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Manifesto Cerrado traz a bela trajetória do grupo Uganga

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Por Fabian Chacur

Criada no Triângulo Mineiro em meados dos anos 1990 pelo ex-integrante da seminal banda Sarcófago Manu Joker, a Uganga hoje pode ser incluída sem nenhum exagero no hall das melhores formações do rock brasileiro, independente de estilo (o deles é o thrashcore, só para constar). Uma boa forma de se entender o porque Mondo Pop dá tanta moral para esses caras é conferir Manifesto Cerrado, DVD financiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC) da cidade de Araguari (MG) e também disponível no Youtube.

Fazer rock no Brasil não é tarefa para qualquer um, exigindo dos dispostos a encarar tal desafio muita garra, resistência e talento. E a trajetória percorrida por Manu Joker e seus parceiros representa bem isso. Manifesto Cerrado é dividido em duas parte. A primeira, com 75 minutos de duração, é um documentário que dá uma geral em sua história, sendo que a segunda traz o registro de um show ao vivo.

O documentário detalha a caminhada dessa banda, que passou por diversas mudanças em sua formação até o lançamento de seu primeiro CD, Atitude Lótus (2003). Com depoimentos de seus integrantes e cenas de arquivo, incluindo uma histórica aparição na MTV em 1999, a narrativa chega até 2013, quando o grupo fez sua segunda turnê europeia, que passou por países como Itália, Alemanha, Polônia, França, Suíça, Eslováquia, Hungria, Eslovênia e Áustria.

Nessa época, a formação do Uganga estava consolidada em torno de Joker (vocal), seu irmão Marco Henriques (bateria), Christian Franco (guitarra) e seu irmão Raphael Ras Franco (baixo e vocais) e Thiago Soraggi (guitarra). Aí, em pleno processo da pré-produção do que viria a ser o seu quinto álbum, Opressor (2014- leia a resenha de Mondo Pop aqui), diversos problemas de saúde infernizaram a vida dos rapazes.

Mesmo assim, eles não só conseguiram dar conta da gravação como nos ofereceram o até o momento melhor trabalho de sua carreira, um disco sólido e vigoroso. O amigo e guitarrista Maurício Murcego Pergentino (do grupo Canábicos) foi convocado para ajudar nos shows e acabou incorporado ao time. Nos depoimentos e cenas de estrada, fica clara a irmandade entre os integrantes do Uganga, o que explica onde eles arrumaram forças para superar os problemas.

O final do documentário mostra o agora sexteto em vias de iniciar a pré-produção de seu próximo álbum, em um astral dos melhores. Com direção e produção a cargo do cineasta Eddie Shumway, o trabalho também demonstra a importância dos amigos e da produtora Som do Darma e do selo Sapólio Rádio para que o grupo atingisse o estágio atual, digno de participar de festivais de grande porte, do tipo Rock in Rio e Lollapalooza, o que ainda não ocorreu, mas irá ocorrer, se depender da qualidade artística deles.

A segunda parte do DVD é um show realizado em julho de 2014 na histórica Estação Stevenson, parada de trens situada às margens da rodovia que liga as cidades mineiras de Uberlândia e Araguari. Com 47 minutos, o espetáculo é realizado em um palco no qual a banda fica circundada pela plateia, em um formato intimista no qual o grupo se mostrou repleto de energia, mostrando músicas de Opressor e de outros momentos de sua carreira até então, incluindo um cover da histórica banda paulista Vulcano, Who Are The True?, a única em inglês do repertório de 11 músicas.

Se conseguiu superar tantos desafios e realizar tantas coisas bacanas nesses seus mais de 20 anos de estrada, Manu Joker, seu vozeirão de trovão e sua afiadíssima turma do barulho tem tudo para nos oferecer, em um futuro não muito distante, mais doses maciças de seu vigoroso e inteligente rock pesado, no qual as letras trazem mensagens positivas e poderosas. Vale ficar ligado neles e em outros representantes do rock do Triângulo Mineiro.

Veja o show do DVD Manifesto Cerrado, do Uganga:

Uganga esbanja competência em seu ótimo CD Opressor

Uganga 2014_Low-400x

Por Fabian Chacur

O cenário do rock pesado brasileiro é um dos mais bem estruturados da música brasileira como um todo. É repleto de talentos, independe da grande mídia para sobreviver e construiu um circuito de selos, shows e estúdios que lhe permite evoluir e ampliar seus horizontes. Isso explica o porque uma banda como a Uganga consegue lançar um álbum tão bom como Opressor, lançamento da gravadora Sapólio Rádio com distribuição de Voice Music e Hellion Records. Coisa fina!

Com 20 anos na ativa, o grupo mineiro tem em seu currículo quatro álbuns de estúdio (incluindo o mais recente) e um ao vivo, o impressionante Eurocaos Ao Vivo (2013), gravado ao vivo durante a primeira turnê europeia do quinteto e uma espécie de atestado de bons antecedentes em relação à alta qualidade de seus músicos em cena.

Lançar algo com a mesma ou ainda mais qualidade depois desse live album seria um grande desafio, e o Uganga conseguiu seu intuito. Gravado no estúdio Rocklab, em Goiânia (GO), conta com a produção de Gustavo Vazques (que já trabalhou com Macaco Bong, Black Drawning Chalks e outras bandas bacanas), que deu um show de bola/som.

A mixagem de Opressor é do tipo “na cara”, bem poderosa, mas cada instrumento pode ser apreciado separadamente, sem confusões, sendo que a massa sonora transpira energia, agressividade e eficiência. Os duelos entre as guitarras (de Christian Franco e Thiago Soraggi), sempre concisos e cirúrgicos, e o entrosamento perfeito da cozinha rítmica (Raphael Ras Franco no baixo e Marco Henriques na bateria) dão ao trabalho padrão internacional.

A cereja do bolo fica por conta do vocalista Manu Joker, ex-integrante da Sarcófago, uma das pioneiras do heavy mineiro ao lado do Sepultura. O cara tem uma voz potente e uma qualidade rara na cena: sua dicção perfeita permite ao ouvinte entender cada letra de cada canção de forma cristalina e sem margem a dúvidas. Um cantor completo.

Outra marca do quinteto é o fato de se valer de ótimas letras em português, provando que é possível usar nosso idioma em estilos mais radicais do rock and roll sem perder a força. O tema opressão permeia as canções, falando de problemas atuais como violência policial, corrupção dos políticos, drogas, guerras e tudo o que inferniza o século XXI.

O estilo do Uganga pode ser definido como thrashcore (fusão de thrash metal com hardcore), mas se trata de um rótulo totalmente dispensável. Como toda grande banda, eles se valem de elementos sonoros de várias origens, e o resultado final é, na verdade, o mais puro rock and roll pesado. Sem amarras nem frescuras ou limitações estilísticas.

Opressor ganha o ouvinte com faixas fortes como Guerra, O Campo (com letra inspirada no campo de concentração de Auschwitz, por onde eles passaram durante a tour europeia), Moleque de Pedra, Casa, Modus Vivendi e Aos Pés da Grande Árvore. O lado melódico aparece na balada Guerreiro, que tem direito a uma inesperada coda que se inicia alguns segundos após o seu final e que acaba com os versos “santa caminhada”.

Uma banda como a Uganga deveria ser considerada logo de cara na hora da escalação de um festival do tipo Rock in Rio ou Monsters Of Rock, pois representa como poucas a qualidade e a excelência do rock pesado que se faz por aqui. Opressor é discografia básica para os fãs do rock brazuca, e explica o porque eles tem tanto prestígio no exterior.

Casa (videoclipe)- Uganga:

Opressor- Uganga (ouça o CD inteiro em streaming):

Eurocaos Ao Vivo- Documentário Uganga:

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