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Tag: documentário 2015

Documentário no Canal Brasil mostra luta de músicos no Mali

they have to kill us first doc-400x

Por Fabian Chacur

Que tal viver em um país no qual, da noite para o dia, fazer e ouvir música passa a ser um crime passível de mutilação e até mesmo morte? Parece uma distopia inventada por algum roteirista criativo demais e pervertido demais, não é mesmo? Pois foi exatamente isso o que ocorreu no continente africano, mais precisamente no Mali, em 2012. Como resistir e se rebelar contra tamanho horror? Eis o mote de They Will Have To Kill Us First (2015), emocionante documentário que o Canal Brasil exibe nesta terça (14) às 11h e nesta quinta (16) às 15h30.

A história tem origem em um golpe de estado promovido por uma aliança que se mostraria desastrosa entre membros da etnia tuareg e jihadistas islâmicos no intuito de derrubar o governo do Mali. Quando conseguem seu intento, as alas mais radicais da parceria, ligadas a organizações funestas como Al Qaeda e Estado Islâmico, assumem a ponta da ação e tomam conta do norte do país, incluindo cidades importantes como Timbuktu e Gao.

Como sempre costuma ocorrer quando milícias armadas e religiosos fanáticos se unem, o novo “regime” impõe uma legislação retrógrada, repressiva e violenta intitulada Sharia. Entre outras coisas, é proibida a execução em rádios e TVs de música de quaisquer tipos, além de shows e de músicos. E é neste ponto do golpe ocorrido em 2012 que a diretora americana Johanna Schwartz centra o seu foco.

A forma encontrada por ela para abordar esse verdadeiro cenário de horrores foi dar voz a personagens da cena musical de Mali. Temos aqui a cantora Khaira Arby, apelidada por seus inúmeros fãs de Rouxinol do Norte, a cantora Disco e seu marido Jimmy (envolvido no golpe e claramente arrependido de sua ação), o emergente grupo Songhoy Blues e o músico Moussa Sidi.

Longe de suas cidades natais, eles se abrigam no sul do Mali, na cidade de Bamako, ou mesmo no país vizinho Burkina Faso, em campos de refugiados. Em comoventes depoimentos, falam sobre seu passado, suas angústias e seus sonhos de um futuro melhor durante um período de três anos.

Como rebeldes que não aceitavam a “nova ordem” imposta pelos jihadistas eram punidos com mutilações (uma delas mostrada no filme de forma chocante, provavelmente extraída de vídeo postado na internet) ou morte, a luta deles pela liberdade de expressar seus talentos se mostra difícil, porém vencedora.

Khaira e Disco conseguem organizar o primeiro show público em Timbuktu após três anos, evento realizado na raça, contra todas as dificuldades. Por sua vez, Moussa consegue retornar à cidade natal, para ver seu lar totalmente destruído pelos “revolucionários”, mas encontrando a esposa ainda viva.

O grupo Songhoy Blues, que realiza uma excitante, criativa e vibrante mistura de blues, rock e música africana, tem um destino melhor. Com o apoio dos astros Damon Albarn (Blur e Gorillaz), Brian Eno e Nick Zinner (do grupo Yeah Yeah Yeahs), conseguem gravar, na Inglaterra, seu primeiro álbum, apropriadamente intitulado Music In Exile (2015)(veja um clipe deles aqui).

O título do documentário (eles terão de nos matar primeiro) sai de um dos depoimentos dos personagens, que mostram sua devoção e comprometimento com a música. Este documentário serve não só como o registro de uma verdadeira tragédia humanitária ocorrida na sofrida África como também um potente alerta para quem se sente seguro, mesmo vendo a união de forças retrógradas, fanatizadas e violentas ampliando seus tentáculos e tomando o poder nos quatro cantos do mundo. Aconteceu (e ainda acontece!) no Mali, pode se materializar em qualquer parte do mundo, especialmente no BRASIL!

They Will Have To Kill Us First (trailler):

Veja mais um trailler do filme aqui.

Documentário resgata a bela carreira do saudoso Premê

preme 400x

Por Fabian Chacur

No fim dos anos 1970, uma série de grupos e artistas surgiram no cenário musical paulistano e injetaram uma forte dose de inovação e ousadia naqueles ainda anos de chumbo. Uma das principais bandas desse cenário, a saudosa Premeditando o Breque (depois, virou Premê), acaba de ser relembrada em um belo documentário, Quase Lindo, que estreou durante o festival de documentários É Tudo Verdade. Um belo e necessário resgate.

Formado por estudantes da USP, o Premê trouxe como marca desde o início seu total desrespeito a convenções e limites entre estilos musicais. Misturar sem medo de ser feliz e com criatividade era a receita da banda, que em sua trajetória tocou rock, chorinho, MPB, samba, pop, funk, música erudita, música caipira e o que mais pintasse, sempre de forma bem-humorada.

Do início na cena independente paulistana ligada ao hoje mitológico Teatro Lira Paulistana e com direito a dois incensados álbuns lançados pela via indie, eles conseguiram gravar depois dois álbuns na multinacional EMI Odeon, e sempre pareciam próximos do sucesso nacional. Que, no entanto, nunca ocorreu de forma total e completa.

Algumas de suas músicas até que conseguiram boa repercussão na mídia, tipo São Paulo São Paulo, Vida Besta, Lua de Mel Em Cubatão e Rubens, mas eles nunca foram campeões de vendagens. Isso obviamente os atrapalhou no sentido de manter uma carreira sólida em termos financeiros, e a partir dos anos 1990 a banda passou a se reunir apenas de forma eventual, para tristeza de seus fãs.

Quase Lindo, o documentário, reúne material precioso que consiste em apresentações ao vivo em shows e em programas de TV, entrevistas também efetuadas na época e muita música. As canções são apresentadas reunindo trechos de várias fontes como que para mostrar as várias facetas da banda, e a edição ficou ágil, sendo possível curtir cada faixa sem que elas soem como se fossem obras do ficcional doutor Victor Frankestein.

O filme também mostra o talento dos seus integrantes, sujeitos multimídia e extremamente talentosos como Wandi Doratioto, Mário Manga, Klaus, Marcelo e Osvaldo Fagnani, todos com sólida formação musical e totalmente despidos de preconceitos tolos. Lembro que, nas passagens de som antes de shows, eles eram capazes de tocar até clássicos do rock de gente como Deep Purple e The Police, entre uma música própria e outra. Coisa de músicos muito bons!

A opção por aproveitar mais o material antigo e não incluir muitos depoimentos feitos especialmente para o filme feito pelos diretores Alexandre Sorriso e Danilo Moraes torna o documentário ainda mais importante, pois resgata imagens e sons absolutamente perdidos por aí, de emissoras as mais distintas possíveis. Ourivesaria pura! E o clima é sempre para cima, sem cair em nostalgia pura ou na frustração pela falta do estouro que nunca veio.

A única preocupação fica por conta da divulgação de Quase Lindo (por sinal, título do segundo álbum do Premê). Será que conseguirá entrar em circuito comercial? Do jeito que as coisas andam, não parece uma opção muito viável. Seja como for, fica a torcida para que isso ocorra, e também para que role o lançamento em DVD. O Premê merece!

Rubens– Premê:

Marcha da Kombi– Premê:

Balão Trágico– Premê:

São Paulo São Paulo– Premê:

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