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Brian Setzer, dos Stray Cats, um dos grandes estilistas do rock

Brian Setzer-400x

Por Fabian Chacur

No dia 3 de fevereiro de 1959, Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Bopper nos deixaram, vítimas de um acidente de avião que seria definido como “o dia em que a música morreu” em 1971 pelo cantor e compositor Dave McLean (leia mais sobre esse tema aqui). Mas a vida é mesmo feita de Encontros e Despedidas, como diriam Milton Nascimento e Fernando Brant. Pois no dia 10 de abril daquele mesmo 1959, nasceu um cara que, anos depois, ajudou a resgatar com brilho esse rock and roll inicial, o incrível cantor, compositor e musico americano Brian Setzer. Ele completa 60 anos nesta quarta (10).

Setzer vira sessentão a mil por hora. Aliás, é irônico pensar que ele chega a uma idade que seus principais ídolos nem sequer chegaram perto de atingir, vide Elvis Presley (morto aos 42), Eddie Cochran (morto aos 21 anos), Gene Vincent (morto aos 36 anos) e o próprio Buddy Holly (morto aos 22 anos). Para felicidade dos fãs, chegará às lojas físicas e virtuais no dia 24 de maio 40, primeiro álbum inédito de estúdio dos Stray Cats (que celebram 40 anos do início de sua carreira) desde 1992, quando saiu Choo Choo Hot Fish.

Com produção a cargo de Peter Collins (que já trabalhou com Rush, Bon Jovi e a Brian Setzer Orchestra) e gravado no fim de 2018 em Nashville, 40 traz faixas como Cat Fight (Over a Dog Like Me), Rock It Off e Cry Danger. O álbum será divulgado como uma turnê comemorativa das quatro décadas do trio roqueiro cujo início está marcado para o dia 21 de junho na Espanha e previsto para acabar (pelo menos, inicialmente) em 31 de agosto nos EUA, passando por vários países europeus e estados americanos. Tipo do show imperdível.

E qual seria a razão para Mondo Pop dar tanta moral para esse cara, diria você? Pois vamos lá. Logo de cara, vale dizer que no início dos anos 1980, quando predominavam a new wave, o tecnopop, o heavy metal e outros estilos do gênero, Brian Setzer, ao lado dos amigos Lee Rocker (baixo) e Slim Jim Phantom (bateria) ousaram investir no mais puro rockabilly, unindo releituras de clássicos da era inicial do rock a composições próprias, com uma energia absurda.

Não foi fácil, no início, pois o público americano não aceitou logo de cara o estilo retrô do trio. Eles se mudaram para a Inglaterra, e foi por lá que conseguiram dar o pontapé inicial na conquista do planeta rock com os ótimos álbuns Stray Cats e Gonna Ball, ambos lançados em 1981. O sucesso chegaria aos EUA e ao resto do mundo em 1982 com o lançamento de Build For Speed, coletânea com faixas extraídas dos dois discos anteriores e que chegou aos primeiros lugares das paradas, impulsionado pelos petardos Stray Cat Strut, Rock This Town e Runaway Boys, só para citar três delas.

Qual o diferencial dos Stray Cats para outros grupos e artistas que tentaram reler o rock cinquentista sem o mesmo êxito? Simples: o imenso talento de Brian Setzer, que além de ser um cantor excepcional é um guitarrista que soube não só incorporar as convenções do rockabilly como elevou-as a um patamar de arte, colocando ali a sua assinatura própria. Atrevo-me a dizer que suas performances em discos e shows são comparáveis, se não até melhores, do que a dos artistas que o inspiraram, uma façanha absurda.

Além do trabalho com os Stray Cats, que se mantiveram entre separações e retornos nesses anos todos, Setzer lançou discos solo nos quais ampliou seus horizontes estéticos, indo do rock instrumental ao rock a la Bruce Springsteen. De quebra, ainda montou a Brian Setzer Orchestra, mesclando rock and roll e jazz estilo big bands de forma primorosa.

Tive a graça divina de ver um show dos Stray Cats no Brasil, mais precisamente no extinto Projeto SP, que ficava em sua segunda fase no bairro da Barra Funda, em 1990. Foram três shows em São Paulo, nos dias 9,10 e 11 de março, e um no Rio, no dia 13 de março. Quem viu, certamente não se esquecerá jamais!

Classifico a performance do grupo naquele dia 9 de março como selvagem, bárbara, adrenalina pura, proporcionada por apenas três músicos, sendo que Slim Jim Phantom tocou de pé e com um kit básico de bateria. O carisma de Brian Setzer é algo absurdo, e o repertório de quebra ainda trouxe a demencial releitura de Summertime Blues, de Eddie Cochran, que considero melhor do que a já maravilhosa versão original de Eddie Cochran. Sinta o drama ao ver o set list:

Rumble in Brighton

Let’s Go Faster

Too Hip, Gotta Go

(She’s) Sexy + 17

That Someone Just Like You

Something’s Wrong With My Radio

Stray Cat Strut

Foggy Mountain Breakdown (Lester Flatt & Earl Scruggs & The Foggy Mountain Boys cover)

Runaway Boys

Summertime Blues(Eddie Cochran cover)

Rock This Town

Bis 1:

Gina

Bring It Back Again

Fishnet Stockings

I Fought the Law (The Crickets cover)

bis 2:

Oh, Boy!(Sonny West cover)

Be-Bop-A-Lula (Gene Vincent & His Blue Caps cover)

Somethin’ Else (Eddie Cochran cover)

Se em 1959 tivemos as tristes despedidas de Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Bopper, o mesmo ano nos ofereceu o nascimento desse magnífico Brian Setzer, que ajudou a manter a tocha olímpica do rock and roll acesa, firme e forte. Tomara que essa turnê dos Stray Cats possa abrir uma brecha para o Brasil. Que tal, heim, Rock in Rio?

How Long You Wanna Live Anyway?– The Stray Cats:

Morre Scotty Moore, o eterno guitarrista de Elvis Presley

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Por Fabian Chacur

Um dos segredos do sucesso de Elvis Presley foi ter a seu lado durante a sua primeira década como cantor profissional um certo guitarrista chamado Scotty Moore. Com seus licks inconfundíveis de guitarra, extraídos de uma Gibson Super 400, esse músico americano ajudou a criar os parâmetros do que hoje chamamos rockabilly. Pois nesta terça-feira (28) esta verdadeira lenda da música nos deixou, aos 84 anos de idade. Que perda!

Segundo matéria publicada pelo site americano da revista Billboard, a morte de Moore foi divulgada por seu biógrafo e amigo, James L. Dickerson, que por sua vez confirmou a informação através de um membro da família do músico. Ele atualmente morava em Nashville, a capital mundial da música country. Nos últimos tempos, atuava como manager de estúdio, engenheiro de som e homem de negócios, sempre tido como um cara simples, correto e sociável.

Nascido em Gadsten, Tennessee, em 27 de dezembro de 1931, Scotty Moore ouviu desde garoto muito country e jazz, e foi influenciado por músicos como Les Paul e Chet Atkins. Integrava a banda The Starlite Wranglers quando foi convidado pelo produtor Sam Phillips, dono do selo independente Sun Records, para tocar com um cantor novato com o qual a gravadora pretendia trabalhar. Bill Black, o baixista daquele grupo, também entrou na parada.

Juntos, Moore na guitarra, Black no baixo e o tal novato, ninguém menos do que Elvis Presley, no vocal e violão, fizeram várias jam sessions, e nada saía muito animador. Até que, em um intervalo, o futuro Rei do Rock improvisou em cima de um blues, That’s Alright, e aí o trio parece que pegou no breu. Nascia, em julho de 1954, o embrião do que seria uma das parcerias mais influentes da história do rock.

Juntos, Elvis, Scotty e Black passaram a fazer muitos shows, e adquiriram um entrosamento que se refletiu nas gravações. Maravilhas como That’s Alright, Blue Moon Of Kentucky, Mystery Train e Baby Let’s Play House invadiram as paradas de sucesso e atraíram a atenção da gravadora RCA, que fez uma proposta milionária e tirou Presley da Sun Records. Inteligentemente, Elvis levou Moore e Black junto com ele.

O estouro, até então regional, virou regional e mundial logo a partir do primeiro single na nova companhia, o incrível Heartbreak Hotel, em 1956. Nessa época, já havia sido acrescentado ao grupo o baterista DJ Fontana, que ajudou a encorpar ainda mais aquela sonoridade repleta de rock, blues e country, cuja mistura passou a ser chamada rockabilly.

A parceria com Elvis Presley se encerrou em 1964, quando Scotty Moore lançou seu primeiro álbum solo, The Guitar That Changed The World, fato que irritou o empresário do cantor, o peculiar Coronel Tom Parker. Ele ainda voltaria a tocar com o famoso patrão em 1968, no famoso especial de TV The Comeback Special que marcou o retorno do astro ao mundo dos shows após anos dedicados aos filmes. A partir daí, a vida de Moore ficou mais reservada, mas sempre com muito trabalho.

Entre os momentos marcantes desses anos pós-Elvis da carreira de Scotty estão a gravação de That’s All Right que ele fez com Paul McCartney, com participação do antigo colega DJ Fontana na bateria. Ele também integrou o elenco do CD All The King’s Men (1997), ao lado de Keith Richards e Levon Helm. Entre seus fãs ilustres, podem ser citados o próprio Richards, Eric Clapton, Jimmy Page, Paul McCartney, Mark Knopfler, Brian Setzer e inúmeros outros.

That’s All Right– Scotty Moore, Eric Clapton, Mark Knopler etc:

Dj Fontana, The Jordanaires e Scotty Moore ao vivo na TV:

Heartbreak Hotel(ao vivo)- Elvis Presley e Scotty Moore:

Jake Bugg resgata passado sem soar datado

Por Fabian Chacur

Jake Bugg fez 20 anos de idade no último dia 28 de fevereiro. Nasceu, portanto, em 1994, várias décadas após o surgimento do som que o influencia de forma muito forte. Qual o problema? Rigorosamente nenhum, se levarmos em conta o ótimo desempenho deste jovem cantor, compositor e guitarrista britânico em sua performance durante o Lollapalooza Brasil 2014 no último domingo (6). Um show muito interessante e estimulante em termos artísticos.

Acompanhado apenas por um baixista e um baterista, no melhor estilo power trio, Bugg não tem medo de se expor, pois os holofotes de sua quase uma hora de apresentação ficaram nele o tempo todo. Cantando e tocando guitarra e também violão, ele só tem um ponto teoricamente negativo, que é o de não se comunicar com a plateia. Raros momentos de interação com a plateia presente, sempre tímidos e contidos.

Com o instrumento na mão e o microfone na frente, no entanto, a postura do cara é outra. Canta bem, com sua voz sendo uma mistura de elementos das de Liam Gallagher, Johnny Cash, Lonnie Donegan (bem observado, Raul Bianchi!), Bob Dylan, Mick Jagger dos anos 60 e Carl Perkins, só para citar algumas influências mais nítidas. Mas com personalidade suficiente e bastante adrenalina incorporados na mistura.

O lado guitarrista de Jake Bugg surpreende. O garoto sabe tocar, e sola com desenvoltura surpreendente para um garoto de 20 anos com apenas dois discos no currículo. Seu violão é bastante consistente, também, e a soma de seus talentos dá mostras de um artista que, se tiver a cabeça no lugar e não se deixar levar pelo lado negro do estrelato, tem tudo para se firmar no panteão do rock and roll.

Sobre o primeiro álbum do artista, intitulado Jake Bugg, você já leu resenha em Mondo Pop (se não leu, leia aqui). O segundo, Shangri La, acaba de sair por aqui via Universal Music, e tira uma dúvida: como ficaria ele produzido pelo consagrado Rick Rubin, que já trabalhou com Red Hot Chili Peppers, Tom Petty e tantas outras estrelas?

A resposta é positiva. Rubin foi inteligente e não inventou. Mesmo com novos músicos a seu lado, Bugg continua firme e forte no seu mergulho no universo do folk, rock anos 50, rhythm and blues, blues e rockabilly. O repertório do álbum é excelente, com destaque para as ótimas Slumville Sunrise, Messed Up Kids, A Song About Love, Kingpin e Storm Passes Away. 12 canções básicas, bem construídas e bem arranjadas, com interpretações precisas.

O show teve como base as músicas desses dois ótimos álbuns, mais um cover de My My Hey Hey, de Neil Young, que inúmeros artistas já releram anteriormente, mas que ele encarou com a devida vibração, sem cair no lugar comum ou na mera repetição. O show se encerrou com a endiabrada Lightning Bolt, que abre o álbum de estreia. No geral, Jake Bugg provou no Lollapalooza Brasil 2014 ser uma jovem realidade, com um futuro brilhante pela frente.

Seen It All, Jake Bugg, no Lollapalooza Brasil 2014:

Jake Bugg resgata rock dos anos 50/60

Por Fabian Chacur

Faça um teste. Ouça as músicas de Jake Bugg sem ler nada sobre ele. Tente chutar quando saiu seu disco de estreia. Garanto que muita gente irá apostar em 1965, 1966 ou algo assim. No entanto, o álbum de estreia desse cantor, compositor e músico britânico, intitulado Jake Bugg, saiu no exterior em outubro de 2012 e acaba de chegar às nossas lojas agora, via Universal Music.

Quem ouviu sabe o porquê dessa dúvida. A sonoridade da obra desse adorável moleque de 19 anos e rosto que lembra um jovem Keith Richards é quase toda calcada no rock dos anos 50 e 60. Nomes como Bob Dylan, Johnny Cash, The Everly Brothers, Carl Perkins, Buddy Holly, Roy Orbison, The Rolling Stones e The Beatles surgem imediatamente na mente do ouvinte mais bem-informado.

Este músico oriundo de Nottingham também demonstra ter ouvido com atenção alguns artistas mais recentes, entre os quais o grupo Oasis e o cantor e compositor Brendan Benson. O melhor de tudo é que, graças a sua inteligência, talento e garra, ele não soa como um mero diluidor desses nomes grandões citados acima.

Mal comparando e com as devidas proporções, Bugg equivale a uma verdadeira anomalia no atual cenário pop, tal qual os adoráveis Stray Cats nos anos 80, que tocavam rockabilly cinquentista de forma magistral em plena era do tecnopop, rock gótico e heavy metal. E, exatamente como o trio americano, Jake já conseguiu vender muitos discos. Esse álbum de estreia atingiu o primeiro lugar na Inglaterra.

Merecidamente, diga-se de passagem. Afinal, é de se tirar o chapéu a façanha de superar tantos concorrentes atuais valendo-se apenas de canções melódicas, gravadas com acompanhamento básico no melhor estilo violão, baixo e bateria, ou guitarra, violão, baixo e bateria, ou só violão e voz, sem teclados e com técnicas de gravação estilo analógico.

As 14 faixas do álbum são muito legais. Lightning Bolt, por exemplo, soa como Johnny Cash puro. Two Fingers tem um tempero meio Brendan Benson, enquanto a bela balada em tom menor Ballad Of Mr.Jones traz pitadas do lado mais melódico do finado Oasis. O rockabilly Trouble Town é uma delícia. E por aí vai. E vai bem, muito bem.

Jake Bugg, o disco, mostra que é possível mergulhar em um universo repleto de clássicos como o folk-rock, country, rock básico e rockabilly, e tirar dali um trabalho consistente, bom de se ouvir e que não cai na pura caricatura. Basta ter talento e bom gosto. Uma façanha, sem sombra de dúvidas, ainda mais para um garoto de apenas 19 anos.

No momento, Jake Bugg está trabalhando em Malibu, Califórnia, com o premiado produtor Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, Tom Petty e tantos outros) em faixas previstas para entrar em seu segundo álbum, entre elas Slum Dog Sunrise. Vamos ver o que sai dessa parceria, pois a expectativa criada por essa bela estreia é grande.

Ballad Of Mr. Jones – Jake Bugg:

Trouble Town _ Jake Bugg:

Two Fingers – Jake Bugg:

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