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Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

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Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

Jerry Adriani: um ser humano adorável e um grande artista

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Por Fabian Chacur

Conheci Jerry Adriani pessoalmente lá pelos idos de 1986, quando iniciava a minha carreira como jornalista e crítico especializado em música. Foi em uma entrevista coletiva na antiga gravadora Polygram (hoje, parte do conglomerado Universal Music), na qual o cantor paulistano divulgava seu então recém-lançado LP Outra Vez Coração. Tenho até foto desse encontro. Nascia ali uma grande admiração pelo ser humano por trás do artista já tão famoso naquela época.

Jerry infelizmente nos deixou neste domingo (23) às 15h30, conforme divulgação feita por seus familiares. Ele combatia um câncer e também esteve internado devido a uma trombose sofrida em uma de suas pernas. Os últimos registros fotográficos divulgados o mostravam muito abaixo do seu peso habitual, e com uma aparência abatida. Uma pena.

Após aquele primeiro contato com Jerry, tive a oportunidade de entrevista-lo em diversas outras ocasiões. Suas marcas registradas: simpático, bonachão, bem-humorado e sempre com boas histórias para contar. Nunca vou me esquecer de uma dessas ocasiões, ocorrida em um barzinho, em São Paulo, na região dos Jardins.

Já no fim do bate-papo, surgiu do nada um gato por ali. Jerry não disfarçou o seu incômodo pelo bichano estar nas cercanias de onde estávamos sentados, e deu a genial e divertida justificativa: “sabe como é, meu nome artístico é Jerry, que é um rato…”. A capacidade de soltar essas pérolas era infindável. Tive a oportunidade de entrevista-lo até no apartamento que mantinha em São Paulo, e assinei o press-release que acompanhou o álbum Rádio Rock Romance, que ele lançou em 1996.

Jair Alves de Souza, seu nome de batismo, nasceu em São Paulo, no bairro do Brás, em 29 de janeiro de 1947. Seu primeiro álbum, Italianíssimo (1964), só com músicas em italiano, marcou o início de sua carreira discográfica, que renderia inúmeros fruto. Seu estouro coincidiu com o da era da Jovem Guarda, e mesclou rocks românticos, baladas e canções pop, sempre tendo sua belíssima e bem colocada voz como ponto de destaque.

No fim dos anos 1960, ele foi o responsável pela mudança de um então ainda desconhecido Raul Seixas para o Rio de Janeiro. Jerry o havia conhecido em Salvador, pois havia sido acompanhado em shows por lá pelo grupo que o roqueiro mantinha na época, Raulzito e os Panteras. Raul não só produziria alguns de seus discos na gravadora CBS (hoje, Sony Music) como também comporia alguns sucessos para o cara, como Doce Doce Amor, Tudo o Que é Bom Dura Pouco e Tarde Demais.

Ao contrário de outros artistas da era da Jovem Guarda, Jerry conseguiu se manter sempre em evidência, graças ao profissionalismo, à capacidade de renovar o repertório e também ao espírito positivo. Em 1985, por exemplo, a banda Legião Urbana estourou com a música Será, e muitos comparavam a voz de seu cantor, Renato Russo, com a de Jerry. Ele curtiu a comparação, elogiou o colega e, em 1999, gravaria o álbum Forza Sempre, com releituras de músicas da Legião com a participação de músicos que haviam tocado com Renato.

Versátil, Jerry apresentou programas e trabalhou como ator em filmes, novelas e séries de TV, sempre com um desempenho elogiado. Em 1990, ele gravou um álbum incrível, Elvis Vive, interpretando versões em português para alguns dos grandes hits de Elvis Presley. Seu mais recente trabalho, Outro (2016), gravado ao vivo e feito em parceria com o Canal Brasil, mostrava o cantor investindo em um repertório mais sofisticado. Aguardem em breve resenha deste trabalho por aqui.

Georgia On My Mind (ao vivo)- Jerry Adriani:

Putos Brothers Band estreiam com um álbum visceral e cru

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Por Fabian Chacur

Aqui não há lugar para frescuras. Nada de elaboração excessiva, ou harmonizações bonitinhas, ou mesmo poesia lírica e impoluta. A opção da Putos Brothers Band foi cair de cabeça em um blues rock ardido, cru e repleto de papo reto, sem curvas nem nada do gênero, com direito a alguns palavrões aqui e ali. O resultado de sua estreia em CD, Tá Todo Mundo Puto Brother!, não poderia ser melhor, e transborda energia, personalidade e talento. Esse quarteto sabe das coisas!

Na estrada desde 2010, a Putos Brothers Band possui pedigree dos melhores, na figura de seu gaitista, Sylvio Passos. Sim, ele mesmo, fundador do Raul Rock Club e amigo pessoal do saudoso Maluco Beleza. O cara demorou a entrar no mundo das músicas autorais, pois há alguns anos integra a Raul Rock Club Band, especializada no repertório de Raulzito. Valeu a espera. E, não por acaso, os outros integrantes do time são dessa mesma banda.

Além de Sylvio, que de forma escrachada se classifica como o “Sid Vicious da gaita” (referindo-se ao péssimo baixista da fase final dos Sex Pistols), temos em campo (ou nos palcos) Agnaldo Araújo (vocal e guitarra), seu irmão Adriano Araújo (baixo) e André Lopes (bateria). Os quatro formam um grupo afiado, com os elementos fundamentais para uma banda de blues-rock dar certo: muita garra, talento e nenhum medo de errar, se o acerto geral for a meta.

O primeiro disco dos Putos Brothers Band ganha o ouvinte mesmo antes de começar a ser tocado. A apresentação visual do CD é simplesmente demais, com direito a capa desde já clássica, encarte com letras, informações e fotos bacanas e tudo o mais. Coisa de gente inteligente, consciente de que precisa oferecer algo mais ao público para justificar a aquisição do trabalho físico. Vá por mim: é melhor ter a versão em CD ou a em vinil, que sairá em breve.

Mas não adianta roupa bonita se o cara é feio, e aqui o som é na veia. Lógico que tem influências do autor de Ouro de Tolo, mas traz muito mais, como toques de Nasi & Os Irmãos do Blues, Barão Vermelho, Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix e vários outros, muitas e boas influências. As letras são sempre simples, mas muito bem sacadas, apostando na inteligência do público e mergulhando em ironia, poesia direta e protesto sem panfletarismo.

As dez faixas incluídas neste CD são bem legais, mas algumas merecem destaque adicional, como a contagiante Tá Todo Mundo Puto Brother, a deliciosa A Busca (com brilhante participação especial do guitarrista Israel Che Hendrix, da banda Gangster), a incisiva Ela Vem de Trem e a homenagem Um Blues Para Raul. Tá Todo Mundo Puto Brother é para se ouvir a toda altura, aumentando o alto astral geral. Mister Seixas teria orgulho do seu pupilo!

Tá Todo Mundo Puto Brother!(streaming, CD completo):

Polysom relança LP marcante do saudoso Sérgio Sampaio

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Por Fabian Chacur

A Polysom está relançando no formato LP de vinil remasterizado e com 180 gramas um dos mais importantes discos da MPB lançados na década de 1970. Trata-se de Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua (1973), do saudoso cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947-1994), com certeza o seu trabalho mais famoso e mais cultuado pelos fãs.

Sérgio Sampaio foi descoberto por Raul Seixas, com quem gravou em 1971 o álbum Sociedade da Grã-Ordem Cavernista Apresenta Sessão das 10, que também inclui Edy Star e Miriam Batucada. Em 1972, os dois participaram do Festival Internacional da Canção (FIC) da Globo, Sampaio com Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua e Raul com Let Me Sing, Let Me Sing (e como autor com Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo, interpretada pelo grupo Os Lobos).

Quando foi convidado para gravar seu primeiro LP solo pela gravadora Philips (hoje Universal Music), o artista chamou Raulzito para ser seu produtor. Além da música que o tornou conhecido no festival, sua obra mais conhecida, ele também incluiu outras autorais bacanas como Filme de Terror, Odete, Viagem de Trem e Eu Sou Aquele Que Disse.

O disco traz pelo menos mais duas curiosidades: é fechado por uma faixa explicitamente dedicada ao amigo e intitulada Raulzito Seixas, e uma assinada por seu pai, o maestro Raul Sampaio e intitulada Cala a Boca, Zé Bedeu. É um trabalho no qual os limites entre o rock e a MPB são devidamente eliminados, com direito a música inventiva e interessante.

Eu quero é botar meu bloco na rua- Sérgio Sampaio (Philips, 1973)

01Leros e Leros e Boleros
02Filme de Terror
03Cala a Boca Zé Bedeu (composição: Raul Gonçalves Sampaio)
04Pobre Meu Pai
05Labirintos Negros
06Eu Sou Aquele que Disse
07
Viajei de Trem
08Não tenha medo, não! (Rua Moreira, 65)
09Dona Maria de Lourdes
10Odete
11Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
12Raulzito Seixas

Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua– Sérgio Sampaio:

Ouça o álbum Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua em streaming:

Raul Seixas viveu 10 mil anos em apenas 44 no mundo real

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Por Fabian Chacur

Neste domingo (28), um certo Raul Santos Seixas completaria 70 anos de idade. Infelizmente, ele nos deixou com apenas 44, em um triste 21 de agosto de 1989. Na teoria, porém, porque na prática esse genial cantor, compositor e músico baiano viveu artisticamente os 10 mil anos que apregoava em um de seus maiores sucessos. Criou um legado eterno, e sua música sempre viverá em nossas mentes.

Enumerar os méritos de Raul Seixas enquanto criador é tarefa difícil, pois você sempre corre o risco de esquecer alguma coisa. De cara, foi um dos primeiros caras a provar que, sim, rock and roll podia ser feito com grande qualidade se valendo do português como idioma. Sozinho ou com parceiros como Paulo Coelho e tantos outros, foi mestre em mensagens fortes e profundas.

Também é um dos pioneiros de gravações de qualidade em termos técnicos do rock brasileiro. Ouça as cinco músicas postadas aqui e perceba como todas elas não soam datadas ou fraquinhas. Elas tem peso, abrangência, destaque suficiente nos vocais e padrão internacional. Nelas fica claro o talento de Raul como produtor, ofício que exerceu nos estúdios da gravadora CBS trabalhando com Jerry Adriani e outros artistas de sucesso.

Como cantor, ele sempre soube utilizar seu timbre inconfundível de forma impecável, imprimindo energia e doçura nas doses necessárias solicitadas por cada canção. Nunca entrou em exibicionismos tolos, e por isso elevou as faixas de seus álbuns a alturas pouco igualadas pela concorrência. Até os discos menos felizes dele são dignos de serem estudados e curtidos.

Como poucos, o astro baiano soube misturar o rock and roll com as sonoridades brasileiras do baião, forró, samba e também do bolero, latinidades mil e o que mais pintasse. Nunca teve medo de ousar, mas também tinha o bom gosto de buscar sonoridades que pudessem ser apreciadas pelo ouvinte médio, sem cair em experimentalismos tolos.

Dessa forma, realizou a façanha de atingir todo tipo de público, desde os mais intelectualizados até aquele povão mais inculto e fã de música brega. Sabia falar com todos os tipos de ouvintes, sem perder a personalidade jamais. Sua obra é exponencial em todos os quesitos, e precisa ser sempre reverenciada.

Lamente-se apenas que seu lado amador, o de ser humano que não soube se cuidar e mergulhou em drogas lícitas e ilícitas, o levou tão cedo. E também é triste pensar que há muitos fãs que louvam exatamente essa faceta de sua personalidade, o do “doidão inconsequente”, o que explica porque há quem tenha preconceitos em relação a Raul Seixas, pois associa o artista a esses fãs malas e sem noção. Nada a ver.

Nos 10 mil anos que viveu em termos artísticos, Raul Seixas provou que é possível fazer um rock brasileiro, consistente, vibrante e inteligente, que informa, entretém e emociona o tempo todo, dia após dia, ano após ano, década após década. Muita saudade de você, Raulzito. Sua música continua nos emocionando, e permanecerá sempre aqui, firme e forte.

Você Ainda Pode Sonhar– Raul e os Panteras:

Let Me Sing Let Me Sing– Raul Seixas:

Não Pare Na Pista– Raul Seixas:

Mosca na Sopa– Raul Seixas:

Só Pra Variar– Raul Seixas:

Trilha apresenta Raul Seixas à garotada

Por Fabian Chacur

O documentário Raul O Início, O Fim e o Meio, de Walter Carvalho, serve como uma belíssima apresentação para quem não tem a menor ideia de quem tenha sido Raul Seixas, ou uma bela forma de se matar saudades do Maluco Beleza.

Essa acaba também sendo a função da sua trilha sonora, lançada no formato álbum duplo pela Universal Music. São 28 faixas que mapeiam a carreira de Raul desde 1972, quando teve seu primeiro grande contato com o público ao participar de um festival da Globo com Let Me Sing, Let Me Sing, até 1989, quando lançou Panela do Diabo com Marcelo Nova.

Já foram lançadas dezenas (centenas?) de coletâneas com canções do autor de Ouro de Tolo. O mérito desta aqui é ser abrangente, trazendo canções de todas as fases de sua carreira.

O foco são os maiores sucessos, como Al Capone, Mosca na Sopa, Maluco Beleza, Rock das “Aranha”, Cowboy Fora da Lei e Eu Também Vou Reclamar, com espaços para alguns dos chamados lados B, entre os quais Canto Para Minha Morte, A Verdade Sobre a Nostalgia e os pot-pourrys Lucille/Corrine, Corrina e Blue Moon Of Kentucky/Asa Branca.

Ouvir essas 28 músicas de uma vez é uma boa oportunidade para reavaliarmos a qualidade e a importância da obra de Raul Seixas.Às vezes, o fato de ele ter tantos fãs folclóricos e até mesmo malas entre seus inúmeros seguidores leva algumas pessoas a ficarem com uma certa implicância com o seu trabalho, mas isso é errado. Muito errado.

Raul misturou rock, country, baião, forró, brega e o que mais surgisse à sua frente, gerando uma obra que é o rock brasileiro em seu estágio mais miscigenado e original. Ótimo cantor e compositor, ele nos deixou como legado uma obra com altos e baixos, sim, mas com altos absolutamente indispensáveis, entre eles o fenomenal álbum Krig-há Bandolo (1973).

A trilha de Raul O Início, O Fim e o Meio só não é mais recomendável pelo fato de não incluir encarte com letras e textos informativos. De resto, uma verdadeira delícia ouvir de novo Let Me Sing, Let Me Sing, Metamorfose Ambulante, Tente Outra Vez, Aluga-se e outros clássicos do rock brazuca, com sua rebeldia, energia e originalidade.

E duvido que a molecada que conhecer Raul Seixas através dessa trilha não se sinta incentivado a buscar mais canções do eterno roqueiro número um do Brasil.

Ouça Metamorfose Ambulante, com Raul Seixas:

Filme mostra as várias faces de Raul Seixas

Por Fabian Chacur

Raul Seixas, em seus 45 anos de vida, provou ser um daqueles artistas com várias faces, cuja trajetória pode ser analisada sob os mais variados ângulos.

O grande mérito do documentário Raul – O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Walter Carvalho e em cartaz em São Paulo desde a última sexta-feira (23), é mergulhar de forma vigorosa para tentar mostrar todas as facetas de um talento impressionante. E chegou bem perto, no mínimo.

Em suas quase duas horas de duração, o trabalho do diretor do antológico Cazuza – O Tempo Não Para (2005) se divide entre depoimentos de personagens fundamentais na carreira de Raul, jornalistas e até mesmo fãs anônimos.

Também foram utilizados vários registros de shows, entrevistas feitas com Raul e participações marcantes em programas de TV. A rigor, só um personagem importante em sua vida não aparece, o cantor Jerry Adriani, que entre o fim dos anos 60 e o início dos 70 o ajudou bastante.

O início como seguidor do rock and roll original, a fase como produtor de música popular, o estouro inicial em um festival e o lançamento de seu álbum mais impactante, o brilhante Krig-há Bandolo! (1973), tudo está lá, assim como a parceria com Paulo Coelho.

Os outros parceiros musicais, as ex-esposas, os músicos que o acompanharam e também seus problemas de saúde gerados por drogas e especialmente bebidas alcoólicas também estão lá.

Raul Seixas conseguiu criar um rock genuinamente brasileiro, misturando o rock and roll original com forró, baião, samba, tango, jovem guarda e o que mais lhe surgisse na cabeça. Um gênio, cujo pior inimigo foi ele mesmo, responsável por sua passagem tão rápida pela vida. Uma pena. Mas que herança musical fantástica ele nos deixou!

Raul – O Início, o Fim e o Meio serve como boa apresentação para quem imagina ser Raul Seixas apenas um maluco não tão beleza e capaz de reunir fãs insuportavelmente chatos. Sua genialidade e importância vão milhões de léguas além disso.

Veja o trailer do filme:

Krig-ha Bandolo!- Raul Seixas (1973-Polygram-Universal)

krig-ha-bandoloPor Fabian Chacur

Nunca me esqueço de quando ouvi pela primeira vez a música Ouro de Tolo. “O que é isso?”, perguntei a mim mesmo. Seria brega? Seria rock? Seria um ET baixando na Terra? Era Raul Seixas.

Gostei tanto daquilo que comprei o LP no qual essa música estava, Krig-ha, Bandolo!, em 1973. Tinha 12 aninhos.

Cheguei em casa e pus o disco de vinil para rolar. Aí, ouvi aquele moleque de oito anos e voz esganiçada cantando em inglês de mentirinha Good Rockin’ Tonight, sucesso do repertório de Elvis Presley. A voz é do próprio Raul.

Aí, depois de dizer errado o nome da música (ei a red too you, ou algo assim), a qualidade do som melhorava. E vinha mais um susto.

“Eeeeeeeeeeeu sou a mooooosca!!!! Que pousou em sua sooooopa (e tome percussão). Eeeeeeeu soooou a mosca, que pintou pra lhe abusar”…. E entra em cena uma batucada igual às de pontos de macumba.

Quando você começa a se acostumar com o som,  a música mergulha em outra direção, virando um rock poderoso, para, pouco depois, voltar ao ponto de macumba. Uma revolução. E ainda estamos na primeira música!!!!

Krig-ha, Bandolo!, que é o grito do Tarzan ou coisa que o valha, virou o título do melhor disco de rock brasileiro de todos os tempos. Leia atentamente o que escrevi: rock brasileiro.

Porque só no Brasil alguém conseguiria misturar forró, baião, ponto de macumba, rock básico, pop, baladas, romantismo e brega com tanta competência e assinatura própria.

Só alguém genial escreveria uma pedrada como Mosca na Sopa. Ou uma profissão de fé na eterna mudança que é a balada Metamorfose Ambulante, uma canção no mínimo emocionante.

Quer um rock básico, dançante, de letra genialmente irônica? Ataque de Al Capone. Quer uma balada em inglês daquelas arrepiantes? Ponha para rolar a maravilhosa How Could I Know, de padrão internacional.

Rockixe mistura rock e maxixe com uma letra que defende a personalidade de quem não desiste na primeira dificuldade. E o alto astral da curtinha Dentadura Postiça? Delícia!

Quer saber? Se não conhece, não espere a hora do trem passar, vá às minas do rei Salomão e pegue o ouro que não é de tolo, que é Krig-ha, Bandolo! Ah, e tem também a voz de Raul.

Quem acha que Raul Seixas canta mal está delirando. O cara neste disco arrebenta de cantar bem. Leia-se com personalidade, assinatura própria, marca registrada e sem medo de ser feliz.

Isso é cantar bem, não essas vozes operísticas e gritadas que não expressam emoção alguma!

Krig-ha, Bandolo! tem de estar nas discotecas de quem gosta de rock brasileiro de primeira. Discaço do primeiro ao último segundo!

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