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Ayrton Mugnaini Jr. nesse seu mundo peculiar e fascinante

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Por Fabian Chacur

Dificilmente alguém que por ventura conheça Ayrton Mugnaini Jr. o esquecerá. Este jornalista, pesquisador, tradutor juramentado e também cantor, compositor e multi-instrumentista paulistano é daquelas figuras absolutamente ímpares. Aos 60 anos, que completa nesta quinta-feira (30), ele lançou um novo CD, intitulado Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, equivalente sonoro a uma viagem de montanha russa, de tantas alternativas e possibilidades que oferece ao ouvinte. Viagem das boas, para quem tem bom humor e curte música inventiva.

Nascido em São Paulo, mas criado nas cidades de Lins e especialmente Sorocaba até o fim dos anos 1970, Ayrton como jornalista especializado em música (e agora, também em temas circenses) é daqueles sujeitos que mergulha fundo nos detalhes, nas histórias obscuras e no que de fato importa. Com um texto simplesmente impecável, ele se notabilizou como crítico e também como autor de inúmeros livros, daqueles que você lê de cabo a rabo, sem parar. Enciclopédia ambulante!

Paralelamente, desenvolveu uma carreira musical bastante significativa, integrando os grupos Língua e Trapo e Magazine, com os quais gravou discos, fez shows e, provavelmente sua veia mais significativa, teve várias músicas gravadas pelos mesmos. Não tenho a menor dúvida de que as melhores gravações de músicas dele estão exatamente em vários discos do grupo do incrível Laert Sarrumor e também no instigante CD Na Honestidade, do Magazine do saudoso Kid Vinil.

E tem também a sua trajetória solo, iniciada em 1984 ainda nos tempos das fitas cassete (que estão voltando, vejam só) com a antológica Brega’s Banquet. Até 2000, lançaria mais 15 dessas, além de um LP de vinil (A Arte de Ayrton Mugnaini Jr., em 1992) e 9 CDs. Se por ventura você não teve a oportunidade de ouvir algum, alguns ou mesmo todos esses itens, saiba que Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá! equivale a uma bela e generosa amostra, com o típico DNA mugnaínico.

Em seus 72m30 de duração, o CD traz nada menos do que 30 faixas, o que torna a comparação com o Álbum Branco dos Beatles inevitável, embora isso não o agrade. O autor separa as canções em faixas que falam sobre a própria música em si, em um interessante exercício de metalinguagem, e outras que versam sobre os mais diversos temas. Os caminhos musicais seguidos por ele são os mais diversos, com direito a várias vertentes de rock, outras tantas de música brasileira e até mesmo tango. E acredite: tem ainda mais nessa mistura.

Mugnaini é um tipo peculiar de perfeccionista, pois se por um lado mostra muito capricho nos detalhes e na qualidade de seu trabalho, por outro prima pelas “sujeiras” de uma virada de bateria meio atrapalhada aqui, um timbre de guitarra meio esquisito ali etc, denotando uma preferência pela espontaneidade em detrimento exatamente do perfeccionismo. Contradições de um ser humano e de um criador que, dessa forma, apresenta uma originalidade ímpar.

Mesmo sem ser um bom cantor, ele sabe como transmitir suas ideias com muita eficiência, e melhorou bastante a dicção, um problema sério de seus anos iniciais. Além de se desdobrar entre vários instrumentos, Mug também se vale da ajuda de vários amigos musicais que cultivou nesses anos todos. Algo natural para ele, um dos caras mais generosos e gregários que já conheci nesse nem sempre muito simpático mundo da música, seja o dos músicos como o dos jornalistas especializados etc.

Além de músicas próprias, ele também traz a releitura de A Palo Seco (de Belchior, que ele releu antes do triste fim do grande astro cearense). Não faltam momentos empolgantes, como o rock escrachado Foi Pra Isso Que Eu Fiz Cinquenta, o desabafo Quero Viver Só de Shows, a incrível Foguete Prateado, a deliciosa The Beet Song (quem mais comporia uma música em homenagem à…beterraba?), o divertido samba Cadê o Doce?, a fofa Naruto e a delicada Quem No Ar Se Encosta Cai.

A incrível diversidade de Mugnaini Jr. como compositor é a principal marca deste álbum. Aliás, esse cara deveria ser muito mais procurado por intérpretes e grupos interessados em aumentar a qualidade de seus repertórios, pois ele oferece itens capazes de entrar nos álbuns/shows de rigorosamente qualquer tipo de artista, seja de que praia musical ele for. Agora, não dá para negar que é uma delícia ter a oportunidade de ouvir essas ótimas músicas tocadas e na voz de quem as criou.

Aos interessados em adquirir Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, Ayrton Mugnaini Jr. pode ser encontrado no Facebook e também através do e-mail mugayr@hotmail.com .

Cadê o Doce? (ao vivo)- Ayrton Mugnaini Jr:

O Kid Vinil, gentleman que se tornou um herói real do Brasil

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Por Fabian Chacur

O roqueiro pode ser um bom rapaz? Se a figura em questão for um certo Antônio Carlos Senefonte, a resposta é um retumbante sim. Mesmo abraçando o nosso velho e bom rock and roll de corpo, alma, voz e ouvidos, ele sempre teve como marca o fato de ser um gentleman. Kid Vinil, esse cara que infelizmente nos deixou nesta sexta-feira (19) em São Paulo, aos 62 anos, após lutar com bravura para vencer as sequelas de uma parada cardíaca sofrida em 18 de abril em Conselheiro Lafaiete (MG).

Em um país que atualmente se choca diariamente com a desfaçatez com que políticos, empresários e outros seres humanos chafurdam na lama de forma asquerosa para manterem suas negociatas escusas, Kid sempre foi um verdadeiro herói do Brasil, como dizia a letra da música gravada por ele no primeiro álbum do Magazine, autointitulado e lançado em 1983 e um clássico do rock brasileiro.

Oriundo do interior de São Paulo em 10 de março de 1955, Kid não nasceu em berço de ouro, e batalhou muito para chegar onde chegou. Ele trabalhou na gravadora Continental com o brilhante Vitor Martins, aquele mesmo, eterno parceiro de Ivan Lins em grandes clássicos da MPB, e no fim dos anos 1970 já estava trabalhando em rádio e dando seus primeiros passos como cantor de rock.

Kid ajudou como poucos na divulgação, em nosso país, do que de mais relevante ocorria no rock internacional a partir do punk rock. Como radialista, DJ, crítico musical e atuando em gravadoras, educou incontáveis fãs com seu vasto conhecimento musical, sempre aberto e disposto a desencavar tanto raridades como novidades. Com um leve ar professoral, mas descontraído e desinibido.

Na seara musical, começou a ficar conhecido com a banda punk Verminose, que se transformaria em new wave ao mudar o nome para Magazine. Sou Boy foi um dos primeiros grandes sucessos do rock brasileiro geração anos 80, seguido por outros hits como Tique-Tique Nervoso, Comeu, Adivinhão, Glub Glub No Clube e Kid Vinil (aquela que gerou a alcunha “O Herói do Brasil” que tanto o marcou).

A partir daí, a vida musical de Mr.Senefonte geraria a banda Kid Vinil e os Heróis do Brasil, na qual se destacava o guitarrista André Christovan e que lançou um único (e ótimo) autointitulado álbum em 1986, um álbum-solo (Kid Vinil) em 1989, um CD do Verminose em 1995 (Xu-Pa-Ki), o álbum com uma nova encarnação do Magazine em 2002 (Na Honestidade) e um DVD retrospectivo em 2013 (Vinil ao Vivo, leia a resenha de Mondo Pop aqui).

Kid ainda gravou um CD de releituras de clássicos conhecidos e/ou obscuros de rock em 2010 com o Kid Vinil Xperience (Time Was, em 2010), e um single em vinil em 2014 (leia a resenha aqui). Ele também lançou o Almanaque do Rock em 2009, e a biografia, Um Herói do Brasil, escrita por Ricardo Gozzi e Duca Belintani.

Além de atuar como DJ e de eventuais shows com o Magazine, Kid também participava de shows celebrando os anos 80 ao lado de amigos e contemporâneos daqueles tempos, como Kiko Zambianchi e Ritchie. E infelizmente foi após sua participação em um desses shows que ele sofreu o ataque cardíaco responsável por seu fim prematuro.

Kid Vinil vai fazer muita falta para seus incontáveis fãs, amigos e admiradores, que frequentemente eram as três coisas juntas, pois poucos nomes importantes se faziam tão acessíveis e gentis como ele. O lindo dogão Kosmo ficou sem seu pai, que tristeza!

Magazine- Magazine (1983- em streaming):

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