Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Author: Fabian Chacur (page 2 of 165)

Antonio Adolfo em Octet and Originals: classe e inspiração

antonio adolfo octect capa 400x

Por Fabian Chacur

Antonio Adolfo completou 75 anos em fevereiro deste ano. Este pianista, compositor e arranjador carioca é a prova concreta de que, sim, é possível se chegar a uma idade antes tida como avançada esbanjando energia, criatividade e produtividade. A sua produção sempre foi alta, mas nos últimos 15 anos se mostra particularmente fecunda (leia mais sobre ele aqui). O mais novo rebento é Octet And Originals, disponível nas plataformas digitais e em belíssima versão em CD. Mais um golaço desse craque musical!

Um dos segredos de Adolfo para se manter neste patamar tão alto é nunca ficar repetindo fórmulas. Sim, ele possui um estilo próprio e uma assinatura que podemos perceber de imediato. Mas ele sempre nos oferece novos cardápios sonoros, inventivos e extremamente bons de se ouvir. Seus belos álbuns são exemplos de como a música instrumental pode ser acolhedora, instigante e acessível, fugindo do óbvio.

Neste Octet And Originals, o músico se concentra em material autoral, mesclando composições recentes com alguns clássicos de seu songbook devidamente repaginados. Ao piano, ele capitaneia um octeto do tipo Butantã (só de cobras!) formado por Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Danilo Sinna (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Rafael Rocha (trombone), Ricardo Silveira (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico) e Rafael Barata (bateria e percussão).

Mantendo o jargão futebolístico em cena, é lógico que não adiantaria nada ter um elenco desse calibre sem um bom treinador. E, nessa função, Antonio Adolfo se mostra absurdamente talentoso. Ele sabe tirar o melhor de cada músico, com arranjos de extremo bom gosto nos quais abre espaços para cada um desempenhar suas funções com categoria. Não há atropelos nem exibicionismos, só o apreço pelos melhores solos, timbres, andamentos e convenções. Entrosamento perfeito e vitória por goleada.

Os arranjos de metais de Antonio Adolfo são particularmente expressivos, pois ele encaixa esses instrumentos de uma forma sempre exata, ou para solarem, ou para enfatizarem alguma passagem. E conduz com maestria o seu piano, que comanda as ações e joga sempre em função das músicas.

A sonoridade dele enquanto compositor sempre parte da mistura do jazz com várias vertentes da música brasileira, na melhor tradição da bossa nova, seu berço musical. A parte percussiva sempre tem destaque, o que de certa forma explica um pouco o sucesso que seu trabalho tem no exterior, especialmente nos EUA, onde seus álbuns sempre estão nas primeiras posições das paradas de vendas, execução e streaming.

As 10 faixas que integram Octet And Originals são ótimas, mas vale alguns destaques. Emaú, por exemplo, esbanja fluência, energia e mudança de climas, com uma batida rítmica variante e sempre deliciosa. A releitura de sua clássica Sá Marina, aqui com o titulo da versão em inglês que fez sucesso no exterior (Pretty World), mantém os pilares melódicos essenciais dessa canção icônica e acresce sutilezas que lhe dão um sabor renovado e atual.

Teletema, outro cartão de visitas dele enquanto autor, tem a bela sacada de manter a abertura de piano da gravação clássica de Wilson Simonal e depois ir explorando outros nuances dessa melodia maravilhosa. Por sua vez, Feito em Casa, faixa-título do marcante álbum de 1977, comparece com arranjo delicioso, preservando a sua essência e acrescentando novos temperos.

Boogie Baião mostra a evidente afinidade (mas que alguns nem imaginavam existir) entre o baião e o rock and roll original, e tem um quê do estilo de um dos músicos que influenciaram Antonio Adolfo, o grande músico americano Herbie Hancock. E outra inédita, Toada Moderna, é uma delícia, para fechar com muita felicidade um álbum que você certamente não vai ouvir uma única vez. Ouça Octet And Originals e ria gostoso de quem acha música instrumental algo hermético e chato.

Ouça Octet And Originals, de Antonio Adolfo, em streaming:

2 Strange lança um clipe com cenas gravadas no centro de SP

2 strange 400x

Por Fabian Chacur

O duo 2 Strange continua na sua batalha para consolidar seu nome no cenário musical brasileiro (leia mais sobre eles aqui). Sua nova investida é com o single Hoping, gravado em inglês e divulgado por um clipe estiloso em preto e branco, com cenas registradas no centro de São Paulo nos períodos noturno e diurno.

A sonoridade dessa nova gravação dos irmãos Bobby Banks e Dani Boy mescla elementos de trap, hip hop e EDM, e traz em sua letra as dores das desilusões e a esperança sempre existente de conseguir dar a volta por cima, apesar dos pesares e das agruras do dia a dia de todos.

Hoping (clipe)- 2 Strange:

Simple Minds arrasam com belo single e clipe gravado na Itália

simple minds 2022 400x

Por Fabian Chacur

O Simple Minds mostra muito fôlego neste 2022. Após lançar o excelente single Vision Thing (veja o clipe aqui), a banda volta com mais um petardo. Trata-se da impactante First You Jump. São duas belíssimas amostras de Direction Of The Heart, álbum que a consagrada banda britânica lançará no dia 21 de outubro via BMG.

Ambas os clipes trazem o cenário em comum. Trata-se do icônico Teatro Antico de Taormina, situado na Sicília, Itália, país onde foi feita a pré-produção do álbum. A diferença é que a gravação de Vision Thing foi feita no período noturno e com plateia, enquanto First You Jump teve registro diurno e sem público. A locação é lindíssima e dá um clima incrível aos clipes.

Além dos fundadores da banda há mais de 40 anos, o vocalista Jim Kerr e o guitarrista e tecladista Charlie Burchill, a atual e azeitadíssima formação do grupo britânico inclui Gordy Goudie (violão), Ged Grimes (baixo), Cherisse Osei (bateria), Berenice Scott (teclados) e Sarah Brown (vocais).

Na ativa desde o final dos anos 1970, o Simple Minds construiu nesses anos todos uma discografia muito interessante, e se tornou conhecido mundialmente graças ao megahit (Don’t You) Forget About Me (veja versão ao vivo de 2022 aqui). E mostra ainda muita fome de bola, levando-se em conta a qualidade dessas duas novas faixas. Que venha Direction Of The Heart!

First You Jump (clipe)- Simple Minds:

The Cult mostra pique e força em seu bom single A Cut Inside

the cult 2022 400x

Por Fabian Chacur

Depois de Give Me Mercy (veja o clipe aqui), o The Cult divulga mais uma faixa do álbum Under The Midnight Sun, que lançará no dia 7 de outubro pela gravadora Black Hill Records. Trata-se de A Cut Inside, um hard rock repleto de riffs certeiros de guitarra de Billy Duffy e com o vocal sempre poderoso do grande Ian Astbury. A expectativa em torno do novo trabalho é grande.

Sobre o disco, que traz oito faixas inéditas e conta com a produção de Tom Dalgety (que trabalhou com Pixies, Royal Blood e Ghost, entre outros), Ian Astbury comentou, em press release enviado à imprensa:

“No centro de tudo, a música contém a frequência vibracional de como nos comunicávamos antes mesmo de podermos falar. Cantos de pássaros, chamados de animais, teoria das cordas, física quântica, psicodélicos. O disco, em última análise, é sobre encontrar e unir a beleza naqueles momentos estranhamente naturais.”

A Cut Inside (clipe)- The Cult:

Fatma Said dá um tom lírico a clássico de Whitney Houston

fatma said 400x

Por Fabian Chacur

Aliar a música erudita à popular é um desafio que muitos nomes importantes encararam em suas trajetórias, entre os quais Luciano Pavarotti e Placido Domingo, só para citar dois dos mais bem-sucedidos. A jovem soprano egípcia Fatma Said é mais uma a entrar nessa seara, com o seu 2º álbum, Kaleidoscope, disponível nas plataformas digitais. Nele, a bela moça viaja por canções das mais diferentes culturas e origens, incluindo uma bela surpresa.

Trata-se de uma releitura intimista e que dá um tom surpreendentemente erudito ao belo hit pop I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me), que estourou em 1987 na voz de Whitney Houston. A canção é de autoria do casal George Merrill e Shannon Rubicam, também conhecidos por integrarem o duo Boy Meets Girl, que na mesma época estourou com belos hits pop como Bring On The Moon e Waiting For a Star To Fall. David Byrne também cantou essa música em um de seus DVDs.

O repertório do álbum viaja por obras de nomes tão diversos como Johann Strauss, Kurt Weill, Carlos Gardel, Astor Piazzolla e Charles Gounod, entre outros. Em declaração enviada à imprensa, Fatma explica o conceito em torno desse trabalho, no qual conta com as participações da Orquestra Filarmônica de Monte Carlo,a mezzo-soprano Marianne Crebassa, a trompetista Lucienne Renaudin Vary e o conjunto de tango Quinteto Ángel:

“Um dos desafios deste álbum foi personificar todos esses personagens díspares em seus variados contextos, criando a diversidade de vozes e estilos musicais de que precisam: múltiplas cores vocais, inflexões de dança, timbres linguísticos. Com cada um deles eu poderia ter dançado – e cantado – a noite toda, sempre girando nosso caleidoscópio.”

Eis as faixas de Kaleidoscope:

1. Minué cantado – Joaquín Nin
2. Obéissons, quand leur voix appelle (Manon) – Jules Massenet
3. Il est dans les nuits espagnoles (La Fiancée en Loterie) – André Messager
4. Je t‘aime (Les Trois Valses) – Oscar Straus
5. Wiener Blut (Wiener Blut) – Johann Strauss II
6. Meine Lippen, sie küssen so heiß (Giuditta) – Franz Lehár
7. Barcarolle: Belle nuit, ô nuit d’amour (Les Contes d’Hoffmann) – Jacques Offenbach
8. Je veux vivre (Roméo et Juliette) – Charles Gounod
9. La tarántula é un bicho mú malo (La Tempranica) – Geronimo Giménez
10. I Could Have Danced All Night (My Fair Lady) – Frederick Loewe
11. Ich tanze mit dir in den Himmel hinein – Friedrich Schroeder
12. Cheek to Cheek
13. Youkali – Kurt Weill
14. Por una cabeza – Carlos Gardel
15. Ad Ay Sa’ab (El Choclo) – Ángel Gregorio Villoldos
16. Yo Soy Maria – Astor Piazzolla
17. J’oublie (Oblivion) – Astor Piazzolla
18. La Javanaise
19. Senza fine
20. I Wanna Dance with Somebody (Who Loves Me)

I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me)- Fatma Said:

Placebo relê Shout, clássico do grupo Tears For Fears de 1985

placebo 2022-400x

Por Fabian Chacur

O Placebo voltou com tudo a partir do final de 2021, após ficar cinco anos sem lançar novas canções (leia mais aqui). Depois de um álbum, agora o grupo liderado pelo vocalista, guitarrista e compositor britânico Brian Molko nos oferece um single no qual relê Shout, um dos grandes hits da carreira dos conterrâneos do Tears For Fears que tomou conta do mundo no ano em que foi lançada, 1985, conseguindo atingir o topo da parada americana naquele mesmo período.

O resultado ficou bem simpático, e se vale das convenções usadas na gravação original, com ênfase em sonoridades mais eletrônicas. O grupo já fez releituras anteriormente de hits dos anos 1980 de artistas como Sinead O’Connor (Jackie), The Smiths (Bigmouth Strikes Again), The Pixies (Where Is My Mind?) Kate Bush (Running Up That Hill).

Shout– Placebo:

Joabe Reis participará dos shows de Macy Gray no Brasil

joabe reis-400x

Por Fabian Chacur

Joabe Reis é um dos grandes músicos brasileiros da atualidade na seara do jazz, neo soul, r&b e hip hop. Seu currículo ganha nos próximos dias mais um item bem bacana. O talentoso trombonista capixaba participará dos quatro shows que a consagrada cantora americana Macy Gray fará nesta sexta (9) e sábado (10) em São Paulo, no Blue Note São Paulo (serão dois por dia) e também no deste domingo (11), no Rio de Janeiro, no palco Sunset do Rock in Rio.

O músico não esconde a felicidade de poder marcar presença nos shows da diva neo soul. “Eu estou muito feliz pelo convite da Macy Gray!Ela é uma potente voz da música negra norte-americana, e pra mim, como um artista da nova geração brasileira, receber um convite como esse é realmente a realização de mais um sonho. Expectativas altas para esse nosso encontro”.

Com 30 anos de idade, Joabe Reis tem sólida formação teórica como músico, e possui um trabalho próprio que já gerou o álbum Crew In Church (2020) e o EP I Just Wanna Breathe. Ele já trabalhou com artistas estelares do porte de Ivan Lins, Anitta, Bob Mintzer, Hermeto Pascoal, Paula Lima, Roberto Menescal, Toninho Horta e Hamilton de Holanda, entre outros.

I Try (clipe)- Macy Gray:

Lule Bruno, um brasileiro nada perdido em London Town

lule22-92-400x

Por Cristiano Bastos (colaboração para Mondo Pop)

Lule Bruno nasceu em Porto Alegre, em 1981, e começou tocando teclado na escola, aos dez anos, nos Estados Unidos, onde morou dos oito aos 15 anos de idade. Em 2003, junto com dois amigos, o músico fundou, na capital gaúcha, o estúdio Lopo 51, local de surgimento da banda de mascarados Procura-se Quem Fez Isso, da qual foi baixista.

A ideia de usar máscaras e esconder suas identidades veio por influência dos americanos dos The Residents. A intenção era botar ênfase na música e tirar o foco das personalidades dos membros do grupo. A banda terminou em seu auge, em 2010, devido a conflitos de personalidades e problemas pessoais, como seu uso de drogas. Durante essa época, também lançou CDs sob o pseudônimo Walter Willy em edições limitadas a 30 CDs, com todos os discos gravados em gravadores de 4 pistas.

Depois de uma breve pausa para se reabilitar, fundou a banda Dévil Évil, com a qual gravou três discos. O grupo juntava punk e psicodelia, Velvet Underground, Pink Floyd e Dinosaur Jr. Em 2014, Lule mudou-se para Londres, onde tocou na banda do francês Vincent Sala. Durante a pandemia, resolveu fazer uma terapia chamada “EMDR”, em busca da cura para eventos traumáticos em sua vida, o que o levou a resgatar fitas cassete com gravações antigas.

A partir dessas audições, o compositor decidiu regravá-las, o que resultou num álbum duplo contendo 24 canções. Entre as influências, Flaming Lips, Os Mutantes, Arnaldo Baptista solo, Brian Wilson, Electric Light Orchestra e Novos Baianos. Nesta entrevista exclusiva ao Mondo Pop, Lule Bruno falou sobre seus dois álbuns, que serão lançados neste mês, e também sobre a Procura-se Quem Fez Isso.

MONDO POP-Fale sobre Curtição Suprema. Qual o conceito em torno desse disco?
LULE BRUNO-
Trata-se de um disco duplo, dividido em dois volumes. Levou dois anos para ficar pronto, tive um colapso nervoso depois de terminar, o que me levou a não conseguir ouvir música por uns três meses. São canções de todas as épocas da minha vida. Cada volume do disco termina com uma mini-suíte de “musique concrète” inspirada em Pierre Henry e Stockhausen.

MONDO POP- Quais músicas do disco seriam destaques pra ti?
LULE BRUNO-
O ponto forte do disco são os arranjos, estou muito orgulhoso das progressões harmônicas e da quantidade de texturas que utilizei, inspirado em Electric Light Orchestra e no conceito de “wall of sound”. Seguindo nessa linha, eu destacaria A Música Vem Pra Me Salvar, que é uma música que fiz quando eu estava muito triste, mas que serve de lembrete, para mim mesmo, de que o meu amor pela música sempre vai me tirar do buraco. E também gosto muito do arranjo, ficou bem grandão, orquestral. A outra música é Você é meu Esconderijo, Beibe, canção que compus aos 23 anos, umas das poucas músicas de amor que compus na vida.

MONDO POP- Quais são suas influências no disco?
LULE BRUNO-
Eu tava ouvindo Electric Light Orchestra, Flaming Lips, Roy Wood, Negro Leo, Ana Frango Elétrico e Tom Zé, enquanto fazia esse disco. O conceito e o espírito geral foram inspirados pelo disco “perdido” Smile, dos Beach Boys, e também um álbum duplo do Frank Zappa chamado Läther, que nunca foi lançado. Também tem influências do Loki?, do Arnaldo Baptista, Álbum branco dos Beatles, Ween e os compositores franceses Pierre Henry e Pierre Schaeffer. Ah! E Raul Seixas e o Sun Ra, mentores espirituais.

MONDO POP- Você fez o disco todo sozinho?
LULE BRUNO-
Embora eu estivesse envolvido com bandas durante toda minha vida, sempre preferi produzir tudo sozinho. Esse disco eu compus e gravei todo em casa, aqui em Londres, mas resolvi, por exemplo, que queria que tivesse uma bateria de verdade.

MONDO POP- Como é ser um artista independente na Inglaterra e como é no Brasil?
LULE BRUNO-
Por incrível que pareça, na minha opinião é meio parecido. Essa coisa de exclusividade, de ter de “conhecer gente”. Isso rola igual aqui em Londres. Mesmo na época da minha banda, a Procura-se Quem Fez Isso, quando a gente fazia um certo sucesso, ainda nos sentíamos à margem, como se fossemos outsiders, por não querer jogar certos jogos. Aqui tem muito isso também, infelizmente. Essa coisa de personalidade, de ter que usar as roupas certas, de ser divertido na festa ou ser mais importante que a música ou a arte em si.

MONDO POP- Porque optou por fazer um disco duplo?
LULE BRUNO-
O disco começou com o conceito básico de gravar músicas engavetadas dos meus vinte e poucos anos que vieram à tona em sessões de terapia para trauma que fiz durante um ano e meio, em 2020. Revisitei essas gravações ouvindo fitas cassete antigas e comecei um processo de regravar as que mais gostava, cerca de 50 canções. Decidi fazer um álbum duplo como o Álbum Branco, dos Beatles, ou Freak Out, do Zappa. As canções que sobraram lancei sob meu outro alter ego, o Walter Willy, pelo selo Chupa Manga Records, de São Paulo.

MONDO POP- Qual a diferença entre Volume 1 Volume 2? É o mesmo conceito musicalmente, as influências são as mesmas?
LULE BRUNO-
O disco foi dividido em dois volumes como se fazia com os discos de antigamente. Acho que fica mais legal assim, e também não acho legal ter 24 músicas seguidas do mesmo disco no streaming, parece muita coisa e as pessoas não têm mais o poder de concentração e a paciência que tinham antigamente. Fazer a ordem das musicas é uma das minhas partes favoritas de gravar discos. E como eu tinha muitas músicas, pareceu a coisa mais clássica a se fazer. O Volume 1 sai dia 23 de setembro e o Volume 2, no dia 8 de outubro. As músicas foram compostas todas no mesmo período, portanto têm as mesmas influências. Não há muita diferença entre os dois, talvez na minha concepção as canções do volume 1 sejam um pouquinho mais “pop”, se é que dá pra dizer isso, do que as do volume 2, que considero um pouco mais escrachadas em termos de temas das letras. O Volume 2 começa com a músicas título do disco Curtição Suprema que é um tema que compus com 18 anos e termina com A Paz é a Coisa Mais Importante que acho o final perfeito pro disco. Ambos os discos terminam com pequenas peças de colagens musicais do que se chama “música de vanguarda” inspiradas também no que o Zappa fazia nos seus discos.

MONDO POP- Você mencionou um alter ego, Walter Willy e a banda Dévil Évil. Fale mais sobre esses projetos.
LULE BRUNO-
Sempre gravei muito desde que ganhei da minha mãe, aos 18 anos, um gravador de 4 canais da Fostex. Tenho caixas e caixas de fitas. Criei o personagem Walter Willy em 2003, que era e continua sendo meu alter ego “carreira solo” paralelo a tudo que faço, no caso na época a minha banda Procura-se Quem Fez Isso que durou de 2003-2010 em Porto Alegre. Foi uma fase conturbada da minha vida. Passei por algumas estadias em hospitais psiquiátricos por abuso de substâncias e está tudo mais ou menos documentado nos discos do Walter Willy. Ao sair da última internação, em 2011 (estou limpo há 11 anos), fiz a banda Dévil Évil, em Porto Alegre, que tocava tipo um pop-punk psicodélico. Aqui em Londres tenho um projeto paralelo chamado I Know I’m An Alien.

MONDO POP- Fale da banda Procura-se Quem Fez Isso. Porque os integrantes nunca mostraram os rostos?
LULE BRUNO-
A banda Procura-se quem Fez Isso é um assunto meio difícil. É a primeira vez que falo publicamente sobre isso, escondi minha identidade enquanto membro da banda por cerca de 15 anos e agora decidi me assumir como integrante. Os outros membros seguem querendo não se identificar. A banda começou em 2004 e tínhamos um conceito de não mostrar nossos rostos em público, com o intuito de colocar o foco na música e não nas personalidades e aparências dos membros da banda. Era influência dos The Residents. Fizemos muitos shows, festivais, tivemos matéria na Rolling Stone e abrimos para os meus ídolos, os Mutantes. Gravamos um disco no nosso estúdio, em 2004, e é um dos poucos registros que deixamos (pode ser ouvido na internet).

MONDO POP- Qual o seu processo criativo?
LULE BRUNO-
Raramente sento para compor com o intuito de “vou fazer uma música agora”. Geralmente a ideia vem do nada e na maioria das vezes a músicas vem mais ou menos pronta na minha cabeça. Tento gravar rapidamente com o que estiver por perto e logo faço algum tipo de gravação demo que fico ouvindo enquanto saio para caminhar na rua ou andar de ônibus. Vou resolvendo a estrutura da música na minha cabeça e gravando demos até chegar no mais próximo do que imaginei inicialmente quando a ideia apareceu e daí então gravei a música e ideias para arranjos vão surgindo enquanto estou gravando. Posso estar gravando a linha de baixo e já ouço na minha cabeça como vão ser as guitarras por exemplo. Nunca deixo para terminar uma gravação depois, procuro terminar no mesmo dia que comecei, o que leva geralmente em torno de 3-4h para gravar uma músicas inteira. Gosto de terminar para me livrar e me desbloquear do que estou trabalhando para abrir espaço para uma nova música que logo virá.

MONDO POP- Qual sua motivação/inspiração pra fazer música?
LULE BRUNO-
Transformar experiências ruins em boas, rir do trágico, tentar trazer alguma alegria pro mundo. Acredito que conseguir superar dificuldades na vida pessoal fortalece a minha criatividade e me inspira para continuar, me sinto muito mais criativo estando limpo do que em todos os meus anos utilizando álcool e drogas, estou sempre compondo, tendo ideias para músicas e discos novos. Parece uma fonte inesgotável, vou estar ocupado até o dia que eu morrer hehe e isso é uma benção. É como se por eu ter passado por essas experiências mais extremas que talvez muitas pessoas não tenham que passar, a minha música adquiriu pra mim uma profundidade e significado pessoal que não tinha antes. Se hoje eu estou sorrindo é um sorriso honesto porque houve um período da minha vida em que era muito difícil sorrir.

MONDO POP- Por que ser artista em 2022?
LULE BRUNO-
Tenho muita coisa que quero expressar, sou obcecado por gravar, estou sempre compondo, compus mais de 500 músicas na minha vida, gosto de fazer discos. E não pretendo parar. Acredito no humor como ferramenta de transcender tudo, de poder rir da própria tragédia, gosto do tragicômico. A criatividade é a coisa mais importante pra mim pois quando estou criando eu e a música viramos uma coisa só e o mundo exterior deixa de existir.

MONDO POP- Qual sua opinião sobre a importância da mídia social e da tecnologia na música?
LULE BRUNO-
Sem querer parecer velho, mas sou do tempo em que era tudo meio que no boca a boca, a gente fazia poster, distribuía flyer e as pessoas iam aos shows e aos poucos a palavra chegava nas pessoas certas que depois apareciam nos shows. Embora seja fã da internet e de como essa ferramenta possibilita a gente ouvir e ler coisas que jamais imaginamos, o lance da mídia social para o artista hoje em dia virou uma parada mais de servir a plataforma do que de fato criar arte e acho que estamos num caminho bem negativo em relação a isso. Se não criarmos uma plataforma livre onde os artistas podem distribuir seu trabalho direto para os fãs sem a interferência de um algoritmo acredito que com o tempo será cada vez mais difícil divulgar um trabalho para um público que possivelmente possa gostar do que a gente faz.

MONDO POP- Fale um pouco de shows. Como você traz o seu trabalho pros palcos?
LULE BRUNO-
Em 2018, lancei meu primeiro trabalho solo em vinil usando meu próprio nome, e montei uma banda que incluía às vezes até 5 integrantes tocando minhas músicas e infelizmente a banda se desfez durante a pandemia do novo coronavírus. Esse ano, retomei os shows sozinho, aliado a backing tracks e uma coisa incrível aconteceu que quando estava sozinho no palco me peguei conversando com a platéia, contando histórias baseadas nas músicas e tem dado certo! Os shows viraram meio que uma mistura de música com stand up comedy hehe. Para os shows, no futuro estarei novamente acompanhado de James Ovens (Crazy World of Arthur Brown) na bateria. Eu chamo a banda de Mental Butter.

MONDO POP- Quais seus discos favoritos de todos os tempos?
LULE BRUNO-
Gosto de discos conceituais como Sgt. Pepper’s que contam uma história e as músicas tem uma ligação entre si e não são apenas um monte de singles amontoados. Gosto de discos de identidade forte e com capas interessantes. Meus outros discos favoritos são Magical Mystery Tour também dos Beatles, From a Basement on the Hill do Elliott Smith, White Album (Beatles), Axis: Bold as Love (Jimi Hendrix), Smile (Beach Boys), Loki? (Arnaldo Baptista), O A e o Z (Mutantes), Yoshimi Battles The Pink Robots (Flaming Lips), Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt (John Frusciante) e We’re Only in it For the Money dos Mothers of Invention.

Eu Gosto de Você (clipe)- Lule Bruno:

Gabrielle Aplin nos dá mais uma amostra de álbum a caminho

gabrielle aplin-400x

Por Fabian Chacur

Após lançar o ótimo single Call Me em junho, a cantora e compositora britânica Gabrielle Aplin (leia mais sobre ela aqui) volta com duas boas novidades. A primeira é o anúncio de um novo álbum, Phosphorecent, previsto para sair em 13 de janeiro de 2023. E a outra é mais uma faixa inédita, Don’t Know What I Want, já disponível nas plataformas digitais e com um clipe feito por um fã divulgado no canal do youtube da artista.

A nova canção é uma deliciosa balada folk, com violão à frente e uma melodia delicada que Gabrielle conduz de forma doce e elegante. Em declaração enviada à imprensa, ela fala sobre essa nova composição:

“Essa música é sobre ser muito indecisa, sem conseguir fazer escolhas sem aprovações externas. Mas ao mesmo tempo sabendo lá no fundo que provavelmente sabe vem o que se quer”.

Don’t Know What I Want (fan clip)- Gabrielle Aplin:

Gilson Peranzzetta e Marcel Powell fazem show em SP

gilson peranzzetta e marcel capa 400x

Por Fabian Chacur

Sebastião Tapajós (1943-2021) foi um dos maiores violonistas brasileiros, além de um compositor inspirado e conhecido internacionalmente. Como forma de homenageá-lo, dois músicos fortemente ligados a ele, o tecladista e maestro Gilson Peranzzetta e o violonista Marcel Powell, gravaram o álbum Pro Tião, que a gravadora Kuarup já disponibilizou nas plataformas digitais e em breve lançará em CD.

O duo mostra este repertório em show nesta sexta (2) às 20h no Blue Note São Paulo (avenida Paulista, nº 2.073- 2º andar- saiba mais aqui), com ingressos a R$ 45,00 (meia) e R$ 90,00 (inteira).

A faixa que dá nome ao álbum é uma inspirada parceria de Peranzzetta e Powell, que durante todo o álbum investem basicamente no formato piano e violão. Temos também uma composição de Tapajós, Tocata Pra Billy Blanco, um clássico do chorinho (Pedacinho de Céu, de Waldir Azevedo) e também obras de autoria de Baden Powell e Vinícius de Moraes.

Na ativa desde a década de 1960 como músico profissional, Gilson Peranzzetta possui um currículo repleto de pontos altos, e entre eles se encontra uma frutífera parceria com Ivan Lins, com quem toca e compõe desde meados dos anos 1970. Muito elogiado e respeitado por gente do calibre de Quincy Jones, ele desenvolveu uma parceria com o paraense Sebastião Tapajós entre 1986 e 2021.

Filho do lendário violonista e compositor Baden Powell (1937-2000), Marcel seguiu os passos do pai, e aos 40 anos de idade pode ser considerado um jovem veterano, com vários discos e shows elogiados no seu currículo. Ele teve um relacionamento muito afetivo com Tapajós, e o considerava um padrinho musical, o que justifica essa homenagem tão bela.

Pro Tião (ao vivo)- Gilson Peranzzetta e Marcel Powell:

Older posts Newer posts

© 2022 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑