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Zeca Pagodinho e a entrevista que rendeu admiração eterna

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Por Fabian Chacur

Essa história rolou em 1988. Vivia os meus primeiros tempos no hoje extinto jornal Diario Popular (SP), e fui designado pelo meu editor Oswaldo Faustino para entrevistar Zeca Pagodinho, então estreando na gravadora BMG com o LP Jeito Moleque, após dois discos de muito sucesso pela RGE. A assessora de imprensa, Miriam Martinez, avisou-me antes do meu bate-papo com o sambista carioca começar: “tome cuidado que ele está bravo, andaram fazendo perguntas de que ele não gostou…” Ou seja, entrei em cena com o placar desfavorável, e não por minha culpa. Mas cabia a mim virar o jogo.

A ideia do meu editor era que eu fizesse uma entrevista solta, coloquial, na qual o leitor pudesse ter uma ideia de como era aquele artista apadrinhado por Beth Carvalho que veio do subúrbio carioca e se tornou um fenômeno de vendas. Embora ainda inexperiente, eu percebi que precisava ser cauteloso ao menos no início do papo, e foi assim que comecei a conversa. Na minha, respeitoso, prestando atenção no que ele me falava. E, para minha felicidade, a troca de ideias se mostrou ótima e bem fluente.

Aos poucos, Zeca demostrou confiar em mim, e os assuntos se ampliaram, indo da música até mesmo ao jogo do bicho. As declarações eram sempre deliciosas, do tipo “sei falar com bacana e sei falar com malandro”, ou “o jogo do bicho é uma das coisas mais confiáveis desse país, pois você ganha hoje e os caras te pagam na hora, sem conversa mole”. Quando essa nossa primeira conversa profissional se encerrou, recebi um elogio que guardo para a vida: “gostei de você, você é malandro”. Imagina ouvir uma dessas vindo de um cara que é malandragem pura, obviamente do lado positivo desse termo.

A entrevista fez sucesso, e a partir dali tive várias oportunidades de conversar com esse cara, que tornou-se ainda mais simpático, franco e sem frescuras. Sua generosidade se mostra em respostas aparentemente banais, como quando lhe perguntei o porque de, com o passar dos anos, ele gravar cada vez menos músicas de sua autoria, ele que ficou conhecido inicialmente como autor de sambas, e só posteriormente como intérprete: “Cara, tem muita gente boa compondo, e gente que precisa mais do que eu dos direitos autorais”.

Em uma entrevista coletiva realizada em 1999, a pergunta que ele levou mais a sério veio de mim, sobre a fusão entre a Brahma e a Antarctica que gerou a AmBev. Ele sempre se declarou um entusiasta da Brahma. “Olha, quando surgiu essa notícia, eu fiquei preocupado e até liguei para saber se eles iriam manter a Brahma do mesmo jeito, e eles me garantiram que sim”, respondeu, para delírio dos repórteres presentes. Com o tempo, ele acabou fazendo propaganda dessa marca, não sem uma polêmica no meio que não cabe ser analisada aqui.

Grande compositor, sambista de estilo inconfundível e craque em escolher músicas alheias para gravar, Zeca sempre foi um seguidor da tradição do samba, como me confessou logo naquela primeira entrevista: “desde moleque eu sempre ficava colado na Velha Guarda. Eu ia buscar as cervejas, abria para eles e ficava ouvindo ele cantarem e tocarem, aprendendo”. E como aprendeu, heim?

Nesta segunda (4), Jessé Gomes da Silva Filho, o nosso querido Zeca Pagodinho, completa 60 anos de idade. Um cara que mesmo em situação financeira excelente nunca abandonou suas origens, sendo famoso pela generosidade. Xerém, que adotou como ponto de encontro com amigos de todas as idades e faixas sociais, deve estar em festa. Que essa data se repita por muitos e muitos anos, e que eu possa entrevistar novamente no futuro esse representante do Brasil que importa, o Brasil do swing, do jogo de cintura, do talento, da simpatia e da integração entre as pessoas.

Camarão que Dorme a Onda Leva (ao vivo)- Zeca Pagodinho e amigos:

Encontros e despedidas com o genial Milton Nascimento

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, localizado na Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva para eu conhecer o ambiente do jornalismo especializado em música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo, pois não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique. Virei o jogo!

Ao fim da concorrida coletiva, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto simplesmente hilária, na qual apareço atrás do Milton (que autografava alguns discos), enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas coletivas de que participei com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda entrevista com o autor de Travessia da qual participei ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o sublime álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião.

Teria depois outras boas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987).

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

Livros MPBambas trazem um elenco de ótimas entrevistas

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Por Fabian Chacur

Tempo em TV vale ouro. Por isso, frequentemente entrevistas gravadas para esse veículo de comunicação costumam trazer apenas uma parte do conteúdo obtido nos papos com os alvos de suas matérias. Os dois volumes de MPBambas- Histórias e Memórias da Canção Brasileira, de autoria de Tarik de Souza e editados pela Kuarup, tem como nobre objetivo preencher uma dessas lacunas inevitáveis, e o faz de forma brilhante.

Um profissional como Tarik de Souza deveria dispensar apresentações prévias, mas como estamos no Brasil, vale falar um pouco dele. Trata-se de um jornalista especializado em música brasileira na ativa há quase 50 anos, com currículo recheado de passagens por órgãos de imprensa bacanas e autor de inúmeros livros que fazem parte das bibliotecas de quem se interessa por informações musicais consistentes e oferecidas com texto sempre impecável ao leitor.

De 2009 a 2014, Tarik apresentou no Canal Brasil o programa televisivo MPBambas, no qual trazia um grande nome da música brasileira por edição para entrevistas deliciosas. Como cada episódio comportava apenas 27 minutos de conteúdo, sobrou muita coisa boa, que ficaria apenas na memória de quem teve a honra de participar dos bate-papos. Mas Paulo Mendonça, um dos comandantes do Canal Brasil, sugeriu ao jornalista a edição em livro desse material, e graças à sua batalha, e à parceria com a Kuarup, gravadora que também enveredou pelo lançamento de livros, a ideia se tornou realidade.

Organizadas em dois volumes vendidos separadamente, as entrevistas foram divididas em 14 por exemplar, curiosamente como se fossem um disco de vinil. A abrangência dos entrevistados impressiona, pois focaliza desde monstros sagrados bem conhecidos do grande público, como Milton Nascimento, Gal Costa e Beth Carvalho, até craques musicais menos divulgados do que mereceriam, tipo Getúlio Côrtes, Billy Blanco, Sueli Costa e Doris Monteiro.

Cada entrevista é uma verdadeira viagem dentro do universo musical do personagem escolhido. Como as transcrições são integrais, elas nos possibilitam a oportunidade de conhecer características particulares de cada um deles. Tarik vem sempre com a lição de casa prontinha, e faz perguntas pertinentes e buscando esclarecer dúvidas sobre o trabalho de cada um deles, nada mais adequado para um formato do tipo enciclopédia musical brasileira audiovisual.

Quem não curte detalhes e minúcias deve ficar longe de MPBambas, os livros. Quem, no entanto, deseja descobrir muito sobre cada entrevistado, terá seu desejo saciado de forma generosa, além de deparar com fatos importantes e inusitados de cada um deles. Fofocas, boatos tolos e idiotices do gênero não entraram em cena, felizmente. Ao fim de cada leitura, você percebe que tomou contato com gente profunda, importante e que fez da arte suas vidas.

Os livros ganharam ainda mais importância pelo triste fato de que diversos dos entrevistados infelizmente partiram para o outro lado do mistério, tempos após terem concedido suas entrevistas ao programa de TV. Desta forma, viraram registros ainda mais fundamentais. Duvido que você encontre papos mais densos e registrados em livros com os hoje saudosos Dominguinhos, Paulo Vanzolini, Inezita Barroso, Billy Blanco e Ademilde Fonseca do que estes aqui.

Uma das grandes sacadas de Tarik foi uma entrevista com Chico Anysio sobre a sua rica faceta de compositor musical, que muita gente boa infelizmente desconhece. Ou de mostrar a cara de Getúlio Côrtes, autor de hits eternos como Negro Gato, O Gênio, Uma Palavra Amiga e tantos outros. MPBambas-Histórias e Memórias da Canção Brasileira Volumes 1 e 2 é para ler, reler e consultar, além de obrigatórios para estudantes e profissionais de jornalismo.

O Gênio/Pega Ladrão/ Negro Gato (ao vivo)- Getulio Côrtes:

Encontros e despedidas com o Bituca

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, ainda hoje localizado na mesma Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva do Milton para que eu entrasse em contato direto com o ambiente da música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo, pois não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique.

Ao fim da entrevista, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto hilária, na qual apareço atrás do Milton, que autografava alguns discos, enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda coletiva com o autor de Travessia ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, na época situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião. Um dia posto aqui.

Teria depois mais umas duas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987),por exemplo.

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

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