Mondo Pop

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Soft Cell divulga um single inédito e lançará novo álbum em 2022

Soft Cell Bruises On My Illusions-400x

Por Fabian Chacur

No dia 30 de setembro de 2018, o Soft Cell realizou na 02 Arena em Londres o que pretendia ser seu show de despedida. A repercussão foi tão boa que o duo formado por Marc Almond (vocal) e David Ball (produção, teclados e outros instrumentos musicais) mudou de planos. Eles acabam de disponibilizar um novo single, Bruises On My Illusions, a primeira amostra de Happiness Not Included, previsto para sair em 25 de fevereiro de 2022, exatos 20 anos após o lançamento do seu CD anterior, Cruelty Without Beauty (2002).

Em comentário enviado à imprensa, Marc Almond dá a sua definição para o single, que é muito bom por sinal, no melhor estilo soturno-dançante do duo: “Bruises On My Illusions é como um filme noir sobre um personagem desiludido mas que ainda tem esperança de um futuro melhor, apesar de tudo”.

Por sinal, neste ano o álbum de estreia do Soft Cell, Non-Stop Erotic Cabaret (1981), completa 40 anos de seu lançamento. Trata-se de um dos trabalhos mais influentes e bem-sucedidos do tecnopop/synth pop, trazendo como grande destaque o hit máximo deste grupo britânico, Tainted Love, sempre presente nas festas anos 1980 realizadas mundo afora.

Bruises On My Illusions– Soft Cell:

Fábio Jorge esbanja classe e muita poesia no álbum O Tempo

fabio jorge tempo capa cd

Por Fabian Chacur

No início de 2020, o cantor Fábio Jorge (leia mais sobre ele aqui) celebrou 50 anos de vida sem nem ao menos imaginar o que estava se aproximando ali na esquina. Sim, veio a terrível pandemia do novo coronavírus, capaz de chacoalhar e apavorar o mundo. Uma das 1ª vítimas dessa terrível doença em nosso país, uma das mais de 600 mil que nos deixaram precocemente, foi a sua querida mãe. Em meio a essa dor insuportável, ele viu como forma de externar seus sentimentos mais profundos gravar um novo álbum. Eis a semente que gerou O Tempo, disponível nas plataformas digitais e com belíssima tiragem limitada em CD físico.

O 5º álbum do intérprete marca o fato de ter, pela primeira vez, quase todo o seu conteúdo em português, ele que até então se concentrava em canções escritas no idioma pátrio de sua mãe, o francês. Desta vez, a única música nesta língua é La Mamma, clássico sessentista do repertório do ícone da canção francesa Charles Aznavour. As outras nove canções foram selecionadas com precisão cirúrgica e muito bom gosto por Fábio, que fugiu de opções mais óbvias.

Ouvidas como um todo, as canções equivalem a um bom bate-papo com o ouvinte, envolvendo temas como a passagem do tempo, as idas e vindas do amor, as tristezas, as perdas e também a esperança de uma volta por cima e de seguir em frente com muita felicidade e fé, apesar dos pesares. Tudo com arranjos sucintos, de muito bom gosto e executados por músicos extremamente capacitados e sensíveis como Alexandre Vianna (piano), Joan Barros (violão), Thadeu Romano (bandoneon) e Rovilson Pascoal (também responsável por gravação, mixagem e masterização).

Do sempre inspirado Guilherme Arantes, temos a clássica Cuide-se Bem (1976), recado cada vez mais atual, e uma joia não tão conhecida, a intensa Nosso Fim Nosso Começo (1989), profunda análise de um relacionamento que fica em suspenso devido aos problemas de percepção típicos dos seres humanos. Ah, como seria bom dar um pé na porta dessas concepções medrosas e encarar a paixão de peito aberto! Eis o que essa música nos incentiva a fazer, nas suas maravilhosas entrelinhas, que Fábio nos oferece com finesse.

Do grande Gonzaguinha, que o intérprete já homenageou em show só com suas canções, temos a maravilhosa Pra Fazer o Sol Adormecer, que Maria Bethânia gravou em 1983 em seu álbum Ciclo. Outra canção do tipo dor-amor e centrada em contradições que se encaixam com rara felicidade é a absurdamente inspirada A Paz, parceria dos geniais Gilberto Gil e João Donato lançada nos anos 1980 e que tinha uma versão definitiva na voz de Zizi Possi. Tinha. Agora, a minha favorita é esta aqui. Ouçam e tentem não se emocionar, não ver as lágrimas vertendo de seus olhos sem que você as controle. Apenas tentem…

A melancólica e linda O Tempo foi defendida por seu autor, Reginaldo Bessa, no festival global Abertura, aquele vencido por Como Um Ladrão, na voz de Carlinhos Vergueiro, e não é de se estranhar que tenha sido escrita em plena ditadura militar que nos assolou naqueles anos de chumbo. Outras canções que vem daquele período são as ótimas Porta Estandarte (Geraldo Vandré, 1966) e Canção do Medo (Gianfrascesco Guarnieri-Toquinho, de 1972). A primeira virou um belo dueto de Fábio com Consuelo de Paula.

As escolhas mais recentes do repertório, que teve como consultor artístico o grande mestre Thiago Marques Luiz, são Tempestade (Zélia Duncan, 1994), com um arranjo surpreendente que ressalta sua letra densa, e Tá Escrito (2009), sucesso do grupo Revelação e de autoria do talentosíssimo Xande de Pilares (hoje em carreira-solo) que também surge aqui bem longe de seu clima de samba original, e belíssima.

Eis o momento de ressaltar o valor do dono da festa. A forma como Fábio Jorge resolveu botar pra fora suas dores, inseguranças e esperanças não poderia ter sido mais bem realizada. Com interpretações maravilhosas nas quais usa sua voz de veludo sempre na medida exata, sem excessos nem faltas, ele parece acariciar cada melodia, cada verso, nos fazendo entender todo o contexto da coisa. É coisa de craque, de talento absoluta.

Espero que esse trabalho possa ter dado a Fábio Jorge o alívio de que ele tanto necessita. Perder um ente querido é uma dor que nunca passa, nunca cicatriza, mas com a qual a gente aprende a conviver. E, na verdade, esses entes queridos permanecem vivos nas boas lembranças que nos deixaram, e que nos ajudam a suportar suas ausências. Dona Renée, onde estiver, deve estar sorrindo, orgulhosa do filho. E nós, ouvintes, somos gratos por tanta generosidade do filho dela de dividir esse processo artisticamente maravilhoso conosco.

Em tempo: que capa maravilhosa!

Ouça O Tempo, de Fábio Jorge, em streaming:

The Beatles and India, doc e álbum, para encantar os fãs

George & Patti with garlands 2 - Colin Harrison Avico Ltd

Por Fabian Chacur

The Beatles continuam em pauta como de praxe, mas de forma ainda mais intensa nas últimas semanas. Além do filme Get Back, temos também um outro documentário em cena. Trata-se de The Beatles and India, produzido pelo empresário britânico-indiano Reynold D’Silva e dirigido em parceria por Ajoy Bose e Pete Compton. O filme ganhou os prêmios de melhor filme pelo público e melhor música no UK Usian Film Festival, e está sendo exibido com sucesso em festivais de cinema na Grécia, Bélgica e Espanha.

Baseado no livro Across The Universe- The Beatles in India, de Ajoy Bose, o doc conta a relação de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr com a cultura indiana, com ênfase em sua histórica passagem pela India em Rishikesh, no ashram do polêmico guru indiano Maharishi Mahesh Yogi. Temos cenas de arquivo e fotos, algumas raras e/ou inéditas, e também depoimentos de pessoas que presenciaram essa viagem histórica em 1968.

Como produto derivado do filme, está previsto para ser lançado no próximo dia 29 de outubro o álbum Songs Inspired By The Film The Beatles and India, que traz releituras de canções dos Beatles inspiradas e/ou escritas na Índia e interpretadas por artistas indianos contemporâneos como Karsh Kale, Benny Dayal, Kiss Nuka e Anoushka Shankar, esta última filha do grande músico Ravi Shankar (1920-2012), a rigor quem introduziu George Harrison no mundo da cultura da Índia e um de seus melhores amigos.

Eis as faixas de Songs Inspired By The Film The Beatles And India:

1. Tomorrow Never Knows (ouça aqui ) – Kiss Nuka
2. Mother Nature’s Son – Karsh Kale / Benny Dayal (ouça aqui)
3. Gimme Some Truth – Soulmate
4. Across The Universe – Tejas / Maalavika Manoj
5. Everybody’s Got Something To Hide (Except Me And My Monkey) – Rohan Rajadhyaksha / Warren Mendonsa
6. I Will – Shibani Dandekar / Neil Mukherjee
7. Julia – Dhruv Ghanekar
8. Child Of Nature – Anupam Roy
9. The Inner Light – Anoushka Shankar / Karsh Kale
10. The Continuing Story Of Bungalow Bill – Raaga Trippin
11. Back In The USSR – Karsh Kale / Farhan Ahktar
12. I’m So Tired – Lisa Mishra / Warren Mendonsa
13. Sexy Sadie – Siddharth Basrur / Neil Mukherjee
14. Martha My Dear – Nikhil D’Souza
15. Norwegian Wood (This Bird Has Flown) – Parekh & Singh
16. Revolution – Vishal Dadlani / Warren Mendonsa
17. Love You To – Dhruv Ghanekar
18. Dear Prudence – Karsh Kale / Monica Dogra
19. India, India (ouça aqui) – Nikhil D’Souza

Veja o trailer de The Beatles and India:

Brandi Carlile, vencedora de seis Grammys, lança um novo álbum

brandi carlile

Por Fabian Chacur

Grande representante da música country dos anos 2000, Brandi Carlile acaba de lançar o seu 7º álbum de estúdio. Trata-se de In These Silent Days, lançado pela Low Country Sound/Elektra Records, selos ligados à Warner Music. Uma das faixas mais impactantes é a espetacular Broken Horses, que saiu também no formato single e tem o mesmo título do livro de memórias que a cantora, compositora e musicista americana lançou recentemente.

Composto e gravado durante a pandemia do novo coronavírus, o álbum mostra Brandi cantando e tocando violão e piano, tendo como acompanhantes básicos os irmãos Tim (vocal e baixo) e Phil Hanseroth (vocal e violão), seus parceiros há um bom tempo. O som feito por ela parte do country e acrescenta elementos de rock, folk e pop com muita categoria. A moça completou 40 anos de idade em junho, e possui nada menos do que 6 troféus Grammy em seu currículo. Elton John é outro de seus fãs célebres.

Além do novo álbum, Brandi oferecerá duas boas novidades aos fãs em breve. No dia 6 de novembro, tocará na íntegra o repertório do álbum Blue (1971), de sua amiga e fã Joni Mitchell. E em fevereiro de 2022, será a vez do festival Girls Just Wanna Weekend, no México, liderado por ela e com participações de Sheryl Crow, KT Tunstall, Tanya Tucker, Indigo Girls, Yola e outras. Seu 1º CD saiu em 2005, e desde então a moça invadiu as paradas de sucesso nos EUA, crescendo de álbum a álbum em termos de popularidade e qualidade artística.

Broken Horses– Brandi Carlile:

Bryan Adams apresenta a faixa-título de álbum que sairá em 2022

Bryan Adams por Bryan Adams

Por Fabian Chacur

Na mesma semana em que Daryl Hall completou 75 anos de idade, outro astro do rock que a cri-crítica especializada não dá muito valor traz boas notícias para seus milhões de fãs mundo afora. Trata-se de Bryan Adams. O grande roqueiro canadense acaba de divulgar o clipe de So Happy It Hurts, rockão no seu melhor estilo alto astral composto por ele com a cantora e compositora conterrânea Gretchen Peter, com quem ele escreve desde os anos 1990. É a faixa-título do álbum que ele promete para 11 de março de 2022, pela gravadora BMG.

Será o primeiro álbum de inéditas de Adams desde Shine a Light (2019). Em comentário enviado à imprensa, ele explica sobre essa faixa e também sobre o espírito de seu novo álbum:

“A pandemia e o lockdown nos fizeram pensar que de um momento para outro o que temos como rotineiro e confortável pode mudar. De uma hora pra outra, ninguém conseguia pular no carro e ir embora por aí. A música título, So Happy It Hurts, é sobre liberdade, autonomia, espontaneidade e a emoção da estrada aberta novamente. O álbum aborda muitas das coisas efêmeras da vida que são realmente o segredo da felicidade, o mais importante, a conexão humana”.

So Happy It Hurts (clipe)- Bryan Adams:

Maricotta lança Jura Juradinho com Marianna Santos e Gabriel

maricota e amigos 400x

Por Fabian Chacur

Para comemorar o Dia da Criança, que tal uma música inteligente, boa de se ouvir, esperançosa e interpretada com delicadeza e estilo? Pois uma boa escolha é a recém-lançada Jura Juradinho, que reúne a cantora Maricotta (leia mais sobre ela aqui) com os atores-cantores Gabriel Miller e Marianna Santos, ambos conhecidos por suas participações na novela e no musical Carinha de Anjo (2016) e em outros trabalhos na área.

Parceria do produtor Bruno Alves (conhecido por seus trabalhos com Kell Smith, Daniel Boaventura, Manu Gavassi e Sophia Abrahão) com Germano Fogaça, Jura Juradinho tem uma levada pop e um refrão positivo e versos doces como “o amor supera tudo” e “o seu lugar no mundo está seguro quando o amor está por perto”. Laura Cotta, irmã de Maricotta, também marca presença no single.

Jura Juradinho– Maricotta feat Marianna Santos e Gabriel Miller:

Daryl Hall celebra 75 anos como um dos grandes nomes do pop

daryl hall

Por Fabian Chacur

Se há uma coisa que me irrita profundamente, como bom libriano que sou, é injustiça. E se há um cara injustiçado no meio da música pop e do rock, ele atende pelo nome de Daryl Hall. Esse cantor, compositor e músico americano (também libriano, por sinal) que, nesta segunda-feira (11) celebra 75 anos de vida, é um dos sujeitos mais talentosos e criativos da cena pop mundial há cinco décadas. E poucos cri-críticos celebram essa obra incrível. Aqui em Mondo Pop, faço isso o tempo todo (leia mais matérias sobre ele aqui).

E qual seria a razão para que não se dê o devido valor ao integrante de uma das duplas mais bem-sucedidas em termos comerciais e artísticos da música pop, Daryl Hall & John Oates? Uma delas é possivelmente esse fator, a popularidade que ele e seu parceiro conquistaram desde que lançaram seu álbum de estreia, Whole Oates (1972). Eles lutaram muito para chegar onde chegaram, e conquistaram esse fã-clube imenso com garra, persistência e criatividade.

A química entre Hall, um fanático por soul music, e Oates, adepto do som folk, mostrou-se simplesmente imbatível. Ao misturar soul, folk, rock e pop com muita habilidade, eles nos proporcionaram maravilhas do porte de Rich Girl, She’s Gone, Kiss On My List, Private Eyes, I Can’t Go For That (No Can Do), Out Of Touch, One On One e dezenas de outras, pérolas pop escritas e gravadas com muita personalidade e jogo de cintura.

Daryl Hall tem uma das vozes mais belas e facilmente reconhecíveis da música, com forte influência soul e sendo muito respeitado nessa área, algo que não muitos intérpretes brancos conseguem. Além disso, ele e seu parceiro de meio século possuem forte presença de palco, cativando plateias nos quatro cantos do mundo com seus shows diretos e repletos de musicalidade e carisma.

Além da trajetória com a dupla, Hall também possui uma carreira-solo das mais respeitáveis, que inclui discos bacanas como o experimental Sacred Songs (1980), produzido por Robert Fripp (do grupo King Crimson). Ele também é o apresentador do programa Live From Daryl’s House, que o reuniu a grandes nomes da música de várias eras, sempre em apresentações ao vivo repletas de energia e muito alto astral.

A carreira de Daryl Hall é uma prova cabal de que, sim, é possível fazer música acessível e com forte potencial comercial sem cair na vala comum das repetições e modismos banais. Em seus melhores momentos, ele, com ou sem John Oates, consegue nos oferecer aquele prazer auditivo que só os craques da música tem o dom de nos proporcionar.

Private Eyes (clipe)- Daryl Hall & John Oates:

Antonio Carlos & Jocafi iniciam Afro Funk Brasil com um single

antonio carlos e jocafi afro funk brasil

Por Fabian Chacur

O sucesso de Antonio Carlos & Jocafi nos anos 1970 foi imenso, graças a hits certeiros e encantadores como Desacato, Mudei de Ideia, Você Abusou e Minhas Razões, entre muitos outros. Em seus LPs, a dupla baiana também investia em inovadoras e swingadas canções influenciadas pela música africana e pelo funk americano. E é relendo uma dessas faixas que a dupla inicia um novo projeto, intitulado Afro Funk Brasil.

A música resgatada por eles é Simbarerê, lançada originalmente em 1972, no álbum Mudei de Ideia. A nova roupagem conta com as participações da Orquestra de Violões do Forte de Copacabana e do cantor e compositor Russo Passapusso, e ficou sensacional, assim como o seu clipe, que mescla cenas em estúdio com registros externos nas praias e ruas do Rio de Janeiro.

A ideia desse resgate surgiu da diretora do Instituto Rudá, Márcia Melchior, que sempre gostou muito dessas faixas afro-funks dos discos de Antonio Carlos & Jocafi, várias delas muito populares entre os DJs internacionais a partir dos anos 1980 e 1990. Fica a torcida para que venha mais coisa por aí, pois essa amostra é realmente sensacional e instigante.

Simbarerê (clipe)- Afro Funk Brasil- Antonio Carlos & Jocafi:

Lizzie Bravo, 70 anos, cantou com os Beatles e outros fenômenos

lizzie bravo

Por Fabian Chacur

Pode uma garota brasileira de 15 anos de idade desembarcar sozinha em fevereiro de 1967 na efervescente Londres daqueles anos psicodélicos e em alguns meses se tornar uma verdadeira testemunha ocular de um dos momento mais importantes da carreira de ninguém menos do que os Beatles? Mais: participar de uma gravação dos Fab Four? Essa foi a cereja no bolo da trajetória de Lizzie Bravo, que, no entanto, fez muitas outras coisas relevantes, como ser musa de um grande clássico da nossa música. Ela infelizmente nos deixou nesta segunda (4) aos 70 anos, vítima de problemas cardíacos.

Elizabeth Villas Boas Bravo nasceu em 29 de maio de 1951, e foi uma das primeiras brasileiras a mergulhar de cabeça no som dos Beatles, ao ouvir o álbum Meet The Beatles (1964) que seu pai trouxe dos EUA. Nascia ali uma paixão pelo grupo e, em particular, por John Lennon. E a amiga Denise Werneck teve uma ideia, logo encampada por Lizzie (cujo apelido ela tirou da música Dizzy Miss Lizzy, clássico do rock de autoria de Larry Williams e regravada pelo grupo no seu álbum Help!, de 1965): pedir aos pais de presente uma viagem a Londres.

Lizzie desembarcou em Londres em fevereiro de 1967, e logo se tornou uma frequentadora da porta dos estúdios Abbey Road, onde os Beatles gravavam seus discos, e também da casa de alguns deles. Naquela época, especialmente em Londres, os astros do rock eram muito mais acessíveis do que se tornariam não muito tempo depois, e a adolescente carioca conseguiu aos poucos se tornar uma quase amiga de John, Paul, George e Ringo.

No seu excelente livro Do Rio a Abbey Road (2015), ela relata como foi esse período no qual, afora trabalhos para conseguir se manter melhor na capital inglesa, suas tarefas básicas eram se manter atualizada sobre os lançamentos e novos rumos do grupo e também conseguir autógrafos, fotos e algumas conversas com os músicos. Na base da simpatia e da paciência, foi absolutamente vitoriosa no seu intuito, como provam as belas fotos contidas no livro.

Vale registrar que, nesse período, os Beatles viviam uma fase particularmente iluminada de sua brilhante trajetória, gravando Sgt. Peppers, Magical Mystery Tour e Abbey Road e consolidando de uma vez por todas a sua presença no panteão da música popular.

Lizzie permaneceu em Londres em dois períodos: de fevereiro de 1967 a abril de 1968, e de outubro de 1968 a outubro de 1969. Por lá, fez amizades com outros fãs e tirou a sorte grande em 4 de fevereiro de 1968, um domingo, quando Paul McCartney perguntou às garotas que estavam próximas ao estúdio Abbey Road se alguma delas conseguiria sustentar notas agudas. A nossa conterrânea afirmou positivamente, e depois levou outra amiga, a inglesa Gayleen Pease, para auxiliá-la. Dessa forma, participaram da versão original de Across The Universe.

A belíssima canção, assinada por Lennon e McCartney mas na verdade de total autoria do primeiro, acabou deixada de lado como um possível single do grupo. Em dezembro de 1969, no entanto, foi lançada como parte da coletânea inglesa No One’s Gonna Change Our World- The Stars Sing For The World Wide Fund, ao lado de gravações de dez outros artistas de ponta, entre os quais Bee Gees, The Hollies e Cilla Black.

Across The Universe entrou no repertório do álbum Let It Be (1970), mas em uma versão alterada que retirou os vocais de Bravo e Pease. Rara durante uns bons anos, a única gravação dos Beatles a incluir alguém do Brasil só voltaria a ser acessível ao entrar no repertório das duas versões do álbum Rarities (1980) e no volume 2 da coletânea Past Masters (1988).

Nem é preciso dizer que essa gravação tornou Lizzie Bravo uma figura sempre relembrada pelos fãs-clubes dos Beatles nas décadas seguintes, algo que se ampliou ainda mais com o advento da internet. Posteriormente, ela teve a oportunidade de rever Paul McCartney (em uma entrevista coletiva, em 1990, na qual o ex-beatle a reconheceu), George Harrison e Ringo Starr. Lennon, o seu favorito, infelizmente nos deixou antes de que ela pudesse reencontrá-lo.

Para quem acha que a história de Elizabeth parou por aqui, recupere o fôlego, pois vem mais coisas boas por aí. Em 1970, ao voltar ao Brasil, conheceu o cantor, compositor e músico Zé Rodrix, com o qual foi casada por dois anos. Em parceria com Tavito, ele compôs, inspirado nela, o clássico da MPB Casa no Campo, cuja gravação definitiva é a de Elis Regina. Em sua letra, a música fala de uma “esperança de óculos” (Lizzie) e o sonho de ter um “filho de cuca legal”, que veio na forma de Marya, nascida em outubro de 1971 e hoje cantora e atriz.

No decorrer de sua trajetória profissional, Lizzie foi vocalista de apoio de artistas do gabarito de Milton Nascimento, Joyce Moreno, Zé Ramalho, Ivan Lins, Djavan, Egberto Gismonti, Toninho Horta e Geraldo Azevedo, entre outros, participando de discos e shows deles. Também atuou como fotógrafa para artistas e gravadoras, e morou em Nova York de 1984 a 1994, atuando na área cultural.

O projeto de seu livro teve início em 1980, mas foi interrompido devido à trágica morte de John Lennon. Ela o retomou em 1984, novamente sem o levar adiante. Só em 2015 essa belíssima obra se concretizou, com uma tiragem inicial que se esgotou em 2017 (comprei um dos últimos exemplares, em julho de 2017. Ela preparava uma nova fornada de livros, assim como uma edição em inglês, que provavelmente serão viabilizadas por Marya.

Across The Universe (original version)- The Beatles:

Paulo Cesar Pinheiro em um belo e esclarecedor documentário

paulo cesar pinheiro

Por Fabian Chacur

Alguém que, com apenas 14 anos de idade, escreve a letra de uma música (melodia de João de Aquino) do calibre de Viagem, sucesso na voz de Marisa Gata Mansa,dava todo o jeito de que se tornaria um grande nome nessa área. E não deu outra. Paulo Cesar Pinheiro, hoje com 72 anos, possui um currículo repleto de maravilhosas e muito conhecidas canções, feitas em parceria com muitos craques como ele. Sua belíssima trajetória é vasculhada no ótimo documentário Paulo Cesar Pinheiro Letra e Alma, que será exibido neste domingo (3) às 22h30 no Canal Curta! e também está disponível em algumas plataformas digitais.

Nascido no Rio de Janeiro em 28 de abril de 1949 e com dna mangueirense e dos subúrbios cariocas, como faz questão de registrar, Paulo Cesar Pinheiro teve como primeiro parceiro João de Aquino. Não demorou para que um primo de Aquino, um certo Baden Powell, tomasse conhecimento de seus versos. Encantado, logo chamou o Paulinho para escrever com ele, e o primeiro fruto foi de cara Lapinha, sucesso eternizado na voz de Elis Regina, que depois gravaria outras parcerias deles, entre as quais Vou Deitar e Rolar (Qua Quara Qua Qua).

Andrea Prates e Cleisson Vidal, os diretores do documentário, optaram por uma abordagem mais tradicional em seu filme, que tem como norte uma longa entrevista com o protagonista, entremeada por apresentações de arquivo de artistas como Elis Regina, Marisa Gata Mansa, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, João Nogueira e ele próprio interpretando seus maiores sucessos. Como o depoimento dele é extremamente expressivo e esclarecedor, foi mesmo a melhor opção, pois não é todo dia que temos a oportunidade de ouvi-lo sobre sua irrepreensível trajetória de mais de cinco décadas.

Durante os 85 minutos de duração de Letra e Alma, Pinheiro nos fala sobre como compôs maravilhas do porte de Pesadelo (com Maurício Tapajós), Súplica (com João Nogueira), Lá Se Vão Meus Anéis (com Eduardo Gudin) e Tô Voltando (com Maurício Tapajós), esta última um involuntário hino da anistia em 1979 que arrancou lágrimas dele ao ver seus versos associados com um momento tão importante da história brasileira.

Os problemas com a censura durante a ditadura militar, seus oito anos de casamento (de 1975 a 1983, quando a cantora nos deixou de forma trágica) com Clara Nunes (que gravou inúmeras canções de sua autoria, como O Canto das Três Raças e Menino Deus, só para citar duas delas), a nova união (que persiste até hoje) em 1985 com a musicista Luciana Rabello que lhe rendeu um filho e uma filha, também músicos e seus parceiros são outros temas.

Paulinho também fala sobre seu relacionamento com a avó índia, que lhe ensinou muito sobre essa coisa maluca chamada vida, seu envolvimento com a cultura afro-brasileira e com a umbanda e o candomblé, mesmo admitindo que não segue nenhuma religião ou credo e também sua profissão de fé com a escrita, não só de letras de música, mas também de livros de poesia, prosa e outras manifestações culturais, além de seus shows e discos O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva ao lado da cantora Márcia e do cantor, compositor e violonista Eduardo Gudin.

Paulo Cesar Pinheiro Letra e Música é indispensável para quem gosta de música brasileira, pois nos apresenta de forma direta e sem rodeios um cara que é parceiro de Tom Jobim, Pixinguinha, Edu Lobo e tantos outros mestres da nossa música, tendo se tornado, ele próprio, um desses mestres. E ele está aqui, entre nós, produtivo. Vamos dar ao cara as flores em vida, que o cidadão merece!

obs.: em dois momentos, Paulo Cesar nos mostra seus acervos de LPs e de fitas-cassete com material referente às suas composições. É de arrepiar ver todas aquelas fitas organizadas uma a uma, com material daquele gabarito.

Trailer de Paulo Cesar Pinheiro Letra e Alma:

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