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Three For Love (1980), o álbum que consolidou o trio Shalamar

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Por Fabian Chacur

Tudo que começa mal, termina mal, afirma uma das inúmeras frases feitas pertencentes ao léxico popular. Nem sempre, no entanto. O exemplo do Shalamar serve como um belo exemplo. O grupo americano que, na verdade, começou como uma mera armação de estúdio destinada a faturar uns trocados, acabou se tornando uma das forças do r&b e da disco music em seus anos de ouro, entre 1977 e 1983. E o álbum que consolidou sua trajetória, Three For Love, completa 40 anos de seu lançamento pela Solar Records nos EUA neste 15 de fevereiro.

Antes de nos concentrarmos nesse icônico trabalho, vamos dar uma geral na trajetória do grupo. Tudo começou quando o produtor e promotor artístico Dick Griffey (1938-2010) resolveu criar, em parceria com o apresentador de TV e criador do seminal programa televisivo americano Soul Train, Don Cornelius (1936-2012), uma gravadora dedicada à música negra, a Soul Train Records. A ideia era apostar no r&b, mais especificamente naquele mais próximo da disco music, então o estilo musical mais efervescente em termos comerciais.

Em 1977, como forma de entrar com força nesse mercado e explorar um veio bem seguido naqueles anos, Griffey arregimentou cantores e músicos de estúdio e gravou um pot-pourry com trechos de vários hits da Motown Records (como Going To a Go-Go e I Can’t Help Myself) e intitulado Uptown Festival. O single, creditado ao Shalamar, atingiu o 25º posto na parada pop e o 10º na de r&b.

Ficou claro para Griffey que poderia ser interessante criar um grupo de verdade para não só divulgar aquele single em rádios e TVs como também fazer shows e gravar um álbum completo. Dos cantores que participaram de Uptown Festival, Gary Mumford foi considerado o mais adequado a entrar no projeto. Completaram o time dois dançarinos estilosos do cast do Soul Train.

Jody Watley, nascida em 30 de janeiro de 1959, subiu ao palco pela primeira vez na vida aos oito anos de idade, em um show de seu padrinho, ninguém menos do que o lendário soul man Jackie Wilson (1934-1984). Ao participar do Soul Train, logo se tornou um dos destaques do elenco de dançarinos, por dançar bem, ter um belíssimo visual e estilo próprio. De quebra, tinha um belo parceiro de dança.

Jeffrey Daniel, esse “parça”, nasceu em 24 de agosto de 1955, e era estilosíssimo, além de criativo. Reza a lenda que foi ele quem inventou os passos que, depois, se tornaram mundialmente conhecidos através de Michael Jackson, o célebre moonwalk. Quando surgiram as vagas para o Shalamar, e ao ficar claro que eles também cantavam, e bem, Dick Griffey os escalou para gravar o 1º LP.

Intitulado Uptown Festival, o LP saiu em 1977 e teve boa vendagem. Só que surgiu um problema pouco depois de seu lançamento: Don Cornelius quis encerrar as atividades da Soul Train Records, para se dedicar exclusivamente ao programa de TV. Inconformado, Dick Griffey comprou a parte do ex-sócio e mudou o nome da empresa, que passou a se chamar Solar (sigla criada a partir do nome Sound Of Los Angeles, sua solar cidade-sede).

A nova fase da gravadora estreou com o segundo álbum do Shalamar, Disco Gardens (1978), que trouxe o jovem veterano Gerald Brown na vaga de Gary Mumford. Este trabalho marcou o início da parceria do grupo com o produtor, baixista e compositor Leon Sylvers III, integrante do The Sylvers que naquele momento resolveu se concentrar na área da produção e sair daquela bem-sucedida banda de r&b pop.

A parceria rendeu um hit logo de cara, a deliciosa Take That To The Bank (Leon Sylvers III- Kevin Spencer), uma espécie de aperitivo do que viria a seguir. Pouco depois do lançamento do álbum, mais uma alteração no grupo: Gerald Brown saiu de forma intempestiva durante a turnê de divulgação do álbum. Para preencher a vaga, Watley e Daniel se lembraram de um cara talentoso que encontraram em um de seus shows, em Akron, Ohio.

A peça final no quebra-cabeças intitulado Shalamar atende pelo nome de Howard Hewett, nascido em 1º de setembro de 1955 e cujas marcas registradas eram o carisma, a ótima voz, a desenvoltura como dançarino e o mais do que instantâneo entrosamento com seus novos colegas de banda.

O “grupo-armação” ganha identidade própria

O terceiro álbum do trio, Big Fun (1979), trouxe, além da excelente estreia de Hewett no time, a adição de uma série de músicos arregimentados por Leon Sylvers III, que além de forte consistência e identidade sonora, trariam também ótimas composições. A primeira delas foi o primeiro grande hit do Shalamar, Second Time Around, assinada por Sylvers com um desses músicos.

Trata-se do tecladista William Shelby, irmão do cantor Thomas Shelby, do ótimo grupo de r&b Lakeside (conhecido pelo hit massivo na praia da black music Fantastic Voyage, de 1980). Ele, Kevin Spencer (teclados), Richard Randolph (guitarra) e Nidra Beard (cantora, compositora e mulher de Sylvers) também integravam outra banda da Solar Records produzida por Sylvers, a Dynasty.

Second Time Around atingiu o 8º posto na parada pop e o topo da parada de r&b americanas, além de ter integrado a trilha da novela global Duas Vidas em 1980. O álbum, nº 23 na parada pop e nº 4 na de r&b, trouxe outro hit bacana, I Owe You One (Joey Gallo- Leon Sylver III), e criava uma grande expectativa em torno do que viria a seguir. E isso se confirmou com o antológico Three For Love.

Leon Sylvers II pôe seus craques em campo

Para as gravações de Three For Love, Leon Sylvers III arregimentou um timaço. Além dele próprio e do irmão Foster no baixo, temos (entre outros) Kevin Spencer, William Shelby, Ricky Smith e Joey Gallo nos teclados, Wardell Potts Jr. na bateria, Ernest Pepper Reed, Richard Randolph, Stephen Shockley e Ricky Silver na guitarra, boa parte deles integrantes do projeto Dynasty.

Como vários desses músicos também eram parceiros nas composições das músicas, certamente deram aquele algo a mais para que as suas músicas ficassem com a melhor roupagem e pudessem lhes render um bom dinheiro. Inteligente, Leon soube explorar a versatilidade e o talento de cada um deles.

Ao contrário de outros grupos similares a este, o Shalamar tinha também a participação de seus integrantes como coautores de algumas músicas. Mais: eles também ajudavam nos arranjos vocais, em parceria com William Shelby e Sylvers. E os ótimos arranjos de cordas e metais ficaram a cargo de Gene Dozier, John Stevens e Ben Wright.

E já que falamos nos vocais, vale lembrar que aqui também temos muita qualidade e eficiência. Howard Hewett é o mais destacado no time, mas Jody Watley não ficava muito atrás, com os dois se alternando nos vocais principais e Jeffrey Daniel na maior parte do tempo participando das harmonizações vocais e bolando as coreografias.

Sucesso, mesmo em plena crise da disco music

Se em termos artísticos Three For Love tinha tudo para ser o discaço que acabou sendo, em termos comerciais sofreu um pouco com o contexto da época em que foi lançado. Mesmo tendo ultrapassado um milhão de cópias vendidas e valido ao grupo o seu primeiro disco de platina nos EUA, o álbum atingiu apenas a posição de nº 40 na parada pop, e a 8º na de r&b, com seus ótimos singles atingindo posições bem inferiores a Second Time Around.

E qual era o problema? Simples. No segundo semestre de 1979, teve início nos EUA um odioso movimento de cunho racista e homofóbico intitulado Disco Sucks (disco music “fede”, em tradução livre), liderado por verdadeiros fundamentalistas brancos que não admitiam que a disco tivesse tanta repercussão. Eles chegaram a fazer cerimônias públicas de destruição de LPs e singles de disco music. O horror, o horror!

Essa pressão gerou um clima de medo em importantes setores da mídia, e graças a isso, em 1980 artistas mais fortemente rotulados como de disco music, como Bee Gees, Chic, Village People e muitos outros, viram da noite para o dia seus trabalhos saírem das programações de rádios e TVs e terem muito menos divulgação do que antes.

Embora certamente tenha sido prejudicado por esse movimento, o Shalamar nunca deixou de lado suas raízes no r&b em seus trabalhos, e dessa forma mantinha um público fiel e grande nessa praia musical, o que lhes valeu naquele momento um resultado comercial muito melhor do que outros colegas.

Na época, a posição dos singles nos EUA era tirada a partir de uma média entre vendagens e execução em rádios. Como a disco music teve uma queda grande nas execuções em rádios mais populares, isso explica porque single matadores como Make That Move (nº 60 pop, nº6 no r&b), Full Of Fire (nº 55 pop, nº24 r&b) e This Is For The Lover In You (não entrou na parada pop, nº17 r&b) tiveram um desempenho tão fraco na parada pop.

Three For Love, faixa a faixa

FULL OF FIRE (Jody Watley-Joey Gallo- Richard Randolph)
O primeiro hit single do álbum traz como marcas uma guitarra bem roqueira, um arranjo vocal repleto de nuances, com Jody comandando as ações, um refrão impactante e uma mistura muito bem dosada de r&b e disco. Bela abertura de álbum, dando a medida do que viria a seguir, em termos de qualidade musical. A letra, escrita pela menina do trio, aposta ousadamente, mas de forma polida até, no lado sensual e sexual do amor.

ATTENTION TO MY BABY (William Shelby-Kevin Spencer-Wardelll Potts Jr.)
Mantendo o clima dançante, esta canção traz Hewett no vocal principal, dialogando bem com os backing vocals e as passagens de cordas.

SOMEWHERE THERE’S A LOVE (William Shelby-Ernest Pepper Reed-Otis Stokes)
Chegou a hora de uma slow jam, termo usado para definir canções lentas e sensuais no universo da black music. Aqui, Hewett e Jody se revezam no vocal principal, em uma balada doce, romântica até a medula, com letra idealista e esperançosa (“em algum lugar, existe um amor só pra mim). Fofa até a medula!

SOMETHINGS NEVER CHANGE (William Shelby- Dana Meyers)
O lado A do vinil se encerra com uma canção balançada, com belos riffs de sintetizador e um groove delicioso, com aquelas vocalizações cheias de sutilezas típicas do Shalamar.

MAKE THAT MOVE (Kevin Spencer- William Shelby- Ricky Smith)
Entre as oito faixas de Three For Love, é a mais escancaradamente disco, e provavelmente uma das melhores gravações do trio americano. Timbres instrumentais, variações vocais, elaboração melódica, arranjo de cordas, tudo esta perfeito por aqui, além de uma letra otimista, pra cima e contagiante. Clássico das pistas!

THIS IS FOR THE LOVER IN YOU (Howard Hewett- Dana Meyers)
Depois de um verdadeiro petardo dançante, temos aqui o momento mais soul music do álbum, uma balada arrebatadora na qual Howard Hewett dá um verdadeiro banho de interpretação, apoiado por vocalizações no mínimo arrepiantes. Certamente a melhor balada da carreira do grupo. Em 1996, o cantor, compositor, músico e produtor Babyface, que teve uma passagem pela Solar Records no início de sua premiada carreira, regravou esta belezura para seu álbum The Day, com participações especiais de LL Cool J e também de Jody, Hewett e Daniel, a primeira reunião da formação clássica do grupo desde 1993 e a única desde então. Essa releitura atingiu o nº 6 na parada pop e o nº 2 na de r&b.

WORK IT OUT (Jody Watley-Nidra Beard)
Esta parceria de Jody Watley com a cantora do grupo Dynasty tem semelhanças com o hit Second Time Around, embora sem ser uma cópia descarada. Leve, descontraída, serve como um bom veículo para a cantora, com uma letra otimista do tipo “nós vamos conseguir fazer isso dar certo”.

POP ALONG KID (Jeffrey Daniel-Howard Hewett-Nidra Beard)
O álbum se encerra com a canção de pegada mais eletrônica, com direito a um belo riff de sintetizador. Aqui, quem faz o vocal principal é Jeffrey Daniel, interpretando uma letra feita sob encomenda para ele, o “garoto pop” da banda por excelência. Pode não ser um cantor tão efetivo como seus então colegas de banda, mas consegue um bom desempenho e deixando os fãs com um sabor de quero mais nos ouvidos.

Three For Love ficou na posição de nº 43 no ranking The 80 Greatest Albums of 1980 da edição americana da revista Rolling Stone. O álbum saiu no Brasil no início de 1981 pela gravadora RCA, e nunca saiu por aqui no formato CD.

A formação clássica do Shalamar se manteria unida até 1983, quando, após o lançamento do álbum The Look, Jody e Daniel resolveram sair do grupo. Mas essa história a gente conta em outra ocasião.

Ouça Three For Love em streaming:

Sweet Sensation (1980), um clássico de Stephanie Mills

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Por Fabian Chacur

Em 1980, Stephanie Mills completou 23 anos de idade. Ainda nova, já podia ser considerada uma veterana no show business, com 14 anos de estrada no teatro e na música. Naquele ano, essa incrível cantora e atriz viveu um dos momentos mais importantes de sua trajetória com o lançamento do álbum Sweet Sensation (20th Century Fox, saiu no Brasil via RCA). Com este trabalho, ampliou seu alcance no público black e de quebra emplacou seu maior hit no cenário mainstream, a deliciosa canção Never Knew Love Like This Before.

Nascida em Bed-Stuy-Brooklin-Nova York em 22 de março de 1957, Stephanie Dorthea Mills teve sua iniciação musical semelhante à da maior parte das cantoras negras americanas, cantando em uma igreja ainda pequena. Aos 9 anos, estreou profissionalmente no musical Maggie Flynn. Aos 11, conseguiu vencer uma acirrada competição na Amateur Night no mitológico Apollo Theater, no Harlem, e foi convidada a abrir shows dos lendários Isley Brothers.

Ainda adolescente, lançou dois álbuns-solo, Movin’ In The Right Direction (1974) e For The First Time (1975). Este último, lançado pela gravadora Motown, contou com a produção e composições da dupla Burt Bacharach e Hal David, sendo 8 das 10 faixas inéditas. Infelizmente, ambos passaram batidos.

No teatro, o início do estrelato

No entanto, a carreira no teatro musical lhe proporcionou um primeiro grande momento. Ela foi convidada para viver Dorothy, um dos personagens principais de The Wiz, versão com artistas negros para o teatro do filme O Mágico de Oz.

Ficou em cartaz de 1975 e 1977 com muito sucesso na Broadway, mas sentiu-se frustrada ao não ser convidada para repetir o papel em uma nova versão cinematográfica da história lançada em 1978 e dirigida por Sidney Lummet. Ela perdeu a vaga para Diana Ross.

Sem baixar a cabeça, seguiu em frente, e em 1979 foi contratada pela gravadora 20th Century Fox para um novo álbum. O selo escolheu para produzi-la James Mtume e Reggie Lucas, uma dupla de jovens músicos que haviam tocado com Miles Davis e Roberta Flack, tendo composto para esta última os belíssimos hits The Closer I Get To You e Back Together Again.

A parceria não poderia ter dado mais certo, e já se mostrou certeira logo no primeiro álbum que os reuniu, Wat Cha Gonna Do With My Love (1979), que atingiu o 22º posto na parada pop e o 12º no chart de rhythm and blues (r&b).

A fórmula de mesclar canções disco do tipo uptempo, canções dançantes midtempo (batida intermediária entre as mais agitadas e as mais lentas) e baladas românticas se mostrou matadora, com direito a hits como a faixa-título, a empolgante Put Your Body In It e You And I.

Sucesso e a conquista do público mainstream

Obviamente incentivados pelo sucesso do disco anterior, Mtume e Lucas iniciaram os trabalhos que resultariam em Sweet Sensation com muita garra. De cara, selecionaram um time de músicos e vocalistas de apoio conciso e impecável, no qual se destacavam as cantoras Gwen Guthrie e Tawatha Agee, o tecladista Hubert Eaves III, o guitarrista Edward Moore e o baterista Howard King.

Com essa escalação, e mais os arranjos de cordas e metais a cargo de Wade Marcus, eles investiram nas oito faixas incluídas no disco, sendo cinco assinadas pela dupla de produtores e outras três compostas por integrantes da banda. Como quatro delas duram mais de cinco minutos, algo habitual em trabalhos de funk, r&b e disco music, não havia como ir além desse número, como forma de garantir a qualidade técnica do áudio do LP.

O resultado não poderia ser melhor. Trata-se de um trabalho diversificado, conciso e envolvente, no qual Stephanie teve a chance de exibir a qualidade de sua voz sensual e doce, capaz de encarar com categoria os três tipos básicos de canção incluídas aqui- funk-disco, r&b midtempo e baladas encantadoras.

As faixas que mais se destacaram foram a que deu título ao LP, que atingiu o nº 52 na parada pop e nº 12 na de r&b, e especialmente Never Knew Love Like This Before, que alcançou o 6º lugar na parada pop (única vez que ela conquistou tal feito) e 12º no chart r&b. A música, no Brasil, foi incluída na trilha sonora da novela global Plumas e Paetês, que foi exibida entre 1980 e 1981.

Uma parceria marcante

Sweet Sensation foi o mais bem-sucedido dos quatro álbuns que Mtume e Lucas produziram para Stephanie Mills entre 1979 e 1982, e marcou a carreira de todos os envolvidos. Depois, ela trabalharia com outros grandes produtores e com muito sucesso, como a dupla Ashford & Simpson e Angela Winbush, mas essa parceria ficou como um dos grandes destaques do currículo deles.

Se não conseguiu nada tão expressivo na parada pop após Sweet Sensation, Stephanie Mills se manteve muito bem na cena r&b durante toda a década de 1980, emplacando cinco canções e um álbum no topo da parada de r&b americana entre 1986 e 1989. A partir dos anos 1990, infelizmente gravou quatro discos sem grande repercussão, mas continua fazendo bons shows.

Para os “fofoqueiros” de plantão, vale lembrar que ela teve um rápido namoro com Michael Jackson, e foi casada entre 1980 e 1983 com outro astro do r&b, o cantor Jeffrey Daniels, do grupo Shalamar.

As faixas de Sweet Sensation:

Sweet Sensation (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
O álbum abre com uma faixa-título envolvente, em ritmo midtempo, no qual uma das marcas deste trabalho já se apresenta logo de cara: os diálogos musicais entre Stephanie e as vocalistas de apoio, além da coesão entre os instrumentos de sopros, cordas e teclas. Um clássico do r&b.

Try My Love (Tawatha Agee-Hubert Eanes III)- Ouça aqui.
O pique dançante prossegue com uma faixa irresistível na mesma levada da anterior, mas com mais espaços para a voz de Stephanie mergulhar fundo, gerando uma interação com suas vocalistas que é de arrepiar. E que refrão! E que arranjo de metais! A audição dessas duas músicas já valeria a sua aquisição. Mas vem mais coisa boa por aí!

I Just Wanna Say (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Temos aqui a primeira canção lenta do disco, com destaque para os teclados e no melhor estilo slow jam, ou seja, aquelas faixas românticas sensuais com duração mais longa típicas da black music dos anos 1970-80.

Wish That You Were Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Um momento mais disco music para fechar o lado A do vinil com alto astral total, com direito a uma guitarra-rítmica irresistível e um apelo pop certeiro.

D-A-N-C-I-N’ (Edward Moore-Howard King)- Ouça aqui .
O lado B do vinil abre com força total, nesta canção midtempo com refrão forte que aparece logo de cara chamando as pessoas para a pista de dança, com Stephanie endiabrada e soltando a voz. Para bater palmas junto! Outro show das vocalistas de apoio no refrão e nos diálogos com a sua “chefe”. E que groove!

Still Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Aqui, o momento de uma balada soul romântica por excelência, aquela lentinha que levava os casais para a pista de dança durante os bailinhos dos anos 1970-início dos 1980. A performance de Stephanie é espetacular.

Never Knew Love Like This Before (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Não é difícil entender o porque esta é a canção que mais se destacou na parada mainstream, ou seja, a “dos brancos”. Embora sem perder a alma, é o momento mais pop do disco, no qual Stephanie canta com tanta doçura e ingenuidade sincera a celebração da descoberta do “amor da sua vida” descrito na letra que pode arrancar lágrimas de alguém mais emotivo, alguém tipo eu, por exemplo… Esta música rendeu o Grammy de melhor performance de r&b para Stephanie, e de melhor canção de r&b para Mtume e Lucas.

Mixture Of Love (Joe Mills-John Simmons)- Ouça aqui.
Uma assumida fã de canções românticas, Stephanie nos mostra aqui, mais uma vez, como usar uma voz potente, doce e versátil de forma absolutamente sensual e impecável em termos técnicos. E os diálogos com o coral de apoio mais uma vez são encantadores. Final feliz para um disco maravilhoso!

Saiba mais sobre o time que gravou Sweet Sensation

James Mtume– Este produtor, percussionista, tecladista e compositor tocou com Miles Davis entre 1971 e 1975, e logo a seguir, na banda de Roberta Flack. Paralelamente, ele tinha a sua própria banda, a Mtume, com Tawatha Agee nos vocais, e com ela emplacou pelo menos um clássico perene dos anos 1980, Juicy Fruit (ouça aqui), que chegou ao topo da parada de r&b. Ele teve músicas gravadas por Stephanie, Roberta Flack e também por Donny Hathaway, Phyllis Hyman, Mary J. Blige, Teddy Pendergrass, Inner City e R. Kelly.

Reggie Lucas-Guitarrista e compositor, tocou junto com Mtume nas bandas de Miles Davis e Roberta Flack. Além do trabalho ao lado do parceiro, ele tem um belo item solo em seu currículo: produziu seis das oito faixas do autointitulado álbum de estreia de Madonna em 1983, e é o autor de duas dessas músicas, os hits Borderline e Physical Attraction. Ele também foi guitarrista da banda de Billy Paul antes de conhecer Mtume.

Gwen Guthrie (1950-1999)- A saudosa cantora e compositora é a coautora de hits deliciosos de r&b como This Time I’ll Be Sweeter (sucesso no Brasil na versão de Linda Lewis), Supernatural Thing (hit com Ben E. King) e Love Don’t You Go Through No Changes On Me (hit com o grupo Sister Sledge). Além de participar de discos de inúmeros outros artistas (entre os quais Madonna, Aretha Franklin, Billy Joel, Stevie Wonder e Peter Tosh) também gravou seis álbuns solo entre 1982 e 1990, com direito a ao menos um grande hit na cena black americana, a irresistível Ain’t Nothing Goin’ On But The Rent (ouça aqui), que atingiu o topo da parada de r&b americana em 1986.

Tawatha Agee– Além de coautora de canções como o hit Two Hearts, que estourou em 1981 em marcante dueto de Stephanie Mills com o seminal Teddy Pendergrass, ela também foi a vocalista principal do grupo Mtume, aquela voz deliciosa que conduz o hit Juicy Fruit.

Hubert Eaves III– O tecladista que assinou Try My Love ao lado de Tawatha Agee também se destacou como integrantes das banda Mtume e D Train, esta última na verdade um duo integrado por ele e o cantor e compositor D-Train Willians e conhecido pelo hit Something’s On Your Mind (regravada depois por Miles Davis em seu álbum You’re Under Arrest, de 1985).

Howard King– Foi baterista da banda Mtume.

Veja Stephanie Mills ao vivo em 1998:

Rosa Marya Colin hipnotiza o ouvinte em CD com dois álbuns

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Por Fabian Chacur

Rosa Marya Colin parece ter sido a cantora que inspirou aquela célebre frase “capaz de extrair emoção até de um catálogo telefônico”, coisa que não existe há muito, vale dizer. Mas se existisse, não tenham dúvidas, você se emocionaria ao ouvi-la interpretando suas linhas burocráticas. Gravou muito pouco, mas sempre bem. E agora nos oferece Rosa (Gravadora Eldorado-Nova Estação), um trabalho à altura de seu imenso talento, e que merece ser apreciado e divulgado com a mesma intensidade e profissionalismo que ela teve ao conceber este belíssimo CD.

Nessas mais de duas décadas que ficou longe da gravação de discos, Rosa se manteve atuando como atriz em novelas e séries globais como Deus Salve o Rei (2018) e Fina Estampa (2011). Mas essas “férias” musicais felizmente acabaram.

Coproduzido por ela em parceria com o talentoso LC Varella e produção executiva a cargo de Thiago Marques Luiz (sempre ele!), Rosa equivale a um banho de vitalidade, maturidade e sensibilidade dessa cantora mineira radicada no Rio de Janeiro que completará 73 anos no próximo dia 27 de fevereiro.

Com dez faixas, o novo trabalho de Rosa Marya Colin traz o blues e o jazz no seu DNA, em algumas de forma direta, como Um Blues Para Rosa (Lula Barbosa-Celso Prudente), Depois das Seis (Sylvia Patricia), Man (Alzira Espindola-Itamar Assumpção) e Eu Canto Esse Blues (Arlindo Cruz-Rogê Cury-Gabriel Moura), em outras no tempero, como em Giz (Renato Russo-Marcelo Bonfá-Dado Villa-Lobos), Mas Até Lá (Roney Giah) e É Por Você Que Vivo (Rosa Maria e Tim Maia).

General da Banda (José Alcides-Satiro de Melo-Tancredo Silva), maior sucesso do grande e saudoso Blecaute, é relido com grande impacto. Tema de Eva (Taiguaira) prima pela delicadeza. E o final fica com Alma Cigana (Edu Rocha e Orlando) na qual a intérprete, a capella, se incumbe de todas as vozes de forma magistral.

Os arranjos são precisos, sem excessos ou ausências sonoras, no ponto certo. E Rosa demonstra um domínio pleno de sua potência vocal, sem arroubos exagerados ou contenção excessiva, dando a cada nota e a cada palavra o que elas pedem. Ela mostra que conhece todos os atalhos, proporcionando ao ouvinte maciças doses de prazer auditivo. Blues, jazz, folk, rock, MPB, tudo aqui soa às mil maravilhas, vindos de uma profissional que respeita cada canção que escolhe com muito bom gosto para seu repertório.

Em uma boa sacada que acaba valorizando a versão física do álbum, Rosa traz como bônus nada menos do que a íntegra de outro álbum da intérprete, Vagando, lançado pela Gravadora Eldorado em 1980 e há algum tempo fora de catálogo. Trata-se de um disco mais próximo da estética da MPB, no qual a intérprete encanta com Dancing Cassino (Fátima Guedes), Vagando (Paulinho Pedra Azul), Coração de Strass (Paulinho Nogueira e Zezinha Nogueira), Romeiros (Djavan) e Espírito do Som (Chico Evangelista e Pericles Cavalcante). Discaço!

É um exercício de apreciação bem interessante ouvir as 10 faixas de Rosa e logo a seguir as 10 de Vagando, comparando as nuances da intérprete aos 34 anos de idade e em sua fase atual. Mas posso adiantar que ambas as versões são maravilhosas. Essa cantora encantadora, cujo maior hit foi a releitura de California Dreamin’ (dos The Mamas And The Papas) em 1988, merece a sua atenção. Aliás, na verdade, você merece, mesmo, é ser encantado, hipnotizado e cativado por essa voz maravilhosa. Um bálsamo para tempos difíceis!

Ouça Rosa e Vagando em streaming:

Gracias Por La Musica (Abba) é relançado em edição de luxo

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Por Fabian Chacur

Como forma de ampliar seu público fora de seus países de origem, diversos grupos e artistas solo gravaram trabalhos em outros idiomas. O Abba também se valeu dessa fórmula, e registrou várias de seus hits em castelhano. Seu álbum nessa língua, Gracias Por La Musica, acaba de ser relançado em belíssima Deluxe Edition, com direito a faixas-bônus, DVD e livreto.

O livreto de 20 páginas que acompanha o álbum reúne fotos da época, reproduções de capas de LPs e compactos simples, além de belíssimo texto (disponível em castelhano e inglês) que conta a história da incursão do grupo sueco no universo do castelhano. Tudo começou em 1979, quando ficou claro que a banda não tinha muito sucesso na América Latina e Espanha.

Como forma de tentar superar essa aparente rejeição ao trabalho do Abba, o diretor de marketing da gravadora que os representava na época na América Latina, Buddy McCluskey, sugeriu que eles regravassem em castelhano alguma música deles que tivesse algum apelo para o público latina. E essa canção acabou sendo Chiquitita.

Gravada de forma fonética pelas cantoras Frida e Agnetha em janeiro de 1979, a canção foi lançada em compacto simples nos mercados latinos, e estourou na Argentina, Espanha e México. I Have a Dream (Estoi Soñando) se seguiu em agosto daquele mesmo ano, e semanas depois o sucesso se repetiu. Aí, ficou claro que um álbum seria bastante viável.

Em janeiro de 1980, Agnetha e Frida voltaram aos estúdios, gravando em cima dos playbacks dos registros originais das canções uma mistura de sucessos com influência latina, tipo Fernando, Mamma Mia, Hasta Mañana e Thanks For The Music (Gracias Por La Musica) com hits como Dancing Queen (Reina Danzante) e Knowing Me Knowing You (Conociéndome, Conociéndote).

Com 10 faixas em sua versão original, Gracias Por La Musica tornou-se um grande sucesso de vendas em toda a América Latina (Brasil incluso), Espanha e até mesmo Japão. Lógico que as versões em inglês são muito melhores, mas Agnetha e Frida até que não se saíram mal na língua de Julio Iglesias, e isso explica um pouco o êxito do álbum.

A reedição traz a versão remasterizada do LP original mais cinco faixas adicionais. Quatro delas foram acrescidas na época nas versões para os países latinos dos álbuns Super Trouper (1980) e The Visitors (1981),duas em cada. A quinta é uma versão em castelhano de Ring Ring, gravada e 1973 e lançada apenas em 1994 em uma coletânea.

O DVD que acompanha o pacote (em bela versão digipack com capa quádrupla) tem 43 minutos de duração, e inclui participações do grupo em dois programas de TV espanhóis, 300 Millones e Aplauso. Este segundo foi alvo de um especial, com entrevistas com os integrantes na qual apenas Bjorn Ulvaeus fala em castelhano, de forma desenvolta, por sinal. Os outros se viram em inglês, mesmo, com direito a tradução.

As performances em músicas como Chiquitita (duas vezes), Estoy Soñando e No Hay a Quien Culpar são simples e divertidas, com direito aos integrantes do grupo cantando Dame! Dame! Dame! (Gimme! Gimme! Gimme! A Man After Midnight) lendo as letras escritas a mão em papéis almaço ou coisa do gênero. Algumas são videoclipes. Pode ser uma espécie de souvenir mais indicado para fãs mais fiéis, mas pode ser interessante para qualquer simpatizante, pelo teor histórico.

Gracias por La Musica- Abba- álbum original em streaming:

Gracias Por la Musica– Abba- faixa remasterizada:

Saiba mais sobre as trilhas de Água Viva

Por Fabian Chacur

O canal a cabo Viva está reprisando Água Viva, de Gilberto Braga, uma das melhores novelas globais de todos os tempos. Nesta segunda-feira (13) às 22h45, a emissora exibirá um especial tendo como tema sua trilha sonora nacional, com direito a entrevistas com Baby Consuelo, Angela Ro Ro e Guto Graça Mello, entre outros (saiba mais aqui).

As duas trilhas da atração global exibida em 1980 e estrelada por Betty Faria, Reginaldo Faria e um elenco recheado de grandes nomes da teledramaturgia brasileira são muito boas. Ao contrário do que acontecia no início das novelas por aqui, quando gente como Roberto Carlos, Toquinho & Vinícius e Antônio Carlos & Jocafi eram convidados a escrever as canções especialmente para as atrações, aqui os temas já eram selecionados a partir de discos já lançados ou em via de.

O repertório de Água Viva Nacional reúne alguns integrantes da nata da MPB interpretando sucessos marcantes, como Maria Bethânia (Grito de Alerta, de Gonzaguinha), Simone (Desesperar Jamais, de Ivan Lins e Vitor Martins), Gilberto Gil (Realce) e João Gilberto (Wave, de Tom Jobim). Elis Regina comparece com uma belíssima (embora não tão conhecida) canção, Altos e Baixos, enquanto a Divina Elizeth Cardoso solta a voz na nostálgica No Tempo dos Quintais, parceria de Sivuca com Paulinho Tapajós.

Em plena ascensão profissional e também atuando como ator na trama global, Fábio Jr. aparece na trilha com um de seus maiores sucessos, 20 e Poucos Anos (cuja letra é muito afinada com seu personagem na trama), enquanto a então ainda desconhecida Angela Ro Ro mergulhou rumo ao estrelato com a maravilhosa balada blues Amor Meu Grande Amor. Gal Costa relê com muita categoria o clássico do chorinho Noites Cariocas, de Jacob do Bandolim.

O momento curioso fica por conta da participação da então mais conhecida voz de sua família Araújo, Lucinha Araújo, que interpreta com sobriedade e sensibilidade a maravilhosa Peito Vazio, de Cartola e Elton Medeiros. Poucos anos depois, no entanto, Lucinha perderia o cetro para o filho, um certo Cazuza, que não por coincidência sempre se confessou grande fã de Cartola, tendo gravado O Mundo é um Moinho com propriedade. Mamãe certamente amou.

A trilha internacional de Água Viva se dividiu entre baladas de várias vertentes e momentos mais dançantes, vários oriundos da disco music, então ainda na crista da onda. É dessa praia que vieram as sacudidas Mandolay (do grupo americano La Flavour), D.I.S.C.O. (do duo Ottawan) e The Second Time Around (do ótimo trio vocal americano Shalamar).

Perseguida por um movimento preconceituoso intitulado Disco Sucks e também prejudicada por uma superexposição na mídia, a disco music vivia então seus últimos momentos de glória, e alguns de seus expoentes tentavam buscar novas sonoridades. O grupo europeu Voyage, por exemplo, aparece na trilha de Água Viva com o rock dançante I Don’t Want To Fall In Love Again, faixa de seu terceiro álbum, uma fuga do formato disco que lhe rendeu hits como From East To West e Scotch Machine, entre outros.

No setor baladas, temos como destaque supremo a soul ballad Cruisin’, escrita e interpretada pelo genial Smokey Robinson, um dos criadores da Motown Records e dono de um dos falsetes mais envolventes da história da música pop, como bem exemplificam hits de seu repertório como The Track Of My Tears, Quiet Storm, You Really Got a Hold On Me e dezenas de outros.

Barry Manylow, o rei das power ballads, relê com categoria Ships, de Ian Hunter, mais conhecido como cantor e líder da banda britânica Mott The Hoople (apadrinhada por David Bowie e famosa pelo hit All The Young Dudes, do Camaleão do Rock). Os lábios envolventes da cantora americana Carly Simon deram vida à suave e deliciosa Just Like You Do, um dos maiores hits da ex-mulher de James Taylor.

A doce Lead Me On, na voz de Maxime Nightingale, abre o álbum, e fez tanto sucesso como a balada rock Babe, que tornou o grupo americano de rock progressivo Styx e seu então vocalista Dennis DeYoung conhecidos mundialmente. Memories, instrumental interpretada por Bianchi, e Never (Gonna Let You Go), com Charme, são os piores momentos do álbum.

A balada de letra muito triste e sentimental Just When I Needed You Most aparece no álbum na versão de Tony Wilson. Outra gravação, na voz de Randy VanWarmer (coautor da música com Wilson) foi lançada na mesma época e teve sucesso equivalente nas rádios e paradas de sucesso. Os arranjos e as interpretações são bem semelhantes.

Não é o caso de Do That To Me One More Time. Por alguma razão, entrou no LP de Água Viva a apenas correta regravação creditada a Susan Case & Sound Around. Mas a versão original desse hit é muito melhor, gravada pela dupla e casal Captain (Darryl Dragon, ex-integrante dos Beach Boys e renomado músico de estúdio) & Tenille (Tony Tenille, cantora de voz doce e cativante e com vários hits no repertório ao lado do marido, como Love Will Keep Us Together e Muskrat Love).

Vale lembrar que a música teve destaque em dois momentos importantes da novela assinada por Gilberto Braga (o mesmo autor de Dancin’ Days). Uma é um show de Maria Bethânia, após o qual os personagens de Betty Faria e Reginaldo Faria acabaram se conhecendo, e outro é a participação especial de ninguém menos do que o reggae man Peter Tosh, tocando violão e cantando em uma festa na qual o pau acabou comendo entre os personagens de Fabio Jr e Kadu Moliterno, para horror do astro jamaicano.

Tosh estava no Brasil participando de um festival de jazz, e aceitou o convite para cantar em um capítulo da atração, como se fosse amigo do personagem da eterna diva Tônia Carreiro. O curioso é que ele não está na trilha, e sim seu conterrâneo Jimmy Cliff, cuja sacudida e percussiva Love I Need ilustrou algumas cenas bacanas em uma espécie de latin reggae (essa música também foi tema de um comercial de cigarros no Brasil).

A trilha nacional de Água Viva foi relançada no formato CD em 2001, com uma faixa a menos do que em LP: Cais, de Milton Nascimento, ficou de fora por alguma razão. Já Água Viva Internacional nunca chegou ao formato CD. A gravadora Som Livre alega que não conseguiu autorização para que essas e outras trilhas dos anos 70 e 80 saíssem em CD. Uma pena!

Ouça Cruisin’, com Smokey Robinson:

Ouça Amor, Meu Grande Amor, com Angela Ro Ro:

CD bônus salva reedição de McCartney II

Por Fabian Chacur

Se há um forte candidato a pior álbum lançado por Paul McCartney em toda a sua carreira, ele atende pelo título McCartney II.

Lançado em 1980, o trabalho tinha como objetivo reeditar o espírito de McCartney (1970), primeiro disco solo do ex-beatle, no qual ele tocava todos os instrumentos.

Se a primeira tentativa gerou um álbum irregular, porém bastante agradável, a segunda deu ao mundo um troço equivalente ao comprovante de que, sim, o autor de Yesterday também é um ser humano passível de erros.

Experiências com teclados e efeitos eletrônicos dão a base à sonoridade do disco, que a rigor só traz duas músicas dignas de nota. Uma é a excepcional Coming Up, com batida irresistível e refrão matador, e a outra, a melancólica e emocionante balada Waterfalls.

De resto, as outras nove faixas são uma bola fora atrás da outra. Temporary Secretary é candidata forte a pior música da carreira do Macca, e merecia uma versão em português interpretada por Serginho Mallandro. Fica a (péssima) ideia.

On The Way é daqueles blues que qualquer um compõe em cinco minutos, de tão sem alma, enquanto Nobody Knows é aquele tipo de rock sem-vergonha que dá até dó.

One Of These Days nem chega a ser tão ruim, mas é uma balada folk que parece ter sido gravada em um freezer, de tão fria que ficou a versão registrada neste álbum.

Quanto às bem eletrônicas Front Parlour, Summer’s Day Song, Frozen Jap, Dark Room e a assustadoramente ruim Bogey Music, é melhor nem falar nada.

Pois McCartney II acaba de ser relançado no Brasil pela Universal Music em luxuosa edição dupla, com direito a encarte com letras e fotos (algumas inéditas) e dois CDs, um com versão remasterizada do álbum original e outro com raridades e faixas inéditas.

Já vejo você perguntando a si próprio: “se o álbum original é tão ruim, deve dar medo ouvir músicas que acabaram sendo rejeitadas e não entraram no mesmo”. Pois é aí que surge a surpresa.

Esse álbum bônus é muito melhor do que o original. Lógico que não se compara aos maiores clássicos de Paul, mas traz momentos muito mais instigantes do que o McCartney II.

Blue Sway, por exemplo, com batida hipnótica e belíssimo arranjo de cordas assinado por Richard Niles, foi gravada em 1979 e abandonada, sabe-se Deus porque. Essa mesma música aparece (em outra versão) em pot-pourry com All You Horse Riders.

Coming Up (Live At Glasgow) saiu em single junto com a versão de estúdio da mesma canção, mas atingiu o primeiro lugar nessa leitura live na parada americana.

Check My Machine foi lado B do single de Waterfalls, e acabou virando um grande hit nos bailes black brasileiros nos anos 80, fato que o astro britânico nem sonharia que poderia ocorrer.

Secret Friend, outra que só saiu em single, é uma instrumental eletrônica de batida simplesmente irresistível, e merecia ser descoberta por algum rapper ou astro dance por aí.

No geral, as oito faixas (algunas com mais de 10 minutos de duração) dão um panorama muito mais ousado e instigante dessa experiência eletrônica. Bastaria somar a elas Coming Up e Waterfalls e pronto, teríamos um McCartney II muito melhor.

Como queixa, só senti a falta de outra usada como lado B de Coming Up, a excelente instrumental Lunch Box/Odd Sox. E para os mais riquinhos, existe uma edição ainda mais luxuosa desse McCartney II, disponível nas importadoras a preço de ouro.

Veja o recém-lançado clipe de Blue Sway:

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