Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Tag: kuarup (page 1 of 2)

Chico Lobo e Roberta Campos fazem uma bela parceria em Nós

chico lobo roberta campos 400x

Por Fabian Chacur

Tudo começou quando o violeiro Chico Lobo foi convidado pela cantora e compositora Roberta Campos para fazer um arranjo de viola em uma de suas composições, Para Raio. Logo a seguir, eles a interpretariam em um show em Minas Gerais. Era o início de uma parceria musical que agora rende um belo fruto. Trata-se da canção Nós, composta por Chico e cantada em um inspirado dueto por eles, e cujo clipe e single já estão disponíveis nas plataformas digitais em parceria com a Kuarup.

Nós foi escrita por Chico Lobo para celebrar os 25 anos de sua união com a produtora e manager Angela Lopes. O clipe, assim com a canção em si, foram registrados de forma remota, e as gravações dessa bela canção também tiveram as participações dos músicos Ricardo Gomes (baixo e teclados), Leo Pires (bateria) e Marcello Sylvah (violões com cordas de aço).

Esta é a primeira de um total de quatro canções que serão divulgadas previamente do 26º álbum do cantor, compositor e violeiro mineiro, Alma e Coração, cujo lançamento está previsto para novembro e traz, além de Roberta, participações de Luiz Carlos Sá, Drigo Ribeiro e Tatá Sympa.

Os recursos para viabilizar este trabalho estão sendo viabilizados com uma campanha colaborativa desenvolvida desde o início deste ano na Plataforma Colaborativa Vakinha, e que será encerrada neste sábado (15) às 19h com uma live de Chico Lobo na qual ele tocará músicas deste álbum e também momentos importantes desse repertório. Saiba como participar dessa campanha aqui.

Nós (clipe)- Chico Lobo e Roberta Campos:

Tuia relê canções alheias e as próprias em seu novo álbum

tuia-400x

Por Fabian Chacur

Se estivéssemos na era medieval, Tuia certamente seria um daqueles trovadores, viajando por todas as cortes e reinados com seu instrumento musical para cantar as idas e vindas do amor perante as mais diversas plateias. De certa forma, é exatamente isso o que ele faz em 2020. Na estrada desde os anos 1990, o cantor, compositor e músico paulista tem um currículo dos mais respeitáveis (leia mais sobre ele aqui), e agora lança Versões de Vitrola Vol.1 (Kuarup), nos formatos CD e digital.

Em sua rica trajetória profissional, Tuia consolidou uma sonoridade que tem tudo a ver com o rock rural brasileiro, pois mistura com categoria e do seu jeito rock, country, folk, MPB e música caipira. Não por acaso, atraiu as atenções dos craques dessa praia, entre os quais Zé Geraldo, Tavito, Renato Teixeira e Guarabyra, com quem já trocou belas figurinhas em shows e discos.

Este novo trabalho o flagra em um momento de releituras. Temos aqui oito canções, sendo seis composições alheias e duas de sua autoria, nenhuma delas inédita. Linda Juventude, grande hit com o 14 Bis nos anos 1980, aparece em duas versões, uma acústica e outra com banda, ambas contando com a delicada participação da cantora e compositora paranaense Ana Vilela.

A consagrada estrela paraibana Elba Ramalho, por sua vez, marca presença na nova gravação de uma das canções mais bem-sucedidas de Tuia, a lírica Céu, em dueto que funcionou às mil maravilhas.

A única música que foge das fronteiras do som rural brasileiro é Tudo é Possível, rock de Kiko Zambianchi lançado pelo autor em seu álbum Disco Novo (2001) e que aqui surge em um arranjo mais afeito ao universo do country. Aliás, o ponto alto do disco é exatamente esse: as canções surgem repaginadas com assinatura própria de Tuia, mas sem perderem suas espinhas dorsais.

Chalana, clássico de Mário Zan e Arlindo Pinto que muita gente conheceu nas versões de Sérgio Reis e Almir Sater, aparece aqui com jeitão folk rock.

Espanhola, megahit escrito por Guarabyra e Flávio Venturini, renasce como uma power ballad, enquanto Senhorita, do grande Zé Geraldo, virou um country rock encapetado. Flor, a outra composição de Tuia incluída neste CD, surge levemente diferente de gravações anteriores.

Completa o repertório a maravilhosa Começo Meio e Fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle), que fez sucesso nas gravações do próprio Tavito e do Roupa Nova. Nela, assim como nas outras, Tuia nos oferece suas interpretações apaixonadas, nas quais se entrega às canções sem medo de ser feliz, e por tabela consegue cativar seus inúmeros fãs pelo Brasil afora.

Versões de Vitrola Vol.1 é daqueles trabalhos de sofisticada simplicidade que transmite ao ouvinte paz, emoção e alegria, especialmente em tempos tão confusos e conturbados como os atuais. Que o nosso querido trovador possa continuar cumprindo seu ofício com essa categoria e sensibilidade por muitos e muitos anos. E que venha em breve o Volume 2 dessa parada aí!

Céu (lyric video)- Tuia e Elba Ramalho:

Quinteto de Metais MP5 lança CD Rio Antigo com show no Rio

quinteto de metais mp5-400x

Por Fabian Chacur

Em 2009, cinco músicos integrantes de três orquestras importantes do Rio de Janeiro resolveram montar um grupo só com metais. Nascia o Quinteto de Metais MP5, que não demorou a se firmar como uma das mais originais e competentes formações deste gênero no Brasil. Eles estão lançando o seu segundo CD, Rio Antigo (também disponível nas plataformas digitais) pela gravadora Kuarup, e mostram esse repertório com uma apresentação ao vivo no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (10) às 18h30 na Igreja da Candelária (praça Pio X, s-nº- Centro- Rio- fone 0xx21-2233-2324), com entrada gratuita.

O Quinteto de Metais MP5 traz em sua escalação Nelson Oliveira e Josué Nascimento (trompetes), Josué Soares (trompa), Sérgio de Jesus (trombone) e Carlos Vega (tuba). Desde o início, o projeto era investir em um repertório diversificado, com incursões pela música popular, erudita, folclórica, jazz e contemporânea, além de acrescentar à mistura boas pitadas de bom humor e interação com a plateia em suas apresentações ao vivo, o que reforça a expressividade de sua atuação.

Rio Antigo, o novo álbum, inclui 11 faixas de autores clássicos como Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Pixinguinha, Noel Rosa, Vadico, Radamés Gnattali, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Patápio Silva, entre outros, todos com uma coisa em comum, além do talento: nasceram no século 19. São compositores que, cada qual a seu modo, ajudaram a moldar na primeira metade do século 20 o que viria a ser a música popular brasileira.

Entre outras maravilhas, você poderá ouvir neste trabalho Rio Antigo-Pau no Burro, Primeiro Amor, Atraente, Tico-Tico no Fubá, Rabo de Galo e Folha Morta, nas quais os arranjos swingados e criativos do quinteto ressaltam as melodias e mostram a competência do quinteto em atuar sem o apoio de outros instrumentos musicais, dando conta do recado com muita eficiência e brilho.

O carioca que por ventura não puder ir a essa apresentação de quarta (10) terá uma outra oportunidade para conferir o Quinteto de Metais MP5 ao vivo. No dia 5 de setembro, às 19h30, o Quinteto dará o ar de sua graça na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro (PIB) (rua Frei Caneca, nº 525- Estácio- fone 0xx21-2197-0900), na Série Música de Primeira, também com entrada franca.

Ouça Rio Antigo na íntegra em streaming:

Johnny Alf e sua essência são as marcas de dois álbuns digitais

johnny alf o interprete capa-400x

Por Fabian Chacur

Alfredo José da Silva, embora sóbrio, não era um nome muito charmoso para um dos grandes nomes da história da nossa música. Felizmente, ele atendeu a sugestões de amigos e tornou-se Johnny Alf, denominação muito mais classuda. E deu muito certo. Esse grande cantor, compositor e pianista carioca, que completaria 90 anos no próximo dia 19, mas que infelizmente nos deixou em 2010, construiu uma obra sólida e densa que merecia ser bem mais cultuada do que é. A Kuarup acaba de disponibilizar em todas as plataformas digitais dois álbuns inéditos deste gênio, intitulados O Autor e O Intérprete.

Para alguns dos maiores especialistas no tema, entre eles o jornalista Ruy Castro, Johnny foi o pioneiro da bossa nova, misturando com criatividade e sutileza samba e jazz já no início da década de 1950. Versátil, ele sabia não só compor com desenvoltura como também tocar um piano personalizado, além de reler com classe canções alheias. Um artista de primeira, que habitualmente rendia o máximo ao vivo, nos palcos da vida, com uma categoria reservada a poucos.

Os dois álbuns digitais trazem faixas extraídas de gravações ao vivo realizadas no início dos anos 2000 pertencentes ao acervo do produtor e empresário Nelson Valência, que trabalhou por muitos anos com Johnny Alf. Esse material foi pesquisado pelo consagrado produtor musical e jornalista Thiago Marques Luiz, que se incumbiu de selecionar o repertório que chegou aos produtos finais.

O álbum O Autor nos traz dez das composições mais icônicas do nobre songbook do artista carioca, com direito a Rapaz de Bem, O Que é o Amor, Eu e a Brisa e Ilusão À Toa. O Intérprete, por sua vez, nos oferece suas certeiras releituras de maravilhas alheias do porte de Corcovado, Chega de Saudade, Desafinado, Valsa de Eurídice, Alguém Como Tu e The Shadow Of Your Smile.

Totalmente à vontade e em excelente forma, tanto vocal como instrumental, Johnny aparece no formato do trio de jazz, acompanhado por um guitarrista e um baterista. Suas performances tem total DNA jazzístico, respeitando as melodias mas não se negando a improvisos deliciosos e a belos solos de piano e guitarra aqui e ali. Em alguns momentos, ele fala com a plateia, dando informações sobre as músicas. A qualidade de áudio é das melhores.

O material merecia ter lançamento físico, com direito a um encarte com texto informativo redigido por Thiago e uma capa aproveitando as simples, porém muito belas e eficientes imagens que ilustram as versões digitais, mas só o fato de essas gravações raras chegarem à tona e estarem agora disponíveis para todos os fãs da melhor música brasileira já merece fartos aplausos.

O Intérprete- Johnny Alf (ouça em streaming):

ClaudetteSoares-AlaídeCosta são realmente o fino da bossa

claudette soares alaide costa CD capa-400x

Por Fabian Chacur

Muitas homenagens aos 60 anos da Bossa Nova estão sendo feitas neste ano, e uma das mais louváveis e bem realizadas acaba de chegar às lojas e às plataformas digitais. Trata-se do estupendo álbum 60 Anos de Bossa Nova, lançado pela gravadora Kuarup e que reúne duas expoentes do gênero, as cantoras Claudette Soares e Alaíde Costa. O show de lançamento no Rio ocorre nesta terça (9) às 21h o Theatro Net Rio (rua Siqueira Campos, nº 143- 2º piso- fone 0xx21-2147-8060), com ingressos de R$ 50,00 a R$ 100,00.

As cariocas Claudette e Alaíde estavam na área quando João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros mestres desse naipe deram o pontapé inicial no gênero musical que somou o swing do samba com a elaboração do jazz. Foram participantes desde o começo, e ajudaram a divulgar essa “batida diferente” no Rio e principalmente em São Paulo, onde elas se radicaram ainda na década de 1960. Ou seja, as moças possuem conhecimento suficiente para encarar a tarefa.

Com produção musical a cargo de Thiago Marques Luiz, que há muito já virou uma verdadeira grife desses projetos envolvendo craques da nossa música com muita estrada nas costas, as duas intérpretes foram acompanhadas no show que deu origem ao álbum e gravado em 23 de março de 2018 em São Paulo no Teatro Itália por Giba Estebez (produção musical, arranjos e piano), Renato Loyola (baixo acústico) e Nahame Casseb (bateria, o célebre Naminha, que integrou o grupo Língua de Trapo na década de 1980).

Com arranjos classudos e despojados a acompanha-las, as cantoras deram conta do recado diante de um repertório composto por 18 faixas, sendo algumas delas pot-pourris. Em alguns momentos elas atuam juntas, mas na maior parte se incumbem de blocos solo. A seleção traz canções integrantes do songbook máximo da bossa, entre as quais Insensatez, Dindi, Caminhos Cruzados, Chega de Saudade, O Barquinho, Os Grilos, Oba-la-la e Vem Balançar, só para citar algumas.

Os estilos das protagonistas se mostram bem claros. Alaíde é mais contida, discreta e doce, brilhando muito nos momentos intimistas. Por sua vez, Claudette é serelepe, sabendo alternar partes introspectivas com momentos de puro swing, encantando e sendo capaz de conquistar até o ouvinte mais distante e cético em relação ao gênero musical homenageado. A interação entre as duas é ótima e cordial, proporcionando momentos de raro prazer ao ouvinte.

60 Anos de Bossa Nova flui deliciosamente em sua viagem encantadora pelas preciosidades bossa novísticas, e demonstra que Claudette e Alaíde se mantém em plena forma, capazes ainda de oferecer a seus inúmeros fãs shows maravilhosos e discos com este altíssimo padrão artístico e técnico. Prova mais do que concreta de que elas continuam o fino da bossa, 60 anos depois, e que esse repertório é para sempre.

60 Anos de Bossa Nova- ouça em streaming:

Solano Ribeiro relembra MPB e belas histórias dos festivais

solano ribeiro livro capa-400x

Por Fabian Chacur

Quem começa a pesquisar sobre a era dos festivais chegará infalivelmente no nome de Solano Ribeiro. E não é para menos. Esse produtor de TV, rádio e publicidade teve participação fundamental nos principais eventos ligados ao tema no Brasil, dos anos 1960 aos dias de hoje. Em 2003, lançou Prepare Seu Coração- Histórias da MPB, livro relançado agora em edição revista e atualizada pela Kuarup. A noite de autógrafos em São Paulo será nesta terça (18) a partir das 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (avenida Paulista, 2.073- fone 3170-4033). No Rio de Janeiro, vai rolar no dia 2 de outubro (terça) na Livraria da Travessa do Leblon (avenida Afrânio de Melo Franco, nº 290- loja 205- fone 0xx21-3138-9600).

Solano Ribeiro nasceu em 1939, e começou sua trajetória no meio artístico na segunda metade da década de 1950, estudando e atuando em teatro e também integrando o grupo The Avalons, um dos pioneiros do rock paulistano. Logo se envolveu na produção de shows musicais e também de programas de TV e festivais televisivos. O seu trabalho nos festivais das TVs Excelsior, Record e Globo foi decisivo, especialmente nos aspectos criativos e organizacionais.

Com um texto na primeira pessoa bastante fluente, franco e direto, ele narra suas experiências nessa era de enorme criatividade na música brasileira. Do namoro com Elis Regina aos bastidores dos eventos, histórias que envolvem nomes que ajudou a impulsionar, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Edu Lobo e tantos outros. Ficamos sabendo também dos arranjos políticos, das lutas de egos, dos altos e baixos, das idas e vindas.

Dono de um temperamento forte que se evidencia em cada página de seu livro de memórias, Solano certamente deve ter desagradado alguns colegas com certas opiniões, mas demonstrou coragem ao colocar no papel as suas ideias e visões sobre cada evento no qual se envolveu. Nem mesmo nomes incensados por alguns, como o radialista e jornalista Zuza Homem de Mello e o empresário Paulinho Machado de Carvalho, da TV Record, escaparam da sua pena afiada.

Lógico que temos também momentos muito bem-humorados, incluindo até mesmo uma longa descrição de um affair amoroso de Solano com direito a detalhes eróticos. Suas lembranças gastronômicas também ocupam diversas páginas, assim como viagens e trabalhos não só em festivais, mas também em especiais feitos para TV no Brasil e na Alemanha, atuação em rádio, publicidade etc. Um profissional sempre inquieto, criativo e combativo em sua longa e produtiva trajetória.

Nas páginas de Prepare Seu Coração- Histórias da MPB, viajamos por um tempo incrível repleto de realizações, criatividade e também com direito a frustrações e fracassos. O legal é saber que Solano nunca desistiu de lutar pela criação de espaços para a MPB, sigla que, por sinal, ele afirma ter criado. Mais na ativa do que nunca, ele apresenta o programa de rádio Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil, criou o prêmio Cata-Vento, que premia os melhores da produção independente musical, além de criar o portal www.solanoribeiro.com.br . Sua história ainda irá longe, pelo andar da carruagem!

Solano Ribeiro fala sobre Festival de 1968:

Claudette Soares nos encanta com seu CD Canção de Amor

claudette soares cancao de amor capa-400x

Por Fabian Chacur

Claudette Soares iniciou a carreira ainda criança, na década de 1950. Carioca, ajudou de forma decisiva na divulgação da bossa nova em São Paulo nos anos 1960, interpretando canções do gênero ainda fresquinhas, recém-lançadas. Com o tempo, firmou-se como grande intérprete de música romântica. E, mesmo com mais de 60 anos de carreira, ainda se mostra inquieta e ativa. Canção de Amor, seu novo CD, lançado pela Kuarup, é encantador.

Inspirada no livro A Noite do Meu Bem, de Ruy Castro, a simpática e talentosa cantora mergulha no universo do samba-canção, gênero que só agora ela abraça. A razão: quando essa intensa vertente da música brasileira viveu o seu auge, na década de 1950, ela ainda era muito, digamos assim, novinha para encarar as letras dessas composições, que falam de forma forte e poética sobre as idas e vindas do amor.

O repertório traz 21 músicas, algumas delas agrupadas em pot-pourrys, que dão uma geral não só no auge do samba-canção, entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1960, como também nos traz algumas amostras da produção posterior do gênero, dos anos 1970, 1980 e 1990. A seleção nos oferece obras de nomes como Maysa, Dolores Duran, Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato e Cristóvão Bastos. São canções nunca menos do que excepcionais.

A moldura instrumental oferecida a Claudette pelo arranjador e pianista Alexandre Vianna é concisa e repleta de bom gosto, no melhor esquema piano-baixo acústico-sopros. O bom gosto do produtor, o jornalista Thiago Marques Luiz, que virou um especialista em resgatar de forma luxuosa grandes nomes da nossa música esquecidos pelas gravadoras multinacionais, mais uma vez nos oferece um produto daqueles para se ouvir de joelhos, tamanha a qualidade.

Toda essa estrutura proporciona à intérprete de hits como De Tanto Amor o campo necessário para brilhar, e é exatamente isso o que ela faz. Suas interpretações mesclam sensualidade, classe e uma capacidade de extrair o máximo de canções já excelentes em sua essência.

Impressionante como Claudette esbanja vitalidade, categoria e total controle de sua voz nestas gravações. Prova de que se mantém na ativa, acima de tudo, por prazer, por amar aquilo que faz. E faz bem.

O álbum já começa a mil, com o pot-pourry A Noite do Meu Bem/Foi a Noite/Fim de Noite, e vai até o fim arrancando arrepios, suspiros e, porque não, lágrimas dos ouvintes. Saia do Caminho/Molambo, Tatuagem, Tola Foi Você, Meu Mundo Caiu/Resposta/Ouça e Resposta ao Tempo são momentos bem elogiáveis que fazem com que nos sintamos sentados em um barzinho, no clima proposto por esse rico repertório.

Coroa esse álbum incrível a sua capa, nitidamente inspirada naquelas dos discos clássicos daquele período, além da embalagem digipack, encarte com as letras e fotos belíssimas. Canção de Amor é mais uma prova concreta de que precisamos respeitar e cultuar com carinho e respeito os artistas veteranos, pois eles frequentemente ainda tem muito a nos oferecer, especialmente em um cenário musical tão pobre como o que nos é apresentados pelos grandes meios de comunicação.

Tatuagem– Claudette Soares:

Livros MPBambas trazem um elenco de ótimas entrevistas

mpbambas livro capa-400x

Por Fabian Chacur

Tempo em TV vale ouro. Por isso, frequentemente entrevistas gravadas para esse veículo de comunicação costumam trazer apenas uma parte do conteúdo obtido nos papos com os alvos de suas matérias. Os dois volumes de MPBambas- Histórias e Memórias da Canção Brasileira, de autoria de Tarik de Souza e editados pela Kuarup, tem como nobre objetivo preencher uma dessas lacunas inevitáveis, e o faz de forma brilhante.

Um profissional como Tarik de Souza deveria dispensar apresentações prévias, mas como estamos no Brasil, vale falar um pouco dele. Trata-se de um jornalista especializado em música brasileira na ativa há quase 50 anos, com currículo recheado de passagens por órgãos de imprensa bacanas e autor de inúmeros livros que fazem parte das bibliotecas de quem se interessa por informações musicais consistentes e oferecidas com texto sempre impecável ao leitor.

De 2009 a 2014, Tarik apresentou no Canal Brasil o programa televisivo MPBambas, no qual trazia um grande nome da música brasileira por edição para entrevistas deliciosas. Como cada episódio comportava apenas 27 minutos de conteúdo, sobrou muita coisa boa, que ficaria apenas na memória de quem teve a honra de participar dos bate-papos. Mas Paulo Mendonça, um dos comandantes do Canal Brasil, sugeriu ao jornalista a edição em livro desse material, e graças à sua batalha, e à parceria com a Kuarup, gravadora que também enveredou pelo lançamento de livros, a ideia se tornou realidade.

Organizadas em dois volumes vendidos separadamente, as entrevistas foram divididas em 14 por exemplar, curiosamente como se fossem um disco de vinil. A abrangência dos entrevistados impressiona, pois focaliza desde monstros sagrados bem conhecidos do grande público, como Milton Nascimento, Gal Costa e Beth Carvalho, até craques musicais menos divulgados do que mereceriam, tipo Getúlio Côrtes, Billy Blanco, Sueli Costa e Doris Monteiro.

Cada entrevista é uma verdadeira viagem dentro do universo musical do personagem escolhido. Como as transcrições são integrais, elas nos possibilitam a oportunidade de conhecer características particulares de cada um deles. Tarik vem sempre com a lição de casa prontinha, e faz perguntas pertinentes e buscando esclarecer dúvidas sobre o trabalho de cada um deles, nada mais adequado para um formato do tipo enciclopédia musical brasileira audiovisual.

Quem não curte detalhes e minúcias deve ficar longe de MPBambas, os livros. Quem, no entanto, deseja descobrir muito sobre cada entrevistado, terá seu desejo saciado de forma generosa, além de deparar com fatos importantes e inusitados de cada um deles. Fofocas, boatos tolos e idiotices do gênero não entraram em cena, felizmente. Ao fim de cada leitura, você percebe que tomou contato com gente profunda, importante e que fez da arte suas vidas.

Os livros ganharam ainda mais importância pelo triste fato de que diversos dos entrevistados infelizmente partiram para o outro lado do mistério, tempos após terem concedido suas entrevistas ao programa de TV. Desta forma, viraram registros ainda mais fundamentais. Duvido que você encontre papos mais densos e registrados em livros com os hoje saudosos Dominguinhos, Paulo Vanzolini, Inezita Barroso, Billy Blanco e Ademilde Fonseca do que estes aqui.

Uma das grandes sacadas de Tarik foi uma entrevista com Chico Anysio sobre a sua rica faceta de compositor musical, que muita gente boa infelizmente desconhece. Ou de mostrar a cara de Getúlio Côrtes, autor de hits eternos como Negro Gato, O Gênio, Uma Palavra Amiga e tantos outros. MPBambas-Histórias e Memórias da Canção Brasileira Volumes 1 e 2 é para ler, reler e consultar, além de obrigatórios para estudantes e profissionais de jornalismo.

O Gênio/Pega Ladrão/ Negro Gato (ao vivo)- Getulio Côrtes:

Trabalho de Geraldo Vandré é muito bem abordado em livro

geraldo vandre uma cancao interrompida

Por Fabian Chacur

Geraldo Vandré é uma das figuras mais fascinantes e enigmáticas da história da música brasileira. Inúmeros pontos de interrogação sempre pairaram sobre o seu trabalho como cantor, compositor e músico, especialmente seus problemas com a Ditadura Militar. Para quem quiser mergulhar de cabeça no tema, vale ler Geraldo Vandré- Uma Canção Interrompida, livro que nos permite conhecer a vida e obra do autor de Pra Que Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando).

Fruto de aproximadamente dez anos de minuciosas pesquisas por parte de seu autor, o experiente jornalista Vitor Nuzzi, o livro foi inicialmente lançado por conta própria em pequena tiragem. Com a regulamentação da lei sobre as biografias, a gravadora e editora Kuarup agora lança o livro em tiragem comercial, permitindo ao grande público ter acesso a um trabalho de fôlego digno do personagem enfocado no mesmo.

Sem conseguir entrevistas com o personagem de sua obra, Nuzzi superou essa dificuldade inicial fazendo inúmeras e significativas entrevistas com pessoas que trabalharam ou tiveram contato direto com Vandré, além de literalmente comer poeira nos arquivos de revistas, jornais, internet etc (e tome etc) para buscar o máximo possível de informações confiáveis, incluindo aí depoimentos do artista concedidos em entrevistas para outros repórteres.

Geraldo Vandré- Uma Canção Interrompida equivale a uma extensa reportagem, das boas, por sinal, na qual o autor se exime de dar opiniões ou analisar, deixando isso para suas fontes e sempre procurando dar ao leitor várias visões sobre cada questão, para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões. Foi opção do autor fugir do clima romanceado de outras obras do gênero, e o resultado é elogiável.

O relato engloba toda a trajetória do paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, desde sua infância em João Pessoa até a participação, em 2014, em dois shows de Joan Baez em São Paulo, passando por tudo. O início nas rádios cariocas, a adesão à bossa nova, o desenvolvimento de uma obra calcada nas raízes da música nordestina, os festivais, os parceiros, os amigos, está tudo lá, sempre com minuciosos detalhes sobre cada personagem.

A incrível história que envolve suas músicas mais famosas, Disparada e Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando), os problemas com o Regime Militar que o levaram a ficar fora do Brasil entre 1969 e 1973, seu estranho retorno ao país, o afastamento da carreira musical e as raras incursões públicas pela música são apresentadas de um jeito detalhado e acessível ao público médio.

Embora enfatize nos momentos corretos as ocorrências de cunho pessoal, o livro dá amplos espaços para aquilo que tornou o artista conhecido e digno de nota, que é a sua obra artística. Todos os seus poucos discos são esmiuçados, assim como canções que não foram gravadas, obras inéditas e muito mais, com direito a uma discografia no fim do livro (que também inclui uma bibliografia bacana).

“Causos” pitorescos e bem documentados ajudam a mostrar a singularidade de Geraldo Vandré, que aos 80 anos de idade continua sendo cultuado por muitos e odiado por outros tantos. O livro de Vitor Nuzzi é essencial para quem deseja não só conhecer a trajetória desse grande artista, mas também para se ter uma ideia do tamanho das mudanças ocorridas na indústria cultura nos últimos 60 anos.

Obs.: a capa, com uma imagem em preto e branco granulada do artista no palco ladeado por um banquinho e com o violão em mãos é simplesmente genial, uma obra prima, pois dá bem a dimensão de como esse artista que chegou a ser tão popular saiu de cena, pelas razões que podem ser descobertas em suas 350 páginas.

Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando)– Geraldo Vandré:

Na Terra Como No Céu- Geraldo Vandré:

Canção Nordestina- Geraldo Vandré:

Kuarup relança em CD álbum inicial de Paulinho da Viola

paulinho da viola e elton medeiros-400x

Por Fabian Chacur

Em 1966, Paulinho da Viola tinha 24 anos e era um jovem iniciante no mundo do samba, embora já com muita moral. Ao lado do mais experiente Elton Medeiros, na época com 36 anos, ele gravou seu primeiro álbum, que saiu como Na Madrugada e dois anos depois, em 1968, como Samba na Madrugada. Longe das lojas há 14 anos no formato CD, ele acaba de ser relançado pela Kuarup em edição caprichada, com direito a encarte luxuoso contendo ficha técnica, letras e tudo o mais.

Samba na Madrugada traz 11 faixas, sendo duas delas pot-pourrys, e mescla composições de Paulinho e de Elton. Eles cantam de forma separada, acompanhados por um time afiado composto por Dino Sete Cordas (violão de 7 cordas), Raul de Barros (trombone), Copinha (flauta), Canhoto (cavaco) e os ritmistas Gilberto, Luna e Jorge, além de Paulinho no violão e Elton na característica percussão na caixa de fósforo.

Consta que as gravações do álbum foram realizadas em apenas uma noite, e o clima informal e solto das faixas dá essa impressão. Paulinho ainda se mostra um pouco tímido nos vocais, embora já dando mostras do brilho artístico que consolidaria não muito tempo depois, enquanto o mais experiente Elton deita e rola, ora em sambas românticos, ora em momentos mais rítmicos.

O repertório do álbum é muito bom, com direito a 14 Anos, um dos primeiros clássicos de Paulinho da Viola que ele canta em shows até hoje (leia resenha de show realizado por ele em São Paulo em novembro aqui), Momento de Fraqueza (outro golaço dele) e as lindas (de Elton) O Sol Nascerá (inspiradíssima parceria com Cartola) e Sol da Madrugada.

O encarte também inclui belo texto do produtor cultural e letrista Hermínio Bello de Carvalho. Mais um importante resgate feito pela Kuarup, prova de que é possível unir um trabalho viável em termos comerciais sem se descuidar do quesito importância cultural. E bem importante pelo fato de Paulinho da Viola não lançar um novo CD de inéditas há quase 20 anos, sendo uma forma de saciar a sede de seus inúmeros fãs por trabalhos bacanas dele.

14 Anos– Paulinho da Viola:

Alô Alô- Sol da Madrugada– Paulinho da Viola- Elton Medeiros:

Momento de Fraqueza– Paulinho da Viola:

Older posts

© 2020 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑