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Os Incríveis celebram 50 anos de estrada gravando um DVD

Por Fabian Chacur

Os Incríveis, uma das melhores e mais importantes bandas da história do rock brasileiro, está comemorando 50 anos de carreira. Como forma de celebrar essa impecável trajetória, eles irão gravar ao vivo um DVD nesta quarta-feira (28) às 21h no Teatro Bradesco (rua Turiassu, nº 2.100- 3º piso do Bourbon Shopping- fone 4003-1212), com ingressos custando de R$ 50 a R$ 70.

Mantendo apenas o baterista Netinho de sua formação original, o grupo teve origem na banda de rock instrumental The Clevers, fez parte do programa Jovem Guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa e depois teve sua própria atração de TV. Lançou até filme, Os Incríveis Nesse Mundo Louco, e marcou época no rock brasileiro por várias razões.

Entre elas, o fato de mesclar temas instrumentais com canções, algo nada comum no rock de então, possuir músicos de alto calibre técnico e versatilidade impressionante. Sua formação clássica incluiu Netinho (bateria), Manito (sax e outros instrumentos), Nenê (baixo), Mingo (vocal) e Risonho (guitarra), uma verdadeira seleção do rock and roll à brasileira.

Entre seus inúmeros sucessos, temos Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones (revivida anos depois pelos Engenheiros do Hawaii), Vendedor de Bananas, O Milionário e a célebre Eu Te Amo Meu Brasil. A escalação do time hoje inclui, além de Netinho, seu filho Sandro Haick (guitarra), Leandro Weingaertner (baixo e vocal), Wilson Teixeira (sax), Rubinho Ribeiro (vocal e guitarra) e o convidado Bruno Cardoso (teclados).

Em entrevista exclusiva concedida por e-mail a Mondo Pop, Netinho dá dicas de como será o show e o DVD e também relembra momentos decisivos na carreira dos Incríveis.

MONDO POP- Como você avalia os 50 anos de estrada dos Incríveis? Você concorda que sua banda é uma das pioneiras do que podemos chamar de “rock brasileiro”, pelo fato de sempre terem misturado o rock com elementos da música brasileira, sem copiar o que se fazia lá fora?
NETINHO– Nos anos 60, nasciam as primeiras bandas de rock com baixo e guitarra elétrica, e assim aconteceu também The Clevers, com músicos mais experientes em orquestras e conhecimento musical teórico. E assim fomos muito felizes, tudo dava certo, onde tocávamos arrasávamos, até no exterior, porque misturávamos vários estilos e inclusive humor.

Como será o repertório do show? Teremos alguma música inédita? Como rolou a seleção das músicas, e qual critério foi seguido por vocês para fazer isso?
NETINHO– O repertório foi escolhido no sentido de homenagear a história da banda, mesclando os sucessos vocais com os instrumentais de sax e guitarra e também alguns hits dos anos 60 e 70.

Uma das marcas dos Incríveis nos anos 60 e 70 era a qualidade e versatilidade de seus músicos. Vocês acham que são os responsáveis por elevar o nível técnico do nosso rock?
NETINHO– Bem, nos anos 60 existiam bandas fantásticas de jazz e MPB, e nos espelhávamos neles também. Por isso, talvez essa vantagem no rock, no qual as bandas eram mais simples e a maioria vindas das garagens.

Como será a homenagem aos ex-integrantes do grupo, especialmente àqueles que infelizmente nos deixaram?
NETINHO– Sim, no meio do show faremos uma pequena homenagem aos três integrantes que já nos deixaram, Mingo, Manito e Nenê com imagens deles e da banda num telão de Led de 11 x 3,5 mts.

Os Incríveis tiveram várias formações durante sua trajetória. Gostaria que você falasse um pouco da clássica, dos anos 60, e da atual.
NETINHO– No início The Clevers e Os Incríveis com Mingo, Manito, Neno, Risonho e Netinho. Em 65, entrou o Nenê no lugar do Neno e em 70 o Aroldo no lugar do Risonho. Mas alguns músicos participaram nas vezes em que alguém tinha que se ausentar, geralmente por doença, como foi o caso do Pique Riverti, que diversas vezes substituiu o Manito, e o Tinho no vocal e baixo em 90, quando voltamos com o Sandro na guitarra.

Com Vendedor de Bananas, vocês ajudaram na criação do que hoje é chamado de samba rock ou swing. Como surgiu a ideia de gravar essa música (do Jorge Ben), e o que você acha desse estilo musical, que tem toda uma cultura em torno dele?
NETINHO– Estávamos gravando no estúdio da RCA na rua Dona Veridiana quando apareceu o Jorge Ben. Papo vai e vem, ele resolveu mostrar uma nova música que tinha acabado de compor. Não deu outra, gostamos tanto que na mesma hora resolvemos gravar, e foi de prima.

Como é tocar ao lado do Sandro Haick, um dos melhores guitarristas brasileiros e também seu filho?
NETINHO-Meu Deus! (risos). É ao mesmo tempo simples, porque desde os 8 anos que o Sandro me acompanha nos ensaios e também no palco principalmente nos carnavais, que desde 67 eu costumava reunir músicos feras e montar uma grande banda pra tocar nas quatro noites de Carnaval de clubes. E ao mesmo tempo uma benção de Deus ter colocado o Sandro ao meu lado. Acredito que ele seja um dos principais motivos de eu continuar tocando e evoluindo.

Quando vocês pretendem lançar esse novo DVD, quem irá lançar (selo próprio, alguma gravadora etc) e como será a divulgação do mesmo (se vai rolar uma turnê, quando irá começar etc)?
NETINHO– Não sabemos ainda a data de lançamento, mas com certeza será em breve. Após o show, vamos pro estúdio refazer os erros, depois mixar, masterizar, preparar fotos e arte da capa e entregar para a gravadora Eldorado pra ser lançado. Estamos ansiosos pela qualidade que imaginamos ter, pois será o primeiro DVD da banda Os Incríveis, que é pioneira em ter seu próprio programa de TV, primeira a fazer filme longa metragem (primeiro filme brasileiro a cores filmado na Europa- Os Incríveis Neste Mundo Louco) e agora o primeiro DVD.

Uma das marcas dos Incríveis é a divisão entre músicas com vocais e músicas instrumentais. Como surgiu essa ideia, levando-se em conta que, na época (a década de 1960), geralmente os grupos iam ou por um caminho ou pelo outro, nunca juntando os dois?
NETINHO– Por termos músicos bons, optamos no início pelo instrumental e aos poucos e também por influencia da gravadora começamos a cantar. Até eu gravei cantando uma homenagem ao Jimi Hendrix, Adeus Amigo Vagabundo (que tocaremos no show).

Eu Te Amo Meu Brasil foi provavelmente o maior sucesso comercial da carreira de vocês. Analisada friamente hoje, trata-se de uma música muito boa, e gravada de forma esplêndida por vocês, mas ficou com aquela conotação de ‘apoiando a Ditadura Militar’. Como você avalia isso tudo hoje? Continuam tocando Eu Te Amo Meu Brasil nos shows? Vão regravá-la no DVD?
NETINHO– Sim, vamos regravá-la, da mesma maneira como a gravamos em 70 em homenagem à Copa. Essa foi a nossa única intenção, não tinha nada a ver com política.

De todos os discos que os Incríveis gravaram, qual é o melhor, na sua opinião, e porquê?
NETINHO– Gravamos muita coisa boa assim como também gravamos muito lixo por imposição da gravadora, mas gosto bastante do disco que tem a música Que Coisa Linda (Os Incríveis, lançado em 1969).

Netinho, você é um guerreiro, que superou muitas dificuldades para chegar onde chegou, inclusive em termos de saúde. Qual o conselho que dá a quem por ventura esteja em uma fase difícil da vida no momento?
NETINHO– Três coisas: nunca desistir, se você ama a música. Nunca pensar somente no sucesso e no dinheiro. E estudar, praticar e assistir/ouvir bons músicos.

Última pergunta: como você avalia a música brasileira no momento, e o rock brasileiro, em especial? Você gosta de algum artista atual? Quem?
NETINHO– Pergunta difícil! Acho que sempre existiu a música brega e a música ruim fazendo sucesso rápido e logo caindo, só que hoje parece que todos preferem ganhar rápido e tudo logo é descartado. A vida voa, então acontece isso que se ouve no rádio e na TV = cocô (desculpe, mas não achei palavra melhor). Foi isso que eu ouvi de um dos maiores empresários ao apresentar nosso CD autoral inédito em 2012. Ele me disse: “é muito bom, não dá para eu comprar! Faz merda que eu compro!” É de chorar, né? Como diz o Sandro; Não existe música tão ruim, existe música mal tocada.

Ouça na íntegra em streaming Os Incríveis, LP de 1970:

Vendedor de Bananas, com Os Incríveis:

Morre Nenê Benvenuti, dos Incríveis

Por Fabian Chacur

Morreu nesta quarta-feira (30), vítima de câncer, o músico Nenê Benvenuti. Aos 65 anos de idade, o ex-integrante do grupo Os Incríveis foi vítima de câncer, e nos deixa como herança uma discografia repleta de bons momentos. Ele também tocou com gente do gabarito de Elis Regina e Raul Seixas, entre outros, e era uma das figuras mais simpáticas e bem informadas do meio musical.

A carreira musical de Nenê teve início quando ele tinha apenas 12 anos, integrando como baterista o grupo The Rebels. Eles foram descobertos pelo lendário e pioneiro radialista e empresário Miguel Vaccaro Netto em 1959, e no mesmo ano a banda lançou seu primeiro disco, um compacto de 78 rotações pelo selo Young (de Vaccaro) com uma releitura de Ding Dong Daddy Wants To Rock, de autoria do The Killer Jerry Lee Lewis.

No meio dos anos 60, já como baixista, entrou nos Incríveis, banda com a qual se tornou famoso em todo o Brasil e mesmo em outros países com seu rock básico e muito bem tocado. Envolvidos com a Jovem Guarda, eles estouraram com hits como O Milionário, Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones, Vendedor de Bananas e Eu Te Amo Meu Brasil, entre outros, e gravaram até em japonês.

Os Incríveis sempre faziam jus ao nome graças ao talento de Nenê e de seus colegas Netinho (bateria), Manito (sax e diversos outros instrumentos), Risonho (guitarra) e Mingo (vocal). O time se separou em meados dos anos 70, sendo que Nenê voltou a tocar com eles em algumas ocasiões, em retornos ocorridos nos anos 80 e 90.

Ao sair dos Incríveis, Nenê passou a ser um requisitado músico de estúdio, ampliando seus horizontes musicais e gravando outros estilos musicais. Em 1979, integrou a banda de Elis Regina durante a turnê de divulgação do álbum Essa Mulher, trabalho que aumentou ainda mais o conceito em torno de sua excelência como músico.

Em 1985, fez inúmeros shows com Raul Seixas e também participou, em 1987, do álbum Uah-Bap-Lu-Bat-Lah Béin Bum!, que inclui o hit Cowboy Fora da Lei. Entre 2005 e 2006, integrou o grupo The Originals, ao lado de ex-integrantes dos Incríveis, Renato e Seus Blue Caps e The Fevers. Com este verdadeiro supergrupo, gravou um CD e sua única participação em um DVD, agora um registro histórico.

Em 2010, Benvenuti lançou o livro de memórias Os Incríveis Anos 60-70…E Eu Estava Lá, lançado pela editora Novo Século, que inclui um CD com músicas inéditas e instrumentais gravadas por Nenê. Em 2010, ele participou do excelente programa Sala de Música, da rádio CBN, falando sobre o livro. Ouça aqui. Nenê é mais um cara gente finíssima que tive a honra de entrevistar e que se vai cedo. Descanse em paz, fera!

Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones:

Mestre Manito dos mil instrumentos se vai

Por Fabian Chacur

Cada vez que um grande ser humano se vai, parece que uma parte da gente vai junto, sem direito a escolha, a alternativa, a algo que possamos fazer para impedir. Simples (e terrível) assim.

Agora, foi a vez, nesse triste 9 de setembro de 2011, de Antonio Rosa Seixas, 68 anos, que eu e todos os fãs da melhor música brasileira conhecemos pelo apelido singelo e charmoso: Manito.

Não consigo deixar de chorar ao lembrar de meu irmão me falando dele como o “homem dos mil instrumentos”. E era mesmo. Embora rei do saxofone, o sujeito tocava guitarra, baixo, bateria, diversos instrumentos de sopro, teclados, o que pintasse na sua frente.

E não é “tocava” no sentido de tirar um ou outro som mequetrefe. O bicho tirava os sons mais lindos, espertos, vigorosos. Um puta músico, que ia além de reproduzir notas. Ele traduzia sentimentos em música.

Músico desde moleque, ele integrou a partir dos anos 60 um dos melhores grupos de rock do Brasil, os Incríveis, e também esteve no Som Nosso de Cada Dia, acompanhou gente do naipe de Raul Seixas e dezenas de outro, tirou sons com os Mutantes, Tutti Frutti etc (e tome etc).

Pelos poucos contatos que tive a honra de ter com ele, e especialmente acompanhando suas entrevistas e postura pessoal, sempre me pareceu um sujeito maravilhoso, desses de que todo mundo gosta.

Infelizmente, ele lutava contra um câncer (doença maldita!) na laringe desde 2006, que ficou naquelas idas e vindas que obrigam a pessoa a encarar tratamentos duros que vão desgastando a saúde.

Segundo seus entes queridos, ele lutou dignamente, e felizmente não está mais sofrendo, o que realmente acaba com quem está por perto presenciando tudo isso, sem poder fazer nada.

Agora, ele está em outra esfera astral, ao lado do antigo colega de Incríveis Mingo, do Raul Seixas, e de qualquer outro músico brazuca ou gringo que esteja por lá, pois tocava muito e sabia fazer amizades.

Descanse em paz, “homem dos mil instrumentos”, e mande um abração aí pro meu irmão Victor, que certamente irá vê-lo tocar por aí suas melodias endiabradas e lindas. E força para seus entes queridos aguentarem uma perda desse porte.

Veja Manito com os Incríveis ao vivo no Programa do Jô:

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