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Zélia Duncan mostra essência do som de Milton Nascimento

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Por Fabian Chacur

Zélia Duncan é a artista dos mil projetos. Além de uma bem-sucedida carreira solo que teve início há 31 anos, esta cantora, compositora e instrumentista oriunda de Niterói (RJ) já fez parcerias e participou de trabalhos com os mais diversos e distintos artistas. Seu mais novo fruto é o CD Invento +- Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum Interpretam Milton Nascimento (Biscoito Fino), duo com o consagrado produtor e músico carioca.

O álbum consiste em um dueto da bela voz de Zélia com o violoncelo exemplar de Jaques. Como ingrediente, 14 pérolas extraídas do repertório do adorável Bituca de Três Pontas. Um projeto com feições camerística e minimalista, no qual os parceiros musicais nos trazem a essência de cada uma dessas canções, respeitando as melodias e as reapresentando com uma roupagem inusitada que muito provavelmente agradará a quem curte as leituras originais do astro da MPB.

A seleção de repertório se concentra especialmente na obra do Milton da década de 1970, sem sombra de dúvidas seu momento máximo em termos de criação. Além de compor com maestria, o carioca de berço e mineiro de criação sabia como poucos escolher obras de seus amigos e colegas, tornando-as suas com essa voz incrível que a gente reconhece logo nos primeiros segundos em que ela é emitida por tal mago.

Zélia abraça cada melodia com evidente respeito e à sua moda, enquanto Morelenbaum se vale de seu cello para tecer sonoridades encantadoras, emulando alguns momentos dos arranjos originais e também criando novas colorações para emoldurar essas maravilhas musicais. Nada mais difícil do que respeitar e ao mesmo tempo inovar obras perfeitas em suas versões clássicas, e é exatamente esse o feito concretizado aqui por esses dois experientes artistas.

Ponta de Areia, Caxangá, Mistérios, Cravo e Canela, Cais (de cujos versos foi extraído o título bacana do álbum, Invento +) e San Vicente são destaques em um álbum que prova de forma veemente que, sim, é possível mergulhar em uma seleção de músicas devidamente consagradas e já ouvidas de diversas formas e sair desse mergulho com um trabalho ao mesmo tempo reverencial e ousado/criativo.

Invento +- Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum:

Encontros e despedidas com o genial Milton Nascimento

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, localizado na Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva para eu conhecer o ambiente do jornalismo especializado em música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo, pois não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique. Virei o jogo!

Ao fim da concorrida coletiva, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto simplesmente hilária, na qual apareço atrás do Milton (que autografava alguns discos), enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas coletivas de que participei com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda entrevista com o autor de Travessia da qual participei ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o sublime álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião.

Teria depois outras boas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987).

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

Milton Nascimento volta a SP e apresenta Semente da Terra

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Por Fabian Chacur

Em março, Milton Nascimento estreou em Belo Horizonte a sua nova turnê, que o traz de volta aos palcos após mais de um ano de ausência. O show, intitulado Semente da Terra, aporta em São Paulo neste fim de semana, mais precisamente neste sábado (1º/7) às 22h e domingo (2/7) às 20h no Espaço das Américas (rua Tagipuru, nº 795- Barra Funda- SP- fone 0xx11-2027-0777), com ingressos que custam de R$ 70,00 a R$ 240,00.

Em seu novo espetáculo, o Bituca de Três Pontas dá uma geral em grandes momentos de seus extenso e cativante repertório, dando ênfase a canções que enfocam questões indígenas, raciais, sociais e trabalhistas, sem, no entanto, cair em um tom panfletário. O repertório traz maravilhas do porte de O Que Será (A Flor da Terra), Cálice, Maria Maria, Tudo Que Você Podia Ser, Clube da Esquina 2, Fé Cega Faca Amolada e A Terceira Margem do Rio, entre outras.

Milton vive um momento especial em sua vida. Em outubro, comemorará 75 anos de vida e também os 50 anos do lançamento de seu primeiro grande sucesso, a emblemática Travessia. De volta a Minas Gerais, ele mora desde o ano passado em Juiz de Fora, e afirmou recentemente, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, que está novamente se dedicando a novas composições, o que gera a expectativa de novos trabalhos em um futuro não muito distante.

A Terceira Margem do Rio– Milton Nascimento:

Milton Nascimento leva o seu show Tarde para o Rio em 4/2

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Por Fabian Chacur

O que artistas tão diferentes entre si como Wayne Shorter, Duran Duran, James Taylor e Peter Gabriel tem em comum? Todos eles gravaram com Milton Nascimento, o que dá ideia da versatilidade e do prestígio do eterno Bituca de Três Pontas. Ele leva ao Rio de Janeiro o seu mais recente show, Tarde, em única apresentação no dia 4/2 (quinta-feira) às 21h no Teatro Bradesco Rio (avenida das Américas, nº 3.900- loja 160- Shopping VillageMail-Barra da Tijuca- fone 0xx21-3431-0100), com ingressos custando de R$ 50,00 a R$ 200,00.

O show Tarde, que já passou por São Paulo e outras cidades, mostra uma versão mais acústica e despida em termos instrumentais do autor de Travessia. No palco, teremos Wilson e seu irmão Beto Lopes tocando violões de sete cordas e o contrabaixista Alexandre Ito. Wilson, que desde 1993 é o diretor musical da banda de apoio do astro da MPB, também tocará viola caipira em algumas canções.

O repertório do espetáculo investe em grandes momentos da carreira de Milton, incluindo pérolas eternas do cancioneiro popular como O Cio da Terra, San Vicente, Tarde e Ponta de Areia. Os arranjos ressaltam a beleza da voz única deste artista que em 2012 comemorou 50 anos de carreira e que continua muito ativo e inquieto, oferecendo aos seus inúmeros fãs novos e instigantes projetos.

Tarde– Milton Nascimento:

Cais– Milton Nascimento:

San Vicente– Milton Nascimento:

Alaíde Costa festeja 80 anos e fará show grátis em São Paulo

Alaíde Costa -foto de Glauker Bernardes-400x

Por Fabian Chacur

Neste mês de dezembro, Alaíde Costa comemora 80 anos muito bem vividos. Como forma de celebrar essa efeméride tão importante, a cantora e compositora carioca realizará neste domingo (6) às 19h00 em São Paulo um show no Teatro Décio de Almeida Prado (rua Cojubá, nº45- Itaim Bibi- fone 0xx11-3079-3438). Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados no local uma hora antes do espetáculo.

Nascida no Rio de Janeiro no dia 8 de dezembro de 1935, Alaíde Costa iniciou sua carreira musical em 1955. Gravou o primeiro álbum em 1959 com o apoio do amigo João Gilberto, que de quebra lhe apresentou os nomes mais importantes da então emergente Bossa Nova, da qual se tornou uma das mais importantes e bem-sucedidas intérpretes.

Seu currículo é dos mais nobres. Nos anos 1960, por exemplo, participou do programa televisivo O Fino da Bossa, que era apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina, e um de seus principais sucessos foi Onde Está Você (Oscar Castro Neves- Luverci Fiorini). Em 1972, gravou em dueto com Milton Nascimento a maravilhosa Me Deixa Em Paz, faixa do álbum Clube da Esquina, um dos marcos da história da MPB.

Amiga de Verdade (1988) reuniu convidados como Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Ivan Lins e Egberto Gismonti. Dois álbuns gravados em parceria com o pianista João Carlos Assis Brasil, o CD gravado em Paris Falando de Amor (2014) um em homenagem ao amigo Milton Nascimento em 2009 e Canções de Alaíde (2014), este último incluindo apenas composições próprias, são outros marcos de sua carreira.

No show deste domingo (6), Alaíde terá a seu lado o pianista e arranjador Giba Estevez. Ela interpretará canções de outros autores, e também músicas de sua autoria, entre as quais Você é Amor (parceria com Tom Jobim), Amigo Amado (escrita com Vinícius de Moraes), Meu Sonho (escrita com Johnny Alf) e Banzo (feita com José Marcio Pereira). Na agenda, um CD em parceria com Toninho Horta (Alegria é Guardada em Cofres Cardeais) e um DVD comemorativo dos 80 anos de vida.

Me Deixa em Paz– Alaíde Costa e Milton Nascimento:

Você é Amor– Alaíde Costa:

Amigo Amado– Alaide Costa:

Fernando Brant faz travessia e nos deixa com pura saudade

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Por Fabian Chacur

Perdemos um dos grandes poetas da história da MPB na noite desta sexta-feira (12). Fernando Brant fez sua travessia final e se foi aos 68 anos, deixando como legado canções maravilhosas das quais nunca nos cansaremos de ouvir. Seu corpo está sendo velando no Palácio das Artes e será enterrado neste sábado (13) no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

Formado em Direito, Fernando Brant entrou no mundo da música pelas mãos de um amigo, ninguém menos do que Milton Nascimento, que quis ser seu parceiro musical. A primeira obra dos dois tornou-se um clássico da MPB, Travessia, música que em 1967 abriu as portas da fama nacional para o Bituca de Três Pontas. Era o início de uma parceria brilhante.

Milton e Fernando escreveram juntos maravilhas do naipe de Aqui é o País do Futebol, San Vicente, Caxangá, Saudades dos Aviões da Panair (Conversando No Bar), Maria Maria, Encontros e Despedidas, Sentinela, Bola de Meia Bola de Gude, Raça, Maria Solidária, Canção da América e Nos Bailes da Vida, só para citar algumas. É uma obra-prima atrás da outra!

De quebra, Brant também compôs com outros amigos mineiros sucessos maravilhosos do calibre de Para Lennon e McCartney (Brant, Lô e Márcio Borges), Paisagem da Janela (Brant, Lô Borges), Paixão e Fé (Brant e Tavinho Moura), Feira Moderna (Brant, Beto Guedes e Lô Borges) e O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre (Brant e Beto Guedes). Que acervo! Foram mais de 200 composições em sua trajetória.

As letras de Fernando Brant falavam sobre amor, liberdade, sonhos, amizade, saudade e as dúvidas que frequentam nossas mentes. Encontros e Despedidas, Sentinela e Canção da América tocam fundo nas idas e vindas da vida, e do momento no qual fazemos a passagem para o outro lado. Agora, chegou a vez de ele nos deixar. Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar, eis a única certeza da vida!

Bola de Meia Bola de Gude– 14 Bis:

Aqui é o País do Futebol– Milton Nascimento:

Ponta de Areia– Milton Nascimento:

Raça– Milton Nascimento:

Caxangá– Milton Nascimento e Elis Regina:

A Barca dos Amantes- Milton Nascimento (1986/Polygram)

Por Fabian Chacur

A excelente Coleção Milton Nascimento, lançada de forma primorosa pela Editora Abril, chegou a seu final recentemente com um título não muito conhecido do grande público, o álbum ao vivo A Barca Dos Amantes (1986). Vale a pena dar um destaque a esse CD, cuja qualidade é das melhores.

Trata-se logo de cara de um trabalho histórico, pois registra o primeiro encontro nos palcos de Milton e o saxofonista americano Wayne Shorter, com quem o Bituca havia gravado dois belos discos de estúdio nos EUA na década de 70, Native Dancer (1975) e Milton (1976), este último também parte desta coleção da Abril.

O espetáculo ocorreu na primeira versão do Projeto SP, montado debaixo de uma lona de circo na rua Caio Prado, quase na esquina com a Rua Augusta, no centro de São Paulo, local que abrigou shows históricos de gente como Stanley Clarke, Titãs, Marina Lima, Paralamas do Sucesso, Lobão e muitos outros naquele 1986.

Milton teve a seu lado uma banda de craques da MPB integrada por Robertinho Silva (bateria e percusão), Ricardo Silveira (guitarra), Nico Assumpção (baixo) e Luiz Avellar (teclados). Das nove faixas, Shorter marca presença em quatro: as então inéditas Pensamento (Milton/Fernando Brant) e Nós Dois (Milton/Luiz Avellar) e nos clássicos Tarde (Milton/Márcio Borges) e Maria Maria (Milton/Fernando Brant).

O entrosamento entre os dois se mostrou impecável, com direito a solos de sax iluminados do ex-integrante do célebre grupo de jazz Weather Report se encaixando feito luva na sonoridade de Milton e sua banda. Um desbunde total.

A participação do jazzista americano é a cereja do bolo, que traz outros momentos marcantes em termos puramente musicais. O álbum abre com uma empolgada releitura de Nuvem Cigana (Milton/Lô Borges), do mitológico Clube da Esquina (1972).

A Barca dos Amantes, inédita, é uma parceria de Milton Nascimento com o compositor, cantor e músico português Sérgio Godinho. Lançada no álbum Missa dos Quilombos (1982), Louvação a Mariama cativa pelo swing, enquanto Lágrimas do Sul (Milton/Marco Antonio Guimarães) saiu originalmente em Encontros e Despedidas (1985) e homenageia divinamente Winnie Mandela em um libelo anti-racismo.

Se o disco como um todo é maravilhoso, deixei para o fim seu momento mais belo. Trata-se da releitura de Amor de Índio (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), com arranjo mais lento do que o da versão original de Beto Guedes, e no qual Milton dialoga de forma inspiradíssima com o tecladista Luiz Avelar, dando ainda mais força aos versos doces de Ronaldo Bastos.

A Barca dos Amantes encerrou na época o contrato de Milton com a Polygram, ele que havia se transferido para a antiga CBS (hoje Sony Music) por uma fortuna. Um pecado esse trabalho não ter feito o sucesso que merecia. Um dos melhores discos ao vivo da história da MPB e merecedor de uma reavaliação por parte de críticos e do público.

Amor de Índio, ao vivo, com Milton Nascimento:

Encontros e despedidas com o Bituca

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, ainda hoje localizado na mesma Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva do Milton para que eu entrasse em contato direto com o ambiente da música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo pois, não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique.

Ao fim da entrevista, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto hilária, na qual apareço atrás do Milton, que autografava alguns discos, enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda coletiva com o autor de Travessia ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, na época situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião. Um dia posto aqui.

Teria depois mais umas duas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987),por exemplo.

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

Milton- Milton Nascimento (A&M-1976)

Por Fabian Chacur

No dia 26 deste mês, Milton Nascimento completará 70 anos de idade. Até lá, Mondo Pop pretende homenageá-lo com vários posts. Iniciaremos a série com o comentário sobre o álbum Milton (1976), terceiro trabalho gravado por ele destinado ao mercado internacional e um dos mais recentes lançamentos da excelente coleção da Abril dedicada ao Bituca de Três Pontas vendida em bancas, sobre a qual já falamos aqui no blog.

Milton foi gravado em 1976 nos EUA, respectivamente nos estúdios Shangri-La Studios (Malibu) e The Village Recorder (Los Angeles). O repertório traz releituras de sete músicas que já haviam sido lançadas anteriormente em álbuns do astro brasileiro e duas inéditas, Raça e a instrumental Francisco.

As releituras foram vertidas para o inglês, como Cadê (Fairy Tale Song), Nada Será Como Antes (Nothing Will Be As It Was) e Tostão (One Coin). Em alguns casos, como Saídas e Bandeiras (Exits And Flags) e Cravo e Canela (Clove And Cinnamon), só o título surge nessa língua, com os versos em português sendo os interpretados pelo cantor. As traduções em inglês, no entanto, aparecem no encarte do CD.

O grande barato deste álbum é o fato de mesclar músicos brasileiros tarimbados na missão de tocar com o genial autor de Travessia, como Novelli (baixo), Toninho Horta (guitarra) e Robertinho Silva (bateria) com alguns brazucas radicados nos EUA (os percussionistas Airto Moreira e Laudyr de Oliveira e o trombonista Raul de Souza), o tecladista uruguaio Hugo Fattoruso e os jazzistas americanos Wayne Shorter (sax) e Herbie Hancock (teclados).

Tocando de forma ao mesmo tempo disciplinada e solta, esses craques conseguiram a façanha de respeitar os arranjos originais das músicas já gravadas anteriormente, acrescentando a eles um tempero de improvisos tipicamente de jazz rock, proporcionando ao ouvinte um prazer auditivo de grandes proporções e muitas descobertas.

Não que as releituras sejam melhores do que os registros originais feitos no Brasil por Milton. Elas, na verdade, funcionam de uma maneira complementar, como que provando a incrível riqueza das canções do Bituca e as inúmeras possibilidades musicais e harmônicas que elas oferecem aos músicos que por ventura resolvam trabalhar com elas.

As minhas favoritas são a sacolejante Raça, a divina Fairy Tale Song e a deslumbrante One Coin, feita para o documentário Tostão A Fera de Ouro (1970) e descoberta por mim (em sua versão original) quando era ainda uma criança. Sinto arrepios sempre que a ouço, e essa releitura é particularmente inspirada.

O clima de diversão e prazer entre Milton Nascimento e os músicos que estão com ele nesta empreitada é transposto para cada nota musical tocada por eles no álbum, algo que ele conseguiu repetir por diversas vezes em sua carreira, pelo menos em seus anos de ouro, do fim dos anos 60 até 1985. Tipo do disco delicioso, e que tem ainda o mérito de ter lançado Raça, uma de suas canções mais emblemáticas.

Ouça One Coin, com Milton Nascimento:

Ouça Fairy Tale Song, com Milton Nascimento:

Coleção reúne o melhor de Milton Nascimento

Por Fabian Chacur

No dia 26 de outubro, Milton Nascimento completará 70 anos de idade. Como forma de homenageá-lo, a Abril está lançando a Coleção Milton Nascimento, que inclui 20 títulos da extensa discografia do genial Bituca de Três Pontas.

Disponível nas bancas de jornais e livrarias/lojas do tipo Fnac e Livraria Cultura, a série começou esta semana com Milton Nascimento (1967), primeiro álbum da carreira do cantor, compositor e músico nascido no Rio e criado na hoje mítica Três Pontas (MG).

Cada lançamento surge no formato mini-livro, com direito a capa dura, texto sobre o álbum, letras das músicas, fotos e dados biográficos, tudo no capricho.

O álbum que deu início a uma das mais brilhantes carreiras da história do mundo da música tem como marca a canção Travessia, e traz outros clássicos do naipe de Crença, Canção do Sal, Morro Velho e a maravilhosa instrumental Cata-Vento. Belíssima estreia.

Como é um título que saiu originalmente pelo extinto selo Codil e volta e meia some das lojas, trata-se de um ítem imperdível, ainda mais ao preço promocional de R$ 9,90. Os outros da coleção, que serão lançados semanalmente, sairão pelo preço normal de R$ 18,90.

Os 20 títulos englobam o período situado entre 1967 e 1986, sem sombra de dúvidas o mais inspirado e clássico da trajetória do Bituca. Basicamente, temos aqui todos os títulos originais lançados pela EMI e Polygram/Ariola (hoje Universal Music) durante aqueles anos.

Clube da Esquina (1972), Clube da Esquina 2 (1978), Minas (1975), Geraes (1976), Caçador de Mim (1981) e Milton Nascimento Ao Vivo (1984) estão entre os melhores discos da MPB de todos os tempos. Mas todos os títulos dessa coleção são relevantes.

Para o colecionador, os títulos mais relevantes da coleção são certamente Courage (1968), Milton (1976) e Journey To Dawn (1979), feitos para o mercado internacional e não muito fáceis de serem encontrados por aqui.

Para completar a totalidade da produção do artista nesse período, só faltou mesmo Native Dancer (1974), gravado por ele em parceria com o astro do jazz americano Wayne Shorter.

Conheça todos os títulos da Coleção Milton Nascimento:

1- Milton Nascimento (1967)

2- Clube da Esquina(1972)

3- Milagre dos Peixes(1973)

4- Minas(1975)

5-Geraes(1976)

6-Caçador de Mim(1981)

7- Courage(1968)

8- Milton Nascimento (1969)

9- Milton (1970)

10- Milagre dos Peixes Ao Vivo(1974)

11- Milton (1976)

12- Clube da Esquina 2 Parte 1(1978)

13 -Clube da Esquina 2 Parte 2(1978)

14- Journey To Dawn(1979)

15- Sentinela(1980)

16- Ânima(1982)

17- Missa dos Quilombos(1982)

18- Milton Nascimento Ao Vivo(1984)

19- Encontros e Despedidas(1985)

20 – A Barca Dos Amantes(1986)

Ouça Travessia, com Milton Nascimento:

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