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Morre Phil, dos Everly Brothers, aos 74 anos

Por Fabian Chacur

O rock and roll sofre sua primeira grande perda em 2014. Morreu na última sexta-feira (3), aos 74 anos, Phil Everly, que ao lado do irmão mais velho Don (de 76 anos) integrou os Everly Brothers, um dos duos mais importantes da história da música pop. O músico foi vítima de uma doença pulmonar, que sua esposa Patti atribui ao tabagismo. Ele vivia em Burbank, Califórnia.

Nascido em Chicago em 19 de janeiro de 1939, Phillip Everly era filho de dois cantores de rádio, e estreou na música aos 7 anos de idade ao lado do irmão Don em um programa radiofônico. Após anos batalhando por uma oportunidade, tiveram a ajuda do célebre músico Chet Atkins, que tocou com Elvis Presley e inúmeros outros durante sua brilhante carreira.

Com um background de música country, os Everly logo adicionaram a essa sonoridade o rhythm and blues e o emergente rock and roll, ajudando a criar uma mistura que marcou a história do rock and roll e intitulada rockabilly. Com suas vocalizações, logo invadiram as paradas de sucesso, e seu primeiro sucesso, Bye Bye Love, tem uma origem bastante curiosa.

Obra do casal Felice e Boudleaux Bryant, Bye Bye Love já havia sido rejeitada por ao menos 30 intérpretes antes de ser finalmente registrada pelos irmãos Don e Phil. Valeu a espera. A canção logo se tornou um dos grandes sucessos de 1957, atingindo o segundo posto na parada americana pop e o primeiro na de rhythm and blues. Wake Up Little Susie (1957), também dos Bryant, foi ainda além, dando à dupla de cantores o primeiro lugar na parada pop ianque, mesma posição atingida por All I Have To Do Is Dream (1958) poucos meses depois.

Até 1960, eles emplacaram vários sucessos no selo Cadence, do qual saíram naquele ano ao aceitar uma oferta milionária da Warner por um contrato de dez anos de duração e um milhão de dólares de ganho. O primeiro fruto do novo contrato foi Cathy’s Clown (1960), maior sucesso dos irmãos em sua terra natal, que ficou cinco semanas no topo da parada pop.

As coisas permaneceram bem para os Everly Brothers em termos de sucesso até 1964, com novos hits do naipe de Crying In The Rain, Gone Gone Gone e Ebony Eyes, entre outros. No entanto, o estouro dos Beatles e o surgimento da chamada British Invasion, ironicamente muito influenciada pelo som dos irmãos, acabou tirando as canções deles dos primeiros postos das paradas de sucesso. Eles continuaram seguindo em frente mesmo assim.

Em 1973, no entanto, as desavenças entre os irmãos chegaram ao ápice, e após um show em junho daquele ano, Phil jogou seu violão no chão e saiu do palco, encerrando ali o trabalho com Don. Parecia o fim definitivo da dupla, que a partir daí partiu para carreiras solo. Phil gravou algumas canções bacanas no período, incluindo a primeira e ótima versão de The Air That I Breathe, que depois estouraria em releitura do grupo britânico Hollies, não por acaso bastante influenciado pelo som dos brothers americanos.

Em setembro de 1983, no entanto, o retorno dos Everly Brothers acabou se materializando, em dois shows no Royal Albert Hall londrino que geraram um álbum duplo ao vivo. Em 1984, os irmãos foram além, gravando um novo álbum de estúdio com a produção de Dave Edmunds. EB 84 equivaleu a um retorno certeiro, com ótimas vendas e pelo menos três faixas excelentes.

On The Wings Of a Nightigale leva a assinatura de ninguém menos do que Paul McCartney, que ainda toca violão na gravação. Jeff Lynne, da Electric Light Orchestra, compôs The Story Of Me para a dupla, e participou da gravação (tocando baixo) ao lado de outro colega da ELO, o tecladista Richard Tandy. E temos um cover arrepiante de Lay Lady Lay, de Bob Dylan.

Até o fim dos anos 80, os Everly Brothers ainda nos proporcionariam outras gravações ótimas, como Born Yesterday (faixa título do LP lançado em 1986), uma inspiradíssima releitura de Why Worry (do Dire Straits) e uma parceria histórica com os Beach Boys em uma regravação de Don’t Worry Baby, um dos momentos máximos de Brian Wilson como compositor.

Se não gravaram mais discos de inéditas a partir de Some Hearts (1989), os irmãos continuaram fazendo shows. Em 2003/2004, participaram da turnê Old Friends com Simon & Garfunkel, um de seus discípulos mais famosos, com direito a registro em CD e DVD. Vale lembrar que S&G ajudaram a criar o clima para o retorno dos EB quando gravaram Wake Up Little Susie em seu mitológico álbum ao vivo gravado no Central Park de Nova York em 1981.

Inúmeros artistas releram sucessos dos Everly Brothers nesses anos todos. Em seu álbum Dark Horse (1974), por exemplo, George Harrison fez uma releitura lenta, sofrida e também possivelmente irônica de Bye Bye Love dedicada a Pattie Boyd, sua esposa que o estava largando para ficar com o amigo Eric Clapton, em um dos mais famosos e escandalosos triângulos amorosos da história do rock.

O grupo norueguês A-ha fez muito sucesso relendo Crying In The Rain. E Robert Plant ganhou um Grammy ao regravar de forma inspiradíssima Gone Gone Gone no álbum que gravou em dupla com a cantora e musicista country americana Alison Krauss, o ótimo Raising Sand (2007), grande sucesso de vendas e de crítica. Por sinal, essa regravação foi massacrada na MTV por João Gordo, que a achou ridícula. Que vergonha alheia!!!

Phil Everly nos deixa como herança algumas das melhores e mais influentes vocalizações da história do rock and roll, além de ajudar a firmar um dos estilos musicais mais mestiços de todos os tempos, injetando nele um tempero caipira delicioso que gerou frutos até na nossa música sertaneja, jovem guarda, pop rock etc.

Para quem deseja mergulhar no universo dos Everly Brothers, recomendo a excepcional coletânea tripla Perfect Harmony (Sequel Records/Castle Records), lançada em 1990 e que dá uma geral completa na trajetória da dupla, incluindo 60 faixas de todas as fases do duo (incluindo algumas gravações solo de Don e Phil) e um encarte com dados técnicos e texto impecável. Pode ser difícil de ser encontrada, mas vale cada centavo que você pagar nela.

Wake Up Little Susie, com The Everly Brothers:

Gone Gone Gone, com The Everly Brothers:

On The Wings Of a Nightingale, com The Everly Brothers:

Madeleine Peyroux homenageia Ray Charles

Por Fabian Chacur

Em seu novo álbum, The Blue Room, que acaba de ser lançado no Brasil pela Universal Music, Madeleine Peyroux presta uma homenagem a Ray Charles (1930-2004). O trabalho da intérprete americana que viveu alguns anos na França evoca dois dos LPs mais bem-sucedidos da carreira daquele genial criador musical.

A ideia do produtor do disco, Larry Klein, era evocar Modern Sounds In Country & Western e Modern Sounds In Country & Western Vol.2, ambos lançados em 1962 e nos quais Brother Ray provou ser possível para um músico de soul music gravar country com personalidade, criatividade e grande apelo comercial, para surpresa de muita gente na época.

Como forma de personalizar a homenagem, Madeleine e Larry escolheram cinco composições integrantes de Modern Sounds 1 e 2 (entre elas a clássica I Can’t Stop Loving You) e as somaram a outras cinco canções com o mesmo espírito. Os corais do álbum de Ray ficaram de fora, mas os arranjos de cordas se mostram presentes.

O clima musical dos arranjos respeita o estilo mais sutil e jazzístico de Madeleine, frequentemente comparada com Billie Holiday, e criam uma sonoridade híbrida com elementos de country, soul e jazz, incluindo tempero pop e dos clássicos standards da musica americana. Suave, classuda e muito boa de se ouvir.

Take These Chains From My Heart abre o álbum com autoridade, dando espaços para que venham a seguir releituras deliciosas de Bye Bye Love (hit originalmente com os Everly Brothers), Born To Lose (de Frankie Brown), Guilty (de Randy Newman), Desperadoes Under The Eaves (do injustamente esquecido americano Warren Zevon), Changing All Those Changes (obscura canção de Buddy Holly) e Bird On The Wire (de Leonard Cohen).

The Blue Room, cujas belíssimas fotos de capa e encarte foram tiradas no bar homônimo, o mais antigo situado em Burbank, Califórnia, equivale a uma belíssima homenagem a Ray Charles que preserva o elemento mais importante daqueles dois discos históricos: seu senso de liberdade criativa e despreocupação com rótulos ou limites impostos pela indústria musical.

Changing All Those Changes, com Madeleine Peyroux:

Guilty, com Madeleine Peyroux:

Lionel Richie relê hits com tempero country

Por Fabian Chacur

Em 1962, Ray Charles surpreendeu a muitos ao gravar Modern Sounds In Country And Western Music. Nessse álbum, ele relia à sua moda clássicos da música country, algo até então impensável para um artista que vinha da tradição do rhythm and blues e da soul music, que ele por sinal ajudou a criar. E deu certo, pois o álbum não só quebrou preconceitos como vendeu milhões de cópias e liderou a parada de sucessos americana e de vários países.

Desde então, este flerte entre a black music e o country volta e meia vem à tona de novo. Um momento expressivo dessa aproximação entre os estilos rolou em 1980, quando o astro country Kenny Rogers gravou Lady, escrita pelo então líder do grupo de funk/soul The Commodores, Lionel Richie. A parceria deu tão certo que a música bateu no número 1 das paradas.

Desta vez, Richie resolveu dedicar um álbum inteiro a esta aproximação entre o rhythm and blues e a música de origem rural. Trata-se de Tuskegee, CD que a Universal Music acaba de lançar no Brasil, e que estreou na parada americana direto na segunda posição, algo que o astro não conseguia desde o seu auge comercial, nos anos 80.

O conceito por trás do disco é simples: 14 grandes sucessos assinados e gravados anteriormente por Richie, sendo 12 de sua carreira solo e 2 dos Commodores, foram relidos com arranjos no estilo country atual, nas quais ele é acompanhado por astros de várias gerações deste gênero.

O elenco que participa desses duetos é estelar, incluindo Shania Twain, Kenny Rogers, Willie Nelson, Darius Rucker (ex-vocalista da banda de rock Hootie & The Blowfish e hoje cantor solo country), Jill Johnson, Kenny Chesney e os grupos Rascal Flatts e Little Big Town, entre outros.

Gravado basicamente em vários estúdios situados em Nashville, a capital mundial da country music, Tuskegee (nome da cidade onde Lionel Richie nasceu) é a prova de como, com o decorrer dos anos, a música negra e o country se aproximaram a ponto de ser difícil de notar diferenças tão gritantes entre uma e outra, especialmente no setor baladas.

Uma steel guitar aqui, um violão folk ali, um jeitão mais polido de encaixar as guitarras acolá, e pronto. Hits black ganham um jeitão country, embora pudessem perfeitamente também ser tocados nas rádios de black music.

Nenhuma das canções assinadas por Mr. Richie perdeu sua essência aqui, sendo imediatamente reconhecidas por quem as ouvir. O CD é bem gostoso de se ouvir. Eu destaco Stuck On You (com Darius Rucker), Deep River Woman (com o grupo Little Big Town), My Love (com Kenny Chesney), Lady (com Kenny Rogers), Easy (com Willie Nelson) e Sail On (com Jill Johnson).

Tuskegee cumpre bem todos os seus objetivos, mesmo sem superar as versões originais das canções contidas nele. O CD consegue reunir artistas bem distintos entre si de forma harmônica, contém releituras dignas de sucessos inesquecíveis e também ajudou a recuperar a popularidade de um dos nomes mais talentosos da história da música pop.

Último detalhe: note o título do álbum, esculpido no formato dessas fivelas grandonas que os fãs de música country/sertaneja usam na frente de suas calças.

Veja Easy ao vivo com Lionel Richie em 2007:

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