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Zuza Homem de Mello mostra a sua visão musical em ótimo filme

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Por Fabian Chacur

O radialista, jornalista, produtor musical e músico paulistano Zuza Homem de Mello é há mais de 50 anos uma das grandes referências no Brasil e no mundo quanto o assunto é música. Especialmente se estiver em questão a música brasileira mais sofisticada e o jazz, incluindo nesse pacote a ala mais consistente da chamada MPB, bossa nova e música instrumental. Mais do que um documentário sobre sua vida e obra, Zuza Homem de Jazz, dirigido por Janaina Dalri, é um rico e delicioso mergulho nesse universo cultural.

Esse filme será exibido no Canal Curta! nesta quarta (25) às 9h, sábado (28) às 22h10, domingo (29) às 12h40 e no dia 23 de dezembro (segunda) às 22h25.

O filme foge do formato mais convencional de se apresentar a trajetória de um personagem, não se detendo excessivamente em torno de datas e fatos ou cronologia. Um elemento permeia diversos momentos da atração, que é a ligação entre o jazz americano e música brasileira, especialmente a bossa nova.

Temos entrevistas com músicos como Bob Doroug, Egberto Gismonti, Wynton Marsalis, André Mehmari e Nelson Ayres e também com produtores de eventos como Roberto Muylaert e Monique Gardenberg.

Nessas entrevistas, os pontos de vida que nortearam e ainda norteiam a vida profissional de Zuza ficam claros: a busca pelo prazer naquilo que faz, o detalhismo, os olhos e ouvidos sempre atentos e em busca de novos conhecimentos e a capacidade de fazer boas amizades e partilhar com as pessoas essas descobertas, especialmente com seus leitores e ouvintes.

Além das deliciosas entrevistas feitas especialmente para esta ocasião, temos também importantes cenas de arquivo de shows no Brasil e no exterior, incluindo algumas dos pioneiros festivais de jazz de São Paulo do final dos anos 1970, nos quais Zuza teve participação destacada. A produção também foi a Nova York, onde o radialista teve aulas de música e frequentou importantes casas de shows, nas quais viu nomes do calibre de Miles Davis, John Coltrane e tantos outros.

Aos 86 anos, Zuza continua na ativa, e temos alguns flagras bem bacanas dele apresentando seu atual programa na rádio USP. Logo no início do filme, ele aparece dando uma caminhada em um parque, e aqueles mais atentos perceberão que ele está usando um moleton com o logo do Free Jazz Festival, um dos eventos históricos nos quais esteve envolvido nesses anos todos.

O momento mais emocionante do filme aparece em sua parte final, quando Zuza reencontra um ilustre amigo, o cantor, compositor e pianista de jazz Bob Dorough, com quem compartilha lembranças proporcionadas por fotos trazidas pelo brasileiro. O triste fica por conta de o americano ter falecido antes da finalização do documentário, sendo este, portanto, um de seus últimos registros, com ele interpretando a música Stairway To The Stars.

Zuza Homem de Jazz proporciona ao espectador belas lições de como se apreciar a música e de quebra a vida, além de valorizar bastante a amizade e a cordialidade entre as pessoas. Em tempos tão ácidos como os que vivemos atualmente, trata-se de uma lição de como construir uma trajetória belíssima de vida e trabalho forma classuda e consistente.

Veja o trailer de Zuza Homem de Jazz:

Sunrunner estreia um vocalista brasileiro com heavy elaborado

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Por Fabian Chacur

Oriundo da cidade de Portland, situada no estado americano do Maine, a banda Sunrunner resolveu partir para uma nova experiência. Eles decidiram incorporar ao time um vocalista oriundo do Brasil. Ex-integrante das bandas brasileiras Noerya e Kromun e da Desant, da Romênia, ele conheceu os caras há uns três anos, e foi incorporado ao novo time em 2018. O álbum Ancient Arts Of Survival marca o início discográfico dessa parceria, e merece aprovação plena.

Criada em 2008, a Sunrunner traz em suas fileiras Joe Martignetti (guitarra), David Joy (baixo) e Ted MacInnes (bateria). Em sua discografia, figuram os álbuns Eyes Of The Master (2011), Time In Stone (2013) e Heliodromus (2015), tendo este último sido lançado pelo selo italiano Minotauro Records.

O som da banda americana equivale a um hard rock com influências progressivas, próximo do que se convencionou chamar de prog metal, mas sem cair no tecnicismo excessivo de algumas bandas do gênero. Eles trazem influências de folk, heavy, hard e progressivo, com direito a belas passagens instrumentais com solos de guitarra fluentes e não exibicionistas, daqueles nos quais as notas ficam espaçadas e bem encaixadas nas melodias bacanas.

A voz de Bruno Neves coube muito bem na proposta sonora do grupo, com potência suficiente para encarar os riffs pesados e as mudanças de andamento existentes. Ecos de Iron Maiden, Jethro Tull, Metallica e Uriah Heep podem ser percebidos aqui e ali, mas apenas como referências, sem soar como mera cópia ou coisa do gênero. O entrosamento entre eles se mostra impecável, assim como os timbres que escolheram para os instrumentos.

São nove faixas bem trabalhadas, entre as quais se destacam Stalking Wolf, Arrive Survive Awaken Thrive , The Scount e Distorted Reflection. Destaque para a bela capa, que ilustra muito bem o título desse álbum tão interessante (ancestrais artes da sobrevivência, em tradução livre).

Ouça Ancient Arts Of Survival em streaming:

The Doobie Brothers releem dois grandes álbuns com muita classe

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Por Fabian Chacur

Em junho deste ano, celebrei por aqui o anúncio do lançamento de Live From The Beacon Theater, álbum duplo lançado pela Warner Music no Brasil nos formatos digitais e físico (CD duplo). Você pode ler todos os detalhes em termos de informação aqui. Agora, após ter tido a oportunidade de ouvir esse trabalho de forma muito atenta, chegou a hora de uma análise geral sobre esse lançamento histórico de uma das grandes bandas do rock americano.

Comecemos pela formação que se incumbiu da gravação deste trabalho, registro de shows realizados nos dias 15 e 16 de novembro de 2018 no Beacon Theater, em Nova York. Hoje, os Doobie Brothers são um trio, composto pelos fundadores Tom Johnston (guitarra e vocal) e Patrick Simmons (guitarra e vocal, o único que nunca saiu da banda) e mais John McFee (guitarra, pedal steel, dobro, violino, cello, harmônica, banjo e vocais, ufa!), que esteve no time entre 1979 e 1982 e retornou em 1993 para não sair mais.

Para darem suporte a eles, temos um timaço liderado pelo tecladista Bill Payne, considerado um dos grandes músicos no setor. Ele integrou nos anos 1970 e 1980 a badalada banda Little Feat, e também gravou com Bryan Adams, Stevie Nicks, Bob Seger, Pink Floyd, Toto, James Taylor e Bonnie Raitt. Aliás, Payne pilotou os teclados dos Doobies nos dois álbuns de estúdio reproduzidos ao vivo aqui, ou seja, ninguém mais qualificado para essa missão do que ele.

O elenco de músicos também traz Marc Russo (saxofone), Ed Toth (bateria), John Cowan (baixo e vocais) e Marc Quinones (percussão e vocais). Foram adicionados especialmente para os shows do Beacon Theater os músicos Roger Rosenberg (saxofone) e Michael Leonhart (trompete), que aliados a Marc Russo geraram um naipe de metais afiadíssimo.

Com dez músicos em cena, o grupo americano seguiu uma diretriz das mais interessantes: manteve a estrutura básica dos arranjos originais das canções, acrescentando algumas passagens de metais inéditas e abrindo espaços para solos e improvisos. Como a qualidade dos profissionais envolvidos é imensa, o resultado se mostra delicioso, tendo tudo para satisfazer tanto os fãs mais fieis como aqueles que ainda não conheciam essas canções.

Ao contrário de algumas bandas contemporâneas deles, os Doobie Brothers sempre tiveram a capacidade de criar não só singles matadores, como Listen To The Music, Rockin’ Down The Highway, China Grove e Long Train Runnin’, mas também de gravar álbuns consistentes e nos quais você não consegue encontrar uma única faixa fraca daquelas feitas apenas para “encher linguiça”.

Dessa forma, a missão de tocar Toulouse Street (1972) e The Captain And Me (1973) mostra-se das mais deliciosas, pois além de muito boas, as músicas também formam uma amostra preciosa da amplitude da sonoridade desta banda seminal.Se os singles citados trazem como marca a energia roqueira e os riffs de guitarra (com um toque latino em Long Train Runnin’), outras facetas surgem nas faixas que fazem companhia a elas.

O blues, por exemplo, marca presença em Don’t Start Me To Talkin’ e Dark Eyed Cajun Woman. O folk com tons saudosistas e emocionais surge em Toulouse Street e Clear As The Driven Snow. O hard rock pesadão surge em Disciple, Evil Woman e Without You, a levada shuffle marca a deliciosa Ukiah, a leveza mais pop em Natural Thing e o folk progressivo na intensa The Captain And Me.

Das 23 músicas apresentadas, 11 são de Tom Johnston, 6 de Patrick Simmons, uma é assinada por cinco integrantes da banda na época (Without You) e cinco são covers, como o rock gospel Jesus Is Just Alright (de Arthur Reynolds e gravada em 1969 pelos Byrds), Don’t Start Me To Talkin’ (do bluesman Sonny Boy Williamson) e Cotton Mouth (composição da dupla Seals & Crofts, conhecida pelos hits Summer Breese e Diamond Girl)

Se o entrosamento da banda conta muito para esse resultado brilhante, os pontos altos ficam por conta de seus protagonistas. Com 70 anos de idade completados em 2018, Tom Johnston impressiona por sua vitalidade. Seu vozeirão continua intacto, assim como seus riffs e solos de guitarra e uma presença de palco confiante e cativante. A delicadeza do dedilhado na guitarra e violão de Patrick Simmons, assim como sua voz mais suave, também estão intactos, assim como a versatilidade de John McFee.

Após tocar os dois álbuns na íntegra, os Doobies nos oferecem um bis com três músicas: Take Me In Your Arms (Rock Me), cover da Motown que eles emplacaram nas paradas de sucesso em 1975, e a envolvente canção folk-country Black Water, que atingiu o primeiro lugar na parada de singles americana naquele mesmo 1975. Para finalizar a festa, tocaram novamente Listen To The Music, para levar a plateia à loucura.

Os Doobie Brothers nunca tocaram no Brasil, em seus quase 50 anos de estrada. Com o vigor e a qualidade que permanecem firmes em sua fase atual, certamente atrairiam um público bacana se enfim nos visitassem. Fica a dica.

Rockin’ Down The Highway (live)- The Doobie Brothers:

Pseudo Banda lança EP É Agora com show gratuito em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Três atores se encontraram em 2015 em uma montagem teatral da qual participavam. Em um intervalo, de forma descontraída, compuseram uma canção. Eles até podiam não saber, mas naquele momento havia sido plantada a sementinha que germinou a Pseudo Banda, grupo musical que está lançando no formato digital o seu primeiro EP, o excelente É Agora. O lançamento em São Paulo será nesta sexta (20) às 23h com um show gratuito no Imburanas Bar (rua Cardeal Arcoverde, nº 2.929- Pinheiros- fone 0xx11-98693-7055).

A Pseudo Banda traz em sua formação Bea Pereira (oriunda de Santos-SP), Julia Rosa (paulistana) e Vinícius Árabe (natural de Uberaba-MG). No EP, foram acompanhados pelos excelentes músicos Thales Sala (guitarra), André Gabbay (baixo e percussão), Derek Kindermann (bateria) e Paulo Gianini (teclados e ukulele), com o violão ficando a cargo de Vinícius Árabe.

O som autoral concebido pelo trio mergulha de cabeça em referências como Tropicalismo, Secos & Molhados, Novos Baianos, Mutantes, pop-rock em geral e até uma pitadinha da verve teatral da Blitz. Suas vocalizações são incisivas, e suas canções investem com inteligência e jogo de cintura em temas como o amor, a positividade, as dificuldades do cotidiano e mesmo a política.

Na faixa É Agora, conseguem a façanha de nos oferecer uma letra altamente militante sem cair no panfletarismo barato, com direito a uma frase no mínimo impactante: “quanto tempo vai perder odiando aquele que é igual a você?”.

Não Me Importo vai nessa mesma linha, com direito a citação do poema Intertexto, do dramaturgo alemão Bertold Brecht e uma bela abordagem da indiferença das pessoas ao horror do dia-a-dia, até que esse horror as atinge em cheio.

Sobre Fracassos, Fiascos e Fossas encara com bom-humor os problemas que nos afligem a cada minuto. Sussurros fala sobre relações amorosas não necessariamente delineadas de forma convencional. Ouvidos Ao Mistério (veja o clipe aqui) aborda de forma irônica e até sarcástica o uso que se faz do ocultimos e quetais, enquanto Todo Mundo Chora é aquela balada certeira que nos cativa.

As vocalizações de Bea, Julia e Vinícius são muito bem concatenadas, ora em harmonizações afiadas, ora em cortantes participações individuais, com um senso teatral que valoriza e muito o texto que expressam.

Em um mundo perfeito, você já teria visto os clipes e estaria ouvindo o EP a mil por hora. Mas, mesmo nesse planeta maluco que habitamos, dá para fazer isso por sua própria conta. Faça uma opção que vai te acrescentar muito: veja os clipes e ouça É Agora….agora! E que venham o CD e o LP!

Sobre Fracassos, Fiascos e Fossas (clipe)- Pseudo Banda:

Bruno Gouveia relata com classe a trajetória do Biquini Cavadão

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Por Fabian Chacur

Em 1985, quando tinha apenas 19 anos, Bruno Gouveia se tornou conhecido nacionalmente como vocalista do Biquini Cavadão, graças ao estouro das músicas Tédio e No Mundo da Lua. Desde então, conseguiu consolidar uma carreira com vários altos e baixos em termos profissionais, mas sempre mantida com muita dignidade e qualidade artística. Essa belíssima trajetória profissional e pessoal é o mote de É Impossível Esquecer o Que Vivi (Chiado Publishers), belíssimo autobiografia na qual o artista nascido em Ituiutaba (MG) e radicado há muito no Rio de Janeiro dá uma geral no que realizou nesses anos todos, de forma franca e sem rodeios.

A trajetória de Bruno se mostra das mais interessantes pelo fato de ter se desenvolvido em um período de muitas mudanças na história da indústria fonográfica no Brasil. Seu grande mérito é relatar com riqueza de detalhes e muitas informações preciosas de bastidores como se deram essas alterações todas, desde o auge do rock brasileiro dos anos 1980 e dos discos de vinil até a atual fase do streaming, passando por CD, mp3, redes sociais, plataformas digitais, internet e muito, mas muito mais mesmo.

O artista se mostra um observador astuto de tudo o que vivenciou, e proporciona um grande volume de material que surpreenderá até mesmo seus contemporâneos de geração ou mesmo mais velhos do que ele, além de servir como um testemunho dos mais importantes para o pessoal que tenha de 30 anos para menos. Garanto que alguns ficarão não só estupefatos com algumas passagens como também possivelmente duvidarão de sua realidade. Como vivi esses anos todos, posso lhes afiançar: é tudo verdade…

Nome atrapalhou um pouco a trajetória do grupo

Devido a seu nome desencanado, batismo feito pelo amigo e incentivador Herbert Vianna, o grupo nem sempre mereceu o devido respeito por parte da crítica e de segmentos do público. Mas basta analisar de forma isenta sua obra para se verificar que o Biquini Cavadão faz parte daquele seleto grupo de bandas que se firmaram e permanecem ativas e relevantes graças ao talento e à perseverança de seus quatro integrantes: Bruno e os fiéis parceiros Carlos Coelho, Miguel Flores e Álvaro Birita.

E olha que Bruno e sua turma passaram por muitas e não tão boas nesses quase 35 anos de trajetória discográfica. As idas e vindas com as gravadoras trazem momentos dignos de tortura chinesa, daqueles de desanimar o mais otimista dos seres humanos. No entanto, os rapazes sempre souberam dar a volta por cima, mesmo em momentos absurdamente difíceis como o da demissão do único integrante da formação clássica que não permaneceu, o baixista Sheik.

Pra rir, chorar, se indignar…

Com um texto fluente e muito bom de se ler, Bruno ainda teve uma ideia das melhores: acrescentou em momentos importantes do livro depoimentos entre aspas de alguns dos envolvidos nas questões, proporcionando ao leitor uma visão mais abrangente de cada situação e permitindo-nos tirar conclusões mais precisas de cada situação. Apenas Sheik não aceitou dar depoimentos, mas ainda assim sua importância para a banda não é rejeitada ou posta de lado.

O gostoso de É Impossível Esquecer o Que Vivi é o fato de que lê-lo nos proporciona as mais diversas emoções. Rir das trapalhadas de Carlos Coelho, por exemplo, ou das histórias de estrada da banda. Indignação com algumas rasteiras que as gravadoras (suas diretorias em cada época, para ser mais preciso) deram neles, muitas vezes geradas por jogos de ego absolutamente odiosos. Alegria ao ver a banda superar grandes obstáculos.

E tem também a delicadeza com que Bruno nos revela o momento mais difícil de sua vida até o momento, que foi perder seu primeiro filho, Gabriel, que ainda nem havia completado três anos e se foi em um trágico acidente de helicóptero de repercussão nacional. Difícil não verter lágrimas ao tomar conhecimento dessa situação, e de ver como Coelho se portou para dar o devido apoio ao amigo nessa hora tão inesperada e tão terrível.

Franqueza e capacidade de adaptação

A honestidade com que Bruno analisa cada um dos trabalhos lançados pelo Biquini Cavadão também é de se tirar o chapéu, além da franqueza de admitir que, embora todos os integrantes do grupo assinem todas as suas composições, em alguns momentos ele não participou de praticamente nada. No entanto, o fato de, desde o início, eles terem tomado essa atitude, ajudou a banda a se manter unida e coesa mesmo em seus momentos mais difíceis.

Uma das razões pela qual o Biquini Cavadão se mantém até hoje foi ter tido sensibilidade suficiente para interpretar as mudanças de rumo da indústria fonográfica e se adaptar da melhor forma possível a elas, além de ter mergulhado de cabeça nas opções de divulgação e aproximação com os fãs proporcionadas pela internet, isso mesmo antes do surgimento das redes sociais, além de investirem na qualidade de seus shows, quentes e artisticamente atraentes.

Dicas para iniciantes e novidades tecnológicas

Recomendo com entusiasmo aos músicos iniciantes e que sonham em desenvolver uma carreira no mundo da música lerem atentamente os conselhos que Bruno dá, na parte final de seu livro. Todos pertinentes, ponderados e que equivalem a um bom norte a todos.

Como mostra dessa eterna busca por novidades, Bruno incluiu no livro vários QR Codes que proporcionam a quem tem smartfones a possibilidade de acessar uma infinidade de conteúdos extras, do tipo depoimentos em vídeo, clipes, versões alternativas de músicas etc, que também podem ser acessados aqui.

No geral, o mais legal é chegar à conclusão que, aos 52 anos de idade, Bruno Gouveia está mais ativo do que nunca, em trabalhos paralelos e também com sua banda, vide seus excelentes lançamentos mais recentes, os álbuns As Voltas Que o Mundo Dá (leia a resenha de Mondo Pop aqui) e Ilustre Guerreiro (saiba mais sobre ele aqui), ambos produzidos pelo lendário Liminha.

Ouça As Voltas Que o Mundo Dá, do Biquini Cavadão, em streaming:

Chrissie Hynde mostra seu lado jazz no álbum Valve Bone Woe

Chrissie Hynde 2-2-19 by Jill Furmanovsky

Chrissie Hynde 2-2-19 by Jill Furmanovsky

Por Fabian Chacur

Embora se assuma como uma roqueira de corpo e alma, Chrissie Hynde sempre teve um apreço pelo jazz, algo alimentado pela convivência com o irmão, o saxofonista Terry Hynde. Ao saber da morte do trombonista Bob Brookmeyer, a líder dos Pretenders mandou um e-mail ao mano, e recebeu como resposta “Valve Bone Woe”, espécie de poema hai kai beatnik feito por ele em homenagem ao músico. “Bom título para um álbum”, pensou a moçoila. E eis que surge, assim, Valve Bone Woe, seu segundo álbum solo, que a BMG (distribuída pela Warner Music) lança nesta sexta (6) no exterior nos formatos CD simples, álbum duplo de vinil e caixa com tiragem limitada incluindo as 14 faixas no formato compactos simples de vinil. No Brasil, por enquanto, só teremos a versão digital.

Acompanhada por um combo orquestral criado especialmente para essa gravação e com produção a cargo de Marius De Vries e Eldad Guetta, Chrissie esbanja suavidade e categoria em um repertório que traz canções extraídas dos universos do jazz, standards, pop e rock. A abordagem orquestral conta também com alguns elementos eletrônicos digitais no meio, bem sutis, mas passíveis de serem observados e curtidos pelo ouvinte mais atento.

Entre outros autores, estão presentes John Coltrane, Charles Trennet, Brian Wilson, Ray Davies, Charles Mingus, Hoagy Carmichael, Nick Drake e a dupla brasileira Tom Jobim e Vinícius de Moraes (Once I Loved, versão em inglês de Norman Gimbel para Amor em Paz).

Em entrevista incluída no press-release que divulga o trabalho, a cantora britânica explica a motivação do trabalho, inspirado em sua gravação ao lado de Frank Sinatra na faixa Luck Be a Lady, incluída no álbum do Ol’ Blue Eyes Duets II, de 1994: “Gosto de reler canções alheias, é a surpresa de gravar algo que eu nunca pensei em escrever que me impulsiona”.

Valve Bone Woe flui deliciosamente, e certamente surpreenderá muita gente com o arranjo eletro-orquestral de Caroline No (ouça aqui) e no clássico do jazz Meditation On a Pair Of Wire Cutter (ouça aqui), na qual a cantora se vale de vocalizes com muita categoria.

Chrissie Hynde completará 68 anos neste sábado (7), e na véspera dessa data nos oferece um presente deste porte. Tipo do trabalho que já nasce clássico, para ser ouvido por vezes e mais vezes nos anos que virão.

Eis as faixas de Valve Bone Woe:

1. How Glad I Am [Jimmy Williams, Larry Harrison]
2. Caroline, No [Tony Asher, Brian Wilson]
3. I’m a Fool to Want You [Frank Sinatra, Joel Herron, Jack Wolf]
4. I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes) [Hoagy Carmichael]
5. Meditation on a Pair of Wire Cutters [Charles Mingus]
6. Once I Loved [Norman Gimbel, Vinicius De Moraes, Antonio Jobim]
7. Wild Is the Wind [Ned Washington, Dimitri Tiomkin]
8. You Don’t Know What Love Is [Don Raye, Gene De Paul]
9. River Man [Nick Drake]
10. Absent Minded Me [Jule Styne, Bob Merrill]
11. Naima [John Coltrane]
12. Hello, Young Lovers [Richard Rogers, Oscar Hammerstein II]
13. No Return [Ray Davies]
14. Que Reste-T-il De Nos Amours [Charles Trenet]

I’m a Fool To Want You– Chrissie Hynde:

Zé Luiz Mazziotti mostra todo o seu requinte no álbum A Roma

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Por Fabian Chacur

Zé Luiz Mazziotti já possuía um belo currículo como cantor, compositor e músico em 1992, quando resolveu ir à Itália para rever amigos. Um deles, Cesare Benvenutti, que produziu seu disco de estreia, o convidou a experimentar um novo equipamento de seu estúdio, gravando algumas canções do songbook da melhor MPB. O resultado ficou engavetado nos últimos 27 anos, mas finalmente vem à tona no álbum A Roma, que a gravadora Kuarup acaba de lançar em CD e nas plataformas digitais. Valeu (e como!) tanta espera.

O repertório do álbum traz 14 faixas, incluindo uma da lavra do próprio Zé Luiz, a deliciosa Amor ao Ofício, parceria com o poeta Sergio Natureza (parceiro de Tunai e inúmeros outros nomes bacanas da nossa música). A seleção denota um bom gosto irrepreensível, com canções de Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, Toquinho, Paulinho da Viola, Aldyr Blanc, Joyce Moreno, Moacyr Luz, Ivan Lins, Vitor Martins e outros do mesmo alto gabarito.

O conceito de A Roma é violão e voz sem penduricalhos, exceto rápidas vocalizações a la Os Cariocas na faixa de abertura, o sambossa Mar de Copacabana (Gilberto Gil). Dessa forma, a voz de Zé Luiz fica bastante exposta, algo simplesmente maravilhoso. Afinal de contas, estamos diante de um verdadeiro estilista, sujeito que toma conta de cada canção que interpreta e a torna sua, com um timbre aveludado que envolve e delicia o ouvinte.

Se a qualidade vocal dessas gravações já bastaria para recomendar a audição deste álbum, a performance de Mazziotti como violonista é estupenda, com direito a acompanhamento preciso, diálogos envolventes com a voz e um preenchimento de espaços absolutamente perfeito.

Uma parceria delicada, sofisticada, que no entanto será capaz de ganhar os ouvidos de quaisquer fãs de música popular, independente da área. Aqui, elaboração não significa chatice ou arrogância estética, e, sim, beleza pura.

Na Boca da Noite (Toquinho e Paulo Vanzolini), Receita de Samba (Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro), Anos Dourados (Tom Jobim e Chico Buarque) e Choro Bandido (Chico Buarque e Edu Lobo) são destaques de um álbum que, na verdade, merece ser destacado como um todo.

Em seu inspirado texto incluído no encarte de A Roma, Zuza Homem de Mello recomenda esse trabalho a quem estiver precisando de música. Eu acrescento: música para lavar a minha, a sua, as nossas almas, hoje e sempre.

Anos Dourados– Zé Luiz Mazziotti:

Risqué (1979), o álbum que marca o auge do Chic de Nile Rodgers

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Por Fabian Chacur

Em 1979, a disco music era a galinha dos ovos de ouro da indústria fonográfica. O gênero musical que surgiu e se desenvolveu durante a década de 1970 atingiu o auge de sua popularidade após o estouro de Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever-1977). O filme estrelado por John Travolta e com trilha sonora encabeçada pelos Bee Gees rapidamente se tornou um fenômeno cultural e comercial. Todos queriam faturar em cima daquele modismo contagiante e inovador.

O resultado foi uma verdadeira overdose de lançamentos dedicados ao gênero a partir daquele momento, com uma significativa aparição de oportunistas tentando surfar naquela onda que gerava milhões de dólares.

Isso acabou levando muita gente a confundir esses picaretas aproveitadores com os artistas de verdade que estavam desenvolvendo trabalhos incríveis dentro desse conceito de música criado para proporcionar diversão, alegria e te fazer dançar até não poder mais. Abra suas asas, solte suas feras…

Se por um lado essa saturação atingiu o seu auge naquele ano, do outro tínhamos uma legião de ressentidos, boa parte deles roqueiros brancos que não conseguiam aceitar que aquele amontoado de negros, gays e pobres tomasse conta dos holofotes, afastando das paradas de sucessos os seus ídolos.

Roqueiros ressentidos reagem da pior forma possível

Era preciso dar um basta naquilo, pensavam (?) esses acéfalos. E, como costumeiramente ocorre nesse tipo de situação, alguém surge com uma ideia que, posta em prática, vira o estopim de uma reação ignorante e violenta.

O DJ, roqueiro e humorista americano Steve Dahl foi demitido da rádio na qual trabalhava, em Chicago, pela mudança de direcionamento musical da emissora, que largou o rock para mergulhar na disco music. A partir dali, Dahl se tornou uma espécie de “inimigo nº 1” do gênero.

E foi dessa cabeça oca que surgiu a “brilhante” ideia de promover a destruição pública de LPs e compactos dos artistas disco. O auge desse projeto do mal teve como palco o estádio Comiskey Park, em Chicago, no intervalo de uma partida de baseball entre o Chicago White Socks e o Detroit Tigers.

Um marco de ignorância e intolerância

O evento, intitulado Disco Demolition Day, ocorreu no dia 12 de julho de 1979, que merece constar nos calendários como um dos acontecimentos mais vergonhosos da história da cultura pop de todos os tempos.

Em determinado momento da “festa”, um engradado lotado de discos foi explodido, gerando um grande tumulto e ganhando manchetes em toda a imprensa. “Disco Sucks” (disco music é uma merda, em tradução livre) era o slogan que esses imbecis usavam, em camisetas e bottoms.

O objetivo dessa horda de homofóbicos e racistas não foi atingido logo de imediato, mas a Disco Demolition Day conseguiu alastrar nos meses seguintes um sentimento de medo entre as pessoas, e em especial nas gravadoras.

Em sua excelente autobiografia Le Freak (2011), Nile Rodgers, o líder da banda Chic relembra uma festa da qual participou algum tempo após essa cerimônia de ódio, promovida pela revista Cash Box, na qual um espaço com pista de dança dedicado à disco music permaneceu vazio durante toda a noite.

Aos poucos, ninguém queria ser associado à disco music. Ser considerado um artista disco era quase uma maldição. E todos os artistas ligados ao gênero passaram a ser postos de lado. Entre eles, Nile e sua seminal banda.

Sucesso que nem o preconceito conseguiu derrubar

Foi nesse contexto tumultuado, no dia 30 de julho de 1979, 18 dias após o show de horrores promovido por Dhal e seus idiotas, que Risqué, o terceiro álbum do Chic, chegou às lojas de discos.

Esse trabalho tinha a dura missão de suceder o esplêndido C’Est Chic (1978), que emplacou os megahits Le Freak e I Want Your Love e tornou a banda americana um grandioso sucesso nos quatro cantos do planeta, Brasil incluso (eles fizeram shows por aqui, na época).

A primeira faixa a ser extraída do disco (no formato single) não poderia ter sido melhor escolhida. Good Times reeditou a performance de Le Freak, atingindo o primeiro lugar na parada de singles americanas no dia 18 de agosto daquele ano.

Com uma levada hipnótica e um refrão matador, Good Times traz como marca registrada no seu “miolo” uma extensa parte instrumental na qual a linha de baixo comanda, com espaços para elegantes solos de teclados e guitarra.

A letra se baseia em hits dos tempos da Depressão Americana (anos 1920-1930) e busca estimular um astral positivo em um momento no qual a economia americana passava novamente por sérios problemas.

Em circunstâncias normais, Good Times deveria ter se mantido mais do que apenas uma semana no topo da parada americana, mas a mudança de orientação das rádios, que aos poucos foram tocando cada vez menos músicas associadas à disco music em suas programações, impediu que esse clássico fosse ainda mais longe. Ainda assim, virou um hit explosivo.

Disco music, sim, mas do seu jeito

O embrião do Chic surgiu quando o guitarrista Nile Rodgers tornou-se parceiro musical do baixista Bernard Edwards. Com a entrada no time do baterista Tony Thompson, eles ganharam entrosamento acompanhando outros artistas, até que, na metade dos anos 1970, resolveram investir em material próprio.

Influenciados pela disco music, eles no entanto criaram uma sonoridade própria, com forte tempero de rhythm and blues, funk, jazz e até rock que os colocam à parte dos grupos disco mais emblemáticos, do tipo Village People, Silver Convention e Boney M.

O Chic tinha um DNA mais próximo de bandas funk como Con Funk Shun, Commodores e Kool & The Gang, mas foi inserido no universo disco, o que lhes valeu muito de 1977 (quando lançaram o álbum de estreia, Chic) a 1979, e depois se tornou um fardo duro de carregar devido ao fator preconceito.

Capa com visual anos 1920-30

Risqué marca o momento em que o Chic atingiu o seu auge em termos criativos. A coisa começa bem logo na capa, contracapa e encarte, que traz fotos com os cinco integrantes do grupo vestindo elegantes trajes típicos dos anos 1920-1930. O clima é de filme de mistério, com direito a Bernard Edwards caído nas teclas do piano, com uma faca nas costas.

Tony Thompson posa de mordomo (seria ele o culpado do crime?), com Nile dando uma de cafetão e as vocalistas Lucy Martin e Alfa Anderson no melhor estilo garotas de programa. A locação é uma sala estilosa com móveis idem, tendo como centro um piano de cauda.

O jeitão da apresentação visual do LP lembra o de In Throught The Out Door, do Led Zeppelin, que curiosamente foi lançado pela mesma Atlantic Records no dia 15 de agosto, ou seja, duas semanas após Risqué. Baita coincidência, mas cada uma dessas capas tem seus aspectos peculiares, não denotando um plágio.

Um álbum bom de ponta a ponta

Como normalmente as faixas de disco music e funk costumavam ser mais longas, era comum um número menor de canções do que em discos de rock e pop. No caso de Risqué, temos sete músicas. Mas é o típico caso de conteúdo na medida, nem a mais, nem a menos. E a duração estendida mostra a criatividade dos músicos no intuito de criarem uma sonoridade repleta de grooves, hipnótica e de uma sofisticação sintética e repleta de bom gosto.

Após a abertura matadora com Good Times, temos a seguir A Warm Summer Night, uma espécie de balada sensual que pode ser considerada a Je T’Aime Moi Non Plus do Chic. Para quem não lembra, essa música gravada em 1969 por seu autor, Serge Gainsbourg, em parceria com a cantora Jane Birkin, tornou-se um marco do som erótico-sensual.

No caso da canção de Edwards-Rodgers, a letra concisa, com os versos “te quiero papi” praticamente gemidos pelas cantoras, leva ao clima ideal para transar.

Homenagem aos dançarinos profissionais com solo inusitado

My Feet Keep Dancing tem como marca o arranjo de cordas com stacatto, o que dá uma ênfase rítmica bem peculiar e envolvente. A letra da canção fala sobre alguém que resolve mergulhar no mundo da dança mesmo sem o apoio dos parentes, que o ironizavam dizendo que “seu cérebro está em seus pés”.

A grande sacada, genial mesmo, do arranjo de My Feet Keep Dancing fica por conta de termos nela um solo não de guitarra, teclados ou outro instrumento musical, mas de sapateado! Sim, e feito por três craques dessa área, Mr. Fayard Nicholas (do grupo The Nicholas Bros.), Mr. Eugene Jackson (do grupo Our Gang) e Mr. Sammy Warren.

As idas e vindas do amor

A eterna questão do amor proibido dá o tom a My Forbidden Lover, inspirada naquelas paixões que a gente sabe serem inadequadas, mas das quais não conseguimos nos livrar, com versos bem definidores como “minha paixão proibida, eu não quero outra”. Em um mundo perfeito, esta faixa e My Feet Keep Dancing teriam sido hit singles de muito sucesso.

As dificuldades de um relacionamento afetivo, no qual a sinceridade nem sempre se faz presente, é o tema de Can’t Stand To Love You, provavelmente o momento mais jazzístico de Risqué.

Nada mais duro do que ser dispensado pela pessoa que você ama, e este é o tema da balada do álbum, Will You Cry (When You Hear This Song), na qual a cantora Alfa Anderson dá uma comovente aula de interpretação.

O disco é encerrado por What About Me, na qual a garota questiona o namorado, que conseguiu o que queria, mas e ela? Como é que fica? “Eu te dei o meu amor, você não vê?” Isso, tendo como fundo sonoro uma canção swingada na qual a guitarra base se destaca. Final perfeito para um álbum perfeito.

A ótica feminina nas letras

Existe um aspecto muito interessante nas composições do Chic, que fica por conta da qualidade das letras. Neste álbum em questão, temos uma quantidade significativa de incursões em temas vinculados aos relacionamentos.

Ao contrário do que poderia se esperar, o fato de as faixas serem assinadas por dois homens não deram um viés machista ou muito masculinizada ao tema. Pelo contrário, o ponto de vista das mulheres é defendido e mostra a crueldade masculina em diversos momentos.

Difícil algum homem ou mulher de bom senso não concordar ou não se identificar com alguns dos personagens das sete composições contidas em Risqué, cujo título tem muito a ver com os riscos que corremos sempre que nos envolvemos afetivamente com alguém.

The Chic Organization Ltd

Para todos os efeitos, a formação clássica e oficial do Chic trazia Nile Rodgers (guitarra e composições), Bernard Edwards (baixo e vocais), Tony Thompson (bateria) e as cantoras Alfa Anderson e Lucy Martin. Nos discos, no entanto, o time aumentava, justificando plenamente o nome The Chic Organization com que Nile e Bernard assinavam as suas produções para a banda ou outros artistas.

Neste Risqué, temos nos teclados Raymond Jones, Robert Sabino e Andy Schwartz. Na percussão, Sammy Figueroa. Nos vocxais, Alfa e Luci tem o auxílio luxuoso de Fonzi Thornton, Michelle Cobbs e Ullanda McCullough. E, de quebra uma sessão de instrumentos de cordas, a The Chic Strings, regida por Gene Orloff e incluindo Karen Milne, Cheryl Hong, Karen Karlsrud e Valerie Haywood.

Todos esses músicos foram utilizados estritamente em função das necessidades de cada canção, sem espaço para virtuosismos tolos ou exageros arrogantes. Mesmo as incríveis linhas de baixo criadas por Bernard Edwards nunca atropelam as faixas nas quais estão inseridas, reforçando o groove e envolvendo os ouvintes. Tudo muito chique mesmo!

Good Times, influente e inspiradora

Se não bastasse o sucesso que conseguiu no formato single e como principal faixa de Risqué, Good Times ainda se transformou em uma das músicas mais influentes e inspiradoras de todos os tempos.

O primeiro grande hit da história do rap, por exemplo, Rapper’s Delight, da Sugarhill Gang, valeu-se da passagem instrumental e da linha de baixo de Good Times. A partir de um determinado momento de sua carreira, o Chic passou a inserir no meio de Good Times um extenso trecho de Rapper’s Delight, que você pode encontrar em DVDs ao vivo da banda.

No mesmo 1980, Bounce Rock Skate Roll, de Vaughan Mason And Crew, e Another One Bites The Dust, do Queen, esbanjavam influências de Good Times, assim como Rapture, do Blondie, esta última uma clara homenagem ao Chic. Não por acaso, Debbie Harry gravou um disco solo, Koo-Koo (1981), com produção e composições de Nile Rodgers.

The Adventures of Grandmaster Flash on the Wheels of Steel, hit em 1981 com outro grupo pioneiro e importante do rap americano, Grandmaster Flash And The Furious Five, foi ainda além, acrescentando nessa sua composição trechos de Good Times, Another One Bites The Dust, Rapture e Rapper’s Delight.

E a lista vai muito mais longe. Só para citar mais três músicas influenciadas por Good Times, temos Try It Out (1981), de Gino Soccio, Hot! Hot! Hot! (1987), do The Cure, e 2345meia78, do brasileiro Gabriel o Pensador.

Alguma dúvida de que se trata de um álbum clássico?

No fim das contas, apesar de todo o contexto negativo no qual foi lançado, Risqué conseguiu atingir o 5º posto na parada americana, vendendo mais de um milhão de cópias por lá e estourando mundialmente. Missão cumprida!

Chega a ser uma vergonha este álbum não ter sido incluído na série de documentários da série Classic Albums, que contam a história de discos importantes da história do rock, soul e música pop. Ainda dá tempo…

Risqué- Chic (ouça na íntegra em streaming):

Zelia Duncan volta ao folk pop com delicadeza e clima positivo

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Por Fabian Chacur

Se há alguém que pode ser definida como “artista dos mil projetos”, ela atende por Zelia Duncan. Além de participar de discos e shows de nomes dos mais variados segmentos, ela também mergulha em obras com os mais diferentes enfoques. Até dos Mutantes ela já foi integrante! Dessa forma, esta cantora, compositora e musicista de 54 anos oriunda de Niterói (RJ) ficou dez anos sem lançar um trabalho autoral voltado à sonoridade que a tornou conhecida nacionalmente, o folk-pop-MPB, digamos assim. Esse hiato acaba agora com o lançamento de Tudo É Um (Duncan Discos-Biscoito Fino), um belo momento do tipo “volta às raízes”.

O principal marco do álbum é o retorno do principal parceiro de Zelia nesse praia, Christiaan Oyens, que aqui se incumbe da produção, alguns instrumentos musicais e parceria nas músicas Canção de Amigo e Olhos Perfeitos. Aliás, o que não falta nesse álbum é parceiro. Zeca Baleiro, por exemplo, é coautor de Me Faz Uma Surpresa e Medusa. Dani Black assina com ela Só Pra Lembrar. Moska é o parceiro em Feliz Caminhar, enquanto a faixa que dá nome ao CD foi escrita a quatro mãos com Chico Cesar.

Fred Martins escreveu com a cantora Sempre os Mesmos Erros, e Dimitri é o “parça” de Breve Canção de Sonho, única não inédita do disco, gravada originalmente em 2012 para a trilha da novela global Cheias de Charme e aqui em nova versão. Eu Vou Seguir é só dela, e O Que Mereço equivale à única canção do álbum não escrita pela artista, escrita por Juliano Holanda.

Como um todo, o álbum esbanja delicadeza, afeto e positividade, com os violões sendo o alicerce de toda a sonoridade, mas aliados a arranjos que em alguns momentos incorporam cordas e metais com precisão cirúrgica. Tipo do disco que pode soar superficial e até meio repetitivo em um primeiro contato, mas que cresce muito em novas audições, nas quais as sutilezas são melhor captadas e mostram o quanto este Tudo É Um é bom. Bem-vinda ao lar, Zelia Duncan!

O Que Mereço (clipe)- Zelia Duncan:

Barbara Mendes lança o CD Orgânico com um show no Rio

barbara mendes 400x

Por Fabian Chacur

Orgânico apresenta ao grande público uma parceria musical de grande quilate. A cantora mineira criada no Rio de Janeiro Barbara Mendes interpreta 11 canções inéditas do excelente cantor, compositor e músico pernambucano Tito Marcelo. O resultado do trabalho do também casal na vida pessoal não poderia ser mais bem-sucedido. Primeiro álbum autoral da cantora desde Nada Pra Depois (2009) e disponível em CD e nas plataformas digitais, o disco será lançado com show no Rio de Janeiro nesta terça (18) às 21h no Teatro XP Investimentos (Jockey Club Brasileiro- avenida Bartolomeu Mitre, nº 1.100- Leblon- fone 0xx21-3807-1110), com ingressos custando a R$ 40,00 (meia) e R$ 80,00 (inteira).

O currículo de Barbara Mendes é dos mais respeitáveis. Ela morou por dez anos em Nova York, onde estudou canto e fez shows. Além disso, participou por lá de trilhas de filmes, teatro e balé. Seu primeiro álbum foi lançado em 2000, Live In Greece, gravado ao vivo em Atenas, na Grécia.

No álbum Nada Para Depois (2009), contou com as participações especiais de Djavan, Ivan Lins e Hamilton de Holanda. De quebra, lança em breve no exterior álbum com composições do genial Roberto Menescal vertidas para o inglês.

O clima musical contido em Orgânico é pontuado por belas canções que navegam entre MPB, folk, pop, blues e um leve tempero jazzístico. Colabora intensamente para sua alta qualidade artística a presença efetiva, nos arranjos, produção musical, guitarra e violões, do consagrado argentino radicado no Brasil Victor Biglione, que dá uma aula master de como ser acompanhante de forma elegante, criativa e expressiva.

Tito Marcelo se mostra um excelente compositor, ele que também viveu em Brasília (DF) e tem três bons discos solo em seu currículo- Frágil Verde, Força de Quebrar (2011), Pra Ficar no Sol (2014) e O Futuro Ligeiro da Demora (2016). Ele participa de duas faixas do CD, Degelo (voz e violão) e Recalques (violão).

No show desta terça (18), Barbará será acompanhada por uma banda composta por André Valle (violão de cordas de aço), Pedro Braga (violões), Alexandre Katatau (contrabaixo) e Allen Pontes (bateria). Nele, sua voz de belo timbre explorada de forma competente e sensível certamente trará também alguma coisa de trabalhos anteriores, além de faixas do ótimo Orgânico.

Veja o clipe de Recalques, de Barbara Mendes:

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