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Trinca de Ases, bela união de Gil, Nando Reis e Gal Costa

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Por Fabian Chacur

A ideia de reunir Gilberto Gil, Nando Reis e Gal Costa em um show que inicialmente celebraria o centenário de Ulysses Guimarães foi do jornalista Jorge Bastos Moreno (1954-2017), mas ele infelizmente não viveu o suficiente para ver sua sugestão concretizada. Com o nome Trinca de Ases, o show passou com sucesso pelo Brasil e Europa e agora é lançado em DVD duplo pela Biscoito Fino, em espetáculo registrado no Espaço das Américas (SP) em 25 de novembro de 2017.

O conteúdo é divido em duas partes. O primeiro disco traz o documentário A Gente Quer é Viver, frase extraída da clássica canção de Gilberto Gil eternizada na voz de Gal Costa nos anos 1970 e que encerra o show. Durante seus 71 minutos de duração, temos entrevistas dos participantes (juntos e individualmente) e cenas dos ensaios, bastidores e dos shows propriamente ditos, nos quais podemos descobrir as peculiaridades da parceria.

Nando, por exemplo, confessa que, ao receber o convite para o projeto, ficou em dúvida se seria capaz de encarar tal desafio. Ele foi entrando no espírito da coisa graças à forma como Gil o abordou, ao mesmo tempo dando a ele a tranquilidade necessária para se soltar e também deixando claro que existiam expectativas em relação a Nando naquela parceria tripla que precisavam ser concretizadas para que tudo desse certo. Nando TINHA de se soltar. E ele conseguiu.

Um momento do documentário que deixa bem clara esse ajuste fino entre Gil e Nando ocorre quando o eterno tropicalista questiona o ex-titã sobre a inédita Dupla de Ás, de Nando, tentando entender a estrutura rítmica da canção e levando o autor a até mesmo questionar se aquela sua composição seria mesmo adequada ao projeto. Era, e entrou no repertório.

A concepção de como fazer o show também seguiu sugestões de Gil, que impulsionou-os a fugir de uma estrutura com apenas vozes, violões e apenas os três em cena. Assim, foram acrescentados à Trinca de Ases os músicos Kainã do Jejê (bateria e percussão) e Magno Brito (baixo). Ele também apontou o rumo de cantarem em pé, defendendo um repertório energético em sua essência.

Outra coisa bacana do documentário é mostrar como o relacionamento entre os músicos se desenvolveu, com Gil sendo na prática diretor musical e músico principal, Nando seu braço direito e Gal o algodão entre cristais, brilhando em seus momentos solo e ajudando a dar ao trabalho uma consistência de um grupo de fato e de direito.

Apenas três das 25 músicas são apresentadas no formato sentado e sem os músicos de apoio. São elas Retiros Espirituais, Copo Vazio e Meu Amigo Meu Herói, sendo que na segunda Nando só canta, e na terceira, temos apenas Gil e Gal em cena. De resto, são os três de pé, com Nando tocando violão com cordas de aço e o autor de Realce valendo-se de cordas de nylon no seu instrumento.

Das 25 músicas que integram o repertório do show, 12 são de Gil, 9 de Nando, uma é parceria entre Gil e Nando (a ótima Tocarte) e três são sucessos do repertório de Gal. Além de Tocarte, são inéditas Trinca de Ases (Gil), espécie de canção-tema do show composta por sugestão de Nando e claramente inspirada nos Rolling Stones (com direito a citação de Satisfaction por parte de Gal) e a já citada Dupla de Ás (Nando).

O show, com quase duas horas de duração, equivale a uma deliciosa viagem por momentos importantes das carreiras dos três devidamente atualizados e adaptados para o contexto do trio. O ótimo desempenho dos músicos de apoio ajuda a concretizar de forma brilhante o conceito inicial de Gil, e também a disposição que Gal tinha de ver elementos rockers incorporados ao projeto. O entrosamento de Gil e Nando nos violões é muito bom, com os timbres distintos de seus instrumentos se encaixando de forma harmônica e rica, sem virtuosismos tolos.

Com vitalidade e energia elogiáveis para dois setentões e um cinquentão, o trio cativa com recriações muito boas de maravilhas do porte de Palco, All Star, Esotérico, Cores Vivas, Pérola Negra (incluída no repertório após a morte de seu autor, Luiz Melodia), Refavela, Nos Barracos da Cidade, O Segundo Sol e A Gente Precisa Ver o Luar.

Há durante o show algumas arestas não aparadas que poderiam ter dado ao trabalho, se devidamente ajustadas, um formato mais, digamos assim, “limpinho”, mas uma das graças deste Trinca de Ases é exatamente esse, sentir onde os três se completaram por inteiro e onde soam como água e óleo, sem se misturar com tanta simplicidade. Prova de que Gil, Nando e Gal não tiveram medo de ousar e experimentar, conquistando dessa forma uma consistência artística que torna esse projeto histórico por fato, por direito e por merecimento artístico.

Trinca de Ases (ao vivo)- Gil, Nando & Gal:

Roberta Sá lança prévia de CD com canções de Gilberto Gil

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Por Fabian Chacur

Roberta Sá disponibilizou nas plataformas digitais o primeiro single extraído de um projeto mais do que especial que lançará em breve. A canção chama-se Afogamento, e é um dueto da cantora potiguar com o autor dessa música, ninguém menos do que Gilberto Gil. O álbum, ainda sem titulo definido e que será seu sexto de estúdio em mais de 15 anos de carreira, trará apenas composições inéditas do seminal astro baiano.

A ideia deste CD surgiu durante encontros ocorridos entre Gil e Roberta na casa do saudoso jornalista Jorge Bastos Moreno. A canção Afogamento, por sinal, é uma parceria de Gil e Moreno. Giro é outra canção inédita, de um total de onze que o eterno tropicalista escreveu com vários parceiros especificamente para este álbum.

Bem Gil, filho do autor de Realce, é o produtor do disco. Em Afogamento, ele toca percussão, ao lado de Alberto Continentino (baixo), Domênico Lancellotti (bateria/MPC), Joana Queiróz (clarinete), Bruno Di Lullo (sintetizador) e o próprio Gilberto Gil (violão e voz). A envolvente canção integra a trilha da novela global Segundo Sol.

Com 37 anos de idade, Roberta Sá nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e está radicada no Rio de Janeiro desde os 9 anos de idade. Seu primeiro CD, Braseiro, saiu em 2005. Desde então, cativou um público fiel investindo em MPB de alta qualidade artística. Com grande prestígio entre os colegas, também tem no currículo dois DVDs, dois discos ao vivo e mais de dez músicas integrando trilhas de novelas e filmes.

Afogamento– Roberta Sá e Gilberto Gil:

Anitta não cabia em um show de total excelência artística

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Por Fabian Chacur

Repercute e ainda repercutirá por muito tempo a participação da cantora carioca Anitta no show de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, realizado na noite desta sexta-feira (6) no estádio do Maracanã. Uns dizem que ela não poderia estar presente no show. Outros, que ela representa o que há de mais moderno e popular na música brasileira atual. Os fãs vibraram; os detratores baixaram a lenha. E aí, qual seria a posição mais sensata para essa análise?

Para mim, o xis da questão reside no fato de que a abertura de um evento de proporções mundiais e visto por bilhões de pessoa via TV pelo mundo afora só deveria comportar a excelência do país em todos os aspectos. Incluindo a parte artística. E é aí que a coisa pega em relação à escalação da jovem cantora e compositora de 23 anos para atuar ao lado de dois gênios da arte brasileira, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

É preciso respeitar Anitta, antes de tudo. Não é fácil chegar ao topo das paradas de sucesso e se manter por lá por tipo três anos, como a intérprete de Bang e Show das Poderosas está conseguindo. Isso é fruto do trabalho da gravadora Warner e de quem gerencia a sua carreira, claro, mas se ela não tivesse talento algum, obviamente não daria certo por tanto tempo. E para quem acha três anos pouco, isso é uma eternidade no mundo do show business, no qual reputações e carreiras começam e terminam mais rápido que o tempo para ler este parágrafo.

No entanto, é nítido que Anitta é ainda uma artista em formação. Não se trata de uma espécie de talento inato que surgiu de forma rápida e se consolidou a jato. São raríssimos os artistas com esse dom. E não há problemas em relação a isso, pois cada um amadurece no seu tempo. No entanto, quando se trata de escolher alguém que represente não só uma nação, mas uma cultura que é repleta de grandes talentos, não dá para escolher alguém com esse status.

Para vestir a camisa de um elenco de cantoras que já teve Elis Regina, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e tantos outros talentos absurdos, não dá para se colocar uma novata promissora. Era missão para Gal Costa, Ivete Sangalo, Maria Bethânia, alguém com essa estatura. Ou, se fosse o caso de colocar alguém mais jovem cronologicamente, que se optasse por Vanessa da Mata, Céu ou Maria Rita, essas, sim, novas, mas já com trajetórias sólidas.

Anitta não se saiu mal interpretando Isso Aqui o Que É, clássico de Ary Barroso, ao lado de Caetano e Gil. Não desafinou, não errou letra, nada desse gênero. Merecia uma nota seis, seis e meio, algo assim. Mas, pelo amor de Deus, esse show era coisa para nota dez! Se você tem quem possa ganhar a medalha de ouro, pra que apostar em alguém que só pode nos proporcionar a de bronze, ou nem isso? É simples assim. Valeu, Anitta, mas não deu pra você, com todo o respeito.

Isso Aqui o Que É– Caetano Veloso:

Isso Aqui o Que É– Joyce Moreno:

Isso Aqui o Que É– Emilio Santiago:

CD de 1969 de Gilberto Gil volta remasterizado

Por Fabian Chacur

A Universal Music acaba de selecionar mais um título importante da nobre discografia de Gilberto Gil e dar nele um banho de loja em termos visuais e tecnológicos. Desta vez, trata-se de Gilberto Gil, lançado originalmente em 1969 e gravado em um período particularmente terrível na vida do cantor, compositor e músico baiano.

As gravações foram realizadas nos meses de abril e maio daquele ano, período no qual Gil estava confinado na Bahia, após ter sido preso ao lado do Mano Caetano em dezembro de 1968 e ficado no Rio longe de seus familiares, amigos e dos inúmeros fãs Brasil afora. A Ditadura Militar os encarcerou de forma arbitrária. Felizmente eles saíram vivos para contar a história.

Sem poder sair de Salvador depois de ser solto e antes do exílio posterior em Londres, Gil gravou voz e violão por lá, nos estúdios J.S., com o acompanhamento instrumental sendo registrado nos estúdios Scatena, em São Paulo, e Phillips, no Rio. Os arranjos e orquestrações ficaram a cargo do genial maestro Rogério Duprat. Felizmente, essa separação geográfica não transmitiu frieza aos registros. Pelo contrário.

O time que participou do CD é conciso e excepcional. No baixo elétrico, o ótimo Sérgio Barroso. Na guitarra, Lanny Gordin, que deu um tempero hendrixiano ao álbum. O também maestro Chiquinho de Moraes arrasou nos teclados, enquanto o lendário Wilson das Neves, hoje conhecido como o “baterista do Chico Buarque”, deu um banho de swing com as baquetas.

No geral, o álbum traz letras que falam muito de futuro, de ficção científica e da relação homem-máquina, com direito a uma sonoridade pontuada pelo rock and roll a la Jimi Hendrix, mas também com muito forró, samba, jazz, experimentalismo e o que pintasse.

O momento máximo é a contagiante Aquele Abraço, samba exaltação no qual Gil bota pra fora, com muita garra e um pouco de raiva, a energia negativa acumulada durante a prisão, com direito aos versos “o meu caminho eu mesmo traço”. Um dos melhores sambas de todos os tempos, possivelmente o maior sucesso da brilhante trajetória de Gil Black Gil.

Mas o CD tem muito mais, como a empolgante Cérebro Eletrônico, a deliciosa Volks-Volksvagen Blue, a releitura roqueira do baião 17 Légua e Meia (de Humberto Teixeira e Carlos Barroso), a gostosa 2011 (de Tom Zé e Rita Lee), a misteriosa Futurível, a irônica A Voz do Vivo (de Caetano) e a filosófica Vitrines.

Gil reservou para o final Objeto Semi-identificado, feita em parceria com Rogério Duarte e Rogério Duprat e, guardadas as devidas proporções, sua faixa equivalente a Revolution Nº9, dos Beatles, com direito a jeitão de música concreta, trechos musicais de várias origens e a leitura de textos filosóficos e intrincados.

O encarte traz as letras, ficha técnica e reprodução do material incluído na edição original em vinil. A capa não inclui foto do artista, cuja cabeleira afro havia sido raspada pelos militares que o aprisionaram. O desenho e os textos que estão nessa capa tornam a aura do álbum ainda mais enigmática e experimental.

O conteúdo musical criativo e original, no entanto, não perde nada em fluência e capacidade de ser compreendido pelo ouvinte médio. Gilberto Gil (1969) é seguramente um dos melhores discos do autor de Expresso 2222, e soa tão instigante nesse sofrido 2013 como soava naquele também sofrido (por outras razões, obviamente) 1969.

Aquele Abraço, Gilberto Gil:

Cérebro Eletrônico, Gilberto Gil:

17 Légua e Meia, Giberto Gil:

Expresso 2222 volta em reedição luxuosa

Por Fabian Chacur

Álbum que marcou a volta de Gilberto Gil ao Brasil em 1972 após um exílio involuntário de quase três anos, Expresso 2222 volta às lojas em luxuosa edição comemorativa remasterizada e com reprodução da embalagem original do álbum, incluindo encarte com letras e ficha técnica completa. Estão à venda versões em CD e LP de vinil. O comentário de Mondo Pop a seguir leva em conta a edição em CD.

A qualidade de áudio ficou muito boa, ressaltando os elementos acústicos imprimidos à obra, enquanto a parte visual mereceu um apuro técnico elogiável. O único ponto fraco fica por conta da exclusão das faixas bônus da reedição anterior, mantendo apenas as nove faixas do disco original. Ficaram de fora, portanto, Cada Macado No Seu Galho (Cho Chuá), Vamos Passear no Astral e Está na Cara Está na Cura.

O álbum abre com a interpretação instrumental rústica e cativante de Pipoca Moderna (Caetano Veloso e Sebastiano Biano), com a Banda de Pífaros de Caruaru, como que apresentando as raízes da música nordestina em sua forma mais crua e em seu habitat natural.

Logo a seguir, temos Back In Bahia (Gil), um rockão com a cara de 1972 e cuja letra fala sobre esse retorno do tropicalista a seu país. A seu lado, uma banda composta por Lanny Gordin (guitarra), Bruce Henry (baixo), Antonio Perna (teclados) e Tutty Moreno (bateria).

O Canto da Ema (Ayres Viana, Alventino Cavalcante e João do Vale) surge como uma espécie de síntese entre a crueza de Pipoca Moderna e eletricidade de Back In Bahia, propondo uma mistura da tradição do forró com a modernidade do rock. O resultado é empolgante, com direito a um forró sacudido sem a presença de seu instrumento primordial, a sanfona.

Clássico do repertório de Jackson do Pandeiro, Chiclete Com Banana já propunha há mais de uma década o que Gil pôs em prática nesse disco, a mistura do chiclete americano com a banana tupiniquim, e ganha aqui uma versão beirando o lado mais rítmico e interessante da bossa nova. Metalinguagem de primeiríssima linha. Ele e Eu é outro momento rock and roller de Gil e seus músicos, com direito a tempero brasileiro e blueseiro.

Sai do Sereno (Onildo Almeida) é outra bela tentativa bem-sucedida de fundir forró e rock, com direito aos vocais de uma endiabrada Gal Costa duelando com Gil e dando uma vitaminada geral na mistura, com direito a uns surpreendentes acordes e convenções jazzísticas aqui e ali, fruto do imenso talento de Lanny Gordin.

A parte final do álbum nos oferece três faixas nas quais a incrível habilidade de Gilberto Gil como violonista e cantor ficam exacerbadas. A incrivelmente rítmica faixa título equivale a um roteiro da viagem feita durante todo o álbum, um mergulho futurista em uma nova dimensão na qual a miscigenação sonora inteligente e criativa não tem fim.

Se em Expresso 2222 o genial astro baiana ainda se vale de alguma percussão, em O Sonho Acabou e Oriente é só ele, no melhor esquema voz e violão. E aí, a viagem se torna simplesmente irresistível. A primeira se vale da célebre frase de John Lennon e de certa forma ironiza o fim de um sonho que, na verdade, estava mais do que vivo naquele momento.

E já que toquei no tema metalinguagem, Oriente utiliza esse recurso com habilidade impressionante, brincando com as possibilidades da palavra em termos geográficos (influências orientais permeiam os acordes tocados por Gil no violão) e existenciais (se oriente, rapaz). Viajante, a faixa fecha o álbum com um quê de psicodelismo.

Expresso 2222 consegue abrigar minimalismo, modernidade, fusão de várias tendências músicais, genialidade dos músicos e um Gilberto Gil em estado de graça como compositor, violonista, cantor e intérprete de material alheio. Um álbum simplesmente maravilhoso, indispensável para os fãs de música sem fronteiras e sem amarras.

Expresso 2222, com Gilberto Gil, ao vivo em programa na Globo em 1972:

Tropicália disseca Tropicalismo com maestria

Por Fabian Chacur

De todos os movimentos ocorridos na história de nossa riquíssima música popular, o Tropicalismo certamente segura o estandarte de o mais polêmico, influente e original. Mais de 40 anos após seu surgimento nos efervescentes anos 60, esse importante capítulo de nossa cultura permanece relevante e atraindo as atenções gerais.

Tropicália, documentário dirigido pelo experiente e competente Marcelo Machado, estreará nos cinemas paulistanos nesta sexta-feira (14) com a missão de oferecer ao público a oportunidade de conhecer melhor o que representa essa palavra de sonoridade agradável e imediatamente associada ao nosso “País Tropical abençoado por Deus”, como diria Jorge Ben.

O principal mérito da produção é conciliar, de forma inteligente e impecável, uma apresentação fluente do Tropicalismo oferecida a quem não o domina e a busca por elementos inéditos ou pouco divulgados para satisfazer quem conhece o tema de forma mais apurada.

Sem cair em um didatismo que poderia tornar o filme enfadonho, Tropicália proporciona ao espectador uma visão abrangente do movimento que ajudou a quebrar as barreiras entre estilos musicais e culturais até então considerados opostos. Graças ao Tropicalismo, rock, bossa nova, bolero, música erudita de vanguarda e jazz (para citar apenas alguns gêneros musicais) puderam dialogar em um mesmo contexto de forma livre e ousada.

Para contar essa história, Machado e sua equipe mergulharam em pesquisas que resgataram registros inéditos ou raríssimos por aqui de momentos importantes dos artistas envolvidos. Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, aparecem dando entrevista a uma emissora de TV portuguesa em 1969, e em Londres em meio a seu exílio imposto pela Ditadura Militar.

Os cantores também são flagrados em uma desconhecida por muita gente participação no palco do mitológico festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, evento que também incluiu figuras mitológicas como Jimi Hendrix, The Who, Miles Davis e The Doors, entre outros. Caetano e seus parceiros cantam Shoot Me Dead. De arrepiar.

Além dessas cenas garimpadas nos mais diversos arquivos, também temos entrevistas atuais com Caetano, Gil, Tom Zé, Gal Costa, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e outros protagonistas do Tropicalismo. Em alguns momentos, o filme mostra Caetano, por exemplo, vendo algumas daquelas cenas raras e interagindo com elas.

Lógico que a música come solta durante os 82 minutos de duração do filme, entre as quais uma interpretação ao vivo simplesmente arrasadora de Back In Bahia, um dos clássicos composto por Gil e relacionado a seus dias de exílio londrino.

Tropicália é um documentário essencial para quem deseja entender os caminhos da música brasileira nessas décadas todas. Não vejo a hora do lançamento em DVD, principalmente se tivermos extras aproveitando material que ficou de fora da edição final. Deve ter muita coisa boa adicional nessa geleia geral pesquisada pela troupe da Bossa Nova Filmes.

Veja o trailer de Tropicália, de Marcelo Machado:

Sete décadas de Gilberto Gil: aquele abraço!

Fabian Chacur

A vida é assim. No post anterior, lamento os três anos da morte de Michael Jackson, um dos grandes gênios da história da música pop. Neste, para minha felicidade, celebro os 70 anos de idade que outro mito musical, Gilberto Gil, completará nesta terça-feira (26).

O cantor, compositor e músico soteropolitano aproveitou muito bem esses anos todos. Tornou-se conhecido na década de 1960, sendo um dos criadores do Tropicalismo, um dos movimentos mais criativos e particulares da história da nossa música e ainda influente e atual em pleno 2012.

A partir da década de 1970, mostrou-se sempre inquieto e aberto a outros estilos musicais, incorporando com originalidade e talento rock, reggae, funk, soul, música africana e o que mais chegasse ao seu delicioso coquetel molotov sonoro.

Muita coisa boa para relembrar: os discos produzidos por Liminha que ajudaram a delinear os rumos do pop-rock brasileiro; a versão Não Chore Mais (No Woman No Cry), que abriu as portas do Brasil para Bob Marley; a parceria com os Paralamas do Sucesso (A Novidade); a turnê com Jimmy Cliff; Tropicália 2 com Caetano Veloso etc (e tome etc!).

Compositor versátil e refinado, músico espetacular (especialmente tocando violão), cantor de voz deliciosa e versátil, Gil sempre teve como marca registrada a maestria com a qual se apresenta ao vivo, contagiando, cativando e hipnotizando fãs do Brasil e do mundo com seu swing. Que Deus deu, que Deus dá! E tome suor!

Como todo profissional, teve seus altos e baixos, mas fez tanta coisa boa que dá para deixar os momentos não muito inspirados para lá. E também ignorar sua atuação na política, levando-se em conta que, lá, nosso heroi acabou sendo apenas mais um. Mas é melhor deixar esse tema para outros analisarem. Minha praia é a musical, e nela, Gil é rei!

Ouça Realce, com Gilberto Gil:

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