Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Grandes nomes esquecidos (page 3 of 6)

Andy Gill, do Gang Of Four, um guitarrista dos mais influentes

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Por Fabian Chacur

Dos grupos surgidos no pós-punk britânico, na segunda metade dos anos 1970, o Gang Of Four certamente foi um dos melhores e mais influentes. Nele, a guitarra de Andy Gill sempre se mostrou um marco, com sua performance agressiva, incisiva e criativa, mesclando influências e sendo várias coisas ao mesmo tempo, de forma original. Não é de se estranhar que tenha influenciado tanta gente. Neste sábado (1º), infelizmente o site oficial da banda anunciou a morte do músico aos 64 anos, vítima de pneumonia. Sua última turnê com o Gang Of Four, que só tinha atualmente ele da formação original, ocorreu em novembro de 2019.

Nascido em Manchester, Inglaterra, em 1º de janeiro de 1956, Andrew James Dalrymple Gill criou sua banda em 1976, quando cursava artes na Leeds University, ao lado de Jon King (vocal e letras), David Allen (baixo) e Hugo Burnham (bateria). Seu primeiro single, Damaged Goods, saiu em 1978, belo e suculento aperitivo para o álbum de estréia, Entertainment! (1979), do qual se destaca a marcante At Home He’s a Tourist.

O rock nervoso, vibrante, altamente urbano e original gerou a seguir o álbum Solid Gold (1981), após o qual David Allen saiu, substituído pela baixista e vocalista Sara Lee. Com a nova formação, veio Songs Of The Free (1982), no qual elementos de funk entraram com mais força na mistura, gerando clássicos do rock oitentista como Call Me Up e I Love a Man In a Uniform.

Após a saída de Hugo Burnham, o grupo voltou ao estúdio e gravou Hard (1983), seu trabalho mais próximo do pop, trazendo o hit Is It Love e a participação nos vocais de apoio de Alfa Anderson (do grupo Chic) e Brenda White King (que participou de discos do Chic, Luther Vandross e muitos outros). Aliás, na época havia um boato (não confirmado) de que Nile Rodgers produziria esse álbum.

Depois desse disco, o grupo ficaria sete anos fora de cena. O retorno rolou em 1991 com Gill e King e outros parceiros, no álbum Mall. A partir daí, a banda teria idas e vindas, com direito a alguns lançamentos e a shows. Entre 2004 e 2006, sua formação original voltou a se reunir, e foi exatamente nesta época que eles tocaram no Brasil pela primeira vez, em 2006 (leia a resenha do show aqui).

O grupo voltaria a se apresentar em nosso país em 2011 (no Cultura Inglesa Festival) e 2018. Em 2012, Gill veio a São Paulo para participar de um show ao lado de integrantes da Legião Urbana, que nunca esconderam a influência que o trabalho do Gang Of Four teve em seu som.

Titãs, Ira! e diversas outras bandas brasileiras foram influenciadas por eles, e o Ultraje a Rigor regravou uma das músicas da banda britânica, I Found That Essence Rare, em seu disco de releituras Por Que Ultraje a Rigor? (1990).

Além de músico, Andy Gill também produziu trabalhos de diversos grupos e artistas importantes, entre os quais o Red Hot Chili Peppers (seu autointitulado álbum de estreia, de 1984), Killing Joke (um autointitulado álbum de 2003) e Michael Hutchence (seu autointitulado álbum póstumo, lançado em 1999).

Call Me Up (live)- Gang Of Four:

Michael Hutchence, o INXS e suas três diferentes visitas ao Brasil

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Por Fabian Chacur

Michael Hutchence teria completado 60 anos de idade no dia 22 (quarta-feira). Infelizmente, o cantor e compositor australiano não chegou nem perto disso, pois nos deixou aos 37 anos em 1997, tirando sua própria vida em um quarto de hotel na cidade de Sidney, na antevéspera do início da turnê que divulgaria Elegantly Wasted, o então mais recente álbum de sua banda, a INXS. Resta aos fãs curtir suas lembranças. No caso dos brasileiros, as três passagens do sexteto por aqui durante seus 20 anos de carreira.

O grupo, que iniciou sua carreira em 1977 e lançou o primeiro álbum em 1980, não se tornou conhecido internacionalmente do dia para a noite. Após dois álbuns inicialmente lançados apenas na Austrália, eles chegaram ao mercado internacional com Shabooh Shoobah (1983). The Swing (1984), o álbum seguinte, trouxe como destaque Original Sin, produzida por Nile Rodgers.

Foi lá pelos idos do lançamento de Listen Like Thieves (1985), um belo passo do grupo rumo ao estrelato, que o INXS esteve no Brasil pela primeira vez. Foi uma discreta viagem promocional, durante a qual o grupo concedeu entrevistas e fez ações promocionais. Da próxima vez, a coisa seria bem diferente.

Michael Hutchence e seus colegas tocaram pela primeira vez em nosso país como uma das atrações principais da segunda edição do Rock in Rio. Foi no dia 19 de janeiro de 1991. Na verdade, eles entraram em cena já na madrugada do dia 20, mas de forma apoteótica, tocando a impactante Suicide Blonde.

Eles estavam no início da turnê de divulgação do álbum X (1990), que tinha a difícil tarefa de suceder o trabalho que os catapultou rumo à primeira divisão do rock mundial, o excelente Kick (1987), e provaram sua grande capacidade ao vivo, com direito ao carisma de Hutchence e o pique dos músicos. Um dos melhores grupos para animar festinhas de todos os tempos.

A consagradora tour mundial que passou pelo Brasil gerou um belo álbum ao vivo, Live Baby Live, lançado em novembro daquele mesmo ano de 1991 e com faixas gravadas em diversos países, incluindo uma por aqui.

Entre essa performance consagradora, uma das melhores daquele festival repleto de grandes nomes (Prince, George Michael, Santana etc) e a próxima visita da banda ao Brasil, muita coisa mudaria na vida de Michael Hutchence, e infelizmente não para melhor. Tudo começou com um violento acidente ocorrido em agosto de 1992.

Hutchence estava em Copenhague, Dinamarca, com a modelo internacional Helena Christensen, com quem namorou entre 1991 e 1994. Eles estavam saindo de um taxi, o taxista se enfezou com o roqueiro e enfiou um soco em seu rosto. O cantor caiu de costas no chão, batendo a parte de trás de sua cabeça.

O cantor foi negligente em termos de se cuidar, e passou um mês no apartamento da namorada, vomitando, alimentando-se mal e se comportando de forma inconveniente. Só após esse período o casal resolveu procurar um especialista em Paris, e naquele momento ficou clara a gravidade do seu estado de saúde. Ele perdeu para sempre os sentidos de paladar e olfato, além de outras contusões que o afetaram de forma intensa.

O acidente certamente explica o porque o INXS não saiu em turnê para divulgar o álbum que havia lançado na mesma época, agosto de 1992, Welcome To Wherever You Are, algo até então inédito na trajetória da banda. A justificativa divulgada então referia-se ao desejo de o grupo dar uma descansada para, logo a seguir, começar a preparar um novo trabalho, que seria lançado em 1993 com o título Full Moon, Dirty Hearts.

Embora interessantes e com momentos muito bons, os dois álbuns fizeram bem menos sucesso do que os anteriores, especialmente nos EUA. É nesse contexto que eles voltam ao Brasil em 1994, para shows no Rio de Janeiro (estádio da Gávea) no dia 10 de março, em São Paulo (estacionamento do Anhembi) no dia 11 de março e 12 de março em Curitiba (Pedreira Paulo Leminski).

Com abertura da banda americana Soul Asylum, o show em São Paulo reuniu por volta de metade da capacidade do espaço, fato possivelmente motivado pelo tempo chuvoso. Hutchence aparentava muito menos energia do que na performance anterior, mas mesmo assim conseguiu comandar um show profissional e competente, com direito aos hits e a canções boas da safra recente como Heaven Sent e Please (You Got That…), esta última gravada no álbum Full Moon Dirty Hearts com a participação especialíssima de Ray Charles.

Dali em diante, Michael Hutchence passou a frequentar mais as páginas da imprensa sensacionalista do que as musicais. Ele, que namorou famosas como a cantora Kylie Minogue, deixou a modelo Helena Christensen para se envolver em um romance controverso com a apresentadora de TV e escritora Paula Yates, que desde 1976 estava comprometida com o cantor Bob Geldof, do grupo Boontown Rats e criador do Live Aid.

Dizem os boatos (possivelmente verdadeiros) da época que Yates estava interessada em Hutchence desde que o entrevistou para um programa de TV britânico em 1985. Em 1994, em outra entrevista, o fogo aparentemente acendeu de vez, e a consequência foi não só o fim de um casamento de quase trinta anos como também o nascimento em 22 de julho de 1996 de Tiger Lily, primeira e única filha do casal.

Envolto com os problemas de saúde e o consumo cada vez mais alto de drogas e barbitúricos, além da distância da filha, Hutchence ainda mostrou disposição para o trabalho, pois, paralelamente ao início das gravações de um disco solo, ainda gravou um último álbum com o INXS, o mediano Elegantly Wasted.

O disco-solo estava sendo feito por Hutchence em parceria com Andy Gill, guitarrista da banda britânica Gang Of Four e coautor de boa parte das músicas. Como forma de homenagear o amigo, o músico arregaçou as mangas e conseguiu finalizar as gravações, contando com a participação de Bono na faixa Slide Away. O resultado é o álbum intitulado Michael Hutchence, lançado em 1999 e digno da bela trajetória do astro australiano.

Conhecido por ter trabalhado durante muito tempo com a banda e ser o diretor de clipes de hit singles como Need You Tonight, Never Tear Us Apart e Suicide Blonde, o diretor australiano Richard Lowenstein lançou em 2019 o documentário Mistify Michael Hutchence.

Ele se valeu de raros registros da banda e do cantor (incluindo alguns com Kylie Minogue e Helena Christensen) para ilustrar depoimentos em áudio de integrantes do INXS e de outros nomes importantes na trajetória do astro do rock. Um dos destaques fica por conta dos detalhes do acidente de agosto de 1992 e sobre as terríveis consequências com as quais Hutchence teve de conviver em seus anos finais de vida.

Sem seu principal integrante, o INXS tentou seguir adiante, com substitutos que não deram conta do recado, incluindo um selecionado em um reality show televisivo. Em 2012, resolveram sair de cena, e um retorno parece improvável, embora não impossível. Com Jon Stevens no vocal, o grupo voltou a se apresentar no Brasil em 2002, com shows dia 15 de maio no ATL Hall, no Rio de Janeiro, e 17 de maio em São Paulo, na Via Funchal.

Se não revolucionou o mundo da música, Michael Hutchence e sua banda certamente criaram uma obra dançante e pra cima, com direito a boas baladas no meio e repleta de momentos bacanas que merecem ser reverenciados pelos fãs de pop rock consistente e com personalidade forte.

Veja o trailer de Mistify Michael Hutchence:

The Yardbirds versão atual virá ao Brasil para shows em 2020

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Por Fabian Chacur

Em matéria publicada pelo jornal Destak no dia 22 (sexta), o jornalista José Norberto Flesch anunciou que em março de 2020 o grupo britânico The Yardbirds fará alguns shows no Brasil, cujas datas e locais serão divulgados em breve. Como o cara é o mais bem informado nessa praia de divulgação de shows internacionais por aqui, é notícia quente. E que merece ser saudada com aquela velha brincadeira do “um lado ruim e um lado bom”.

O aspecto ruim é evidente: não estamos em 1965 ou 1966, quando os Yarbdirds viviam o seu auge em termos criativos. Da formação daqueles tempos, só sobrou o baterista, Jim McCarthy. Ou seja, estaremos diante de uma espécie de banda cover de luxo. Mas o bacana é que se trata de uma bela de uma banda cover de luxo, pois traz com o batera quatro músicos com um pedigree dos mais decentes.

Estão hoje ao lado de McCarthy os músicos Kenny Aaronson (baixo), John Idan (guitarra-base e vocal), Myke Scavone (vocal e vários instrumentos) e Godfrey Townsend (guitarra-solo).

Sendo assim, Mondo Pop fará uma pequena viagem pela trajetória dessa seminal banda britânica, que se fez bem menos sucesso comercial do que contemporâneas como Beatles, Rolling Stones, The Who, The Hollies e The Animals, deixou sua marca registrada nos compêndios da história do rock.

Sensação em Londres com Eric Clapton na guitarra

Tudo começou em 1963, quando Keith Relf (vocal), Chris Dreja (guitarra-base), Paul Samwell-Smith (baixo) e Jim McCarthy (bateria) iniciaram uma banda para embarcar na onda do blues-rock que incendiava a cena britânica naqueles tempos. Seu guitarrista inicial, Anthony Top Topham, com apenas 16 anos, logo se mostrou imaturo para tocar o barco, e saiu para se dedicar aos estudos.

O substituto, apenas dois anos mais velho mas muito disposto a encarar a carreira na música, foi um certo Eric Clapton. Com este novo guitarrista-solo, a banda logo se tornou quente na cena londrina, a ponto de ter sido escolhida para acompanhar o bluesman americano Sonny Boy Willianson em show feito por ele no final de 1963 na Inglaterra. Esta apresentação foi gravada e lançada posteriormente, quando o quinteto já estava bem badalado.

Em 1965, após ter lançado alguns singles e um álbum ao vivo, os Yardbirds resolveram experimentar algo fora do universo do blues rock. O single For Your Love, de autoria de Graham Goldman (também autor de Bus Stop, hit na época com os Hollies, e nos anos 1970 integrante do grupo 10CC, do sucesso I’m Not In Love) rapidamente invadiu as paradas de sucessos, mas levou Clapton a sair do time, insatisfeito com essas experiências com o lado mais pop do rock.

Jeff Beck, hits, psicodelia

Para a vaga aberta de guitarrista-solo, veio outro nome que se tornaria lendário no rock, ninguém menos do que Jeff Beck. Foi com ele que os Yardbirds viveram a sua fase mais criativa e de maior sucesso comercial, com direito a hits como Heart Full Of Soul e Evil Hearted You (ambas também de Graham Goldman) e também The Train Kept a Rollin’ e Shapes Of Things.

Com sua mistura de rock, blues, pop e psicodelia, a banda trazia como marca registrada o chamado “rave up”, estilo no qual os integrantes da banda enfatizavam (todos ao mesmo tempo) a parte rítmica em determinadas partes das canções, gerando um efeito poderoso, especialmente nos shows.

A criatividade de Jeff Beck elevou os Yardbirds a um outro e ainda mais alto patamar do que nos bons tempos de Clapton. A banda foi uma das pioneiras do rock psicodélico, e muito disso se deve às experiências de Beck com pedais e efeitos em sua guitarra, além de uma técnica impressionante e diversificada.

Outra mudança na formação, outro astro em cena

Cansado das turnês, Paul Samwell-Smith saiu do grupo em meados de 1966 para se dedicar a uma carreira como produtor de discos de artistas como Cat Stevens, Jethro Tull e All About Eve, entre outros. Em seu lugar, entrou um músico de estúdio que estava se destacando em Londres, um certo Jimmy Page.

Logo, ficou claro que seria um desperdício ter um guitarrista daqueles quebrando o galho no baixo, e então, Chris Dreja foi deslocado para tal posição, ficando os Yardbirds com dois guitarristas-solo, Page e Beck. Essa formação infelizmente não durou muito tempo, e ficou eternizada na gravação ao vivo de Stroll On (na verdade, The Train Kept a Rollin’ com outra letra) que virou cena do cultuado filme Blow Up-Depois Daquele Beijo (1967), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

Jeff Beck decidiu sair fora para criar sua própria banda, The Jeff Beck Group, ao lado de dois novatos que depois também se tornariam astros do rock, o cantor Rod Stewart e o baixista e guitarrista Ron Wood. Os Yardbirds, a partir daquele momento, se tornaram um quarteto.

Jimmy Page, o início do Led Zeppelin e o fim dos Yardbirds

Os Yardbirds tiveram uma fase muito curta com Jimmy Page no comando, entre 1967 e 1968, com poucos lançamentos e sucesso comercial declinando bastante. Sentindo o clima de fim de feira, Jim McCarthy e Keith Relf saíram da banda, para criar o embrião do que viria a ser o grupo progressivo Renaissance.

Por sua vez, Chris Dreja decidiu abandonar a música para se dedicar a uma carreira como fotógrafo profissional. Praticamente da noite para o dia, Jimmy Page, que largou a carreira de músico de estúdio para se dedicar à banda, ficava na mão. Sorte que ele, rapidamente, soube arregimentar um novo time.

Para o baixo, chamou o colega de gravações de estúdio, John Paul Jones. O jovem vocalista Robert Plant foi indicado por um amigo, e o baterista John Bonham já havia tocado antes com Plant. Surgia o que, por razões contratuais, seria denominado The New Yardbirds, e pouco depois, seguindo sugestão de Keith Moon, do The Who, virou Led Zeppelin. Que, ironicamente, conseguiu o sucesso comercial que os Yardbirds jamais sequer sonharam em obter.

Curiosamente, a foto do Led Zeppelin incluída na contracapa de seu autointitulado álbum de estreia, lançado em janeiro de 1969 e rapidamente um grande sucesso comercial, foi tirada pelo agora fotógrafo Chris Dreja.

A vida pós-Yardbirds e uma reunião com novo nome

Após o seu fim, os Yardbirds se tornaram aquele tipo de grupo mais lembrado pelos músicos que revelou do que propriamente pela qualidade de sua música, algo injusto. A probabilidade de um retorno, levando-se em conta esse fator, parecia difícil, pois seus ex-integrantes aparentemente sequer cogitariam isso.

Outro fator que poderia encerrar quaisquer perspectivas de um retorno do grupo ocorreu em 1976, com a trágica morte de Keith Relf, aos 33 anos de idade, vítima de um choque elétrico quando tocava guitarra em sua casa.

Em 1984, no entanto, Jim McCarthy, Chris Dreja e Paul Samwell-Smith resolveram matar as saudades e se reunir com um novo nome, Box Of Frogs. Essa banda lançou dois álbuns, Box Of Frogs (1984) e Strange Land (1986), com alguns shows, mas a falta de tempo de Samwell-Smith se mostrou fatal para a sua continuidade. Eric Clapton e Jeff Beck chegaram a dar canjas com eles.

Hall da Fama e o retorno nos anos 1990

Quando os Yardbirds foram incluídos no Rock And Roll Hall Of Fame, em 1992, ficou claro para Jim McCarthy e Chris Dreja que, quem sabe, ressuscitar sua antiga banda pudesse se tornar uma boa forma de faturar uma grana e pagar os boletos bancários. Sem Page, Clapton, Beck e o saudoso Relf, obviamente, mas com um nome atraente e comercialmente muito viável.

O primeiro nome a se firmar nessa nova formação foi o cantor e guitarrista americano John Idan. Ele conheceu Jim McCarthy em 1988, e tocou com ele e também com Anthony Top Topham. Inicialmente, atuou como cantor e baixista, função que manteve entre 1994 e 2008. Após um período durante o qual se dedicou a projetos próprios, Idan retornou ao grupo em 2015, desta vez como vocalista e guitarrista-base.

No mesmo 2015, mas em sua parte final, entrou no time nos vocais e vários instrumentos o americano Myke Scavone. Ele se tornou famoso como integrante da banda Ram Jam, que em 1977 estourou com a releitura de Black Betty, clássico do compositor folk Lead Belly.

No final de 2018, os Yardbirds ganharam em sua nova fase uma outra adição. Trata-se do guitarrista americano Godfrey Townsend, que tem no currículo trabalhos com John Entwistle (do The Who), Jack Bruce, Alan Parsons, Todd Rundgren, Mark Farner (do Grand Funk Railroad) e Christopher Cross.

Vale a lembrança: Chris Dreja permaneceu nessa nova fase dos Yardbirds de 1994 a 2012, quando saiu de uma vez por todas, deixando Jim McCarthy como único membro original a permanecer no time.

Kenny Aaronson merece um capítulo à parte

Se Jim McCarthy é o único integrante original dos Yardbirds a marcar presença na atual encarnação do grupo (e também o único inglês, vale lembrar), o baixista americano Kenny Aaronson, na banda desde 2015, é o cidadão com o currículo mais invejável, em seus mais de 40 anos de atuação como músico profissional.

Aaronson iniciou a sua carreira como baixista da banda de hard rock Dust, cujos álbuns Dust (1971) e Hard Attack (1972), embora não tenham feito enorme sucesso em termos comerciais, são bastante apreciados pelos fãs do gênero, em especial o trabalho de estreia.

Seu primeiro momento de glória no mundo do rock se deu em 1973, como integrante da banda americana Stories. Eles estouraram em seu país natal com uma releitura matadora de Brother Louie, dos britânicos Hot Chocolate, balada soul-rock na qual a linha de baixo proeminente de Aaronson é um dos pontos seminais deste hit que atingiu o topo da parada ianque de singles naquele ano.

No final de 1974, Aaronson saiu dos Stories e entrou na banda de apoio de Daryl Hall & John Oates, com quem ficou por volta de um ano, durante a turnê de divulgação do mais controvertido álbum da dupla, War Babies (1974), sendo que em algumas ocasiões eles abriram shows para Lou Reed, acredite se quiser.

Em 1986, ele participou do álbum The Knife Feels Like Justice, primeiro álbum-solo do cantor e guitarrista dos Stray Cats, Brian Setzer, e também participou da turnê de divulgação deste trabalho.

De 1991 a 1995, acompanhou a roqueira Joan Jett em diversas turnês e participou do CD Pure And Simple (1994). De quebra, também esteve na banda de Bob Dylan entre 1988 e 1989, e fez um teste para substituir Bill Wyman nos Rolling Stones em 1994. Ufa!

O que ouvir em termos de Yardbirds

A discografia dos Yardbirds de sua fase 1963-1968 é bastante confusa, com direito a discos lançados exclusivamente nos mercados americano e britânico, com faixas variando de uns para outros. O melhor para quem deseja mergulhar no rico universo musical na banda é optar por coletâneas.

Em sua fase pós 1994, o grupo lançou em 2003 o álbum de estúdio Birdland, com sete composições inéditas e oito releituras de hits da banda, contando com as participações especiais de Jeff Beck, Steve Lukather, Brian May, Joe Satriani, Slash, Steve Vai e Jeff Skunk Baxter. A faixa An Original Man (A Song For Keith) é uma bela homenagem ao ex-vocalista do grupo, Keith Relf.

The Train Kept a Rollin’– The Yardbirds:

Walter Franco, genial coração tranquilo e malucão de festival

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Por Fabian Chacur

Os festivais de música se tornaram uma febre no Brasil a partir da metade da década de 1960, graças especialmente ao fato de terem sido promovidos por emissoras de TV e transmitidos para todo o país. Ajudaram a divulgar novos nomes, mas também firmaram alguns estereótipos negativos que prejudicaram carreiras. Walter Franco, que nos deixou nesta quinta (24) aos 74 anos, certamente foi um dos mais prejudicados nesse processo perverso que teve origem no mitológico Festival da Record de 1967.

Espécie de avô dos reality shows do século XXI, aquele tipo de competição musical logo apostaria em encaixar seus competidores em padrões. Tipo o galã (Chico Buarque, por exemplo), o moderno (Caetano Veloso), a espevitada (Elis Regina), o simpático carismático (Jair Rodrigues) e por aí vai.

O cantor, compositor e músico Sérgio Ricardo, ao ser furiosamente vaiado quando interpretava sua inusual composição Beto Bom de Bola naquele festival da Record de 1967, o levou a uma reação furiosa e totalmente inesperada: quebrou o violão e jogou seus restos na plateia.

Como seria de se esperar, naquele momento surgia mais um personagem a ser preenchido na escalação dos próximos certames similares. Denomino esse elemento de “malucão de festival”, tarja que passaria a ser imposta a todo competidor que nos oferecesse um trabalho fora dos padrões mais habituais.

De certa forma, Gilberto Gil foi atirado nesse fosso ao defender a depois eliminada Questão de Ordem em festival de 1968, gerando a indignação de Caetano Veloso e seu ácido discurso no meio de É Proibido Proibir.

Surgem os tais de “malditos”

Mas quem melhor se encaixou neste novo perfil foi Walter Franco no Festival Internacional da Canção da Globo de 1972. Afinal de contas, nada mais experimental e fora do padrão habitual do que Cabeça, uma música genial e minimalista que tocava na ferida da pressão que o chamado mundo moderno fazia nas pessoas, e da importância de se cuidar para não explodir. Ao ver aquilo, em horário nobre, o público entrou em parafuso, e a emissora amou estereotipar aquele cabeludo tão criativo.

Pode-se dizer que essa é a origem do rótulo “malditos”, que depois seria usado para abranger artistas como o próprio Franco, Jards Macalé (que também encarnou o “malucão” em festivais), Jorge Mautner, Sérgio Sampaio e outros artistas criativos e rebeldes. Denominação negativa que dava a entender que se tratava de caras doidos, irascíveis e fora do senso comum que mereciam ser devidamente marginalizados. Como fizeram mal a gente tão talentosa!

Walter Franco voltaria, “apesar de tudo”, ao papel no Festival Abertura, promovido pela Globo em 1975, com sua bela Muito Tudo, homenagem a John Lennon e João Gilberto, e também no caótico festival da Tupi, em 1979. Nesta última, trouxe a roqueira e virulenta Canalha, cujo refrão dava ao público presente a chance de por prá fora a agonia daqueles anos de ditadura militar ainda brava e repulsiva. Ficou em segundo lugar.

Aliás, acho que naquele evento o papel do malucão ficou mesmo a cargo de Arrigo Barnabé e sua Sabor de Veneno, que o público jurava ser sabor de outra coisa menos saborosa e gritava na hora do refrão o nome…

Muito além de apenas experimental e polêmico

Eis o porque Walter Franco ficou com esse estigma de maldito. No entanto, seu incrível experimentalismo, registrado de forma direta no cultuado álbum Ou Não (1972, aquele com a mosca na capa), era apenas uma de suas facetas. O roqueiro vibrante, por exemplo, deu as caras com tudo em Revolver (1975), um dos melhores trabalhos do rock setentista.

Ele também sempre se mostrou capaz de escrever canções delicadas, melódicas e com letras de uma profundidade filosófica marcante, como Coração Tranquilo, Vela Aberta, Respire Fundo e Serra do Luar. Atraiu fãs dos mais distintos, o que o fato de ter sido regravado por nomes tão diferentes entre si como Chico Buarque, Leila Pinheiro, Oswaldo Montenegro, Ira!, Camisa de Vênus, Pato Fu e Titãs (com quem fez shows) serve como prova.

A qualidade da herança musical deixada por Walter Franco em seus poucos (e bons) álbuns é um legado que vai muito além do que rótulos como “maldito” ou “malucão de festival” podem dar a entender. Filho do poeta e político Cid Franco e nascido em São Paulo em 6 de janeiro de 1945, sua figura simpática e tranquila será reverenciada pelos fãs da melhor música brasileira, e certamente redescoberta por muitos a partir dessa sua partida.

Ouça Revolver na íntegra em streaming:

Ginger Baker, um dos maiores bateristas da história do rock

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Por Fabian Chacur

De todas as músicas do Cream, a que mais me impressiona é provavelmente seu maior hit, Sunshine Of Your Love. Seu ponto alto é uma levada de bateria simplesmente impossível de ser reproduzida por outro baterista que não seja aquele que a gravou originalmente, Ginger Baker. Pois esse grande músico britânico nos deixou neste domingo (6), aos 80 anos, “em paz”, segundo informação de seus familiares. Algo raro durante sua atribulada trajetória de vida.

Nascido em 19 de agosto de 1939, Baker tornou-se conhecido no cenário musical britânico ao integrar as bandas Blues Incorporated e Graham Bond Organization. Em ambas, tocava com outro músico emergente, o baixista Jack Bruce. Eles se estranhavam com frequência, mas apostando em suas imensas afinidades musicais, resolveram montar sua própria banda ao lado do guitarrista Eric Clapton, mais novo do que eles e também muito badalado naquele 1966.

Nascia o Cream, que desde o berço dava a impressão de que não estava surgindo só para passar o tempo. Durante seus menos de três anos de vida, lançou álbuns marcantes como Disraely Gears (1967) e emplacou hits como Sunshine Of Your Love, Strange Brew e Badge. Ao vivo, faziam um show repleto de improvisos e energia, nos quais a inventividade dos três gerava duelos musicais impressionantes e históricos.

Com o fim do grupo, Baker montou com Clapton, Steve Winwood e Rick Grech, o super grupo Blind Faith, que em 1969 lançou seu único álbum, autointitulado, e também entrou para a história do rock, durando apenas aquele ano.

A partir daí, o cara teve inúmeras experiências. Montou outros grupos, entre os quais o Ginger Baker’s Air Force e o trio Baker Gurvitz Army, este último ao lado dos irmãos Paul e Adrian Gurvitz (este último fez sucesso em carreira-solo com a balada Classic, que foi tema de novela global Sétimo Sentido em 1982).

Montou um estúdio de gravação em Lagos, na Nigéria, e gravou com o genial músico africano Fela Kuti. Em 1986, participou de Album, do grupo Public Image Ltd., e posteriormente montou um trio de jazz com Charlie Haden e Bill Frisell.

Em 2005, voltou a tocar com o Cream, e esse retorno gerou shows no mesmo lugar onde haviam se despedido dos palcos em 1968, o lendário Royal Albert Hall. Esses shows geraram registros em CD, DVD e Blu-ray. Como seria de se esperar, essa reunião não durou muito, novamente por causa das brigas entre Baker e o saudoso Jack Bruce (leia mais sobre Bruce aqui )

O genial e imperdível documentário Beware Of Mr.Baker (2012, leia a resenha aqui), de Jay Bulger, mostra de forma brilhante a trajetória desse músico genial e ser humano de temperamento difícil e contraditório.

Sunshine Of Your Love– Cream:

D.A. Pennebaker eternizou cenas de grandes nomes da música pop

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Por Fabian Chacur

As décadas de 1960, 1970 e 1980 foram palco de grandes momentos da história da música pop mundial. Se por ventura você ainda não era vivo ou não tinha idade suficiente para ter presenciado in loco o que de melhor ocorreu nessas épocas, a única saída é recorrer a documentários. E um dos profissionais que melhor trabalhou no ofício de eternizar performances sublimes em filmes foi o diretor americano D.A. Pennebaker, que infelizmente nos deixou aos 94 anos de idade no último dia 1º (quinta), sendo que sua morte só foi divulgada no último sábado (3). Seu currículo na área musical é simplesmente arrasadora.

Don Alan Pennebaker nasceu em Evanston, Illinois (EUA) em 15 de julho de 1925, filho de um fotógrafo. Ele se formou em engenharia, mas acabou se embrenhando pelo cinema. Seu primeiro curta-metragem envolvendo música saiu em 1953, Daybreak Express, no qual cenas registradas em estação de metrô de Nova York ao som da música de mesmo título, de Duke Ellington. Em 1960, ganhou os holofotes com Primary, na qual registrou a disputa das primárias do Partido Democrata que nomearam como candidato John F. Kennedy.

O método com o qual Pennebaker fazia seu trabalho partia de um princípio básico: ser uma espécie de espectador neutro dentro de um contexto, ou “fly on the wall” (mosca na parede), como ficou conhecido esse tipo de abordagem. Em uma entrevista concedida à revista Film Comment, ele delineou seu método de trabalho:”observe. Apenas observe. Não interprete, não explique”.

O pulo do gato em termos de projeção na área musical ocorreu quando foi convidado a registrar a turnê realizada por Bob Dylan na Inglaterra em 1965. O filme resultante desta experiência, Dont Look Back (1967) flagra toda a polêmica passagem do artista de sua fase acústica para uma abordagem mais roqueira, atraindo reações agressivas por parte dos fãs mais puristas, que desejavam ver seu ídolo eternamente atrelado ao folk acústico.

Mama Cass de queixo caído

Em 1967, lá estava Pennebaker registrando o seminal Monterey Pop, festival que se tornou um marco da música pop e do rock em particular, atraindo um público muito maior do que se esperava e escancarando a importância roqueira no universo cultural naqueles anos efervescentes e criativos.

A cena em que ele mostra a cantora Mama Cass, do The Mamas And The Papas, com o queixo caído ao presenciar na platéia uma performance demencial da então ainda desconhecida Janis Joplin na música Ball And Chain é um dos pontos altos do simplesmente espetacular Monterey Pop (1968).

Posteriormente, seriam lançados outros dois filmes com material inédito registrado durante aquele festival, Jimmy Plays Monterey (1986) e Shake! Otis At Monterey (1987), centradas nos shows incríveis realizados por Jimmy Hendrix e Otis Redding naquele evento mitológico.

Plastic Ono Band no Canadá

Em 1969, John Lennon montou um grupo com a esposa, Yoko Ono, e os amigos Eric Clapton (guitarra), Klaus Woorman (baixo) e o então desconhecido Allan White (bateria, tocaria depois com o Yes) e participou de um festival de música em Toronto, no Canadá, evento do qual também participaram os pioneiros do rock Bo Diddley, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Little Richard.

O show, uma das raras performances ao vivo de John Lennon sem os Beatles, virou filme graças às lentes de Pennebaker, gerando o documentário Sweet Toronto (1971), que embora traga performances dos outros roqueiros, é centrada na performance completa de Lennon e seus asseclas, a mesma que gerou o álbum ao vivo Live Peace In Toronto (1969), o “álbum da nuvem”, creditado à Plastic Ono Band.

Em 1973, chega a vez de Pennebaker filmar o último show da turnê de David Bowie encarnando o personagem Ziggy Stardust, realizado em 3 de julho daquele ano no Hammersmith Odeon, em Londres. Um registro cru e direto de um show no qual Bowie vive um dos vários momentos icônicos de sua trajetória, ao lado da banda Spiders From Mars.

O filme propriamente dito, Ziggy Stardust And The Spiders From Mars- The Motion Picture, só sairia em 1979, e sua impactante trilha sonora, em 1983.

Uma curiosidade sobre esse documentário: o lendário guitarrista Jeff Beck participou do show em sua parte final, no pot-pourry The Jean Genie/Love Me Do e em Round And Round. Essa performance, no entanto, só foi exibida em um especial na TV americana que foi ao ar em 1974, e não aparece nem no filme, nem na trilha sonora. As razões pela qual o guitarrista pediu para que a sua participação fosse tirada do filme nunca foram devidamente esclarecidas.

Chris Hegedus, Depeche Mode etc

Em 1976, Pennebaker ganha uma assistente ao trabalhar pela primeira vez com Chris Hegedus, então com apenas 25 anos. Eles se casaram em 1982, e ela se mostrou uma talentosa documentarista, trazendo nova energia para o trabalho do veterano cineasta. A chamada união do útil com o agradável.

O fruto dessa renovação se mostrou em toda a sua intensidade no genial 101 (1989), que documentou o exato momento em que a banda britânica Depeche Mode deixou de ser mais uma das inúmeras bandas de tecnopop aspirando ao estrelato e entrou com tudo no primeiro escalão da música pop. Isso ocorreu durante a turnê americana do grupo realizada em 1988.

A grande sacada de 101 é mostrar a banda de Dave Gahan e Martin L. Gore sendo acompanhada por um grupo de fãs devotados e carismáticos, algo que seria imitado posteriormente por emissoras de TV como a MTV, por exemplo. Pennebaker e Hegedus afirmaram em entrevistas ter sido este o seu trabalho favorito, na seara musical.

Se boa parte das incursões musicais de D.A. Pennebaker registrou fatos que estavam acontece naquele exato momento, um de seus filmes mais bacanas equivale a um verdadeiro resgate, embora tenha como mote a realização de um show. Trata-se de Only The Strong Survive (2002), que reúne craques da soul music como Isaac Hayes, Jerry Butler, The Chi-lites, Sam Moore (da dupla Sam & Dave), Wilson Pickett, Mary Wilson e Rufus e Carla Thomas, entre outros.

Este documentário chegou a ser considerado uma espécie de Buena Vista Social Club do soul, por reunir artistas seminais daquela vertente musical deixados de lado pela grande mídia. Depoimentos emocionantes, como Sam Moore lembrando dos tempos em que atuou como traficante, Jerry Butler virando político ou o medo de Carla Thomas em arrumar os dentes e eventualmente perder seu estilo vocal, são cerejas de um bolo no qual performances arrasadoras são o mote. Saiu em DVD no Brasil, procurem que vale a pena.

Veja o trailer de Only The Strong Survive:

New Radicals acabou há 20 anos e deixou um belo CD de herança

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Por Fabian Chacur

Em 12 de julho de 1999, um frio e impessoal comunicado oficial anunciou que o grupo New Radicals estava saindo de cena. Seu líder, o cantor, compositor e músico americano Gregg Alexander, alegou cansaço com os shows e a necessidade de divulgar seu trabalho em rádios, TVs e imprensa, e informou que, a partir dali, iria se dedicar em tempo integral a compor e produzir para outros artistas. Era o ponto final de uma curta, porém produtiva trajetória do grupo, criado em 1997. Como herança, ficou o álbum Maybe You’ve Been Brainwashed Too, lançado em outubro de 1998. Vale relembrar essa história e seus detalhes.

Se a banda era de fato novinha, seu criador já tinha alguma estrada. Gregg Alexander nasceu em 4 de maio de 1970, e se mostrou um talento precoce, pois foi contratado pela gravadora A&M com apenas 16 anos. O produtor Rick Nowels se impressionou com o potencial do garoto, e não teve pressa. A prova é o fato de que o trabalho de estreia de Alexandre, Michigan Rain, saiu apenas em 1989, e passou batido, mesmo tendo recebido alguns elogios.

Nowel não desistiu do amigo, e em 1992 a Sony Music, com seu selo Epic, apostou na indicação do produtor. Naquele mesmo ano, saiu Intoxifornication, com três faixas do trabalho anterior, duas releituras de canções daquele disco e outras inéditas. O resultado em termos comerciais foi o mesmo: fracasso.

Sem baixar a cabeça, Alexander resolveu criar em 1997 um novo projeto, o New Radicals, totalmente liderado por ele e valendo-se de músicos de apoio e de uma amiga que conheceu quando gravou o álbum anterior, a cantora, compositora e ex-atriz mirim Danielle Brisebois.

Em 1998, conseguiu um contrato com a MCA Records, seguido pela gravação e lançamento, naquele mesmo ano, do álbum de estreia, com o curioso título Maybe You’ve Been Brainwashed Too (talvez você tenha sofrido lavagem cerebral também, em tradução livre).

Chutando os fundilhos de Marilyn Manson, Beck, Hanson e Courtney Love

O primeiro single a ser extraído do álbum de estreia do New Radicals foi sua música mais bem-sucedida em termos comerciais. You Get What You Give, um rock energético com tempero pop e bem pra cima, teve uma repercussão respeitável, chegando ao 5º lugar na parada britânica e 36º na americana, além de se dar bem em vários outros países.

Com um clipe divertido ambientado em um shopping, esta canção trazia uma mensagem de autoajuda, com direito a críticas a diversas corporações e uma mais ácida, dirigida a colegas de profissão: “Fashion mag shoots with 8 Dust Brothers, Beck and Hanson, Courtney Love and Marilyn Manson, you’re all fakes, run to your mansions, come around we’ll kick your ass in”.

A reação a terem sido chamado de falsos e de levarem um bico nos fundilhos gerou uma pequena polêmica, com respostas distintas dos “homenageados”. Manson, por exemplo, disse ter se ofendido pelo fato de ser citado em um mesmo parágrafo com Courtney Love. Beck revelou que Alexander o encontrou em público e lhe pediu desculpas, como se tivesse medo (“e o cara é grandão”, brincou o autor do hit Loser). Com os boa-praças do Hanson a coisa foi melhor.

Os três irmãos não só encararam de forma bem-humorada a citação, definindo-a como algo comum na música pop, como em 2004 escreveram uma canção em parceria com o líder do New Radicals, Lost Without Each Other, gravada pelo Hanson em seu CD Underneath.

Someday We’ll Know, o single que nasceu morto

Os sinais de que as coisas não iam bem para os New Radicals estavam à vista, especialmente quando cancelaram uma turnê européia que se iniciaria em maio de 1999. Eles também deveriam gravar um clipe para divulgar o segundo single a ser extraído de seu álbum de estreia, a envolvente balada Someday We’ll Know. No entanto, tal ação promocional foi cancelada.

Resultado: a canção, uma das mais fortes do disco e em cuja letra Alexander relata a espera por, um dia, descobrir a razão pela qual um romance não deu certo, chegou natimorta ao mercado discográfico. Ninguém a tocou em rádio, o single pouco vendeu e, pronto, uma música maravilhosa sumiu de cena rapidinho.

Bem, nem tanto. Em 2003, a dupla Daryl Hall & John Oates regravou-a com muita categoria, com participação mais do que especial de outro mito da música, o cantor, compositor e multi-instrumentista americano Todd Rundgren. A cantora pop Mandy Moore também a registrou, em 2002, em releitura feita para a trilha sonora do filme A Walk To Remember, estrelado por ela própria.

Um álbum repleto de bons momentos

Maybe You’ve Been Brainwashed Too é daqueles álbuns que te envolvem de cabo a rabo. O conteúdo nos oferece uma mistura de rock, pop, soul e dance music muito bem equilibrada. A voz de Gregg Alexander é bem agradável, com direito a falsetes e influências bem digeridas de Mick Jagger, Karl Wallinger (do World Party). Outras influências visíveis são Todd Rundgren, Daryl Hall & John Oates e Elton John. Não era o som da moda, na época. Não mesmo.

Além das duas canções já citadas, várias outras poderiam ter se sobressaído no formato single, se tivessem sido bem divulgadas. Mother We Just Can’t Get Enough, que abre o álbum, traz elementos de Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones, e Movin’ On Up, do Primal Scream, com um clima tribal e dançante.

I Don’t Wanna Die Anymore, que chegou a ser cotada como possível single, é uma power ballad arrasadora, daquelas que a gente quase corta os pulsos ao ouvir, mesmo com a temática da letra indo na direção oposta, incentivando a seguir em frente, apesar dos pesares. Linda demais!

Technicolor Lover possui uma levada dançante deliciosa, e é a única na qual Alexander incorpora o espírito da banda do eu sozinho, tocando todos os instrumentos e fazendo todos os vocais também. Uma delícia.

E o rockão Jehovah Made This Whole Joint For You então? O cara nos mostra como fazer uma canção de melodia e harmonia caprichadas sem perder a energia roqueira. Power pop total!

A delicadeza pop de Crying Like a Church On Monday e o embalo da ótima faixa título (cuja gravação de bateria foi sampleada da canção All of a Sudden, do grupo britânico XTC) são outros destaques. Mas, repito, o álbum todo é bom.

Colaborações de músicos do primeiro time

Se Gregg Alexander se incumbiu da produção e tocou guitarra, também soube trazer para o seu lado músicos realmente capazes de concretizar a sonoridade que ele imaginou. Em Mother We Just Can’t Get Enough, por exemplo, temos no piano ninguém menos do que Greg Phillinganes,cria de Quincy Jones que tocou e gravou com Michael Jackson, Eric Clapton e toda a sala vip do pop.

O guitarrista em nove das 12 faixas é o brilhante Rusty Anderson, que em 2001 tornou-se integrante fixo da banda de Paul McCartney, tocando com ele desde então em gravações de álbuns e DVDs e nas turnês. Um grande músico, que também tem no currículo gravações e shows com Elton John, Willie Nelson, Michael Bublé, Santana e Ricky Martin. Por sinal, é dele aquele riff de guitarra a la surf music que marca o megahit Livin’ La Vida Loca, do astro de Porto Rico.

Rick Nowels não poderia ficar de fora, e ele marca presença tocando piano em You Get What You Give (da qual ele é o coautor) e I Hope I Didn’t Just Give Away The Ending. Para quem não sabe, Nowels é outro com forte pedigree musical, um produtor, multi-instrumentista e compositor com belíssimos serviços prestados a Marty Balin, Stevie Nicks, Belinda Carlisle., Céline Dion, Madonna, NSync, Rod Stewart, Dua Lipa e Lana Del Rey.

Enquanto isso, Danielle Brisebois marca presença em cinco faixas nos vocais de apoio e em uma ao piano. Com dois discos-solo no currículo, a moça é coautora de Someday We’ll Know ao lado de Alexander e de Debra Holland. Esta última ficou conhecida como cantora do grupo Animal Logic, que quando ainda se chamava Rush Hour tocou no Brasil em 1987 e tinha como integrantes os mestres Stewart Copeland (The Police) e Stanley Clarke. Rusty chegou a tocar com a banda, e pode ser essa a conexão entre Debra e os New Radicals.

Um disco viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido?

A novela global Roque Santeiro tinha como um de seus personagens principais a viúva Porcina, sempre lembrada pela frase “a que foi, sem nunca ter sido”, pelo fato de, depois de muitos anos, ela ter descoberto que o marido não havia de fato morrido. Aproveitando o tema, dá para se dizer que o único álbum dos New Radicals é uma espécie de Porcina do rock, o trabalho que foi um campeão de vendas, sem na verdade ter sido?

Bem, afirmar que Maybe You’ve Been Brainwashed Too foi um completo fracasso é no mínimo um exagero. O álbum atingiu o 10º lugar na parada britânica, e vendeu por lá mais de 100 mil cópias, o que lhe valeu um disco de ouro. Nos EUA, sua posição mais alta foi a de nº 41, atingida em fevereiro de 1999, e ultrapassou a marca de um milhão de cópias comercializadas, proporcionando um disco de platina pelos padrões numéricos então em vigor.

Logo, o resultado não pode ser qualificado como ruim, e o CD também atingiu bons números no resto do mundo. O problema é que este álbum tinha potencial para ter emplacado pelo menos mais uns quatro singles de sucesso, se manter por pelo menos uns dois anos nas paradas e vender ao menos o dobro. Por que isso não ocorreu? São várias as explicações.

A primeira, e mais óbvia, fica por conta do fim da banda antes da gravação do clipe de Someday We’ll Know. O álbum e suas faixas ficaram órfãos, deixados de lado por seu criador, e atropelados pela concorrência voraz.

Mas existe um outro aspecto que ninguém abordou até hoje. A MCA, gravadora que lançou o único álbum da banda de Gregg Alexander, passava por um momento muito confuso, em meio a negociações que exatamente naquela época a tornaram parte do acervo do conglomerado da Universal Music. Ou seja, era uma empresa que vivia momentos de incerteza e de troca de direção.

Uma das coisas mais habituais em gravadoras consiste em um artista ser contratado por um determinado executivo e, na hora de lançar seu trabalho, passar a ser comandado por outro. E, infelizmente também de forma constante, esses novos dirigentes costumam deixar de lados projetos iniciados por seus antecessores, para não “dar moral” a eles. O New Radicals pode ter sido vítima desse processo. A natureza humana é mesmo um horror.

Seja como for, para os anais da história, a banda de Alexander entrou para o hall das one hit wonders (maravilhas de um sucesso só, em tradução livre), artistas que só tiveram um único sucesso em suas carreiras. No caso deles, You Get What You Give. Correto em termos numéricos, mas não em termos qualitativos.

A vida pós-New Radicals de Gregg Alexander

Após o fim do New Radicals, Gregg Alexander cumpriu o que prometeu, dedicando-se inteiramente a trabalhar como produtor e compositor para outros artistas. Em 2001, por exemplo, teve sua canção I Can’t Deny It gravada por Rod Stewart no álbum Human.

Pouco depois,em 2002, deu-se super bem ao ter sua deliciosa e dançante música The Game Of Love gravada por Carlos Santana em parceria com a cantora Michelle Branch,hit certeiro que atingiu o 5º posto na parada americana. Em 2007, Santana lançou em uma coletânea uma outra gravação desta mesma canção, desta vez em dueto com Tina Turner.

Alexander teve músicas gravadas e trabalhou com outros artistas de peso, entre os quais Boyzone, Ronan Keating, Sophie Ellis-Bextor, Texas e Geri Halliwell (das Spice Girls). No cenário rock, é o coautor da música The Only Ones, lançada este ano pelo grupo britânico Kaiser Chiefs, e teve duas músicas gravadas pelos também britânicos The Struts em 2014, no CD Everybody Wants.

O momento mais nobre ocorreu em 2013, com a trilha sonora do filme Begin Again, estrelado por Keira Knightley e Mark Ruffalo, que traz 14 faixas compostas por ele. Uma delas, Lost Stars, gravada por Adam Levine (vocalista do Maroon 5), concorreu ao Oscar de melhor canção original.

Em novembro de 2014, ele pela primeira vez em 15 anos se apresentou ao vivo, interpretando Lost Stars ao lado da amiga Danielle Brisebois. E fica a torcida para um retorno de Gregg, com o nome New Radicals ou não. Enquanto isso, ouçamos Maybe You’ve Been Brainwashed Too novamente.

Ouça Maybe You’ve Been Brainwashed Too na íntegra:

De The Motor Song até Rise, uma viagem funk com Randy Badazz

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Por Fabian Chacur

Há alguns anos, uma querida amiga minha, a Camila Proença, pediu minha ajuda para descobrir o nome e quem interpretava uma determinada música. Foi um pouco difícil, mas consegui atendê-la, e recebi como agradecimento ser definido como um “C.S.I. da música”, definição ao mesmo tempo divertida e com um certo sentido. Não sou nem de perto o melhor nessa tarefa de descobrir nomes de músicas e algo sobre seus intérpretes, mas é algo que me diverte, e muito.

Uma boa história para ilustrar essa minha vocação de “Gil Grissom da música” remete ao ano de 1983. Na programação da antiga emissora de FM Jovem Pan 2, rolava um funk raiz dos bons, apresentado como The Motor Song, sendo que o nome do intérprete sempre era dito de forma ininteligível. Era uma das músicas favoritas tanto minhas como do meu irmão Victor. Como sempre fui um ávido consumidor de discos, corri atrás de mais informações sobre essa faixa.

Dei uma geral em várias lojas procurando, mas nenhuma me passava qualquer informação. Depois de muito esforço, consegui algo em uma loja especializada em black music. “Sim, conheço, mas não tenho por aqui, só saiu importado, é de um grupo de new wave”, falou o vendedor. Pedi para ele me escrever o nome do tal grupo, e ele me escreveu algo como The Rand Heend, ou coisa que o valha.

Sem maiores progressos, passei anos correndo atrás da tal música. Quando trabalhei no extinto jornal Diario Popular (de 1988 a 1995), como crítico musical e repórter especializado em música, fiz muita amizade com os nossos office boys, todos fãs de música. Um deles em especial, o Rietson, era fissurado em black music, e sempre trocávamos belas figurinhas sobre o tema.

Um dia, lá por 1993, lembrei-me de The Motor Song e perguntei se ele conhecia alguma música funk com esse título. Rietson procurou um amigo fera nessa praia, e o cara não só conhecia, como também me indicou onde eu poderia comprar um disco com a mesma. Tratava-se de uma coletânea em vinil intitulada Fina Nostalgia (1993), com uma capa como se fosse de um compacto simples, com furo no meio, sem foto, sem nada. Piratíssima, montada aqui no Brasil mesmo.

A compilação, vendida a preço mais caro do que o de um LP comum, trazia oito raridades de bailes black, entre elas a minha amada The Motor Song. Foi o próprio Rietson que a comprou para mim, e lá, o nome do grupo era não The Rand Heend, mas Randy Andy. Como essas coletâneas “Capitão Gancho” volta e meia traziam os nomes de músicas e artistas com erros, pensei que fosse o caso. Mas o legal era ter, enfim, esse petardo funk em disco, para tocar quando quisesse.

Na época, já estava casado. Meu irmão também, mas ele morava na casa dos meus pais com sua esposa. Todo feliz, liguei para ele e informei sobre minha aquisição, e olhem só a surpresa: “cara, que coincidência, eu também comprei uma coletânea em uma loja aqui na Vila Mariana (bairro em que ele morava e no qual fui criado) com essa música, só que em CD!” Nem é preciso dizer que também fui àquela loja e comprei um exemplar para mim.

Outra compilação brazuca piratíssima, intitulada Old School Funk- The Best- Vol.1, com 12 petardos, incluindo The Motor Song, novamente creditada a Randy Andy. Na maior cara de pau, o CD era creditado a uma suposta New York Records, com Made in U.S.A. na contracapa e tudo. As músicas foram evidentemente extraídas de vinis, com uns estalinhos aqui e ali, mas com qualidade de som mais do que satisfatória. Encerrado o jogo, então? Até parece…

Mas quem ou o que era o tal de Randy Andy?

O disco, eu já tinha, mas isso não me bastava. Precisava saber o que ou quem era Randy Andy. E mais anos e anos vieram sem que qualquer nova pista surgisse. Só que, a partir do ano 2000, com o crescimento da internet, as perspectivas de encontrar informações sobre tudo cresceram de forma exponencial. Pelo menos, era o que parecia. Mas não foi tão fácil…

Durante um bom tempo, digitava no google e no youtube com esperanças de saber mais sobre The Motor Song e Randy Andy. E foi um longo período tendo como resposta aquele trecho de Você Não Soube Me Amar, da Blitz, o famoso “nada, nada, nada!”. Mas quem é que disse que um C.S.I. da música desiste?

Nesta década, enfim The Motor Song apareceu no youtube, inicialmente sem quaisquer dicas sobre seus intérpretes. Até que um dia, enfim uma pista. Randy Andy (assim, mesmo, o nome registrado nos discos piratas era o correto) era na verdade uma dupla formada por Randy Badazz e Andy Armer. O primeiro nome não me era estranho, e resolvi pesquisar especificamente sobre ele. E aí veio uma grande surpresa, que me permitiu desvendar todo o mistério.

Um parente famoso e um hit mundial que todos conhecem

Sabem de onde eu me lembrava de ter visto esse nome, Randy Badazz? Foi em um disco de Herb Alpert. Sim, o grande saxofonista, líder da banda Tijuana Brass, que vendeu milhões de discos na década de 1960, e também o fundador em 1962, ao lado do sócio Jerry Moss, da gravadora A&M Records, que lançou não só os discos dele e do seu grupo como também os artistas do altíssimo calibre de Sérgio Mendes, Carpenters, The Police, Joe Cocker, Peter Frampton, Supertramp, Carole King e dezenas de outros.

Esse disco era o álbum Rise, lançado em 1979 e cuja faixa-título chegou ao primeiro lugar na parada americana, um hit instrumental com swing funk simplesmente espetacular. Badazz era creditado como coprodutor do álbum e também autor de duas faixas, a própria Rise e Rotation, ambas escritas e parceria com aquele tal de Andy Armer.

A maior surpresa era que o real sobrenome de Randy era, na verdade….Alpert! Sim, meus amigos, ele é sobrinho de Herb! E não pensem que sua ligação com o trabalho do titio famoso rolou de forma simples e rápida. Foram alguns anos até que os dois fizessem algo juntos, até pelo fato de que Randy queria provar que era capaz de vencer por sua própria conta. Senta, que lá vem história!

A trajetória de Randy Badazz Alpert

Randy Alpert nasceu nos EUA em 1955. Aos 11 anos de idade, fascinado por música, não só aprendia a tocar como também trabalhava no estoque da gravadora A&M, do tio Herb, embalando discos. No entanto, ele não queria se valer do sobrenome famoso do seu tio para a carreira musical, para não ser acusado de oportunista ou aproveitador.

Nos tempos de colégio, ele recebeu o apelido de bad ass (algo como “o fodão”, em tradução livre) dos amigos por sempre se safar dos problemas, e adaptou para Badazz como sobrenome artístico, deixando o Alpert para lá. Ainda adolescente, ficou amigo de Andy Armer, com o qual criou uma sólida parceria musical. Seu primeiro trabalho mais sério foi gravar fitas demo para a banda de soul-funk Con Funk Shun, conhecida por hits como Got To Be Enough.

Como essas demos eram muito boas, o diretor artístico (A&R) da A&M, Chip Cohen, sugeriu a Andy que fizesse novas versões de sucessos da banda de Herb Alpert, a Tijuana Brass, desta vez em ritmo de disco music, a febre daquele momento. O tio gostou da ideia, mas logo na primeira tentativa, com a música The Lonely Bull, ele percebeu que aquilo não levaria a nada.

No entanto, havia muito tempo de estúdio reservado para a tarefa, e Alpert sugeriu ao sobrinho e ao parceiro Andy Armer que lhe mostrassem alguma composição deles. Eles tinham uma em mãos, inicialmente em 125 rotações por minuto, mas perceberam que poderia ficar melhor em uma levada mais lenta, até chegarem a 100 bpm, ainda funk e swingada, mas bem mais sensual.

Herb Alpert não só amou como logo criou suas passagens de trumpete. Ao ouvir o resultado final, previu que aquela faixa, Rise, era um hit em potencial. E estava certo, pois esse petardo atingiu o primeiro posto na parada americana em outubro de 1979, permanecendo nesse posto por duas semanas e invadindo as paradas de sucesso de todo o mundo.

Enfim o tal de Randy Andy!

Em 1983, Armer e Badazz resolveram tentar a sorte como artistas, e criaram uma dupla, que batizaram de, adivinhe? Randy Andy. Naquele mesmo ano, lançaram um álbum pela A&M, autointitulado. A primeira música a ser divulgada foi a tecnopop The People (Livin’ in the USA), uma sátira ao modo acelerado de vida dos americanos com direito a um videoclipe bem divertido que chegou a entrar na programação da MTV em horários alternativos.

A outra faixa de destaque foi o incrível funk The Motor Song, que pegou no breu principalmente nos clubes de dance e black music dos EUA, Europa e Brasil. Como a agenda de Armer e Badazz era muito apertada, eles não tiveram como se dedicar com mais afinco à divulgação de seu álbum, e nem mesmo shows fizeram, o que certamente explica o porque de sua repercussão ter sido abaixo do que merecia. E o duo ficou por aí, mesmo, com os amigos seguindo outros caminhos.

Andy Armer trabalhou posteriormente com Roberta Flack, Lenny Kravitz e Carl Wilson (dos Beach Boys), e se deu bem com a sonorização de games para empresas como Sega, Sony, Atary e Microsoft, entre outras.

Por sua vez, Randy Badazz lançou músicas solo como Captain Badazz e montou um estúdio, o Scream Studios, usado por nomes como Nirvana, U2, Madonna e muitos outros. Em torno de 43 de hits que atingiram o topo da parada americana foram gravados ou mixados no Scream.

Rise teve um de seus trechos sampleado pelo rapper Notorious B.I.G. em seu megahit Hypnotize, que chegou ao primeiro lugar da parada americana em 1997, e foi regravada pelo brasileiro Leo Gandelman em 1999 no álbum Brazilian Soul.

Esta longa história teve suas informações pesquisadas em pequenas e inúmeras fontes, incluindo a minha memória, gerando um verdadeiro quebra-cabeças que finalmente acabo de montar. Vale citar a entrevista concedida por Badazz ao jornalista Andrew Unterberger para a Billboard americana em 3 de janeiro de 2017. E aí, fãs de Gil Grissom e de música, valeu esse trabalho todo?

obs.: a foto que ilustra este post traz Randy Badazz e Herb Alpert, da esquerda para a direita.

Ouça The Motor Song aqui .

Ouça Rise aqui :

Eis a relação de músicas do álbum Randy Andy (1983):

A1
The Motor Song (Stick in Your Dipstick) 5:26
A2
It’s Always You 5:17
A3
The Oddball 4:09
A4
The Girl is Driving Me Crazy 5:10
B1
The People in the U.S.A. (Poor Man – Rich Man Suite) 7:25
B2
Fallout 1:01
B3
It’s Such a Funny business 3:54
B4
Teacher, Teacher 5:59
B5
The Optimist 0:31

Veja o clipe de The People (Livin’ In The USA):

Dave Bartholomew, parceiro de Fats Domino e pioneiro do rock

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Por Fabian Chacur

Como todo estilo musical que se preze, o rock and roll teve vários pais, e não surgiu da noite para o dia. Quando o single Rock Around The Clock, de Bill Haley And His Comets, atingiu o primeiro lugar na parada americana em julho de 1955, fato considerado o marco zero do início do rock and roll, muita água já havia passado por baixo da ponte musical. E um dos caras que ajudou muito na criação desse estilo musical tão amplo e de que tanto gostamos nos deixou neste domingo (23), aos 100 anos de idade. Trata-se do compositor, músico, arranjador, bandleader e produtor americano Dave Bartholomew, que nos deixou um belo legado repleto de grandes canções e gravações inesquecíveis.

Dave Bartholomeu nasceu no dia 24 de dezembro de 1918 em Edgar, Louisiana, e se mudou para New Orleans em 1933. Por lá, iniciou o seu envolvimento com a música, dedicando-se ao trompete. Ele integrou várias bandas de jazz, e, ao servir o exército em plena Segunda Guerra Mundial, uniu o útil ao agradável ao integrar uma banda militar. Com o fim do conflito, voltou à vida civil em 1945 e criou sua própria banda, Dave Bartholomew And The Dew Droppers.

Com ouvido apurado e muito talento, Bartholomew viveu a transição do jazz das big bands que se misturava ao blues e ao emergente rhythm and blues, gerando dessa forma uma nova sonoridade, dançante e energética.

Em 1949, ele foi convidado a ser o A&R (diretor artístico) da gravadora Imperial Records, e foi por lá que iniciou a parceria que o eternizou no panteão do rock com um então jovem e promissor cantor, compositor e pianista, um certo Fats Domino (1928-2017, leia mais sobre ele aqui). Juntos, compuseram The Fat Man, lançada naquele mesmo ano e considerada uma das primeiras canções a ter as características do que depois seria rotulado como rock and roll.

Durante a década de 1950 e início dos anos 1960, a parceria com Domino, cujos discos ele também se incumbiu de produzir, gerou inúmeros clássicos do início do rock, como Ain’t That a Shame (1955), Blue Monday (1954), I’m In Love Again (1956), I’m Walkin’ (1957), I’m Gonna Be a Wheel Someday (1957) e Whole Lotta Loving (1958), só para citar alguns deles.

O estilo swingado e a voz doce de Domino, aliadas aos arranjos e à produção impecável criadas pelo talentoso parceiro Bartholomew, deram a esses discos seu tom de marcos não só do rock, como da boa música como um todo.

As composições da dupla também fizeram sucesso nas regravações de grandes nomes da música. Paul McCartney, por exemplo, que homenageou Domino com Lady Madonna, releu com transparente prazer Ain’t That a Shame (que John Lennon também gravou) e I’m Gonna Be a Wheel Someday. Pat Boone chegou ao número 1 da parada americana com a mesma Ain’t That a Shame.

Sozinho ou com outros parceiros, Bartholomew escreveu outros hits bem bacanas. One Night e Witchcraft, por exemplo, entraram nas paradas de sucesso na voz de ninguém menos do que Elvis Presley. E My Ding-a-Ling, que o próprio Bartholomew gravou em 1952, atingiu o topo da parada americana em 1972 na regravação sacana e irreverente de Chuck Berry.

A partir do final dos anos 1960, Dave Bartholomew deixou as gravadoras e passou a investir em sua banda de jazz no estilo dixieland, com a qual fez vários shows e lançou alguns discos. Ele foi incluído no Rock And Roll Hall Of Fame em 1991. Mais de 12 de suas canções atingiram o Top 10 da parada americana.

A ideia dele era celebrar seus 100 anos de idade com um show em New Orleans no fim de 2018, mas seus planos não se concretizaram devido a uma internação hospitalar, prenúncio de que, infelizmente, seu fim estava próximo. Seu pioneirismo e suas ótimas canções ficam como um dos mais expressivos legados da criação desse tal de rock and roll.

Ain’t That a Shame– Fats Domino:

The Waterboys de Mike Scott lançam single; álbum a caminho

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Por Fabian Chacur

Além de bandas que lotaram estádios pelo mundo afora, como U2, R.E.M. e Bon Jovi, a década de 1980 também foi pródiga em revelar grupos que, se não tiveram tanto êxito comercial, cativaram corações suficientes para mantê-los relevantes. Este é o caso do The Waterboys, um time rocker escocês daquela safra que anuncia para o dia 24 de maio o lançamento de seu 12º álbum de estúdio. Trata-se de Where The Action is, estréia deles no badalado selo indie britânico Cooking Vinyl. Para ir saciando a sede de seus fãs, programaram o lançamento de dois singles, ambos ótimos.

O primeiro, Right Side Of Heartbreak (Wrong Side Of Love) (ouça aqui), possui uma levada dançante com ecos de Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones. O outro, recém-lançado, é Where The Action Is, a faixa-título do novo trabalho e um rock bem bacana com tempero soul (especialmente nos vocais de apoio de Jess e Zeenie) e solos rapidinhos de guitarra a la hard-heavy metal.

Criado em Edimburgo, Escócia, em 1983, The Waterboys é na verdade uma banda com dono. No caso, o cantor, compositor e músico Mike Scott. Não por acaso, o grupo já teve, em seus 36 anos de existência, a participação de mais de setenta músicos, entre colaborações em shows e gravações de seus discos.

Alguns deles marcaram época, como o cantor, compositor e tecladista Karl Walinger, que ficou de 1983 a 1986, saindo depois para montar outra banda alternativa bacana (World Party), Anthony Thistlethwaite (sax e mandolim) e Steve Wickham (mandolim e violino elétrico).

Com um som que mistura de forma impactante rock, folk britânico, soul e pop, o grupo ficou marcado por singles poderosos como The Whole Of The Moon, Don’t Bang The Drum, Medicine Ball e Fisherman’s Blues, e álbuns ótimos do calibre de This Is The Sea (1985), Fisherman’s Blues (1988) e Room To Roam (1990). O grupo saiu de cena em 1993, após o lançamento de Dream Harder.

Após um período durante o qual lançou dois discos solo, Mike Scott resolveu reativar a marca The Waterboys, e o marco desse retorno é o álbum A Rock In The Weary Land (2000). Desde então, o time se mantém ativo, lançando novos trabalhos com certa regularidade e fazendo shows.

O fiel escudeiro de Scott e segundo mais antigo integrante do grupo é Steve Wickham, que saiu em 1990, voltou em 2001 e permanece firme e forte desde então. Where The Action Is será disponibilizado no exterior nos formatos CD simples, CD duplo, LP de vinil, download digital e nas plataformas digitais.

Eis as faixas de Where The Action Is:

CD 1- normal(standard)

1. Where The Action Is
2. London Mick
3. Out Of All This Blue
4. Right Side Of Heartbreak (Wrong Side Of Love)
5. In My Time On Earth
6. Ladbroke Grove Symphony
7. Take Me There I Will Follow You
8. And There’s Love
9. Then She Made The Lasses-O
10. Piper At The Gates Of Dawn

CD 2 – Where The Action Is… Mashed

1. Where The Action Is (Mash)
2. London Mick (Jess’n’Zeenie Mix)
3. Out Of All This Blue (Soul Choir)
4. Right Side Of Heartbreak (Box & Vox)
5. In My Time On Earth (Scott & Wickham Mix)
6. Ladbroke Grove Coda
7. I Will Follow You Take Me There
8. And There’s Love (Mashtrumental)
9. Then She Made The Lasses (Mash)
10. Where The Action Is (Reprise)
11. Piper At The Gates of Dawn (Instrumental)

Where The Action Is (clipe)- The Waterboys:

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