Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

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Lizzie Bravo, 70 anos, cantou com os Beatles e outros fenômenos

lizzie bravo

Por Fabian Chacur

Pode uma garota brasileira de 15 anos de idade desembarcar sozinha em fevereiro de 1967 na efervescente Londres daqueles anos psicodélicos e em alguns meses se tornar uma verdadeira testemunha ocular de um dos momento mais importantes da carreira de ninguém menos do que os Beatles? Mais: participar de uma gravação dos Fab Four? Essa foi a cereja no bolo da trajetória de Lizzie Bravo, que, no entanto, fez muitas outras coisas relevantes, como ser musa de um grande clássico da nossa música. Ela infelizmente nos deixou nesta segunda (4) aos 70 anos, vítima de problemas cardíacos.

Elizabeth Villas Boas Bravo nasceu em 29 de maio de 1951, e foi uma das primeiras brasileiras a mergulhar de cabeça no som dos Beatles, ao ouvir o álbum Meet The Beatles (1964) que seu pai trouxe dos EUA. Nascia ali uma paixão pelo grupo e, em particular, por John Lennon. E a amiga Denise Werneck teve uma ideia, logo encampada por Lizzie (cujo apelido ela tirou da música Dizzy Miss Lizzy, clássico do rock de autoria de Larry Williams e regravada pelo grupo no seu álbum Help!, de 1965): pedir aos pais de presente uma viagem a Londres.

Lizzie desembarcou em Londres em fevereiro de 1967, e logo se tornou uma frequentadora da porta dos estúdios Abbey Road, onde os Beatles gravavam seus discos, e também da casa de alguns deles. Naquela época, especialmente em Londres, os astros do rock eram muito mais acessíveis do que se tornariam não muito tempo depois, e a adolescente carioca conseguiu aos poucos se tornar uma quase amiga de John, Paul, George e Ringo.

No seu excelente livro Do Rio a Abbey Road (2015), ela relata como foi esse período no qual, afora trabalhos para conseguir se manter melhor na capital inglesa, suas tarefas básicas eram se manter atualizada sobre os lançamentos e novos rumos do grupo e também conseguir autógrafos, fotos e algumas conversas com os músicos. Na base da simpatia e da paciência, foi absolutamente vitoriosa no seu intuito, como provam as belas fotos contidas no livro.

Vale registrar que, nesse período, os Beatles viviam uma fase particularmente iluminada de sua brilhante trajetória, gravando Sgt. Peppers, Magical Mystery Tour e Abbey Road e consolidando de uma vez por todas a sua presença no panteão da música popular.

Lizzie permaneceu em Londres em dois períodos: de fevereiro de 1967 a abril de 1968, e de outubro de 1968 a outubro de 1969. Por lá, fez amizades com outros fãs e tirou a sorte grande em 4 de fevereiro de 1968, um domingo, quando Paul McCartney perguntou às garotas que estavam próximas ao estúdio Abbey Road se alguma delas conseguiria sustentar notas agudas. A nossa conterrânea afirmou positivamente, e depois levou outra amiga, a inglesa Gayleen Pease, para auxiliá-la. Dessa forma, participaram da versão original de Across The Universe.

A belíssima canção, assinada por Lennon e McCartney mas na verdade de total autoria do primeiro, acabou deixada de lado como um possível single do grupo. Em dezembro de 1969, no entanto, foi lançada como parte da coletânea inglesa No One’s Gonna Change Our World- The Stars Sing For The World Wide Fund, ao lado de gravações de dez outros artistas de ponta, entre os quais Bee Gees, The Hollies e Cilla Black.

Across The Universe entrou no repertório do álbum Let It Be (1970), mas em uma versão alterada que retirou os vocais de Bravo e Pease. Rara durante uns bons anos, a única gravação dos Beatles a incluir alguém do Brasil só voltaria a ser acessível ao entrar no repertório das duas versões do álbum Rarities (1980) e no volume 2 da coletânea Past Masters (1988).

Nem é preciso dizer que essa gravação tornou Lizzie Bravo uma figura sempre relembrada pelos fãs-clubes dos Beatles nas décadas seguintes, algo que se ampliou ainda mais com o advento da internet. Posteriormente, ela teve a oportunidade de rever Paul McCartney (em uma entrevista coletiva, em 1990, na qual o ex-beatle a reconheceu), George Harrison e Ringo Starr. Lennon, o seu favorito, infelizmente nos deixou antes de que ela pudesse reencontrá-lo.

Para quem acha que a história de Elizabeth parou por aqui, recupere o fôlego, pois vem mais coisas boas por aí. Em 1970, ao voltar ao Brasil, conheceu o cantor, compositor e músico Zé Rodrix, com o qual foi casada por dois anos. Em parceria com Tavito, ele compôs, inspirado nela, o clássico da MPB Casa no Campo, cuja gravação definitiva é a de Elis Regina. Em sua letra, a música fala de uma “esperança de óculos” (Lizzie) e o sonho de ter um “filho de cuca legal”, que veio na forma de Marya, nascida em outubro de 1971 e hoje cantora e atriz.

No decorrer de sua trajetória profissional, Lizzie foi vocalista de apoio de artistas do gabarito de Milton Nascimento, Joyce Moreno, Zé Ramalho, Ivan Lins, Djavan, Egberto Gismonti, Toninho Horta e Geraldo Azevedo, entre outros, participando de discos e shows deles. Também atuou como fotógrafa para artistas e gravadoras, e morou em Nova York de 1984 a 1994, atuando na área cultural.

O projeto de seu livro teve início em 1980, mas foi interrompido devido à trágica morte de John Lennon. Ela o retomou em 1984, novamente sem o levar adiante. Só em 2015 essa belíssima obra se concretizou, com uma tiragem inicial que se esgotou em 2017 (comprei um dos últimos exemplares, em julho de 2017. Ela preparava uma nova fornada de livros, assim como uma edição em inglês, que provavelmente serão viabilizadas por Marya.

Across The Universe (original version)- The Beatles:

Paulo Cesar Pinheiro em um belo e esclarecedor documentário

paulo cesar pinheiro

Por Fabian Chacur

Alguém que, com apenas 14 anos de idade, escreve a letra de uma música (melodia de João de Aquino) do calibre de Viagem, sucesso na voz de Marisa Gata Mansa,dava todo o jeito de que se tornaria um grande nome nessa área. E não deu outra. Paulo Cesar Pinheiro, hoje com 72 anos, possui um currículo repleto de maravilhosas e muito conhecidas canções, feitas em parceria com muitos craques como ele. Sua belíssima trajetória é vasculhada no ótimo documentário Paulo Cesar Pinheiro Letra e Alma, que será exibido neste domingo (3) às 22h30 no Canal Curta! e também está disponível em algumas plataformas digitais.

Nascido no Rio de Janeiro em 28 de abril de 1949 e com dna mangueirense e dos subúrbios cariocas, como faz questão de registrar, Paulo Cesar Pinheiro teve como primeiro parceiro João de Aquino. Não demorou para que um primo de Aquino, um certo Baden Powell, tomasse conhecimento de seus versos. Encantado, logo chamou o Paulinho para escrever com ele, e o primeiro fruto foi de cara Lapinha, sucesso eternizado na voz de Elis Regina, que depois gravaria outras parcerias deles, entre as quais Vou Deitar e Rolar (Qua Quara Qua Qua).

Andrea Prates e Cleisson Vidal, os diretores do documentário, optaram por uma abordagem mais tradicional em seu filme, que tem como norte uma longa entrevista com o protagonista, entremeada por apresentações de arquivo de artistas como Elis Regina, Marisa Gata Mansa, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, João Nogueira e ele próprio interpretando seus maiores sucessos. Como o depoimento dele é extremamente expressivo e esclarecedor, foi mesmo a melhor opção, pois não é todo dia que temos a oportunidade de ouvi-lo sobre sua irrepreensível trajetória de mais de cinco décadas.

Durante os 85 minutos de duração de Letra e Alma, Pinheiro nos fala sobre como compôs maravilhas do porte de Pesadelo (com Maurício Tapajós), Súplica (com João Nogueira), Lá Se Vão Meus Anéis (com Eduardo Gudin) e Tô Voltando (com Maurício Tapajós), esta última um involuntário hino da anistia em 1979 que arrancou lágrimas dele ao ver seus versos associados com um momento tão importante da história brasileira.

Os problemas com a censura durante a ditadura militar, seus oito anos de casamento (de 1975 a 1983, quando a cantora nos deixou de forma trágica) com Clara Nunes (que gravou inúmeras canções de sua autoria, como O Canto das Três Raças e Menino Deus, só para citar duas delas), a nova união (que persiste até hoje) em 1985 com a musicista Luciana Rabello que lhe rendeu um filho e uma filha, também músicos e seus parceiros são outros temas.

Paulinho também fala sobre seu relacionamento com a avó índia, que lhe ensinou muito sobre essa coisa maluca chamada vida, seu envolvimento com a cultura afro-brasileira e com a umbanda e o candomblé, mesmo admitindo que não segue nenhuma religião ou credo e também sua profissão de fé com a escrita, não só de letras de música, mas também de livros de poesia, prosa e outras manifestações culturais, além de seus shows e discos O Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva ao lado da cantora Márcia e do cantor, compositor e violonista Eduardo Gudin.

Paulo Cesar Pinheiro Letra e Música é indispensável para quem gosta de música brasileira, pois nos apresenta de forma direta e sem rodeios um cara que é parceiro de Tom Jobim, Pixinguinha, Edu Lobo e tantos outros mestres da nossa música, tendo se tornado, ele próprio, um desses mestres. E ele está aqui, entre nós, produtivo. Vamos dar ao cara as flores em vida, que o cidadão merece!

obs.: em dois momentos, Paulo Cesar nos mostra seus acervos de LPs e de fitas-cassete com material referente às suas composições. É de arrepiar ver todas aquelas fitas organizadas uma a uma, com material daquele gabarito.

Trailer de Paulo Cesar Pinheiro Letra e Alma:

Ney Matogrosso lança coletânea com clássicos e duas raridades

ney 80 anos capa 400x

Por Fabian Chacur

Ney Matogrosso, um dos cantores mais bem-sucedidos e importantes da história da nossa música, completou 80 anos em 1º de fevereiro deste ano, mas a celebração continua firme e forte, e de forma merecida. Um novo tributo a este artista único acaba de ser lançado pela Warner Music Brasil, nas gloriosas plataformas digitais e também em edição em CD com tiragem limitada. Trata-se de Ney 80 Anos, coletânea com 16 faixas, sendo duas delas raridades significativas.

Essas duas pérolas resgatadas são Tema de Maria (ouça aqui), na qual o cantor faz vocalizes, e A Estrada Azul, uma bela e delicada canção. As duas fazem parte da trilha sonora do filme Pra Quem Fica…Tchau (1970), de Reginaldo Faria, que também é o autor dessas músicas. São as primeiras gravações feitas pelo intérprete, lançadas três anos antes do álbum de estreia dos Secos & Molhados.

As outras faixas dão uma geral em momentos bacanas de Ney durante os anos 1970, mesclando megahits como Bandido Corazón e Não Existe Pecado ao Sul do Equador a releituras dos Secos & Molhados como Rosa de Hiroshima e Sangue Latino e clássicos menos óbvios como Açúcar Candy e Pedra do Rio. A seleção de repertório é de Julio Maria (jornalista e biógrafo do artista) e Renato Vieira.

Eis as faixas da coletânea Ney 80 Anos:

1 – Sangue Latino (João Ricardo / Paulo Mendonça)
2- Bandido Corazón (Rita Lee)
3 – Coubanakan (Moises Simons / Chamfleury / Sauvat)
4 – Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
5 – Bandolero (Luli/Lucina)
6 – Pedra de Rio (Luli/Lucina)
7 – Cante uma Canção de Amor (Odair José/Maxine)
8 – Açúcar Candy (Sueli Costa/Tite de Lemos)
9 – Me Rói (Luli/Lucina)
10 – Último Drama (Mauro Kwitko / Carmen Seixas / Espanhola de Chiquita)
11 – Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad / Vinicius de Moraes)
12 – América do Sul (Paulo Machado)
13 – Não Existe Pecado ao Sul do Equador (Chico Buarque/Ruy Guerra)
14 – Tem Gente com Fome (João Ricardo / Solano Trindade)
15 – Tema de Maria (Reginaldo Faria)
16 – A Estrada Azul (Reginaldo Faria-Paulo Mendonça)

A Estrada Azul– Ney Matogrosso:

Estranhos Românticos saem de cena com brilhante Último Sol

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Por Fabian Chacur

Foram sete anos de existência. Nesse período, Marcos Muller (vocal e guitarra), Mauk (baixo), Luciano Cian (teclados) e Pedro Serra (bateria) lançaram três álbuns e também fizeram duas releituras de outros grupos (Pato Fu e Autoramas) para tributos. Esse projeto, que tinha o peculiar nome Estranhos Românticos, chega ao fim com um último projeto, Último Sol, já disponível nas plataformas digitais. Belíssima despedida. Seria um fim ou um recomeço?

Poucos nomes poderiam ser mais adequados para este quarteto carioca do que o escolhido por eles. Sim, eles são românticos, arrebatadoramente românticos, mas bem longe do tradicional e do careta nessa área tão explorada na música. Estranhos, mas aquela estranheza que cativa e mostra um rumo diferente para exaltar as paixões que funcionam como combustível para nos proporcionarem momentos de puro prazer sensorial.

Para embalar suas letras simples e diretas, o grupo se vale de uma sonoridade cuja origem mais remota remete ao pop rock do período entre 1964 e 1967. Base rítmica ágil, baixo volta e meia anguloso, bateria adoravelmente dançante, teclados dando o tom psicodélico e vocais desencanados e bem articulados. Ecos de jovem guarda, merseybeat, pós punk, tropicalismo e psicodelia podem ser observados, mas o mote são sempre alucinadas canções de amor.

Último Sol traz 10 faixas, sendo 9 inéditas e o remix de Mergulho no Saara (Latexxx Remixxx), cuja versão original está no segundo álbum deles, (2021). A festa começa com os momentos mais jovem guarda, Boa Noite Copacabana e Me Beija (com participação de Nervoso). Luxo envolve e tem a participação especial precisa, cirúrgica, matadora do saxofonista Marcello Magdaleno.

Mim revela influências da new wave dos anos 1980, um rockão bacana. Espécie de balada entortada para os interesses do quarteto, a deliciosa Sol nos oferece os doces vocais da cantora argentina Cony Piekarz, que tira de letra o dueto com Marcos Muller. Bacana demais.

A soma de um riff poderoso a um refrão simples e eficiente dão cor à ótima Ridículo. Carnaval vem a seguir com seu tempero sessentista, enquanto Fim do Mundo aposta em uma base rítmica mais compassada. A parte de inéditas se encerra com a psicodelia oitentista de 42°, que de certa forma capta o espírito de bandas da época como Love And Rockets de uma forma própria. O remix de Mergulho no Saara fecha a tampa com espírito dançante e outra viagem nos porões mais bacanas dos anos 1980.

E aqui cabe discorrer sobre a dúvida entre fim ou recomeço abordada no início desse texto. Se for apenas isso, o encerramento de um trabalho bacana que quatro caras fizeram durante sete anos, meu Deus, que despedida encantadora! Mas será que, após autoavaliarem a qualidade de Último Sol, de o quanto eles soam coesos, criativos e ao mesmo tempo acessíveis ao ouvido médio, não pintará a tentação de “que tal um encore?” em um futuro (tomara) não muito distante? São questões que só esses agora ex-Estranhos Românticos poderão nos responder. obs.: capa antológica, heim?

Ouça Último Sol, dos Estranhos Românticos, em streaming, aqui .

Rod Stewart divulga clipe e lançará álbum de inéditas

rod stewart tears of hercules

Por Fabian Chacur

Aos 76 anos de idade, Rod Stewart parece bem longe da aposentadoria. Após lançar em 2019 o álbum ao vivo You’re In My Heart, com a The Royal Philharmonic Orchestra, ele anuncia para o dia 12 de novembro um novo trabalho. Trata-se de The Tears Of Hercules, que trará 12 faixas, sendo 9 delas com a assinatura do roqueiro britânico e as outras três releituras de autores como Johnny Cash.

O 1º single extraído desse trabalho é a deliciosa One More Time, uma contagiante canção folk de ritmo dançante na qual o autor de Maggie May tenta convencer uma paixão mal resolvida a tentar mais uma vez, sendo que essa vez adicional pode ser, no fim das contas, apenas, uma espécie de celebração aos bons tempos entre os dois sem novos desdobramentos.

Entre outras canções, o álbum traz homenagens ao pai do roqueiro em Touchline e ao grande rocker britânico Mark Bolan (1947-1977), em Born To Boogie (A Tribute To Mark Bolan). Provavelmente, mais um trabalho de sucesso em uma impressionante trajetória positiva de mais de cinco décadas.

Eis as faixas de The Tears Of Hercules:

One More Time
Gabriella
All My Days
Some Kind Of Wonderful
Born To Boogie (A Tribute To Mark Bolan)
Kookooaramabama
I Can’t Imagine
The Tears Of Hercules
Hold On
Precious Memories
These Are My People
Touchline

One More Time (clipe)- Rod Stewart:

Miriam Martinez, a pessoa que veio ao mundo para assessorar

miriam martinez 400x

Por Fabian Chacur

Em julho de 1985, fui a um coquetel de lançamento de disco na antiga gravadora RCA (depois BMG) com o meu amigo Valdimir D’Angelo. Nesse evento, realizado no bairro paulistano de Santa Cecília, conheci uma mulher simpática e bem humorada que trabalhava na assessoria daquela empresa discográfica. Mal sabia eu que a pessoa em questão, uma certa Miriam Martinez, iria mudar a minha vida, e para melhor. Hoje, 27 de setembro, é o primeiro aniversário dela no qual não poderei cumprimentá-la, pois ela partiu no dia 5 de outubro de 2020. Muita saudade!

Quando a conheci, era um jornalista iniciante que exercia a profissão paralelamente ao emprego que tinha, como funcionário do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) prestando serviços na Agência da Receita Federal de Vila Mariana. Mal sabia eu que, menos de dois anos depois, eu estaria trabalhando naquela mesma BMG, na assessoria de imprensa do selo Plug, e graças a uma indicação da Miriam. Seria a primeira, mas não a última vez em que ela me ajudaria em termos profissionais. A partir de 1987, só trabalhei na área jornalística, um sonho que ela me ajudou a concretizar.

Durante os 35 anos em que tive a honra de conviver com essa figura ágil, inquieta e divertida, vivi as mais diferentes experiências, em shows, coletivas de imprensa, entrevistas individuais, lançamentos de discos, festivais etc (e tome etc!). Sendo como colega de trabalho ou me atendendo profissionalmente, ela sempre nos oferecia sua atenção, carinho, incentivos e eficiência, sempre disposta a nos ajudar, de uma forma ou de outra.

Conheci poucos profissionais que vestiam a camisa dos contratantes como ela. Do astro mais famoso ao cantor iniciante e inseguro, o tratamento era sempre no volume máximo. A busca pelo melhor trabalho possível, a melhor divulgação e a conquista dos melhores espaços nunca mudava conforme o cacife e os cifrões envolvidos. Miriam encarava cada pessoa que trabalhava com ela como seres humanos, que respeitava profundamente.

Foi dessa forma que ela conquistou um grande números de admiradores, sempre dispostos a retribuir toda aquela atenção e carinho. Dessa forma, tornou-se uma das melhores assessoras de imprensa de São Paulo e, por consequência, deste Brasil. Como tive a honra de conviver com ela nos bastidores de muitos desses trabalhos, posso garantir que sua forma de tratar a todos nunca se deixou levar por interesses ou falsidade. Pelo contrário.

Miriam esteve comigo nos melhores e piores momentos, nesses anos todos. Sempre prestativa, ajudando, apoiando. Sua dedicação como profissional e como amiga era comovente. Em determinados momentos, ela acreditava na minha capacidade profissional mais do que eu mesmo, e posso garantir que muitas pessoas partilham dessa gratidão comigo. Assessorar é, na prática, ajudar ao outro, e isso essa mulher fez sempre, em cada minuto da sua vida.

Lógico que ninguém é perfeito. Trabalhar com a Miriam às vezes não era fácil devido à ansiedade dela em concretizar seus trabalhos com rapidez e da melhor forma possível. Às veze, era como se ela achasse que era só apertar um botão e concretizar um release de um momento para o outro, por exemplo. Mas, no fim das contas, tudo sempre dava certo porque ela sabia ouvir quem trabalhava com ela. Na base do diálogo, da garra e da paciência.

Artistas dos mais diversos tiveram a honra de ter Miriam Martinez como assessora de imprensa, e garanto que se lembram dela com saudade, pois poucos profissionais abraçaram essa profissão com canto amor e competência como ela. Quando ela nos deixou, fiquei tão desconsertado que não fui capaz de escrever uma linha para homenageá-la.

Pois agora, fica aqui o meu pedido de desculpas a ela. Querida, que você esteja em um plano melhor. Que tudo de bom que fez por mim e por tanta gente possa ter lhe valido um acolhimento bacana. E que a sua luz intensa possa continuar nos iluminando por aqui, especialmente nesses dias sombrios que vivemos atualmente. Bendito aquele dia em que te conheci naquele julho de 1985. E um dia contarei aqui algumas das histórias que vivemos juntos.

Como diria você, de forma descontraída e inesquecível, “um beijo na boca e um tapa na bunda!” Que não dá para encerrar um texto sobre você sem ser de forma bem-humorada.

Canção da América (ao vivo)- Milton Nascimento:

Uganga surpreende com o remix Depois do Dub, lançado em single

Uganga_Depois do Dub_Capa

Por Fabian Chacur

Em 2019, o grupo mineiro Uganga lançou Servus (leia a resenha aqui), um dos melhores álbuns do rock brasileiro na década passada. Sempre aberto a experimentações em sua sonoridade solidamente ancorada em thrash metal, hardcore e punk, a banda do vocalista Manu Joker certamente surpreenderá muita gente com o seu novo single. Trata-se de Depois do Dub, remix de Riti Santiago (2Dub Brasil) com participação de Bruno Xavier (Jah Live). A faixa original tem o nome Depois de Hoje…, e ganhou uma roupagem de reggae dub.

Para quem não sabe, o dub é uma das subdivisões mais experimentais e hipnóticas do reggae, criada por nomes seminais do porte de Lee Scratch Perry e Mad Professor e explorado com categoria por grupos como Asian Dub Foundation e The Clash. Quem explica essa associação aparentemente improvável de rock pesado e dub é Manu Joker:

“É sobre não se estagnar, saca? No Uganga, a 1ª experiência com o dub foi em 1999 com a música Couro Cru presente em nosso disco de estreia, Atitude Lótus. Nós inclusive tocamos ao vivo uma versão da Couro Cru na MTV, na época. O 1º remix, Graxa Dub Mix, saiu no álbum Na Trilha Do Homem de Bem de 2005 e foi também feito pelo Riti Santiago (2DUB/Moretools) em cima da faixa 7 Chaves.”

“Agora, em Depois do Dub , mais uma vez nos reencontramos com nosso velho amigo Riti para mais um trabalho juntos. É o doom da faixa Depois de Hoje do Servus se encontrando com a Jamaica e com o Cerrado Mineiro. É Uganga e fazemos isso faz muito tempo! Para fechar, o Riti ainda chamou o Bruno Xavier (Jah Live – 2DUB) para fazer uma segunda linha de baixo matadora. Tenho muito orgulho desse single e acho que vai confundir muita gente… Legal!”

Depois do Dub (clipe)- Uganga & 2Dub:

Carlos Santana e Steve Winwood regravam hit do Procol Harum

Santana – Blessings and Miracles

Por Fabian Chacur

Sairá no próximo dia dia 15 de outubro via BMG o novo álbum de Carlos Santana. Como forma de atiçar a curiosidade dos fãs, o grande mestre da guitarra acaba de disponibilizar nas plataformas digitais uma das faixas desse trabalho. E escolheu bem. Trata-se da releitura de A Whiter Shade Of Pale, grande clássico nos anos 1960 com o grupo Procol Harum. Com um delicioso arranjo saleroso e latino no melhor estilo do astro, ainda tem de quebra os vocais a cargo do mitológico Steve Winwood. O músico mexicano explica como rolou a parceria:

“Eu disse:‘ Você e eu temos que fazer isso, mas temos que fazer muito sexy, como um Hare Krishna, mas com congas. E foi isso que fizemos. Tem Cuba, Porto Rico, África e tem sensualidade na voz incrível de Steve”.

Gravado nos últimos dois anos, boa parte pela via remota, o novo trabalho de Santana traz diversas participações especiais além de Winwood, entre as quais as de Rob Thomas (do Matchbox Twenty), Chick Corea, American Authors, Corey Glover (do Living Colour), Chris Stapleton e Kirk Hammett (do Metallica).

A Whiter Shade Of Pale– Santana e Steve Winwood:

Sarah Dash, 76 anos, do grupo Labelle e uma ativista social

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Por Fabian Chacur

Durante mais de um mês, pesquisei e ouvi inúmeras vezes o álbum Gonna Take a Miracle, da saudosa Laura Nyro (1947-1997) em parceria com o trio vocal feminino Labelle, com o intuito de fazer um texto celebrando os 50 anos de seu lançamento (leia aqui), que enfim foi publicado no último domingo (19). Pois, para minha imensa tristeza, uma das integrantes do grupo, Sarah Dash, nos deixou nesta segunda (20), aos 76 anos de idade.

Sem causa mortis revelada, embora alguns amigos tenham afirmado que a cantora havia se queixado de desconfortos físicos nos últimos dias, Dash recebeu homenagens nas redes sociais de várias pessoas, incluindo sua parceira de grupo, Pati LaBelle, que afirmou ter cantado com ela em um evento no último sábado (18). Ela também recebeu recentemente uma premiação de sua cidade natal, Trenton (Nova Jersey-EUA) por seu trabalho artístico e também social, pois apoiou várias causas humanitárias, incluindo auxílio a mães solteiras sem lar.

Sarah Dash nasceu em 18 de agosto de 1945 e deu seus primeiros passos como cantora profissional a partir de 1961, quando se uniu a Patti LaBelle e Nona Hendryx no grupo Patti Labelle And The Blue Belles. O grupo passou a década de 1960 inteira lançando trabalhos com menos repercussão do que mereciam, mas sem esmorecer. A partir de 1971, mudaram o nome do trio para Labelle, e gravaram o álbum ao lado de Laura Nyro.

Entre 1971 e 1977, o Labelle lançou seis álbuns próprios, e estourou com o quarto deles, Nightbirds (1974), que atingiu o 7º lugar na parada de álbuns americana e traz como grande atrativo o explosivo single Lady Marmalade (ouça aqui), 1º lugar nos EUA e rendendo ao grupo a capa da revista Rolling Stone.

Após a separação do Labelle, que ocorreu em 1977, Sarah estreou na carreira solo em 1978, com um hit nas discotecas americanas, Sinner Man. Até 1988, ela lançaria quatro álbuns individuais que não obtiveram o mesmo sucesso comercial dos tempos de seu grupo, mas a mantiveram na ativa.

Em 1988, Sarah foi convidada por Keith Richards, que a conhecia desde os tempos em que Patty LaBelle And The Blue Belles abriu shows para os Rolling Stones nos anos 1960, para integrar sua banda Xpensive Winos. Ela não só participou de dois álbuns do cantor e guitarrista britânico, Live At The Hollywood Palladium (1991) e Main Offender (1992), como de quebra ainda marcou presença em Steel Wheels (1989), dos Stones.

A cantora também deu brilho ao trabalho de outros artistas, entre os quais Nile Rodgers (em seu disco solo Adventures in the Land of the Good Groove, de 1983), The O’Jays, David Johansen (do grupo New York Dolls) e The Marshall Tucker Band.

O Labelle teve dois retornos em termos de gravações. Um em 1995, quando gravaram a faixa Turn It Out para a trilha do filme To Wong Foo Thanks For Everything! Julie Newmar e um em 2008, mais robusto, que rendeu o álbum Back To Now, com boa repercussão e atingindo o 45º lugar na parada americana.

Sinner Man– Sarah Dash:

Gonna Take a Miracle- Laura Nyro and Labelle (CBS, 1971)

laura nyro gonna take a miracle

Por Fabian Chacur

Em 1971, Laura Nyro era uma jovem veterana. Aos 24 anos de idade, já tinha no currículo quatro excelentes álbuns, repletos de composições inéditas de grande originalidade e apelo pop. Algumas dessas canções, como Wedding Bell Blues, Stoned Soul Picnic, And When I Die, Eli’s Comin’ e Save The Country, atingiram os 1ºs postos das paradas de sucesso com intérpretes do naipe de Barbra Streisand, The Fifth Dimension, Blood Sweat And Tears e inúmeros outros.

Ao intercalar, durante os shows que realizou em 1970, músicas de outros autores em seu repertório autoral, sentiu a boa reação por parte de seus fãs e resolveu encarar o desafio de gravar um álbum completo com material alheio.

Selecionou 11 canções (duas delas interpretadas no formato pot-pourry), lançadas entre 1954 e 1970 e abordando basicamente o universo dos grupos vocais de soul, especialmente aqueles oriundos ou inspirados no doo wop, valendo-se de vocalizações em alguns momentos derivadas do scat singing do jazz e também dos improvisos apaixonados do gospel.

A ideia era ousada, pois aquele tipo de música estava meio que deixado de lado naquele momento, e provavelmente nem todos haviam percebido que aquelas belas e de certo modo ingênuas canções de amor se tornariam grande clássicos pop com o decorrer dos anos. Para dar contornos ainda mais potentes ao trabalho, Laura não poderia ter sido mais feliz ao escolher duas parcerias decisivas para tornar Gonna Take a Miracle, o álbum em questão, um clássico.

Para a produção, a cantora e compositora escolheu uma promissora dupla radicada na Filadélfia que em breve invadiria as paradas de sucesso produzindo e compondo músicas para artistas icônicos como Billy Paul, The O’Jays, Harold Melvin And The Blue Notes e tantos outros. Kenny Gamble e Leon Huff escalaram um elenco de craques para acompanhar o piano swingado de Laura, entre os quais destacam-se Jim Helmer (bateria), Norman Harris e Roland Chambers (guitarra) e Ronnie Baker (baixo), além dos arranjos de metais e cordas a cargo de Tom Bell, Lenny Pakula e Robert Martin.

A cereja do bolo ficou a cargo da participação do grupo feminino Labelle. Na ativa desde meados dos anos 1960, inicialmente como Patti LaBelle & The Blue Belles, o trio vocal incluía as cantora Patti LaBelle, Nona Hendryx e Sarah Dash. Excelentes cantoras, elas incorporavam de forma intensa o formato dos girl groups do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, e se encaixaram feito luva no projeto. Também com muita fome de bola, pois elas só estourariam em 1974 com o megahit Lady Marmalade. Aproveitaram e bem a vitrine.

Das 11 músicas, três vieram do repertório do efervescente grupo feminino da Motown Records Martha & The Vandellas. Sem desrespeitar as melodias originais, Laura, Labelle e os músicos souberam trazer aquelas canções maravilhosas para o contexto do álbum e dar a elas uma nova roupagem, uma nova assinatura, com direito a improvisos, aceleração dos ritmos em alguns momentos e muita alma nas interpretações. Laura Nyro sempre foi uma branca de alma negra, no melhor sentido que essa expressão possa ter.

Afinal de contas, o início da carreira daquela moça oriunda de Nova York foi precisamente cantando com grupos vocais, a capella (só vocais), nas esquinas daquela cidade, perto de estações de trem. Isso explica o porque a faixa que abre o álbum vai só no gogó até um minuto e pouco, uma bela reverência a essa época mágica. Mas vamos a uma análise faixa a faixa, com informações e tudo o mais.

I Met Him On a Sunday (S.Owens- D.Coley- A. Harris- B. Lee)- Gravada em 1958 pelas Shirelles.

O álbum tem início com uma faixa que vai até a metade a capella, e já entrega logo de cara o entrosamento entre Laura e as meninas do Labelle.

The Bells (I. Bristol- G. Gaye- M. Gaye- E. Stover)- Gravada em 1970 pelos The Originals.

Uma arrepiante balada gospel, faixa mais recente do repertório, mas com uma inspiração claramente extraída daquelas canções do final dos anos 1950.

Monkey Time (Curtis Mayfield)/ Dancing In The Street (W. Stevenson- M. Gaye- I. Hunter)- Gravadas respectivamente por Major Lance em 1963 e por Martha & The Vandellas em 1964.

No formato pot-pourry, foram unidas duas canções hiper pra cima. O resultado é de tirar o fôlego, especialmente em sua parte final, com Laura e suas meninas dialogando com muito swing.

Desiree (L. Cooper- C. Johnson)- Gravada por The Charts em 1957.

Uma balada delicada, na qual Laura esbanja sensibilidade e doçura.

You’ve Really Got a Hold On Me (W. Robinson)- Gravada por Smokey Robinson & The Miracles em 1962 e pelos Beatles em 1963.

Aqui, Laura Nyro, Labelle e os músicos fazem uma verdadeira façanha, que é fazer frente a duas gravações brilhantes feitas anteriormente. A performance do time todo, especialmente na parte final, em uma aceleração de ritmo e improvisação vocal empolgantes, é de aplaudir de pé.

Spanish Harlem (J. Leiber- P. Spector)- Gravada por Ben E. King em 1960.

Pausa para outro momento mais lento, mas com sensualidade latina que se encaixa feito luva na letra.

Jimmy Mack (B. Holland- L. Dozier- E. Holland)- Gravada por Martha & The Vandellas em 1967.

Releitura repleta de pura energia que não fica nada a dever à clássica versão original do grupo vocal liderado pela grande Martha Reeves, uma das grandes cantoras reveladas pela Motown Records.

The Wind (N. Strong- B. Edwards- W. Hunter- Q. Ewbanks- J. Gutierrez)- Gravada por Nolan Strong & The Diablos (1954).

Tem um clima etéreo, de sonho mesmo, é a mais antiga das canções escolhidas por Laura, e simplesmente encantadora.

Nowhere To Run (B. Holland- L. Dozier- E. Holland)- Gravada em 1965 por Martha & The Vandellas.

Mais um petardo do repertório de Marta & The Vandellas que Laura e sua turma da pesada releem com uma garra absurda. Difícil alguém ouvir essa gravação e não começar a dançar e a bater palmas para acompanhar. A performance dos músicos aqui também merece destaque, especialmente a do baixista Ronnie Baker.

It’s Gonna Take a Miracle (T. Randazzo- B.Weinstein- L. Stallman)- Gravada por The Royalettes em 1965 e Deniece Williams em 1976.

O álbum é encerrado por uma canção romântica daquelas de arrepiar, que deixa o ouvinte com aquele gostinho de quero mais ao concluir a audição desses pouco mais de 33 minutos de mero prazer auditivo.

Não muito tempo após o lançamento de Gonna Take a Miracle, que atingiu o nº 46 na parada pop americana, Laura se casou com o carpinteiro e veterano da Guerra do Vietnã David Bianchini. Só teríamos um novo álbum dela em 1976, quando seu casamento já havia se encerrado. Entre idas e vindas, ela se manteve na ativa até 1997, quando nos deixou precocemente, aos 49 anos, vítima de um câncer de ovário, lamentavelmente a mesma razão e a mesma idade em que sua mãe a deixou, nos anos 1970.

Ouça Gonna Take a Miracle- Laura Nyro And Labelle em streaming:

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