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Recado, de Gonzaguinha, celebra 40 anos se mantendo essencial

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por Fabian Chacur

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (1945-1991) teve como marca a sensibilidade à flor da pele. Essa característica o levava a atingir os extremos, indo do extremamente ácido ao incrivelmente doce às vezes em uma mesma canção. Puro coração. Sujeito que se indignava com as injustiças, que tinha paixão por se apaixonar, por viver, por “andar por esse país pra ver se um dia descanso feliz”, como bem retratam os versos de Vida de Viajante, parceria do pai Gonzagão com Hervê Cordovil que fez grande sucesso em 1979, em versão incluindo pai e filho nos vocais.

Sua poesia era direta e sem rodeios, enquanto em termos melódicos e rítmicos suas canções apresentavam influências de música nordestina, jazz, rock, bossa nova, samba, bolero e o que mais aparecesse.

Em uma discografia repleta de preciosidades, Recado, lançado em 1978 e seu sexto álbum, se sobressai por várias razões, a começar pela maravilhosa faixa título, espécie de carta de intenções de Gonzaguinha enquanto ser humano. “Se é para ir, vamos juntos, se não é já não tô nem aqui”, finaliza esse clássico da MPB, com sua levada bossa nova e o piano marcante de Gilson Peranzzetta, conhecido por também participar de discos essenciais de Ivan Lins, um dos raros parceiros de Gonzaguinha e seu amigo fiel desde sempre.

A única composição alheia é O Que Foi Feito Devera, de Milton Nascimento (provavelmente o maior ídolo do artista carioca) e Fernando Brant, relida de forma brilhante e com a participação do próprio Milton no violão e vocais.

O romantismo intimista é a marca de Lindo, balada jazzística sublime em sua sutileza, enquanto a mãe do astro carioca, uma cantora da noite que morreu quando ele era ainda muito criança, vítima de tuberculose, é homenageada de forma tocante em Odaléia Noites Brasileiras, balada voz e piano.

A indignação do artista com a infeliz e então recente declaração dada por Pelé, dizendo que, para ele, “brasileiro não sabe votar”, gerou E Por Falar No Rei Pelé…, uma espécie de “MPB heavy metal” na qual ele toma as dores do povão, com versos ácidos e certeiros como “craque mesmo é o povo brasileiro carregando esse time de terceira divisão”.

E o final fica com a magnífica Petúnia Resedá, sacudida mistura de rock e forró que fez sucesso na releitura de Simone. E tem a voz. Fora dos padrões convencionais, Gonzaguinha cantava com paixão, assinatura própria e muita, mas muita personalidade. Lá do fundo, das entranhas, paixão total.

E vale destacar também o elenco de músicos presentes neste álbum. Além de Gilson Peranzzetta nos teclados, também temos Fredera (guitarra), Toninho Horta (guitarra), Luis Alves (baixo), João Cortez (bateria), Danilo Caymmi (flauta), Mauro Senise (flauta), Paulo Jobim (flauta), Ronaldo Alvarenga (percussão) e Novelli (baixo), com produção a cargo do compositor Ronaldo Bastos, parceiro de Milton Nascimento em vários clássicos da MPB.

Recado é daqueles discos padrão vinho: sua audição melhora, com o decorrer dos anos. Clássico da MPB que você precisa conhecer, ouvir de novo e degustar com prazer. E paixão, obviamente.

Recado- Gonzaguinha- ouça o álbum em streaming:

Roberta Spindel canta os hits do genial Gonzaguinha no Rio

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Por Fabian Chacur

A cantora Roberta Spindel, em parceria com o cantor, ator e produtor Marcus Brandão, estrela o show Começaria Tudo Outra Vez- Um Tributo ao Cantor Gonzaguinha, que tem como objetivo homenagear um dos maiores nomes da história da MPB que nos deixou há 25 anos, em um triste 29 de abril de 1991. O espetáculo será realizado no Rio nos dias 22 e 29, duas sextas-feiras, sempre às 21h, no Paris Show- Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa (Praia do Flamengo, nº 340- Flamengo-RJ- fone 0xx21-2551-1278), com ingressos custando R$ 80,00.

No repertório, alguns dos momentos mais impactantes da carreira de Gonzaguinha, como De Volta Ao Começo, Redescobrir, Explode Coração, Grito de Alerta, O Homem Chegou e Eu Apenas Queria Que Você Soubesse, entre outras maravilhas. No acompanhamento, uma banda integrada por Guilherme Menezes (guitarra e direção musical), Gabriel Gravina (piano), Victor Brun (piano), Bruno Marques (flauta), Ares D’Athayde (bateria) e Carlos Henrique de Souza (baixo).

Roberta ficou conhecida a partir de 2008 ao participar dos musicais Cazuza- Jogado a seus Pés, A Feliz Árvore de Natal e Por Uma Noite- Um Sonho Nos Bastidores da Broadway. Em 2011, lançou seu primeiro CD solo, Dentro do Meu Olhar, com produção de Max Pierre, repertório com músicas de Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento e Gilberto Gil e a participação especial de Caetano em Como Dois e Dois.

Duas de suas gravações foram incluídas em trilhas de novelas globais, Esquinas (Morde & Assopra) e Se Eu Quiser Falar Com Deus (Amor Eterno Amor), enquanto Unwritten entrou na trilha de Bicho do Mato, da Record. Ela lançou recentemente Fina Flor, sua primeira música autoral, com produção a cargo do experiente Nilo Romero, que trabalhou com Cazuza. O segundo álbum já está a caminho.

Esquinas– Roberta Spindel:

Se Eu Quiser Falar Com Deus– Roberta Spindel:

Fina Flor (ao vivo, voz e violão)- Roberta Spindel:

Projeto gera o CD que não faz juz ao talento de Gonzaguinha

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Por Fabian Chacur

Estou com o CD Gonzaguinha Presente- Duetos há meses na pilha daqueles trabalhos a serem ouvidos, sempre sendo precedido por outros trabalhos e deixado para trás. A razão era simples: estava com medo de ouvir o resultado final. Agora, finalmente resolvi acabar com essa história e conferir essa obra. Meus temores infelizmente se confirmaram. São várias as razões que tornam esse álbum totalmente desnecessário e infeliz.

Desde o estouro em 1991 de Unforgettable, dueto proporcionado pela moderna tecnologia entre a cantora Natalie Cole e seu pai Nat King Cole (falecido em 1965), vários outros projetos similares tomaram o mundo. Aqui, o conceito é o mesmo: a voz de Gonzaguinha (1945-1991) foi extraída de 14 gravações feitas originalmente em estúdio e ao vivo e disponibilizada pelo produtor Miguel Plopschi para que novos instrumentos e arranjos fossem acrescentados, assim como somadas às vozes de 14 convidados especiais.

Logo de cara, vale o questionamento ético. O autor de Recado e tantos outros clássicos da MPB era um sujeito de personalidade forte. Como teria ele encarado o elenco escalado para esses duetos? Teria curtido ouvir sua voz utilizada à revelia em um trabalho cujo objetivo básico pode até ser uma homenagem justa, mas que no fim das contas tem como grande objetivo vender discos e downloads, ou seja, faturar?

Deixando essas questões de lado, chega a hora de conferir o resultado. E aí é que a coisa pega de vez. Logo de cara, vale ressaltar que alguns dos vocais do homenageado foram extraídos de versões ao vivo que não são as melhores dessas canções, como a de Espere Por Mim Morena, provavelmente para tentarem criar um clima mais descontraído e facilitando teoricamente a qualidade dos duetos. Não rolou, não.

A escolha dos convidados é bem abrangente, o que tem a ver com o espírito nada preconceituoso de Gonzaguinha, que era fã de artistas populares como Joanna e Agnaldo Timóteo (ambos deveriam estar em um projeto como esse, por sinal). Mas o desempenho de alguns deles é quase constrangedor, sendo os casos mais explícitos os de Ana Carolina em Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração) (exagero puro), Luiza Possi em Recado (totalmente insossa) e Victor & Leo em Espere Por Mim Morena (totalmente perdidos).

No geral, as gravações são frias, sendo que os piores momentos ficam por conta das tentativas de interação “além túmulo” entre os convidados e Gonzaguinha, como as de Zeca Pagodinho em E Vamos à Luta e de Alexandre Pires em O Que É O Que É. Fica difícil entender como Daniel Gonzaga, filho do homenageado, entrou nessa, fazendo dueto tecnológico com o pai e o avô Gonzagão em A Vida do Viajante. Dá arrepios negativos…

Gonzaguinha merece ser louvado como um dos nomes mais expressivos da história da MPB, com suas belas canções indo do mais doce romantismo ao engajamento político-social mais ácido, sem perder a ternura jamais. Não teria sido mais decente fazer um disco com esses convidados interpretando as músicas entre si? Ou o lançamento de uma coletânea com as gravações originais? Da forma que saiu, que me perdoem, mas gerou um produto absolutamente desnecessário e constrangedor. Melhor ouvir os discos originais do autor de Recado.

Ouça sampler das faixas de Gonzaguinha Presente Duetos:

Gonzaguinha terá um tributo de Fábio Jorge em São Paulo

Fabio Jorge - Foto Marco Maximo 2015 HZ-400x

Por Fabian Chacur

Se estivesse ainda entre nós, Gonzaguinha, que nos deixou em 1991, teria completado 70 anos neste 2015. Como forma de louvar sua belíssima obra, o cantor Fábio Jorge fará nesta sexta-feira (20) às 21h no Teatro do Ator (Praça Roosevelt, nº 172- Consolação- fone 0xx11-3257-3207) o show tributo Um Mergulho na Obra de Gonzaguinha- Eu Apenas Queria Que Você Soubesse, incluindo apenas canções do autor de Explode Coração e de tantos outros clássicos da MPB. Os ingressos custam R$ 40,00.

Para Fábio, a homenagem que fará ao cantor, compositor e músico carioca nascido em 1945 é repleta de justificativas. “Considero Gonzaguinha um dos cinco maiores compositores do Brasil. Versátil e sensível, em sua obra abraçou todas as verves do cotidiano: sócio-político, sentimental, cronista ou tão apenas um expectador da vida, celebrando a mesma em todos os seus aspectos, festivos ou contemplativos, irônicos ou sinceros”.

O espetáculo contará com as participações especiais das consagradas cantoras Claudette Soares e Milena. Vale lembrar que Fábio gravou Jeu de Blâme, versão em francês para Grito de Alerta, de Gonzaguinha, em seu CD Chanson Française 2 (2011). Com dez anos de careira, o artista lançou três CDs solo, e cita como influências Edith Piaf, Charles Aznavour, Paralamas, Cazuza, Guilherme Arantes e Zizi Possi.

Bravo Pour Le Clown (ao vivo)- Fabio Jorge:

La mer (ao vivo)- Fábio Jorge & Orquestra Pinheiros:

As boas memórias que tenho desse incrível Gonzaguinha

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Por Fabian Chacur

Se ainda estivesse entre nós em termos físicos (porque no aspecto espiritual nunca saiu daqui), Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, completaria 70 anos nesta terça-feira (22). Tenho ótimas recordações desse cara, que ainda hoje é um dos meus grandes ídolos no cenário musical. Logo de cara, vale lembrar que foi dele o primeiro show que vi, ao vivo, na minha vida. E não poderia ter começado melhor.

O espetáculo ocorreu em um domingo de 1979 no Teatro Procópio Ferreira, situado na rua Augusta, nº 2.823 em São Paulo e sempre associado ao fato de ter sido palco, durante anos, das gravações do programa humorístico global Sai de Baixo. Comprei meu ingresso algumas horas antes do show, para me garantir.

A casa estava cheia. Fui sozinho, e fiquei na parte de trás da plateia. O show foi simplesmente maravilhoso. Adorei mesmo. Gonzaguinha e sua banda mandaram bala, tocando músicas de seus discos anteriores e, especialmente, de Gonzaguinha da Vida, que ele estava divulgando naquela turnê. E rolou um incidente que serve como prova do temperamento incisivo do artista.

Em determinado momento, ele citou o nome de um artista veterano (Angela Maria, Nelson Gonçalves ou alguém dessa mesma geração- n.da.r>: na verdade, foi o Agnaldo Timóteo, segundo o leitor de Mondo Pop Peninha-Wagner, que também estava lá. Valeu, amigo!), e ficou surpreso ao ouvir vaias. Pouco depois, falou o nome do pai ilustre, o eterno Gonzagão, e aí as palmas vieram, fáceis. Ele não perdoou, e no fim do show, chamou a atenção do público, exigindo respeito para com esses nomes “das antigas”. Um puxão de orelhas feito com classe.

Em 1983, fui a um show ao ar livre no Parque do Ibirapuera, e lá estava ele, Gonzaguinha da Vida, dividindo o palco com Blitz, Dalto, Lauro Corona (???) e outros. Naquele momento, nem podia imaginar que, quatro anos depois, teria a oportunidade de entrevista-lo. Mas isso ocorreu, quando o artista divulgava seu álbum ao vivo Geral (1987).

A entrevista ocorreu no extinto hotel Bristol, que ficava no início da rua Augusta. Era para ser uma coletiva, mas no fim estavam presentes apenas dois jornalistas: eu e o repórter Dílson Osuji, que trabalhou em grandes órgãos de imprensa, como o Jornal da Tarde. E ali, tive a chance de conferir in loco o temperamento apimentado do artista.

Durante boa parte da entrevista, rolou uma troca de farpas entre Gonzaguinha e Dílson, no melhor estilo “tapas com luva de pelica”. E eu com a bandeirinha da paz, no meio do tiroteio, apenas querendo fazer perguntas para aquele cara que eu idolatrava há tanto tempo. No fim da entrevista, pedi um autógrafo no LP Geral. “Um autógrafo?”, perguntou ele. Eu gelei, mas ganhei o mimo, que guardo até hoje, com orgulho. Só fui saber muitos anos depois que Gonzaguinha não era muito fã de dar autógrafos…Escapei de boa!

Em 1988, já como repórter do Diário Popular, fui cobrir uma entrevista coletiva do autor de Explode Coração no hotel Maksoud Plaza. Lá, tive meu segundo contato com Gonzaguinha, e desta vez, o papo fluiu de forma gostosa e produtiva. No fim, não resisti e perguntei se ele lembrava de mim e da entrevista anterior. Ah, ele lembrava, sim!

“Lembro muito bem daquela entrevista. Aquele cara era muito arrogante, e fiz questão de responder à altura, não tinha nada a ver com você”. Menos mal! E por volta de 1990, tive a terceira e última oportunidade de conversar com o meu ídolo. Desta vez foi uma exclusiva em um apart hotel nos Jardins, e mais uma vez foi ótimo. Ele me disse que curtia ficar ali pois tinha a alternativa de cozinhar ele próprio, se lhe desse na telha. Figuraça!

Um artista bastante peculiar, talentoso e único

Gonzaguinha pode ser considerado um dos artistas mais polêmicos e de personalidade mais forte na história da música popular brasileira. Ninguém é apelidado “cantor rancor” por acaso. Mas também ninguém foi tão perseguido por censores e críticos durante suas quase três décadas de carreira como esse artista, nascido no Rio em 22 de setembro de 1945.

O curioso é pensar que Gonzaguinha era quase o oposto do pai famoso. Gonzagão sempre teve como marca a simpatia e a capacidade de se dar bem com todos. Luiz Gonzaga Júnior não era assim. Pé na porta em algumas ocasiões, sempre falava o que pensava de forma direta e sem meias palavras. Sua música Recado é bem representativa dessa forma de ser: “se é para ir, vamos juntos, se não é já não tô nem aqui”.

Em termos musicais, Gonzaguinha fazia uma bela mistura de samba, bossa nova, ritmos nordestinos, ritmos latinos (especialmente o bolero) e até mesmo um pouco de rock e pop no meio. Com sua voz marcante e de timbre inconfundível, sabia ir de um extremo ao outro, do amor mais generoso à denúncia social mais dura e agressiva. Sem rodeios.

A poesia desse grande cantor, compositor e músico era digna do seu temperamento. Nada de muito rebuscado, mas sempre levada pela emoção e pelo compromisso com o povo que tanto amava. Um bom exemplo é a irada e quase heavy metal E Por Falar no Rei Pelé, que fez após ter ficado puto com a declaração do Rei do Futebol dizendo que “o povo não sabe votar”.

Encarou a Ditadura Militar de frente, com músicas fortes como Comportamento Geral, mas enterneceu os corações mais românticos com Espere Por Mim Morena, Começaria Tudo Outra Vez, O Lindo Lago do Amor e Explode Coração. E era o profeta da esperança, do eterno recomeço, eternizado nas vibrantes É e O Que É O Que É.

Uma de suas marcas como compositor era ser bastante autorreferente, citando trechos de suas próprias canções em obras posteriores, dando continuidade e reforçando ideias defendidas anteriormente e fazendo algumas músicas que podem ser consideradas claras continuações de outras, como Diga Lá Coração, por exemplo, espécie de inspirada sequência de Espere Por Mim Morena.

Tem também o espírito desbravador e estradeiro dele, o de “minha vida é andar por esse país pra ver se um dia descanso feliz”, canção do repertório do pai que regravou com ele e que falava muito sobre sua forma de viver. Gostava de fazer shows pelo Brasil afora, e é uma trágica ironia pensar que ele morreu em uma dessa viagens, em acidente próximo à cidade de, olha só o nome, Renascença, no Paraná.

Poucos artistas conseguiram agradar simultaneamente o povão e o público mais sofisticado como Gonzaguinha, e a prova é ver a ampla e abrangente lista de artistas que o gravaram, indo de Maria Bethânia a Joanna, de Elis Regina a Ângela Maria, de Erasmo Carlos a Daniel. Como diria Zeca Pagodinho, ele sabia falar a linguagem do povão e sabia falar a linguagem do bacana.

O legado desse grande artista é uma obra rica e perene que merecia ser mais reverenciada, tal a sua consistência. Romântico, engajado, sonhador, agressivo, ele soube como poucos transformar em canções as emoções, os sonhos e as ambições positivas desse verdadeiro continente que é o Brasil. Um brilhante artista brasileiro com bê maiúsculo, ontem, hoje e sempre!

E Por Falar No Rei Pelé– Gonzaguinha:

Espere Por Mim Morena– Gonzaguinha:

Com a Perna No Mundo– Gonzaguinha:

Recado– Gonzaguinha:

Lindo Lago do Amor– Gonzaguinha:

Gonzagão, o centenário de um gênio popular

Por Fabian Chacur

Nesta quinta-feira (13), Gonzagão, o rei do baião, um dos grandes gênios da história da música popular mundial, completaria 100 anos. Morto em 2 de agosto de 1989, aos 76 anos, ele nos deixou um legado extremamente precioso, e continua sendo influência forte no meio musical.

O músico, compositor e cantor pernambucano é o grande responsável por incorporar de uma vez por todas a sanfona no seio da nossa música, e também de popularizar em termos nacionais os ritmos nordestinos, especialmente o baião, do qual é o eterno patrono. Aliás, de tudo que venha desse veio criativo de nossa música, como forró, xaxado e o que seja.

Curiosamente, ele precisou se mudar para o Rio de Janeiro, em 1939, para, distante do rincão natal, ter percebido que só mergulhando de cabeça nas sonoridades de sua região é que ele poderia se tornar especial. Seu coquetel musical composto por muito ritmo e melodias belíssimas ganharia o mundo a partir dos anos 40.

Em parceria com o brilhante advogado e poeta Humberto Teixeira, compôs Asa Branca (1947), uma canção simplesmente emblemática. Na interpretação de Gonzagão, ela consegue conciliar um ritmo ágil e dançante a uma letra cortante que retrata a dura despedida do nordestino de sua terra seca e agreste, sonhando com o retorno.

A melodia de Asa Branca consegue conciliar uma beleza arrebatadora a uma aparente simplicidade total, que permitiu a ela atravessar o planeta e cativar fãs por todos os cantos. Um verdadeiro hino do Brasil profundo, ainda atual.

Com letristas inspirados como Humberto Teixeira, Zé Dantas e Hervé Cordovil, Gonzagão escreveu músicas fantásticas como Baião, Respeita Januário, Xote das Meninas e A Vida do Viajante, entre inúmeras outras, vivendo seu auge criativo nas décadas de 40 e 50.

Depois de passar a década de 60 e boa parte da de 70 mais longe das paradas de sucesso, o eterno Rei do Baião voltou à cena com força total ao regravar com o filho Gonzaguinha A Vida do Viajante, o que lhe abriu as portas para as novas gerações. Os shows que fez com o filho e os discos que gravou com Fagner e outros fãs ilustres ajudaram a consolidar esse retorno.

Sua relação com o filho Gonzaguinha teve capítulos de muita tensão, mas Gonzagão foi o primeiro a gravar composições do filho, ainda nos anos 60, e a reconciliação entre eles no fim dos anos 70 gerou grandes trabalhos conjuntos.

De temperamento conciliador e uma simpatia impressionante, Luiz Gonzaga pode ser considerado um dos primeiros astros pop brasileiros, com direito muito carisma, talento a visual próprio, valendo-se de elementos próprios do nordestino. Sua música cativou, cativa e cativará fãs para sempre, pois veio para ficar.

Curiosidade: conheci a música de Gonzagão no meu 10 aniversário, em 25 de setembro de 1971, quando ganhei de um padrinho o compacto com a deliciosa música Ovo de Codorna, cuja letra é o depoimento de um cara maduro que busca solução para ampliar seus anos de virilidade. Um barato!

A Vida do Viajante, com Gonzagão e Gonzaguinha:

Ovo de Codorna, com Gonzagão:

20 anos sem os recados certeiros de Gonzaguinha

Por Fabian Chacur

“Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz”. Há precisos 20 anos, os versos de A Vida do Viajante se tornaram realidade: Gonzaguinha descansou feliz.

Quem não ficou nada feliz foram seus milhões de fãs, ao saberem que o cantor, compositor e músico carioca havia morrido, vítima de acidente de carro em uma estrada no Paraná.

Um jeito irônico de se morrer, pois Luiz Gonzaga Jr. adorava andar de carro e adorava viajar por esse Brasil afora, mostrando sua arte e suas canções maravilhosas para o povo de que tanto gostava.

Gonzaguinha é paixão de moleque para mim. Gosto dele desde o estouro em 1976 de Espere Por Mim, Morena, uma das mais belas declarações de amor já feitas no formato musical.

Ele é um dos meus grandes ídolos na MPB, ao lado de Ivan Lins, João Bosco, Milton Nascimento e Chico Buarque.

Para mim, uma das grandes virtudes do autor de Explode Coração era a capacidade de falar diretamente em suas letras, sem rodeios nem metáforas, indo da paixão à ironia, do romance à política, da vida ao sonho.

Sua obra era auto-referencial, com citações de suas próprias músicas permeando outras, como se reforçando conceitos, justificando convicções e dando provas de que, sim, a vida podia ser bela.

Na verdade, o título deste post está errado. Gonzaguinha, o ser humano, se foi, e cedo demais para o meu gosto, mas seus recados certeiros continuam por aí, livres, disponíveis para quem  precisa de boas mensagens. E são todos os seres humanos.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar com a certeza de ser um eterno aprendiz, eu sei que a vida devia ser bem melhor, e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita”.

Saudades eternas, seo Gonzaguinha!

Ouça O Que É, O Que É, com Gonzaguinha, ao vivo:

Saudades de Gonzaguinha – parte 2

Por Fabian Chacur

Minha segunda entrevista com Gonzaguinha foi lá pelos idos de 1988/1989, quando ele se preparava para fazer uma temporada em São Paulo.

O local do papo foi o hotel Maksoud Plaza, e desta vez, o artista estava em ótimo astral, respondendo bem às perguntas e esbanjando simpatia.

Confesso que não resisti e, ao final da coletiva, fui até ele e comentei acerca da má impressão que eu tinha tido dele após aquele primeiro contato, em 1987, no hotel Bristol.

“Lembro-me muito bem daquela entrevista .É que aquele cara começou a me provocar e eu não resisti, fui irônico com ele, respondi à altura, não era nada com você, não”, comentou ele.

A terceira e última entrevista ocorreu meses depois, em um flat localizado na região dos Jardins. Essa foi exclusiva, na qual ele falou sobre seu trabalho mais recente.

Curiosamente, é a entrevista da qual me lembro menos, exceto por um comentário no qual ele explicou o motivo de se hospedar em um flat, que era uma espécie de modismo na época.

“Acho legal ficar aqui, pois de repente posso eu mesmo cozinhar alguma coisa para mim, fazer uma salada, fico mais à vontade”.

Em termos de shows, além daquele em 1979 no teatro Procópio Ferreira, tive a oportunidade de ver só mais um outro, em 1982.

Mas foi “o” show, em um Parque do Ibirapuera (na Praça da Paz) completamente lotado, em evento que também incluiu a Blitz, Dalto e, acredite se quiser, o ator Lauro Corona dando uma de roqueiro (de forma patética, diga-se de passagem).

Curiosamente, o volume 18 da coleçlão Grande Discoteca Brasileira, que traz como brinde o álbum Gonzaguinha da Vida (1979), que eu comentarei na parte 3 desta série, inclui fotos tanto do show de 1982 quanto de Gonzaguinha próximo ao hotel Bristol, naquele 1987.

Fiquei emocionado quando vi as duas fotos. Vai ser babaca ali adiante!

Ouça Lindo Lago do Amor, versão de estúdio, com Gonzaguinha:

Saudades de Gonzaguinha parte 1

Por Fabian Chacur

Gosto de muita coisa em termos de música popular brasileira, mas existem algumas obras pelas quais sou apaixonado, de forma passional mesmo, embora obviamente tenha espírito crítico para analisá-las.

Uma dessas paixões é o trabalho de Gonzaguinha (1945-1991), um dos nomes mais importantes e expressivos da história dessa música tão rica e tão repleta de gente talentosa que é a nossa.

Foi dele o primeiro show que assisti in loco, no já longínquo ano de 1979, no teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, durante a turnê de divulgação do excelente álbum Gonzaguinha da Vida.

Show maravilhoso, por sinal, que eu vi em um teatro lotado, lá atrás, e durante o qual o cantor teve um pequeno desentendimento com a plateia ao elogiar cantores das antigas tipo Angela Maria e ser vaiado por alguns.

“Vocês precisam aprender a respeitar esses artistas”, disse ele mais para a frente, entre uma música e outra.

Como jornalista, entrevistei pela primeira vez o autor de Recado, O Que É, O Que É e tantos outros clássicos em 1987.

O papo rolou em um hotel no centro de São Paulo (Bristol, se não me falha a memória), e tive como colega na mesa o saudoso jornalista Dilson Osuji, que atuou em várias publicações de ponta em sua carreira.

Em boa parte da conversa, tivemos como marca uma guerrinha velada entre o músico e Osuji, com ironias de parte a parte e eu com uma bandeira branca no meio, sem ter nada a ver com aquilo.

Ao final, peguei o seu então álbum mais recente, o gravado ao vivo em estúdio Geral (inédito até hoje em CD, por sinal), e pedi um autógrafo, que ele me concedeu, colocando na dedicatória votos gentis de saúde.

Anos depois, descobri, na biografia dele e do pai Gonzagão escrita por Regina Echeverria, que ele não era muito fã de dar autógrafos, e que volta e meia os recusava.

Escapei de boa, heim? Já imaginou se um de meus grandes ídolos tivesse me recusado um autógrafo? Ainda bem que isso não ocorreu, e o disco está aqui, comigo, até hoje, como boa recordação desse ídolo.

Ouça O Que É, O Que É?, clássico de Gonzaguinha, ao vivo:

Gonzaguinha e a trilha da novela Vale Tudo

Por Fabian Chacur

Um dos grandes momentos da teledramaturgia brasileira foi a novela Vale Tudo.

Exibida originalmente de maio de 1988 a janeiro de 1989, refletiu o clima político da época, com direito a descrédito, institucionalização da corrupçao e o início de uma nova era democrática no país.

A reprise desse clássico na TV a cabo têm obtido grande audiência e levado a uma reapreciação do contexto no qual aquela atração foi parida.

A trilha sonora nacional da atração global incluiu 14 músicas, sendo que Brasil, de Cazuza e na interpretação de Gal Costa, serviu como abertura de cada novo capítulo.

O ex-cantor do Barão Vermelho comparece ele próprio com a sua belíssima bossa nova Faz Parte do Meu Show, enquanto sua ex-banda consegue grande sucesso com a agressiva e sacudida Pense e Dance.

O momento mais expressivo nessa trilha tão marcante, no entanto, foi mesmo a brilhante É, último grande sucesso nacional da carreira de Gonzaguinha.

Claro retrato de como as pessoas mais conscientes se sentiam na época, É tem a famosa frase “a gente não tem cara de babaca”, entre outras certeiras e sem papas na língua, estilo habitual do cantor e compositor carioca.

Na época (1988), tive a honra de entrevistar Gonzaguinha pela segunda vez, e um dos principais temas da conversa foi exatamente a utilização dessa música em Vale Tudo.

Ele comemorou o fato de É ser utilizada com frequência, e em alguns momentos, serem criados verdadeiros videoclipes para ela com cenas da atração global.

Vale Tudo Nacional foi lançada em CD em 2001 e atualmente está fora de catálogo, embora possa ser encontrada em algumas lojas por quem tiver um pouco de paciência.

  1. Brasil – Gal Costa
  2. Tá Combinado – Maria Bethânia
  3. Terra Dourada – João Bosco
  4. Pense e Dance – Barão Vermelho
  5. Pontos Cardeais – Ivan Lins
  6. A Sombra da Partida – Ritchie
  7. Todo Sentimento – Verônica Sabino
  8. É – Gonzaguinha
  9. Penso Nisso Amanhã – Nico Rezende
  10. Isto Aqui O Que É – Caetano Veloso
  11. Faz Parte do Meu Show – Cazuza
  12. Bésame – Jane Duboc
  13. Um Mundo Só Pra Nós (Eye In The Sky) – Gás
  14. Sem Destino – Léo Gandelman

Veja Gonzaguinha cantando É ao vivo na TV Cultura:

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