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Andrea dos Guimarães cativa com o belo CD solo Desvelo

Andrea dos Guimarães (foto Omar Paixao)-400x

Por Fabian Chacur

Há artistas que levam tão a sério suas carreiras que se preparam de forma minuciosa para conceber e concretizar suas obras. A cantora, compositora e pianista mineira Andrea dos Guimarães se encaixa direitinho nesse perfil. Com sólida formação musical em termos formais e artísticos, ela lança agora seu primeiro CD solo, o belíssimo Desvelo. Uma obra sólida e cativante.

Nascida em Tupaciguara (MG) e radicada em São Paulo desde 1997, Andrea dos Guimarães iniciou seus estudos de piano clássico quando ainda era criança. Ela tem mestrado em música concluído na Unicamp (SP) e atua como professora de música em várias importantes entidades de ensino, transmitindo seus conhecimentos e colocando em prática sua formação acadêmica.

Em termos artísticos, integrou de 2007 a 2013 o grupo Garimpo Quarteto, com o qual gravou um CD. Ainda faz parte de outra formação musical, o Conversa Ribeira, participando de dois CDs registrados por eles durante sua trajetória. E agora, depois de tanto tempo, investe em seu primeiro trabalho solo, Desvelo, distribuído pela Tratore.

Desvelo é um trabalho solo de fato, pois nele temos apenas Andrea, que se incumbiu dos vocais, do piano e dos arranjos das 12 faixas incluídas no trabalho. Uma única, porém significativa, participação especial: a do pai, Alcides Nunes, na bela releitura de Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves), que prima pela beleza e delicadeza.

O álbum traz como marca um clima introspectivo, no qual Andrea apresenta cada canção em um formato ao mesmo tempo despido e sofisticado, com direito a diálogo entre piano e voz, delicadeza nos arranjos e uma afinação extrema da cantora, cujo timbre às vezes remete ao que poderia ser definido como uma Nana Caymmi com um pouco mais de doçura. Uma beleza.

O repertório do CD traz duas composições próprias (Ciranda dos Meninos e Estrada do Contorno) e obras selecionadas a dedo de autores consagrados como Ivan Lins e Vitor Martins (Começar de Novo), Chico Buarque (Ela Desatinou, Retrato em Branco e Preto-c/Tom Jobim e Acalanto -c/Edu Lobo), Milton Nascimento e Dorival Caymmi, entre outros. Tem até espaço para a pop Bjork (Casulo-Cocoon).

A estreia solo de Andrea dos Guimarães é repleta de sutilezas que vão cativando o ouvinte a cada nova audição. Soa muito bem concatenada e planejada, sem exageros ou exibições técnicas desnecessárias. A música fala mais alto, sempre. E destaque-se a belíssima capa e encarte do CD, com direito à cantora com um visual ousado, belíssimo e feminino até a medula, fugindo da redundância e da mesmice com categoria. Em resumo, uma obra cativante.

Ela Desatinou– Andrea dos Guimarães:

Rio de Lágrimas – Andrea dos Guimarães:

Odair José dá aula de talento e energia no novo CD Dia 16

Capa Odair José Dia 16-400x

Por Fabian Chacur

Nada como o tempo para curar as feridas e colocar as pessoas nos lugares em que mereceriam estar. Isso aconteceu com o cantor, compositor e músico goiano Odair José. Depois de décadas deixado de lado pela crítica, hoje ele recebe a reverência que sempre mereceu. Reenergizado, o cara agora nos proporciona Dia 16, novo CD lançado pelo selo Saravá Discos que é desde já um dos melhores álbuns do ano. Discaço de cabo a rabo.

O novo trabalho sai meses após a gravadora Universal Music ter colocado no mercado discográfico uma excelente caixa contendo os quatro álbuns que Odair lançou pela extinta Polydor nos anos 1970 (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Neles, música popular de ótima qualidade e executada por músicos como os do seminal grupo Azymuth.

Desta vez, a voz por trás de hits como Cadê Você e A Noite Mais Linda do Mundo (Felicidade) se cercou de um timaço de músicos capitaneados pelo experiente produtor, guitarrista e multi-instrumentista Alexandre Fontanetti (conhecido por seu trabalho ao lado de Rita Lee no álbum Bossa N’ Roll, nos anos 1990). Com inspiração roqueira vinda de fontes como Beatles, AC/DC, Neil Diamond, Roy Orbison e até Jovem Guarda, o astro goiano soltou o verbo em 11 composições recentes e uma inédita dos anos 1970 (Fera).

A festa começa com a demencial Dia 16, rockão de tirar o fôlego interpretado por um cara com 66 anos bem vividos que soa como se tivesse uns 30, se tanto. Esse pique se mostra em outros momentos mais rockers do CD, como Sem Compromisso, Começar do Zero e Deixa Rolar, para agitar quem gosta de som direto e na veia.

A levada folk e mais romântica, outra das marcas de Odair, aparece bacana em Cores (que mistura um toque de George Harrison na carreira solo com ecos do standard pop Blue Moon), no rock balada Morro do Vidigal e em Lembro, esta última com um tempero que lembra um pouco a fase Strawberry Fields Forever dos Beatles.

Um dos trunfos de Odair José é sempre se valer de letras (escrita por eles ou outros parceiros) nas quais a simplicidade que não ofende a inteligência de seus ouvintes prevalece, tocando em temas polêmicos com categoria. Essa é a marca da ótima A Moça e o Velho, que fala dos romances entre homens mais velhos com garotas bem mais novas.

Dia 16 é essencialmente um disco de pop-rock bem concatenado, composto por repertório bacana e produção na medida, sem exageros nem falhas que mostram que a categoria desse velho mestre da canção popular brasileira continua intacta e capaz de oferecer boas surpresas a seus inúmeros fãs. Ou, como diria o poeta em latim, brega é a mãe…

Ouça o CD Dia 16 de Odair José na íntegra em streaming:

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