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Bruno Gouveia relata com classe a trajetória do Biquini Cavadão

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Por Fabian Chacur

Em 1985, quando tinha apenas 19 anos, Bruno Gouveia se tornou conhecido nacionalmente como vocalista do Biquini Cavadão, graças ao estouro das músicas Tédio e No Mundo da Lua. Desde então, conseguiu consolidar uma carreira com vários altos e baixos em termos profissionais, mas sempre mantida com muita dignidade e qualidade artística. Essa belíssima trajetória profissional e pessoal é o mote de É Impossível Esquecer o Que Vivi (Chiado Publishers), belíssimo autobiografia na qual o artista nascido em Ituiutaba (MG) e radicado há muito no Rio de Janeiro dá uma geral no que realizou nesses anos todos, de forma franca e sem rodeios.

A trajetória de Bruno se mostra das mais interessantes pelo fato de ter se desenvolvido em um período de muitas mudanças na história da indústria fonográfica no Brasil. Seu grande mérito é relatar com riqueza de detalhes e muitas informações preciosas de bastidores como se deram essas alterações todas, desde o auge do rock brasileiro dos anos 1980 e dos discos de vinil até a atual fase do streaming, passando por CD, mp3, redes sociais, plataformas digitais, internet e muito, mas muito mais mesmo.

O artista se mostra um observador astuto de tudo o que vivenciou, e proporciona um grande volume de material que surpreenderá até mesmo seus contemporâneos de geração ou mesmo mais velhos do que ele, além de servir como um testemunho dos mais importantes para o pessoal que tenha de 30 anos para menos. Garanto que alguns ficarão não só estupefatos com algumas passagens como também possivelmente duvidarão de sua realidade. Como vivi esses anos todos, posso lhes afiançar: é tudo verdade…

Nome atrapalhou um pouco a trajetória do grupo

Devido a seu nome desencanado, batismo feito pelo amigo e incentivador Herbert Vianna, o grupo nem sempre mereceu o devido respeito por parte da crítica e de segmentos do público. Mas basta analisar de forma isenta sua obra para se verificar que o Biquini Cavadão faz parte daquele seleto grupo de bandas que se firmaram e permanecem ativas e relevantes graças ao talento e à perseverança de seus quatro integrantes: Bruno e os fiéis parceiros Carlos Coelho, Miguel Flores e Álvaro Birita.

E olha que Bruno e sua turma passaram por muitas e não tão boas nesses quase 35 anos de trajetória discográfica. As idas e vindas com as gravadoras trazem momentos dignos de tortura chinesa, daqueles de desanimar o mais otimista dos seres humanos. No entanto, os rapazes sempre souberam dar a volta por cima, mesmo em momentos absurdamente difíceis como o da demissão do único integrante da formação clássica que não permaneceu, o baixista Sheik.

Pra rir, chorar, se indignar…

Com um texto fluente e muito bom de se ler, Bruno ainda teve uma ideia das melhores: acrescentou em momentos importantes do livro depoimentos entre aspas de alguns dos envolvidos nas questões, proporcionando ao leitor uma visão mais abrangente de cada situação e permitindo-nos tirar conclusões mais precisas de cada situação. Apenas Sheik não aceitou dar depoimentos, mas ainda assim sua importância para a banda não é rejeitada ou posta de lado.

O gostoso de É Impossível Esquecer o Que Vivi é o fato de que lê-lo nos proporciona as mais diversas emoções. Rir das trapalhadas de Carlos Coelho, por exemplo, ou das histórias de estrada da banda. Indignação com algumas rasteiras que as gravadoras (suas diretorias em cada época, para ser mais preciso) deram neles, muitas vezes geradas por jogos de ego absolutamente odiosos. Alegria ao ver a banda superar grandes obstáculos.

E tem também a delicadeza com que Bruno nos revela o momento mais difícil de sua vida até o momento, que foi perder seu primeiro filho, Gabriel, que ainda nem havia completado três anos e se foi em um trágico acidente de helicóptero de repercussão nacional. Difícil não verter lágrimas ao tomar conhecimento dessa situação, e de ver como Coelho se portou para dar o devido apoio ao amigo nessa hora tão inesperada e tão terrível.

Franqueza e capacidade de adaptação

A honestidade com que Bruno analisa cada um dos trabalhos lançados pelo Biquini Cavadão também é de se tirar o chapéu, além da franqueza de admitir que, embora todos os integrantes do grupo assinem todas as suas composições, em alguns momentos ele não participou de praticamente nada. No entanto, o fato de, desde o início, eles terem tomado essa atitude, ajudou a banda a se manter unida e coesa mesmo em seus momentos mais difíceis.

Uma das razões pela qual o Biquini Cavadão se mantém até hoje foi ter tido sensibilidade suficiente para interpretar as mudanças de rumo da indústria fonográfica e se adaptar da melhor forma possível a elas, além de ter mergulhado de cabeça nas opções de divulgação e aproximação com os fãs proporcionadas pela internet, isso mesmo antes do surgimento das redes sociais, além de investirem na qualidade de seus shows, quentes e artisticamente atraentes.

Dicas para iniciantes e novidades tecnológicas

Recomendo com entusiasmo aos músicos iniciantes e que sonham em desenvolver uma carreira no mundo da música lerem atentamente os conselhos que Bruno dá, na parte final de seu livro. Todos pertinentes, ponderados e que equivalem a um bom norte a todos.

Como mostra dessa eterna busca por novidades, Bruno incluiu no livro vários QR Codes que proporcionam a quem tem smartfones a possibilidade de acessar uma infinidade de conteúdos extras, do tipo depoimentos em vídeo, clipes, versões alternativas de músicas etc, que também podem ser acessados aqui.

No geral, o mais legal é chegar à conclusão que, aos 52 anos de idade, Bruno Gouveia está mais ativo do que nunca, em trabalhos paralelos e também com sua banda, vide seus excelentes lançamentos mais recentes, os álbuns As Voltas Que o Mundo Dá (leia a resenha de Mondo Pop aqui) e Ilustre Guerreiro (saiba mais sobre ele aqui), ambos produzidos pelo lendário Liminha.

Ouça As Voltas Que o Mundo Dá, do Biquini Cavadão, em streaming:

Andre Matos, o garoto que realizou um sonho impossível

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Por Fabian Chacur

Andre Matos era uma garoto que tinha um sonho impossível: tornar-se um astro do heavy metal. Isso, cantando em inglês e sendo brasileiro, em plenos anos 1980. Não tinha como dar certo. Mas deu! O cantor, compositor e músico paulistano viu seu trabalho ultrapassar fronteiras, conquistar fãs no mundo todo e virar uma referência no gênero musical ao qual se dedicou. Ele infelizmente nos deixou de forma precoce neste sábado (6), aos 47 anos de idade, mas teve uma vida incrível. E tornou real o tal do sonho impossível.

Andre nasceu em São Paulo em 14 de setembro de 1971, nativo de Virgem. E suas características tinham tudo a ver com este signo do zodíaco. Era um cara perfeccionista, articulado, que lutava intensamente pela realização de seus objetivos. Ainda moleque, juntou-se aos irmãos Yves e Pit Passarel para criar um grupo de heavy metal. O Viper surgiu em 1985, incentivado pela primeira edição do Rock in Rio e também pelo crescimento de uma cena headbanger paulistana.

Naquela São Paulo de 1985, projetos como o SP Metal e a revista Rock Brigade ajudavam a incentivar o surgimento de bandas de rock pesado na cidade. A publicação criada por Toninho Pirani resolveu criar um selo para lançar algumas daquelas bandas. E os literalmente moleques do Viper foram agraciados com um contrato com a Rock Brigade Records, pela qual lançaram em 1987 seu álbum de estreia, Soldiers Of Sunrise (1987), seguido por Theatre Of Fate (1989).

Com esses dois discos, o Viper mostrou competência ao digerir influências de Iron Maiden, Helloween e outras bandas importantes daquele período. Com uma voz potente, Andre aos poucos ganhou protagonismo no heavy metal brasileiro. Ao iniciar os estudos musicais, sentiu que era hora de partir para novos rumos, e deixou a sua primeira banda. Em 1991, criou um novo time, o Angra, com exímios músicos, especialmente os guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro.

Angels Cry (1993), o álbum de estreia do quinteto, mostrou um som ainda mais elaborado e consistente, com direito até mesmo a um ousado cover de Wuthering Heights, primeiro sucesso da cantora britânica Kate Bush. Mas o melhor, mesmo, viria com Holy Land (1996), ambicioso álbum que misturou de forma criativa e elaborada heavy rock, música erudita e elementos oriundos da música brasileira, com resultado que os levou ainda mais longe.

Se com o Viper Andre já havia iniciado uma boa repercussão fora do Brasil, especialmnente na Ásia, com o Angra essa peregrinação roqueira foi ainda além, com o disco conquistando elogios também na Europa e EUA. Nesse período, ele quase chega a um posto inacreditável: ser vocalista do Iron Maiden. Com a saída de Bruce Dickinson, a vaga ficou em aberto, e ele esteve na boca de conquistá-la. O “cargo” ficou, no fim das contas, com o britânico Blaze Bayley, mas nosso cantor saiu vitorioso, pois dessa forma teve a chance de dar prosseguimento em uma carreira autoral que vinha muito bem.

Problemas de relacionamento tiraram Andre e também Ricardo Confessori e Luis Mariutti do Angra em 2000. No ano seguinte, eles, aliados ao irmão de Luis, Hugo, criaram um novo time. Surgia o Shaman, que em 2002 lançou seu álbum de estreia, Ritual, pela Universal Music. A música Fairy Tale os levou à trilha sonora da novela global O Beijo do Vampiro, algo impensável para uma banda de heavy brazuca. Outra façanha na conta de Matos.

Com a separação da formação original do Shaman em 2006, Andre investiu em uma carreira solo que rendeu os álbuns Time To Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn Of The Light (2012). E foi na época em que ele lançou este último que tivemos o reencontro entre ele e os antigos amigos do Viper. A nova parceria teve como ápice a participação deles no Rock in Rio em 2013, justo o festival que, naquele agora longínquo 1985, os incentivou a ir à luta.

Além dessas três bandas icônicas, Andre Matos marcou presença em diversos outros projetos, entre os quais o Virgo, com o produtor alemão Sascha Paeth, o Avantasia do também alemão Tobias Sammet. E foi em uma participação em um show deste último no domingo (2) no Espaço das Américas que ele subiu em um palco pela última vez. Ele vinha se dedicando a uma turnê de reunião do Shaman cujo início havia ocorrido em 2018. Ainda tinha muita coisa para rolar na vida dele. Uma pena. Mas quantos sonhos o cara concretizou, heim?

Nesses anos todos, tive a oportunidade de entrevistar Andre Matos em diversas ocasiões. Em todas elas, presenciei um cara extremamente educado, simpático e articulado, que demonstrava segurança em relação a seus objetivos. O último contato ocorreu em 2013, em entrevista ao lado dos amigos do Viper, um delicioso encontro entre garotos que sonharam juntos e viram esses objetivos se tornarem realidade, um a um. Sentirei muita falta dele, podem ter certeza. E me sinto honrado de ter meu nome nos agradecimentos incluídos no encarte do álbum Holy Land. Ainda mais em um álbum com aquele porte. Gratidão eterna!

Ouça Holy Land, do Angra, na íntegra:

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