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Luizinho Lopes, um cantor e compositor mineiro de primeira

Luizinho Lopes-400x

Por Fabian Chacur

Muitos músicos de grande talento são obrigados a dividir sua vocação com o trabalho em outras áreas para conseguir sobreviver. Este é o caso do cantor, compositor e músico mineiro Luizinho Lopes, que além das artes é graduado em engenharia e atua como funcionário público desde 1996. No entanto, ele soube conciliar as duas atividades e, dessa forma, criar uma obra rica, consistente e admirável, em seus mais de 40 anos na música.

Como forma de celebrar essas quatro décadas como músico, Luizinho lançou o álbum-vídeo Dossiê40, já disponível nas plataformas digitais e ainda sem previsão de lançamento em formatos físicos (uma pena!). Nessa longa e deliciosa entrevista concedida a Mondo Pop, ele viaja pela sua belíssima trajetória como músico e criador de um songbook que merece ser mais conhecido Brasil e mundo afora, por sua qualidade incontestável.

MONDO POP- Para começar, fale um pouco de como teve início a sua relação com a música, se sua família tem músicos, o que você ouvia quando era criança, quando começou a tocar e cantar etc.
LUIZINHO LOPES
– Comecei a cantar, em casa, desde muito cedo. Na década de 60 havia os grandes festivais de MPB. Meu pai adorava. Sempre um LP era lançado com as finalistas. Meu pai comprava e me dava de presente. Com seis, sete anos, eu já curtia Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano, Gil, Milton, Geraldo Vandré, Elis Regina, Agostinho dos Santos e muitos outros. Considero essa a minha primeira formação musical. Meu pai teve dois irmãos que eram músicos, um tocava flauta e saxofone e o outro chegou a ser maestro de banda de cidade do interior. Meu pai nasceu em São Pedro dos Ferros, zona da mata mineira, próximo a Ponte Nova. Comecei a tocar violão bem mais tarde aos 18 anos! Antes,fiz algumas músicas de ouvido. Escrever, comecei desde cedo. E lia muito.

MONDO POP- Você nasceu em Pirapora (MG), mas está em Juiz de Fora há muito tempo. Qual a influência dessas duas cidades em sua vida e, por tabela, na sua criação musical?
LUIZINHO LOPES
– Meu pai era bancário. Somos seis filhos. Eu sou o caçula. Meu pai foi transferido de Governador Valadares para Pirapora, onde chegou promovido a gerente do banco. Morou lá por uns sete anos. Nasci lá, mas quando a família mudou-se da cidade, eu tinha somente dois anos. Então, Pirapora nem chegou a exercer uma influência considerável em minha formação, não tenho lembranças de lá. Só mais tarde que retornei para conhecer. Posteriormente, meu pai foi transferido para Bom Jesus do Itabapoana, fronteira do estado do Rio com Espírito Santo, onde moramos por apenas três anos. De novo, meu pai foi transferido para Leopoldina, Minas, onde morei dos cinco aos treze anos. De Leopoldina meu pai foi para Juiz de Fora, onde se aposentou. Foi em Juiz de Fora que tudo começou para mim em relação à arte.

MONDO POP- Você é graduado em engenharia civil. Trabalha na área? Muitos músicos aceleraram seus contatos ao participar do meio universitário, isso também ocorreu com você?
LUIZINHO LOPES
– Foi Na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) que iniciei de forma a princípio amadora a minha carreira musical. Ganhei um violão de meu pai logo quando passei do primeiro para o segundo período(semestre) na Engenharia. Tinha acabado de completar dezoito anos. Uma tarde, após o almoço, estava de férias, fui para o meu quarto escutar um pouco de música, e logo depois, meu pai entrou e me disse que havia visto um violão “bonitinho” na vitrine de uma loja e pensou em me dar de presente, já que eu adorava música. Nessa época, meu pai já havia se aposentado, a diferença de idade dele para mim era de quarenta e dois anos, ele tinha sessenta anos, isso foi em 1977. Acabei convencido, e fui com ele até a tal loja. Quando cheguei com o violão em casa, por volta das duas e meia da tarde, tranquei-me em meu quarto e comecei a tocar. Lá pelas oito da noite, meu pai bateu na porta, e assim que entrou, foi logo comentando: “Meu filho, você está aqui trancado sem sair desde quando chegamos da rua, se soubesse que seria assim, nem teria tido a ideia de dar um violão pra você. Você não saiu nem pra ir ao banheiro ou tomar água. Não é possível, dê um tempo. Vá comer alguma coisa. O que você fez esse tempo todo? Que eu saiba, você nunca havia tocado violão antes”. E eu respondi: “Fiz uma música. Quer ouvir?”… Daí em diante, na atmosfera da UFJF, sem dúvida, adquiri muitos contatos. Estávamos em plena ditadura militar, sentíamos necessidade de estar juntos, cantar juntos, como se isso nos protegesse contra o
medo e a censura. E hoje afirmo com certeza, foi o grande aprendizado que carreguei para a minha vida, não só artística.

MONDO POP- Fale um pouco de como foi a experiência como integrante do grupo Vértice, como surgiu, quanto durou, se gravou algo, e porque acabou. Ainda tem contato com seus ex-integrantes?
LUIZINHO LOPES
– O Vértice surgiu em 1979. Inicialmente eram sete integrantes, quatro estudantes de engenharia, um de economia, um de farmácia e outro que cursava medicina. O nome Vértice foi dado, obviamente, por um estudante de engenharia, na época, o que era o melhor músico do grupo, o Thadeu Grizendi. Todos homens na primeira formação. Com o tempo, chegaram duas cantoras: Andréa Gomes (hoje, Monfardini) e Lúcia Neves. O auge do Vértice foi a participação no programa Som Brasil da TV Globo, em dezembro de 1981. Na época o programa era comandado por Rolando Boldrin. Gravamos três músicas, uma instrumental, “Sete Lenços”, composta pelo Thadeu Grizendi e por Edson Zaghetto, que fora o último a entrar no grupo, “Vice-Versa” e “Chaminés”, ambas de minha autoria, letra e música. O programa foi ao ar em janeiro de 1982, mas a instrumental foi cortada, somente as minhas duas músicas foram apresentadas no programa. Meses mais tarde, descobrimos que “Sete Lenços” estava sendo usada como fundo de uma propaganda da Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo. Nós éramos muito ingênuos, pedimos só para que a música fosse extraída da propaganda. A nossa apresentação repercutiu bastante. Fomos convidados a fazer diversos shows. O Grupo Vértice realizou dois shows oficiais em teatro, o “Sem Fronteiras”, em 1981 e o “Via Luz”, em 1982, ambos em Juiz de Fora. O grupo acabou no final de 1982. A maioria dos integrantes formou-se na Universidade e partiu para a vida profissional. Também me formei no fim de 1982, mas resolvi partir para a música. Em 1983, fiz o primeiro show, já fora do Vértice, com a cantora Andréa Gomes, chamado “Hóstia da Noite”.

MONDO POP- Você está celebrando 40 anos de carreira. Qual é o marco inicial, a partir do qual você conta essas quatro décadas?
LUIZINHO LOPES
– O marco inicial é 1978, ano em que comecei a me apresentar cantando tão somente canções de minha autoria, no palco do Anfiteatro do ICBG (Instituto de Ciências Biológicas) na UFJF, em um projeto que se chamava Som Aberto, com edições que aconteciam todos os sábados, a partir das dez da manhã. O show “DOSSIÊ40” foi gravado em dezembro de 2018, completando justamente estes quarenta anos. DOSSIÊ40 foi lançado somente em 2020. Em 2019, gravei e lancei um outro álbum, “Pé de Letras”, o que acabou atrasando o lançamento de “DOSSIÊ40”.

MONDO POP- Seu primeiro álbum, Nem Tudo Que Nasce é Novo, saiu em 1990, quando você já tinha por volta de uma década de estrada. Quais as dificuldades para conseguir, enfim, concretizar esse disco, e na sua opinião porque demorou tanto tempo para realizar esse sonho?
LUIZINHO LOPES
– Na época, era muito mais difícil gravar um disco do que hoje. Os custos eram bem mais elevados e eu vivia, na ocasião, somente da música, tinha poucos recursos e o “Nem Tudo Que Nasce É Novo” foi um disco feito de forma independente. Tive uma ideia que pus em prática e que possibilitou a gravação do meu primeiro disco: um vale-disco, em que a pessoa comprava o LP de forma antecipada. Deu certo, vendi cerca de trezentos vales assim.

MONDO POP- Qual a importância na sua trajetória de participar de festivais? Lembre-se de algumas experiências nessa área que você considere as mais significativas em termos de repercussão.
LUIZINHO LOPES
– Participei de diversos festivais, como integrante do Vértice e de forma individual. Os mais marcantes foram os festivais do TUCA, em São Paulo (SP), em 1982, em Porto Alegre(RS) e Ouro Preto(MG), ambos em 1983, no Festival Nacional do Carrefour, semifinal em Uberlândia(MG), em 1992, e no Musicanto, em Santa Rosa (RS), festival de música latino-americana, em que faturei o segundo lugar com a música “Lume” numa interpretação antológica do grande cantor paulistano Renato Braz, acompanhado pelo maestro Roberto Lazzarini ao piano, e por mim no violão. O prêmio neste festival trouxe uma grande visibilidade, que contribuiu muito para a expansão de meu trabalho.

MONDO POP- A sua carreira ganhou força a partir de 2014, com mais lançamentos de CDs e DVDs do que em todos os anos anteriores. Qual a razão?
LUIZINHO LOPES
– Creio que tenha sido pelo fato de que em 2012 consegui retornar para Juiz de Fora, e com isso pude ter mais condições de investir em meu trabalho musical. Gravar um disco foi se tornando mais fácil, a
tecnologia contribuiu para o barateamento das gravações. Este fato, inclusive, já tinha sido observado por mim quando da gravação de “Noiteceu”, meu terceiro álbum, que foi gravado com recursos próprios além de recursos da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora.

MONDO POP- O Ricardo Itaborahy tem uma participação importante na fase mais recente de sua carreira. Como você o conheceu, e como funciona o entrosamento musical entre vocês?
LUIZINHO LOPES
– A resposta a esta pergunta tem a ver com a questão anterior. Em 2015, quando Ricardo Itaborahy assumiu a direção musical de “Falas Perdidas”, CD produzido com recursos da Lei Murilo Mendes e recursos próprios, percebi que meu trabalho tomaria outro rumo. Ricardo já havia feito a mixagem de meu álbum anterior, “Luizinho Lopes Ao Vivo”, álbum duplo por sinal, e ali já pude observar a maneira dele trabalhar. Quando iniciamos a produção de “Falas Perdidas”, parecia que já havíamos trabalhado juntos nessa atividade anteriormente. Tudo se encaixava, o modo como ele desenvolveu os arranjos, e até hoje ele discorre sobre isso, respeitando as sequências harmônicas que eu criara quando da composição das músicas, para em cima disso poder partir para suas ideias, além de facilitar o seu trabalho, fazia com que a música não perdesse a sua essência de origem. Em minha opinião, um grande erro de um arranjador é praticamente desvestir a música de um compositor para sobrecarregar com suas ilações, o que na quase totalidade dos casos, desfigura a obra original, transportando o que restar para o patamar da mesmice. O entrosamento entre mim e Ricardo é muito grande. O fato de Ricardo morar em outra cidade faz com que eu envie para ele uma nova composição ou uma ideia de arranjo, através dos meios digitais. Muitas vezes, quando nos encontramos para realizar uma apresentação, um show, não dispomos de muito tempo para ensaiar, o que não chega a ser problema para nós, um tanto também pelo entrosamento que há.

MONDO POP- Fale sobre a concepção de Dossiê40 – escolha de repertório, montagem da banda de apoio, local etc. Quantas músicas incluídas neste trabalho nunca haviam entrado antes em um de seus discos?
LUIZINHO LOPES
– Para o repertório, primeiramente, recolhi cinquenta músicas para escolher dezesseis para o show. Com ajuda do Ricardo Itaborahy peneiramos para vinte e cinco, e finalmente para dezenove. Seis músicas não haviam entrado anteriormente em nenhum de meus discos: Charada, A Dança das Palavras, Coração Kamikaze, Que Loucura!, Vice-Versa e Vi a Luz.

MONDO POP- As cantoras Andréa Monfardini e Elisa Bara Zaghetto participam do álbum. Como surgiu a ideia de convidá-las, e como você avalia o resultado da participação delas?
LUIZINHO LOPES
– As duas cantoras tiveram participações marcantes no show. Andréa Monfardini já participa de trabalhos comigo desde a época do Vértice. A Elisa estuda canto desde cedo e atua em teatro também, tem uma voz
diferenciada, muito afinada. Não é para menos, sempre recebeu orientação artística de seu pai, meu grande parceiro Edson Zaghetto.

MONDO POP- Como você define o seu universo musical, enquanto cantor e compositor? Quais são as influências que você sente como mais decisivas para a consolidação de seu estilo musical próprio?
LUIZINHO LOPES
– De uns tempos pra cá, comecei a vasculhar as origens da arte em minha vida. Na infância, em Leopoldina, estudei em colégio de freiras.Lá, havia uma bandinha com instrumentos de percussão e vozes. Eu era
sempre a primeira voz do grupo, por ser afinado, principalmente, lembro-me da professora que coordenava a bandinha comentar isso. Depois na adolescência, quando já morava em Juiz de Fora, andei fugindo do papel de cantor por uma timidez adquirida não sei como. Mesmo depois de ter lançado dois álbuns, ainda não sentia muito prazer em cantar, na verdade tinha medo de soltar a voz. Enfim, em 2002, encontrei um professor de canto que me fez perder o medo. Estudei com ele por dois anos e foi o maior aprendizado que tive em relação à música, mais do que qualquer aprendizado de teoria musical, harmonia ou técnicas de violão, porque ganhei confiança e a certeza de que o que eu precisava era me soltar no palco, interpretar o que cada canção suplica. Como compositor, creio que as minhas maiores referências são musicais, literárias e cinematográficas. Não sei separá-las. O cinema é cheio de música, palavra e silêncio. É o que mais me fascina. E isso interfere diretamente nas minhas composições. No geral, nomes imprescindíveis para mim: Chico Buarque, Gilberto Gil, Egberto Gismonti, Vítor Ramil, Beatles, Keith Jarret, Chico César, Elomar Figueira de Mello, João Cabral de Melo Neto, Octavio Paz, Luiz Ruffato, Gabriel García Márquez, Kafka, Jorge Luiz Borges, Luis Buñuel, Bergman, Scorcese e Stanley Kubrick. A influência mais decisiva para mim talvez venha de uma expressão literária, talvez seja Jorge Luiz Borges; quando o li pela primeira vez engatei uma leitura de umas 6 horas sem parar, sem levantar da cadeira, foi um soco e eu disse para mim mesmo: dessa forma que eu quero trazer as palavras para a minha música…

MONDO POP- Boa parte das suas composições são solo, mas você também tem algumas parcerias. Comente um pouco como é escrever canções sozinho e também com parceiros.
LUIZINHO LOPES
– Adoro escrever e adoro fazer música. Quando estou compondo sozinho, tenho um prazer especial de ao estar tecendo a melodia, ao mesmo tempo estar selecionando palavras. As palavras chegam antes do tema muitas vezes. Compor com parceiros é sensacional, mas tem que haver muita afinidade com a forma que o parceiro escreve, por exemplo. Por isso tenho poucos parceiros, e esses poucos, deixam comigo os textos que vou conformando à métrica e à necessidade da canção. Entre os parceiros que me municiam com palavras, tenho dois ilustres que eu me orgulho muito, que são o Luiz Ruffato e o Iacyr Anderson Freitas. Já em relação aos parceiros que fazem as melodias, são muito poucos. Sinto muita falta de receber melodias para que eu possa criar as letras.

MONDO POP- Você iniciou sua carreira no final dos anos 1970, em um momento no qual a música brasileira vivia uma de suas fases áureas. Que recordações tem daquela época, e como avalia a cena atual?
LUIZINHO LOPES
– Aquela foi uma época em que ficávamos esperando um disco chegar com tremenda ansiedade. Lembro-me muito do LP A Ópera do Malandro, do Chico Buarque. Cheguei na loja de discos, ainda fechada, e aguardei. Na véspera, fiquei sabendo que chegariam poucas unidades do disco, fui o primeiro a comprar. A MPB estava no auge, vários trabalhos magistrais sendo lançados, praticamente um disco por ano dos grandes compositores. Sem entrar no mérito dos diversos benefícios que a era digital trouxe para a arte em geral, pelo menos o glamour do lançamento da bolacha, do LP, foi perdido, e não sinto como substituí-lo. A cena atual ainda é indecifrável. Como não há espaço suficiente na mídia tradicional para a música de qualidade como havia
no final dos anos 1970, a descoberta das pérolas fica restrita e sujeita à qualidade de farejo do pescador digital.

MONDO POP- Como você encara os formatos através dos quais se lançam músicas atualmente? Pretende lançar Dossiê40 também em formato físico (CD,DVD)? O formato digital tem trazido bons frutos para você em termos de
repercussão e ganhos financeiros?
MONDO POP
– Sem dúvida, a partir desses formatos digitais surgiu uma chance de democratização maior da divulgação do artista, de sua obra de arte. Na prática isso não está ocorrendo ainda para determinados setores da
música. Em termos de repercussão aumentou bastante o alcance de minha música, de minha obra. Em termos de ganho financeiro, ainda não. Mas está aumentando, isso varia proporcionalmente com a quantidade de seguidores nas redes sociais. Por ora, não pretendo lançar o DOSSIÊ40 em formato físico.

MONDO POP- Dossiê40 pode ser considerado uma espécie de viagem por esses 40 anos de carreira?
LUIZINHO LOPES
– Com certeza. A forma como escolhemos o repertório levou em consideração as variáveis “idade” da música, aceitação, contemporaneidade, impacto, poesia e outras. Obviamente se adicionadas mais umas quatro músicas, essa viagem seria mais abrangente, ficaria ainda mais representativa.

MONDO POP- Como compositor, quem você gostaria de ouvir interpretando canções de sua autoria? E como intérprete, com quem você gostaria de trabalhar junto, em shows ou em gravações?
LUIZINHO LOPES
– Gostaria muito de ter músicas cantadas pelo Ney Matogrosso e Marisa Monte. Como intérprete, gostaria de estar no mesmo palco do Vítor Ramil e do Chico César, cantando com eles suas canções.

MONDO POP- Você é graduado em cinema documentário. Pretende também fazer trabalhos nessa área? O que te levou a fazer esse curso? Pensa em unir as duas coisas- música e cinema, quem sabe em trilhas ou coisa que o valha?
LUIZINHO LOPES
– Meu desejo maior desde criança era ser cineasta. Fiz esse curso, porque morava no Rio de Janeiro na época, e não tinha tempo de fazer uma faculdade de cinema. Eu fui da primeira turma de Pós-Graduação
em Cinema-Documentário da FGV-Rio. Está em meus planos realizar um longa, tenho um roteiro bem desenvolvido e adoraria fazer trilhas para cinema, a oportunidade que ainda não surgiu.

MONDO POP- Para encerrar: você consegue viver de música, em termos financeiros? Se a resposta for não, qual ocupação te proporciona isso?
LUIZINHO LOPES
– Não consigo viver de música. Em 1996, através de aprovação em concurso público, assumi o cargo de Auditor Fiscal da Receita Estadual de Minas Gerais, que, dentre outras coisas, possibilitou que eu residisse na capital do Rio de Janeiro de 1999 a 2009, já que Minas Gerais ali possui um escritório avançado da Receita Estadual, e onde entre várias conquistas musicais, pude cursar Cinema Documentário na FGV. A partir de 2012, quando retornei para Juiz de Fora, pude investir mais em minha carreira musical. Foi uma decisão muito difícil o de entrar no serviço público, pelo fato de sobrar menos tempo para me dedicar à música, mas acabou que tive muita disciplina e persistência, e com o tempo fui aprendendo cada vez mais a administrar a situação, hoje digo com tranquilidade, considero-me um músico profissional e posso realizar trabalhos musicais que eu gosto, antes de tudo, sem me curvar a qualquer obrigação de mídia ou coisas do gênero. Isso proporciona uma imensa tranquilidade e grandes realizações, apesar do sacrifício. Se nada de absurdo ocorrer, dentro de dois anos aposento-me no serviço público, para a partir daí poder dedicar-me totalmente às artes.

Ouça e veja Dossiê40, de Luizinho Lopes, em streaming:

Luiz Millan cria verdadeiro sarau musical em Achados & Perdidos

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Por Fabian Chacur

Embora toque, cante e componha desde os anos 1970, o médico com especialização em psiquiatria Luiz Millan passou a se dedicar com mais força à carreira musical a partir de 2011, quando lançou seu primeiro CD, Entre Nuvens. Desde então, tivemos mais três CDs e um DVD (Dois Por Dois Ao Vivo, leia resenha aqui). Agora, chega a vez de Achados & Perdidos, lançado nas plataformas digitais e também em uma luxuosa edição em CD.

Como tem sido praxe em seus trabalhos, Millan escalou gente do primeiro escalão da música. Temos aqui o consagrado tecladista Michel Freidenson, fiel escudeiro e também coprodutor deste álbum, Sylvinho Mazzucca (baixo), Edu Ribeiro (bateria), Léa Freire (flauta) e Adriana Holtz (celo), entre outros.

Em termos vocais, Millan assume a função de cantor solo em três faixas, e faz duetos em outras quatro canções com uma das grandes revelações das últimas décadas, a cantora e compositora Giana Viscardi. Ela também se incumbe de duas músicas sozinha, e uma em dueto com Mauricio Detoni. As quatro faixas restantes são instrumentais, interpretadas por Michel Freidenson e Grupo.

Pela primeira vez, ele relê canções de outros autores. São quatro: Samba da Pergunta (Pingarilho e Marcos Vasconcellos), Brasil Com S (Rita Lee e Roberto de Carvalho), Não Pode Ser (Marcos e Paulo Sérgio Valle) e Outro Cais (Eduardo Gudin e José Costa Neto). As outras dez são de sua autoria, sendo três (incluindo a faixa-título) escritas com o saudoso Moacyr Zwarg (1945-2017), uma sozinho (em homenagem a Zwarg), duas com Plinio Cutait, uma com Michel Freidenson, outra com Mauricio Detoni, uma com Ivan Miziara e uma com a esposa Marília.

Munido deste repertório de primeiríssima linha, Luiz Millan montou um álbum que equivale a um refinado e delicioso sarau musical, viajando com categoria por diversas vertentes da nossa música popular, com ênfase em bossa nova. Com uma voz muito bem colocada e com timbre equivalente a um intermediário entre Toquinho e João Donato, ele se mostra desenvolto tanto sozinho como nos deliciosos duetos com Giana, cuja performance é sublime, para dizer o mínimo.

Em um momento no qual a cultura brasileira sofre com o criminoso descaso por parte do governo federal e também com as consequências da pandemia do novo coronavírus, é uma verdadeira bênção poder ouvir um trabalho do altíssimo calibre deste Achados & Perdidos. A edição física é simplesmente sublime, com encarte com letras, ficha técnica e fotos dos músicos e de várias fases da vida deste admirável doutor da canção, Luiz Millan.

Ouça o álbum Achados & Perdidos em streaming:

Isabella Taviani lança single com releitura de hit da Legião Urbana

isabella taviani 400x

Por Fabian Chacur

Isabella Taviani encontra-se no momento em meio às sessões de gravação de um novo álbum, que será o sucessor de Carpenters Avenue (2016), bela homenagem ao grupo de Karen e Richard Carpenter. Enquanto esse trabalho, que está previsto para sair no final deste ano, não chega, ela nos oferece um single cuja faixa não será incluída no futuro trabalho. Trata-se de Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, releitura de canção da Legião Urbana Incluída em seu clássico CD As Quatro Estações (1989).

A cantora carioca explica o que a motivou a fazer esse resgate. “Numa tarde dessas, enquanto organizava meus discos, As Quatro Estações veio parar na minha mão; quando ouvi Se fiquei esperando meu amor passar, percebi que deveria regravá-la, num tom mais intimista e bem suave: voz, violão, violoncelo e nada mais”, conta.“É preciso cantar, ouvir e pensar novamente Legião Urbana!”.

Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar– Isabella Taviani:

Grupo 5 a Seco lança um novo álbum com show único no Rio

5 a Seco - Síntese

Por Fabian Chacur

Com quase oito anos de estrada, o grupo 5 a Seco lançou seu primeiro trabalho em 2012, o CD/DVD Ao Vivo no Auditório Ibirapuera, com elementos sonoros mais orgânicos. Policromo (2014) marcou uma fase com mais experimentalismo e busca de novas sonoridades. Agora, eles partem para uma fusão entre as duas propostas que já se entrega no título do novo álbum: Síntese. Eles lançam esse trabalho no Rio com show neste sábado (17) às 21h no Teatro Bradesco Rio (Avenida das Américas, nº 3.900- loja 160 do Shopping VillageMall- fone 0xx21-3431-0100), com ingressos custando de R$ 40,00 a R$ 130,00.

O 5 a Seco se vale de conceitos típicos dos anos 2000, definindo-se como um coletivo de compositores, ao invés de uma banda tradicional. Seus integrantes são Pedro Viáfora, Leo Bianchini, Vinícius Calderoni, Tó Brandileone e Pedro Altério, todos cantores, compositores e músicos que também se dedicam a outros projetos. Sua sonoridade reflete várias influências musicais, sendo a MPB pop uma das mais facilmente identificáveis, assim como o rock e o eletrônico, com uma especial predileção por boas composições.

O repertório do show trará músicas do novo álbum, entre as quais O Dia de Encontrar Você, Na Onda, Ventos de Netuno e Brisa, além de material oriundo dos trabalhos anteriores. O estilo inquieto e diversificado dos cinco se mostra de forma bastante evidente ao vivo, embora seu esmero nos esforços registrados em estúdio tenha apontado um direcionamento que equilibra essas duas facetas, o palco e as gravações.

Síntese (álbum inteiro em streaming)- 5 a Seco:

Mamparra traz intensidade e brilho em seu primeiro álbum

Banda Mamparra - Foto - Isabel Tell (3)-400x

Por Fabian Chacur

Os sons tropicalistas e pós-tropicalistas dos anos 1960 e 1970 tem influenciado diversos artistas da cena atual. Nem todos conseguem captar a essência daquela sonoridades sem cair na mera repetição ou em verdadeira naftalina sonora, de tão datada. Felizmente, esse não é o caso da banda paulistana Mamparra, que com seu álbum de estreia nos traz dez faixas consistentes, nas quais intensidade, brilho, bom humor e sutileza aparecem como características essenciais.

Com sete anos de existência, a Mamparra traz como integrantes Gustavo Araújo Borges (guitarra e voz), Maiana Monteiro (voz), Felippe Rodrigues (bateria) e Guilherme Mingroni (baixo). No início, tocavam apenas músicas de Itamar Assumpção, mas com o tempo abriram o leque para nomes como Belchior, Jards Macalé e Gilberto Gil, e depois, rumo a composições próprias. Tropicalismo e Novos Baianos são outras referências importantes em seu trabalho.

Mamparra, o álbum, lançado em CD e também disponível nas plataformas digitais, foi gravado com o conceito “ao vivo no estúdio” em apenas três dias. A produção ficou a cargo de Fábio Barros, dono do estúdio Trampolim, que além disso participou tocando diversos instrumentos. Também fizeram participações especiais Fernando Mostaço Foca (trompete), Arthur Joly (mini moog), Habacuque Lima (vocais) e Gabriel Nascimbeni (vocais).

Essa opção em gravar todo mundo junto e de também se valer essencialmente de recursos analógicos nas gravações sempre que possível deu ao trabalho um clima bem orgânico e intenso, que faz o ouvinte se sentir dentro do estúdio, como se estivesse bem no meio de tudo. A participação dos convidados dá um sabor adicional ao trabalho, especialmente o excelente trompete de Fernando Mostaço Foca, que interage com os outros músicos de forma marcante.

A sonoridade do Mamparra aposta em um minimalismo flexível, valorizando os vazios de forma inteligente e os preenchendo sempre que se fez necessário, sem exageros. Essa moldura precisa ajuda a voz gostosa e bem colocada de Maiana (que é filha da ótima Vânia Abreu) a fluir com desenvoltura. Quando o jeitão falado e meio rapper de cantar de Gustavo dialoga com ela, a originalidade da banda ganha recursos muito bem utilizados.

O repertório do álbum é bem consistente, com direito a momentos excelentes como Cidadania, Samba Velho, Trajetória e Hobbinho. Soa bem setentista, mas sem cair na mera repetição, exalando fortes elementos de diversas variações do samba, música nordestina, rock e até um pouco de psicodelia. Que venha mais coisa boa de onde vieram estas dez faixas, sempre com esse clima de celebração (um dos significados para o termo africano mamparra).

Samba Velho (clipe)- Mamparra:

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