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O pop de ontem, hoje, e amanhã...

A preciosa discoteca de Victor Riskallah Chacur

Por Fabian Chacur

Tem horas em que penso ser a música a razão da minha vida. A cura para os meus males, ou pelo menos uma forma de minimizá-los. E tudo começou lá atrás, quando era muito moleque, fuçando os discos que existiam em casa.

Tinha os da minha mãe, entre os quais dois se sobressaiam: uma coletânea de Orlando Silva e o estupendo Abismo de Rosas, do violonista Dilermando Reis, lançado exatamente no ano em que nasci, 1961. Este último é um despretensioso (e delicioso) álbum de violão instrumental. Existe em CD.

Mas quem tinha discos mesmo na rua Sud Menucci, 374- Vila Mariana era o meu irmão Victor. Sete anos mais velho, também gostava muito de música. Beatles, por exemplo, eu conheci através dele.

Quase furei aquele compacto com Hey Jude de um lado e Revolution do outro. Mas curiosamente, sabe-se lá porque, ele não tinha LPs da banda. Fui eu quem, em 1973, ainda com meus 12 aninhos, juntei as moedinhas de minha mesada para comprar a coletânea The Beatles 1962-1966, a famosa de capa vermelha, que havia acabado de sair.

O primeiro álbum duplo da minha coleção, e um autopresente de Natal preciosíssimo. Nem é preciso dizer que não deu para comprar, também, o The Beatles 1967-1970, o que só fiz já na era do CD, nos anos 90.

Mas ele tinha um LP de um dos ex-integrantes da banda. Era Ram, creditado a Paul & Linda McCartney e lançado em 1971, mas cujo artista eu pensava que era o tal de Ram… Mas tu é burro, rapaz!

Capa dupla, com uns desenhos malucos para cá e para lá. Mas a música era muito mais legal do que a embalagem. Até hoje me arrepio ao ouvir a faixa de abertura, Too Many People.

O disco teve como faixa de maior sucesso Uncle Albert/Admiral Halsey, que tocava muito nas rádios daqui e do exterior. Pop até a medula, uma delícia, com seu refrão lá no fim.

O legal era ouvir, nas rádios, os disc jockeys vacilarem, pelo fato de o fim dessa música no LP ser colada ao da música seguinte, o rockão Smile Away. Era diversão garantida ouvir aqueles acordes iniciais de guitarra tocarem de graça e a música ser tirada rapidinho do ar…

Heart Of The Country é uma daquelas canções que só McCartney sabe fazer, uma simples canção country em cujo refrão ele repete as notas que toca no violão com a voz, em efeito dobrado arrepiante.

O rockão negroide Monkberry Moon Delight foi trilha de uma novela da TV Tupi com um tal de Exuma, mas a versão bala é a do Macca, que solta a voz, ora de forma grave, ora em falsete potente. E quem disse que ele só gravava baladas? Cambada de tontos!

Dear Boy é um doce, delicada até a medula. Ram On, com sabor folk britânico e mandolin, é evocativa de uma infância que nunca voltará para mim, a não ser nas recordações que essa canção me traz.

Ela aparece em duas partes, sendo que a segunda acaba com um trechinho que seria ampliada e equivaleria à parte inicial de Big Barn Bed, do álbum Red Rose Speedway, de 1973, aquele que tem My Love.

E a balada arrebatadora The Back Seat Of My Car é outro ponto alto desse álbum, com sua mistura de delicadeza e ecos dos anos ingênuos, em que se namorava inocentemente no banco de trás do carro.

Um crítico internacional, na época, definiu o álbum como de “rock suburbano”. Que conversa mole… Esse foi apenas um dos discos que conheci graças ao mano, que teria feito 56 anos no dia 20 de maio.

Pena que num triste 6 de janeiro de 1999 ele se foi. Mas sua memória, e as músicas que descobri graças a ele, ficarão para sempre.

4 Comments

  1. vladimir rizzetto

    May 27, 2010 at 6:28 pm

    Porra, Fabian, que texto autêntico. Fiquei emocionado ao lê-lo.
    Quanta a música, para mim, particularmente o rock, ele acompanha a trilha sonora da minha vida desde a infância.
    Nos melhores e nos piores momentos, havia “alguém” para me divertir ou consolar, bastava pegar um vinilzão no meio da coleção e colocá-lo para tocar.
    Quanto ao Ram, foi o primeiro disco do Paul,que eu comprei. Fudidão, hein?!
    Eu gosto muito dessa atmosfera caseira que emana deste álbum. Quase furei de tanto ouvir… Too many people é do cara***… Smile away… Dá-lhe Paul!
    Sobre o seu querido mano, o negócio agora, é esse mesmo. Cultive as boas e inesquecíves lembranças!

    Grande abraço, baluarte

  2. admin

    May 27, 2010 at 9:38 pm

    Muito obrigado pelos elogios e, principalmente, por sua presença constante aqui em Mondo Pop, Vladimir. Grande abraço, e a vida segue, sempre, impulsionada pelas boas lembranças que temos e pela esperança de que novas coisas boas surjam ali na esquina….

  3. Que legal Fabian!! esse é um discaço mesmo, eu tambem sou da vila mariana haha

  4. admin

    January 25, 2011 at 12:43 am

    Mesmo, Daniel!!!! Sou cria de lá. Onde você mora/morava por lá? E muito obrigado por me fazer voltar a esse texto, pois tinha dois erros imperdoáveis, incluindo a data da morte do Victor, agora devidamente corrigida. Que falta aquele cidadão me faz!!!! Grande abraço e volte sempre!!!!

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