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Jerry Adriani: um ser humano adorável e um grande artista

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Por Fabian Chacur

Conheci Jerry Adriani pessoalmente lá pelos idos de 1986, quando iniciava a minha carreira como jornalista e crítico especializado em música. Foi em uma entrevista coletiva na antiga gravadora Polygram (hoje, parte do conglomerado Universal Music), na qual o cantor paulistano divulgava seu então recém-lançado LP Outra Vez Coração. Tenho até foto desse encontro. Nascia ali uma grande admiração pelo ser humano por trás do artista já tão famoso naquela época.

Jerry infelizmente nos deixou neste domingo (23) às 15h30, conforme divulgação feita por seus familiares. Ele combatia um câncer e também esteve internado devido a uma trombose sofrida em uma de suas pernas. Os últimos registros fotográficos divulgados o mostravam muito abaixo do seu peso habitual, e com uma aparência abatida. Uma pena.

Após aquele primeiro contato com Jerry, tive a oportunidade de entrevista-lo em diversas outras ocasiões. Suas marcas registradas: simpático, bonachão, bem-humorado e sempre com boas histórias para contar. Nunca vou me esquecer de uma dessas ocasiões, ocorrida em um barzinho, em São Paulo, na região dos Jardins.

Já no fim do bate-papo, surgiu do nada um gato por ali. Jerry não disfarçou o seu incômodo pelo bichano estar nas cercanias de onde estávamos sentados, e deu a genial e divertida justificativa: “sabe como é, meu nome artístico é Jerry, que é um rato…”. A capacidade de soltar essas pérolas era infindável. Tive a oportunidade de entrevista-lo até no apartamento que mantinha em São Paulo, e assinei o press-release que acompanhou o álbum Rádio Rock Romance, que ele lançou em 1996.

Jair Alves de Souza, seu nome de batismo, nasceu em São Paulo, no bairro do Brás, em 29 de janeiro de 1947. Seu primeiro álbum, Italianíssimo (1964), só com músicas em italiano, marcou o início de sua carreira discográfica, que renderia inúmeros fruto. Seu estouro coincidiu com o da era da Jovem Guarda, e mesclou rocks românticos, baladas e canções pop, sempre tendo sua belíssima e bem colocada voz como ponto de destaque.

No fim dos anos 1960, ele foi o responsável pela mudança de um então ainda desconhecido Raul Seixas para o Rio de Janeiro. Jerry o havia conhecido em Salvador, pois havia sido acompanhado em shows por lá pelo grupo que o roqueiro mantinha na época, Raulzito e os Panteras. Raul não só produziria alguns de seus discos na gravadora CBS (hoje, Sony Music) como também comporia alguns sucessos para o cara, como Doce Doce Amor, Tudo o Que é Bom Dura Pouco e Tarde Demais.

Ao contrário de outros artistas da era da Jovem Guarda, Jerry conseguiu se manter sempre em evidência, graças ao profissionalismo, à capacidade de renovar o repertório e também ao espírito positivo. Em 1985, por exemplo, a banda Legião Urbana estourou com a música Será, e muitos comparavam a voz de seu cantor, Renato Russo, com a de Jerry. Ele curtiu a comparação, elogiou o colega e, em 1999, gravaria o álbum Forza Sempre, com releituras de músicas da Legião com a participação de músicos que haviam tocado com Renato.

Versátil, Jerry apresentou programas e trabalhou como ator em filmes, novelas e séries de TV, sempre com um desempenho elogiado. Em 1990, ele gravou um álbum incrível, Elvis Vive, interpretando versões em português para alguns dos grandes hits de Elvis Presley. Seu mais recente trabalho, Outro (2016), gravado ao vivo e feito em parceria com o Canal Brasil, mostrava o cantor investindo em um repertório mais sofisticado. Aguardem em breve resenha deste trabalho por aqui.

Georgia On My Mind (ao vivo)- Jerry Adriani:

Avançando rumo ao passado: show da Legião Urbana- 1994

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Por Fabian Chacur

Tive as minhas primeiras matérias publicadas no já jurássico 1985. Desde então, milhares de textos com a minha assinatura marcaram presença em publicações as mais diversas- jornais, revistas, fanzines e internet (sites, blogs etc). Como boa parte desse material acaba se perdendo quando as publicações fecham, fica difícil encontrar uma boa parte desses trabalhos. Alguns, convenhamos, é até melhor mesmo que não sejam encontrados…

Mas é lógico que valeria a pena resgatar uma parte deles, até por uma razão de registro de momentos importantes da música no Brasil e no mundo sob a ótica de alguém que acompanha esse cenário com interesse desde criança, e profissionalmente desde a fase de “jovem adulto”. Então, a partir de agora, Mondo Pop trará a vocês, sem periodicidade regular, o resgate de alguns desses textos afogados na poeira do passado. E já começaremos com polêmica.

Sou um raro caso de jornalista da minha geração que nunca morreu de amores por Renato Russo e a sua Legião Urbana. Hoje, essa ojeriza pela banda de Brasília até se aplacou um pouco, mas na época eu realmente detestava a banda. E isso obviamente se refletiu nos textos que escrevi sobre eles, especialmente os de teor opinativo, tipo resenhas de shows ou de discos. Esta aqui eu fiz para o extinto Diário Popular no dia 17 de junho de 1994.

O show ocorreu no Ginásio do Ibirapuera em 16 de junho daquele ano. Como forma de dar a vocês, neste caso específico, a chance de ler uma visão diferente da minha, ofereço o link postado no site oficial da banda com texto referente ao evento, aqui.

O meu você poderá ler abaixo, transcrito sem alterações ao que saiu naqueles anos já distantes:

“A pregação do Pastor Russo levou 6.500 pessoas ao Ginásio do Ibirapuera na noite de quinta feira (16/6/1994). O pastor, também conhecido pelo nome de Renato Russo e por ser vocalista da banda Legião Urbana, abusou do direito de pregar suas ideias confusas. “Não aguento ligar a televisão e ouvir ‘morreram 14 em Manaus!’, o país está numa situação horrível”, ou então “Acho que vai dar tudo certo, nós crescemos, deixem esses babacas para lá”. Um horror! Ah, também teve uma tentativa de show de rock, com resultados não muito favoráveis.

A Legião Urbana é Renato Russo, como todos sabem. Seus colegas de banda facilitam a tarefa. O guitarrista Dado Villa-Lobos esbanja indigência no instrumento, enquanto o baterista Marcelo Bonfá equivale a um burocrata da percussão, tal a sua falta de swing. Sobram o baixista Jean e o tecladista-violonista Fred Nascimento, que tentam segurar a onda, sem grandes resultados. Ou seja, eles não fazem nada para tirar do pastor o cetro de dono da festa.

Usando bata branca e calça preta, Renato Russo começou o show com sua turma às 21h35. Após algumas músicas de O Descobrimento do Brasil, como Perfeição e A Ponte, e também Que País é Esse e Eduardo e Mônica, o cantor soltou as suas primeiras abobrinhas da noite. “Estou puto, esse idiota da luz fez tudo errado. Não tem nada a ver com vocês, que são maravilhosos. Passei mal em Friburgo, fiquei todo empelotado!”, discursou, para delírio dos fieis, digo, fãs. “Não foi por causa de drogas, não porque não uso mais, nem bebo, mas tudo isso passou”. E mandou ver Os Barcos, do novo disco.

Ao reviver sucessos antigos como O Petróleo do Futuro, O Teatro dos Vampiros, Quase Sem Querer e Há Tempos, sem falação no meio, o cantor e sua turma até que não encheram muito a paciência. Mas no inevitável bis, eis que o pastor número um do rock tupiniquim voltou a pregar. “A gente quer ter esperanças no futuro, mas o Brasil passa pela pior crise de sua história, está horrível, ainda bem que vocês estão aqui”, comentou. Em seguida, a banda surpreendeu quem acredita nas entrevistas contraditórias que Russo dá e tocou Pais e Filhos, que ele prometera nunca mais cantar em shows.

Ao final dessa música, certamente a mais aplaudida pelo público, que não arrumou encrencas nem gerou nenhuma ocorrência médica ou policial que merecessem destaque, nosso pastor roqueiro se contradisse de novo. “Olha, acho que vai dar tudo certo, nós crescemos, deixem esses babacas para lá”, e puxou Será, um de seus maiores sucessos. No final, a banda distribuiu margaridas, que por sinal aparecem na capa de O Descobrimento do Brasil, ao público. Não por coincidência, com Ave Maria, de Gounot, tocando ao fundo. Eram 23h20.”

Será (ao vivo)- Legião Urbana:

1º CD da Legião Urbana volta em bela reedição com bônus

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Por Fabian Chacur

Há quem insista em decretar a morte dos formatos físicos para música, achando que só as alternativas digitais sobreviverão. Pura tolice. Especialmente quando se trata de reedições de álbuns clássicos de outras eras. O novo exemplo é o primoroso relançamento do autointitulado álbum de estreia da Legião Urbana que acaba de chegar às lojas via Universal Music. Qual fã de verdade abdicará das imensas vantagens deste novo produto em troca de frios e insossos fonogramas “internéticos”?

A coisa já começa bem na embalagem digipack que se abre em quatro partes, com direito a capa em relevo transparente, novas fotos nas capas internas e a reprodução das fitas originais do álbum nos berços dos CDs. Sim, CDs, a edição é dupla. O primeiro disco traz uma bela versão remasterizada do trabalho original, enquanto o segundo proporciona diversas raridades até então inéditas em discos deste grupo, um dos baluartes do rock de Brasília dos anos 1980.

Por falta de um, temos dois encartes, um com as letras e fichas técnicas do LP original e o segundo com informações minuciosas sobre o material extra, tudo com a supervisão e produção a cargo de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. O livreto referente ao CD 2 foi feito em formato que lembra o dos fanzines dos anos 1980, resgatando desenhos e fotos raras, reproduções de cartazes e ingressos de shows e curiosidades do gênero, com resultado matador em termos visuais.

Reavaliando esse disco de estreia com ouvidos de 2016, fica claro que a banda sabia se valer de suas limitações técnicas para realizar um trabalho vigoroso, com fortes e nítidas influências de U2, Sex Pistols, Joy Division, Gang Of Four e Buzzcocks (entre outros), e um elemento bem original: o vocal a la Jerry Adriani e as letras incisivas e criativas de Renato Russo. Uma entrada em cena das mais respeitáveis.

O set list traz alguns dos maiores clássicos do grupo, entre os quais Será, Geração Coca-Cola, Ainda é Cedo, Química e Teorema. Curioso é ouvir a faixa que encerra o álbum, Por Enquanto, imersa em um verdadeiro pântano de teclados toscos e tentando soar como Joy Division. A releitura simples, só voz e violão, de Cássia Eller em seu disco de estreia, de 1990, revelou uma das melhores composições de Renato Russo, que aqui estava perdida e totalmente desperdiçada.

A compilação de raridades é simplesmente sensacional, com direito à primeira fita demo da banda, outtakes, demos feitas antes da gravação do álbum, gravações ao vivo, chamadas para rádios e impagáveis narrações de Renato Russo. De quebra, antes de uma gravação da música Quimica para o programa global Clip-Trip, temos o cantor dizendo como poderia e como não poderia ser filmado, como forma de aproveitar seus melhores ângulos. Julio Iglesias perde!

Como bônus, foram incluídos remixes no mínimo interessantes das faixas A Dança e O Reggae, feitas respectivamente por Mário Caldato e Liminha. Se até eu, um cara que nunca foi exatamente fã da Legião Urbana, ficou entusiasmado com o material contido nessa reedição do álbum de estreia dos legionários, imagino como estarão se sentindo nesse momento os fanáticos por Renato Russo e sua turma ao tomar contato com essa belezinha aqui…

Ainda é Cedo– Legião Urbana:

Geração Coca Cola– Legião Urbana:

Por Enquanto– Legião Urbana:

Filme mostra o início do mito Renato Russo

Por Fabian Chacur

Renato Russo (1960-1996) se tornou um verdadeiro mito do rock brasileiro, para o bem ou para o mal. O criador da Legião Urbana tanto tem fãs entusiásticos quanto detratores furiosos. Mas uma coisa é certa: ninguém consegue ou pode ignorar a importância do cantor, compositor e músico na história do rock brasileiro.

Somos Tão Jovens, filme dirigido por Antonio Carlos da Fontoura que entra em cartaz em todo o país a partir do dia 3/5 (sexta-feira), tem como tema o período compreendido entre 1976 e 1984, ou seja, quando um certo Renato Manfredini Jr, estudante não muito entusiasmado e professor de inglês, aos poucos deu lugar ao roqueiro, rebelde e astro Renato Russo.

Sem aparente pretensão de soar como uma biografia seriosa e investindo em uma visão mais romanceada e leve da vida do autor de Será, o filme tem como núcleo básico o relacionamento afetuoso entre Russo e a amiga/confidente Aninha, obviamente cercado pelas parcerias com amigos que acabaram virando colegas de bandas como Aborto Elétrico e coautores de músicas que depois ganhariam o mundo, como Eduardo e Mônica e Ainda é Cedo.

Um ponto mais do que positivo de Somos Tão Jovens é a sólida atuação de Thiago Mendonça, que incorpora um personagem por demais polêmico e frequentemente caricato na vida real de forma solta e sem exageros, no tom exato para cativar não só os fãs do Renato Russo real como aqueles que por ventura vejam o filme só para se divertir.


A reconstituição da época é bem realizada, mas um erro grosseiro acabou passando batido. Em cena situada na parte inicial do filme, quando Renato fala com seus amigos em um quarto de apartamento, discos de vinil guardados em uma estante são focalizados, com destaque para a capa de um certo LP. O álbum em questão é Civil, trabalho de estreia da banda homônima liderada pelo cantor Ricardo Henrique.

O “probleminha” é que esse LP saiu em 1987, ou seja, quase dez anos após a época em que a cena citada é ambientada (fim dos anos 70). Uma bela mancada, que de repente pode até gerar um revival desse grupo, que emplacou sucessos medianos como Sombras na Calçada e Jogo de Espelhos e sumiu de cena.

Somos Tão Jovens não é tão bom como O Tempo Não Para, baseado na vida de Cazuza, mas é uma boa atração, e tem tudo para conseguir boa repercussão em termos de público e crítica, abrindo as portas para que novas atrações cinematográficas enfocando nomes de pop-rock brasileiro possam ser viabilizadas.

Veja o trailer de Somos Tão Jovens:

Legião Urbana: um certo show em 1984

Por Fabian Chacur

Se estivesse vivo, Renato Russo teria completado 50 anos de idade em março. Isso me motivou a relembrar o primeiro dos três shows que tive a oportunidade de ver de sua banda, a Legião Urbana, amada por uns, odiada por outros.

Rolava o ano de 1984. O mês, se não me falha a memória, era o de junho. Em São Paulo, a equipe do Centro Cultural São Paulo, quase ao lado da estação Vergueiro do metrô, vivia momento de grande efervescência.

Vários projetos musicais legais rolavam por lá. Um deles reuniu, em uma sábado de 1984 (repito: o mês deve ter sido junho), uma seleção de grupos de rock da agitada cena nacional.

A ênfase da escalação do elenco enfocava os grupos daqui, mas teve gente de fora também. O evento começou lá pelo início da tarde e foi até aproximadamente 20h. Absolutamente de graça, e realizado em palco montando em um espaço na parte de fora do Centro Cultural.

Uma das bandas que abriu a festa roqueira foi exatamente a Legião Urbana. Na época, embora já bastante badalados pela imprensa carioca, ainda não haviam lançado disco. Seus shows nas pequenas casas noturnas de rock de Sampa City haviam atraido alguma atenção da imprensa paulistana.

Naquele tempo, eles eram um trio, com Renato Russo se incumbindo de baixo e vocal, secundado por Dado Villa Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria). A recepção inicial da plateia foi fria.

Quando, entre uma música e outra, Russo disse que havia passado fome em nossa cidade, tomou uma bela vaia para deixar de ser mala. A curta performance do então novato trio brasiliense passou praticamente despercebida.

No mesmo evento, tivemos show da primeira formação da banda Zero, que já tinha Guilherme Isnard nos vocais. Eles tinham como música de destaque um rock de título Eu Quero Votar Pra Presidente.

Pouco depois, a escalação mudaria por completo, mantendo apenas o cantor, com o guitarrista (Fábio Golfetti) e o baterista (Cláudio) montando o Violeta de Outono e o baixista (Beto Birger), o Nau. Bandas, por sinal, bem melhores do que o Zero, que tornou-se famosa posteriormente graças ao hit Agora Eu Sei.

A banda que teve a honra de encerrar a programação foi o então badalado Coke Luxe, banda de rockabilly liderada pelo saudoso cantor e guitarrista Eddy Teddy. Eles lançaram um LP e um compacto simples pela Baratos Afins.

Quem poderia prever que a Legião iria tão longe? Para constar: os dois outros shows que vi da banda foram em 1986 e 1990, ambos no Ginásio do Ibirapuera e com direito a casa cheia, eventuais tumultos e comoção coletiva. Mas isso é história para ser lembrada outra hora.

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