- The Best Of Karla Bonoff (1999), melhor iniciação para a sua obra.

Compositora regravada por grandes nomes da música

Expressiva representante da ala singer-songwritter (cantautori, em italiano) do universo pop, ou seja, aqueles artistas que gravam com mais frequência as suas próprias canções, Karla Bonoff no entanto também é bastante conhecida por ter seu repertório relido por grandes nomes da música. Linda Ronstadt abriu essa porteira em 1976, como já dissemos anteriormente. E não foi só isso.

Em 1989, no seu álbum Cry Like a Rainstorm, Howl Like the Wind, Linda voltou a recorrer ao songbook da amiga, e gravou de uma só vez All My Life, Trouble Again e Goodbye My Friend. Além de o álbum ter vendido muito, All My Life, que teve a participação do cantor Aaron Neville, rendeu a Linda Ronstadt um troféu Grammy.

Bonnie Raitt, aclamada cantora, compositora e guitarrista americana, fez belíssima gravação de Home no álbum Sweet Forgiveness (1977). Em 1979, foi a vez de a cantora country Lynn Anderson (famosa pelo megahit Rose Garden, que fez sucesso no Brasil na versão Mar de Rosas, com os Fevers) recorrer a uma canção da Karlinha, a sacudida Isn’t It Always Love, do seu álbum Outlaw Is Just a State Of Mind.

E tem também Tell Me Why. Em 1993, a estrela country Wynonna Judd, ex-integrante do duo The Judds e irmã da atriz Ashley Judd, resolveu regravar essa canção, só que seus músicos não conseguiam reproduzir o arranjo da gravação original. Aí, surgiu a ideia de convidar a própria Karla, que tocou o violão e fez backing vocals nessa releitura, um grande hit country naquele ano, integrante do álbum Tell Me Why, de Judd.

Uma curiosidade: foi exatamente essa regravação de Wynonna que levou o grupo brasileiro West Rocky a fazer a sua versão. Eles nem tinham ideia de quem era Karla Bonoff, e, no entanto, por tabela foram os responsáveis por eu ter descoberto essa artista maravilhosa. Vale registrar que, em 2006 e 2013, a dupla sertaneja Guto & Nando também releu Quando o Amor Se Vai (Tell Me Why), respectivamente em um CD de estúdio e em um DVD ao vivo.

A segunda chance do Bryndle enfim chegou

A história do Bryndle aparentemente seria a de uma espécie de grupo que foi sem nunca ter sido, em razão do melancólico fim de seu contrato com a gravadora A&M. Isso, embora seus integrantes sempre tenham se mantido próximos um dos outros. Kenny Edwards, por exemplo, foi o produtor de vários dos discos de Karla, enquanto Andrew Gold e Wendy Waldman participaram deles.

No entanto, o tempo acabou dando uma nova chance aos amigos, que se reuniram novamente com o objetivo de reativar a banda no inicio dos anos 1990. Desta vez, o projeto se mostrou plenamente vitorioso, pois rendeu dois álbuns, Brindle (1995) e House Of Silence (2002), além de inúmeros shows e aparições em programas de TV.

Infelizmente, tudo acabou com as mortes de Kenny Edwards em 2010 e Andrew Gold em 2011. Desde então, Karla continuou na estrada fazendo shows solo, dando uma geral em seu repertório de hits. Alguns deles são em parceria com Livingston Taylor, irmão de James Taylor.

Duetos e participações em trilhas de filmes

Acho que a história de Karla Bonoff tinha acabado por aqui? Doce ilusão! Chegou a hora de dar uma geral nos duetos e participações em trilhas de filmes. E tem muita coisa boa. Em 1983, por exemplo, ela participou do segundo CD de Christopher Cross, Another Page, fazendo um dueto com ele em What Am I Supposed To Believe.

Em 1996, ela gravou junto com a consagrada banda country Dirt Band a música You Believed In Me, que entrou no álbum feito em homenagem aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. J.D. Souther, seu contemporâneo dos tempos de Troubadour e grande nome do soft rock dos anos 1970, gravou em dueto com ela Step By Step, incluída em 1986 na trilha do filme About Last Night.

E já que entramos no tópico trilhas sonoras, temos outro dueto bacana feito com o astro country Vince Gill, When Will I Be Loved, incluída na trilha do filme 8 Seconds, que por sinal também traz outra canção interpretada por Karla, Standing Right Next To Me.

A gravação feita especialmente para filmes que provavelmente mais lhe rendeu deve ter sido a da canção Somebody’s Eyes, integrante da trilha de Footloose, álbum que permaneceu 10 semanas no topo da parada americana e vendeu milhões de cópias mundo afora, impulsionado pela faixa-título, interpretada por Kenny Loggins.

Para os fãs de músicos, vai aí uma pequena relação dos craques da música que participaram dos álbuns de estúdio de Karla Bonoff: Waddy Watchel, Leland Sklar, Dan Dugmore, Russel Kunkel, Rick Marotta, Danny Kortchmar, Don Henley, Victor Feldman, Bill Payne, Timothy B. Schmidt, Garth Hudson, Peter Frampton e Glenn Frey.

Bem, se você chegou até aqui, não deixe de ouvir o trabalho de Karla Bonoff, que está disponível nas melhores plataformas digitais disponíveis na rede, e em selecionadíssimas lojas de CDs e LPs. Duvido que quem tiver um ouvido apurado e curtir música pop de qualidade não acabe se apaixonando pela obra desta brilhante artista. Comece como eu, por essa música que eu postei abaixo. Boa viagem sonora:

Someone To Lay Down Beside Me– Karla Bonoff:

Yusuf/Cat Stevens lança o seu novo single e anuncia álbum

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Por Fabian Chacur

Yusuf, que fez sua fama nos anos 1960 e 1970 como Cat Stevens, acaba de colocar na rede um novo single. Trata-se da delicada e belíssima See What Love Did To Me, primeira faixa lançada por ele desde o álbum Tell Me I’m Gone (2014). A canção integra o álbum The Laughing Apple, que está previsto para chegar às lojas físicas e virtuais no dia 15 de setembro, fruto de uma parceria do selo Cat-O-log, do artista, com a Decca/Universal Music.

The Laughing Apple será o quatro álbum lançado pelo cantor, compositor e músico britânico desde que voltou ao mundo da música pop, abandonado por ele em 1979 devido a sua conversão ao islamismo. O retorno se deu com An Other Cup (2006), e depois vieram Roadsinger (2009) e Tell Me I’m Gone (2014), que mostraram um artista inspirado e em plena forma, como se nunca tivesse nos abandonado.

Com 11 faixas, o álbum mescla canções compostas há pouco tempo, como a já divulgada, Don’t Blame Me e Olive Hill, com quatro composições antigas que ele nunca havia gravado e quatro releituras de faixas de seu segundo álbum, New Masters(1967), que está completando 50 anos. A produção ficou a cargo de Paul Samwell-Smith, ex-baixista dos Yardbirds que produziu discos célebres do astro nos tempos de Cat Stevens, entre eles Tea For The Tillerman e Teaser And The Firecat.

See What Love Did To Me-Yusuf:

Carole King: 75 anos de ótima e brilhante trajetória musical

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Por Fabian Chacur

A primeira vez que ouvi a voz de Carole King na vida foi provavelmente quando It’s Too Late tocou muito nas rádios brasileiras, lá pelos idos de 1971. Mas o contato mais próximo ocorreu em 1973, quando meu saudoso irmão Victor comprou um compacto simples dela, trazendo as músicas Corazón de um lado e Believe in Humanity do outro. Pronto. Não parava mais de tocar aquele raio daquele disco. Ela ganhava mais um fã, entre os seus milhares (milhões?) em todo o mundo.

Miss King chega aos 75 anos nesta quinta-feira (9) como um dos grandes marcos da presença feminina na história do rock e da música pop. Essa cantora, compositora e pianista americana nasceu no dia 9 de fevereiro de 1942, e iniciou sua trajetória musical ainda adolescente. Nessa época, era amiga de dois jovens e ainda desconhecidos músicos, Paul Simon e Neil Sedaka. Este último não só teve um namorico com ela, como também compôs o hit Oh! Carol em sua homenagem.

Nessa época (fim dos anos 1950), era bastante comum o que se denominou de “canções-resposta”, ou seja, uma música respondendo à temática de outra, e Carole King gravou sua estreia como intérprete em 1959, com Oh! Neil. Na mesma época, conheceu o letrista Gerry Goffin, que se tornou não só seu parceiro de composições como de vida, mesmo. Eles ficaram casados entre 1959 e 1968.

Em termos musicais, Goffin & King virou uma verdadeira grife pop, assinando hits como Up On The Roof, The Loco-Motion, Chains, Will You Love Me Tomorrow, One Fine Day, Going Back, Pleasant Valley Sunday e (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, gravadas por artistas do porte de Aretha Franklin, Beatles, The Drifters, The Monkees, The Byrds e inúmeros outros. De tanto ouvir elogios à sua voz nas demos que enviava aos artistas que gravavam suas composições, a moça resolveu dar a cara para bater e assumir uma carreira como intérprete.

Em 1968, seu casamento com Gerry Goffin se acabou, e ela criou ao lado dos músicos Charles Larkey (com que se casou a seguir) e Danny Kortchmar a banda The City, que lançou em 1968 um excelente e pouco ouvido álbum, Now That Everything’s Been Said. Em 1970, saía o ótimo Writer, 1º álbum solo, do qual participou um amigo recente que se tornou outro parceiro bacana, ninguém menos do que James Taylor.

Em 1971m essa parceria renderia belos frutos aos dois músicos. James Taylor se tornaria o verdadeiro astro maior do chamado bittersweet rock com o estouro do álbum Mud Slide Slim And The Blue Horizon, cuja faixa de maior sucesso, You’ve Got a Friend, é uma composição de Carole King, que participa do álbum. Por sua vez, a descendente de judeus enfim conseguiu um sucesso à altura de seu imenso talento, com o estouro de Tapestry.

Considerado um dos melhores discos de todos os tempos independente de gênero musical, Tapestry é uma verdadeira aula de música pop, com fortes doses de soul music, rock, folk, latinidade e country, com direito a belas melodias, letras confessionais e uma voz simplesmente deliciosa. Empurrado pelo incrível single It’s Too Late, dolorido retrato de uma separação entre um casal, o disco chegou ao topo da parada americana.

A partir daí, a carreira-solo de Carole King se tornou imensa, com direito a mais dois álbuns no topo da parada americana (Music, no mesmo 1971, e Wrap Around Joy, em 1974) e hits deliciosos como Jazzman, Corazón, Believe in Humanity e inúmeros outros.

A partir da década de 1980, sua produção discográfica tornou-se um pouco mais esparsa e sem o sucesso comercial de antes, mas a qualidade não caiu, vide os ótimos City Streets (1988) e Colour Of Your Dreams (1993), este último com direito a participação especial de Slash, do Guns N’ Roses, e o hit Now And Forever.

Em 1990, por sinal, Carole King esteve no Brasil pela primeira e por enquanto única vez para shows, tendo se apresentado em São Paulo no extinto Olympia. Não estive no show, mas participei da entrevista coletiva com ela, que se mostrou de uma simpatia impressionante. A ponto de ter tido uma reação bem-humorada a um jornalista desinformado que lhe perguntou sobre o seu “casamento” com James Taylor. “A Carly Simon chegou antes”, brincou.

Na ativa de forma tranquila desde então, ela voltou ao topo das paradas em 2010, quando lançou um histórico álbum gravado ao vivo com James Taylor, Live At The Troubadour (também disponível em DVD), que chegou ao quarto lugar na parada americana e os mostrou de volta ao histórico palco do Troubador, em Los Angeles, onde tocaram no início dos anos 70, pouco antes de estourarem.

Sem exageros ou radicalismos, Carole King teve presença atuante e decisiva na abertura de maiores espaços para as mulheres no universo do rock, abrindo as portas para inúmeras colegas que vieram depois. As belas canções que compôs fazem parte do songbook da música pop, que será relido eternamente. Afinal, o que é bom, é para sempre!!!

Corazón- Carole King:

Before This World mostra um James Taylor bem inspirado

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Por Fabian Chacur

James Taylor é o que se pode chamar de um estilista da canção. Ótimo violonista e cantor de voz deliciosa, o astro americano prima pelo capricho e pela inspiração em seus trabalhos. Tanto que não é de lançar disco toda hora. Before This World, seu novo CD, é o primeiro de inéditas desde October Road (2002), e sua estreia no número 1 da parada de álbuns nos EUA (leia mais aqui). Discaço!

Nesses 13 anos sem canções novas, Taylor nos proporcionou um disco natalino (A Christmas Album-2004), um ao vivo (One Man Band-2007), um de covers (Covers-2008) e o histórico ao vivo Live At Troubadour (2010-leia crítica aqui ), este último em dupla com a amiga Carole King. Ou seja, continuou fazendo coisas boas e trabalhando bastante.

Esse retorno às inéditas não poderia ter sido mais legal. No encarte que acompanha o CD, lançado no Brasil pela Universal Music, ele afirma que até tirou um tempo especialmente para compor, algo que já não fazia há algum tempo. De quebra, montou uma banda com ótimos músicos, entre os quais o guitarrista Michael Landau, o percussionista Luis Conte e o baterista Steve Gadd, feras do primeiro escalão da música pop.

Não há arestas aqui a serem aparadas. Temos dez músicas, todas muito boas. Sting marca presença na belíssima faixa título, da qual também participa o músico Yo-Yo Ma (que também toca na balada You And I Again). O repertório é um mergulho no universo habitual de Taylor, com direito a folk, country, rock e pitadas de pop e jazz aqui e ali.

Today Today Today tem aquela levada folk pra cima que marca hits como Your Smiling Face, enquanto Stretch Of The Highway equivale a um rock manso. Watchin’ Over Me é um rock de acento country com refrão expressivo, e Angels Of Fenway possui um tempero gospel delicioso. As evocativas Montana e Showtime são cativantes, assim como Far Afghanistan, momento mais politicamente engajado do trabalho.

Before This World é um trabalho de um artista fiel a seus caminhos musicais, que no entanto não cai em repetições. Suas sutilezas vão aparecendo a cada nova audição, e certamente deliciarão seus milhões de fãs mundo afora. Aos 67 anos, James Taylor se mostra inspirado, lúcido e capaz de nos oferece novas e belas canções.

Before This World– James Taylor (ouça em streaming):

Greatest Hits- Seals & Crofts (1975-Warner)

Por Fabian Chacur

Ah, o ano de 1972! Trata-se de uma época mágica para mim, quando tinha dez anos de idade (completei onze em setembro) e comecei a comprar discos, especialmente compactos singles, aqueles com uma música de cada lado. Um deles incluia as músicas Summer Breeze de um lado e East Of Ginger Trees do outro.

Summer Breeze colocou pela primeira vez nas paradas de sucesso do mundo a dupla Seals & Crofts. Seus integrantes, no entanto, já haviam rodado muito até então. James Seals (vocais, violão, guitarra, violino, sax) nasceu em 1941, enquanto Dash Crofts é um ano mais velho. Eles se conheceram crianças, e começaram a tocar em 1958.

Até os idos de 1965, integraram a banda The Champs, que estourou meses antes de eles entrarem a bordo, com a célebre instrumental Tequila.. Em 1966, após muitas idas e vindas, criaram o grupo Dawnbreakers ao lado do guitarrista Louie Shelton. A banda, no entanto, acabou em 1970. Seals e Crofts resolveram continuar, agora como duo.

Shelton se tornou produtor e assumiu essa função nos discos do duo. Dois discos foram lançados por um selo independente e pouco venderam, mas a consistência de seu trabalho atraiu as atenções da gravadora Warner, que os contratou. No início de 1972, o álbum Year Of Sunday chegou às lojas, mas também patinou nas vendas.

Felizmente os executivos da Warner continuaram acreditando em seus contratados, e naquele mesmo 1972, Summer Breeze quebrou a zica dos músicos oriundos do estado do Texas. Com sua melodia marcante, letra evocativa e romântica e arranjo com forte teor acústico, a canção os inseriu no cenário do bittersweet rock de James Taylor.

Com vocalizações marcantes e um coquetel sonoro composto por folk, country,rock e pop muito bem arquitetado, Seals & Crofts continuariam emplacando outros sucessos bacanas, entre os quais Diamond Girl, We May Never Pass This Way (Again), When I Meet Them, Ruby Jean And Billie Lee. Em 1975, chegou às lojas a coletânea Greatest Hits, com 10 faixas e um bom resumo de sua era de ouro.

Greatest Hits é daqueles álbuns que você pode ouvir de ponta a ponta sem susto, e serve como bom resumo do bittersweet rock melódico e repleto de mensagens positivas, algumas oriundas da filosofia oriental Baha’i seguida pelos amigos e de cuja “bíblia” foram extraídas algumas das inspirações de suas letras. Hipongas, sim, mas com consistência.

Até o fim dos anos 70, o duo emplacou outros hits, como Get Closer, e até flertou com a disco music. A partir de 1980, quando lançaram The Longest Road (com participações especiais de Stanley Clarke e Chick Corea), James Seal se tornou compositor e artista country, enquanto Dash Crofts deu uma sumida. Nos anos 90, eles fizeram shows com a banda australiana de soft-folk-country rock Little River Band. Mas suas músicas continuam emocionando.

Summer Breeze, com Seals & Crofts:

We May Never Pass This Way (Again), com Seals & Crofts:

Diamond Girl (Live), com Seals & Crofts:

When I Meet Them Diamond Girl Ruby Jean And Billie Lee – Seals & Crofts:

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