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Banda Zil resgata seu trabalho em classudo DVD em preto e branco

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Por Fabian Chacur

Em 1986, sete músicos com um currículo invejável resolveram se unir com o intuito de criar um grupo para desenvolver uma sonoridade própria, baseada em uma mistura de jazz rock (ou fusion, rótulo muito usado naquele tempo para denominar tal sonoridade), bossa nova, Clube da Esquina, folk e muito mais. Surgia a Banda Zil, que lançou o álbum Zil (1987- Continental) e fez alguns shows concorridos, incluindo participação no Free Jazz Festival de 1988. Em 1991, saíram de cena, mas um possível retorno sempre ficou no ar.

E isso enfim ocorreu em 2016. Para felicidade dos fãs da melhor música brasileira, foi devidamente registrado no DVD Zil Ao Vivo (MP,B-Som Livre-Canal Brasil), também disponível em áudio nas plataformas digitais.

Fortes laços unem os integrantes da banda Zil. Zé Renato (vocal e violão) e Claudio Nucci (vocal e violão) integraram a formação do Boca Livre que lançou em 1979 seu icônico e autointitulado trabalho de estreia, além de terem gravado em 1985 pela gravadora CBS um bem-sucedido álbum em dupla.

Marcos Ariel (teclados) integrou nos anos 1970 o grupo Cantares ao lado de Zé Renato, além de ter sólida carreira solo. João Baptista (baixo e vocais) foi baixista da célebre e cultuada banda gaúcha Almôndegas (que revelou os irmãos Kleiton e Kledir Ramil), e depois tocou com João Bosco e Milton Nascimento.

Jurim Moreira (bateria) foi parceiro de Baptista na gravação e na turnê de divulgação de O Rock Errou (1986), excelente LP de vinil (nunca lançado em CD) e subestimado até pelo próprio autor, o polêmico Lobão, e integrou as bandas de apoio de Alceu Valença, Gilberto Gil, Edu Lobo, Gal Costa e Chico Buarque.

Ricardo Silveira (guitarra e vocais) estudou nos EUA, tocou na banda do consagrado jazzista americano Herbie Mann e tem no currículo trabalhos com gente do porte de Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ivan Lins e Ney Matogrosso, além de manter elogiada carreira solo. Em seu tempo na banda de João Bosco, foi colega de João Baptista, por sinal.

Vale também registrar que em 2007 Marcos Ariel, João Baptista, Ricardo Silveira e Jurim Moreira lançaram o CD 4 Friends. Completa o time o virtuoso Zé Nogueira (sax, flauta, duduk e vocais), que emprestou seu talento a Edu Lobo, Djavan e Chico Buarque, só para ficar em alguns dos mais conhecidos.

Entrosamento, bom repertório, inspiração…

Com currículos como esses, e vale ressaltar que estão mega-resumidos nesta resenha, não é de se estranhar que tenha demorado tanto para que esses músicos conseguissem se reunir novamente. A agenda deles é mais do que cheia, e com toda justiça. Mas isso finalmente ocorreu no dia 19 de maio de 2016, no palco do Cultural Bar, em Juiz de Fora (MG).

Lógico que só a belíssima trajetória de seus integrantes não seria garantia de qualidade superior para a Banda Zil. Não são poucos os exemplos de formações deste gênero que sucumbiram, no melhor estilo “óleo e água”, sem dar liga. Aqui, no entanto, a combinação se mostrou das melhores, e quem sabe a amizade e as grandes afinidades sonoras tenham feito a diferença para tal resultado.

O repertório de Zil Ao Vivo traz as oito faixas do álbum original (sete no vinil e uma a mais nas versões em CD lançadas nos EUA, Europa e Japão) e mais seis adicionais. Oito delas são instrumentais, e seis seguem o formato canção. Das 14 faixas, só três não levam a assinatura de algum dos integrantes. Duas tem como coautor Milton Nascimento: Anima (parceria com Zé Renato) e Portal da Cor (escrita com Ricardo Silveira).

O som do grupo soube incorporar com sabedoria e bom gosto o background dos músicos, como as vocalizações a la Boca Livre, as improvisações típicas da fusion, as sofisticadas harmonias musicais da bossa nova etc.

O bacana é que eles encaixam seus talentos de forma generosa, sem cair em duelo de egos para ver quem sola de forma mais criativa ou tecnicamente mais difícil. Todos jogam a favor da música, e o resultado é muito bom de se ouvir, embora sofisticado e criativo ao extremo.

Preto e branco dá um tom vintage à festa

Se a enorme qualidade da performance dos músicos já não fosse suficiente, o DVD se torna ainda mais clássico pela opção de registrá-lo em preto em branco, com uma iluminação ressaltando o clima de barzinho de filme noir dos anos 1940/1950. Durante a música Lua Branca, o registro é feito em cima do palco, enfocando individualmente cada músico, com um efeito esteticamente delicioso.

Em Suite Gaúcha, Nucci e Zé Renato ficam de fora, eles que dividem o palco sem a banda na releitura de Blackbird, dos Beatles. E Calma traz apenas Ariel, Nogueira e Silveira. Os dois cantores se valem de suas vozes em encantadores vocalizes nos momentos de enfoque instrumental, em alguns trechos tendo o acréscimo de Baptista, Nogueira e Silveira.

O DVD é bom como um todo, mas alguns momentos podem ser ressaltados, como a encantadora Anima, as deliciosas Zarabatana e Song For a Rainforest (Tupete) , a ácida Pegadas Frescas (cuja letra permanece mais atual do que nunca) e a quase progressiva Portal da Cor, com seus mais de 10 minutos de duração.

Se fica difícil imaginar muitas reuniões futuras desse time tão requisitado e ocupado, ao menos agora temos um registro de alta qualidade para matarmos a vontade de vê-los juntos. Menos mal. O DVD foi dedicado ao saudoso produtor Paulinho Albuquerque (1942-2006), que teve participação importante na idealização e criação da banda nos anos 1980.

Portal da Cor (ao vivo)- Banda Zil:

Vânia Bastos, Túlio Mourão e Rafa Castro em Tons de Minas

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Por Fabian Chacur

Em seus mais de 30 anos de carreira-solo, Vânia Bastos tem se especializado em reler de forma personalizada e repleta de classe alguns dos mais importantes songbooks da música popular brasileira. Em seu novo projeto, Tons de Minas, a cantora paulista se reúne aos músicos mineiros Túlio Mourão e Rafa Castro para um espetáculo que promete ser inesquecível. O trio se apresenta nesta segunda (30) às 19h30 em São Paulo no Sesc Carmo (rua do Carmo, nº 147- Sé- fone 0xx11-3111-7000), com ingressos de R$ 6,00 a R$ 20,00.

A sementinha que deu origem ao novo show da cantora oriunda de Ourinhos (SP) é o elogiado disco Vânia Bastos Canta Clube da Esquina (2008). Desta vez, ela resolveu ampliar o leque de escolha, mergulhando de forma mais abrangente no rico cancioneiro da música feita em Minas Gerais.

O repertório traz maravilhas do porte de Cais (Milton Nascimento-Ronaldo Bastos), Nascente (Flávio Venturini- Murilo Antunes), Choveu (Beto Guedes), Resposta (Samuel Rosa), Românticos (Wander Lee) e Fronteira (Rafa Castro).

O time escalado para este projeto não poderia ter sido melhor escalado. Túlio Mourão ficou conhecido inicialmente nos anos 1970 ao integrar os Mutantes em sua fase rock progressivo. Posteriormente, tocou com Milton Nascimento, Maria Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso e Ney Matogrosso, além de ter feito a incrível trilha do filme Jorge, Um Brasileiro (1988).

Em 2014, Túlio gravou o DVD/CD Teias, em parceria com o jovem músico Rafa Castro. A enorme qualidade artística dessa obra mostrou que estes dois tecladistas e compositores tinham muitas afinidades positivas. Rafa é também cantor dos bons, e se radicou em São Paulo em 2017, tendo lançado recentemente seu terceiro trabalho, o ótimo CD Fronteira.

No show, Rafa também fará alguns duetos vocais com Vânia, que foi revelada ao integrar as bandas de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Como artista-solo, traz como marca um timbre vocal delicado e delicioso, sempre dedicado a repertórios impecáveis e sem concessões ao comercialismo excessivo ou ao popularesco. Bom gosto é uma expressão que nos vem imediatamente à mente ao pensar na forma como ela desenvolve seus shows e álbuns.

O Trem Azul– Vânia Bastos:

Marcos Munrimbau mostra seu show Aquarela de Batons em SP

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Por Fabian Chacur

Aquarela de Batons é o nome do show que o cantor e compositor Marcos Munrimbau apresenta nesta sexta-feira (30) às 21h em São Paulo no Teatro UMC (avenida Imperatriz Leopoldina, nº 550- Vila Leopoldina- fone 0xx11-2574-7749), com ingressos a R$ 20,00 (meia) e R$ 40,00 (inteira). Ele será acompanhado pelas musicistas Anete Ruiz (teclados, piano), Amanda Ferraresi (violoncelo) e Paula Padovani (bateria e percussão).

O fato de ser acompanhado por três mulheres não ocorre por acaso, nesse show específico. O espetáculo, cujo set list traz composições de autoria de Munrimbau, equivale, nas palavras do próprio artistas, a “uma homenagem às mulheres de todas as tribos”. O título, escolhido de forma original e muito feliz, reflete exatamente essa pluralidade por trás do universo feminino.

Uma das canções de destaque do show será Quando Você Se Aproxima, uma delicada balada com influências eruditas que ganhou um videoclipe dirigido por Edgar Bueno com participação da atriz Juliana Ladeira e cenas gravadas na praia do Capricórnio, localizada na cidade de Caraguatatuba (SP).

Marcos Munrimbau é autor de músicas como Desabafo, Tempos de Colheita e Medo, que entraram em trilhas sonoras de diversos espetáculos teatrais. Com um timbre vocal belíssimo que traz ecos de Milton Nascimento, ele se apresenta ao vivo com frequência na capital, interior e litoral do estado de São Paulo, além de ter cantado no Blue Note, em Paris. Também educador, ele criou o projeto Vozes Cidadãs, que desde 1990 promove inclusão social através da música.

Quando Você se Apaixona– Marcos Munrimbau:

Marcos Valle mostra em SP o repertório de Previsão do Tempo

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Por Fabian Chacur

A discografia do genial Marcos Valle é repleta de grandes momentos. Um deles é o álbum Previsão do Tempo (1973), recentemente relançado em vinil de 180 gramas pela Polysom, dentro da série Clássicos Em Vinil. O cantor, compositor e tecladista carioca ficou tão entusiasmado com essa reedição que montou um show no qual apresenta na íntegra o repertório desse LP. Ele se apresenta com esse repertório em São Paulo neste sábado (20) às 21h e domingo (21) às 18h no teatro do Sesc Pompeia (rua Clélia, nº 93- Água Branca- fone 0xx11-3871-7700), com ingressos de R$ 9,00 a R$ 30,00.

Previsão do Tempo traz uma criativa e envolvente fusão de bossa nova, jazz, soul, funk, rock e pop na qual a impressionante capacidade de Marcos Valle como músico e compositor se sobressai. Das 12 faixas, em nove ele é acompanhado pelo seminal grupo de soul-funk-bossa-jazz Azymuth, enquanto em duas a tarefa ficou a cargo dos roqueiros do Terço, liderados pelo guitarrista Sergio Hinds.

Marcos Valle (voz e piano Rhodes) terá a seu lado uma banda integrada por Patrícia Alvi (vocal), Paulinho Guitarra (guitarra), Donatinho (teclados), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa Calmon (bateria). Nem Paletó Nem Gravata, Os Ossos do Barão, Tira a Mão e a instrumental Previsão do Tempo são algumas das maravilhas que o público poderá ouvir nas duas performances.

Ouça Previsão do Tempo em streaming:

Barbara Rodrix é a atração do projeto O Som da Casa em SP

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Por Fabian Chacur

Teve início em junho, com show da cantora e compositora Bruna Moraes, o projeto O Som da Casa, realizado em parceria pela MMP Produções e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. A ideia é dar espaço, uma vez por mês, para nomes da nova geração da música brasileira, em performances intimistas. A segunda apresentação desta série será neste sábado (13) às 20h no Espaço Cultural Casa dos Trovadores (rua Aimberê, nº 651- Perdizes- fone 0xx11-2595-0100), com entrada gratuita, e a artista escalada é a cantora, compositora e musicista Barbara Rodrix.

Com 28 anos de idade, Barbara é filha do saudoso cantor, compositor e músico Zé Rodrix, e tem em seu currículo dois álbuns. O mais recente, Eu Mesmo (2016), traz canções autorais feitas em parceria com Luiza Possi e Bruna Caram, além de duas do pai, Eu Não Sei Falar de Amor e Olhos Abertos. No show, que será no melhor estilo voz e violão, ela mostra canções de seus álbuns e também uma inédita de Zé Rodrix, Eu Só Queria Contar Meu Problema, e uma de Rosa Passos, que Barbara aponta como importante influência em seu trabalho.

O Som de Casa, que é apresentado no espaço cultural criado pelo grupo Trovadores Urbanos, já tem novas apresentações agendadas. No dia 17 de agosto, o ótimo cantor e compositor Breno Ruiz terá a seu lado Lucila Novaes. No dia 14 de setembro, será a vez de Paula Sanches, e em 26 de outubro, teremos as Trigêmeas Caram, sempre com entrada gratuita.

Ouça o álbum Eu Mesmo em streaming:

Lô Borges mostra Rio da Lua e outros sucessos em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Aos 67 anos de idade, o cantor, compositor e músico mineiro Lô Borges vive um momento inspirado em sua carreira. Após ter lançado em 2018 um esplêndido DVD gravado ao vivo, ele recentemente nos ofereceu um novo trabalho de inéditas, o delicioso CD Rio da Lua (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Ele estará em São Paulo para shows neste sábado (6) às 21h e no domingo (7) às 18h no Teatro do Sesc Pompeia (Rua Clélia, nº 93- Pompeia- fone 0xx11-3871-7700), com ingressos de R$ 9,00 a R$ 30,00.

Rio da Lua traz dez parcerias de Lô com um velho amigo, o excelente cantor, compositor e músico Nelson Angelo, com quem ele curiosamente nunca havia composto uma única canção sequer. Valeu a espera, pois o CD é impecável, um dos melhores de 2019. A novidade fica por conta de o ilustre integrante do Clube da Esquina ter pela primeira vez musicado letras, quando seu processo criativo habitual é encaixar as palavras em melodias criadas previamente.

Se as canções do novo álbum terão destaque no repertório destas duas apresentações em Sampa City, os fãs podem aguardar também diversos de seus grandes sucessos nesses quase 50 anos de trajetória artística no set list. Entre elas, certamente estarão Clube da Esquina nº 2, O Trem Azul, Paisagem da Janela e Feira Moderna, só para citar algumas delas. Garantia de canções maravilhosas o tempo todo ou o seu dinheiro de volta.

Ouça o álbum Rio da Lua em streaming:

André Midani, do Dia D na França ao maravilhoso mundo da música

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Por Fabian Chacur

A vida é mesmo imprevisível. Pode um cara oriundo da longínqua Síria e criado na França ter sido decisivo para a história da música popular brasileira durante inúmeras décadas? Uma trajetória improvável, porém plenamente real. Esse cara, André Midani, teve uma bela missão, e a cumpriu de forma plena e apaixonada. Mas toda história, infelizmente, tem um fim, e ele nos deixou nesta quinta-feira (13) aos 86 anos de idade, vítima de um câncer que o atormentava há alguns meses, segundo informou seu filho, Phillipe.

Nascido na Síria em 25 de setembro de 1932 (mesma data e mês que eu, que honra!), André veio para o Brasil em 1955, e por aqui, firmou-se na indústria fonográfica, ramo no qual ele havia começado a atuar na França. Sempre com os ouvidos abertos e dono de uma sensibilidade musical enorme, além de ousadia ilimitada, atuou em gravadoras como a EMI-Odeon, Phillips e Warner. Foi decisivo no desenvolvimento das carreiras de gente como João Gilberto, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Titãs, Lulu Santos e dezenas, senão centenas de outros nomes importantes para a nossa música.

Mesmo com todo esse currículo e todas as suas realizações, Midani sempre se mostrou simpático, acessível e disposto a aprender novas lições. Sua vida incrível foi contada de forma deliciosa no livro Música, Ídolos e Poder- Do Vinil Ao Download (leia a resenha aqui) e na ótima série televisiva André Midani- Do Vinil Ao Download, de 2015 (leia mais aqui).

Não por acaso, executivos do calibre dele começaram a ter menos espaço nas grandes gravadoras transnacionais sediadas no Brasil a partir do final dos anos 1980, quando essas empresas aos poucos entraram em uma decadência cujos frutos podres colhemos atualmente. Para Midani, a música enquanto arte vinha sempre em primeiro lugar. Bom seu legado ter sido devidamente cultuado enquanto ele ainda estava entre nós. Sua passagem se dá em um momento difícil do Brasil, mas que ele fique como exemplo para uma futura volta por cima, em todos os setores, especialmente o da cultura.

Veja entrevista com os diretores da série de TV sobre André Midani:

Boca Livre celebra 40 anos de estreia com Viola de Bem Querer

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Por Fabian Chacur

Em 1979, saía pela via independente o álbum de estreia do Boca Livre. Não demorou para que se tornasse um verdadeiro fenômeno, pois mesmo sem a ajuda das grandes gravadoras, atingiu em cheio o grande público e ultrapassou a marca das 100 mil cópias vendidas. E aquilo era só o começo de uma trajetória belíssima. Quatro décadas depois, o quarteto carioca celebra a efeméride com Viola de Bem Querer, um trabalho que os mantém em seu alto patamar de qualidade artística.

Quando fiquei sabendo do novo título do álbum do Boca Livre, imaginei que se trataria de um trabalho retrospectivo de seus maiores sucessos, pois a frase remetia a dois grandes hits da banda, Quem Tem a Viola e Toada (Na Direção do Dia). Errei feio! Na verdade, Viola de Bem Querer é uma composição do jovem cantor, compositor e músico paulista Breno Ruiz, lançada por ele em seu álbum Cantilenas Brasileiras, lançado em 2016 pela via independente.

Com letra a cargo do consagrado Paulo Cesar Pinheiro, esta belíssima canção, curiosamente, foi gravada por Breno em versão na qual temos ele cantando e tocando piano (seu instrumento habitual) e acompanhado por Igor Pimenta (baixo acústico). Ou seja, não tem viola! Na releitura feita pelo Boca, o instrumento se faz presente, reforçando sua mensagem simples e encantadora.

A formação atual do Boca Livre é a sua mais estável nesses 41 anos de estrada, com Zé Renato (voz e violão), Mauricio Maestro (voz, baixo e violão), David Tygel (voz e viola) e Lourenço Baeta (voz, violão e flauta). Desde o início, investem em uma sonoridade que traz como influências mais visíveis o Clube da Esquina, a ala mais melódica do rock rural, bossa nova e outras vertentes bacanas da nossa música popular. Isso, dando continuidade à tradição de grandes grupos vocais brasileiros, como MPB-4 e Os Cariocas.

Viola de Bem Querer, como um todo, os mostra no geral com uma ênfase no som mais rural, o que transparece logo na capa e nas fotos incluídas no belo encarte da versão em CD deste trabalho. São nove faixas no total. O padrão habitual se mantém, com algumas composições de integrantes do time, como as belas Santa Marina (parceria de Lourenço Baeta com o poeta Cacaso), Noite (escrita por Zé Renato com a genial Joyce Moreno, autora de um dos pontos altos do álbum de estreia, Mistérios, feita com Mauricio Maestro), Eternidade (Mauricio Maestro) e a instrumental O Paciente (David Tygel).

Somadas às autorais, temos composições alheias escolhidas a dedo, como a deliciosa Um Paraíso Sem Lugar (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), e clássicos perenes da música brasileira em encantadoras adaptações personalizadas. Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos) vem do Clube da Esquina, enquanto Um Violeiro Toca (Almir Sater e Renato Teixeira) sai do berço da canção rural brasileira. A surpresa fica por conta de Vida da Minha Vida (Moacyr Luz e Sereno), hit na voz de Zeca Pagodinho que aqui ganhou contornos latinos e percussivos.

Além dos quatro se desdobrando em vocais e instrumentos musicais, o disco conta com participações de músicos do porte de Pantico Rocha (bateria, conhecido por seu trabalho com Lenine), João Carlos Coutinho (piano elétrico), Bernardo Aguiar (pandeiro), Thiago da Serrinha (percussão) e Marcelo Costa (percussão). A sonoridade delicada e envolvente do grupo se mostra muito bem preservada, enfatizando os belos arranjos vocais, dividindo-se entre uníssomos, solos e vocalizações elaboradas e encantadoras.

Muito legal ver um grupo celebrar 40 anos de seu disco de estreia com um trabalho que não soa saudosista ou redundante. Aqui, o que temos é a fidelidade intensa e entusiástica a um estilo próprio de se fazer música, sem se render a modismos ou tendências do cenário musical, e oferecendo apenas o melhor a quem os acompanha nesses anos todos. Da mesma forma que ouvimos até hoje Boca Livre (o álbum) com o mesmo prazer de 1979, certamente este Vida da Minha Vida continuará encantando daqui a muitos e muitos anos.

Viola de Bem Querer– Boca Livre:

Benito di Paula leva a turnê Fim de Papo a Belo Horizonte (MG)

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Por Fabian Chacur

Em fevereiro deste ano, Benito di Paula deu início à turnê Fim de Papo, que ele anuncia como a última de sua bem-sucedida carreira. A previsão é de que sejam realizados shows em aproximadamente 120 cidades do Brasil e do exterior. Nesta sexta (31), esse incrível cantor, compositor e pianista marcará presença em Belo Horizonte (MG), em show único às 21h no Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, nº 1.537- Centro- fone 0xx31-3236-7400), com ingressos de R$ 60,00 a R$ 75,00.

Uday Vellozzo (seu nome de batismo) nasceu em Nova Friburgo (RJ) em 28 de novembro de 1941. Depois de batalhar durante muitos anos como músico da noite em São Paulo, lançou o seu primeiro álbum em 1971. Pouco depois, estourou nacionalmente, graças a hits massivos como Mulher Brasileira, Charlie Brown, Retalhos de Cetim e muitos outros, especialmente durante a década de 1970, a fase áurea de sua trajetória musical.

A explicação para o sucesso de Benito di Paula reside em uma mistura muito criativa e contagiante de samba, música latina e romantismo, com uma forma jazzística e sofisticada de tocar piano. De quebra, ele também é um ótimo cantor, e ao vivo costuma primar por improvisos e muita inventividade. Nos shows da atual turnê, ele conta com a participação do filho, Rodrigo Vellozo, e além dos hits, também toca músicas do mais recente álbum de inéditas, Essa Felicidade É Nossa, lançado em 2017 pela 74 Music.

Mulher Brasileira– Benito di Paula:

Lô Borges nos oferece 10 novos clássicos no inspirado Rio da Lua

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Por Fabian Chacur

Em 2018, Lô Borges nos ofereceu uma bela e emocionante releitura de seus trabalhos de estreia de 1972, o maravilhoso DVD Tênis+Clube Ao Vivo no Circo Voador (leia a resenha aqui). Seria até normal esperar que ele ficasse um bom tempo capitalizando os louros oriundos desse lançamento. No entanto, o cantor, compositor e cantor mineiro prova que, aos 67 anos, quer mesmo é viver novas emoções. No caso, um novo CD, o maravilhoso Rio da Lua (Deck).

Rio da Lua adiciona duas novidades a sua carreira. Normalmente, Lô compõe as melodias, para depois encaixar as letras, feitas por ele ou outros parceiros. Desta vez, inverteu-se o processo. As letras apareceram primeiro, para serem posteriormente musicadas. A segunda nova decorre daí: pela primeira vez, ele compôs em parceria com o cantor, compositor e músico mineiro Nelson Angelo, outro egresso do Clube da Esquina. O amigo mandava as letras via aplicativo digital, e ele as ia transformando em canções. O resultado gerou dez belezuras compatíveis com o que de melhor eles já fizeram.

Tendo seu violão como âncora, Lô traz a seu lado Henrique Matheus (guitarras), o irmão Telo Borges (piano e teclados), Thiago Corrêa (baixo) e Fernando Monteiro (bateria). Esse time criou uma sonoridade envolvente e consistente, repleta de sutilezas e de uma capacidade inesgotável de embelezar canções que já seriam capazes de nos cativar, mesmo que fossem executadas só no modo voz-e-violão. Virou uma sólida banda de folk-pop-rock, ou de MPB pop, se preferir. Tudo criando o clima ideal para abrigar a voz suave, docemente apaixonada e fantasticamente bem colocada desse trovador roqueiro que é Lô Borges.

O parceiro de Milton Nascimento soube aproveitar a poesia visionária e viajante de Nelson Angelo, cujas letras nos falam de sonhos e de como encarar a vida, os momentos difíceis, as paixões e as perspectivas futuras, tudo sem cair em autoajuda barata ou reducionismo imbecilizante. Aqui, o tom é a beleza estética com forte conteúdo filosófico. Tudo embalado por aquelas melodias que vão te ganhando de tal forma que, quando você se dá conta, já ouviu o CD umas mil vezes. E que venha a milésima primeira!

Qualquer uma das dez canções merece elogios efusivos, mas a faixa-título, Em Outras Canções, Flecha Certeira, Partimos, Inusitada e especialmente Profeta, que encerra o álbum com seu clima jazzy misterioso, são pepitas preciosas em meio a uma verdadeira Serra Pelada musical. Rio da Lua, é obra ao mesmo tempo repleta da consistência que só a maturidade dá ao artista e recheada daquele idealismo juvenil inspirado e sincero que tantas coisas boas proporcionou no mundo da música. Que venham boas novas todo dia!

Ouça Rio da Lua, de Lô Borges:

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