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Por Fabian Chacur

Sixto Rodriguez vivenciou uma das histórias mais incríveis de um artista na área musical. Sua trajetória foi tão marcante que rendeu um documentário que venceu um Oscar em 2013, Procurando Sugar Man, do saudoso Malik Bendjelloul. Ele nos deixou nesta terça (8) aos 81 anos, sendo que sua morte foi anunciada por seu site oficial nesta quarta (9). As causas não foram reveladas. Leia a seguir o texto de Mondo Pop sobre o artista, publicado originalmente em 2015 e focado no documentário sobre a sua carreira.

A saga de Sixto Rodriguez é daquelas que supera de longe qualquer tipo de ficção, com alternativas dignas dos melhores novelistas e roteiristas de cinema. Essa história fantástica é o mote do documentário vencedor do Oscar em 2013 Procurando Sugar Man (Searching For Sugar Man), que chega ao Brasil no formato DVD com belos extras. E o enredo não para de ganhar novos e bons capítulos.

Para quem não conhece, vale relatar a trajetória do cantor, compositor e músico americano descendente de latinos Sixto Rodrigues. Nascido em 10 de julho de 1942, ele ganhou experiência tocando em bares na cidade de Detroit, lar da Motown Records. Tocando uma mistura de folk, rock e bittersweet rock, foi descoberto pelos músicos e produtores Dennis Coffey e Mike Theodore, ambos egressos da Motown.

Contratado pela gravadora Sussex, de outro oriundo da Motown, Clarence Armant, Rodriguez lançou em 1970 Cold Fact. Embora elogiado, o LP não vendeu nada, assim como seu sucessor, Coming From Reality, produzido por Steve Rowland e lançado em 1971. Pior: foi logo a seguir demitido da gravadora. Um final que parecia infeliz.

Se não teve sucesso algum em sua terra natal, o que Rodriguez não soube na época é que Cold Fact não só foi lançado como se transformou em um enorme sucesso de vendas na longínqua África do Sul, vendendo algo em torno de 500 mil cópias por lá e o tornando mais popular naquele país do que Elvis Presley e os Rolling Stones.

Só que ninguém no país africano sabia nada sobre Rodriguez. Havia, inclusive, mitológicas explicações sobre seu sumiço, do tipo “botou fogo no próprio corpo” ou “atirou na própria cabeça durante um show”. Como se tratava de um país que viveu durante anos oprimido por uma violenta ditadura, sem contatos efetivos com o exterior, a lenda se manteve.

Até que, em meados dos anos 1990, o fã Stephen Segerman (que recebeu o apelido Sugar em função da música Sugar Man, do artista americano) foi questionado por uma amiga sul-africana que estava morando nos EUA onde poderia comprar uma cópia de Cold Fact. Ele descobriu que ninguém sabia desse disco nos EUA, e nem quem era o tal de Rodriguez, que para eles era um astro americano, e não um ninguém.

Aí, Segerman criou um site na então ainda emergente internet tentando encontrar pistas de Rodriguez. De quebra, fez o texto para o encarte do lançamento em CD de Coming From Reality, alertando para a falta de informações sobre Rodriguez e “convocando” detetives musicais para resolver aquele mistério. E o jornalista sul-africano Craig Bartholomeu-Strydom topou o desafio.

Conseguiram, depois de muita batalha, o contato do produtor Dennis Coffey, e ligaram para ele em Detroit. Lá, tiveram a notícia inesperada: Rodriguez ainda estava vivo. Logo em seguida, em mensagem publicada no site de busca, ninguém menos do que uma das filhas de Rodriguez entrou em contato com eles, passando os contatos dela e dele.

Resumo da ópera: Rodriguez foi convidado a se apresentar na África do Sul em 1998, foi tratado como um astro do rock e lotou ginásios em três shows por lá. Desde então, voltou e fez mais de 30 shows. Ele também ficou popular na Austrália, onde se apresentou em 1979 e 1981, mas em escala menor do que no país africano.

Só faltava o resto do mundo conhecer essa história fascinante, e isso ocorreu quando o jovem aspirante a diretor e roteirista de cinema sueco Malik Bendjelloul ficou sabendo dessa história através de Segerman e resolveu encarar o desafio de fazer um documentário. Foram quatro anos de muitas dificuldades e investimentos próprios. Até que seu sonho virou realidade.

Procurando Sugar Man estreou no mítico festival de Sundance nos EUA e desde então conquistou o mundo. Ganhou o Oscar de melhor documentário em 2013, merecidamente. E conta essa história com riqueza de detalhes, entrevistas suculentas, belas cenas de arquivo e criativas artes para ilustrar momentos importantes não documentados. E tem as músicas, belíssimas.

Fica difícil entender o porque Rodriguez não fez sucesso nos anos 1970. Seu trabalho tem tudo a ver com o espírito daquela época, recheado de afinidades com os trabalhos de Cat Stevens, James Taylor, Bob Dylan e Jose Feliciano (cujo timbre vocal é bem semelhante ao seu) e canções sublimes como Sugar Man, I Wonder, I Think Of You, I’ll Sleep Away e outras.

O mais curioso é saber que, nessas décadas longe dos holofotes, Rodriguez criou as três filhas trabalhando no ramo da construção civil, dando duro e carregando geladeiras nas costas, por exemplo. Sua postura zen, no entanto, não nos leva a crer que ele tenha encarado isso como sofrimento. Aguentou tudo, e soube encarar o sucesso tardio.

Os dois álbuns dele foram relançados nos EUA depois do sucesso do filme. Juntos, venderam mais de 300 mil cópias, e a trilha do documentário, que traz uma ótima seleção de músicas dos dois álbuns e uma inédita. também vendeu muito bem. Ele tem feito shows pelos EUA e Europa e participado dos programas de TV de maior audiência.

Mas Procurando Por Sugar Man não teve apenas desdobramentos positivos. Malik Bendjelloul ganhou o Oscar com seu primeiro longa, mas não segurou a onda. Começou a trabalhar como roteirista em Hollywood e se afastou dos amigos e das pessoas mais próximas. Voltou a Estocolmo e, no dia 13 de maio de 2014, jogou-se nos trilhos do metrô da cidade, suicidando-se aos 36 anos de idade. Uma tragédia horrível.

Chega a ser difícil ver, nos extras do DVD, a boa entrevista concedida por Malik à TV alemã na qual fala sobre como fez o filme, suas experiências anteriores e seus planos para um futuro que, hoje sabemos, não viria.

O making of do filme também é repleto de cenas com Malik, Rodriguez e os entrevistados. Triste fim para um autor tão promissor, e mais um capítulo em uma saga simplesmente fascinante. Tipo do DVD essencial para os fãs mais apaixonados de cinema e de música.

Sugar Man– Sixto Rodriguez: