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As minhas lembranças de Cássia Eller

Por Fabian Chacur

Se ainda estivesse entre nós em termos físicos, Cássia Eller estaria completando nesta segunda-feira (10) 50 anos de idade. Como ela permanece na memória de todos os fãs da melhor música brasileira, vale celebrar essa data redonda e lembrar um pouco desta artista brilhante, que nos deixou em um triste 29 de dezembro de 2001.

Meu primeiro contato com ela ocorreu graças a uma grande amiga, a Regina Estela Vieira, em 1990. Na época, a Reka (seu apelido) era assessora de imprensa da gravadora Polygram (hoje, Universal Music), e me convidou para ver, no teatro do hotel Crowne Plaza (hoje extinto, ficava na rua Frei Caneca, em São Paulo), o show de uma nova cantora que havia acabado de ser contratada por aquele selo.

Nunca vou me esquecer daquele impactante contato inicial. Aquela moça bela e simples entrou em cena e, acompanhando-se inicialmente só por voz e violão, mandou ver um trecho de I’ve Got a Feeling, dos Beatles, para depois investir em Por Enquanto, obscura música da Legião Urbana de Renato Russo.

Aquele vozeirão incorporou a letra e a melodia da canção de tal forma que me fez gostar de uma composição escrita por um artista e grupo que sempre detestei, a Legião Urbana da Boa Vontade do Pastor Renato Russo. O resto daquele show, com banda, completou o serviço de me tornar fã de Miss Eller.

A partir daquele exato momento, passei a acompanhar passo a passo a carreira de Cássia, com direito a entrevistá-la em pelo menos três ocasiões. Numa delas, a moça veio acompanhada do poeta Wally Salomão, seu produtor no belíssimo álbum em homenagem a Cazuza, Veneno Antimonotonia (1997).

Cássia era tímida, mas quando percebia que você era uma pessoa legal e tinha boas perguntas, acabava se soltando, proporcionando ótimas entrevistas. Minha última vez com ela foi na coletiva organizada para divulgar o álbum Acústico MTV (2001), seu trabalho com melhor resultado em termos comerciais.

Poucas intérpretes brasileiras se mostraram tão efetivas na hora de pegar canções alheias e dar a elas um formato personalizado e próprio como Cássia Eller.Ela não compunha, mas, tal qual Elis Regina, sabia como poucas tomar posse de uma música.

Difícil saber como teria sido se ela tivesse chegado até aqui em termos físicos para comemorar cinco décadas de vida. O mais importante é ver que a obra que Cássia nos deixou continuará servindo como uma bela trilha sonora para nossas vidas.

Por Enquanto, ao vivo em 1990, com Cássia Eller:

Violões mostra essência do furacão Cássia Eller

Por Fabian Chacur

Em 1990, minha amiga Regina Estela Vieira, então assessora de imprensa da Polygram, convidou-me para ver o show de uma cantora que aquela gravadora havia contratado e cujo disco de estreia sairia em breve.

Nunca irei me esquecer do impacto que tive ao ouvir aquela moça, no esquema violão e voz, me arrancar arrepios ao interpretar com sutileza e emoção a música Por Enquanto, momento brilhante de um compositor que detesto (Renato Russo) e primeira música executada naquela noite histórica.

A banda de apoio entrou em seguida, e a performance completa (no infelizmente extinto teatro do hotel Crowne Plaza, em São Paulo) foi bem bacana, e me deixou com grandes expectativa do que viria adiante na carreira daquela intérprete, de nome Cássia Eller.

Tive a oportunidade de entrevistá-la algumas vezes, e nem é preciso dizer que fiquei extremamente chocado com o seu fim prematuro, naquele lamentável 29 de dezembro de 2001, aos 39 anos.

O DVD Violões, que a Universal Music acaba de lançar, fez com que eu imediatamente me lembrasse daquele show no Crowne Plaza, pois inclui Por Enquanto naquele formato despido, em interpretação próxima daquela que me emocionou tanto.

Violões tem como base um especial gravado para a TV Cultura de São Paulo em 1996, no qual Cássia é acompanhada apenas por Luce Nascimento (violão) e Walter Villaça (violão e baixo).

Ao contrário, portanto, do Acústico MTV (2001) da cantora, no qual ela tinha a seu lado inúmeros músicos. Aqui, a coisa é bem minimalista, mesmo, em termos instrumentais. Só temos a essência. E o resultado ficou excepcional.

As 14 faixas equivalem a um mergulho na alma eclética de Cássia Eller, que não se prendia a um único estilo musical, embora seu acento fosse sempre roqueiro. Temos de tudo, e sempre bem feito.

Rock em Malandragem, folk em Metrô Linha 743 e E.C.T., funk em Rubens, blues em Blues da Piedade, samba em Na Cadência do Samba, balada em Lanterna dos Afogados, forró em Coroné Antonio Bento

Cássia Eller era um vulcão em eterna ebulição no palco, e esse show serve como um bom registro de como a moça cantava bem, aliando potência, sutileza e muita entrega, como sua releitura do clássico da soul music Try a Little Tenderness (do eterno Otis Redding) prova com maestria.

Na seção de extras, temos três músicas adicionais registradas em passagens da moça por programas da TV Cultura, duas em 1990 (Eleanor Ribgy e Não Sei o Que Eu Quero da Vida) e uma em 1999 (Gatas Extraordinárias).

Também foram incluídas as entrevistas realizadas nessas duas ocasiões listadas acima, na qual a timidez simpática da intérprete surge nítida.

Curiosidade: no programa de 1990, o baixista da sua banda era Tavinho Fialho, que tocou com Caetano Veloso e, para quem não sabe, é o pai de Chicão, o único filho de Cássia Eller. O músico faleceu em um acidente, nos anos 90.

Violões é muito mais do que apenas outro lançamento póstumo feito com o objetivo de caçar uns níqueis fáceis. Muito mais. Aliás, pode ser considerado um dos melhores lançamentos em DVD do ano. Faz falta essa moça…

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